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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O exemplo


François Hollande é Presidente francês desde Maio. Nestes 4 meses, fez o que por cá se assimilaria a uma revolução: suprimiu, primeiro, todos os carros oficiais do governo, e mandou que fossem leiloados, porque "se um executivo que ganha 650 mil euros por ano não se pode dar ao luxo de comprar um bom carro com o seu rendimento do trabalho, significa que é muito ambicioso, é estúpido ou desonesto, e a nação não precisa de nenhuma dessas três figuras"; reduziu, depois, em 25% o salário dos funcionários do governo, em 32% o dos deputados e em 40% o dos funcionários públicos.

É simbólico, claro. O efeito de medidas destas é residual, não resolve défices, não resolveu os problemas franceses. Até haverá quem lhe chame golpe publicitário. Não era preciso fazer nada em relação a isto, mais valia deixar no abstracto, continuar a usufruir. O povo ia reclamar, ia ouvir que não entendia, e ia acabar por esquecer. A tomada de posição garante-nos, porém, decência e transparência. Mostra carácter. Nunca vamos estar todos no mesmo barco, mas as pessoas respeitam quem dá o exemplo.

Em Portugal, é tudo dolorosamente mais complicado. Demagogias destas nem pensar, que somos um povo sério, e as gentes do Executivo precisam de comer. Para fingir que enxugamos o nosso Estado gorduroso, basta-nos acenar aos telejornais com as Fundações e garantir um ciclo noticioso, só para, em dois tempos, percebermos todos como aquilo era uma caixa de Pandora. Então, e enquanto levamos com uma avalanche de merda na cara, que não terá rigorosamente NENHUM efeito prático (o Governo paga todas, mas só tem poder para fechar 4 das 800 fundações que existem...), enchemos a boca para mostrar ao povo o trabalho feito.

E porque estamos mesmo comprometidos, não temos medo das medidas difíceis. Então vamos cortar os tratamentos mais caros para o cancro, para a sida e para o reumatismo, segundo um parecer assinado por Miguel Oliveira da Silva, que veio defender, na RTP, que "mais dois meses de vida não justificam um tratamento de 50 mil euros." Esta indiferença pavorosa é o legado ideológico deste governo. Matar a podridão do aparelho de Estado é coisa difícil, é melhor não mexer; que se deixe morrer, pois, esta mercadoria que só dá despesa. Um doente barato é um doente morto, já dizia Ceausescu. Aonde é que chegamos, caralho.

Não sei, de facto, se disciplinar a orgânica do Estado nos resolvia alguma coisa. Sei que essa vaca sagrada dá mama a muita gente, e que o melhor é fazer crer aos tolos que ela é só um pormenor, enquanto são eles próprios os cordeiros de sacrifício. Nestes dias negros, o pior não é não termos um líder; a maior tragédia é não termos sequer um exemplo. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Os culpados


Descobrimos todos esta semana que o governo afinal é um bando de jagunços que, para chegar ao poder, mentiu grosseiramente sobre as razões da crise, e sobre as medidas para tratá-la. Descobrimos também que a sua agenda é tão extraordinariamente de Direita, mais troikista que a troika, como lhe chamam, que ameaça arrancar pela base o próprio nível de vida como o conhecemos. É extraordinário que tenha demorado um ano. A dialéctica do Sócrates-diabo foi sempre patética, a inspiração ideológica deste PSD foi sempre evidente. Sabia-se quem eram, ao que iam, as motivações foram sempre extremas. O país, porém, primeiro deu a maioria, para então indignar-se. E agora pede revoluções como se tivesse sido enganado. Como se estupidez fosse remissão de culpa.

No sábado pede-se que venhamos todos para a rua queimar coisas. O facebook diz que os gregos é que é, que partir esta merda toda é a solução, todos no coro unânime de como somos um país de frouxos, que gosta de levar na cara. Pelo facebook parece que queremos ir todos matar pessoas, e os militares, coisa confortável de se saber, já anunciaram que estão com o povo na indignação. Fizemos a merda, e agora mal podemos esperar para ir brincar no abismo, falando disto com uma ligeireza pavorosa, própria de quem não tem noção.

E o pior? O pior é que sem partir coisas provavelmente já não vamos lá. Batemos com a cara no fundo. Temos parte da própria Direita, todos os moderados, aí pasmados em todas as colunas e em todos os debates, com esta criação demente do homem novo português, pobre até onde der. Claro que tínhamos de mudar. A crise despejou-nos isso na cara. Não somos competitivos, tínhamos de ser. Enquanto houve dinheiro, esquecemos o mérito, a eficácia, o rendimento, fomos um país a brincar. Claro que tínhamos de cortar, sacrificar, mudar para melhor. Vergonha a nossa, ser preciso vir gente de fora para nos dizer. Azar o nosso, termos posto no poder uma Direita profética, decidida a reinventar o país à imagem dos seus livros.

Ir partir coisas é uma ideia perigosa. Mas sem ir para a rua estamos destinados a este limbo insuportável, com um Presidente absurdo, vegetal e catatónico, um rato cuja magistratura de influência é ver a borrasca no horizonte e esconder-se no escuro, só porque fugir do barco ainda não é opção. Com um Primeiro-Ministro esvaziado de credibilidade, rodeado de radicais, sem pingo do estadismo que precisaríamos como de pão para a boca, que já não tem maneira de esconder as contradições, a plasticidade, a ligeireza e a impreparação. Com um Ministro das Finanças a quem o carisma de um cyborg faria inveja, que vai debitando bombas no tom de um retardado a dar um aula chata de Liceu. E, para ser perfeito, com um líder de Oposição que é a caricatura de um chefe temporário, que ninguém leva a sério.

