segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Chamberlain


Jogo honesto do Arsenal, mas este ano não dá para mais. Se com Nasri e Fabregas já não chegava, não ia ser agora. Mesmo assim, nem tudo é mau: nas canteras de Wenger cresce mais um nome para perdurar. 18 anos feitos em Agosto, foi titular pela primeira vez hoje. Extremo, parece um pequeno touro, pela compleição física e pela voracidade com que vai para cima dos adversários. Tem aceleração, mas não se esgota aí, como o velocista Walcott no outro flanco; o que o evidencia é, aliás, a potência, o drible curto e o critério assertivo com que decide, tanto mais surpreendente para alguém da sua idade: Alex Oxlade-Chamberlain. Vai dar que falar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

The Descendants


Acho que é daqueles filmes de que é inevitável gostar. The Descendants é um drama familiar, com a dor, a união e a tragicomédia típica de qualquer família, e conta a história de um pai que, no momento em que está a perder tudo, tem de fazer uma ponte com as suas duas filhas, e reaprender a sê-lo, em virtude do coma da mãe. A realização de Alexander Payne transmite-nos uma simbiose, às vezes deliciosa, com o espaço envolvente - o sedutor Hawai -, para o que também contribui a muito agradável banda sonora. Mas, não sendo o filme mais criativo do mundo, é o argumento adaptado, também de semi-autoria de Payne, o que torna uma história que já vimos muitas vezes num retrato com valor próprio e cheio de alma, que vai viver, acima de tudo, da grandeza das prestações individuais.

Clooney é brilhante, provavelmente num dos seus primeiros papéis sem pinga de sex-symbol. É o quarentão discreto que ficou sem rede, que já não pode ser o back-up parent, e a quem se exige que passe a ser bom o suficiente para criar duas raparigas. A impreparação natural, e os vários debates com que é confrontado pelos desenvolvimentos da história, desfazem-no em impotência. Clooney é o homem que está a perder tudo ao mesmo tempo, e que vai agarrar-se às suas certezas de sempre, às suas coisas de sempre, para não ser levado pela corrente. Uma performance despretensiosa e de um nível altíssimo, que vai, muito provavelmente, render-lhe o merecido Óscar.

Mas nem só de Clooney se fez o filme. Shailene Woodley é, obrigatoriamente, uma das revelações de ano. A belíssima californiana de 20 anos é um arraso completo, na pele da filha mais velha, mais problemática, e com as suas próprias razões. A ponte entre a revolta rebelde e a maturidade, fá-lo magistralmente, afirmando-se como um pilar impagável para o pai, e como a alma da casa. Além da profundidade interpretativa, tem uma presença incontornável. É a melhor secundária que vi este ano.

The Descendants tem quase tudo: uma história rica a nível humano, um belo trabalho de Alexander Payne na adaptação do argumento e na realização, e performances perfeitamente oscarizáveis de Clooney e Shailene Woodley. É muito bom... mas não é, de facto, o filme do ano. Mesmo que ganhe o Óscar, como já ganhou o Globo, não tem a produndidade de The Help e, pessoalmente, não bate o rasgo criativo de Midnight in Paris e The Tree of Life.

7/10

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cavaco, a história de um mártir


Cavaco tem a candura de um anjo da guarda, e o espírito de sacrifício de um Cristo. Que sorte a nossa ter estadistas como Cavaco nestes dias difíceis. Cavaco é o visionário que avisou da crise mas ninguém quis ouvir, é o lúcido que clamou que, pelo bem do país, se respeitassem os intocáveis mercados, para depois ser o justiceiro que exortou a que, pelo bem do país, nos revoltássemos contra esses indignos mercados, e é, agora, o grande líder que passa por estes tempos difíceis a sofrer com o seu povo. Que sorte a nossa termos Cavaco. Não o ouvimos, nunca lhe damos o valor, e ele está sempre lá para nos provar que previu, adivinhou, sabia, estava certo. Cavaco nunca se engana e raramente tem dúvidas, já devíamos todos saber. Cavaco avisa-nos, como um bom amigo, tenta encaminhar-nos, mas, simplesmente, é bom demais para nós. Nenhum português merece Cavaco.

Isto tudo e um jornalista reles lembrou-se de lhe perguntar porque é que Cavaco não tinha abdicado, como a sua plebe, dos subsídios. Herege! Se achamos que Cavaco não está a dar o corpo ao manifesto, é porque não somos capazes de ver. De certeza que ele nos está a dar o exemplo de outra maneira, a sacrificar-se para prestar-nos outra lição, e nós, que não o merecemos, estamos outra vez a injustiçá-lo. E claro que estava: Cavaco só não abdicou dos subsídios para ter o que comer. Ao que este país ingrato chegou, a reclamar dos tostões que são dispensados à nossa grande inspiração nacional, a pôr em causa a única coisa que nunca pode ser posta em causa: Cavaco. E teve o vulto de nos explicar, com a aura de um santo pedinte, que, mesmo com os subsídios, o que recebe nem dá para as despesas. O mártir Cavaco não personifica apenas o desígnio nacional; chega ao cúmulo de passar fome por nossa causa.

Nada disto se paga, e, no entanto, quanto é a esmola de Cavaco? 10 500€ por mês. Pior do que uma humilhação. E ainda não ouvi nenhum apelo para que se aumentem os impostos amanhã, para que se defina que um dízimo do rendimento de cada português tem de ir para Belém: Cavaco precisa de comer, por Deus! Mais importante, precisa de carinho, reconhecimento, respeito! Que se acabe, de uma vez por todas, com o desprezo com que este país de ignóbeis trata os seus heróis nacionais.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A morte do Mega


Acho que qualquer pessoa consegue perceber as razões que motivaram o já famosíssimo SOPA (Stop Online Piracy Act): as companhias investem em filmes, discos, livros, séries, e querem, naturalmente, rentabilizar ao máximo esse investimento. Termos todos acesso a ele sem pagar nunca será propriamente pacífico.

