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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Homeland (2011)


Primeiro estranha-se. A série não tem uma grande química, não dá espectáculo, não tem momentos de levar o queixo ao chão. É sóbria, contida e, nos primeiros episódios, nem se dá ao trabalho de lançar grandes iscas para a acção. Dá-se a conhecer, suavemente.

Depois entranha-se, de facto. Não é monumental, mas é ousada, surpreendente, realista e, sobretudo, magistralmente tensa. Não inventa nada ilógico ou exagerado, pegando, pelo contrário, em situações absolutamente realistas para torturar-nos os nervos. O argumento é notável justamente porque torna situações comuns num thriller brilhante, sem precisar de espalhafato nenhum. Muitas vezes só nós e o protagonista é que sentimos o que está a acontecer, perante o alheamento geral.

Homeland (12 episódios) é a história de um prisioneiro de guerra americano desaparecido no Iraque há oito anos, e que se julgava morto, que é resgatado e volta a casa como herói nacional. No seu encalço está, contudo, uma obstinada agente da CIA a quem uma fonte, pouco antes de morrer, garantiu que a Al-Qaeda convertera um prisioneiro americano.

Já salientei o argumento, também tenho de sublinhar a excelente cadência da realização, algo que falta muitas vezes em televisão: não há tempos mortos. Isto porque se eliminam aqueles momentos de reconhecimento que não acrescentam grande coisa. Os episódios, por exemplo, nunca começam no exacto momento em que o anterior parou.

Por fim o cast, que é a jóia da coroa. Damian Lewis e Claire Danes são duas das estrelas do ano, seguramente. Ele é o Sargeant Nicholas Brody, esfíngico e assombrado. O seu permanente esforço de contenção para aparentar equilibrado é colossal; a gestão do regresso a casa e dos segredos que não pode partilhar é de uma violência a toda a prova. Lewis é perfeito para o papel porque tem o dom de nos inquietar. Exala um mistério tão natural que parece uma bomba sempre no limite de explodir.

Danes é Carrie Mathison, uma genial e inortodoxa agente da CIA, que esconde uma desordem bipolar. É provavelmente a melhor female lead que já vi em televisão. O seu talento e instinto misturados com a obsessão pelo novo herói nacional fazem-na parecer genuinamente enlouquecida. A sua cruzada a ver o que mais ninguém vê, sozinha contra o mundo, é brilhante.

Mandy Patinkin, o mítico Gideon de Criminal Minds, é o secundário de luxo. Saul Berenson é uma lenda da CIA e o mentor de Carrie, é a voz da consciência sempre presente. O seu farto carisma faz o resto.

Homeland corre nos Globos para Melhor Drama, Actor e Actriz dramáticos. Lewis e Danes são candidatos de peso. A série não é a melhor do ano, mas que ninguém duvide que é um thriller de todo o tamanho.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

The Adjustment Bureau


Ficção científica da fraquinha.

The Adjustment Bureau especula com a pré-determinação do destino humano, concebendo uma realidade onde, inconscientemente, as pessoas estão obrigadas a respeitar um plano específico para as suas vidas. Para garantir que estas o cumprem, existe um séquito de meio-anjos-meio-humanos às ordens do Criador, que "ajusta" o dia-a-dia dos indivíduos. Como é bom de ver, nada como um romance proibido para dar uma cambalhota na coisa.

O filme é francamente pobre, mal feito e até inestético. Durante quase todo o tempo as coisas têm de ser de uma maneira porque sim, se não vai correr tudo mal porque sim, para no fim a bottom line estar ao nível de uma qualquer frase motivacional rasca da internet.

A única coisa verdadeiramente interessante é a performance da deslumbrante Emily Blunt.

5/10

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Super 8


Depois de ter produzido Cloverfield, J.J. Abrams fez-se à estrada e escreveu e realizou o seu próprio monster movie. Até chegarmos ao último terço e entrarmos no palco do monstro e de uma mini zona de guerra, o criador de Lost tinha em mãos um dos filmes do ano.

Durante o Verão de 1979, numa pequena cidade da "América profunda", Super 8 é a história de um grupo de amigos (por volta dos 14 anos) a tentar realizar um filme, e da maneira como a sua vida é afectada pelo descarrilamento de um misterioso comboio militar, numa das suas noites de filmagens. Super 8 apanha muito bem a essência desses anos idos, ilustrando-os com uma nostalgia cativante, e tem sempre os miúdos como personagens centrais, o que, podendo ter levado a uma infantilização da acção, contribuiu, pelo contrário, para um ângulo fresco, capaz de nos relembrar dos nossos sonhos e aventuras de crianças.

