domingo, 17 de fevereiro de 2019

Vice: back to basics


É sempre refrescante quando um grande filme resulta porque não precisou de inventar, não se deslumbrou nem afrouxou pelo caminho, e não sacrificou o conteúdo pela forma.

Às vezes, parece-me que há no cinema, na produção artística em geral e em muitos outros aspectos da nossa vida, uma necessidade quase sôfrega de fazer o que ainda não foi feito, e sair da caixa de tal modo, que é quase como se o único mérito de um trabalho fosse descobrir o Santo Graal sozinho. Tentar reinventar a roda é, como o próprio nome indica, uma fórmula normalmente destinado ao fracasso, e um bom criador de cinema não deve criar para si, deve criar para os outros, divertir-se a criar para os outros, conhecer a audiência e saber o que funciona. Podem-me dizer que fazer cinema simples é das coisas mais difíceis que existe e, nesse caso, serei obrigado a concordar. É por isso que, no fim de Vice, apetece dar um abraço ao Bale, ao elenco todo e ao Adam McKay por duas horas genuinamente bem passadas. Vice é um espectáculo, é o espectáculo da política e na performance, é um produto mundano, cheio de energia e parco em complexos, desavergonhado nas fórmulas e nos atalhos, provocador mas sempre cativante, inescrupuloso, mas sempre sedutor, bem feito e interessante.

É curioso que terá sido dos principais filmes em termos de buzz na pré-temporada, pelas olímpicas e intemporais deformações corporais desse mutante chamado Christian Bale, e pela proposta de abrir uma caixa de pandora chamada Governação Bush das entranhas para fora. No entanto, o filme foi-se desvanecendo numa receptividade tépida da crítica, normalmente muito avessa a estes vícios dos comuns mortais, ao ponto de as nomeações para os Óscares terem parecido quase um favor ou uma sorte. Nada mais injusto.

Vice concorre com Bohemian Rapsody para melhor entretenimento do ano, mas não no sentido folclórico do termo; é entretenimento de alto quilate porque é inteligente, é carismático, é bem escrito e bem realizado, é um filme que podia durar mais uma hora, porque teria sempre mais alguma coisa para contar e nós teríamos todo o gosto em ouvir. Trata-se de uma conceptualização verdadeiramente primorosa por parte de Adam McKay (vencedor de Óscar para Argumento Adaptado com o excelente The Big Short), no argumento e na realização, a fazer lembrar muitas vezes o estilo da dupla Sorkin-Schlamme nos tempos áureos de West Wing, walk-and-talk smart-and-funny, ao que não será alheio o passado de McKay na televisão, na direcção de argumento de Saturday Night Live.


É difícil fazer cinema fácil e esse é o pretexto perfeito para celebrar este autêntico banquete de ases pelos ares, que quase se chega a confundir a espaços com uma grande reportagem, tal a vertigem noticiosa, o grafismo, o maquiavelismo, as curiosidades, os segredos, a qualidade narrativa e, claro, a verdadeira passadeira vermelha de estrelas que invade a sala. Bale não é superlativo por ser Bale, nem por ter engordado 30kg outra vez, mas também. Porque isso se enquadra tão bem no excesso e na luxúria do filme, porque ele vai mais longe do que qualquer outro iria a vestir Dick Cheney, e porque isso, porventura, não estaria ao alcance de mais ninguém. Há actores que são como um velho e infalível seguro de confiança, e Christian Bale é um desses tipos irrecusáveis. Com ele, confirmamos até nos pequenos maneirismos, nas absurdas mudanças de dicção e no sorriso provocador de sempre, porque é que vale a pena ir.

Não é a performance individual do ano, nem a sua melhor de sempre, mas seria com toda a certeza para outros, o que acaba por dizer quase tudo da sua carreira. Steve Carell é, por seu lado, o secundário que qualquer um quereria ter e, apesar de prezar o Bush de Sam Rockwell, é bastante injusto que não tenha sido ele a selar a nomeação deste ano. O seu Donald Rumsfeld é quem lidera o resto de um elenco completíssimo e sempre capaz de fazer a diferença, com uma performance entusiástica, naquele seu truque de falar a verdade a mentir que lhe vai construindo a merecida reputação em Hollywood.