O que todas as grandes empresas já deviam ter percebido é que esta é uma guerra, talvez a única guerra, que nunca vão poder ganhar. Vivemos a era da internet, do conhecimento, da partilha infinita de conteúdos. Tentar, hoje, aprovar uma lei que vá ferir a Wikipedia, o Youtube, o Blogger, os torrents, o MegaUpload é, pura e simplesmente, de uma ingenuidade grosseira. Esse barco já partiu há muito tempo; hoje, mesmo para os todo-poderosos, é adaptar ou morrer. Não há alternativa a não ser capitalizar a internet a seu favor, para ganharem mais do que, também não o esqueçamos, já têm ganho com ela nestes anos todos (proximidade, publicidade, disseminação, etc).

O SOPA foi para a gaveta, como se esperava que fosse. Simbolicamente, o FBI lá conseguiu fechar o Mega. Duvido que dê nalguma coisa; e se der, não restem dúvidas de que, por cada Mega que caia, dois se levantarão.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

"So we'll hunt him because he can take it."


Arrancada feliz de Ronaldo, finalmente, e pena que, para a moral, não tenha sobrado o empate, ainda que o destino fosse ser selado de qualquer das maneiras em Camp Nou, daqui a uma semana.

O Barça já foi ao Bernabéu três vezes este ano, esteve a perder em todas elas, mas deu sempre a volta. Só não ganhou a primeira mão da Supertaça. Mourinho mudou, mas não chegou, como era normal que não chegasse: no confronto directo, já o vimos quatro vezes este ano, não há Real para este Barça, muito menos a duas mãos. Não é bonito de reconhecer, e porá sempre Mourinho em causa mas, como disse depois do jogo para o campeonato, isto não deve ser visto como um fim em si mesmo: provavelmente o Real não ganhará jogo nenhum ao Barça este ano, mas, neste momento, também não precisaria de o fazer para ganhar a Liga. O Real pode ir à Catalunha ser enxovalhado duas vezes, e, ainda assim, cumprir o grande objectivo e acabar campeão espanhol.

É esse o grande teste da vida de Mourinho: ultrapassar todas as derrotas, suportar todos os banhos de futebol, sobreviver a toda a impaciência e a todo o desalento, mas manter a equipa concentrada o suficiente para fazer o campeonato perfeito. Porque só há uma forma de bater o Barça: é não precisar desses jogos para nada.


P.S. 1 - A abertura de Messi para o 1-2 valeria o bilhete.

P.S. 2 - A agressão de Pepe não tem desculpa. Mas antes de se voltar à via sacra de condenação do futebol violento do Real, que se ponha a mão na consciência, e se lembre a maneira como os jogadores do Barça continuam a cair.

"With endless love, we left you sleeping. Now we're sleeping with you. Don't wake up."


Enorme realização de Danny Boyle, enorme banda sonora, enorme ambiente. Mais um bom argumento, um bom Cillian Murphy e o Moody de sempre. 28 Dias Depois (2002) é provavelmente o melhor filme pós-apocalíptico que já vi.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Foram os Globos


Argumento para Woody Allen foi todo ele a vitória da noite! Numa cerimónia dominada pela concorrência, o seu 2º Globo era uma improbabilidade grande, e coloca-o em posição privilegiada para atacar o 3º Óscar de argumento da carreira. Allen já é o único homem a ter ganho Melhor Argumento Original por duas vezes; agora, está na dianteira para bater o seu próprio recorde. Ao nível da lenda viva que é.

Claire Danes viu a brilhante performance em Homeland reconhecida, e foi o outro motivo de vivas, bem secundada pelo segundo Globo de Peter Dinklage. E ficamos por aí, porque The Artist arrasou Midnight in Paris e Brendan Gleeson, por quem torcia severamente, e Clooney deixou Pitt outra vez a zeros, ainda que a química brutal de ambos tenha sido das coisas grandes da noite. Como se esperava, sem ver The Descendants, The Artist e Hugo, não se faz farinha. Estão no topo da watchlist, mais The Iron Lady, só para saber se Streep foi mesmo melhor que Viola Davis, e Tintin, que obviamente já devia ter sido consumido.

Em Série e Actor Drama, resultados agridoces: Homeland é, de facto, uma série sensacional, e não se discute que o venerável Kelsey Grammer mereça ganhar um Globo; mas reforço que a estreia da primeira não foi superior à afirmação de Boardwalk Empire, e que a inquietação insuportável de Damien Lewis (Homeland) merecia mesmo o Globo deste ano.

Gervais foi, como é sempre, tudo o que um anfitrião deve ser nestas coisas: inteligente, ácido, provocador, incontornável. Um espectáculo dentro do espectáculo, uma mais-valia absoluta. Pena não existirem mais do seu nível. Isso e que lhe tenham cortado tempo de antena este ano. Oxalá a Academia aprendesse qualquer coisa, tendo em conta que ainda considera Eddie Murphys deste mundo como primeira escolha para os Óscares. Vá lá que o universo encaminhou Billy Crystal para dar conta do recado.

Por fim, a vénia ao enorme Morgan Freeman: Seven, Million Dollar Baby e, acima de todos, The Shawshank Redemption, que teve direito à maior sequência do seu vídeo de homenagem. O prémio-carreira para um grande senhor, um dos primeiros que considerei meu actor favorito.

Foram os Globos, daqui a um mês há mais.