sábado, 11 de fevereiro de 2012

Vá lá que, de vez em quando, nos deixam jogar


Esta época, em sete jogos contra os grandes, só acabámos com onze jogadores em campo três vezes... e ganhámos sempre. Cada um tira as suas conclusões. À 18ª jornada, e depois de perder uma referência que rendeu 15 golos na primeira metade da época, o Marítimo continua a fazer o melhor campeonato da sua História, e segue no 4º lugar, à frente de quem investiu 10 vezes o nosso orçamento anual na sua equipa de futebol. Pelo resto, fala o banho de bola de hoje.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

CAN 2012: E, de repente, houve Costa do Marfim


A grande dúvida era saber se, quando chegasse a hora, a Costa do Marfim estaria à altura. E esteve, de facto. No jogo mais exigente de uma prova que tem sido, pelo menos, simpática, os marfinenses puxaram dos galões e mostraram o que vale a máquina. Se depois da Guiné sobraram dúvidas, agora é difícil não imaginar uma Costa do Marfim campeã africana: percebemos porque é que a equipa não sofre golos - força impressionante do quarteto da defesa, grande disciplina nas laterais, mais o pêndulo Zokora -, e vimos, finalmente, o que vale estarem ligados ao jogo, ao mesmo tempo, Yaya, Gervinho, Kalou e Drogba. Ficaram-se pela obra de arte de Gervinho, mas só por acaso, porque houve futebol para números gordos.

O Mali não foi, mesmo assim, o bobo da festa. A equipa de Alain Giresse valorizou o espectáculo, e contribuiu, indiscutivelmente, para a grande primeira-parte de Libreville. Os malianos perderam muito do jogo pela falta de capacidade defensiva e, em boa parte, de maturidade competitiva, mas, mesmo escasseando-lhes talento individual, foram uma belíssima surpresa a nível de estilo: privilegiam sempre o toque curto, e jogam um futebol apoiado que é atraente e os protege das suas fraquezas. Até a Costa do Marfim ter trancado o jogo em meados da 2ª parte, o Mali poderia ter sido feliz numa mão cheia de grandes jogadas, às quais só faltou mais do que o gigante Diabaté na frente. O velho Kanouté teria valido pela vida na cabeça do ataque.

Com a queda chocante do Gana nas meias-finais, será preciso um cataclismo para que Drogba não vença, aos 33 anos, a primeira CAN da sua carreira.

Costa do Marfim - Jogo de nível muito alto de quase toda a gente. O melhor em campo terá sido Yaya Touré. O colosso do City pegou no jogo, arrastou a equipa consigo e foi especialmente fracturante a aparecer na área adversária. Gervinho merece necessariamente o destaque pelo monumento de golo: sprint, classe a definir mas, sobretudo, o nó cego que meteu o defesa maliano numa cova. Numa exibição exemplar a nível defensivo, brilharam ainda Zokora, a âncora invisível, e Jean-Jacques Gosso (28 anos, Orduspor), um verdadeiro camião na lateral-direita.

Mali - Defesa e ponta-de-lança pobres, mas um grande pentáculo a meio campo (a equipa jogou em 4-5-1). Keita, claro, foi o farol, sempre com a bola colada ao pé, naquele seu jeito de monge paciente, mas ficaram na retina Yatabaré (26 anos, Guingamp), o mais rápido, pela direita, e Samba Diakité (23 anos, QPR), muito forte, mais no miolo. Nenhum especialmente desequilibrador, mas todos com muita noção dos momentos do jogo, numa teia de valorização da posse de bola à qual só faltou definição à frente da baliza.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O dia em que até eu tive vergonha de festejar uma derrota do nacional


Não vou bancar hipocrisia nenhuma: o nacional estar fora do Jamor é uma vitória em qualquer dia do ano. Ainda assim, até para mim é inenarrável a verdadeira espoliação com que o Sporting chega à final da Taça. O penalty-fantasma precedido de fora-de-jogo com que Pedro Proença salvou a época do Sporting devia arrasar qualquer um, no clube ou em qualquer grande português, que tenha um pingo de vergonha na cara. A fazer do choradinho o modo de vida, o Sporting chega ao Jamor depois de duas eliminatórias que foram autênticas aberrações terceiro-mundistas. O futebol português é um verdadeiro circo, e só o é porque somos todos palhaços conformados.

P.S. - Na flash-interview, nem uma pergunta a Domingos sobre o penalty. A comunicação social complacente e contaminada é, necessariamente, um dos maiores culpados pelo estado de coisas.