Em suma, Vice é muito mais do que o filme sobre a Governação Bush em que Christian Bale engordou até ao limite. É um filme vibrante, cru e inteiramente amoral, que, apesar dos seus temas, dos seus protagonistas e de todos os seus galões, comete a proeza de nunca ser presunçoso. Adam McKay quis fazer uma alegoria à sede de poder, o supremo onirismo de todos os homens, e escolheu uma grande história para fazê-lo. Mais perto da televisão que do cinema, não se perdeu com distracções desnecessárias e concretizou o que prometeu sem querer salvar ninguém, nem consolar a nossa própria inocência.

8/10

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Roma: um filme difícil de ver não é necessariamente bom, pelo contrário


Roma é, de forma relativamente adquirida, a sensação da temporada. Desde que surgiu no Verão do ano passado, na espuma dos festivais, seguiu-se um rastro tão estrelar de elogios, que se tornou impossível ignorá-lo. Dos camaradas de Alfonso Cuáron até à cena mais alternativa, jorraram vénias e choveram personalidades a clamá-lo como um dos maiores tesouros modernos, e num ápice, estava estendida uma passadeira vermelha àquele que, porventura, teria vindo a ser um pequeno projecto pessoal de um realizador afamado, com escala em festivais próprios e na corrida a Melhor Filme Estrangeiro. Nalguns meses, Roma tornou-se, contudo, no grande projecto de vida de Cuáron, que se desmultiplicou em entrevistas românticas sobre a tarefa abissal de fazer um filme semi-autobiográfico, falado em dialecto mexicano, a preto e branco, nos anos 70, numa mística que contou de bom grado com a extraordinária máquina de propaganda da Netflix, que acabou a distribuir a película, singular demais para entrar no grande circuito, resgatando à companhia o muito ambicionado bilhete dourado para chegar aos Óscares.

Roma é o filme mais difícil de ver do ano, ainda mais porque o destino ditou que o tivéssemos de ver assim, já condicionados. Se não tivesse sido o imenso hype e a entrada de rompante na temporada dos prémios, este era um filme que 90% do grande público nunca chegaria a ver. Chegando à semana dos Óscares com legítimas aspirações a levar estátuas para casa, depois da vitória de Cuáron nos Globos de Ouro e do próprio filme nos BAFTA, é de uma forma um tanto ou quanto castrada que nos sujeitamos a tentar estar à altura intelectual do projecto de estimação de um realizador famoso, mesmo que esse seja um raciocínio com tudo ao contrário. Procurei ver o filme sem preconceitos, nem num sentido, nem noutro, ou seja, sem hostilizar o frenesim artístico, mas igualmente sem disposição para digerir estatutos só porque sim. Acabou por ser fácil chegar a uma conclusão, porque ver cinema é fácil, gostar de cinema é fácil, e quando ao fim de 35 minutos estamos desesperados pela perspectiva de mais 100 minutos de coma, só mesmo com muita força de vontade é que se leva o passatempo de outros até ao fim.

Roma é o projecto querido de um bom realizador, que chegou a um momento da carreira em que se pode dar ao luxo de experimentar ainda mais do que era costume, e dar palco às suas próprias memórias de infância, falando da cultura, da história e da sociedade do próprio país, um exercício que tem o seu público e muito bem. Nunca fui enorme fã de Cuáron (com execpção para o brilhante Gravity), mas não discuto que há muito dele aqui no bom sentido estilístico, que faz com que Roma seja uma tela delicadamente pintada e bonita. Posso aceitar as nomeações para Melhor Realizador e Fotografia, como não me custa simpatizar com a performance de Yalitza Aparicio (já que Marina de Tavira também seja nomeada, não faz sentido nenhum). Mas Roma é uma história sem história, é estética pela estética, o que faz de si um filme perfeitamente deficitário no que verdadeiramente interessa e pouco há a fazer em relação a isso. Teria sido, talvez, uma excelente short story; como longa-metragem, é uma obra extenuante, mais ou menos deslumbrada consigo própria, com a sua fotografia e com o tempo infinito que tem, relativamente pretensiosa na forma como se sente superior a falar de intimidade e família como se nunca ninguém tivesse falado antes e muito melhor, um marasmo contemplativo de mais de duas horas sem nenhuma notícia relevante, um sacrifício como se estivéssemos a assistir na faculdade a uma aula de realização sem cinema para contar.

