domingo, 4 de julho de 2010

Em Busca de um Mundo Melhor


"Larissa Riquelme, a rainha do Mundial. Assim foi baptizada a paraguaia que acompanhou de perto a selecção do país, na África do Sul. A modelo tinha prometido despir-se, caso a «Albirroja» chegasse às meias-finais. O que não aconteceu. No entanto, Larissa Riquelme revelou que vai mesmo despir-se.

A paraguaia argumenta que o desempenho dos jogadores merece ser reconhecido e, por isso, vai posar nua. «Será um prémio para os futebolistas e para que todo o povo paraguaio possa desfrutar depois do esforço deles, que deixaram tudo em campo», disse Larissa Riquelme, em declarações ao «Diario Popular»."


Numa sociedade em que escasseiam o reconhecimento, a justiça e a fraternidade, é reconfortante saber que ainda há gente disposta a sacrificar tudo por um bem maior. Fossem todas como tu, Larissa.

sábado, 3 de julho de 2010

Foi Assim Que Aconteceu #21

Alemanha - Argentina, 4-0

Se dúvidas houvesse, a Mannschaft é a melhor Selecção do Mundial. Vinga não pela consistência brasileira, não pelo cinismo holandês, não pela teia espanhola, nem pela paixão ofensiva argentina. Ganha porque é, a milhas talvez, a selecção mais incrivelmente completa, porque joga, a milhas, o melhor futebol do Campeonato, e porque faz isso conjugando tudo, da defesa à táctica e aos equilíbrios. Esta Alemanha ressuscitada por Klinsmann em 2006, na altura com Low como adjunto, e que esteve na final em 2008, é um projecto de futebol fantástico, com uma maturidade quase inalcançável ao nível do futebol de selecções. A Mannschaft tem a segurança dos grandes e a alegria dos mais pequenos, e nunca contemporiza, nunca pára, nunca circula: a regra é sempre o ataque, abrangente, rápido, assassino.

Para Maradona e para a Alviceleste, acabou o sonho. Podia ter sido, mas ter Maradona no banco não foi suficiente para repetir 86, nem chegar às meias a que os argentinos não chegam desde 90. A realidade crua e dura diz que, ao primeiro adversário verdadeiramente duro, a Alviceleste caíu, e caíu sem apelo nem agravo, sem nunca ter sequer chegado a discutir o jogo. Valheu-lhe a alma que nunca podia ter faltado, o coração e a crença, que, até ao 2-0, pareceu tornar possível outro resultado. Mas era pura ilusão. Mesmo assim, goste-se ou não, critique-se ou não o fundo como treinador, o Mundial fica mais pobre sem Diego. Vê-lo na sala de imprensa tão genuinamente triste, é ver futebol da cabeça aos pés, personificado num homem.

Jogadores:
Alemanha - Os elogios repetem-se, mas não há nada a fazer. Pelo jogo de hoje, mais o que fez contra a Inglaterra, mais tudo o resto, Muller é, neste momento, o Melhor Jogador do Torneio. Classe, classe e mais classe. Lê sempre bem, chega primeiro, é rápido, tem técnica, é inteligentíssimo, e assiste até quando está no chão e tem 3 adversários à volta. Palavras para quê? Depois Schweinsteiger, um comboio permanente, certamente o melhor box-to-box da competição, e alguém que, com formação de extremo, parece que nasceu ali. E a jogada do 3-0, deus. Podolski mais Ozil a bom nível, com mais Podolski hoje, e Klose claro, a garantir que metade das bolas que lhe caem ali acabam na baliza. Viva a Mannschaft.

Argentina - Despediu-se Messi sem glória. Não tinha marcado, mas andava a jogar muito futebol. Faltava-lhe o nirvana, e o nirvana não chegou. Uma sentença dura este Mundial para todos os grandes da actualidade, com Ronaldo, Kaká e Rooney, ainda que Messi tenha jogado mais que qualquer deles. Maxi Rodriguez, meio médio direito, meio médio centro, terá sido o jogador mais acertivo da equipa, num meio-campo com um único jogador fixo. Por último, Tevéz que devia ser titular para a vida.

Espanha - Paraguai, 1-0

Depois do jogo, sinceramente, fica a frustração por Portugal ter caído aos pés duma Espanha tão distante do que fez em 2008. Sim, a qualidade individual continua lá, os princípios continuam lá, mas esta Espanha já não é acutilante, já não joga sozinha em campo, e é francamente vulnerável ao que lhe aparece na defesa. Mesmo um Paraguai desfalcado, que nunca deslumbrou ao longo da prova, foi capaz de evitar o domínio espanhol, de deixar a equipa de Del Bosque nervosa, e teve um momento crucial para marcar, que teria largado no espaço o jogo espanhol. Cardozo falhou o penalty, como falhou sob pressão muito mais do que devia ao longo da época, e o Paraguai, mesmo com a estrelinha que foi a Espanha falhar também ela um penalty no minuto seguinte, viu a sua janela no jogo desaparecer aí. Mesmo por linhas tortas, mesmo no sofrimento, os espanhóis foram crescendo no jogo, a par do recuo paraguaio, e, com Iniesta a pensar quase a solo, como o tem feito quase sempre, foi Villa Villa Maravilla a arrumar o jogo outra vez. Ainda assim, a Roja vai precisar duma espécie de milagre para sobreviver à Alemanha.

