sábado, 3 de dezembro de 2011

A uma certa distância o melhor lateral-esquerdo do mundo


Com Di María, Ronaldo e Sérgio Ramos igualmente endiabrados, o Madrid chega imaculado ao "El Clásico".

Prá semana à mesma hora


Passei uma semana a ouvir falar do Sporting-Benfica dos quartos-de-final da Taça. O Marítimo entrar hoje em campo era só uma formalidade para a comunicação social deste país: a Taça deste ano era o que vinha a seguir. Logo no sorteio o representante do Benfica disse que jogar nos Barreiros duas vezes seguidas era "uma prenda para os benfiquistas da Madeira." Jesus anteviu o jogo garantindo que nenhuma equipa joga de olhos nos olhos com o Benfica. E entrou em campo com os suplentes. E, a jogar mal, teve direito a um penalty escandalosamente espoliado, daqueles que uma equipa como o Marítimo nunca vai ter num jogo destes.

Acontece que demos para tudo. E, com uma segunda-parte do outro mundo, demos também um chuto no rabo da única equipa europeia sem derrotas. No fim do jogo, Jesus não falou por menos: "Se o Marítimo ganhou é claro que estou surpreendido." Ao menos na próxima semana já sabem ao que vão.

Ah, e o golo do ano foi de graça, não é preciso agradecerem.


Agora vamos a Belém, ou a Alvalade, ou ao fim do mundo, mas só paramos no Jamor. Não somos grandes, Marítimo, somos enormes.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

(o fenomenal) The Walking Dead, midseason


The Walking Dead supera as minhas expectativas desde o primeiríssimo dia. Muita gente deve pensar que é uma série de zombies; puro engano. É uma série sobre vida, família, amor e fé, uma série, acima de tudo, sobre instintos, sobre o que nos move quando não temos praticamente mais nada a perder, sobre decisões que não deviam ter de ser tomadas, sobre sacrifício, perda e sobrevivência... que por acaso também tem zombies.

Tem uma variedade de dualidades apaixonantes, de pontos de vista legítimos e completamente diferentes, incentiva à discussão, às vezes quase a que nos questionemos a nós próprios. Tem personagens muito boas, relações riquíssimas, racionalidade e reactividade na acção, arrojo em abordar temáticas difíceis, ou mesmo questões que nem nos passariam pela cabeça: é indiscutível abater mortos-vivos quando eles são todas as pessoas que amávamos, por exemplo?

Depois de uma epidemia de zombies, a série segue a história de um grupo de sobreviventes que se fez à estrada. Rick Grimes (Andrew Lincoln), antigo polícia, é o seu chefe moral. O homem das decisões difíceis, racional, íntegro, capaz de abordar eticamente qualquer disputa, respeitando todos e salvaguardando sempre o grupo. Shane Walsh (Jon Bernthal) é o seu parceiro de sempre, apesar de ser absolutamente diferente. É intempestivo, cru, nada lírico, capaz de sacrificar o que seja e quem seja preciso para proteger os seus. A série vive no limite entre as percepções destes dois enormes protagonistas, que formam ainda um visceral triângulo amoroso. Andrea (Laurie Holden), revoltada com a vida e consumida pelo que o mundo se tornou, e Daryl (Norman Reedus), um solitário agressivo mas de bom fundo, são os secundários mais incontornáveis.

A season 2 chegou esta semana à sua paragem de meio de temporada. Só volta em Fevereiro. Este último episódio foi o melhor "fim" que alguma vez vi numa série. O melhor, sem comparação possível. Intenso, imparável, com doses impróprias de adrenalina e um choque puro. Deu para ficar os 30 segundos que se seguiram a olhar embasbacado para o ecrã preto do computador. Perturbadoramente genial.

Se nunca viram, mesmo que não gostem de zombies ou de ficção científica ou do que seja, dêem-lhe uma oportunidade. Duvido mesmo que se arrependam.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Hiddink e Trapattoni, decadência e intemporalidade


"Giovanni Trapattoni vai renovar o contrato que o liga à selecção irlandesa, nesta semana. O treinador italiano garantiu o apuramento da Irlanda para o Europeu 2012 e agora foi brindado com a prolongação do vínculo até à fase final de qualificação do Mundial 2014, no Brasil."

A decadência é tão amarga na vida como no futebol, com a diferença de que no futebol basta saber sair. O adeus será o momento mais dramático da vida de qualquer protagonista, seja jogador ou treinador. Para os jogadores está mais estilizado, acontece-lhes sempre pela mesma idade; para os treinadores é bem mais difícil, a ausência de uma barreira muda tudo. E é tanto mais irónico porque, ao contrário de um jogador, um treinador pode continuar a ser muito bom sempre. A idade avança, há anos que podem correr mal, mas a carreira de nenhum treinador depende do que as pernas podem correr. Qualquer um pode alimentar a ideia legítima de ainda poder fazer a diferença.

Lembrei-me disto por causa dos play-offs de acesso ao Euro-2012. Das oito selecções, duas lendas emergiam claramente dos bancos: Hiddink e Trapattoni. O tipo de homens que deve inspirar qualquer um em campo só por saber que eles estão lá. Meros 7 anos de diferença, muita coisa ganha entre os dois, mas sortes diferentes desta vez.