Um filme pode ter muitos méritos, muitas camadas, muitas leituras. Mas tem de ser coeso e acessível, tem de ter alicerces e saber o que nos quer contar. Não pode ser, apenas, uma colecção de grandes planos bonitos e de memórias vagamente comoventes, como se elas valessem por si só. Foi um erro fatal achar que o argumento é descartável, porque é ele que dialoga com o público, e que o conduz, desafia, seduz e converte. Vamos ver cinema, e cinema tem de nos arrebatar em vez de anestesiar, tem de nos projectar ali, compadecer, fazer reflectir e dar vontade de rever e de reviver aquela história. Por mais visualmente lírico que seja, se há coisa em que o filme falha é no vazio argumentativo, e na responsabilidade de chegar a toda a gente, convencido de que o facto de ser tão híbrido, caprichoso, peculiar e inacessível, é suficiente para ser especial. Não é.

5/10

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Hello darkness, my old friend


Suponho que nunca se esteja preparado para ver nascer uma das séries da década. Algumas podem ser muito antecipadas, mas carregam consigo o peso de corresponder às expectativas; outras vêm pela sombra, e são tanto mais impressionantes por causa disso. Quando há cinco anos atrás, no início de 2014, um argumentista relativamente desconhecido nos seus 30 tardios vendeu uma antologia de crime à HBO, poucos poderiam imaginar que essa se tornaria na série de estreia mais vista de sempre da marca, e num fenómeno de culto.

A 1ª temporada de True Detective continua a ser um exercício perfeitamente memorável do que é produção televisiva no topo da capacidade criativa, uma obra-prima monstruosa feita de ambição na narrativa, um estilo visual único, mística da história e interpretações fenomenais. Estou convencido até hoje de que, se o grande McConaughey ganhou o Óscar nesse ano, deve-o bem mais à série, do que ao Dallas Buyers Club. Para mim, a estreia de True Detective continua a ser o compêndio do que se pode sonhar ser em televisão, um exemplo, até despretensioso, de até onde é possível ir, desafiando-se a si próprio, à audiência e a cada episódio, sem dar nada por adquirido, sem medo de fazer novo e fazer diferente, sem jamais deixar de puxar a corda. É, obviamente, uma das melhores de sempre.


Por ironia, nunca vi a 2ª temporada (o que, numa antologia, significa uma história completamente diferente), que foi avassalada pelas críticas, porque pensei que não teria estrutura emocional para ver ruir à minha frente um património daquele tamanho. Como não sou dado a despedidas, nem a deixar-me ficar até à queda dos meus ídolos, foi uma decisão com a qual convivi bastante bem, porventura ao contrário de muitos outros, como o próprio Nic Pizzolatto, o criador, que se propôs, cinco anos depois, a algo ainda mais difícil do que fazer uma obra-prima. Fazer duas.

O certo é que voltamos sempre ao lugar onde nos cativaram, de uma forma ou de outra, e hoje, não me assusta o peso da responsabilidade de afirmar que, a duas semanas do fim da temporada, o 3º True Detective é como ver a Renascença a acontecer. É o regresso impossível àquela assinatura televisiva em estado latente, a uma embriaguez que não parecia possível voltarmos a encontrar, visualmente e ambientalmente e estilisticamente tão superior, que às vezes até custa a aceitar no tão bom que é.


A duas semanas do final da temporada, True Detective não é, outra vez, apenas a melhor da temporada, é a melhor em muito tempo e uma experiência sensorial absolutamente irresistível, como um livro que não conseguimos parar de ler, uma história que queremos adivinhar, um mistério que nos leva para dentro e que nos destina a tentar resolver o que nos for possível, prestando atenção aos detalhes, pensando como eles, conjurando sobre tudo o que está à nossa frente, ou não. No quarto escuro, noite dentro, também nós vamos naquela viagem no espaço e no tempo pela América profunda, consumidos por onde raio tivermos falhado, angustiados pela impotência, não perante o único puzzle que não conseguimos resolver, mas perante um que nos devorou de volta, de cada vez que o deixámos fugir por entre os dedos.

