quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CAN 2012: a equipa


Melhor Jogador: Chris Katongo, Zâmbia (29 anos, Henan Jianye, da China)


Revelação: Pierre Aubameyang, Gabão (22 anos, Saint-Étienne, emprestado pelo Milan)

EQUIPA
GR: Aymen Mathlouthi, Tunísia (27 anos, Étoile du Sahel, da Tunísia)
DL: Kily Álvarez, Guiné Equatorial (28 anos, Langreo, 4ª divisão espanhola)
DC: Ecuele Manga, Gabão (23 anos, Lorient)
DC: Didier Zokora, Costa do Marfim (31 anos, Trabzonspor, da Turquia)
DL: Jean-Jacques Gosso, Costa do Marfim (28 anos, Orduspor, da Turquia)
MA: Chris Katongo
MC: Isaac Chansa, Zâmbia (27 anos, Orlando Pirates, da África do Sul)
MC: Houssine Kharja, Marrocos (29 anos, Fiorentina)
MA: Gervinho, Costa do Marfim (24 anos, Arsenal)
AV: Pierre Aubameyang
AV: Emmanuel Mayuka, Zâmbia (21 anos, Young Boys, da Suíça)

Menção honrosa:
MC: Samba Diakité, Mali (23 anos, QPR, da 2ª divisão inglesa, emprestado pelo Nancy)
MC: Younès Belhanda, Marrocos (21 anos, Montpellier)
MO: Mbark Boussoufa, Marrocos (27 anos, Anzhi, da Rússia)
EXT: Max Gradel, Costa do Marfim (24 anos, Saint-Étienne)
EXT: Eric Mouloungui, Gabão (28 anos, Nice)
AV: Youssef Msakni, Tunísia (21 anos, Espérance Tunis, da Tunísia)

Fazer esquecer a Megan. Não era para todas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

The Iron Lady


É o filme mais subvalorizado do ano, e, possivelmente, a melhor biografia que já vi.

The Iron Lady é um retrato extraordinário de uma mulher extraordinária, que ilustra o presente assombrado de uma Margaret Thatcher no limite da demência, enquanto conta a sua história pessoal e política. O argumento de Abi Morgan (que, este ano, também assinou Shame) simpatiza com a líder - a conotação política pode, aliás, ter explicado boa parte do pudor com que o filme tem sido recebido -, mostrando-a como uma estadista maior do que os políticos tarefeiros, que subiu a pulso, e que só estava comprometida com o que entendia ser melhor para o país, mas não se esgota aí. Na verdade, considero que é honesto o suficiente para que qualquer um possa tirar as suas conclusões, sabendo distinguir o que admirar - a rectidão, a apologia do trabalho e da competência, e a vontade de fazer a diferença -, do que é a impraticável falta de sensibilidade política. É isso que o torna notável. A respeito do funeral de Álvaro Cunhal, Sousa Tavares escreveu que, ainda que não partilhem os mesmos ideais, as pessoas respeitam quem acredita nalguma coisa. É dessa forma que o leio.

Phyllida Lloyd, que só tinha no currículo um filme bem distinto - Mamma Mia! -, tem uma realização brilhante. Desde logo, porque abarca quase toda a vida de Thatcher em pouco mais de 1h30, sem acharmos que foi simplista, ou que meteu tudo ao barulho sem critério: consegue, pelo contrário, ser densa, aproveitando a riquíssima caracterização da protagonista, e deixa-nos a sensação de que a história não podia ser melhor contada. Depois, as narrativas entre-cortadas de passado e presente são feitas com conta, peso e medida, e, em vez de confundirem tudo - como em Tinker Tailor Soldier Spy, que investe no mesmo, mas de maneira infeliz -, dão uma óptima dinâmica. Por fim, a cereja no topo do bolo é a liberdade criativa com que se filma a demência. Enorme trabalho da britânica de 54 anos, acompanhado pela excelente banda sonora de Thomas Newman (Shawshank Redemption, American Beauty ou Cinderella Man e, este ano, também The Help).