Não pôde ser para nós, que seja para vós, Briosa




terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Downton Abbey, season 1


A distingui-la numa palavra, seria sempre requinte. Downton Abbey é a história de uma imponente família nobre da Inglaterra rural do início do século XX, e esbanja classe do contexto ao tratamento de toda a acção. O argumento é um monumento, e dá-nos uma imagem notável do que era o modo de vida, os costumes, os preconceitos, as mentalidades e as novas descobertas desses anos. A devoção pelos detalhes é qualquer coisa de apaixonante, e, em muitos aspectos, Downton Abbey é quase uma lição de História.

Além disso, no sumo propriamente dito, a série evidencia-se por uma característica que distingue as melhores: pegar num contexto normal, sem espectacularidades ou exageros, e tecer um retrato absolutamente brilhante das relações humanas. Fala de legado, no Senhor que precisa de preservar a obra da sua vida e não a pode deixar às próprias filhas, de ter de viver à altura das expectativas, de respeito e reciprocidade entre nobres e servos, e da extrema dignidade de quem serve, da inveja que é transversal, e da maldade que não se pode conter, da perda de quem nos é mais querido, da falta de linearidade das histórias de amor, e da amargura por acções irreflectidas e por oportunidades perdidas. Ainda melhor é a classe pura com que fala de tudo isto, quase sempre de uma forma subtil, em metáforas e pequenas linhas segredadas, numa expressão ou num olhar comprometido.

Hugh Bonneville (Robert Crawley, Lord of Grantham) é um belíssimo lead, um homem profundamente apaixonado pela sua família e pela sua Downton, moderno, justo, averso a questiúnculas e em quem se pode confiar, muito fácil de lidar e profundamente empático. "Conversar" com ele é quase sempre abrir os horizontes. Jim Carter (Mr. Carson) é o imponente mordomo-chefe, a imprescindível força motriz de toda a casa, reverente e austero, mas com um bom coração e um grande sentido de justiça. Brendan Coyle (John Bates) é o escudeiro pessoal de Lord Grantham, um homem que ficou coxo em combate, amargurado, assombrado e sóbrio, mas que é um exemplo de integridade e uma profunda inspiração para quase todos com quem se cruza. Maggie Smith (Condessa-Viúva de Grantham) fecha o leque de melhores actores, na sua condição de matriarca absolutamente cáustica, nobiliárquica imponente e defensora dos velhos costumes. O romance entre Michelle Dockery (Lady Mary Grantham, filha primogénita do Lorde) e Dan Stevens (Matthew Crawley, o parente da cidade e legítimo herdeiro) tem, também, um valor muito próprio.

A primeira temporada (2010, de 7 episódios) acaba na antecâmara da I Guerra Mundial, pelo que melhor aperitivo era impossível para a que se segue, e a season 3 já foi confirmada para Setembro deste ano. É muito difícil não ficar rendido a Downton Abbey.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sometimes the truth isn't good enough


Acreditei, até ao último segundo, que Contador não fosse condenado. Não alguém tão bom como ele. Contador foi o segundo melhor ciclista que vi nestes anos todos, só atrás de Armstrong. Mais do que um prodígio em cima da bicicleta, das tácticas ou da equipa, era a superioridade da atitude que o distinguia de quase todos: Contador não era o melhor só porque tinha talento, era o melhor porque só sabia correr para ganhar. É daquelas coisas que não se aprende, tem de nascer connosco. No pelotão internacional dos últimos anos, talvez se equiparassem a ele em talento, em capacidade de sacrifício ou em resultadismo; nunca em mentalidade.

A condenação de hoje é desoladora. Não chega, porém, para me converter. Escrevi aqui, em tempos, que se Contador caísse, perdia-lhe todo o respeito, e o ciclismo deixava de fazer sentido; a verdade é que não consigo. Contador dopou-se e mais um gigante deixou-nos ficar mal, tornou-se mortal como nós. Mas páro, lembro-me dele a correr sempre contra todos, porque nunca precisou de ser o tipo simpático ou o bom perdedor, lembro-me dele a atacar quem fosse preciso, mesmo sem ser preciso, e penso no quão inconcebível é ter Schleck a ganhar um Tour e Scarponi um Giro, depois de andarem a cheirar a sua roda, apavorados, durante três semanas.

Contador descredibilizou a sua profissão, e desiludiu e perdeu a consideração de muita gente, mas até as lendas têm o direito de ser humanas às vezes. E grandeza competitiva não há doping nenhum no mundo que possa dar.

Agradecemos todos


Ninguém faz milagres sozinho, mas, ao vê-lo jogar, é legítimo que os portistas ponham todas as fichas nas suas botas. Lucho continua a ser um espanto, e continua a tornar melhores todos à sua volta. Poucos seriam os jogadores cujo regresso engrandecesse tanto um campeonato.