Nota-se que Abrams investiu muito nos seus miúdos. Investiu e escolheu muito bem: na verdade, Joel Courtney e Elle Fanning (irmã de Dakota, dez vezes melhor do que ela) são magníficas revelações e absolutas mais-valias para o filme. Sérios e profundos, chegam a parecer adultos presos no corpo de crianças, mais velhos do que a sua idade, pelas circunstâncias das suas vidas. A química da aproximação entre os dois é a cereja no topo do bolo. E ainda vale a pena mencionar Riley Griffiths, um pequeno realizador cheio de cor.

Pena que o livro da inspiração se tenha fechado para o resto. Abrams não conseguiu inventar um fim, e ficou-se por uma amálgama de coisas que já vimos em todo o lado - a maior parte sofríveis -, um bom par delas sacadas de caras a Spielberg, que produziu Super 8 e serviu claramente de inspiração. Com meio caminho tão bem feito, ficou a saber a pouco.

7/10

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Lifeless eyes


"Japanese submarine slammed two torpedoes into our side, Chief. We was comin' back from the island of Tinian to Leyte... just delivered the bomb. The Hiroshima bomb. Eleven hundred men went into the water. Vessel went down in 12 minutes. Didn't see the first shark for about a half an hour. Tiger. 13-footer.

(...) What we didn't know, was our bomb mission had been so secret, no distress signal had been sent. They didn't even list us overdue for a week. Very first light, Chief, sharks come cruisin', so we formed ourselves into tight groups. (...) The idea was: shark comes to the nearest man, that man he starts poundin' and hollerin' and screamin' and sometimes the shark will go away... but sometimes he wouldn't go away. Sometimes that shark he looks right into ya. Right into your eyes. And, you know, the thing about a shark... he's got lifeless eyes. Black eyes. Like a doll's eyes. When he comes at ya, doesn't seem to be living... until he bites ya, and those black eyes roll over white and then... ah then you hear that terrible high-pitched screamin'. The ocean turns red, and despite all the poundin' and the hollerin', they all come in and they... rip you to pieces. You know by the end of that first dawn, lost a hundred men.

(...) Noon, the fifth day, a Lockheed Ventura saw us and he come in low and three hours later a big fat PBY comes down and starts to pick us up. You know that was the time I was most frightened... waitin' for my turn. I'll never put on a lifejacket again. So, eleven hundred men went in the water; 316 men come out and the sharks took the rest, June the 29th, 1945. Anyway, we delivered the bomb."

Quint (Robert Shaw), Jaws (1975)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Desertor, de Daniel Silva


Quem gosta de thrillers não pode deixar de gostar deste.

O autor é Daniel Silva, um americano com a curiosa particularidade de ser filho de pais açorianos. Começou a carreira como jornalista da United Press, e, no fim dos anos 80, fixou-se no Cairo, como correspondente da agência no Médio Oriente. Voltaria depois para Washington, onde foi produtor-executivo da CNN até 1997, altura em que, devido ao sucesso do seu primeiro livro, passou a ser escritor a tempo inteiro.

Em 2000, já com 3 livros escritos, criou aquela que se tornaria na sua maior marca: a saga de Gabriel Allon, um restaurador de quadros israelita que, no seguimento dos atentados aos atletas judeus nos Jogos Olímpicos de 1972, é treinado pela Mossad para ser espião e executor, e levar a cabo a mítica operação Ira de Deus, destinada a matar todos os responsáveis. Desde aí Allon torna-se numa verdadeira lenda da Mossad, um espião e assassino de elite, o homem encarregue de perseguir e matar todos os grandes inimigos do Estado de Israel.

Desde 2000 Silva editou 11 livros, literalmente um por ano, todos na lista de mais vendidos do New York Times: os últimos 4 chegaram mesmo ao mítico #1 da lista, dado mais do que identificativo do seu sucesso.

O Desertor (2009) é o número 9 da série. Dá seguimento a As Regras de Moscovo (2008) - o seu primeiro número 1 do Times - , com Allon e a sua equipa a terem desta vez motivações pessoais para levar a cabo a sua missão.