Seja qual for a leitura, certo é que há unanimidade sobre uma coisa: Meryl Streep é providencial. Pode parecer crónico vê-la avançar para a 17ª nomeação, mas quem duvida só tem de ver o filme. Streep é um manual vivo de majestade na representação, e torná-la Thatcher correu tão bem como poderia ser concebível. Tem tudo: altivez, imponência, vulnerabilidade, coração e capacidade para nos arrepiar. Viola Davis foi brilhante em The Help, mas Streep é mesmo a Melhor do Ano.

Há coisas que não se percebem. O fracasso de The Iron Lady é uma delas.

8/10

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

E se o país fosse como Mourinho e Ronaldo?


Nem o campeonato estava perdido depois da derrota no Bernabéu, nem está ganho agora. É bom não esquecer que o adversário é, provavelmente, a melhor equipa da História, e que uma coisa que parecia impossível há um par de meses - ganhar-lhes uma prova de regularidade - não será, agora, um mero passeio triunfal.

No entanto, ter, a meio de Fevereiro, 10 pontos de vantagem para este Barcelona, é impensável. O Real só poderia ganhar um campeonato à melhor equipa de sempre se fosse perfeito, e é exactamente isso que tem sido. Quem acha que esta liga é resultado de um Barcelona "mais fraco", não faz a menor ideia: cada milésimo desta dezena de pontos é mérito integral de um Real que tem sido estratosférico, e que ameaça todos os recordes da História da Liga Espanhola, um Real que percebeu que tinha de ser muito melhor do que o melhor, para poder triunfar. Um Real que só o tem sido, sublinhe-se, graças aos dois maiores intérpretes de todos os tempos do Desporto português, dois extra-terrestres que nasceram para ganhar, e dos quais o país se devia orgulhar incondicionalmente, muito, mas muito mais do que o faz.

O Barça ameaça cair não porque se desmotivou, ou porque está diferente, mas porque nem a melhor equipa de sempre acreditou que o adversário se pudesse transcender tanto. Quem viu os últimos anos, quem percebe o que é este Barcelona, sabe que o campeonato que o Madrid está a fazer é uma irrealidade, cujo verdadeiro alcance só perceberemos daqui a muitos anos.

Sporting: uma tragédia que não acaba


"A saída de Domingos é uma questão que não faz sentido"
Godinho Lopes... no Domingo

Não é discutível que Domingos tenha falhado, como escrevi aqui recentemente. Mesmo na lógica de um projecto que não era, como é evidente, para meio ano, estar, à 18ª jornada, a 16 pontos do líder e a 8 do pódio, fora das meias-finais da Taça da Liga e na final da Taça só com todos os favores do mundo, é desolador. Domingos teve melhores meios que os antecessores, mas falhou, e é verdade que os sinais no imediato não eram encorajadores.

O problema é que, no Sporting, toda a gente falha. E ver a figura deplorável que Godinho Lopes fez de si próprio, depois do que disse anteontem, explica quase tudo. A direcção chegou a enganar - investimento, bons jogadores, bom treinador - mas, no momento do tudo ou nada, mostrou que não está à altura. Não é assim que se gerem equipas, e assim não se ganha nada. E para ter um exemplo, nem era preciso ir muito longe: bastava olhar para o Norte, e para a protecção que é dada a um treinador 10 vezes inferior a Domingos. Para Godinho Lopes, Luís Duque, Carlos Freitas, ou seja lá quem for que manda neste Sporting, salvar a pele foi mais importante. Será o clube a pagar por isso.

