quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Provavelmente, o melhor monólogo que já vi em Cinema

"Michael. Dear Michael. Of course it's you, who else could they send, who else could be trusted? I... I know it's a long way and you're ready to go to work... all I'm saying is wait, just wait, just-just-just... please hear me out because this is not an episode, relapse, fuck-up, it's... I'm begging you Michael. I'm begging you. Try and make believe this is not just madness because this is not just madness. Two weeks ago I came out of the building, okay, I'm running across Sixth Avenue, there's a car waiting, I got exactly 38 minutes to get to the airport and I'm dictating. There's this, this panicked associate sprinting along beside me, scribbling in a notepad, and suddenly she starts screaming, and I realize we're standing in the middle of the street, the light's changed, there's this wall of traffic, serious traffic speeding towards us, and I... I-I freeze, I can't move, and I'm suddenly consumed with the overwhelming sensation that I'm covered with some sort of film. It's in my hair, my face... it's like a glaze... like a... a coating, and... at first I thought, oh my god, I know what this is, this is some sort of amniotic - embryonic - fluid. I'm drenched in afterbirth, I've-I've breached the chrysalis, I've been reborn. But then the traffic, the stampede, the cars, the trucks, the horns, the screaming and I'm thinking no-no-no-no, reset, this is not rebirth, this is some kind of giddy illusion of renewal that happens in the final moment before death. And then I realize no-no-no, this is completely wrong because I look back at the building and I had the most stunning moment of clarity. I... I... I... I realized Michael, that I had emerged not from the doors of Kenner, Bach, and Ledeen, not through the portals of our vast and powerful law firm, but from the asshole of an organism whose sole function is to excrete the... the-the-the poison, the ammo, the defoliant necessary for other, larger, more powerful organisms to destroy the miracle of humanity. And that I had been coated in this patina of shit for the best part of my life. The stench of it and the stain of it would in all likelihood take the rest of my life to undo. And you know what I did? I took a deep cleansing breath and I set that notion aside. I tabled it. I said to myself as clear as this may be, as potent a feeling as this is, as true a thing as I believe that I have witnessed today, it must wait. It must stand the test of time. And Michael, the time is now."
Arthur Edens (Tom Wilkinson), in Michael Clayton

Fazendo uma análise idiossincrática sobre a situação política, social e ideológica do país, parece-me evidente que vamos morrer todos

Esteve a dar um programa qualquer sobre política, ideologia, filosofia e o futuro do país na SIC-N. Não é que me apeteça ver programas sobre política, ideologia, filosofia e o futuro do país agora à tarde, porque até está frio e eu estou agoniado por ter outras coisas para fazer e não as fazer por ser um pamonha, mas, na generalista, a Fátima Lopes anda a entrevistar pessoas para acabarem a chorar ela, a própria pessoa, o público e nós em casa, e essa merda de inspirar outras pessoas ao chorar muito e dizer que somos uns coitadinhos chateia um bocado. Vai daí, também por estar de barriga cheia, e aproveito para fazer a achega, a quem não sabe, de que eu tenho problemas de digestão que podem eventualmente perturbar o meu humor, acabei por parar na SIC-N. Confesso que não percebo um cu de política, pelo que achar que o que se diz para ali é uma merda, vale justamente zero, porque eles são espertos e eu é que sou o burro. Os que estão a falar sobre situacionismo e sobre procurarmos ajuda fora da União Europeia (hum?) não têm piada, pica só a tem um senhor professor de barbicha e tal, e ar muito sério, que falou lá para o meio. Disse o homem que o que está a acontecer agora aconteceu na primeira república (acredito), e que o nosso sistema político está esgotado e clientilizado (palavra nova, hehe) e que o Sócrates pode governar até ao fim do mandato, mas pode é já não ter país para governar. Lá está. Ia o meu dia nublado, e alguém apelou ao meu irreprimível fetiche de menções nos media à morte do país. Estava habituado a ver o António Barreto a falar numa noite eleitoral na SIC a dizer que o país ia acabar, depois a dar uma entrevista ao i a dizer que o país ia acabar, mas cheguei a pensar que era só ele que era tonto da cabeça e dizia estas merdas, mas hoje, ao ouvir este senhor professor, que diz que é Medeiros qualquer coisa, toda uma espiral de percepção irrompeu da minha cabeça, e eu compreendi. Vendo bem, agora toda a gente diz isto, que o país vai acabar, e diz em todo o lado. Quer-me parecer que, para os nossos intelectuais, isto está na moda. "Ah e tal, muito boa tarde, sobre o desemprego? Repare, para mim acho que o país vai acabar". Tem estilo, percebem? Não venham com mariquices sobre como é que vai acontecer ou o que é que quer dizer. Ah mas vamos explodir, vamos ser invadidos, vamos para uma guerra civil, porque é que estes filósofos do caralho nasceram todos aqui? Não interessa! Isto é filosofia, meu povo, intelectualidade pura. Aproveitai, que não há disto lá fora.