Jogadores:
Espanha - Se dúvidas houvesse, é ele o melhor jogador espanhol da actualidade, e o melhor avançado da prova. A Espanha anda a jogar muito menos, mas com Villa pode sempre contar, a qualquer altura. Iniesta, outra vez mais do que Xavi, tem feito o resto.

Foi Assim Que Aconteceu #20

Brasil - Holanda, 1-2

Para mim é uma surpresa imensa, ao nível de ver a Itália ser eliminada quando só precisava dum empate para se qualificar. O Brasil parecia-me, à partida para os quartos-de-final, a equipa mais dura, mais consistente e, tal como disse, a maior candidata à vitória final. É verdade que se havia uma Holanda capaz de derrotar a Canarinha era esta, escura e cínica, mas muito mais madura e competitiva, mas mesmo assim custava-me a crer. Até porque o Brasil tinha pouco de desiquilíbrio e, apesar do talento no ataque ser comparável, no resto os brasileiros eram superiores.

Não vi o jogo todo, mas, do que vi, é um resultado um pouco ingrato para Dunga. O Brasil foi bem melhor na primeira parte, marcou e até podia ter posto uma pedra no jogo, mas, até assim, nada fazia crer numa reentrada da Holanda, até ao frango do Júlio César. Logo ele, depois duma época monstra, a sair daquela maneira. Depois, admito, a Holanda pôs em campo um nível que nunca lhe foi habitual, não de qualidade de jogo (só mais visível com o Brasil totalmente descompensado, à medida que o jogo ia para o fim), mas justamente a nível de competitividade, que prendeu o Brasil, e cresceu progressivamente no jogo. Depois do 2-1 de laboratório e da expulsão de Felipe Melo (custa a ver um jogador que tão bem lê o jogo ter o cérebro do tamanho duma ervilha), consumou-se a surpresa. Com o Uruguai nas meias, a Laranja está mais perto do que nunca duma final inatingível à partida.

Jogadores:
Brasil - sem nunca terem sido verdadeiramente estratosféricos, Kaká e Robinho são dois dos jogadores do Torneio. Mesmo sem um Brasil de futebol espectáculo, mesmo a ficar nos quartos, ambos corresponderam ao estatuto que têm hoje em dia. Fica a expectativa para o que fará Kaká nas mãos de Mourinho, e o desejo dum regresso imediato de Robinho à Europa.

Holanda - Depois de ter sido o MVP da Champions deste ano, Sneijder tem escancaradas as portas da final e da Gala Anual da FIFA. Dele, dizer apenas que decidiu o jogo com golos de pé esquerdo e de cabeça, do alto do seu 1,70m. Van Bommel é um imprescindível, sobretudo nestes jogos, Stekelenburg fez-se maior do que é, e Kuyt, quando Van Persie anda apagado e Robben a levar porrada, é sempre imparável. Como já disse, o jogador mais útil da equipa, seja em que circunstâncias forem.

Uruguai - Gana, 1-1 (4-2 a.p.)

Emocionalmente, o jogo mais violento do Mundial. A eliminação do Gana, a falhar um penalty no último segundo do prolongamento, fica para a história como um momento no limite da poesia, o apontamento dum destino que os ganeses não podiam cumprir. O Gana seria a primeira equipa africana a chegar a umas meias-finais, foi a 3ª ou 4ª equipa com melhor futebol da prova, mas, quando só dependia de si, dum gesto, do seu melhor jogador, falhou. Não nasceram para isso. O Gana foi para jogar, para entusiasmar e para ter muitos, como eu, a torcerem por eles. Para ganhar a valer, ficou o Uruguai, qualificado da maneira mais espelhável possível do seu jogo, a impedir, no ilícito, sorrateiramente e na sombra, a alegria e a vitória adversária. É assim o futebol.

Não o mereciam, concerteza, Rajevac (extraordinariamente a esta distância das meias finais, depois de ter sido finalista na CAN) e, ainda menos, Gyan que, dentre tudo o que já fez neste Mundial, não merecia estar a dizer no fim do jogo que "Suárez é que é agora um herói no seu país".

Jogadores:
Uruguai - Suárez sairá do Mundial com tudo. Já tinha a comprovação do talento, transcendendo até o que de melhor se poderia esperar dele, agora sai com a aura e o mito à sua volta. É isso, no fundo, o que o porá na história. Ah e Forlán, claro, sempre porque sim.

Gana - Bem-vindo Muntari à titularidade. Intenso, foi muito importante no jogo do Gana, apesar de menos criativo do que Ayew. Boateng, uma das grandes surpresas deste Mundial, sai como um dos melhores 8 da prova. E Gyan não merecia o que lhe aconteceu. Só isso.

