terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Hugo


Um dos bons filmes do ano.

Sobressai, acima de tudo, a realização brilhante de Scorsese, que já lhe valeu o Globo de Ouro. Foi o seu primeiro filme em 3D, e o velho Marty saiu-se com a mestria de sempre, inventando um filme que é visualmente irresistível, do ambiente e da luz com que filma a Paris dos anos 30, à verdadeira grandiosidade dos cenários. Tudo em Hugo tem um brilho, um mistério e uma vertigem profundamente poéticos, como numa fábula idílica, e isso é mérito evidente da realização.

O argumento adaptado do consagrado John Logan (Gladiator, The Last Samurai) chega a ser muito bom, mas também é agridoce. A história do pequeno Hugo Cabret, um orfão que vive nos labirínticos intra-muros da Estação de Paris, é sobejamente empática. A sua vida dentro das paredes da estação é sedutora, a relação com um velho e misterioso lojista é bem conseguida, e a caminhada para descobrir o seu lugar é belíssima. O filme deriva, contudo, para uma homenagem aos primórdios do cinema que, mesmo que com bom gosto, baralha a acção, e desilude quanto à alma que seria necessária para fechar superiormente uma história como esta.

Asa Butterfield (The Boy in the Striped Pajamas), de 14 anos, é muito bom. Hugo tem várias semelhanças estruturais com Extremely Loud & Incredibly Close - a orfandade de pai, a busca por respostas no seu espólio e a descoberta de si próprio no processo -, mas, aqui, o protagonista é uma clara mais-valia: capaz de transmitir um propósito, Butterfield comove-nos pela sua extrema maioridade e abnegação. É um senhor, para quem estão reservadas grandes coisas no futuro.

Hugo é uma bela história, muito bem realizada e com um excelente protagonista. Para ser extraordinário, ficou a faltar-lhe génio no desfecho.

7/10

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Extremely Loud & Incredibly Close


Fraco.

O filme prometia uma certa pureza aventureira, apesar de se inspirar na premissa comum do filho que vai seguir pistas deixadas pelo pai que morreu, mas não é competente, muito devido a um argumento (adaptado) que é cansativo e redundante, autoria, imagine-se, de Eric Roth, que já criou, entre outros, obras do nível de Forrest Gump, Benjamin Button, The Insider ou Munich. A preponderância do 11 de Setembro é desnecessária e de mau gosto, a densidade da síndrome de Asperger no miúdo pesa muito - e o estreante Thomas Horn, de 14 anos, não consegue agarrar o filme -, a acção é conduzida de uma maneira superficial, e, ainda por cima, não acaba de forma satisfatória.

Salva-se, apenas, o trato da família a uma criança que é especial, mais a curta personagem de Tom Hanks, e, sobretudo, a performance de Max von Sydow, justamente na corrida para Melhor Secundário este ano.

De resto, Extremely Loud & Incredibly Close é só um daqueles filmes nados e criados para os Óscares - além dos nomes já citados, a realização é de Stephen Daldry (The Hours, The Reader), e o elenco ainda tem Sandra Bullock, Viola Davis ou John Goodman... -, e que só lá chegou por isso, já que o resultado final não justifica minimamente a nomeação para Melhor Filme.

5/10

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CAN 2012: a equipa


Melhor Jogador: Chris Katongo, Zâmbia (29 anos, Henan Jianye, da China)


Revelação: Pierre Aubameyang, Gabão (22 anos, Saint-Étienne, emprestado pelo Milan)

