terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Chico & Rita



É um 2D nomeado para o Óscar de Melhor Animação.

Chico & Rita é um filme cheio de charme, mas que se perde ao transformar-se numa novela. Conta a história de um casal de jovens cubanos que se apaixona à entrada dos anos 50, e segue os encontros e desencontros de ambos, muito especialmente a sua busca pelo sonho americano. A primeira parte do filme é deliciosa: transmite a sedução de uma Cuba poética de outro tempo, a Cuba dos gringos, das festas, da paixão e do calor caribenho das noites longas de Verão. O romance entre um pianista magnífico e uma cantora deslumbrante é sensual e empático, e a presença incontornável da música latina e do jazz pinta um ambiente absolutamente cativante. A narrativa em flash-back também é uma boa opção, pela nostalgia muito genuína.

Com o decorrer da história, perde-se, porém, parte substancial desta magia. A acção envereda por um piloto automático de clichés que já vimos um pouco por todo o lado, e as linhas finais não diferem muito de uma qualquer novela mexicana. Com arrojo e novidade na história, Chico & Rita seria um filme inesquecível. Ainda assim, é a melhor Animação nomeada pela Academia este ano.

7/10

Este senhor anda a jogar este mundo e o outro, mister Bento

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Porto anunciado e o Sporting implodido


Foi-se a Taça com estrondo, a Champions pela porta dos fundos e, com a primeira derrota em mais de dois anos, é a vez do Campeonato começar a fugir das mãos. 5 pontos não são, de facto, irrecuperáveis, mas, para este Porto de Vítor Pereira, pelo menos parecem. Em Barcelos, num campo difícil, e sabendo da vitória do Benfica na véspera, foi desolador o que o Porto voltou a não jogar: zero de criatividade (e a aberração de deixar Belluschi no banco...), zero de objectividade, e, mais indiscutível impossível, nenhuma oportunidade de golo até ao Gil estar a ganhar por... 3-0. Há muito tempo que este Porto parou de brilhar; sem Hulk, contudo, a equipa nem consegue esboçar o piloto automático. À primeira adversidade, o campeonato eficiente ruiu como um castelo de cartas, e Vítor Pereira - que continua a não ajudar nem com o discurso, nem com a motivação, nem com as opções tácticas - é, cada dia mais, um treinador à espera de um milagre. Até ao início de Março, com a eliminatória frente ao City e a visita à Luz, saberemos se eles existem.

O Sporting é um verdadeiro case-study. No fim de Novembro, quando jogou com o Benfica, a equipa estava a 1 ponto do líder; hoje, está a 13, e pode acabar a 18ª jornada... no 5º lugar. Nos últimos 10 jogos só ganhou 2, e conseguiu complicar de forma absurda a passagem às meias-finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga. Pelo caminho, a euforia de Alvalade tornou-se num mar de depressão e de casos. Peseiro tem razão quando diz que só um lunático pediria um Sporting campeão este ano, mas estar, no fim do Janeiro, completamente fora da luta do título, e com o próprio pódio em risco, é um desastre, seja de que ângulo for.

Domingos pôs o Sporting a jogar o melhor futebol em muitos anos, fez um primeiro terço de campeonato ao nível dos rivais, ganhou o grupo na Liga Europa e é o único grande que segue na Taça. Mas, como é óbvio, para um investimento de 50 milhões de euros na equipa de futebol, isso nunca será suficiente. Domingos deu vida à equipa, mas não foi capaz de mantê-la ligada à máquina, e não tem sabido gerir o grupo a nível humano (Neto e Ribas, dois jogadores banais, a jogarem poucas horas depois de chegarem, Bojinov crucificado, etc).

Apesar de tudo, digo para Domingos o que disse para Jesus no ano passado: demiti-lo seria um erro tremendo. Os feitos de Domingos falam pela sua competência, e o Sporting dificilmente conseguirá arranjar algum treinador muito melhor do que ele. Além de que dar-lhe, ao menos, dois anos para trabalhar, é o mínimo dos mínimos num clube que, convém não esquecer, não tem estrutura nenhuma.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Bridesmaids


É bem-disposto, descomplexado e faz comédia do ângulo feminino, o que não é particularmente comum. Annie Walker (Kristen Wiig, que protagonizou e co-escreveu o filme!) é a madrinha de casamento da melhor amiga, uma quase quarentona solteira e cujo negócio faliu, e que, no decurso das incumbências relativas à função, vai sentir que está tudo a ruir à sua volta: relação com a noiva incluída.