Slap Bet #21

Alemanha - Argentina, 2-1

Espanha - Paraguai, 2-0

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Slap Bet #20

Brasil - Holanda, 1-0

Uruguai - Gana, 1-2

Perguntem ao Queiroz

"Que Ronaldo não tem perfil para capitão, como prova a expiação que intentou no final da partida, é das evidências menos contestáveis deste princípio de século marcado pelas convulsões não debilitantes da égide neoliberal. Adiante. Também dou de barato: ao se achar tão melhor que os demais colegas de selecção, Ronaldo acaba por ser minado pela incapacidade para acreditar - participando - no jogo colectivo; não é excesso de crença nas suas capacidades, é um desespero que ele magnificou ao absurdo fundado na arrogância de um qualquer emigrante incapaz de imaginar flores a nascer nos baldios da sua adolescência. Ao tentar resolver sempre em individualismos cheios de boas intenções, Ronaldo reduz a preparação da equipa adversária adversária a menos de 3 diapositivos com menos de duas linhas cada.

Ainda assim, por desconcertante que seja, cabe reconhecê-lo: à vista da substituição mais inepta que já vi em futebol profissional (quer dizer, mesmo quando joguei nos distritais pelo montemorense estive longe de vislumbrar algo tão patético), são de Ronaldo as palavras mais memoráveis na revisitação da viagem portuguesa à Àfrica do Sul. "Assim não ganhamos, Carlos!" O anelo de Carlos Queiroz ao powerpoint encontrou no desespero egocêntrico de Ronaldo o mais expedito acusador. Nem ao maluco da aldeia se retira ao mérito de dizer umas verdades no tempo certo."

Bruno Sena Martins, em Avatares de um Desejo

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Individualmente,

O melhor jogador português na África do Sul foi Coentrão. Tal como disse ao longo da prova, mesmo para quem o viu crescer este ano no Benfica, era difícil imaginar que Coentrão saísse do Mundial como o melhor lateral esquerdo da competição. É qualquer coisa de imenso para um miúdo que, há um ano, jogava para não descer no Rio Ave, e não sonhava com mais do que uns toques no sub21. É tanto mais assustador se pensarmos como, até há tempos, parecia imbatível o nosso vazio histórico na lateral esquerda. Insisto que estamos a falar de 4 jogos imensos, a defender e a atacar, que o colocam, aos 22 anos, e depois da única grande época na carreira, no lote de melhores do Mundo.

Depois, Eduardo. Ele e Coentrão foram as improváveis figuras maiores da 3ª Selecção do ranking FIFA neste Mundial, logo eles, um lateral esquerdo e um guarda-redes, dois dos nossos crónicos casos perdidos. Se houver justiça, ele estará entre os 3 melhores guarda-redes da prova, no Plantel da competição. Eduardo é um daqueles jogadores de quem é fácil gostar. Olha-se para ele, e, por mais lírico que isto possa parecer, vê-se que é boa pessoa. Depois, cresceu com calma, a fazer boas opções, e ao abrigo dum projecto único ao nível dos clubes médios em Portugal. Chegou até aqui sem a associação doentia a nenhum dos grandes, sem anúncios de prodígio, sem manchetes e sem cobiça internacional. Agora, merece toda a sorte do mundo. Em especial, o lugar numa grande Liga, onde possa ser titular. O jogo com a Espanha foi, para mim, a melhor exibição que já vi um guarda-redes fazer pela Selecção.

Também é justo que se fale de Ricardo Carvalho e de Tiago. O primeiro, o nosso capitão moral, entrou um pouco hesitante com a Costa do Marfim, mas depois não se afastou um milímetro do velho nível. Ricardo Carvalho, que mesmo que quisesse nunca conseguiria jogar mal, é um filósofo no mundo dos centrais, e ainda se dará ao luxo de, com 32 anos, estar entre os 4 ou 5 melhores do Mundo. Acredito que ainda o teremos na Ucrânia em 2012. O Tiago que passou na África do Sul, mesmo que irregular, foi um jogador que chegou ao nível do Deco dos bons tempos, e esse será o maior elogio que lhe posso fazer. Com espaço para ser titular daqui para a frente, a sua capacidade para se afirmar como "jogador de Selecção" será um dos vectores da dimensão portuguesa nos próximos anos. Moutinho ou Micael são bons, mas não são do seu nível.

Por último, uma pequena menção a Meireles e a Hugo Almeida, que também saem de cara lavada da África do Sul. Meireles contornou uma época muito pobre no Porto e, mesmo sem ter estado num nível altíssimo, é cada vez mais um jogador de rendimento certo, a lembrar Maniche. Em directo do grupo dos eternos questionáveis, Hugo Almeida arrisca-se a passar, por mérito próprio, para o 11 titular dos próximos anos. Mesmo frágil a muitos níveis, é um jogador em quem passei a acreditar e, acho, que passou a acreditar nele próprio. Quem sabe seja uma surpresa no apuramento rumo a 2012.