sábado, 28 de novembro de 2009

Isabella


Surpreendeu-me. Não pelo interesse dos personagens ou até da história em si, já perceptíveis no Twilight, muito menos por ter conseguido ultrapassar problemas graves de diálogo, porque não o conseguiu, mas pela saga ter sobrevivido à sequela, e, sobretudo, à histeria, sem se ter deixado avacalhar, ou seja, sem ter perdido a suavidade que a caracteriza. A maior qualidade do filme é, sem dúvida, a realização. Meticulosa e lúcida, soube contornar quase todos os exageros e gerir muito bem a edição dos planos (há sequências que, visualmente, são muito muito boas, e não estou a falar de efeitos especiais), não descurando, sequer, o enquadramento de uma excelente banda sonora, que, apesar de ser inferior à do Twilight, volta a resultar muito bem.

As personagens têm uma densidade natural, e parte do cast volta a sobressair, porque foi uma boa escolha. É o caso do par Bella-Edward, que resulta claramente, quer porque a Kristen Stewart tem uma delicadeza genuína no papel, quer porque (vá lá saber-se porquê, cof cof) o Patinson consegue vender-se como vampiro de uma maneira que, pelo menos a mim, me surpreende. O caso do Jacob é o oposto, porque o personagem tem condições para ter uma expressão tremenda neste filme, mas não a concretiza, quer pela falta de traquejo do Taylor Lautner, quer pelo aberrante caparro com que ele se apresenta no filme, que mata, à nascença, tudo o que ele poderia vir a fazer ali como actor.

A personagem do Jacob remete, também, para um dos pontos mais pobres do filme: os lobos. Os efeitos especiais ficaram deslocados e a bonecada só desacredita a história, quando uma abordagem metafórica, além de mais lógica, teria resultado infinitamente melhor. No mesmo pacote, estão as enervantes aparições do Patinson pelo filme, qual Nossa Senhora, algo só batido pelo que este New Moon tem mesmo de pior: os diálogos. A edição do livro falha rotundamente neste ponto, e os diálogos, sobretudo os mais pessoais, são uma muito pouco comestível papa de soundbytes, que só vêm dar ao filme um muito empobrecedor tom cliché. Não deixa de ser curioso, contudo, que o soundbyte final, a última linha, resulte incrivelmente bem. Ela e o tacto de acabar o filme no segundo seguinte, têm o dom de criar uma última imagem muito própria, daquelas que se dá ao luxo de continuar a pairar na nossa cabeça. Na verdade, longe de ser motivo para se escabelar, este New Moon não deixa de ser um filme agradável, porventura injustamente underrated.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

My name is quase Traveller

Não sei se mais alguém se lembra do Traveller. A coisa começou a dar na RTP, no tempo em que a RTP tinha tradição nas séries de fim-de-semana, e, na altura, na ressaca de Losts e Prison Breaks, não me escapou. Versava, tricas para dominar o mundo à parte, sobre um rapaz supostamente normal mas que afinal era um agente secreto (buésda criativo, eu sei) o qual, no seu processo para ser visto como um rapaz supostamente normal antes de explodir com qualquer coisa, passou um par de anos na faculdade, a fazer amigos. Quando ele lá decidiu abalar para ir explodir as tais coisas, e acharam de ir atrás dele, toda a gente procurou uma foto e pumba!, o bandalho escapava em todas. Estava sempre tapado, de costas, na sombra, ou seja, pura e simplesmente nunca tinha existido na faculdade. Devo dizer que me sinto, nestes dias, um quase Traveller. Não por ser um agente secreto (e até posso realmente ser, sublinho), mas porque a minha existência na faculdade foi ferida de morte. Outra vez. Na infinitesimal probabilidade de acontecer, eu, que não sou gajo de andar a saltar em cima dos meus computadores, muito menos de andar a lhes pegar fogo, consegui queimar dois discos rígidos, de dois computadores diferentes, nos últimos 5 meses. Isto quer simplesmente dizer que, dado os 70 euros dos discos externos sempre me terem posto a olhar para os bichinhos de longe, eu perdi toda a merda de apontamentos e de trabalhos que fiz no meu bendito ano e meio de faculdade. Pois que caralho. Ok que já está tudo apresentado, que, nos apontamentos então, provavelmente nunca mais ponho a vista em cima, mas por amor de deus, havia necessidade? Agora é ver-me andar aí, feito um triste, a catar trabalhos de grupo, a pensar em digitalizar merdices impressas que já estão fartas de arrotar pó em cima do vestuário, só para salvar uma réstia de dignidade, perdidos que estão, ad eternum, um montão de individuais. Os do Milan, ainda por cima, que foram os que deram mais gozo, e mesmo uns portefólios para a Tininha que, do alto dum rol de impossibilidades, até correram bem. Isto não se faz.