Sá Pinto não é uma aposta arriscada nem espirituosa: é, pura e simplesmente, a única aposta possível num momento em que nenhum treinador digno desse nome aceitaria o cargo. Na impossibilidade de ter alguém com trabalho a falar por si, a direcção agarrou-se à única coisa que podia garantir: o sportinguismo. Sá Pinto será um treinador-adepto, um apaixonado, mas é preciso mais do que vontade para triunfar, e olhamos para os últimos treinadores campeões - Villas-Boas, Jesus, Jesualdo, Trapattoni -, e parece que este já não é o tempo dos agitadores. A realidade é que se o Sporting tinha chance de conseguir alguma coisa no médio-prazo, seria sempre mais com Domingos do que com Sá Pinto. Para a direcção, contudo, os problemas do clube vão-se resolver pondo na rua o melhor treinador que estará ao seu alcance em muitos anos.

Por último, Domingos: fizeram-lhe um favor. É ele quem ficará melhor no meio disto tudo, saindo quase tão imaculado como entrou.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CAN 2012: Uma final épica, e o "espírito dos mortos que ainda está em Libreville"


Em 1993, o melhor grupo de futebolistas da história da Zâmbia morreu tragicamente num acidente de avião, ao largo do Gabão. Essa equipa viria a ficar a um único ponto do Estados Unidos-94, e, até agora, o país nunca chegou a jogar um Mundial. Ontem, exactamente no Gabão, a Zâmbia venceu incrivelmente, e pela primeira vez, uma Taça das Nações Africanas. Esta semana, quando todo o grupo foi benzer-se ao mar, em homenagem, o capitão Katongo disse que o espírito daqueles mortos estaria com eles. Com mais ou menos misticismo, ver uma equipa inteira de jogadores profissionais ajoelhada e a rezar em voz alta antes de um penalty decisivo, e assistir, depois, à lembrança eufórica da "geração perdida" foi qualquer coisa de inesquecível.

Tudo na vitória da Zâmbia foi arrepiante. Os Chipolopolo, ou "Balas de Cobre", como são conhecidos, foram underdogs do início ao fim e, sem um único jogador de nomeada, abateram o Senegal, o Gana e a Costa do Marfim. Nunca os tinha visto, e, portanto, nunca poderia imaginar o que valiam. A Zâmbia mistura os melhores mundos do futebol africano: por um lado, foi absolutamente inteligente a abordar o jogo, segurando-o com linhas de 4 defesas e 4 médios que pareciam betão; por outro, é uma equipa talentosa e contagiante, capaz de esticar o jogo num carrossel de velocidade e técnica, e disputá-lo num ritmo de parada e resposta, sempre de igual para igual, com a colossal Costa do Marfim. Hervé Renard (43 anos), ou o "Feiticeiro Branco", como lhe chamam na Zâmbia, até aqui com uma carreira discreta, fez um trabalho brilhante, por tudo o que se vê e, muito especialmente, pela química com os jogadores, tão incontornável no fim.

A Costa do Marfim tinha tudo a perder, e perdeu. Egipto, Camarões e Nigéria falharam a CAN, Marrocos, Senegal, Gabão e Gana falharam a final, e a equipa nem teve de sujar as mãos com nenhum deles, não tendo sofrido sequer um único golo em toda a competição. Faltava a final. O mais ingrato é que os marfinenses não foram displicentes, pretensiosos, nem jogaram mal: tiveram foi o azar de encontrar outra grande equipa, mesmo que, à partida, poucos fossem capazes de o ver. Na fábula da apaixonante Zâmbia, doeu, ainda assim, a falência de um Golias: Drogba perdeu o penalty mais importante da sua vida e deixou fugir, aos 33 anos, a chance de ganhar a primeira CAN da sua brilhante carreira. É impossível não nos rendermos aos zambianos, mas poucas seriam as vezes em que a queda de um gigante compadecesse tanto.

Quando o futebol lembrar 2012, este Zâmbia-Costa do Marfim lá estará, num lugar de honra. A CAN acabou da única maneira que lhe faria justiça: com paixão em estado puro.

