segunda-feira, 29 de maio de 2017

O que é que queres ser quando fores grande?


"Em 25 anos como futebolista, levei estas cores o mais alto que pude. Espero que vos tenha feito sentir orgulhosos. Este clube e esta cidade foram a minha vida." 
Francesco Totti

Há um ano estava a jantar em Trastevere. Enleados naquela delícia de ruelas e pracetas, seguimos o plano e acabámos por ir tocar à pizzaria do Ivo, porventura a mais estimada de todo o bairro. Como em qualquer boa casa romana, estavam cheios, mas como em qualquer boa casa romana, havia lugar para nós. Lembro-me de ter entrado na sala e de ter instantaneamente rasgado um sorriso, ainda muito antes de ter à frente a minha fina massa de finíssimo recorte: ali estava ele, emoldurado no meio da sala, com honras de Chefe de Estado ou de Imperador. Sem qualquer outra personalidade por perto, sem nenhum Papa, nenhum Presidente, nenhum actor famoso, nem nenhuma estrela de rock. Apenas ele, sem nenhuma outra sombra, como quase sempre, mesmo que porventura tivesse um pouco de todos eles. Só publiquei quatro ou cinco fotografias da viagem enquanto lá estive, mas essa foi uma delas. Uma fotografia da parede de um restaurante, numa das cidades-Mãe de toda a Cultura Ocidental. Lembro-me da Catarina me perguntar porquê aquela, mas lembro-me ainda melhor da cara do nosso adorável anfitrião quando lhe apontei o quadro antes de pedir o jantar. Haveria quem desse tudo o que tem na vida para instigar aquela gratidão e aquele orgulho. "Il nostro Franscesco, Re di Roma."

Haverá futebolistas maiores do que um país, mas Totti fez ainda mais difícil: foi do tamanho que a cidade onde nasceu precisou que ele fosse. E isso bastou-lhe sempre. Para ele, o Olímpico foi o maior estádio do mundo, porque foi o único onde ele quis jogar. Totti viveu no tempo em que era impossível fazer tudo o que ele fez. No eurofutebol das fronteiras escancaradas pela Lei Bosman, dos negócios hiperbólicos, das estatísticas estratosféricas, do melhor campeonato do Mundo em Inglaterra, dos maiores gigantes do mundo em Espanha, das Bolas de Ouro e da Liga dos Campeões. No tempo que não espera por ninguém, da lealdade condescendente de quem beija o escudo, mas tem de seguir a sua vida, ele desafiou-nos a todos. Sacrificou tudo, mas não foi a lugar nenhum. Ele, o enorme Francesco Totti, a maior estrela do Calcio, um galã de cinema, o homem que todos queriam ser, nunca jogou uma final da Champions. Foi campeão uma vez em 25 anos de carreira. Como os maiores de todos, foi o campeão que escolheu ser. No Verão de 2004, confessou uma vez ter pensado mesmo em seguir para Madrid. O assédio estava montado, o contrato estava em branco em cima da mesa e ele era a única coisa que sobrava entre si próprio e o maior clube do mundo. "No fim, a conversa que tive com a minha família lembrou-me de que é que a vida é feita. A tua casa é tudo o que tens." Haveria milhares de maneiras da sua gente despedir-se dele hoje. Lembraram-no de tudo o que ele ganhou. "25 anos com essa camisola. Ganhaste a maior batalha de todas. Ganhaste ao Futebol Moderno."

É impossível escrever o que é que Totti representa para Roma. É impossível não querer ter estado lá hoje. Imagino o silêncio tumular nas ruas, qual cidade abandonada, unificada em vigília, não enquanto sede da Cristandade, mas de algo tão pessoal e intransmissível como a sua própria identidade. Nunca se sabe bem o que é o espelho da alma. Pois em Roma, a alma tinha nome próprio. "As pessoas perguntam-me, porquê passares toda a vida em Roma? Roma é a minha família, os meus amigos, todas as pessoas que amo. Roma é o mar, as montanhas, os monumentos. Roma são os romanos, como nós. Roma é o amarelo e o vermelho. Roma, para mim, é o mundo. Este clube e esta cidade foram a minha vida." Gostava de lá ter estado hoje, a ver os autocarros mudarem os destinos para "Grazie Capitano", nem que fosse a ouvir o rumor do lado de fora do Olímpico, ou os velhinhos na rádio, ou os miúdos e os pais que não conseguiram entrar, mas que querem ser como ele, a ver nos cafés a última vez em campo do seu filho mais querido, na despedida mais antecipada e mais dura que ninguém nunca estaria preparado para fazer. Com os ultras da Lazio a dedicarem-lhe uma última tarja para dizer que "Os inimigos de uma vida saúdam-te, Francesco Totti." E a chorarmos como homens por sabermos que nunca o tornaremos a ver.

"Quando tinha 13 anos, bateram à porta do nosso apartamento em San Giovanni. A minha mãe, Fiorella, foi abrir e um grupo de homens apresentou-se então como directores desportivos. Mas não eram da Roma. Vestiam de vermelho e negro. Eram do Milan e queriam levar-me com eles. A qualquer preço. Teria sido muito dinheiro para a nossa família. A minha mãe recusou. Sabem o que é que lhes disse? Que quando és um miúdo em Roma, só tens duas opções. Ou és vermelho ou és azul. Roma ou Lazio. Mas que na nossa família não tinhas realmente duas opções. Nesse dia, ela ensinou-me a minha maior lição: que a tua casa é o mais importante na vida." No futebol globalizado, é difícil seres fiel àquilo em que acreditas. No futebol local, é ainda mais difícil estares à altura do clube da tua terra. Totti foi o melhor futebolista de um dos países mais importantes do mundo, sem nunca ter jogado nos seus maiores clubes. Por causa dessa escolha, perdeu a vida quase toda. Por causa dessa escolha, ganhámos nós. Ganharam todos aqueles que acreditam que não há futebol sem auto-estima regional, sem brio pelo clube dos nossos pais, com o qual crescemos à porta de casa, sem encarnação, proximidade e militância. "A Roma sempre foi mais do que um clube. A Roma era parte da nossa família, do nosso sangue, da nossa alma." 

Por causa dele, ganharam todos aqueles que acreditam que o futebol é pessoal, tem de ser. Que o futebol não se vê, nem se ouve falar; o futebol é para viver olhos nos olhos e para vestir a camisola, que o futebol só é futebol se pertencermos a alguma coisa. E que, por isso, nunca devemos ter vergonha do nosso lugar, nem da nossa gente, que nunca devemos ter vergonha da nossa luta, por maior que ela seja, que nunca devemos ter vergonha de acreditar. Durante 25 anos, todos queriam ter o Totti, todos queriam ser o Totti. Ele podia ter sido tudo o que quisesse, mas só quis ficar. E toda a gente ficou maior por causa dele. Essa coragem, a grandeza e a altivez foram o princípio e o fim e tornaram-se no ADN do clube e da cidade. A crença inabalável no mérito daquele escudo passou a ser, em si própria, a razão porque valia a pena ir até ao fim. Se o Totti fica, se o Totti acredita, quem somos nós para duvidar? Com ele, perderemos até ao fim e seremos maiores por causa disso. Porque há coisas muito maiores do que ganhar ou perder. O legado que ele deixa ao Futebol, nem o Futebol lhe poderá pagar. Sou da Roma desde o dia em que entrei com o meu pai nos Barreiros pela primeira vez.