Pizzolatto provou que é possível inventar o mesmo golpe de génio duas vezes, porque o golpe de génio é, afinal, tantas vezes uma questão de estilo, e o estilo do labirinto que ele criou na nossa cabeça, é imbatível. Porque não há coincidências, este será também o ano da consagração de um dos actores mais superlativos do nosso tempo, Mahershala Ali, que provavelmente ganhará o seu segundo Óscar e, sem desprimor para Green Book, provavelmente pela sua melhor performance do ano, esta. Que qualidade. Que naturalidade a ser o herói num papel que lhe exigia tanto compromisso e tanto despojo. O forte das personagens, como do argumento, é esse realismo, é poder ser tudo modesta e moderadamente verdadeiro. E isso perturbar-nos tanto. A arte foi feita, afinal, para perturbar o nosso conforto e tudo aquilo que damos por adquirido, e o Detective Hays vem devagar, mas assusta-se. True Detective vem devagar, mas mete medo. E é uma sorte que assim seja. É uma sorte ter conseguido fazer isto outra vez.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

The Special One


11 jogos de estreia sem perder para o Solsjkaer, grandes vitórias internas e motivação impensável há dois meses, tanto que toda a gente lhe dava o favoritismo, frente aos novos-ricos sem o ataque de luxo. Mas o que deu foi banho e olés em Old Trafford. Um trambolhão na realidade para o United e uma demonstração de autoridade com violência de Paris. Deu também para ver o miúdo que, a cada jogo grande que passa, deixa de ser miúdo para ser o herdeiro dos dois maiores de sempre. É por isso que a Champions é o jogo mais especial, todos os jogos.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Somos nós


O Marítimo voltou a ganhar ontem, quatro meses depois, 17 jogos depois e muitos erros depois, contra uma equipa superior e mais bem preparada, a fazer uso de um bocadinho de sorte em cima de muito sacrifício, muitos nervos e muita falta de confiança, quis o destino que sem o nosso capitão, que se foi embora, e sem o nosso segundo treinador, que ontem não pôde estar no banco.

Foi uma vitória humilde e que saiu da pele, de uma equipa que já não sabia sair do inferno, uma vitória contra tudo, inclusive a própria sobranceria que nos trouxe até aqui, mas ainda mais do que isso, uma vitória de todos os que lá estiveram, de todos os que gritaram e sofreram onde quer que tenham estado, dos que dormiram aliviados, a pensar que uma parte da sua vida saiu dos cuidados intensivos, e de todos os que acordaram um pouco mais felizes por causa disso.

Hoje já me lembrei uma dúzia de vezes que ganhámos ao Portimonense e respiro fundo como no apito final. Haverá muitas contas a fazer a esta época onde a culpa não pode morrer solteira; mas é nos dias piores que se tem a certeza de que há sempre alguma coisa que é Maior do que as nossas frustrações, o nosso desalento ou aquilo que nos separa. E enquanto comungarmos todos desta imensa dignidade que só existe nas pequenas vitórias, feitas do testemunho e do empenho pessoal de cada um de nós, saberemos sempre o que somos e para onde devemos ir.

O Marítimo não é o projecto de poder de ninguém, o Marítimo somos nós, e vamos sobreviver a esta quase tragédia, não pela fé cega em nenhum grande líder, mas pela fé incondicional em cada homem e mulher que se senta e sofre connosco nas bancadas dos Barreiros a cada fim-de-semana, gente que nunca descarta responsabilidades e nunca se vai embora, gente que não tem nada a ganhar, mas com quem já ganhámos muito mais do que perdemos a vida toda.

Isso é o Marítimo. O meu pai, os meus amigos, os conhecidos e todos os desconhecidos com quem já tive a honra de partilhar trincheira, todos os que se estragam genuinamente, todos os que perguntam como correu porque gostavam que ganhássemos, todos os que ficam felizes por nossa causa. Isso é o Marítimo. E enquanto houver gente que saia dos Barreiros a sentir-se Campeã do Mundo porque ganhou ao Portimonense, pois há esperança.

Onde houver um Maritimista, pois há esperança, e haverá certamente esperança até ao fim desta época nua e crua, como no Bessa daqui a uma semana, ou como aquela que levarei comigo aos Açores logo a seguir, de coração cheio com a minha gente, para sermos Campeões do Mundo outra vez, ou pelo menos Campeões das Ilhas, como aprendi em pequenino num dia endiabrado, lá longe. Lá estaremos a dar a cara como sempre, a sofrer como sempre, mas a levar o Leão às costas até onde for preciso, a acreditar por nós e por todos, até ao fim do mar, até ao fim do mundo.