domingo, 22 de novembro de 2009

A great artist can come from anywhere

Menosprezei, durante muito tempo, os filmes de animação, e, portanto, fui perdendo, pelo caminho, muitos filmes que não deveria ter perdido. É por isso que só ontem, alguns 2 anos e 3 meses depois da estreia, depois de um Óscar e de outra nomeação na bagagem, é que acabei por ver uma pequena pérola chamada Ratatouille. Espantou-me, de facto. Como sempre. Não a capacidade indizível da Pixar para fazer bonecos inesquecíveis, mas o seu talento ÚNICO para contar histórias. Na Pixar, é possível fazer argumentos incríveis sobre tudo, sem qualquer ponta de exagero. De super-heróis até peixes balão longe de casa, de robôs apaixonados até casas que voam com balões. De tudo, até de um rato que pode ser o melhor de todos, no país dos cozinheiros.

Vendo bem, dizê-lo assim é redutor, e não traduz a verdadeira dimensão do que está, aqui, em causa: não há nada nem ninguém que mereça tanto um Óscar de melhor argumento como a Pixar. Ninguém. Ratatouille não é um filme para crianças, é só um filme que qualquer criança, e qualquer outra pessoa, de qualquer idade, devia ser posta a ver. Não é, sequer, um filme sobre ratos, é um filme sobre humildade e paixão por uma causa, um filme que ensina a toda a gente que o talento pode estar em qualquer lado e pode aparecer a qualquer altura. Sem limites, sem excepções, sem impossíveis. É claro que, depois, a cor da Pixar e a riqueza das personagens, dum ícónico chefe Gusteau ao altivo vulto de Anton Ego, fazem o resto. Até o pequeno Remy é lindamente esgalhado, e é só um rato. Dos feios, por definição. É bonito que a história se passe em Paris, é bonita a exaltação da cidade no contexto do filme, e o argumento ainda tem o dom de ser muito fluido, fruto de uma edição superior.

O fim condiz. O filme acaba, simplesmente, com um monólogo desse monstro chamado Peter O'Toole, um ancião e uma referência, a emprestar, ao bom romance, uma daquelas vozes que respeitamos mal a ouvimos sibilar. Um dia, gostava de fazer coisas assim.

sábado, 21 de novembro de 2009

Toda a Monarquia tem a sua Família Real

"Os centros de vacinação da Região estão a ministrar a vacina contra a Gripe A aos titulares de cargos públicos de acordo com listas enviadas pelas próprias entidades (...) O certo é que nos últimos dias, no Centro de Saúde de Santo António, familiares de governantes foram tratados como grupo de risco e vacinados.

Esse foi, pelo menos, o caso da família do vice-presidente do Governo Regional que recebeu a vacina em Santo António na última quarta-feira. (...)

Estas vacinas foram ministradas sem a apresentação de uma credencial. (...) A única justificação apresentada foi de que a "ordem veio de cima"."

in Diário de Notícias da Madeira

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ensaio sobre a Cegueira

"Os velhos do Restelo devem guardar o veneno para outras núpcias. Aqui, hoje, agora, temos de ser claros: Carlos Queiroz, a Selecção Nacional e a FPF estão de parabéns.