Obrigado por teres acreditado como nós, Francesco.

Querermos ser como tu, todos os dias, é como a Roma ter ganho um scudetto. Todos os dias.

domingo, 10 de julho de 2016

Os sem-vergonha


“Não somos favoritos. Mas vamos ganhar.”
Fernando Santos

Para quem não ganhou nada na vida, estar quase a ganhar pode ser cruel.

Não é a nossa pele. É demasiado justo, demasiado apertado, demasiado desconfortável, como um fato que não queremos vestir. Como o exagero de responsabilidade que não queremos assumir. Não era suposto, não nos era pedido e é ingrato termos agora de dever alguma coisa. Perder era muito mais fácil. Porque é mais leve jogar sem esperarem nada de nós. É mais leve viver sem esperarem nada de nós. Temos o talento, o coração, e temos uma capacidade de sacrifício absolutamente inqualificável. Só não queremos ter de ganhar. Esse é, possivelmente, o único sacrifício que nunca aprendemos a fazer. Entramos e saímos sempre com as nossas ideias. E há uma grande dignidade nisso. Em não ter vergonha de nunca ter ganho nada, em ter brio de segurar o nosso lugar. Há também medo que lhe baste. Nunca ganhámos, não porque era impossível; nunca ganhámos, porque também era assustador.


Para a França, por exemplo, perdemos a vida toda. Uma das primeiras cassetes de futebol que vi chamava-se “Os Patrícios no Europeu de 84”, cortesia d’A BOLA, o jornal que foi, singularmente, enquanto lhe lia as caixinhas todas fascinado ao sábado ou ao domingo de manhã, a razão pela qual quis ser jornalista. O Euro 84, também jogado em França, foi a nossa primeira participação internacional em quase 20 anos, depois do que Eusébio fizera em Inglaterra. Ir àquelas coisas era uma improbabilidade tão grande, um passo tão ilógico sobre o abismo, que os portugueses desse tempo lhe davam nome. Os “Magriços” no Mundial de 66, os “Patrícios” no Europeu de 84. Os novos descobridores, os novos missionários, os embaixadores na vanguarda de um mundo desconhecido do que poderia vir um dia a ser o futebol português.

Já vi aquele França 3, Portugal 2, muitas, muitas vezes. O talento ridiculamente singular do Chalana, o gigante mais esquecido dos gigantes do futebol português, um Astérix mas contra franceses, a vir da esquerda para dentro num ziguezague primordial, que gravou na relva o ADN do extremo português, para todos os que vieram depois dele. O tamanho do Bento na baliza, toda aquela tropa de choque na defesa e no meio-campo, de portugueses vintage que pareciam ter 30 anos de carreira ou mais, como o João Pinto, o Álvaro Magalhães, o Frasco, o Sousa ou o Pacheco. A classe do Nené e a força do Gomes e do Diamantino, num ataque que podia ter sido quase tudo. E claro, a graciosidade do Jordão, aquela elegância inigualável de quem veio só marcar dois golos à França, antes de voltar a um cocktail na Côte-d’Azur, onde era devido.

O que mais me fascinou nesse jogo, de todas as vezes que o revi enquanto miúdo, era aquela sensação de vitória. Aquele encanto de ter enchido o campo e ter estado a cinco minutos da final, aquela ilusão de quando o Jordão salta ao segundo poste no prolongamento e a cabeceia no ângulo, aquela euforia que é tanta demais, que nem parece de verdade. Vi o jogo tantos anos depois e achei, mais do que uma vez que, se calhar, quem sabe, aquela bola suja do Platini poderia não entrar um dia. Acho que nunca acreditamos realmente que ela entrou. Que nunca perdemos realmente esse França 3, Portugal 2. Não sei se essa pureza é boa ou má. Sei que, da mesma forma, continuamos a não ganhar muitas coisas muito depois.


Em 2000, lembro-me de ter ido festejar aquele golão em moinho do Nuno Gomes para o meio da minha estrada. Era o meu primeiro Portugal num grande Campeonato. Em 2000, por ironia das ironias. No ano em que pudemos tudo. A melhor geração, a melhor Selecção, o melhor futebol, o melhor Figo, o melhor marcador. O Europeu que refundou Portugal. Tinha 9 anos e, com 9 anos, ainda se acredita em contos de fadas e em heróis com final feliz. 28 de Junho de 2000, a ver na televisão de caixa da minha antiga sala esse jogo no Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas. É a primeira vez que me lembro de chorar a ver futebol. Não chorei em 2004, nem me lembro honestamente de voltar a chorar com a Selecção depois disso. Mas lembro-me daquele penalty do Abel Xavier como se fosse hoje. Do ódio, da impotência, do desespero. De ter gritado roubo até já ter deixado de ser uma criança. Infelizmente, a vida é quase sempre um penalty, de uma forma ou de outra.


Em 2006, não posso dizer em consciência do que é que estava à espera. Esperava não encontrar a França, por exemplo. O Euro2004 pesava mas, durante esse mês na Alemanha, parecia afinal nem pesar assim tanto. Ao último apóstolo da Geração de Ouro, tinha sido dada mais uma última oportunidade. Passámos a Inglaterra, claro, e é difícil não achar que podíamos passar o mundo, depois da Batalha de Nuremberga. Mas tudo nos levou à França e ao Casamento Vermelho dessa meia-final. Uma chuva de Castamere, uma execução à espera de acontecer. Scolari provou-nos, epicamente, que era possível viver duas vezes. A França lembrou-nos o que era invadir-nos três.

Todos esses jogos têm em comum o facto de não sermos favoritos e, ainda assim, parecermos ter tudo a perder. Ainda antes do jogo, o chão, a confiança, até o destino. Não falo do que achavam de nós, falo daquilo que achávamos de nós próprios. Falo, afinal, dessa falta de convivência extrema com o sucesso. Dessa vertigem que era, quem sabe, poder ganhar. Tínhamos melhor futebol, tínhamos tanto maior carisma, só não tínhamos forma de dever aquilo a nós próprios. De não nos assustarmos e não cairmos. Para a França, perdemos a vida toda. Perdemos emigrantes, perdemos futebolistas, perdemos financeiramente, perdemos três invasões e perdemos, até, essas três meias-finais. É exactamente por isso que, amanhã, tinha de ser a França. Porque já não temos mais nada para perder.