Mesmo com a saga avançada, é um thriller de indiscutível qualidade, que vale por si só. É intenso, com uma cadência fortíssima e o mérito de ser muito bem gerido: mais descritivo em dadas alturas, prolongando os momentos de tensão, alguns dos quais magistrais, mais objectivo noutras, cortando momentos óbvios, ora do ângulo da acção ora numa espécie de flashbacks. As sucessivas referências a momentos passados dão-lhe coesão e identificam-nos com o grande protagonista que é Gabriel Allon, líder carismático e assassino assombrado.

O que me impressionou mais foram as personagens. Daniel Silva é um absoluto mestre da caracterização, e todas as suas personagens são absolutamente cativantes. Têm passado, profundidade, relações e histórias comuns. Mesmo para quem nunca leu nenhum dos outros livros, projectam uma coisa apaixonante: cumplicidade, o que torna a sua interacção deliciosa. Comparativamente a Dan Brown, com quem tenho mais familiaridade no género, Silva é francamente superior neste aspecto: a riqueza das personagens e a profundidade da história.

Brown, pelo contrário, é mais forte na contextualização. Os seus livros, com mais ou menos erros, são pequenos tratados de história e religião, com uma oferta de informação farta; Silva, que cresceu cristão mas converteu-se ao judaísmo, investe mais numa escrita jornalística sobre política e ordem internacional (neste caso, o pano de fundo era a densidade da Rússia do século XX), fixando-se em temáticas judaicas: o holocausto, o anti-semitismo, a agressividade islâmica, etc, sempre do ângulo da história de vida do seu protagonista.

Apesar de partilharem o mesmo ritmo de escrita, Brown, no auge pelo menos, era mais surpreendente e desconcertante. O Desertor, apesar de rico em quase tudo e do clímax magnífico, tem uma ponta final previsível, e esse é o seu ponto fraco.

Não desfazendo, é uma obra com um potencial cinematográfico imenso, e os direitos já foram comprados pela Universal. Paul Haggis (Million Dollar Baby, Crash, Casino Royale!) é o homem de quem se fala para fazer a primeira adaptação (argumento e eventualmente realização). Cá esperamos, contando voltar a Daniel Silva em breve.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Unknown


Não é nada de especial.

Unknown é um thriller criminal que joga com a já muito batida premissa do cidadão normal a quem roubaram a identidade, e o caminho que escolhe, o de que o visado, afinal, não é assim tão normal, não traz grande coisa de novo. É verdade que é bem filmado e bem tratado, e isso costuma ser meio caminho para prender as pessoas, e há sequências típicas de thriller que têm qualidade, como os momentos de fuga e de desorientação, mas a história é mal sustentada, simplista e acaba de forma sensaborona. A juntar a isso ainda tem exageros a mais - na sorte, no espectáculo visual ou na passividade em momentos importantes -, pelo que o produto final é só razoável.

A força da presença de Liam Neeson será a maior qualidade do filme. É um trabalho à imagem do que tem feito, onde o norte-irlandês se sente à vontade, e o seu talento e imponência continuam a ser incontornáveis. Também Bruno Ganz, o célebre Hitler de O Fim do Terceiro Reich, foi uma mais-valia, e o quase misticismo da sua figura merecia maior e melhor aproveitamento. January Jones e Diane Kruger, pelo contrário, passam completamente ao lado.

Para quem for fã do género, apesar de tudo, não será completamente tempo perdido.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Código Base


O cenário é um atentado terrorista em Chicago que antecede um ainda maior, radioactivo. A acção centra-se num programa militar experimental, que possibilita que um comando (Jackie Gyllenhaal) volte aos eventos do passado, no caso, aos últimos 8 minutos antes do atentado inicial dessa manhã, na pele de um dos john doe que morreu na explosão. O objectivo é tentar descobrir quem foi o responsável e, assim, evitar a catástrofe seguinte.

Source Code tem o mérito de não ser um filme pretensioso e, mesmo sem traços geniais como Inception, trabalha muito bem o cenário de realidades paralelas. Tem uma certa classe na simplicidade e acaba por ter um excelente enquadramento, quando se compreendem as condições em que o protagonista tem de cumprir a sua missão, mesmo sem nunca ser chocante ou groundbreaking.