Estes são os nossos políticos por nossa causa. Este é o nosso governo por nossa causa. O país está no limite por nossa causa. Não fomos bons o suficiente, fomos, aliás, muito piores do que isso. Resta-nos conter esta demência. Fazer pela vida nunca foi o nosso forte. Desta vez é capaz de não haver alternativa.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Os donos do 25 de Abril



"Sou solidário com os 'capitães de Abril'. Acho que o 25 de Abril foi uma grande revolução, e acho que a política que se está a seguir é uma política contra aquilo que é o espírito do 25 de Abril. Vou fazer isto: ser solidário e não ir também às comemorações a que fui sempre"
Mário Soares

Lamentar o 25 de Abril é o nosso fetiche. Tenho 21 anos, e acho que não me lembro de uma vez em que tivéssemos sido unânimes sobre os efeitos da Revolução, e agradecido a deus por não vivermos numa ditadura que perseguia, torturava e matava pessoas. Não não, para nós o 25 de Abril é um cancro nacional, uma oportunidade perdida, um jorro de dinheiro que se esvaiu, um povo que não aprendeu, que não evoluiu, um povo que se perdeu, um povo que, no limite, era capaz de estar melhor no Estado Novo. Ninguém gosta do 25 de Abril, e o 25 de Abril não tem verdadeiramente nenhuma virtude. O 25 de Abril só foi bom quando aconteceu. Um dia o 25 de Abril teve todo o esplendor do mundo, foi perfeito e infalível. Nos 40 anos seguintes, foi a razão do nosso choro, da nossa pena e do nosso falhanço colectivo. Todos os problemas deste país são o 25 de Abril. Dizer mal do 25 de Abril, do que fomos depois dele, é o desporto nacional. É como bater no ceguinho, liberta-nos. Tão melhor que estávamos numa ditadura que perseguia, torturava e matava pessoas.

A decisão de Mário Soares, Manuel Alegre e dos capitães de Abril em faltar amanhã às comemorações na Assembleia da República é de uma grosseira falta de respeito. Eles viveram o antes e o depois, eu não. Mas são eles quem enche o peito e, de tão importantes, ficam em casa, no momento pós-Revolução em que o país mais precisa deles. As estrelas são eles, isto é o palco deles, olhem para eles, ou, como disse Manuel Alegre, o protesto tem "um grande significado político, que não deve ser ignorado". Porquê? Porque as estrelas não vão estar lá.

Soares foi autoridade durante 20 anos, Alegre deputado durante 30, os capitães lobby há 40. Mas, quais decanos do profético desígnio nacional, são inculpáveis pelo estado a que o país chegou. Eles foram os profetas, os poetas, a inspiração. Se isto não é a Utopia, é porque o Sócrates e o Passos Coelho meteram água, é porque nós, de alguma maneira, não soubemos estar à altura. Então, como o 25 de Abril é deles, ficam em casa, porque nós somos capazes de não conseguir viver com isso.

Soares, Alegre e os Capitães foram o que foram, mas não são o 25 de Abril. No máximo, deviam viver para estar à altura do que um dia tornaram possível. Se acham que este é o momento para dizer que o 25 de Abril não valeu a pena, não estão.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Fechar meio país


Eficiência, oferta e procura, etc, eu, pelo menos, esforço-me por compreender. Não sou do tipo de criticar a direito, gosto de fazer um esforço antes. Portugal é um país litoralizado, bipolarizado, em crise, e desequilibrado, e que, portanto, tem de fazer opções e sacrifícios. Faço um esforço por compreender. E a verdade é que, em muitas coisas, somos um povo mal habituado, ineficaz, acomodado, àquem do seu potencial e habituado a viver acima das suas possibilidades. Não que entre no discurso do sofrimento que liberta, que marcou o primeiro ano de Passos Coelho, mas temos de repensar o país, para nosso próprio bem. Tento sempre racionalizar.

Ao mesmo tempo, vejo a normalidade atroz com que se vai ceifando o interior, e não me consigo convencer do certo daquilo. Fecham-se hospitais, esquadras, tribunais, porque os números aconselham, e os números é que mandam. Não há pessoas suficientes, dizem os números, então deixa-se as que sobram à sua própria sorte. Que venham para a costa, emigrem ou esperem pelo destino no sítio onde tiveram o azar de nascer, porque este é um país que já não se pode dar ao luxo de ter gente em Bragança, em Beja ou em Viseu.

Tira-me do sério que haja gente a fazer manifestações pelo fecho de uma maternidade em Lisboa, porque os filhinhos nasceram lá, e que o encerramento de tribunais em Bragança seja uma nota de rodapé. Gostava de continuar a acreditar que, com todos os defeitos, este é um país que continua a valer a pena, de Trás-os-Montes ao Atlântico. Infelizmente, quando é para fazer sacrifícios, o pão nosso de cada dia é continuar a despovoar. Podíamos ter um país mais equilibrado, mais saudável, e mais competitivo; para quem nos tem governado, contudo, o que não seja Lisboa ou Porto, é tempo perdido e dinheiro gasto. Somos um país condenado a pensar pequeno.10 milhões parece pouco, mas, para nós, é demais.

Afinal, estou-me a cagar para os números. Se achamos razoável fechar meio país, é porque já desistimos dele.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

The West Wing (1999-2006), season 1


É política em estado puro. The West Wing tem a grandiosidade das coisas simples, ao falar do que é complexo com o dom de torná-lo acessível, e isso consuma a sua maior virtude: é real. Não me admirava se hoje entrasse na Casa Branca e visse as coisas a funcionarem exactamente assim. É uma série de subtilezas, entrelinhas e cumplicidades, uma obra que, no requinte das suas vivências, nos faz crer que quem a criou - o entretanto oscarizado Aaron Sorkin - só pode já ter vivido aquilo.