Kristen Wiig, que faz parte, actualmente, do elenco do histórico Saturday Night Live, foi uma bela surpresa. É bonita, perspicaz, e tem uma piada ousada e absolutamente natural. Desmistifica um bocado aquela imagem que estamos habituados a ver de que smart ain't sexy, e valeu-lhe a nomeação para Melhor Actriz Comédia, nos Globos, a que juntou a de Melhor Argumento Original, nos Óscares.

Melissa McCarthy é o outro destaque, como irmã do noivo. É despudorada, sexual, às vezes masculina, e razoavelmente delirante, o que lhe rende uma grande performance, e a faz correr, muito justamente, pelo Óscar de Melhor Secundária este ano.

Bridesmaids não é inesquecível, mas é uma comédia bem passada, com uma certa originalidade.

6/10

"Os árbitros são arrogantes e ameaçam-nos"


7 pontos de atraso e, de repente, o conto de fadas torna-se bem mais humano: até o Messias já se sente prejudicado... pela arbitragem. Melhor do que isto, só um dos mestres de circo (Dani Alves, Piqué, Mascherano, Villa, Pedrito, ou, claro, o rei Busquets) vir reforçar a indignação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Gabão-Marrocos, futebol devia ser isto


Jogo verdadeiramente apaixonante, que torna impossível que não nos rendamos à magia da CAN. Marrocos esteve a ganhar até aos 70', o Gabão virou o jogo em 2 minutos, Marrocos empatou nos descontos mas, na última jogada, aos 90+5, os gaboneses tiveram um livre directo para bater... e o recém-entrado Bruno Mbanangoye deu-lhes a vitória com um pontapé do outro mundo. O Gabão-Marrocos foi o futebol no seu estado puro, espectacular, electrizante e eufórico, do campo às bancadas. Foi o futebol que já não existe, como era bonito que fosse sempre.

Marrocos entrou forçado a recuperar a compostura, depois da lição de maioridade da Tunísia no primeiro jogo, mas Gerets decidiu abdicar de tudo o que distingue a equipa: a técnica e a criatividade. O treinador deixou Boussoufa, Taarabt e Amrabat no banco, e investiu numa equipa mais pragmática e com dois avançados, ceifando toda a vida ao futebol marroquino. A táctica até deu frutos durante muito tempo, mas nem um penalty nos descontos, qual justiça poética, viria a chegar para manter vivos os Leões do Atlas. Com tanto futebol para oferecer, Marrocos sai desta CAN de uma forma desoladora, a jogar pouco e mal, e muito por culpa de um Erik Gerets pequeno demais para tamanho talento.

Já o Gabão é o primado da pureza do futebol. A equipa começou por respeitar o adversário em excesso, pagou o cinismo marroquino, mas desde o primeiro minuto da segunda-parte que decidiu pôr tudo em campo. O resultado foi um verdadeiro festival de futebol ofensivo, de uma selecção entusiasmada e entusiasmante, aversa a quaisquer amarras tácticas. Com um poderio físico avassalador, a jogar rápido, em força e pelos flancos, a bombear cruzamentos e a rematar, os gaboneses inventaram um sinfonia ininterrupta que desterrou autenticamente o adversário.

Os momentos após o 2-2 marroquino, nos descontos, dizem tudo sobre o coração gabonês: a equipa ficava, mesmo assim, a precisar de um único ponto para seguir em frente... mas fez-se ao ataque como se a sua vida dependesse disso, e, em África, ainda há lugar para o futebol romântico. Jogaço impagável do pequeno Gabão (1,5 milhões de habitantes!), que se qualificou para os quartos-de-final da CAN pela 2ª vez na sua História, e fez um novo fã deste lado.