Se perdermos, que se foda.

Se há alguém que aprendeu da forma mais dura o que é lhe arrebanharem os sonhos, fomos nós. Se há alguém que já aprendeu tudo o que tinha para perder, fomos nós. Não temos mais nada a provar a ninguém. Muito menos a quem tinha a obrigação de cá estar. Não temos mais gente, mais dinheiro, nem mais tamanho. Mas vamos jogar a nossa segunda final em 12 anos, com quatro meias-finais nos últimos cinco Europeus. Nos últimos 20 anos jogámos futebol que dava para o continente inteiro, e o raio que o parta, metemos portugueses no melhor que há no continente inteiro. Demos espectáculo, emprestamos coração e trouxemos alma para dar e vender, deixamos em campo o sangue e o suor, e chorámos vezes de mais. Ninguém fez mais por isto do que nós. Ninguém.

Se perdermos, que se foda.


Mas tudo o que este Europeu provou é que não há mais nada que nos possam tirar. Desta vez, não viemos pela glória. Não viemos para gostarem de nós. Somos chatos, somos nojentos, somos iméritos, somos sortudos e somos toda a merda que nos quiserem chamar, e que dê para colar nas paredes do balneário de Saint-Denis. Mas também somos este caminho todo até Paris. Desta vez, viemos para gostarmos de nós próprios. E ter amor próprio come a cabeça a muita gente, sobretudo se fores pequeno, sobretudo se a vida de grande for feita dessas pequenas perversões de andar a brincar com as presas entre os dentes. O que os franceses claramente não percebem, é que, desta vez, nos estamos a cagar para eles. Que, desta vez, vão ter de comer com este bicho que não entendem, que não lhes fará vénia, nem lhes beijará a mão, e que lhes vai faltar à puta do respeito todo, por mais que eles se estrebuchem nos Versalhes da vida onde sempre viveram. Não temos sangue azul. Mas, desta vez, eles vão ter de vir à rua ganhar, se quiserem. E o que os corrói é este desamor. Este despeito. Esta arrogância de quem já não tem medo, nem tem vergonha, nem tem mais pena de si próprio.

Se perdermos, que se foda.

Mas, na rua, o campo nunca é inclinado. Na rua, somos todos do mesmo tamanho. Quem sabe, talvez não seja desta, em Paris. Se não for, inimigos na mesma. Mas não tenham dúvidas de que, se quiserem ganhar, os franceses vão ter de sofrer coisas que nunca sofreram. Vão ter de ser melhores em campo, no banco e nas bancadas, vão ter de querer mais, sacrificar mais, aguentar mais, enervar mais e sobreviver mais. Vão ter de sair do altar e virem ver se são bons o suficiente. Já nós, fizemos isso a vida toda.

Se perdermos, que se foda.

Escrevia um jornal inglês esta semana que o único mérito que ninguém pode tirar a Portugal é o de ser incansável. É a impassibilidade de continuar a remar mesmo quando não saímos do mesmo lugar. Quando não se criam jogadas, quando não se marcam golos, quando o adversário vem numa e noutra vaga. Nós nunca paramos de remar. Para mim, isso é crónica moderna de um super-poder. Amanhã, a França terá melhores jogadores, mais futebol, mais passado, melhor forma, mais gente. 80 mil pessoas. O que os franceses devem perguntar a si próprios é se isso é suficiente. Para aguentar.

Se perdermos, que se foda.

Foi isso que o Fernando percebeu antes de irmos. Foi isso que o Cristiano percebeu antes dos outros. O que nunca foi nosso, não podemos perder. O que não é suposto ser nosso, não podemos perder. Mas se questionarmos o tempo suficiente, se aguentarmos o tempo suficiente, se fizermos com que eles duvidem de si próprios o tempo suficiente, então, de repente, deixa tudo de ser uma piada. Não vai ser chato, vai ser tortuoso. Não vai ser nojento, vai ser um suor frio.

Se perdermos, que se foda.

Mas amanhã, sentados à volta da esfera armilar que fala deste povo e desta língua em cada canto do mundo (dizia hoje o Engenheiro, "por todo o lado onde passei, havia um português"), o que nos resta não é apoiar, nem gritar, nem ficar a torcer. O que se nos propõe é um desafio muito mais radical: é acreditar mesmo no que não estamos a ver, é esperar mesmo pelo que não parece ir chegar, é saber que nada em estar ali é de menos e perceber que não há nada para além da miragem de uma vitória moral. É não fraquejar e é sonhar acordados. Porque já não é um sonho. É amanhã. Pensem o que era desta terra se acordássemos todos na segunda Campeões da Europa. Pensem em não dormir no domingo. É isso, é hora. Sonhem acordados.

Se perdermos, que se foda. 

Mas, por uma vez, pensem em chorar, mas duma puta alegria. Pensem no que é derrubar a maior de todas as nossas barreiras e não ter, enfim, vergonha de ser feliz. Pensem,

e se ganharmos?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O meu professor favorito


Ser professor é um dos trabalhos mais fascinantes do mundo.

Ser professor, saber e gostar de ser, e ser bom, é uma dádiva. O impacto dum dos verdadeiramente apaixonados, dum dos que nasceram para fazer aquilo, é espectacular. Um punhado das pessoas mais incríveis que conheci na vida contam-se até hoje entre os meus professores. E vão contar sempre. Desde casa, onde tive a sorte de crescer com uma entusiástica contadora de histórias, até ao ciclo e ao liceu, onde fui incentivado a ser abusivamente curioso e criativo, e à Faculdade, onde pude admirar uma elite palpável e inspiradora das minhas Letras, eles muito justificaram a reputação que lhes construí. Fora de casa (para mim, também em casa), os professores foram as primeiras pessoas onde nos tentámos projectar. Onde tentámos colher exemplo, génio, reforço positivo. Foram as primeiras pessoas que tentámos impressionar e ganhar o respeito. Isso, para um professor, constitui uma responsabilidade nada menos do que avassaladora. Ironicamente, aprendi com o tempo que estar à altura não nasce nem do esforço, nem da atenção, nem sequer da pedagogia. Nasce, simplesmente. Ou se tem ou não se tem. É que ser professor também é um dos trabalhos mais "democráticos" que existe. Ninguém te pode obrigar a gostar de um.