Haverá sempre quem queira levar o Marítimo; o Marítimo é que não vai a lado nenhum. Porque o Marítimo somos nós.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A boémia que vivemos


Os 20 minutos de recriação integral da performance dos Queen no Live Aid são uma das ideias mais simples e mais felizes que o cinema nos trouxe nos últimos anos.

A antecâmara do filme foi feita de um misto entre a antecipação sufocante, própria da enormidade que era proposta, e o temor por uma romantização demasiado esterilizada do que foram, afinal, os Queen. Talvez nunca saibamos como foram, afinal, os Queen, mas Bohemian Rhapsody é uma oportunidade extraordinária de nos lembrarmos de tudo o que já fomos com eles nalgum momento da nossa vida, como ao ouvir o Don't Stop Me Now nos créditos, e pensar que foi exactamente assim que eu, a Susana e a Andreia nos despedimos da Faculdade, há muito muito tempo, no saudoso anfiteatro de Jornalismo, na Coronel Pacheco.

Não vivemos a mesma vida, nós e o Mercury, mas já vivemos juntos muitas outras, e é essa intemporalidade que o filme nos restitui, numa vertigem do mais puro entretenimento, e do fascínio fulgurante que sempre os acompanhou. Há biografias melhores e piores, mas nunca tinha visto nenhuma com gente a cantar na sala dos 20 aos 60 anos, a reclamar propriedade dos ídolos e do tempo em que havia ídolos, de olhos a sorrirem para o ecrã, tão orgulhosos como se tivessem estado lá, se calhar porque, um dia, já todos estivemos com eles em Wembley, de uma forma ou de outra.

sábado, 10 de novembro de 2018

O casino ganha sempre


Parabéns a quem decidiu que era preciso perder na Choupana para despedir o treinador. Aconteceu o que toda a gente estava a ver que ia acontecer, depois de oito jogos seguidos sem ganhar, que incluiram ser humilhados pelo Guimarães nos Barreiros, ser varridos da Taça da Liga, e não marcar golos a Belenenses, Moreirense e, já agora, a uma equipa alentejana da 3a divisão, que teve de falhar três penalties para perder connosco no desempate. O Cláudio Braga tem a confiança, a coerência e a capacidade técnica de um pré-adolescente: chegou cheio de força, para jogar à holandesa com 4 avançados, e na semana passada perdeu contra o Porto, a jogar com 5 defesas e 3 trincos. Com mais de quatro meses de trabalho vanguardista, somos o pior ataque da liga, mudamos a equipa ao deus dará e não temos a mais ínfima noção do que estamos a fazer em campo. Deve ser uma liberdade à holandesa: não treinar nada durante a semana, tentar descobrir a pólvora com um novo esquema a cada jogo, não preparar o adversário, ter como única estratégia o corpo presente, e ora jogar com 4 avançados, ora jogar com 5 defesas, como a malta jogava em criança no recreio.

Parabéns a quem decidiu que era preciso perder na Choupana para despedir o treinador. A quem decidiu que era preciso nos sujeitarmos a esta espectacular humilhação de ser inferiores ao lanterna vermelha recém-promovido, que era a pior defesa da liga e o pior ataque em casa. Estamos todos muito mais leves agora que, em vez de jogarmos para ganhar, estamos a jogar para ver se o Presidente tem razão. O mesmo Presidente que, em fevereiro, injuriou, sabotou e despediu um treinador que lhe fez 100 pontos em duas épocas, porque ele falava muito. Estamos muito melhores assim, com um treinador de playstation e sem ninguém para levantar a voz a esta mediocridade total. Amanhã despedimos o Cláudio Braga porque ele perdeu na Choupana, não porque toda a gente sabia que ele ia perder na Choupana. Hoje passámos todos esta vergonha, menos o Presidente, que não podia admitir que estava errado até subir a serra. Hoje perdemos nós, mas felizmente há quem nunca perca na roleta. Amanhã é só mais um dia para brincar aos treinadores.