quinta-feira, 10 de junho de 2010

A masterpiece


Shutter Island é um dos filmes mais extraordinários que já vi. É tão perturbadoramente bom, que, mesmo tendo acabado de vê-lo, é-me difícil escrever sobre ele. Shutter Island rompe quase todos os cânones de densidade, de complexidade e de nervo de um thriller, de um drama, ou do cinema em geral, sendo uma obra monstruosa, à qual não falta nada, desde os mais inesperados twists and turns, e deus sabe como é difícil eles serem tão perfeitos, a um argumento verdadeiramente de tirar o fôlego, incrível (baseado no livro dum senhor chamado Dennis Lehane, também autor, imagine-se, do extraordinário Mystic River), aos quais se juntam a realização do Scorsese, esmagadora em todos os pormenores, o show do Di Caprio (talvez, hoje, o melhor do mundo), e até os 5 minutos de cena do Jackie Haley (o Rorschach de Watchmen), numa lista que podia continuar e continuar.

Shutter Island é um filme sobre a mente humana. Fala de traumas, e de como eles nos podem perseguir a todos, independentemente de quem formos, para nos ultrapassarem e nos vergarem, inapelavelmente. Trata o perturbador mundo da psiquiatria, para abordar a realidade e tudo o que nos ultrapassa, e, ainda assim, fala sobre lucidez, segundos de lucidez, sobre o âmago, e sobre o extremo sacrifício que leva às verdadeiras vitórias. É um filme sobre o que somos, sobre o que sabemos que somos, e sobre tudo o que não podemos dominar. E, acima de tudo, sobre consciência. Mesmo que de uma centelha, sobre consciência.

Provavelmente não dará para perceber muito do que é Shutter Island pelo que acabei de escrever, mas nem eu terei percebido, ainda, o verdadeiro alcance do filme de Scorsese. Garanto, no entanto, que vê-lo, será, muito provavelmente, a melhor opção cinematográfica que vão tomar este ano. Mais do que como um ensaio moral ou reflexivo, pela verdadeira obra-de-arte que é.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Considerações divagantes sobre toda uma parafernália que não me vai dar um bom estágio

Podia estar a escrever sobre assistência de realização ou sobre visualização de informação 3D? Poder, podia. Mas o Mundial tem mais piada:

Portugal
Pese a grosseira falta de carisma do Queiroz, pese as hesitações, as más opções e a falta de agilidade no banco, é daquelas coisas em que é difícil ser razoável. Com todas as fraquezas, não consigo deixar de acreditar que as coisas vão correr bem na África do Sul, mesmo contra a maioria das expectativas. Sendo rigoroso o mais possível, digo que há um objectivo essencial: passar a fase de grupos. Menos do que isso será um falhanço rotundo e, mesmo incluídos no grupo da morte, é algo em relação ao qual não há nada a contemporizar. Depois disso, é toda uma nova realidade, com a eliminação directa e os jogos que chegam à pele. Em princípio, admitindo que não ganhamos o grupo ao Brasil, o adversário mais provável nos oitavos é a Espanha, e, contra a melhor selecção do Mundo, não somos favoritos. É onde o jogo vai entrar na dimensão mais emocional e onde, lucidamente, é injusto exigir mais. Sem que isso seja sinónimo de pensar pequeno, uma passagem aos quartos já seria sinónimo de um grande Mundial.

Os Favoritos
Não fosse o histórico passado derrotista, e os favoritos claros seriam a Espanha e a Inglaterra. Os campeões da Europa e a nova selecção de Capello foram quem teve os últimos 2 anos mais consistentes, quem jogou mais e melhor, e quem chega à África do Sul mais cheio de si. Ainda assim, é deslocado da realidade não incluir no lote a Alemanha, a Itália e o Brasil. Os dois primeiros, porque estão condenados a ter resultados (a Alemanha, apesar das lesões, chega saudável, depois duma qualificação fantástica; a Itália, mesmo com a má preparação, tem o velho Lippi de volta ao banco), e o Brasil porque, apesar da perturbadora falta de individualidades (em relação a 2006 não estão Ronaldo, Adriano e Ronaldinho...), surge como uma equipa muito equilibrada, disciplinada e coesa mentalmente (mérito de Dunga).

As Desilusões
Se não puder ser para Portugal, gostava muito que fosse para a Argentina e para Maradona. Mas, tal como denunciam opções como a exclusão de Zanetti e Cambiasso, e apesar de ser, individualmente, a selecção mais rica do Mundial (a uma distância abissal o melhor ataque), não me parece que a alviceleste tenha nada parecido a estofo de campeã. A qualificação falou por si e, apesar da qualidade individual e da alma de Maradona, o fôlego parece-me curto. A favor está contudo, o calendário: até às meias, o emparelhamento é com o grupo encabeçado pela França, pelo que o caminho está muito pouco dificultado. E também, verdade seja dita, não foi com o método de Bielsa e Pekerman, nos últimos dois Mundiais, que houve resultados.

A França, pese o que já fez Domenech em condições parecidas, parece uma simples crónica de morte anunciada. A selecção chega gasta (Henry, Ribéry, o play-off com a Irlanda) e já a própria preparação soa a morte lenta. Duvido que dê sequer para ganhar o grupo.