A história é a do dia-a-dia do Presidente dos Estados Unidos e do seu staff-chave. Conta os salões e as reuniões onde se faz realmente a política, com os que lá estão mas não são história, e fala do que se faz por convicção e por carreira, por lealdade e por jogos sujos, e do muito que é preciso sacrificar para conseguir alguma coisa.

Na cadência e nos diálogos nota-se a excelência da realização e do argumento. É uma série sempre ligada à corrente, de movimento e de stress, e esse fôlego é retratado de forma superior. Outro dos trunfos é a química brutal entre o cast, ao que não será alheia a tremenda riqueza das personagens, capaz de gerar a tal cumplicidade que só se constrói ao longo dos anos, e fazer de tudo aquilo fidedigno.

Jed Bartlet (Martin Sheen) é um grande presidente. Fresco, cativante, ágil, incorrecto, genuíno. Não é lírico, mas conquista-nos com o seu jeito desbocado e honesto, sempre comprometido em fazer do país melhor. É impulsivo e nem sempre está certo, mas dele nunca pode dizer-se que não acredita no que faz.

Leo McGarry (John Spencer) é um ícone, como chief of staff. Exala experiência, e é ele quem lê o jogo, define estratégias e congrega vontades. É o político por excelência, o cérebro de toda a máquina que ele próprio concebeu, amigo de sempre do presidente e venerado pelo resto da equipa.

Josh Lyman (Bradley Whitford) é o romântico, um dos que tem de acreditar no que faz para seguir em frente. É um estratega e um criativo, alguém que se mexe no meio com uma facilidade profundamente natural.

Toby Ziegler (Richard Schiff) é o chefe da comunicação, uma figura pouco diplomática e de trato difícil, mas um humanista, e um conselheiro sempre omnipresente, e nunca desprevenido.

Sam Seaborn, um juvenil mas genial escritor de discursos, e CJ Cregg, a talentosa mas insegura Secretária de Imprensa, completam o leque.

Até ao início da segunda temporada, o principal defeito da série tem sido a incapacidade para concretizar maus cenários. Já teve momentos de dar nós na garganta (onde não se inclui o espalhafatoso fim da primeira temporada), mas resiste a dar passos agudos, sempre que chega ao limite. Até agora tem-lhe faltado nervo.

The West Wing esteve 8 anos no ar, entre 1999 e 2006, ao longo de 7 temporadas, e ganhou uns incríveis 26 emmys (entre 2000 e 2003, de Melhor Série Dramática), e 3 globos de ouro. É difícil não tropeçar nela em qualquer lista das melhores séries de sempre.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Boss, season 1


"Do you know who the fuck i am? Right now, in this moment, i'm the angel of fucking death for you. And the next few minutes are gonna feel like prediction itself if you dont't tell me what i need to know"


O Boss é um homem: o venerável Mayor Tom Kane (Kelsey Grammer), presidente eterno da Câmara de Chicago, um líder histórico e incontornável, temido e odiado, e a história é a da sua perpetuação no poder. Kane é um monstro político implacável e impiedoso, senhor de uma ira majestática, e que é capaz de rigorosamente tudo para manter a cidade nas suas mãos.

A acção começa, ironicamente, no momento em que este descobre ter uma doença terminal altamente degenerativa, que o vai levar a pôr tudo em causa. Desde logo a reaproximar-se da filha toxicodependente, mas também a questionar-se a respeito do seu legado, duvidando se o que teve de fazer tinha um propósito para o seu povo, ou se, a dada altura, foi o mero meio para eternizar-se no cargo. Performance absolutamente icónica de Kelsey Grammer, e que lhe valeu o Globo de Ouro deste ano para Actor Drama.

Boss é um excelente drama político, que não aborda o sistema apenas do ângulo linear da corrupção pela corrupção. Fala de desencanto, abuso de poder, conspiração e traição, mas mostra que a política é uma realidade muito complexa, que se traduz numa luta incessante pelo poder, onde não existem, no fim de contas, os bons e os maus. A única certeza é que é preciso sacrificar muitas coisas para conseguir algumas. O limite é saber distinguir quando é que existe um desígnio, e quando é que os vícios já consumiram tudo. E Boss ainda aborda o jornalismo, na sua simbiose intrínseca com o poder, investindo numa narrativa pragmática mas romântica qb.

Os dois melhores secundários são os conselheiros do presidente. Ezra Stone (Martin Donovan) é o histórico e fiel braço-direito, um imprescindível, o cérebro que o aconselhou durante todo o caminho, um verdadeiro peso pesado da assessoria, conhecedor do meio como ninguém, e capaz de ler superiormente qualquer situação. Kitty O'Neill (Kathleen Robertson) é uma espécie de relações públicas, uma mulher extraordinariamente sensual, que é recente no meio, mas que aprendeu muito rápido, e que se faz valer pela criatividade.

Ainda merecem referência Alex Zajac (Jeff Hephner), o contagiante candidato a Governador do Illinois, um jovem ambicioso, perdido por mulheres, e com dotes de retórica prodigiosos; e Sam Miller (Troy Garity), um abnegado, incómodo e irascível jornalista, sempre a farejar a verdade.