Não é um filme em que as interpretações se evidenciem especialmente, mas Gyllenhaal está bem, naquele seu registo consistente de sempre. Vale a pena sublinhar que o filme nem chega à hora e meia, e que, ainda mais por isso, é um produto muito bem conseguido.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

The Next Three Days


É o tipo de filme que acerta facilmente, e que me costuma apanhar: thriller, com realização e argumento dum grande senhor - Paul Haggis, que tem, às suas custas, coisas como Crash, Million Dollar Baby e Casino Royale - e um elenco de luxo, ponteado por Russel Crowe, a minha maior referência.

Há ritmo, há a qualidade intrínseca por toda a gente boa que tem envolvido, e até existe uma ou outra nuance interessante, sobretudo a humanização e o sacrifício dalguém que leva a cabo esse plano sem ser nenhum mastermind, e sem estar a lutar contra o sistema ou o que quer que seja. Mas a verdade é que não foi suficiente. Não era fácil fazer um filme sobre tirar alguém da prisão e fugir, porque mais batido que isso é difícil, e The Next Three Days não consegue evitar o exagero e a previsibilidade, o que torna inevitável que se esgote, e perca progressivamente o interesse, nas suas mais de 2 horas.

Crowe não está frouxo, mas fazem-lhe falta papéis ao nível de Cinderella Man (e de Beautiful Mind, e de Gladiator...), já lá vão seis anos. O verdadeiro perfume interpretativo de The Next Three Days são os 10 minutos (nem sequer) de Liam Neeson, uma eterna chapa de qualidade.

Podia ser bem melhor.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A cidade


De coisas mais ligeiras como os Oceans, até obras tremendas como Inside Man e Heat, tenho uma certa paixão pelo que podem ser descritos como filmes de ladrões. Não é preciso ir à psicologia para absorver a beleza e a romantização daquilo. Filmes de ladrões são sempre um obrigatório, e The Town fez-me salivar desde a primeira vez que o vi. Sem sequer falar do elenco colossal, e correndo o risco de me fiar em trailers exuberantes por definição, aquele gritava alto.

O primeiro apontamento que posso fazer sobre o filme tem exactamente a ver com isso: a cadência que deslumbra no trailer não é uma coisa desenhada para esses dois minutos e meio, mas antes o ritmo da própria película em si. Affleck, depois da aclamada estreia em Gone Baby Gone, investe aqui num filme muito ritmado, que abusa da edição para abanar uma acção que já seria sempre mexida. E funciona mal. Em muitos momentos das quase duas horas de filme, a ideia de atordoar tornou-se num atropelo, resultado dessa realização um tanto ou quanto turva.

Ao argumento, co-escrito pelo mesmo Ben Affleck, que já ganhou Oscar na modalidade (Good Will Hunting, 1997), também se exigia mais. Há muita coisa feita nisto dos filmes de ladrões, muitos lugares-comuns, e se um ou outro até pode ser tolerável, construir a narrativa sobre eles não é. E o pior foi a simplicidade constrangedora com que se inventou a óbvia história de amor, arrasadoramente a seco.

Ao nível do cast, as coisas melhoram. Jon Hamm parece directamente saído de Mad Men, e não funciona, e Rebecca Hall podia estar mais forte, porque é uma das melhores da actualidade, mas o elenco é tão farto em qualidade, que garante o sucesso. Jeremy Renner, acima de todos, é fantástico, e leva o filme às costas com uma interpretação crua e visceral, oposta a todo o romantismo que costuma estar associado a estas coisas. Affleck também faz coisas bastante boas, mas é prejudicado, ironicamente, pela sua manifesta pobreza nas cenas amorosas, onde nunca escapa às posturas-cliché de menino bonito. Uma última nota para os secundários, nada menos do que Chris Cooper e Pete Postlethwaite, e ainda a belíssima Blake Lively, uma agradável surpresa.

Passe tudo o que critiquei, The Town não deixa de ser um filme que vale a pena ver. Tinha potencial para ser bastante melhor, e é nessa óptica que lhe saliento as falhas, mas além da génese cativante e do óptimo elenco, tem um contexto muito bom (a herança intrínseca do crime em Charlestown, Boston), um fim com qualidade, pormenores de realização/fotografia muito bonitos, e uma simbiose de alto nível - a interacção entre Renner e Affleck - que garante cenas de grande qualidade, as melhores do filme.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A masterpiece


Shutter Island é um dos filmes mais extraordinários que já vi. É tão perturbadoramente bom, que, mesmo tendo acabado de vê-lo, é-me difícil escrever sobre ele. Shutter Island rompe quase todos os cânones de densidade, de complexidade e de nervo de um thriller, de um drama, ou do cinema em geral, sendo uma obra monstruosa, à qual não falta nada, desde os mais inesperados twists and turns, e deus sabe como é difícil eles serem tão perfeitos, a um argumento verdadeiramente de tirar o fôlego, incrível (baseado no livro dum senhor chamado Dennis Lehane, também autor, imagine-se, do extraordinário Mystic River), aos quais se juntam a realização do Scorsese, esmagadora em todos os pormenores, o show do Di Caprio (talvez, hoje, o melhor do mundo), e até os 5 minutos de cena do Jackie Haley (o Rorschach de Watchmen), numa lista que podia continuar e continuar.