Tive bons e tive maus, como toda a gente. E também tive bons altruístas e maus que queriam muito que os adorássemos, como toda a gente. Padeci inevitavelmente com alguns. Mas uma das realizações mais presentes que tive desde miúdo era essa de que não me podiam comprar. Podiam-me dobrar e coagir, podiam-me fazer as coisas difíceis, mas não me podiam conquistar o respeito. Eu gostava de quem gostava, admirava quem admirava e, no fim do dia, isso era a única coisa que contava. No fim do ano, no fim da Academia e para o fim da vida e depois. Não é memorável quem quer. Não é memorável quem trabalha muito para ser, quem quer causar impressão, quem fica nas fotografias, nem quem pede. É memorável quem merece. Quem te conquista pelo desígnio, mais do que pela ostentação. Pela grandeza da visão e pela honestidade dos modos, mais do que pela dialéctica mediática e pela figura alegórica. Como numa eleição, quem te conquista pela seriedade, pela simplicidade e, especialmente, por não precisar disto assim tanto. Por ter surgido organicamente, num passo natural de quem acha que tem o dever de acrescentar, não numa metódica escalada de poder, sustentada por uma vida na costela nobiliárquica do sistema, sistematicamente a branquear uma incontornável parcialidade com a capa do comentarista incontaminado e incorruptível. 


Marcelo Rebelo de Sousa é um extraordinário comentador. Porque é um comunicador nato e porque a experiência acumulada já lhe descodificou todos os segredos da oratória. Marcelo parece ser interessado e consegue ser interessante. Sabe dos assuntos, puxa-te para os assuntos. É a estrela de qualquer mesa de café. A que sabe de tudo e fala de tudo e que, mesmo quando não diz nada, sobrepõe-se a quem não sabe dizer coisa nenhuma. Marcelo também será, porventura, um professor desafiante. Não é, porém, o melhor Presidente da República que podemos ter. Talvez até pudesse, de facto, ser pior, porque a aridez do deserto cavaquista é tão violentamente cáustica, que ter alguém ao menos colorido de ouvir, até já era um primeiro passo; a verdade, todavia, é que precisamos de melhor. E podemos melhor pela razão, no fundo, que está à vista de todos: porque é inconcebível achar que um Presidente da República pode ser uma pop star mediática. O Palácio da Presidência não é um reality show, nem depende de audiências. Não é uma sala de espectáculos, e felizmente já não é um Conversas em Família de outros marcelismos. Na Presidência da República não pode ser suficiente que se acredite em tudo e em coisa nenhuma. Não pode ser suficiente ser a "esquerda da direita", como se verberou com um sorriso plástico e irresponsável, como se isso quisesse dizer alguma coisa. Não pode chegar ser "o centro do centro", nem catar os ventos do este ao faroeste. Não pode ser suficiente gostar tanto de ouvir a própria voz. Muito menos chegar com os galões de quem é mais importante do que o próprio magistrado. 

Eu não quero um Presidente que presida para si. Que goste de ver e de se ouvir a si. Para isso já tivemos estes 10 anos de mortandade. Chega, por amor de deus, de egomania obsessiva. Não tenho horror a Marcelo, ninguém tem, porque até nisso ele limiou a perfeição; Marcelo mediu-se tanto, esculpiu-se tanto, dedicou-se tanto a este projecto de vida, que é tolerável até para quem não gosta dele. Risivelmente, no fundo, o que se gaba a Marcelo é o seu imbatível eclipse de personalidade, conivente com deus e com o diabo, a tirar-lhes com uma mão e a dar-lhes com outra, até hoje nem pelos votos... mas pela estima. A primeira de todas as razões para que Marcelo queira ser presidente é a vertigem de constatar que a maioria o quer a ele. A campanha incipiente que fez às escondidas, a invisibilidade confrangedora nos confrontos - própria de quem está habituado a falar sozinho -, a simplificação vomitável do discurso - vir à Madeira falar de poncha, banana e do Ronaldo é quase comovente - e o enfado em levar o acto da própria eleição a sério, com a falsa fé de que os portugueses estão cansados, em referência a uma segunda volta, de que estão fartos, portanto coroem-me-duma-vez-seus-pobres-e-acabem-com-esta-maçada, foi todo um livro aberto. Marcelo é um extraordinário comentador e é por isso que vale a pena que se mantenha como um. Por isso e porque há coisas que pura e simplesmente não se podem misturar.


Admito que Sampaio da Nóvoa era o meu candidato natural. Um homem com um currículo e um prestígio magistrais, reitor da maior Universidade do país, uma figura da Academia, empática que não mediática, capaz de conservar até agora a sua aura onde ela era mais precisa e onde mais tinha a dar: nas salas de aula e nos auditórios que podem mudar o que há para mudar. E sim, para mim conta que seja um homem fora do espectro partidário. Não professo a diabolização dos partidos e partilho de que não pode haver democracia sem eles. Que, aliás, descarná-los e descredibilizá-los é um exercício perigoso. Mas, com a mesma convicção que vejo o lugar dos partidos, defendo que não pode haver pudor nem lesa-majestade em partilhar o palco com a sociedade civil. Não acho que diminua nada, acho, pelo contrário, que os partidos o fizeram por merecer. E que esta vontade das pessoas em procurar alternativas ao modelo clássico só lhes há de fazer bem a eles. Não nego que o facto de Sampaio da Nóvoa não ser ex-presidente dum partido, ex-secretário de Estado, ex-Ministro, ex-Conselheiro e ex-quase-tudo me pese a seu favor. Mas desengane-se quem ache que cometi a irresponsabilidade de escolhê-lo por "protesto". Ele terá o meu voto porque me cativou e, mais do que isso, porque me mobilizou a estar com ele assim, sem meias palavras e sem o segredo do boletim, como já fez com muitos de vós, numa onda que nas últimas semanas tem sido impossível de menosprezar. Jamais votaria nele por acaso, porque não vota por acaso quem tem bem fresco o impacto que, afinal, mesmo no nosso sistema político, um Presidente pode ter; e eu sou da geração que se fez adulta com o Presidente do qual a nossa Democracia mais se pode envergonhar. Posso estar errado em muitas coisas, mas pelo menos sei dar o valor.

Com Sampaio da Nóvoa voltaremos a olhar com respeito e reverência para a Instituição Presidência. Voltaremos a ter em Belém um referencial ético, sério e intelectual, um "soldado raso", mas para o qual poderemos olhar com um bocadinho de orgulho. E isso para mim é quase tudo. Um homem que não governará, estou certo, nem para as manchetes, nem para os grupos de interesse, um homem que não viverá no culto da imagem e da moda porque, afinal, nunca viveu. Um homem que não precisou de uma carreira política para que a sociedade civil o tenha em consideração para uma. Acho que esse é o maior elogio que se pode fazer a um Presidente. Um pensador, um homem da Academia, dos jovens e do futuro, lá onde pensar custa mais e paga pior, um homem da matriz de causas, liberdades e valores da Esquerda, que hoje me permite dizer que lhe confio singelamente o meu país, depois do cocktail incendiário de neoliberalismo económico e conservadorismo democrata-cristão que nos arrebanhou a todos. Um homem que subsistiu mesmo a lançar-se aos leões antes de todos os outros, e não com uma caderneta de garantias como o seu estimável adversário, um homem que perdeu o apoio do PS e do Bloco por falta de coragem política e pela feira de vaidades que perora por esses lados, e que mesmo assim não desarmou, porque achou que o resto valia a pena. Um homem que ridicularizaram por ser um "candidato messiânico", só porque cometeu a loucura de querer inspirar as pessoas e conduzi-las a um destino comum, nivelando a campanha por cima, em vez de andar a falar de poncha, de banana e do Ronaldo.