Gabão - Pierre Aubameyang é portentoso. O avançado (22 anos) do Saint-Étienne é todo ele uma estrela em potência. Começou mais no centro do ataque, mas não tem nada de número 9. A vir de trás para a frente, pelo contrário, é uma verdadeira locomotiva. Vagueia pelas alas, e depois explode, em força e em remate. Marcou o seu 2º golo na competição, e ainda fez uma assistência. Não é à toa que, logo depois da estreia, já o consideravam uma das estrelas da CAN. O veterano Daniel Cousin (34 anos) foi a chave da revolução na 2ª parte. Poderosíssimo, veio martirizar a defesa marroquina como referência do ataque, e marcou um grande golo à ponta-de-lança, coisa que os marroquinos nunca tiveram. Eric Mouloungui (28 anos), extremo-esquerdo do Nice, contrapõe em técnica o que a equipa esbanja em força. E ainda merece uma palavra Ecuele Manga, central de 23 anos do Lorient, absolutamente imponente.

Marrocos - O capitão Kharja foi, até ao último minuto, a grande inspiração da equipa. Um médio de contenção que marcou todos os 3 golos da Selecção na CAN, o que diz quase tudo sobre a sua personalidade e o nível a que joga. Um verdadeiro líder que arrastou sempre a equipa, e que merecia mais. Mehdi Carcela (22 anos, Anzhi), foi a única centelha de criatividade da equipa, pela extrema-esquerda.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Boss, season 1


"Do you know who the fuck i am? Right now, in this moment, i'm the angel of fucking death for you. And the next few minutes are gonna feel like prediction itself if you dont't tell me what i need to know"


O Boss é um homem: o venerável Mayor Tom Kane (Kelsey Grammer), presidente eterno da Câmara de Chicago, um líder histórico e incontornável, temido e odiado, e a história é a da sua perpetuação no poder. Kane é um monstro político implacável e impiedoso, senhor de uma ira majestática, e que é capaz de rigorosamente tudo para manter a cidade nas suas mãos.

A acção começa, ironicamente, no momento em que este descobre ter uma doença terminal altamente degenerativa, que o vai levar a pôr tudo em causa. Desde logo a reaproximar-se da filha toxicodependente, mas também a questionar-se a respeito do seu legado, duvidando se o que teve de fazer tinha um propósito para o seu povo, ou se, a dada altura, foi o mero meio para eternizar-se no cargo. Performance absolutamente icónica de Kelsey Grammer, e que lhe valeu o Globo de Ouro deste ano para Actor Drama.

Boss é um excelente drama político, que não aborda o sistema apenas do ângulo linear da corrupção pela corrupção. Fala de desencanto, abuso de poder, conspiração e traição, mas mostra que a política é uma realidade muito complexa, que se traduz numa luta incessante pelo poder, onde não existem, no fim de contas, os bons e os maus. A única certeza é que é preciso sacrificar muitas coisas para conseguir algumas. O limite é saber distinguir quando é que existe um desígnio, e quando é que os vícios já consumiram tudo. E Boss ainda aborda o jornalismo, na sua simbiose intrínseca com o poder, investindo numa narrativa pragmática mas romântica qb.

Os dois melhores secundários são os conselheiros do presidente. Ezra Stone (Martin Donovan) é o histórico e fiel braço-direito, um imprescindível, o cérebro que o aconselhou durante todo o caminho, um verdadeiro peso pesado da assessoria, conhecedor do meio como ninguém, e capaz de ler superiormente qualquer situação. Kitty O'Neill (Kathleen Robertson) é uma espécie de relações públicas, uma mulher extraordinariamente sensual, que é recente no meio, mas que aprendeu muito rápido, e que se faz valer pela criatividade.

Ainda merecem referência Alex Zajac (Jeff Hephner), o contagiante candidato a Governador do Illinois, um jovem ambicioso, perdido por mulheres, e com dotes de retórica prodigiosos; e Sam Miller (Troy Garity), um abnegado, incómodo e irascível jornalista, sempre a farejar a verdade.

A série (8 episódios) não é perfeita, o que é notório nalguns desfechos pouco felizes no fim da temporada, mas é, ainda assim, um retrato belíssimo da política, alicerçado, nunca é demais reforçar, numa prestação monumental de Kelsey Grammer.