(...)
Os instrumentos de tortura verbal, os espartilhos da confiança e as penas crivadas de saudosismo bacoco têm de se submeter a um recolher obrigatório. Sem santinhas, sem mezinhas, sem agressões a atletas adversários, sem exemplos de arrogância e malcriadez para com a comunicação social (quem não se sente não é filho de boa gente), Portugal está no Campeonato do Mundo.

(...)
Carlos Queiroz trouxe organização, trouxe método, trouxe seriedade. Estas valências não podem ser colocadas em causa por alguns jogos menos conseguidos.

(...)
Sem ter uma geração de ouro à sua disposição (Figo, Rui Costa, Sérgio Conceição, Fernando Couto, Pauleta, por exemplo), Queiroz soube edificar o conceito de equipa. Retirou o conjunto dos escombros da desconfiança, sustentou-o e entregou-o à vitória."
Pedro Jorge da Cunha, in maisfutebol

Passámos em Zenica como gente grande. Com qualidade, conscientes do que valíamos, como uma equipa a sério. Não chegou a haver um único momento, um único, em que a Bósnia tivesse conseguido pôr em causa o nosso controlo do jogo, e isso é fantástico, por toda a instabilidade que rodeou esta Selecção e por toda a motivação que rodeava os bósnios. Esta Selecção não tremeu na fase do tudo por tudo, e essa presença de espírito, essa capacidade competitiva, retrata uma evolução clara da equipa como equipa. Isto será, talvez, o aspecto mais constituinte duma Selecção e, neste âmbito, concordo que podemos acreditar que o futuro tem tudo para ser mais risonho.

Agora, o facto de nos termos realmente qualificado, depois de eu e muitos outros já não o acreditarem, não torna tudo num mar de rosas, como uns quantos chicos-espertos querem fazer passar. Não é por estarmos finalmente lá, com uma selecção que tem melhores do mundo e que tinha a obrigação de ganhar um grupo onde era infinitamente melhor, que se legitima a versão destes anedóticos ceguinhos pró-Queiroz de que tudo está bem quando acaba bem. Dizem eles que, ok que a Selecção não joga um caralho, ok que anda com o coração nas mãos, jogo sim, jogo sim senhor, mas agora tem método e seriedade, e isso é que interessa! Por favor, defender isto é demente, tão demente como atacar o Scolari, num vómito declarado, ressuscitando o soco a um sérvio e a lenga-lenga da geração de ouro, para recusar a dimensão extraordinária de tudo o que ele conseguiu cá. Teve tudo a ver, imagine-se, com as mézinhas e as santinhas daquele imbecil, que só nos tornou em vice-campeões da Europa e em quartos melhores do Mundo com uma geração de ouro, não com coxos como um Bosingwa, um Ricardo Carvalho, um Pepe, um Bruno Alves, um Deco, um Ronaldo, um Simão, um Tiago, um Meireles ou um Nani. Com estes, só um milagreiro como o Queiroz podia resultar!

Enfim, estamos lá, e isso ninguém lhe tira. O Queiroz cumpriu um objectivo, numa carreira de quases e de insucessos, teve mérito, e, isso, dou-lhe de palmatória. Agora, não esperem é que eu engula convocatórias desiquilibradas, uma gelante falta de espírito de balneário, os bloqueios tácticos e a total falta de postura no banco, só porque ele cumpriu o que qualquer um de nós tinha o direito de lhe exigir, mas com o triplo do sofrimento. É bom que o Queiroz tenha consciência disto e, sobretudo, que tenha a humildade de querer mudar algumas das suas formas de estar. É que se lhe faltar a lucidez que falta a muitos dos que o defendem, perde ele, e vamos perder todos nós.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Eles não têm excesso de confiança, Dr. Merdaíl, eles só querem ser violados