Acredito que Sampaio da Nóvoa pode mesmo ganhar e para isso tem de existir uma segunda volta. E acho que a melhor coisa que nos podia acontecer era uma segunda volta porque, ao contrário do que acha Marcelo, as eleições não são uma chatice. Pelo menos para quem se bate por alguma coisa. Uma segunda volta eliminaria o ruído. Dividiria as águas. Esclareceria as pessoas. Numa segunda volta, só se engana quem quer. As cartas são cruas e vão todas à mesa. Numa segunda volta, toda a gente teria de escolher um lado. E escolher lados, ao contrário do que acha Marcelo, é bom, porque traz responsabilidade à eleição. Numa segunda volta não chega parecer, não chega contar com as probabilidades, nem virar a ampulheta e esperar que o tempo passe. Não chega não arriscar. É por isso que Marcelo tem tanto medo de uma. É por isso que todos quantos estão divididos, que todos quantos não embarcaram na romaria que o horário nobre do país vende há tantos anos, devem fazê-la acontecer. Quanto mais não seja porque o que está em causa é um cargo de responsabilidade e de nervos, e ninguém, em boa fé, pode defender que a melhor forma de o principiar, é evitando a ambos. Quem tem medo de ir a jogo deve sempre alguma coisa. E, infelizmente, a Presidência da República não se pode coadunar com eleitos providenciais, nem com vencedores por decreto, nem pode alguma vez ser "fácil"; a Presidência tem que ser algo a ganhar, não a aposta viciada de quem tem tudo a perder. Na mão de cada um de nós, e só na nossa mão, está o dever de garantir que aquilo que se glorifica é o cargo, não os homens.


Marcelo seria sempre o professor mais famoso da escola. O que usa muito aparato e dá muito espectáculo, aquele que a dada altura gostávamos muito que se lembrasse do nosso nome... até percebermos que, no fundo, ele só fala de si e que aquele concurso de popularidade já não nos diz nada. Nóvoa é o professor que, no momento em que formos embora, vamos perceber tudo o que nos ensinou. Aquele que vamos cumprimentar na rua anos depois, lembrar os episódios grandificantes de contágio e esperança e ficarmos gratos por nos termos cruzado. Daqui a dez anos, espero olhar para Belém e ver o tipo improvável que me inspirou, e que inspirou o país a ser um bocadinho mais país. Não um espectáculo de televisão.

Daqui a dez anos, espero ter mais um professor favorito para contar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Star Wars, episode VII. A Força esteve connosco


Como é que se encapsula 40 anos de magia num regresso?

É complicado saber por onde começar quando está em causa o filme mais esperado da década. Com a Guerra das Estrelas foi sempre assim: a vertigem do próximo capítulo, do próximo fim, do próximo regresso. Em cada um desses dias, em cada um desses anos, foram eles o filme mais esperado do mundo. A nossa História cultural contemporânea teve a sorte de assistir a sagas tão monumentais como as melhores de todos os tempos, que inundaram de fascínio cada bocado da nossa imaginação colectiva e desenharam muito daquilo que sonhamos hoje; nenhuma outra, contudo, se poderá gabar de tamanha plenitude e transversalidade e, sobretudo, de tamanha vitória sobre o teste do tempo. A Guerra das Estrelas é a saga mais aceite e mais comercial, a mais acarinhada e a mais antiga. É a língua e o espelho não de uma geração, mas de todo um entendimento do que é a nossa sétima arte comum, imperecível, una e majestaticamente fascinante.


A 25 de Maio de 1977, o meu pai tinha 17 anos. Esta devia ser a história dele; na quinta-feira à noite, contudo, sentado na estreia mundial, com literalmente milhões e milhões de pessoas ao mesmo tempo, não havia ali nada que me pudessem tirar. O cinema será sempre o primado das grandes histórias, mas o cinema não seria cinema sem a experiência. Sem aquela mobilização, sem a propensão de ir viver a energia que vai muito, muito além de tudo o que se expele na tela. Ter passado as últimas semanas na expectativa, os últimos dias a namorar trailers e artigos, o dia da estreia com a obsessão da recompensa, reservar os bilhetes, seguir em romaria e depois sorver reverentemente, quase grato de respeito, cena sobre cena, deslumbrado com os pequenos regressos a casa, com aquele reconhecimento tácito que nos diz que somos todos parte do mesmo, é algo de genuinamente maravilhoso, que qualquer apaixonado por cinema, mais do que fã, não pode em consciência recusar-se a viver. Achando-se o que se quiser do frenesim ou do mérito da história, ver uma Guerra das Estrelas nestes termos é uma coisa que só acontece um punhado de vezes na vida.


Acho que já é líquido por esta altura que me é difícil separar o que é o filme, daquilo que representa a saga. Mesmo admitindo orgulhosamente toda a minha parcialidade, é com uma certa comoção que digo que foi... muito bom. E dizê-lo é tão catártico como tê-lo visto. É evidente que a Guerra das Estrelas não poderá jamais voltar a ser o sopro de futuro impossível que foi naquele ocaso dos anos 70, ou voltar a ter aquela magnitude refundadora do realizador ao argumento, do admirável mundo novo visual até às avenidas de criatividade absolutamente sem limites e sem termo de comparação, que chocaram aquela era. Mas é com honesta felicidade que sublinho que JJ Abrams foi o homem certo no lugar certo. O fardo era dum peso bestial, o negócio tinha chances desfavoráveis e todo o novelo era, afinal, assombrado pelo falhanço de casting com que todo o planeta recebera em agonia The Phantom Menace, em 1999. O pai de Lost, o reinventor de Star Trek o que faz é um abraço do tamanho da galáxia a toda aquela excepcional universalidade, um abraço de fã, com o entusiasmo e o gosto de quem está num gigantesco e infindável parque de diversões, deliciado com cada sequência, comprometido com cada viagem, emocionado com cada reencontro.