A série (8 episódios) não é perfeita, o que é notório nalguns desfechos pouco felizes no fim da temporada, mas é, ainda assim, um retrato belíssimo da política, alicerçado, nunca é demais reforçar, numa prestação monumental de Kelsey Grammer.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cavaco, a história de um mártir


Cavaco tem a candura de um anjo da guarda, e o espírito de sacrifício de um Cristo. Que sorte a nossa ter estadistas como Cavaco nestes dias difíceis. Cavaco é o visionário que avisou da crise mas ninguém quis ouvir, é o lúcido que clamou que, pelo bem do país, se respeitassem os intocáveis mercados, para depois ser o justiceiro que exortou a que, pelo bem do país, nos revoltássemos contra esses indignos mercados, e é, agora, o grande líder que passa por estes tempos difíceis a sofrer com o seu povo. Que sorte a nossa termos Cavaco. Não o ouvimos, nunca lhe damos o valor, e ele está sempre lá para nos provar que previu, adivinhou, sabia, estava certo. Cavaco nunca se engana e raramente tem dúvidas, já devíamos todos saber. Cavaco avisa-nos, como um bom amigo, tenta encaminhar-nos, mas, simplesmente, é bom demais para nós. Nenhum português merece Cavaco.

Isto tudo e um jornalista reles lembrou-se de lhe perguntar porque é que Cavaco não tinha abdicado, como a sua plebe, dos subsídios. Herege! Se achamos que Cavaco não está a dar o corpo ao manifesto, é porque não somos capazes de ver. De certeza que ele nos está a dar o exemplo de outra maneira, a sacrificar-se para prestar-nos outra lição, e nós, que não o merecemos, estamos outra vez a injustiçá-lo. E claro que estava: Cavaco só não abdicou dos subsídios para ter o que comer. Ao que este país ingrato chegou, a reclamar dos tostões que são dispensados à nossa grande inspiração nacional, a pôr em causa a única coisa que nunca pode ser posta em causa: Cavaco. E teve o vulto de nos explicar, com a aura de um santo pedinte, que, mesmo com os subsídios, o que recebe nem dá para as despesas. O mártir Cavaco não personifica apenas o desígnio nacional; chega ao cúmulo de passar fome por nossa causa.

Nada disto se paga, e, no entanto, quanto é a esmola de Cavaco? 10 500€ por mês. Pior do que uma humilhação. E ainda não ouvi nenhum apelo para que se aumentem os impostos amanhã, para que se defina que um dízimo do rendimento de cada português tem de ir para Belém: Cavaco precisa de comer, por Deus! Mais importante, precisa de carinho, reconhecimento, respeito! Que se acabe, de uma vez por todas, com o desprezo com que este país de ignóbeis trata os seus heróis nacionais.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vamos todos embora que depois o Passos apaga a luz


Não há emprego para os jovens? Emigrem, já tinha dito o Secretário de Estado da Juventude. Não há emprego para os professores? Fácil, reforçou ontem o primeiro-ministro.

O mais aterrador de tudo é a naturalidade com que se diz isto. O despudor, o conformismo, a aceitação evidente. Isto já não é um país, é de uma vez por todas a choldra que o Eça cunhou. O governo demitiu-se oficialmente de potenciar o crescimento económico, de criar empregos e de, no fundo, esboçar-nos um futuro; agora o objectivo único é gerir isto como se fosse mercadoria, e as pessoas que vão embora enquanto é tempo.

Os nossos políticos morreram. Hoje somos governados por gestores acéfalos, para quem liderar um país é tão simples como fazer contas de somar. Verdadeiros analfabetos sociais, que vêem os portugueses como uma raça mal habituada, à espera desse luxo que é o seu país proporcionar-lhes um futuro. E boa parte do problema é não querermos sair da nossa zona de conforto, explicam os nossos governantes, ao mesmo tempo que acomodam os cus gordurosos nas poltronas aonde chegaram, na maioria, graças ao mais rasca dos carreirismos brochistas.

Já não bastavam os cortes cegos nas prestações sociais que vão conseguir esganar o nosso poder económico até ao último resquício; não chegava que Passos Coelho andasse por essa Europa fora a debitar o discurso de Merkel, e a pedir mais austeridade e mais disciplina para essa corja abominável que são os povos do Sul; agora até nos pedem para ir embora, porque já não há nada para nós aqui.

Fosse outro, e defenderia que a um primeiro-ministro que incentiva os portugueses a emigrar só resta uma saída. Acontece que Passos Coelho nunca escondeu que na sua agenda as pessoas eram só um pormenor. Para ele isto não é resultado de um delírio do momento; foi, desde o primeiro segundo, a própria crença de que o Estado de Bem-Estar é um cancro político. A isso o país respondeu-lhe com uma maioria absoluta. Tem o que merece.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"1 deputado do PSD pode votar por 25 na Madeira"


"Que o partido do Alberto João tem um entendimento peculiar da democracia, já sabíamos. Que a população se está a borrifar para esse entendimento ou qualquer outro, desde que dê túneis e subsídios, também sabíamos. Agora, que democracia é um deputado votar por todos, ainda não sabíamos. Lá se vai, de uma assentada, o conceito de representatividade por listas eleitas, o conceito de fiscalização por heterogeneidade, o voto de consciência, a liberdade de voto, a diversidade de ideias e argumentos, a necessidade de debate."
Pedro Correia, no Aventar

"Alberto João Jardim e os esbirros adjacentes escavaram mais um bocado do buraco onde, há muito, enterraram a Democracia na Madeira: agora, um deputado pode corresponder a todos os votos de uma bancada, o que, se não for inconstitucional, andará lá perto. (...) Esta decisão vai permitir que os deputados da maioria se possam dedicar, calmamente, aos negócios que fazem à sombra dos dinheiros regionais. Num futuro próximo, nem será permitida a entrada de deputados da oposição e faltará pouco para que se acabe com as eleições, essa maçada."
António Fernando Nabais, idem

Parabéns a todos os que votaram nele. Devem estar mesmo orgulhosos agora. Somos uma nova Atenas, com a diferença de que parimos conceitos de Democracia muito melhores. Pensávamos que já era degradante que a nossa Assembleia fosse um circo onde a bancada maioritária faz chacota e reprime a da oposição, onde não há uma lei de incompatibilidades ou onde o chefe de governo se recusa terminantemente a dar explicações há décadas; afinal não sabíamos nada, que meninos. Agora é possível que numa sessão da Assembleia em que estejam presentes 1 deputado do PSD e os 23 da oposição, seja esse ÚNICO deputado do PSD a determinar o resultado de uma qualquer moção.