Assinado, Michael Bay


Há qualquer coisa nos blockbusters que me irrita. Sou dos que acha que há um espaço natural para as boas comédias e para os bons filmes de acção, por si só, longe do drama e do romance, e irrita-me que a maioria dos filmes de super-heróis não tenha a coragem de se afirmar, na verdadeira essência, pelo espectáculo visual e pelo ritmo, muito mais do que por argumentos que, devendo dar mais cor e mais profundidade ao filme, são mutilados pelos desejos comerciais, além de ocos por natureza, e acabam por se tornar numa papa barata de salvar o mundo e salvar o amor da vida, sem ponta de novidade. Este Transformers tem muito disso, de facto. Tem péssima comédia, tem uma estória de amor mal encaixada em momentos do filme, tem o salvar o mundo, e tem, até, algo porventura mais inglório do que um argumento pouco criativo: tem um que é muito mais ambicioso do que se poderia supor, até dada altura, mas que não se concretiza no fim, porque isto é uma saga e não podia ser, o que sabe a desilusão.

Ainda assim, Revenge of the Fallen tem quase tudo o que um verdadeiro filme de acção deve ter, ou não fosse obra e graça de Michael Bay. Para mim, é inferior ao primeiro (que me surpreendeu a toda a linha), muito pela péssima comédia, mas é impossível não gostar dele. Mais do que os efeitos, as personagens, a banda sonora, ou o que quer que seja, este é um filme de realizador, que vive do talento dele para percorrer os inebriantes caminhos da acção, numa cadência incrível, que quase nos deixa afogueados de seguir, algo superiormente combinado com os luxuosos bonecos de Mr. Bay. É que um filme não tem de ser suportado sempre por um argumento denso, extenso sequer, e este é um caso típico, extensível, diria mesmo, ao género Acção, em que, quanto mais curto for o argumento, melhor. Devem haver linhas gerais, contexto, algumas boas ideais, mas um bom filme de acção só pode viver do jogo de cintura e da condução do realizador, justamente da acção em si. O grande defeito de Revenge of the Fallen é, tão-só, a falta de confiança no estofo do género, essa vontade de trabalhar mais as coisas quando elas não deviam ser mais trabalhadas. A incapacidade para keep it simple, apesar de, repito, muita qualidade estar lá.

Para acabar, não seria honesto, para comigo próprio, não falar da Megan Fox. Como actriz, há ali muito pouco, de facto, e os momentos em que o enfoque está nela, têm uma aura de fragilidade permanente, como se ela não se sentisse bem à vontade com o que está a fazer, não tivesse jeito ou estivesse presa de movimentos. Já como personagem, acho que é difícil não admitir que ela é é um ícone de beleza muito maior do que qualquer Transformers poderia alguma vez aspirar. Cada qual terá a sua opinião, seja que ela é burra, vulgar ou que há muitas outras mais apaixonantes do que ela. Para mim, a valer o que vale, Miss Fox é, hoje, a mulher mais sensual do mundo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

África do Sul, 24 anos depois

«Hombre, desfrutávamos mais nos treinos do que nos jogos. Você tem ideia do que ele fazia com a bola? Encostava-me a um poste, de braços cruzados e pensava para mim: isto não é humanamente possível (...)

Em 1986 ganhei quase tudo, mas era impossível sentir-me o melhor. Ainda hoje falo com o Ruggeri e o Enrique e fartamo-nos de rir. No fundo, limitámo-nos a aproveitar o talento excessivo que o Maradona tinha. Eu era apenas um bom guarda-redes»

Pumpido, guarda-redes da Argentina Campeã do Mundo em 1986, via maisfutebol

Oh happy days

Tive uma quantidade pornográfica de presentes, incluíndo uma preciosa Canon A380, quando eu já me preparava para juntar tostões e comprar uma Fujifilm A320, que, vendo bem, era melhor mas não era Canon, daí que não a vá trocar. Tenho comido como um bem apelidado leitão, pela madrugada fora, até ficar maldisposto, que é, como todos sabeis, o ponto de consciência que marca o fim da animalidade, e sem o qual nunca sabemos se fruímos o suficiente. Tenho a casa recheada de decorações, cortesia da mamã, o que a faz tornar mais pequena, uma vez que era impossível ter 30 presépios numa casa grande, todos uns ao pé dos outros, e, ao mesmo tempo, ainda mais acolhedora. Tenho lido O Hobbit, perfeito para estes dias, e que assimila, por si só, a ideia de que O Senhor dos Anéis é o filme mais natalício da história do cinema, ao ponto de, nos dias que correm, o Natal se situar entre a Noite do Mercado, em que miraculosamente não choveu este ano, depois de duas semanas a banhos, e o dia em que a SIC passa O Regresso do Rei, pelo que o meu Natal começou bem e acabou melhor, ontem, às cinco e meia da manhã. Hoje, já preparado para preparar a preparação do fim de ano, acordei na minha cama de 3 cobertores (luxos que um emigrado cuja cama foi recentemente destruída não tem), mas ainda com o In Dreams a tocar na minha cabeça (im a jukebox). Talvez o Tolkien, o Peter Jackson e o Howard Shore não soubessem, mas Natal só pode ser isto.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Surpreendente, de facto