Não gostei. Anda um gajo chateado por não ter computador e por o Queiroz ser uma besta, naquela chateação em que queremos que a Selecção se qualifique mas queremos odiar o Queiroz à mesma, e os cabrões dos bósnios recebem-nos desta maneira. Deu para nos empurrar e cuspir no aeroporto, para nos deixarem sem autocarro, para meterem gente a fazer barulho à porta do nosso Hotel e para o nojento do treinador deles vir dizer que nos vai pôr de joelhos, enquanto eles nos saltam em cima como lobos. A Bósnia anda a dizer isto, a BÓSNIA. Mas que caralho é este??? Amanhã vamos àquele fim de mundo humilhá-los, sem eles sequer perceberem o que lhes passou por cima. O Queiroz vai acertar na táctica e vamos marcar os golos que falhamos na qualificação toda. Eles vão pensar que estão a ser bombardeados outra vez (não resisti). Bring it on, motherfuckers.

sábado, 14 de novembro de 2009

Vou evitar fazer piadas que envolvam sermos bombardeados em Sarajevo

Dizer 500 vezes que o Queiroz, afinal, não é um pé frio, é uma forma bastante irritante de pôr as coisas, mas tem a ver com isso, sim. É que até deu para o pessoal fazer as piadinhas com a senhora do caravaggio quando o bruno alves marcou nos descontos na albânia e quando o liedson marcou nos descontos na dinamarca, mas esta coisa dos bósnios acertarem, nos descontos, duas vezes nos postes, em 5 segundos, já veio tornar tudo muito esquisito. Agora, um gajo quer é acreditar que vamos brincar à Bósnia antes de reservar as passagens para a África do Sul, porque, com esta leiteira descomunal do professor, qual mago mais poderoso do que o sacana que empacotou o Ronaldo nos últimos 2 meses, nada de mal nos há de acontecer, mas toda a gente sabe da probabilidade elevadíssima da própria sorte se fartar de fazer cafunés em burros de merda e, esse dado neste contexto, é muito problemático para nós. Vá lá, vendo bem, também podíamos ter despachado os bósnios mais cedo e, se já lhes tivéssemos enfiado 3, ninguém ia estar amanhã a fazer graçolas sobre postes e o rabinho do Queiroz. Mas toda a gente tem idiossincrasias, e as nossas idiossincrasias (gostei, repeti, problemas?) são falhar golos à frente da baliza, critério, acredito eu, suficiente para naturalizar jogadores, como o bom liedson o ilustrou eloquentemente hoje, e, contra essas, ninguém pode fazer mesmo nada. Bem, se calhar até há o banco e as substituições e a táctica e a convocatória mas, por azar (AZAR, VÊM???) nenhum destes é o forte do Queiroz. Portanto, o que resta dizer é: apesar do mister ter metido na gaveta um losango que tinha vulgarizado a Dinamarca, apesar dele continuar a ignorar o Makukula, o único ponta-de-lança português que tem aquela merda de hábito de marcar golos, e dele levar o Coentrão como única alternativa aos nossos extremos (porque um gajo que ande pelas reservas do Inter deixa de ter necessáriamente qualidade, ou então o Assis, visto que não me lembrei de nenhuma metáfora para ele como a que usei para o Quaresma) e dele ficar satisfeito com um 1-0 em casa, numa eliminatória, até ao minuto 85, isto continua a ser um Portugal-Bósnia e nós somos melhores que eles. A escolher, preferia que o Queiroz tivesse, na 4ª feira, outro porradão de sorte (sabem, não confio muito nele). Mas, se os bósnios não acharem de passar mais 90 minutos a fazer tiro ao poste, e, sobretudo, se entrarem em campo num ambiente enlouquecedor e diabólico, típico de qualquer república ex-soviética (e toda a gente sabe que os ex-soviéticos são loucos e diabólicos), então era fofinho que o Queiroz não fizesse de espantalho outra vez o jogo todo. É que, depois, ficam a faltar 7 meses, nós esquecemo-nos todos desta merda e, em Junho, já somos todos amigos outra vez. Vá lá, professor.