Já sabíamos que debater nunca foi o forte do PSD; então para quê esconder?? Agora, além de Jardim, 96% dos deputados da bancada parlamentar, pagos para serem deputados - esse pormenor -, têm liberdade para ir fazer qualquer coisa de útil da vida, sem terem de se preocupar com essas chatices da Democracia. Basta ter lá um meirinho a tempo inteiro.

Se havia uma réstia de vergonha na cara, foi-se. Mas para quê ainda preocupar-se com isto? A maioria dos madeirenses aplaude e a República vai lembrar o respeito pela Autonomia, enquanto, mais ou menos às claras, vai-lhe perdoar a dívida toda outra vez. E dar-lhe mais uns trocos para gastar, claro, seguidos de um terno cafuné. Tudo vai bem no reino da Dinamarca.

sábado, 12 de novembro de 2011

Já devíamos estar fartos de ser os porcos

roubado ao Arrastão

"Ao aventar a hipótese de referendo Papandreous desencadeou um outro escrutínio: "A construção europeia tem algum pingo de respeito pela democracia?" À falta de referendo tivemos, pois, uma significativa eurosondagem em que o não à democracia demarcou com maior nitidez as fronteiras do seu império. No ostensivo esmagamento perpetrado pelo "Não ao referendo" está a dádiva de limpidez de Papandreous para toda uma geração de europeus."
Bruno Sena Martins, idem

"Perante o ato normal em qualquer democracia - referendar a perda de soberania e decisões com repercussões para gerações de cidadãos -, Sarkozy e Merkel falam com um Estado soberano como nunca aceitariam que algum estadista alguma vez se dirigisse a eles próprios. (...) A pergunta que sobra é esta: quem, mal saia desta crise, quererá ficar na União Europeia e ter de prestar vassalagem a alemães e franceses?"
Daniel Oliveira, também

A maneira como foi tratada a questão do referendo na Grécia foi a gota de água na casa dos horrores em que a Europa se tornou. 27 países, um mercado de 500 milhões de pessoas, uma moeda comum, mas franceses e alemães decidiram que a Democracia já não mora aqui.

Temos assistido nas últimas semanas, ainda por cima na condição de PIIGS, a dois chefes de estado não eleitos no âmbito da União a decidirem a solo o futuro de gerações de europeus, à boa maneira imperial. Mandam e desmandam, ordenam e até já ameaçam, única e exclusivamente na base do seu poderio. Todos os dias a Europa perde o respeito por si própria, por toda a sua tradição democrática e por todas as suas conquistas sociais do pós-Guerra. Todos os dias os países periféricos são humilhados porque alemães e franceses querem garantir que, antes de qualquer solução eventual, seremos chulados até ao tutano. Ignorando que a economia deles depende da nossa, e que a crise é tanto culpa deles como nossa, ou não tivessem sido eles os primeiros a desrespeitar o limite dos défices, ou não estivessem eles a congelar a renegociação da nossa dívida e a intervenção a sério do Banco Central Europeu.

E tudo isto até poderia ser distantemente suportável não fosse a sobranceria. Merkel e Sarkozy não foram eleitos por 500 milhões de europeus, não podem mandar em 500 milhões de europeus e, acima de tudo, não podem falar a 500 milhões de europeus como falaram com a Grécia. À mera possibilidade de um referendo, o eixo franco-alemão respondeu aos gregos com a porta da rua. Pois se calhar está mesmo na hora. Já é altura de mostrar a esses ditadorzinhos xenófobos de merda que o tempo de brincar aos Impérios acabou. Se é para isto pois que fiquem sozinhos, a ver qual é a solução das suas indústrias para o fim do mercado único que as tem feito viver estes anos todos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O princípio


Não há vitórias morais. Esta era uma eleição perdida à partida que, objectivamente, só poderia ser minorada com a perda da maioria absoluta. Não aconteceu e o que fica para a história é uma despedida eleitoral de Jardim com a garantia de que o seu reinado ficará intocado até ao último dia. Definitivamente beliscado, mas imutável na génese do seu absolutismo. Na última oportunidade de "derrotá-lo" nas urnas, safou-se por menos de mil votos. Mas safou-se, e não há vitórias morais.

Ainda assim seria injusto ignorar os sinais. Pela primeira vez na história da democracia na Madeira, mais de metade das pessoas não votou PSD. Jardim perdeu 19 mil votos, 8 deputados e, na última vez que foi a jogo, teve a sua pior vitória de sempre. Não foi suficiente, e não vou estar aqui a embandeirar uma derrota, mas serviu para mostrar pelo menos uma coisa: que a Madeira não é o PSD. Esse seria sempre o princípio do fim.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Estejam à altura

Estou farto de ser condescendente. Estou farto de reconhecer que o Jardim um dia fez a sua parte, de admitir que nem todos os males do país são a região, de dizer que existem tantas outras dívidas ou o raio que parta. Não quero saber se a dívida disto é maior do que a da Madeira, se tem ou não muito peso no Orçamento, ou se viria a público se não fossem eleições. Em boa verdade, nem quero saber da dívida da Madeira, dou-vos isso.