Shutter Island é um filme sobre a mente humana. Fala de traumas, e de como eles nos podem perseguir a todos, independentemente de quem formos, para nos ultrapassarem e nos vergarem, inapelavelmente. Trata o perturbador mundo da psiquiatria, para abordar a realidade e tudo o que nos ultrapassa, e, ainda assim, fala sobre lucidez, segundos de lucidez, sobre o âmago, e sobre o extremo sacrifício que leva às verdadeiras vitórias. É um filme sobre o que somos, sobre o que sabemos que somos, e sobre tudo o que não podemos dominar. E, acima de tudo, sobre consciência. Mesmo que de uma centelha, sobre consciência.

Provavelmente não dará para perceber muito do que é Shutter Island pelo que acabei de escrever, mas nem eu terei percebido, ainda, o verdadeiro alcance do filme de Scorsese. Garanto, no entanto, que vê-lo, será, muito provavelmente, a melhor opção cinematográfica que vão tomar este ano. Mais do que como um ensaio moral ou reflexivo, pela verdadeira obra-de-arte que é.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Harry Brown

Harry Brown é um filme sobre a insegurança e a violência gratuita dos nossos dias, especialmente na óptica dos idosos, esses, mais do que qualquer outros, impotentes perante o que se passa à sua volta, e ainda menos, quando são eles os alvos injustificados. Tem, também, um carácter um tanto ou quanto libertador, fazendo a ponte entre o conformismo crónico e a acção propriamente dita, a tomada de uma atitude, e, nesse aspecto, sem ser um filme muito rico ou cativante, tem uma quota-parte de interesse. Pese já sentirmos o velhinho Michael Caine com pouco fôlego para estas coisas.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O único breathtaking de 2009


Pondo-o duma maneira simples, é o seguinte: Brothers é um dos melhores filmes de 2009, de longe melhor do que metade dos oscarizáveis deste ano. Acho que passou mais ou menos despercebido a muita gente, e, quando o apanhei perdido numa lista do imdb, olhei para o elenco e estranhei mesmo não ter ouvido falar dele. Ia à espera duma coisa decente, pese o cliché à Pearl Harbor (irmão morre, outro irmão preenche a família), mas, obviamente, nada deste nível. Brothers é um filme extraordinário, sufocante e visceralmente tenso, que tem aquela capacidade tão comum aos grandes filmes de pegar numa estória que toda a gente já viu, e pô-la de pernas para o ar, partindo a loiça toda. Brothers não é um filme poético, nem nunca procura ser bonito, ou condescendente, tendo, aliás, como um dos seus trunfos, o prolongar duma violência psicológica atroz, e tudo isto no cenário da família do soldado americano normal, que foi para a guerra. É um filme poderosíssimo, que explora o lado negro da guerra, como muitos outros, sim, mas na recriação, não do detalhe do combate, mas da incrível dureza mental que o constitui.

De resto, funciona quase tudo. A realização de Jim Sheridan, um velho caminhante que, entre Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento, já foi 6 vezes nomeado pela Academia!, é muito boa, sempre a evitar o óbvio, sempre sedenta e arrasadora nos momentos de tensão, e, individualmente, aquilo é todo um manual. Jake Gyllenhaal não tem um papel difícil, mas cumpre-o com uma envolvência muito interessante, e Natalie Portman prova porque é uma das grandes da actualidade (e, desde há uns anos, a minha actriz preferida), com uma delicadeza, um jeito e uma beleza desconcertantes (tenho, para mim, que será das poucas mulheres de Hollywood genuínamente bonitas no mundo a sério). Percebemos o seu talento, quando nos custa a crer que o que ela faz, afinal, não é a sério. Ainda assim, os louros vão, sobretudo, para o desempenho estratosférico de Tobey Maguire, por quem eu, sinceramente, nunca dei um chavo, e que faz, aqui, certamente, o melhor papel da carreira. Diria, e gostei bastante do Clooney, do Renner e do Bridges, que ele mete num chinelo qualquer um dos nomeados deste ano. Juro que não percebo como é que a Academia se esqueceu disto.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