O maior elogio que posso fazer ao District 9 é dizer que foi possivelmente o primeiro filme de ficção científica que vi, com quase nada que já tivesse visto noutro lugar qualquer. O filme distingue-se da larga generalidade por uma criatividade de abordagem verdadeiramente incomum, que nos apanha desde o primeiro minuto, e que atinge, depois, um ritmo duro o suficiente para nos manter colados até ao fim. Facto é que as explosões, as armas, a caracterização das personagens, tudo é dalguma maneira secundário ao pé do argumento em si, e isso é incrível, num filme deste género, obra dum desconhecido vulto chamado Neill Blomkamp, que não só escreveu como realizou o filme, sob a benção do mestre Peter Jackson. District 9 fala de sobrevivência, de fé e de transcendência, primeiro duma comunidade, de extra-terrestres sim, mas dos que não têm super-poderes nem condições para inverter o rumo das coisas, incapazes de voltar para casa, mesmo que em 20 anos nunca tenham deixado de acreditar que era possível, e tratados como lixo pelos humanos, numa metáfora admirável. Retrata, depois, a vontade de acreditar dum homem, um homem comum, de que era possível voltar à vida comum que sempre tivera, algo de que nunca abdica mesmo no limite (o fim do filme é de outro género que não ficção científica, sem dúvida). Neste papel de protagonista encontramos um senhor chamado Sharlto Copley, um sul-africano que assombra neste filme, por fazer parecer tudo aquilo tão sofrido e tão genuíno o que, como é bom de ver, é tanto mais difícil quanto mais ficcionado é o universo que o envolve. Não podia deixar ainda de mencionar a banda sonora, tanto mais magistral à medida que o filme se encaminha para o fim, a exploração incrível das possibilidades de uma personagem computadorizada como Christopher Johnson, o alien-protagonista (chega a ser arrepiante) e ainda a técnica de filmagem, à falta de nome mais técnico, de câmara na mão, ao que ainda se juntou um enquadramento da estória num estilo-documentário, do qual sou um confesso fã.

Pese a originalidade do filme, não devo, ainda assim, deixar de dizer que todos quantos não gostem por aí além de ficção científica, talvez não se apaixonem por ele, como eu também não absorvo plenamente o género, apesar de reconhecer a sua extrema qualidade, nem tanto pelos pontos fracos do filme, que também os houve (não acho que a interacção com os aliens funcione plenamente, mercenários ao barulho e o sogro boss e mauzão é mais do que batido, por exemplo). De qualquer maneira, mesmo para quem não é fã de efeitos especiais, que estão presentes, apesar de tudo, e duma certa dureza sanguinária, entre outras características, este é um filme altamente recomendado. A mim, pelo menos, mostrou o género com uma profundidade como eu nunca o tinha visto.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Because sometimes the truth isn't good enough

Revi o Dark Knight. Um ano depois, continua a exercer sobre mim o fascínio da primeira vez, o que é admirável, de facto. Ainda hoje, vomito o preconceito que se abateu sobre o filme desde o primeito minuto, no que a prémios diz respeito, possivelmente o episódio mais revoltante a que assisti, desde que vejo filmes como gente grande, qualquer coisa de um autismo tão sem paralelo, que acredito ainda viverei muitos anos para presenciar coisa parecida. O Dark Knight é uma obra de arte invulgarmente açambarcadora, dos efeitos às personagens (nem vale a pena tentar tipificar o que faz o Heath Ledger, mas veja-se o que fazem o Bale, o Aaron Eckhart ou o Michael Caine), da riqueza visual ao argumento, este, sublinhe-se, ao nível do que de melhor já se fez em drama e único, verdadeiramente NUNCA FEITO, no contexto de um filme como o Batman. Ainda assim, à excepção do mais do que obrigatório Óscar ao Ledger, infelizmente manchado pela sua morte, o Dark Knight só justificou outro Óscar, e para essa categoria retumbante que é melhor edição de som, à laia de esmola. Sinceramente, era melhor que não tivesse ganho nada. Numa cerimónia extraordinariamente anti-preconceituosa, que passou à história pelos prémios ao lobby dos pobrezinhos (melhor filme e realizador para o hiper-overrated Slumdog Millionaire) e ao lobby gay (melhor argumento original e melhor actor para o Milk, aqui com a aberração de atropelo ao papel de uma vida do Mickey Rourke), não deixa de ser irónico que não tenha havido espaço para estas coisas da acção, como sempre a viram, que só poderia, fosse qual fosse a circunstância, descredibilizar tão distinta cerimónia. Tão irónico como, um ano depois da perturbadora falta de coragem para nomear o Dark Knight, os Óscares deste ano se preparem para ter dez nomeados para melhor filme, justamente para não ser preciso voltar a decidir entre delicados The Readers, condenados crónicos ao esquecimento, e qualquer coisa como filmes para uma vida. É irónico. Sobretudo porque ficar à espera dos Dark Knights que devem aparecer todos os anos é continuar, um ano depois, sem perceber a verdadeira dimensão do que o génio do Chris Nolan conseguiu.