No Domingo, podem usar a puta de desculpas que entenderem para votar nele. Não sei se vai ganhar com maioria ou sem maioria, sei que vai ganhar, e isso é em si a prova de 30 anos do mais puro cultivo da ignorância. Mas saibam que no Domingo não se vota a dívida, a legitimidade dela ou não, as desculpas, a suposta falta de solidariedade do país ou o ror de balelas que o jardinismo tem alimentado para encher a barriga aos tolos e garantir a vitória.

No Domingo vota-se um estado de coisas, o estado intelectual, social e moral em que qualquer cidadão madeirense quer viver. No Domingo vota-se entre o estado que afoga a democracia, persegue a oposição, esmaga a imprensa livre e é constituído por uma juventude partidária e um círculo de barões que fazem tudo girar promiscua e impunemente, e uma saída. Vota-se entre o estado absurdo que não tem uma arcaica lei de incompatibilidades, onde o presidente não põe os pés na Assembleia há 20 anos e nunca fez um debate, o estado dominado por um monstruoso lobby da construção civil, com a segunda taxa de analfabetismo do país, cegado por décadas de desinformação, e uma democracia a sério.

Chega de desculpas, de panos quentes, de condescendência. O poder para mudar o estado de coisas está no voto de cada um. Não há votos tristes, votos necessários, votos a medo. No momento de votar os madeirenses terão toda a liberdade do Mundo. E então reflictam, por amor de deus, porque no Domingo têm em mãos a possibilidade de se dissociarem disto. A resposta que querem dar, a maneira como querem que a Madeira seja vista, como querem ser vistos como cidadãos e como portugueses, cabe-vos só a vós. Chega de fecharem os olhos e de correrem contra o mundo, "orgulhosamente sós", porque não é o mundo que está errado. A Madeira merece mais do que isto. No Domingo, tudo o que precisam é de estar à altura.

domingo, 25 de setembro de 2011

Ratos e Homens


Não é novidade que, além de me ter oposto a ambos nas eleições recentes, também não gosto de nenhum deles. Não por alguma quezília em particular, mas pelo passado e pela repetida postura em questões atrás de questões. Passos Coelho foi nado na JSD, e criado do berço para chegar onde chegou. Poucas coisas me repugnarão mais em política. Tornou-se primeiro-ministro sem qualquer currículo de relevo, absolutamente mal rodeado e com ideias perigosas no meio da sua desorientação. Cavaco Silva é tudo o que a política tem de mau. É o homem que mandou neste país em 15 dos últimos 25 anos, sendo obviamente um dos mais grosseiros culpados do estado a que se chegou, mas que continua mesmo assim, em todas as oportunidades, a menosprezar essa abominável "classe política" da qual ele, cidadão-intelectual-professor, evidentemente não faz parte. Cavaco é o anti-carisma em pessoa, o presidente que só é competente porque nada faz e honesto porque nada diz, que vive para se proteger e que falha em todos os momentos que se impõem.

Nos tempos em que o buraco da Madeira é mais do que a ordem do dia, era inevitável que as duas mais importantes figuras de Estado se pronunciassem. Até porque são, imagine-se, dois figurões do partido do cacique em questão. E é aqui que faço a minha ressalva.

Na sua primeira grande entrevista como Primeiro-Ministro, Passos Coelho comportou-se como um. Claro que gostava de tê-lo visto passar a certidão de óbito a Jardim em directo, ter dito que por ele era outro o candidato do PSD na Madeira e que incentivava os madeirenses a não votarem nele, mas a política não é assim. E, no que poderia ser a sua posição, Passos foi absolutamente exemplar.

Disse que não fará campanha com Jardim nas Regionais porque a irresponsabilidade deste foi inadmissível, e um PM não pode sancionar esse tipo de comportamento. Disse que tudo isto tem custos reforçados no momento em que se vive, que é uma vergonha a nível internacional e que nunca poderia ter acontecido. E defendeu, sobretudo, que casos como este não podem de maneira alguma ficar sem responsabilização, tal como que o desenvolvimento da Região não justifica de maneira alguma uma aberração como esta.

Passos ganhou o meu respeito. No momento em que tinha de tomar uma posição, fê-lo com todas as letras, arrasando as falácias jardinistas e traçando a linha que se exigia. Pode até parecer pouco, mas facto é que nenhum antes dele o tinha feito e, simbolicamente, é imenso. Jardim perdeu a cobertura do seu próprio líder, e chegará mais sozinho do que nunca às eleições.

Ao mesmo tempo, temos o oposto. Em três semanas com o buraco na ordem do dia, a crescer nos jornais todas as manhãs, a única coisa que ouvimos do Presidente da República foram umas sibilantes linhas a dizer que a situação afecta a credibilidade do país e não pode repetir-se. Num momento de crise aberta, o garante do bom funcionamento do Estado voltou a comportar-se como o rato que sempre foi, recusando-se a tomar uma posição de força ou sequer a fazer uma mísera comunicação ao país. Preferiu andar a semana escondido nos Açores, a ver se se esquecem dele, no abissal vazio político que é.

Até para ele, passar por isto sem abrir a boca é desolador. Como um dia disse Daniel Oliveira, Cavaco "é a política em tudo o que ela falhou, o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos."