The Force Awakens é um filme tecnicamente inatacável e monumental. 2h15 de pleno gosto, onde tudo se derrama na medida certa, sem exagero mesmo no que é exagerado, sem poupança mesmo no que é poupado, de excelência sob qualquer prisma, um filme ao qual, visualmente, não há nada a acrescentar. JJ Abrams viveu à altura da reputação e pôs na rua um show atraente mesmo para quem não tiver nada a ver com isto, um filme com vida própria, capaz de mostrar aos novos de hoje de que é que são feitas aquelas estrelas. Essa capacidade de sedução é o inevitável cartão de visita para quem for espreitar as perniciosidades da história. E aqui chegamos ao guião, que fora o aspecto mais frágil das prequelas e aquele que marcaria o grau de sustento de todo o novo empreendimento. Se é certo que a espinha dorsal da narrativa não puxa de nenhum ás de trunfo, acho que a maior parte das pessoas também concordará que o argumento excedeu as expectativas. Com uma ligação carnal à narrativa-mãe, patente em quase todas as esquinas, o desvelar da acção consegue aguentar-se nos próprios pés até ao fim e resistir a quaisquer suspiros desiludidos que o quisessem diminuir. Os novos segredos aguentam-se, seduzem-nos, sabem temporizar-se - alguns deles mantêm-se segredos -, e têm uma singular chave de ouro: as personagens.


The Force Awakens devolve a Guerra das Estrelas às personagens, numa dicotomia entre legado e pujança, entre os galões dos velhos e a vitalidade dos novos, e é de encher a alma. A cena do regresso da Han Solo à sua Millenium Falcon, 32 anos depois! de Return of the Jedi, é um nó cego na garganta. O momento em que a pisa novamente, com o seu inseparável Chewbacca, mas ainda depois disso, os segundos em que se deixa estar a balbuciar na cabine, com os olhos a brilhar, como se tivesse esperado por isso em todo e cada um dos dias em que estiveram distantes, seria suficiente para querer fazer isto tudo outra vez. Harrison Ford é, de resto, a figura nevrálgica e verdadeiramente patriarcal do filme, ao que responde com total compromisso e espírito, com uma genuinidade que não encontra esforço. Disse-se, na antecâmara, que este era o filme que lhe tinha recuperado a alegria de actuar e o seu carácter de estrela pop, e é impossível contestá-lo. Solo viveria sempre por si enquanto personagem mas, pese todo o legado, é uma interpretação reverencial da parte de Ford.


Finalmente, o ponto alto: se o Episódio VII tem uma estrela que brilha acima das outras, essa tem 23 anos, olhos verdes e nasceu em Londres. Daisy Ridley é um avassalador acerto de cast, uma gema preciosa descoberta numa galáxia muito muito distante que, mal é desempoeirada, se põe a luzir de uma forma quase desarmante. Já li sobre ela que é a personagem feminina melhor formada e mais bem maturada de sempre em Star Wars, mas diria mais, diria que é uma das mulheres de maior poder e potencial que vi nos últimos anos. Ridley é uma força da natureza. É terrivelmente realista. Corajosa e abnegada sem ser necessariamente heróica, vulnerável sem ser superficial mas, antes, empática e cativante. Gosta-se logo dela, quer-se que as coisas lhe corram bem e anseia-se que viva à altura do seu destino que, por ora, parece gloriosamente grande. Investir sem pejo numa figura feminina para o núcleo da acção era só uma excelente ideia à espera de o ser, e foi-o na plenitude. De entre os novos, John Boyega - com uma falibilidade honesta que nos conquista - e Oscar Isaac - com o glamour da juventude de Han Solo - saem na mó de cima, como também sai o adorável boneco de Lupita Nyong'o. Adam Driver, numa das personagens-chave, é porventura quem mais fica a dever ao papel.


As contas deste Force Awakens eram, no fundo, muito simples: ou acertava de pleno direito ou falhava a todo o vigor. Ganhou. Mais do que isso, ganhou a jogar bem. Confiamos e fomos recompensados porque sim, é o melhor em mais de 30 anos, sim, é o filme pelo qual estávamos à espera e, depois, um pouco mais. Quinta-feira foi uma noite bonita.

8/10

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Bridge of Spies. Um bom filme dispensável


Parece-me pacífico dizer que, nos dias que correm, se queres fazer um filme sobre espionagem, ou mais, sobre a Guerra Fria, tens de ter realmente alguma coisa para contar. O tema já foi tão violentamente esgotado que, pese a mística intemporal e tangível, é preciso ter algum segredo na manga, alguma manha pronta a ofertar quando chegar a hora. Bridge of Spies, infelizmente, é uma ponte de sentido só. Começa-se a andar, é-se imperturbado e chega-se exactamente aonde se estava à espera chegar. Até pode ser uma ponte, mas tem muito pouco de espionável, porque é incapaz de seduzir-nos o suficiente. Não é, de facto, um filme mau ou sequer vulgar, ainda que o argumento seja perfeitamente enxuto, na reconstituição histórica duma troca de prisioneiros de guerra entre Estados Unidos e União Soviética, em 1960; é, no fim de contas, bem arrumado e simpático, mas é o arquétipo de um filme desnecessário, que acrescenta pouco ou quase nada e que não pede que se pague um bilhete.

Isto tem tanto mais peso pela contextualização que vale a pena fazer. Bridge of Spies afigurava-se, afinal, como um dos pesos pesados do ano, realizado por Spielberg, escrito pelos Coen e protagonizado pelo reverendíssimo Tom Hanks. Do leque, só mesmo o último soube estar à altura. Na linha do que escrevi acima, o argumento é francamente linear. Parte dos factos verídicos, mas é quase invisível para além disso: não tem rasgo, não tem cenas fortes, não é emocionalmente exigente para os protagonistas e não plasma, sequer, nada do que notabilizou os Coen, seja a perversão, o tipo de humor, o negrume ou o carácter cáustico, desafiante e cru. É um filme muito liso, muito morno, como se com isso quisesse perpassar alguma tensão... mas sem nunca o conseguir. Tem uma única cena contagiante, na honestidade do regresso a casa, que lhe marca o desfecho. Fica por aí.

A maior desilusão é, contudo, Spielberg. Num projecto realmente à sua imagem, com aquele toque imperial que lhe assenta tão bem, o seu apagamento é inexplicável. Bridge of Spies não é de todo atraente a nível visual. É um filme que parece irrelevado ou quase ignorado, e deixado a fazer sozinho. Aquela vida em permanente lusco-fusco, tão cara ao espectro da Guerra Fria, nunca é interrompida por nenhuma injecção de charme, por nenhum lance de inspiração. É uma contínua película uníssona, na mesma frequência e no mesmo tom, como um monitor de actividade cardíaca que já morreu. Três anos depois do excelente Lincoln, o velho mestre volta assim a cair no nevoeiro que lhe marcou a última década, e onde se contam filmes tão infelizes como o último Indiana Jones, Tintin ou War Horse

A boa notícia é, como quase sempre, Tom Hanks. O maior bonacheirão de Hollywood é o pilar do filme e aguenta-o uma e outra vez à base de fôlego, mascarando as ditas falências com base no facto essencial de gostarmos dele. Note-se que está longe de ser uma performance laureável, nada que se compare, por exemplo, à monumentalidade encontrada em Captain Phillips (2013), mas, num filme diminuído a vários níveis, Hanks sabe como levar as pessoas e empresta à acção a humanidade e a empatia que a história não demonstrou ser capaz de dar. Mark Rylance, nas roupas de espião soviético, acabou por ser a boa surpresa. Num papel que pareceu por ora demasiadamente calculado, no estatuto adquirido de espião que nunca o recusou ser, Rylance veio afinal, e na linha da sua própria personagem, roubar-nos respeito pela sua dignidade, temperança e dedicação. Um papel estilizado e peculiar que acabou por lhe valer a surpreendente nomeação para Melhor Actor Secundário nos Globos de Ouro.