"Never compromise. Not even in the face of Armageddon. That's always been the difference between us, Daniel."*


Um Cidadão Exemplar é um filme bem feito. Transcende, dalguma maneira, o tradicional thriller mais comercial que é (duas caras conhecidas, uma premissa muito colada ao âmago de qualquer um), e abraça uma mensagem forte, que é, justamente, aquilo que o diferencia. Não é um filme, ao contrário do que o próprio trailer pode sugerir, só sobre vingança, assente em todo o espectáculo visual que vende, qual Punisher. Na essência, Law Abiding Citizen fala de compromisso, de justiça e da putrefacção de todo um sistema, e não se inibe de ser politicamente incorrecto e agressivo para o próprio espectador, para provar que certas convicções só podem ser defendidas se não existirem concessões. Se não houver um momento para parar, um limite. É sempre intenso, bem feito ao nível da gestão desses tais momentos de adrenalina, mas também sempre puro, na ideia, pese todas as explosões e todo o sangue. Sem ser perfeito, porque falta qualquer coisa àquele fim e, sobretudo, porque é individualmente pobre (quer o Jamie Foxx (Ray...), quer o Gerard Butler (300...) deixam, ali, muito pouco de si), não deixa de ser um dos melhores thrillers de 2009. Aconselhado.


*ainda uma citação via Watchmen, mas bastante apropriada, aqui

domingo, 28 de março de 2010

"Sometimes, i feel like Diogenes. You know, the guy who walks alone with a lamp looking for an honest man"


Edge of Darkness é um thriller com muito de previsível e pouco de criativo. As linhas gerais (a tradicional conspiração americana, a investigação desesperada ao sistema, etc) são perfeitamente banais, pelo que, quem o for ver, não deverá esperar surpresas de maior. Há uma ou outra, mas de pequena monta, valendo a coisa, sobretudo, pelo repentismo e pela intensidade dalgumas cenas, e, ainda, pela personagem de Ray Winstone que, sem ser central, é, de longe, o seu maior brilho. O filme parece, durante muito tempo, mal editado, com cenas coladas sem grande ligação, ficando por explorar alguns momentos, emocionais sobretudo (na primeira parte do filme, o sofrimento do protagonista é muito mal gerido), para o que também contribuíu um Mel Gibson já distante do fulgor e do carisma dos velhos tempos. O filme também aposta muito num entendimento subliminar, em não explicar coisas para incentivar uma espécie de dedução, mas a confusão é grande, e, ao fim ao cabo, à trechos da acção que não são totalmente compreensíveis, assim como tiradas que não têm ponta por onde se lhe pegue (Gibson diz, depois de cenas com alguma intensidade, coisas como "e aperte o cinto", ou "e diga aos polícias para não mijarem nos arbustos"...).

Este será, ainda assim, um filme com um mínimo de competência, que até segue num certo crescendo, e não acaba de uma maneira totalmente desinteressante (o joker que é a figura de Winstone também contribui para isso). Para quem quer passar um bocado a ver uma mistura de drama e acção, e quer fugir a qualquer coisa densa, serve bem. Só reforço que, além da pouca criatividade, é um filme um bocado desleixado nos acabamentos, que dá a sensação de ter sido feito a despachar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

The Crashing of Pelham 123

Este Pelham não é um sequestro, é um desastre. Podia ser só um sequestro, qualquer coisa para passar mais ou menos esquecida, mas estamos a falar do Tony Scott a realizar o Denzel, o Travolta e o Gandolfini, e, portanto, desculpas não estão aqui à mão. Ok que o filme nunca induz em erro, no sentido de negar a sua génese comercial, mas há limites para tudo, e gente com este traquejo, não devia acabar numa coisa tão pobrezinha.