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

"Enquanto não tomarem consciência não se revoltarão, e enquanto não se revoltarem não poderão tomar consciência"

"Eu limito-me a dizer que a esquerda em Portugal não tem vergonha na cara. Toda a gente sabe que foi a esquerda, o Partido Socialista, o PCP e os comunistas do Bloco de Esquerda que puseram Portugal na situação em que está, e se a Madeira tem hoje dívida, teve que a ter para poder resistir aos roubos que o Partido Socialista fez à população da Madeira. Quero dizer que a luta continua e que se a Madeira tem hoje uma dívida pública como tem foi para resistir à esquerda e derrotar sempre a esquerda."

Alberto João Jardim, depois do anúncio do buraco

A Madeira está na bancarrota.

Não era preciso estar para percebermos a gravidade da situação, mas fala por si. Nas últimas semanas descobrimos que a dívida da região duplicou só nos últimos 5 anos, devendo andar perto de uns pornográficos 8 mil milhões de euros. Também descobrimos que, em ano de um sufocante aperto de cinto, só o desvio deste ano - 500 milhões - já é o dobro do que era suposto, porque o Governo Regional teve de andar a apagar uns fogos devidos ao monstruoso lobby da construção civil que o domina. A região já teve de pedir um plano de resgate e a derrapagem ameaça o próprio acordo da República com a troika.

Jardim, por seu lado, continua a encher a boca para falar. Disse estes dias que na Madeira há obra feita, no continente só dinheiro gasto. Jardim gasta compulsivamente o que não tem, constrói o que não pode, alimenta a máfia que o rodeia, engorda o monstro que é o regime e ainda tem tempo para se vangloriar disso. No auge, até passámos a saber que as transferências devidas ao 20 de Fevereiro afinal não foram para tratar os efeitos da catástrofe, mas simples liquidez para a máquina.

A tudo isto o delirante chefe de regime responde com a mais rasca das demagogias. Não pede desculpa, não faz um único acto de contrição e nem sequer se dá ao trabalho de arranjar uma má justificação. Goza simplesmente com a nossa cara, impune como sempre. Limita-se a despejar barbaridades que deviam envergonhar qualquer madeirense com um mínimo de vergonha na cara.

Durante todos estes anos a Madeira tem funcionado à boa maneira soviética. Culto cego do chefe, partido e governo a serem uma e a mesma coisa, repressão à oposição e à imprensa, e máquina do regime a ser a mão silenciosa que tudo move. A tudo se condescendeu sob a bandeira da autonomia e da obra feita. Hoje a Madeira está na bancarrota. Não era preciso, mas vemos que a obra só foi feita com dinheiro que nunca poderia ter sido gasto o que, em última instância, ameaça sacrificar a própria autonomia.

Daqui a um mês há eleições e temos um pé no abismo. A culpa não é da sorte, da crise, da República ou de um Executivo que mantém um silêncio humilhante para proteger o seu partido. A culpa nem sequer é de Jardim. Os únicos culpados são quem o continua a eleger há 35 anos. A 9 de Outubro poderemos todos escolher entre um regime podre e um mundo novo. Como numa história de Orwell, dizem-nos há gerações que não há vida para além do PSD, que não há uma única alma opositora capaz, e as pessoas inculcaram isso. Hoje não têm desculpa.

A 9 de Outubro os madeirenses poderão escolher entre ser maiores e melhores, e ter o respeito do país e o respeito por si próprios, ou entre continuarem afogados nesta mesquinhez que há tantos anos nos consome. Se voltarem a optar por ela, então não merecem mais. Demonstrarão que são um povo domesticado e condenado a carregar o carrasco até ao dia em que ele morrer. E, acima de tudo, que são tão pequenos como tudo isto.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Seguro e a história da vida dos jotinhas


"António José Seguro é o novo secretário-geral do Partido Socialista, depois de uma campanha eleitoral interna praticamente invisível para o exterior do partido. A sua vitória era previsível, já que trabalhou para isso nos últimos seis anos, ao contrário do seu adversário, Francisco Assis, um candidato inverosímil que se concentrou, durante esse tempo, em assumir a cara parlamentar do governo socialista. Com esta eleição, os dois maiores partidos são agora dirigidos pelos responsáveis das juventudes partidárias dos anos 90.

Não tem nada de mal, naturalmente. A não ser o facto de, um e outro, terem chegado aqui através de um percurso silencioso feito pela conquista das estruturas partidárias. Nem um nem outro se distinguiram pelas suas qualidades executivas, nem na governação, nem na gestão empresarial. Nem um nem outro se distinguiram por produzirem qualquer pensamento sistematizado, uma ideia inovadora ou uma estratégia política para o futuro. Moldados desde muito jovens na lógica da luta pelo poder que caracteriza os aparelhos partidários, envolveram-se mais na gestão de afectos, na palmadinha nas costas e no telefonema ao camarada, para um, ou ao companheiro, para o outro, em dia de aniversário. O resto foi feito pela habilidade de construir meticulosamente uma imagem politicamente correcta, em função do objectivo a alcançar: ser primeiro-ministro.

Atravessamos um tempo em que ninguém espera reconhecimento pelas suas convicções e pelo seu pensamento político; em que ninguém parte a loiça, no interior dos seus partidos, como Mário Soares ou Sá Carneiro fizeram no passado. Agora espera-se. Espera-se pelo momento oportuno, como quem espera que lhe saia o euromilhões. Mas, sejamos claros: se Pedro Passos Coelho é presidente do PSD e primeiro-ministro, António José Seguro está bem como secretário-geral do PS, líder do maior partido da oposição e, quem sabe, futuro primeiro-ministro."