Zâmbia - A equipa merece que se abra a boca de espanto. Fiável a defender é, contudo, no momento da construção ofensiva que tudo se ilumina. Chris Katongo (29 anos, joga na China) foi a figura maior, e já considerado o Melhor Jogador da CAN: é um capitão de corpo inteiro na extrema direita, consistente e constante, cheio de força, finta e faro pela baliza. Emmanuel Mayuka (21 anos, Young Boys) é a outra grande estrela, no coração do ataque. É agil e um mestre a jogar de costas para a baliza, a mover-se pela frente de ataque e a baralhar marcações, senhor de uma magnífica recepção de bola. Rainford Kalaba (25 anos, joga no Congo), que já passou por Braga, Gil Vicente e Leiria, completa o virtuosismo do trio de ataque, sendo o mais técnico e esguio, e fazendo uso de um remate fácil. Isaac Chansa (27 anos, joga na África do Sul) é um médio extraordinário, que chega ao ataque numa passada larga mas com pés de veludo, para abrir o livro numa explosão de técnica. E Félix Katongo (27 anos, joga na Zâmbia), irmão de Chris!, foi um substituto de luxo, a agitar todo o meio-campo ofensivo na sua condição de número 10.

Costa do Marfim - O melhor foi Max Gradel (24 anos, Saint-Etiénne), que saltou do banco para dar uma alma do tamanho do mundo aos marfinenses. Foi jogar para a extrema-esquerda, e fez um estrago tremendo, no seu jogo profundamente técnico, de desequilíbrios e diagonais. Didier Ya Konan (27 anos, Hannover) também entrou na 2ª parte, e trouxe intensidade ao miolo, para o que contribuiu a sua grande facilidade em aproximar-se da área. Em ambos os casos, mérito para as mexidas do técnico François Zahoui. A tempo inteiro, o melhor foi Gervinho, sempre ligado ao jogo, sempre difícil de parar (é ele quem ganha o penalty).

The Artist


À partida, a minha receptividade não era a maior. Discordava de quem falava num filme de grande coragem, por fazer-se um mudo em 2011, e de quem dava a entender que a forma do filme valia, por si só, o elogio: é que apostar num filme destes é, realmente, criativo... mas o risco era zero. Se fosse razoável, o revivalismo seria sempre apreciado; se fosse mesmo bem feito, tornava-se num hit, porque, afinal de contas, tinha-se feito aquilo com um mudo.

Certo é que The Artist é um filme surpreendente. Queria dar à sua forma uma importância relativa, mas salta à vista o brilhantismo da realização de Hazanavicius. O francês também escreveu o argumento - um drama romanceado sobre resistência à mudança, orgulho e decadência, com a matrioshki de ser um filme mudo sobre filmes mudos -, mas o que torna o resultado especial é a sensibilidade e a classe da sua realização, que não esconde a devoção pelo género, e que é capaz de compor todos os momentos do filme como uma peça de arte, alicerçada na poderosa banda sonora que se exigia. No fundo, Hazanavicius foi capaz de desmistificar todos os preconceitos: The Artist não é um filme mudo porque sim, mas um dedicado trabalho de autor, que presta uma respeitosa homenagem a um género perdido, e que, mesmo sem uma trama de cortar a respiração, constitui uma notável experiência cinematográfica.

Jean Dujardin é absolutamente icónico. Carismático, teatral e a encher o ecrã sem abrir a boca, é um verdadeiro figurão de revista daqueles tempos, que nos deixa na dúvida se, de facto, não terá sido teletransportado da Hollywood dos anos 20. A disputa do Óscar com Clooney será um duelo de titãs, mas, para mim, é mesmo ele o melhor actor do ano. Bérénice Bejo também merece a sua nomeação, numa performance entusiasta, de uma agilidade e alegria contagiantes. E, finalmente, vénia seja feita a Uggie, o Jack Russel Terrier que já tinha entrado em Water for Elephants, e a Omar Von Muller, que o criou e treinou: é um pequeno espectáculo e, em Cannes, até recebeu uma Palma de Ouro.

Na disputa mais do que anunciada com The Descendants para Melhor do Ano, tenho de escolher o filme de Alexander Payne mas, independentemente do que aconteça, The Artist é uma obra belíssima, que merece por inteiro o reconhecimento que está a ter.

7/10