Desilusão, se é que lhe podemos chamar isso, também me parece ir ser a maior participação africana da História, no primeiro Mundial africano da História. A Argélia e a África do Sul são muito desconfiáveis (pese os bons resultados que Parreira tem conseguido na preparação), os históricos Nigéria (que tem o maior potencial de todos) e Camarões autênticos exércitos desgovernados, e a Costa do Marfim não é uma selecção com sorte. Talvez o Gana, mas o grupo (Alemanha, Sérvia, Austrália) é muito competitivo, e a orfandade de Essien não ajuda. Parece-me que caem todos à primeira.

As Apostas
Tenho expectativas tremendas para o Chile. A preparação tem sido fantástica, e chega-se com grande espírito ao Mundial. O ataque é um must (Mark González, Valdivia, Suazo, Alexis Sanchéz, até um transfigurado Mati Fernández) e, no banco, está um velho caminhante argentino, um ancião das Selecções, Marcelo Bielsa. Acredito no sucesso, ainda que, a passar, apanhe Brasil ou Portugal.

Também acho que o México vai fazer boa figura. É uma equipa com mentalidade europeia, tradicionalmente muito equilibrada, e com vários miúdos de valor (Gio, Vela, Guardado).

A Holanda nem é uma grande aposta, nem uma desilusão. Mas não está nos favoritos, como se aventa por aí. É uma Selecção que, à nossa imagem, tem grandes jogadores, que, num dia bom, pode ganhar a qualquer um, mas que está condenada a ir para o espectáculo. Merece todo o meu respeito, e acredito que pode eliminar algum dos nomes grandes.

Pessoalmente, ainda que não lhe faça muita fé, também gostava que o Uruguai desse cartas, que é outra das selecções que admiro e que quase nunca anda por aí. Chega à África do Sul com o monstro Forlán a ter a UEFA no bolso, e com o Suárez a ter marcado 35 golos no Ajax. Mas, apesar da crise francesa, o grupo não é fácil para quem é quase um rookie. Numa de long shots, também gostava de ver a Nigéria e o seu ataque supersónico (Martins, Obinna, Uche, Utaka, Odemwingie) a fazer qualquer coisa. Mas é tudo muito improvável.

Final Four
Aposto num Argentina-Inglaterra e num Holanda-Brasil. Inglaterra-Brasil para a final. E ganha o Capello.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Nani não, caralho.

Aka o dia em que esta merda das lesões deixou de ter piada.

sábado, 5 de junho de 2010

Campeões somos nós

Os 23 que vão ao Mundial chamam-se, nomeados pelo Queiroz, "Os Navegadores". Sucedem aos "Tugas" e aos "Viriatos", e andam num autocarro com um slogan da criatividade perturbadora de «Um sonho, uma ambição... Portugal campeão!», que, depois de ir ao piquenique do Modelo, pára, sempre que der, numa bomba da Galp, qual digna representação nacional, para brincar com putas de vuvuzelas. Válha-nos isso. Ao menos, se o Brasil, a Costa do Marfim e o Rooney da Ásia nos comerem, já ficámos todos contentes.

Caguem no Mundial, a este ritmo já não vai haver ninguém para jogar

"John Obi Mikel, médio do Chelsea, é mais uma baixa de peso para o Mundial sul-africano"
via maisfutebol

Essien, Diarra, Ballack, Rio, Camoranesi, Drogba...


edit: "Robben lesiona-se a dar toque de calcanhar. Avançado vai ser reavaliado e não viaja com a equipa", maisfutebol

Olé.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sobretudo, a Scarlett ruiva


Para mim, foi melhor do que o primeiro. Continua a haver uma superficialidade irritante (ainda que na base da figura de Tony Stark esteja o narcisismo e a não existência de uma grande moral subjacente) e uma grande dificuldade em concluir a coisa (mais um clone grande e feio como mauzão, é deprimente), mas, desta vez, o filme foi mais do que Downey Jr. A juntar ao humor, novamente bem feito, a acção teve mais fundo, mais apelo, e apesar do facto do passado vir à baila soar a cliché, é isso que permite um certo salto qualitativo, acima dos tiros e das explosões.

Depois ajudou que, ao Downey Jr., a quem, não me canso de repetir, o papel assenta como uma luva, se tenha juntado um Mickey Rourke muito bom, a trabalhar com qualidade um dos mais tradicionais pontos fracos deste tipo de filmes (no extremo oposto Sam Rockwell (The Green Mile ou Frost/Nixon) que, em Iron Man 2, não foi mais do que uma autêntica caricatura).

Sem ainda ser um must, Iron Man 2 vale a ida ao cinema e, como já disse, representou um aumento de qualidade em relação ao primeiro. Contudo, a estrutura base da acção está completamente gasta e, em 2012, Iron Man 3 só vai resultar se sofrer uma grande reciclagem.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A bold one

De maneira simples, é o seguinte: as probabilidades de Pinto da Costa e o Porto terem sucesso com um rookie 2 vezes num espaço de 6 anos são, no máximo, qualquer coisa de escasso. André Villas Boas chega ao clube no patamar de protegido do Mourinho, mas, valendo a verdade, é alguém a quem, apesar de lhe gabarem a literacia, a bagagem táctica e as boas ideias, chega a um grande com 4 meses de carreira, e um mísero 13º lugar para contar a história. Com menos do que o próprio Mourinho, portanto.

Claro que é Pinto da Costa a escolher, o que costuma ter os resultados que se sabem, e que este é o tipo de aposta que distingue os bons dos visionários, daquelas sem as quais Mourinho talvez não fosse Mourinho ao tempo que o conhecemos.

No entanto, a realidade não deixa de ser crua. Especificamente em relação a Villas Boas, o Porto arrisca mesmo muito desta vez.