Acima de tudo, acho que o filme é mal gerido. O mauzão podia ser ou um capote a nível ideológico, tipo Joker, ou um sangessuga por dinheiro, tipo mauzão do costume, e acaba por ser meio dos dois, o que, para mote, é fraco, ainda por cima pela linha que o filme toma durante muito tempo. Depois, não se explora a personagem do presidente da câmara, um paupérrimo Gandolfini, temos uma figura de chefe só a mandar papaias, e temos um bando de quatro gajos em que três são espantalhos, o que é das coisas mais constrangedoras que existe. Até uma boa ideia, como o plano de fuga do golpe, que tinha o seu charme, é toda rebentada da maneira mais estúpida possível. E, claro, a cereja no topo do bolo são os sound-bytes à lá american hero, essa aberração transversal, como o namoradinho-que-está-a-morrer-e-diz-pela-webcam-que-ama-a-namorada, ou a mulher-do-protagonista-que-não-só-exige-que-o-marido-volte-a-casa-vivo-como-que-lhe-traga-"four-gallons-of-milk!" ou o presidente da câmara a dizer ao herói improvável, ao simples controlador do metro, que quando disser que Nova Iorque vale a pena, vai-se lembrar dele e saber porquê. Não há nada tão lixo como estas tiradas fofas.

Com um Denzel novamente mortiço, pouco intenso e com pouca alma, depois dos muito fraquinhos American Gangster e The Great Debaters, apesar da boa vontade, o filme valeu, única e exclusivamente, por um Travolta fantástico. Já disse que o background da personagem foi mal conseguido, porque um doido puro, ali, tinha partido tudo, mas, ainda assim, estamos perante uma senhora interpretação. Frio, sempre no limite, genuínamente perdido, louco até. Não salva a honra do convento, mas marca um pontinho de dignidade. E é sempre bom ver um nome como o dele, ainda ir a tempo de fazer umas coisas destas. Pese a envolvência.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O Crowe a ser jornalista = obrigatório

Um bom filme não tem, necessariamente, de ser denso a nível psicológico, nem tem de ter uma grande mensagem subliminar, e este State of Play é um óptimo exemplo disso. O filme vive de uma candência incrível, dum ritmo perfeitamente fantástico, e essa capacidade para explorar a dimensão e as potencialidades do cinema, para nos deixar boquiabertos e expectantes, faz dele, sem dúvida, um trabalho muito bom. Para quem gosta de thrillers então, é um absoluto must. Longe de exagerar na acção, como poderia ser tentado a, é um filme que triunfa pelo facto de ter uma escrita muito, muito boa, co-autoria dum senhor chamado Tony Gilroy, que um dia criou um dos melhores argumentos que já vi em cinema, esse portento chamado Michael Clayton. É uma escrita, se quisermos, "cinematográfica", no sentido em que, como já disse, o impacto que caracteriza a indústria, o poder, está todo lá. O que está longe de ser uma coisinha fácil. E, imagine-se, até dá para sentir o perfume de redacção no ar.

O elenco assusta, só de o ler. E a verdade é que corresponde, com o enorme Russel Crowe à cabeça. É o regresso duma referência, depois dos fraquinhos American Gangster e Body of Lies, na pele dum jornalista-velho-caminhante, que lhe assenta como tudo. O Crowe tem carisma, tem estilo, e o papel é aquilo, só pode. É muito bom tê-lo de volta. A Helen Mirren ganhou a minha admiração. Fui dos que nunca chegou a ver A Raínha, infelizmente talvez, mas facto é que a senhora é um vulto, um colosso. A Rachel McAdams, sem brilhar, e com um início um tanto ou quanto deslocado, consegue acabar muito bem, a fazer um contraponto giro, e não podia deixar de falar na Robin Wright Pen, muito bem encaixada, pese o papel ter sido pouco explorado, que é linda, do alto dos seus 43 anos. Só não consegui gostar do Affleck. Pode ser mania minha, mas, para mim, ele continua a valer pouco, a ser inconsistente, muito menino bonito e pouco actor. Além de que não está muito para colega de faculdade do Crowe, definitivamente.

O filme só fraqueja nas ideias-chave. Algures entre o cliché e o previsível, são elas que borram a pintura, que não honram uma escrita que merecia melhores acabamentos, um nadinha de maior inspiração. Não era preciso ter feito a coisa à volta duma grande conspiração, muito menos jogar tanto com coincidências, nem pôr o jornalista e o congressista a serem amigos desde sempre, etc. Felizmente, mesmo rodeado de certas linhas fracas, e mesmo a roçar o previsível, o fim acaba por elevar a fasquia, e o filme conclui-se de uma forma poeticamente inglória, que o sela com chave de ouro. Para quem goste duma coisa ritmada, com um grande elenco, uma boa história e um cheiro a jornalismo, é vivamente recomendável.