EQUIPA
GR: Aymen Mathlouthi, Tunísia (27 anos, Étoile du Sahel, da Tunísia)
DL: Kily Álvarez, Guiné Equatorial (28 anos, Langreo, 4ª divisão espanhola)
DC: Ecuele Manga, Gabão (23 anos, Lorient)
DC: Didier Zokora, Costa do Marfim (31 anos, Trabzonspor, da Turquia)
DL: Jean-Jacques Gosso, Costa do Marfim (28 anos, Orduspor, da Turquia)
MA: Chris Katongo
MC: Isaac Chansa, Zâmbia (27 anos, Orlando Pirates, da África do Sul)
MC: Houssine Kharja, Marrocos (29 anos, Fiorentina)
MA: Gervinho, Costa do Marfim (24 anos, Arsenal)
AV: Pierre Aubameyang
AV: Emmanuel Mayuka, Zâmbia (21 anos, Young Boys, da Suíça)

Menção honrosa:
MC: Samba Diakité, Mali (23 anos, QPR, da 2ª divisão inglesa, emprestado pelo Nancy)
MC: Younès Belhanda, Marrocos (21 anos, Montpellier)
MO: Mbark Boussoufa, Marrocos (27 anos, Anzhi, da Rússia)
EXT: Max Gradel, Costa do Marfim (24 anos, Saint-Étienne)
EXT: Eric Mouloungui, Gabão (28 anos, Nice)
AV: Youssef Msakni, Tunísia (21 anos, Espérance Tunis, da Tunísia)

Fazer esquecer a Megan. Não era para todas.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

The Iron Lady


É o filme mais subvalorizado do ano, e, possivelmente, a melhor biografia que já vi.

The Iron Lady é um retrato extraordinário de uma mulher extraordinária, que ilustra o presente assombrado de uma Margaret Thatcher no limite da demência, enquanto conta a sua história pessoal e política. O argumento de Abi Morgan (que, este ano, também assinou Shame) simpatiza com a líder - a conotação política pode, aliás, ter explicado boa parte do pudor com que o filme tem sido recebido -, mostrando-a como uma estadista maior do que os políticos tarefeiros, que subiu a pulso, e que só estava comprometida com o que entendia ser melhor para o país, mas não se esgota aí. Na verdade, considero que é honesto o suficiente para que qualquer um possa tirar as suas conclusões, sabendo distinguir o que admirar - a rectidão, a apologia do trabalho e da competência, e a vontade de fazer a diferença -, do que é a impraticável falta de sensibilidade política. É isso que o torna notável. A respeito do funeral de Álvaro Cunhal, Sousa Tavares escreveu que, ainda que não partilhem os mesmos ideais, as pessoas respeitam quem acredita nalguma coisa. É dessa forma que o leio.

Phyllida Lloyd, que só tinha no currículo um filme bem distinto - Mamma Mia! -, tem uma realização brilhante. Desde logo, porque abarca quase toda a vida de Thatcher em pouco mais de 1h30, sem acharmos que foi simplista, ou que meteu tudo ao barulho sem critério: consegue, pelo contrário, ser densa, aproveitando a riquíssima caracterização da protagonista, e deixa-nos a sensação de que a história não podia ser melhor contada. Depois, as narrativas entre-cortadas de passado e presente são feitas com conta, peso e medida, e, em vez de confundirem tudo - como em Tinker Tailor Soldier Spy, que investe no mesmo, mas de maneira infeliz -, dão uma óptima dinâmica. Por fim, a cereja no topo do bolo é a liberdade criativa com que se filma a demência. Enorme trabalho da britânica de 54 anos, acompanhado pela excelente banda sonora de Thomas Newman (Shawshank Redemption, American Beauty ou Cinderella Man e, este ano, também The Help).

Seja qual for a leitura, certo é que há unanimidade sobre uma coisa: Meryl Streep é providencial. Pode parecer crónico vê-la avançar para a 17ª nomeação, mas quem duvida só tem de ver o filme. Streep é um manual vivo de majestade na representação, e torná-la Thatcher correu tão bem como poderia ser concebível. Tem tudo: altivez, imponência, vulnerabilidade, coração e capacidade para nos arrepiar. Viola Davis foi brilhante em The Help, mas Streep é mesmo a Melhor do Ano.

Há coisas que não se percebem. O fracasso de The Iron Lady é uma delas.