Ver Bridge of Spies não é penoso, mas está longe de ser contagiante e é inevitável assumir a desilusão com um produto ao qual era obrigatório exigir mais. Com determinado nível-base e com boas personagens, limitar-se-á a passar à História como um bom filme de domingo à tarde.

6/10

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

In the Heart of the Sea. Há histórias que não sabem falhar


A ambição era refazer um filme sobre nada menos do que Moby Dick. 100 milhões de dólares de orçamento, Ron Howard nas rédeas (Cinderella Man, A Beautiful Mind, Frost/Nixon, Rush...) e um elenco cravejado de estrelas para todos os papéis, do poster boy Chris Hemsworth a estrelas emergentes como Ben Whishaw (o "Q" dos novos Bond), de certezas absolutas como Cillian Murphy a instituições unipessoais como Brendan Gleeson. In the Heart of the Sea era um daqueles filmes aos quais se passa um cheque em branco, um daqueles que escolheu quase tudo de olhos fechados... e que, no fim, era suposto render verdadeiramente pouco. Um daqueles blockbusters onde esperamos, tão só, ter a sorte de encontrar alguma vertigem e alguma catarse. Este, contudo, foi demasiado bem escolhido para o seu próprio destino. Com uma odisseia intemporal americana trabalhada a tantas boas mãos, dobraram-se as tormentosas probabilidades e o que temos, afinal, é um certo fascínio a espreitar a vários níveis.

In the Heart of the Sea não parte directamente da maior de todas as obras de Herman Melville, mas do livro bem mais recente (National Book Award for Nonfiction, em 2000) de Nathaniel Philbrick, sobre os factos verídicos que motivaram o histórico naufrágio do baleeiro Essex, em 1820, no coração do Pacífico, e que viriam a render a magnânima epopeia da baleia gigante e dos náufragos de 90 dias, imortalizada em Moby Dick. O grande acerto do filme, aquele que define o seu sucesso, parte sobremaneira disso: In the Heart of the Sea é verdadeiramente genuíno, porque conserva muito perto de si esses "factos verídicos" e a mística das transcendentais histórias de mar, de gigantismo, mito e sobrevivência. Alimenta-nos com isso, faz-nos crer, envolve-nos e sabe-nos contar uma história, pelo destrinçar do argumento, sim, mas, mais ainda, pelo contexto, pelo ambiente e pela felicidade ao romantizá-los, desde aquela chegada de Melville a Nantucket - o maior porto baleeiro do mundo no século XIX - para entrevistar a uma madrugada o último sobrevivente, com uma garrafa de whisky e um dose ainda maior de expiação. É um filme onde gostamos de estar, que desperta a criança curiosa, fascinada e impressionável que temos no coração, e é um filme bonito, por ter esse jeito em trazer-nos um clássico, quando era muito fácil desperdiçar-se completamente num vácuo de espectacularidades bacocas e efeitos especiais.

O filme é cativante, ainda que seja inevitável reconhecer que não estamos na presença de nada supremo ou refundador. É uma obra que essencialmente se acarinha, como boa história e património histórico, não quiçá reflexiva ou fabular, como encontramos, por exemplo, em Life of Pi, num filme da mesma água. Isso, no entanto, não lhe retira o mérito. A adaptação de argumento ficou a cargo de Charles Leavitt (autor do incrível Blood Diamond) e, se às vezes falta algum tacto a temporizar a acção, lá está, a dar-nos mais tempo para pensar, o que era verdadeiramente essencial, ou seja, o exercício de fascínio, ainda para mais num projecto deste tamanho, foi conseguido com distinção. In the Heart of the Sea não só não era um "filme de realizador", como a realização movia-se, aliás, num abismo perigoso, pela propensão em exagerar e se perder. Nesse campo, este estará longe de ser um dos melhores filmes da carteira insultuosamente luxuosa de Ron Howard, mas o oscarizado americano protege-o ou, por outra, evita que o estraguem. Existem ocasionais sequências demasiado artificiais e são patentes os sucessivos cenários de laboratório, mas o filme é bem mais púdico do que aquilo que se poderia esperar e essa é outra das suas vitórias.

Costumo ser bastante preconceituoso quanto a elencos de luxo, sobretudo se se destinarem a filmes deste tipo. Este tratou-se, porém, de mais uma saudosa excepção. Chris Hemsworth, com quem simpatizo, continua a construir uma carreira comercial relevante e abraça o lead com uma franqueza e uma empatia que lhe começam a ser imagem de marca. Cillian Murphy é o trunfo que queres sempre ter a teu lado. E, por fim, um filme com Brendan Gleeson tem como que uma responsabilidade moral de ser bom. O seu papel cirúrgico de último sobrevivente do Essex impinge de carácter tudo o resto e dá-lhe o peso dos grandes épicos. Tenho para mim que, quando se principiou a produção de In the Heart of the Sea, não havia sequer a ambição de fazer algo tão narrativamente envolvente e, quiçá, carismático. O feliz resultado é um dos bons filmes do ano e uma oportunidade generosa para mergulhar num das grandes histórias do nosso ideário contemporâneo.

7/10

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Steve Jobs. Conceptual, poderoso, viciante



Steve Jobs não é o homem mais importante do filme. É irónico, no filme sobre a sua vida, mas o mérito de um dos musts do ano é mesmo de quem o escreveu.

Normalmente, idolatram-se actores ou realizadores. Idolatra-se quem aparece nas fotografias, quem dá as entrevistas, aqueles, no fundo, de quem se vê o trabalho. É difícil idolatrar os heróis não cantados. Ao pensar nisto, lembro-me sempre do meu velho John Spencer que, ao receber o primeiro Emmy da carreira, aos 56 anos, se dirigiu ao seu argumentista para dizer:
"I serve at the genius and the art of Aaron Sorkin, one of the great writers of all time. An actor is only as good as the material he gets; and we were given gold week after week after week. I don’t know how he does it."