Depois das melhores performances da história da Coreia do Sul, da Austrália e da Rússia do pós-União Soviética, Hiddink, o milagreiro das selecções, falhou com a Turquia o apuramento que já falhara com a Rússia há dois anos. Sem aviso prévio, parece ter perdido o mojo algures no caminho, e já se fala numa aventura milionária de pré-reforma no Anzhi. Talvez seja um diagnóstico prematuro, mas Hiddink parece começar a esboçar um adeus às grandes coisas de que fez carreira.

Ao mesmo tempo, e do alto dos seus 72 anos, Trapattoni continua imune ao tempo. A Velha Raposa ganhou o seu primeiro título em 1977, tinha Mourinho 14 anos... E na última década, mesmo na sombra dos grandes palcos, foi campeão em Portugal (interrompendo o hiato benfiquista de 10 anos) e na Áustria. Agora, sem estrelas que se vejam, qualificou a Irlanda para um Europeu 24 anos depois. E é bom lembrar que só não esteve na África do Sul por causa da mão de Henry no Stade de France.

Il Trap é um predestinado, e há qualquer coisa de muito inspirador em vermos uma lenda do jogo parecer intemporal. Melhor é saber que ainda é senhor para ir ao Brasil.

The Ides of March


Bom drama político.

The Ides of March celebra a premissa de que não há fuga possível ao poder que corrompe e, não sendo nenhum groundbreaker, alicerça-se numa trama bem montada, bem realizada e bem interpretada. Stephen Meyers (Gosling) é um talentoso assessor de imprensa de um runner-up do Partido Democrata às Presidenciais americanas (Clooney), homem que segue por pura convicção, acreditando que a mudança que ele materializa é o suficiente para levá-lo à Casa Branca e fazer a diferença. A realidade onde vai mergulhar mostra-lhe, contudo, a crueza e a violência da política, fazendo-o perceber que, num meio onde só se joga sujo, tudo se resume a uma questão de sobrevivência.

A realização de Clooney foi uma boa surpresa. Tem classe e uma certa imponência que a distingue, evitando que passe despercebida, o que proporciona uma mão de sequências realmente boas. Num filme que não vive de uma grande criatividade, é uma clara mais-valia.

Muito interessante também a performance de Gosling. É consistente, cativante e tem uma luz particular. O londrino teve um ano em cheio, de afirmação: pior em Drive, mas muito bem aqui e em Crazy Stupid Love. Com Clooney mais discreto no seu mar de funções (produziu, escreveu, realizou e protagonizou), estão ainda num nível alto dois enormes secundários: Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman respiram carisma, fulgor e experiência, com destaque para o segundo.

Vale o bilhete.

7/10

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

The Tree of Life


Uma obra-prima. The Tree of Life é o melhor filme do ano, um dos filmes da década e seguramente um dos mais incríveis filmes que já vi.

É uma absoluta obra de arte. Vê-lo banaliza de uma forma atroz a esmagadora maioria do resto que vemos em cinema. É de um campeonato tão à parte que diria quase não ter termo de comparação: é um exercício artístico genial, com uma beleza visual e sonora tão arrebatadoras que o tornam praticamente inenarrável.

É supremo. Terrence Malick escreveu e realizou aqui o filme de uma vida. Pela não-linearidade e pelo experimentalismo não é um tipo de obra que me costume cativar, mas em The Tree of Life o fascínio é um dado mais do que adquirido. O argumento, de uma profundidade avassaladora, é ao mesmo tempo incrivelmente subtil, sussurrado. Fazer um filme destes com tão poucas linhas é outro dos toques de génio, porque ninguém se ressente do pouco texto, está tudo lá. Mas é, acima de tudo, uma realização estratosférica, um perfeito rasgo de criatividade difícil de descrever. São mais de 2 horas de um realizador possuído pela inspiração de uma visão, capaz de criar num delírio ilimitado, capaz de canalizar toda a beleza do mundo, dos elementos, do espaço e de tudo o que nos rodeia numa infinidade de planos condenados a deixar-nos boquiabertos.

The Tree of Life é um bocado de vida, um retrato da vida, como se a vida fosse qualquer entidade que podemos agarrar, abrir e explorar. Se pudéssemos filmar a vida, filmar as suas facetas, The Tree of Life seria esse filme. A primeira hora - sobre as origens do mundo - é de pura abstracção, quase nem diálogo tem; depois fala-se de amor, família, fé, perda e morte, das experiências que fazem de nós o que somos e, acima de tudo, do que é crescer, através das memórias de infância de um homem de meia-idade. Brad Pitt está muito bem numa figura venerável de pai autoritário, Jessica Chastain tem uma delicadeza de presença que assenta no papel, mas é incontornável que este não é um filme de performances individuais, mas um show de criação e de realização.

Como se não bastasse, tem pura e simplesmente a melhor banda sonora que alguma vez ouvi, da autoria de Alexandre Desplat. Um arraso autêntico, num registo clássico monumental, presente de forma constante em pelo menos 2/3 do filme.

The Tree of Life é majestoso. Já ganhou a Palma de Ouro, merece muito mais, mas merece sobretudo ser visto. Para um filme destes os prémios são só uma formalidade: o que não pode deixar de ter é a oportunidade de nos arrebatar a todos.

9/10