8/10

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

E se o país fosse como Mourinho e Ronaldo?


Nem o campeonato estava perdido depois da derrota no Bernabéu, nem está ganho agora. É bom não esquecer que o adversário é, provavelmente, a melhor equipa da História, e que uma coisa que parecia impossível há um par de meses - ganhar-lhes uma prova de regularidade - não será, agora, um mero passeio triunfal.

No entanto, ter, a meio de Fevereiro, 10 pontos de vantagem para este Barcelona, é impensável. O Real só poderia ganhar um campeonato à melhor equipa de sempre se fosse perfeito, e é exactamente isso que tem sido. Quem acha que esta liga é resultado de um Barcelona "mais fraco", não faz a menor ideia: cada milésimo desta dezena de pontos é mérito integral de um Real que tem sido estratosférico, e que ameaça todos os recordes da História da Liga Espanhola, um Real que percebeu que tinha de ser muito melhor do que o melhor, para poder triunfar. Um Real que só o tem sido, sublinhe-se, graças aos dois maiores intérpretes de todos os tempos do Desporto português, dois extra-terrestres que nasceram para ganhar, e dos quais o país se devia orgulhar incondicionalmente, muito, mas muito mais do que o faz.

O Barça ameaça cair não porque se desmotivou, ou porque está diferente, mas porque nem a melhor equipa de sempre acreditou que o adversário se pudesse transcender tanto. Quem viu os últimos anos, quem percebe o que é este Barcelona, sabe que o campeonato que o Madrid está a fazer é uma irrealidade, cujo verdadeiro alcance só perceberemos daqui a muitos anos.

Sporting: uma tragédia que não acaba


"A saída de Domingos é uma questão que não faz sentido"
Godinho Lopes... no Domingo

Não é discutível que Domingos tenha falhado, como escrevi aqui recentemente. Mesmo na lógica de um projecto que não era, como é evidente, para meio ano, estar, à 18ª jornada, a 16 pontos do líder e a 8 do pódio, fora das meias-finais da Taça da Liga e na final da Taça só com todos os favores do mundo, é desolador. Domingos teve melhores meios que os antecessores, mas falhou, e é verdade que os sinais no imediato não eram encorajadores.

O problema é que, no Sporting, toda a gente falha. E ver a figura deplorável que Godinho Lopes fez de si próprio, depois do que disse anteontem, explica quase tudo. A direcção chegou a enganar - investimento, bons jogadores, bom treinador - mas, no momento do tudo ou nada, mostrou que não está à altura. Não é assim que se gerem equipas, e assim não se ganha nada. E para ter um exemplo, nem era preciso ir muito longe: bastava olhar para o Norte, e para a protecção que é dada a um treinador 10 vezes inferior a Domingos. Para Godinho Lopes, Luís Duque, Carlos Freitas, ou seja lá quem for que manda neste Sporting, salvar a pele foi mais importante. Será o clube a pagar por isso.

Sá Pinto não é uma aposta arriscada nem espirituosa: é, pura e simplesmente, a única aposta possível num momento em que nenhum treinador digno desse nome aceitaria o cargo. Na impossibilidade de ter alguém com trabalho a falar por si, a direcção agarrou-se à única coisa que podia garantir: o sportinguismo. Sá Pinto será um treinador-adepto, um apaixonado, mas é preciso mais do que vontade para triunfar, e olhamos para os últimos treinadores campeões - Villas-Boas, Jesus, Jesualdo, Trapattoni -, e parece que este já não é o tempo dos agitadores. A realidade é que se o Sporting tinha chance de conseguir alguma coisa no médio-prazo, seria sempre mais com Domingos do que com Sá Pinto. Para a direcção, contudo, os problemas do clube vão-se resolver pondo na rua o melhor treinador que estará ao seu alcance em muitos anos.

Por último, Domingos: fizeram-lhe um favor. É ele quem ficará melhor no meio disto tudo, saindo quase tão imaculado como entrou.