A série era West Wing - Os Homens do Presidente. Aaron Sorkin, pois claro, o seu pai criador. Uma e outro são, até hoje, os melhores que já vi. Sorkin tornou-se, para mim, uma figura de culto. Um monstro sagrado dos guiões, o maior de todos. Capaz de idealizar o que mais ninguém escrevia, com a cadência que mais ninguém imprimia. Para quem escreve umas coisas, para quem sonha escrever mais e melhor, para que consome cinema e televisão, Sorkin foi um deus. Um iluminado filosofal, da forma e do conteúdo. As primeiras quatro temporadas de West Wing, após as quais abandonou a sua própria criação, são património da Humanidade. O mestre contudo, assombrado como os maiores, com problemas graves de toxicodependência, não voltou depois a atingir semelhante Panteão, ainda que todos os seguidores tenham continuado a deslumbrar-se a episódios, como ao ver as fintas de um velho craque nos anos de ocaso, em Studio 60, Newsroom ou, em cinema, ainda com Moneyball. Este texto não seria suficiente para exprimir toda a admiração que tenho por Aaron Sorkin. Ainda assim, não ousei apostar tudo neste Jobs.

Por ironia do universo, Sorkin ganhou o Óscar que lhe estava no destino, infelizmente, e como acontece tantas vezes, quando não o merecia. Quase num insulto honorário ao seu próprio génio, com um dos seus trabalhos mais vulgares. The Social Network (2010) foi um filme tarefeiro, desencantado e inevitável. Um filme para ganhar dinheiro, que alguém tinha de fazer. Um filme sem um pingo de alma, que lhe rendeu um Óscar de secretaria, logo a ele, que nunca precisaria de um. O meu medo em relação a Steve Jobs era, por isso, incontornável. Era que fosse o próximo filme de artifício, sobre uma figura pop da cultura tech, era a ameaça de ser mais um prego sombrio no vulto dum vanguardista. Não foi. Steve Jobs é, na verdade, o grande trabalho de Aaron Sorkin desde o adeus à Ala Oeste da Casa Branca. Isso quer dizer que é muito, muito bom.


Por mais evidentemente suspeito que seja para falar, este é o arquétipo de um filme de argumentista. Um filme em que o guião é a jóia da coroa, aquilo que o enche de vida e o faz pulsar, tão bom que perpassa a óptima câmara e as boas interpretações. Ali, ao fim do primeiro quarto-de-hora, o texto já ganhou. Já nos bateu de frente, dobrou e convenceu, a um ritmo tão electrizante, tanto à imagem do seu autor, que tudo o que temos a fazer é agarrar-nos à cadeira e sobreviver à viagem. Jobs é como um filme de acção, mas em diálogos. Esse sempre foi o mais pleno de todos os super-poderes de Sorkin. As conversas relampejantes, cortadas em monólogos, aceleradas em andamento, de porta em porta, de sala para sala, com o mundo a rumorar à volta, o "walk and talk" e o "smart and funny" que fizeram de West Wing um produto gravosamente profundo e, ainda assim, magnanimamente cool.


Jobs é um filme em três actos, que biografa o Da Vinci dos computadores decantando-o nos bastidores de três das suas apresentações mais emblemáticas - Macintosh, NeXT Black Cube e iMac -, num espaço de 14 anos (1984-1998). E é tão brilhante na forma como no feitio. Falhar uma biografia é, de resto, muito fácil. Ser redundante e desinteressante e não conseguir, afinal, reinventar a roda. Neste caso, o formato do filme foi metade da vitória. Uma moldura inortodoxa, porque imprevisível, capaz de desmanchar criativamente algo que era normal não se saber por onde pegar. Como seria natural, é também o filme de um homem só. Não é lírico, como não era suposto que fosse, nem simpático, nem inspirador, como é parte substancial da obra de Sorkin. É, pelo contrário, provocador e subversivo, impingindo uma personalidade fortíssima, quase limite, à sua figura nevrálgica. Este Steve Jobs é um vulcão que nos hipnotiza pelos seus modos, pela sua energia e pela sua intensidade, e do qual não podemos simplesmente desligar, num análogo síndrome de Estocolmo, que nos faz intolerar toda a sua arrogância e, ainda assim, não conseguir abstrair-nos da sua aura atordoante. É poder em estado puro.


Na sua terceira chamada aos Óscares, depois de Slumdog Millionaire (2008) e 127 Hours (2010), Danny Boyle apresenta-nos o seu trabalho mais grandioso. O britânico tende a ser um realizador que deixa os filmes respirarem bastante pela sua teia de ideias, puxando-se a um segundo plano, alguém que se evidencia mais pelas suas escolhas temáticas, do que pela sua técnica. Como em tudo o resto aqui, porém, o argumento de Sorkin transforma-o para melhor. Pede-lhe atenção e reacção, pede-lhe que esteja à altura e que, qual maratonista-guia, corra com a câmara ao mesmo ritmo de tudo o que lhe escreveram. O resultado é de alto nível e a realização é outro ás do filme, porque de excelência. Toda a cena ressurgida do despedimento de Jobs da Apple, desde a conversa num átrio deserto dum coliseu à memória da sala de reuniões fatídica, a combustão, a escalada, o corte de planos e as aberturas, tudo é material de uma majestade palpável, que eleva o filme a um plano olímpico e lhe dá a altitude dos Óscares.


Uma biografia não se poderia ter feito sem o protagonista, como é óbvio. Fassbender deu o litro e foi essa figura-chave... ainda que este não seja um filme das interpretações. Sou um fã confesso do germano-irlandês, e muito me bati por um Óscar há dois anos (12 Years of Slave), pelo que tenho a consciência tranquila ao dizer que a sua performance é boa para o filme, mas não é assim tão boa para ele. O papel é imaculado, consistente, inerentemente competente em tudo o que lhe poderiam pedir. Tem costas para aguentar o peso, incorpora uma imagem de marca e Sorkin será, hoje, um treinador orgulhoso. Todavia, no final, gabamos o ritmo, o poder e a não linearidade do retrato... mas não temos ali um papel da nossa vida. Infelizmente, faltou aquele momento, aquela "extra mile". Jeff Daniels, que não adoro, cresce com o filme, Kate Winslet, sem demasiado espaço, é equilibrada a tempo inteiro e Michael Stuhlbarg assenta bem, ao passo que Seth Rogen é mau, como sempre, e Katherine Waterston (a ex-namorada) é invisível. O traço mais forte do cast, à parte Fassbender, é a sua filha... representada sucessivamente, e sempre bem, por três actrizes diferentes, dos 5 aos 19 anos. A perturbadíssima relação paternal entre ambos, um terreno querido de Sorkin, acaba por ser o ovo da Páscoa do filme. Não o vemos de imediato, tão a ferros e tão desamorável mas, ao fim e ao cabo, consegue ser tão dolorosamente impactante, e até tragicamente bonito, nos seus diversos laços, até ao diálogo final.


Steve Jobs é evidentemente um dos filmes do ano. Um emocionante regresso à elite de um dos maiores guionistas de sempre, um incinerante retrato de uma das personalidades mais singulares da História Contemporânea, um filme conceptual, poderoso e perfeitamente viciante.

8/10