quarta-feira, 8 de junho de 2011

domingo, 5 de junho de 2011

O relato do 31




roubados ao 31 da Armada

A derrota da esquerda

"Sócrates saiu de cena, como lhe competia e de modo ilustre, pela porta grande. Agora veremos o que vem a seguir. Já estive mais otimista. No vórtice que terminou hoje (outro começa, é verdade), houve duas coisas que me impressionaram. A primeira foi a forma pessoal, quase "coisificada", como tudo isto foi canalizado para um único homem, como se não houvesse um PS, um governo, um grupo parlamentar minorítário na Assembleia, uma oposição unida, uma classe política, uma conjuntura, uma troika, uma campanha, um aperto financeiro, uma crise social, um país vulnerável, uma Europa à deriva. Nada disso importava, só Sócrates. A crise de Sócrates, por culpa de Sócrates, imputada repetidamente a Sócrates até à náusea. O desfecho previsível: uma derrota eleitoral clamorosa. É a derrota dele. La bête noire sai de cena por força do voto. Muito bem. Cá estaremos para ver o que se segue. Mas palpita-me que muitos dos dentes arreganhados irão ter saudades dele, mais cedo do que pensam e gostariam de admitir.

A segunda é uma sensação de profundo desconcerto com a chamada esquerda, aquela que perdeu a única possibilidade de chegar ao poder num horizonte previsível; a forma autista, cega e irresponsável como se auto-excluiu do processo de compromisso com os credores internacionais, retirando-lhe qualquer credibilidade de uma possível participação governativa.

(...)
Tivessem Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã a dignidade do mesmo Sócrates que ajudaram a derrubar e seguir-lhe-iam o exemplo. Seria, pelo menos, uma forma digna de reconhecer a derrota."

Paulo Pinto, no Aventar

Um presidente, um governo, uma maioria

Espero, sinceramente, que quem contribuiu para uma derrota tão expressiva da esquerda esteja certo.

A derrota do PS era um cenário expectável, mas não por estes números. Perder por cem ou por mil, neste caso, não é o mesmo, e se as coisas tivessem ficado mais equilibradas, pelos 30 vs. 35% de que se falou na última semana, o governo de direita teria de estar em sentido desde o início. Essa não foi a vontade dos portugueses e, agora, teremos todos quatro anos para ver se a direita eufórica que sai destas eleições será ou não a solução de que o país precisa. Mesmo descrente e derrotado, só posso esperar que seja. Em nome do nosso futuro, oxalá o próximo aparelho governativo, que consuma pela primeira vez o tal sonho histórico de Sá Carneiro - um presidente, um governo, uma maioria -, não seja a falha mais grosseira da história da nossa democracia.

Uma palavra para o admirável discurso de derrota de Sócrates. Como disse Sousa Tavares na SIC, são bem mais difíceis de fazer do que os de vitória, e o ex-primeiro-ministro teve o mérito de saber sair com um discurso digno e próprio de um governante.

No resto, derrota séria para Francisco Louçã, e para um BE que um dia foi um partido fresco, e, felizmente, vitória amarga para o CDS, com um resultado significativo mas francamente distante dos números retumbantes que se anunciavam. Portas será governo mas, do mal ao menos, não chegará a São Bento como senhor do mundo.

A nível pessoal, mencionar que, tal como em 2009, o PSD não chegou aos 50% na Madeira, o que é sempre reconfortante e, neste contexto sócio-económico, tanto mais importante e semeador de esperança para as Regionais de Outubro.

Isso e, desta vez, o sempre especial Postiga versão internacional

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Um voto difícil

Não tapei a cara quando votei, como um dia sugeriu Cunhal, mas saliento a analogia. Sou um esquerdista moderado, mas reconheço que Sócrates é, hoje, um primeiro-ministro bastante desgastado. Não é "o culpado" da crise, como tentam impingir, mas também é responsável pelo estado a que se chegou. Além disso, nunca fui de vestir a camisola: simpatizo com ele mas reconheço-lhe as insuficiências e, em diversos momentos, já elogiei Passos, Louçã e até Portas. Em circunstâncias normais, seria eu a defender que é hora de outros, e não duvidem que se achasse que as alternativas eram melhores do que ele, não teria hesitado.

Hoje é evidente que não são. Mistifique-se ou não, acho que faz sentido falar em voto útil, daí que PC, BE e CDS fiquem comprometidos. Não gosto de governos providenciais nem sou fã de maiorias absolutas, mas acho legítimo que, neste momento da nossa vida política, se alimente a dicotomia PS ou PSD: um deles governará. E, sinceramente, não podem haver dúvidas entre os dois, porque esta é uma altura que não admite condescendências. Sócrates tem 6 anos nas costas e, mesmo num momento tão crítico quanto este, bate-se de igual com Passos Coelho. O líder do PSD não precisava de ter feito rigorosamente nada para ganhar estas eleições mas, campanha finda, não foi capaz de sequer disfarçar a sua tamanha desorientação. A tal que seguiria sempre com ele para São Bento, caso vencesse no Domingo.

Passos Coelho fez a campanha mais absolutamente sofrível que me lembro de ver, com bombas nos pés dia sim, dia sim senhor, expondo com uma crueza violenta a sua grosseira falta de preparação para o cargo. Passos aparece bem na televisão, bateu-se notavelmente com Sócrates e tem ar de boa pessoa, mas mostrou, na nudez da campanha, que ainda é uma mera mascote dum partido sequioso por voltar ao poder, e que o rodeou como hienas, a salivar à volta da sua inexperiência.

Não é isso que o país precisa. Goste-se ou não, a realidade é que Sócrates já lá está e é ele quem tem a reputação em causa; Passos, pelo contrário, na linha da sua postura de sempre, é o homem da oportunidade: nunca esteve e "merece" a chance. Tal como se falhar, falhou. Passos diz e desdiz-se, desdiz-se e explica-se, e nisto esfuma-se a responsabilidade: se emendar a mão será um grande estadista; se falhar, nunca poderia ter feito melhor.

A juntar a isto, imagine-se o que seria Cavaco na presidência, Nobre na Assembleia, Passos no Governo e Portas e Catroga nos ministérios. Um aparelho à direita de uma ponta à outra, numa amálgama de anti-carisma, oportunismo, falta de preparação e extremismo, tudo no momento em que o Estado Social fica mais e mais esganado todos os dias, e por contraponto à necessidade de estabilidade das pessoas.

Votar PS é difícil, repito. Mas, depois da espiral de ódio que tanto se instigou, por alguma razão tanta gente o ponderará.

quinta-feira, 2 de junho de 2011