Tomás Vasques, no Conquilhas


As juventudes partidárias sempre foram um ódio pessoal. Entendo que a política devia ser o espaço de todos quantos se destacam na causa pública, dos que se distinguem na sua área e podem, depois, pôr as suas competências ao serviço da comunidade; ou dos que têm ideias, convicções e, acima de tudo, vontade e capacidade de contribuir, nunca de servir-se. As juventudes são o oposto. São um ninho de vícios onde se inculcam doutrinas partidárias e, sobretudo, onde prolifera o culto cego do chefe e das cores, e isso enjoa-me profundamente. Claro que existirão excepções, mas escasseia-lhes o debate, e quem lá está, está porque isso lhe há de render qualquer coisa mais cedo ou mais tarde. Estar nas juventudes é um desincentivo à reflexão crítica, e isso desvirtua tudo o que a política devia ser.

Hoje dá que pensar o facto de Passos Coelho e Seguro serem os líderes dos dois maiores partidos portugueses. Somos governados por gente que passou a vida só a ser político, seja lá o que isso for, e pior, isso é a coisa mais normal do mundo. Portugal precisa de líderes como de pão para a boca, mas a gente que podia fazer a diferença preferiu fugir à política. Mais do que nunca esta era a altura desses se chegarem à frente; em vez disso temos dois sofríveis, com passado de jotinhas-cães-de-caça, paridos das entranhas escarráveis dos aparelhos partidários.

Dizem que a primeira imagem é a que fica, e a de Seguro foi cristalina. Com o cadáver de Sócrates ainda quente, foi vê-lo em modo barata tonta, em pleno hotel Altis, a dizer que não falava, para depois anunciar que falava e não falar outra vez, enquanto gaguejava e tremelicava, num retrato profundamente penoso e patético. Seguro é anti-carismático, frouxo e discreto, tem um discurso pobre e desinteressante, e é a imagem crua de uma geração que é política de profissão, absolutamente alheia ao conceito de meritocracia.

Mais ou menos previsível, a sua vitória foi uma desilusão. Porque o PS perde tempo - e aposto que Seguro não vai durar até às próximas Legislativas -, e porque não devia ser tão natural ver um mero carreirista chegar à liderança do maior partido de esquerda em Portugal.

sábado, 16 de julho de 2011

Tivessem sido os pentelhos o pior


Eduardo Catroga, provavelmente o maior ideólogo do actual PSD, está a ter hoje uma visibilidade gulosa, porque ontem à noite, na SIC-Notícias, disse que o PS "em vez de andar a discutir as grandes questões que podem mudar Portugal, anda a discutir pentelhos."

A grande maioria das pessoas, que não terá visto a entrevista, além de achar piada, é capaz de achar o soundbyte especialmente bem conseguido. Um daqueles engraçadotes-brejeiros que fica no ouvido, e mais uma pedrinha para atirar ao PS.

Quem assistiu, pelo contrário, sabe o quão degradante aquilo foi. Catroga não poderia ter sido mais vazio, demagógico e balofo, ou ter tido um discurso mais ridículo e incapaz de explicar as suas supostas medidas milagrosas. Foi uma fraude tão absoluta que só pode mesmo enganar quem não viu a entrevista, no seu penoso e permanente agitar de agressões ao adversário político. Catroga teve o azar de apanhar pela frente José Gomes Ferreira, provavelmente o mais sagaz e corajoso entrevistador da nossa praça, e foi nada menos do que engolido vivo, expondo-se, de uma vez por todas, como um homem anedótico, que espuma tanto por voltar ao poder, quanto é incapaz de sequer mascarar a sua total falta de soluções. O PSD decidiu atacar o melaço com uma voragem e um despudor tão grandes, que já nem se dá ao trabalho de ter vergonha na cara.

Admito, como já disse aqui uma vez, que tenho uma certa consideração por Passos Coelho. A História, contudo, não foi justa para com ele. Feliz ou infelizmente, o bando de abutres que o rodeia, e que saliva à volta da sua inexperiência, fá-lo-á perder as próximas Legislativas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O estadista de sempre

"Confrontado com declarações antigas, em que afirmava não valer a pena "recriminar as agências de rating", Cavaco Silva, do alto da sua esfíngica arrogância, pediu aos jornalistas mais estudo. O mundo mudou, é isso? Pois isso foi o que o anterior Governo repetiu não sei quantas vezes seguidas. Curiosamente, esse Governo foi mandado embora, e agora está lá outro. Serão os jornalistas que precisarão de mais "estudo" ou será Cavaco a necessitar de menos cara-de-pau?"

Sérgio Lavos, no Arrastão

terça-feira, 5 de julho de 2011

O deplorável espectáculo do não-político

"Helmut Kohl, depois de ter sido o chanceler da Alemanha que protagonizou a reunificação alemã, foi deputado. Mário Soares, depois de ter sido presidente da República durante 10 anos, foi deputado europeu. Fernando Nobre, ao renunciar ao mandato de deputado dois dias depois de tomar posse revelou uma escandalosa falta de humildade democrática. Quem o escolheu para encabeçar a lista de Lisboa também tem responsabilidades."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Não tão nobre quanto isso



"Fernando Nobre afastou-se hoje da corrida para a presidência da Assembleia de República, depois de duas votações falhadas."

Passos Coelho ainda não tomou posse e já teve de dar a primeira facada. É um início que lhe fica mal e do qual é o único responsável, mercê de uma opção que foi ridícula desde o primeiro momento.

Ainda assim não sou hipócrita. Passos tem uma derrota política ainda no aquecimento, mas só porque não foi orgulhoso, e isso, apesar da maneira feia como aconteceu, foi o mais correcto que poderia ter feito. Ter a total inexperiência de Nobre na Assembleia ter-lhe-ia custado caro a médio prazo, sem falar do grosseiro vazio que é este hoje politicamente.

Com Catroga fora do Executivo, é um início bem mais encorajador do que seria de esperar.