terça-feira, 13 de março de 2012

"Não acredito que os clubes, por não descerem, vão deixar de lutar"


É surpreendente que Mário Figueiredo também não tenha proposto uma Liga de 40 equipas, sob o lema "Há mama para todos". Éramos tão mais felizes assim, e, de caminho, aproveitávamos para inventar um jogo novo, já que, como é bom de ver, a competitividade e a excelência são necessariamente um cancro neste país de putas e vinho verde.

Ponto prévio: continuo a acreditar que a aberração que o Presidente da Liga defendeu ontem não será concretizada, seja por pressão da opinião pública, seja pelo veto da Federação, ou da FIFA. No entanto, o mero acto de pô-la em cima da mesa é absolutamente assustador.

Aquando da sua eleição, escrevi aqui que Mário Figueiredo, o primeiro Presidente da Liga a ser eleito sem o apoio de nenhum dos grandes, tinha tudo para ser uma lufada de ar fresco no futebol português. Arrependo-me amargamente de cada palavra desse texto. Figueiredo ganhou sem os grandes, de facto, mas agora mostra como. Agora é a hora dos pequenos caciques lhe cobrarem os favores, e ele, feito palhaço, lá veio defender apaixonadamente que um campeonato onde não desce ninguém é um verdadeiro oásis de competitividade. Afinal de contas, não há almoços de graça.

A nova direcção da Liga podia ter servido para combater a ditadura dos grandes, e fazer do futebol português muito maior do que tem sido. Afinal, envergonhou-nos a todos, abrindo a caixa de Pandora da típica podridão nacional, e fez da Liga o derradeiro circo. O futebolzinho português é isto. Nunca vai mudar, e ninguém merece melhor.

domingo, 11 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

2012: Os 10 filmes mais esperados

Na sua própria lista de 50 títulos, o Metacritic considerou que 2012 apresenta o melhor catálogo de filmes em mais de uma década. Certo é que, com mais ou menos optimismo, há toda uma lista de coisas a deixar água na boca.


1. The Hobbit: An Unexpected Journey (Dezembro), Peter Jackson

As expectativas são indescritíveis, e o trailer já escancarou o apetite. Até custa a crer que passaram 9 anos, e que o mago Peter Jackson vai mesmo materializar um filme que pareceu tantas vezes não ir existir. An Unexpected Journey é a primeira parte da adaptação de The Hobbit, que já tive a oportunidade de ler, uma prequela a O Senhor dos Anéis. É indispensável ter consciência da dificuldade que será estar ao nível de uma obra-prima, além de que Hobbit é uma obra mais ligeira, mas estão quase todos de volta, há uns quantos novos dignos de registo, e está, sobretudo, Peter Jackson na cadeira que lhe pertence. O apelo é irreprimível.


2. The Dark Knight Rises (Julho), Christopher Nolan

Se Peter Jackson tem legado, Chris Nolan está lá bem perto em devoção: 4 anos depois do melhor filme de super-heróis de todos os tempos, o mais genial realizador da actualidade prepara-se para fechar a trilogia do seu Batman. Com o que está para trás, também aqui é tão difícil estar à altura como moderar as expectativas, mas se Hobbit é um "renascimento", Dark Knight Rises tem a grandiosidade de um último capítulo, e acredito piamente que Nolan não vá desiludir. A acção ocorre 8 anos depois dos eventos de Dark Knight, e a grande aquisição do elenco é o irascível Tom Hardy, na pele de Bane, que tentará destronar a performance oscarizada de Heath Ledger, como Joker.


3. Django Unchained (Dezembro), Quentin Tarantino

Um filme de Tarantino seria sempre razão mais do que suficiente para justificar o entusiasmo, quanto mais o seu regresso ao fim de três anos, e com Di Caprio como trunfo. Django Unchained é um Western sobre um escravo liberto que se tornou no braço direito de um caçador de recompensas, e conta a sua caminhada para resgatar a mulher das garras de um brutal fazendeiro esclavagista. Haja espectáculo, num elenco onde ainda pontificam Jamie Foxx e Christopher Waltz.


4. World War Z (Dezembro), Marc Forster

E agora algo razoavelmente surpreendente: o filme de zombies do ano será protagonizado por... Brad Pitt! Ache-se o que se quiser, mas se Pitt está no barco, o melhor é confiar. A história baseia-se num livro de Max Brooks (2006), que, em vez de uma narrativa tradicional, compôs a sua obra pós-apocalíptica como se de uma reunião de testemunhos se tratasse. É um compacto de entrevistas às mais diversas pessoas que, ao longo de uma década, teriam vivido a guerra frente aos zombies e, aquando da publicação, a crítica chegou a considerar que a obra reinventava o género. Matthew Carnahan, que fez um grande trabalho em State of Play, vai adaptar o argumento, e a excelente Mireille Enos (The Killing), será o par de Pitt. Muita curiosidade.


5. Lincoln (Dezembro), Spielberg

A última década não tem sido meiga para Spielberg: um único grande filme - Munich -, e já lá vão 7 anos. Lincoln surge, ainda para mais, na ressaca de um ano miserável (War Horse e Tintin...), pelo que as expectativas são mais moderadas do que seria suposto. De qualquer maneira, as condições para o regresso aos grandes filmes não poderiam ser melhores: a história é a de um presidente-ícone, o argumento é de John Logan (Gladiator, The Last Samurai e, no ano passado, Hugo), e o protagonista é nada menos do que Daniel Day-Lewis (2 Óscares), que regressa após 3 anos. O filme, que se centrará nos últimos 4 meses da vida de Lincoln, conta ainda com Tommy Lee Jones e Joseph Gordon-Levitt.


6. Brave (Junho), Mark Andrews & Brenda Chapman (Pixar)

Depois de dois anos pobres a nível de Animação, a Pixar volta finalmente aos originais, e Brave será a sua única não-sequela no espaço de 5 anos (2009-2014). A história é a de uma jovem princesa escocesa do século X, determinada a fazer o seu próprio caminho, e que, para tal, vai desafiar as tradições de todo um reino. Será a primeira vez que a Pixar tem uma protagonista feminina, e da Pixar espera-se sempre o melhor.


7. 007 Skyfall (Novembro), Sam Mendes

Há 6 anos, Casino Royale marcou uma autêntica revolução na percepção dos filmes Bond, por ter consumado a espantosa transição entre a acção-espectáculo, tão enraizada, e um verdadeiro argumento. Toda a gente passou a levar os 007 a sério e, apesar de Quantum of Solace ter desiludido, parecem reunidas as condições para a saga voltar a deslumbrar: a realização ficou a cargo de Sam Mendes (American Beauty!), e o argumento será da co-autoria do já aqui referido John Logan, que, este ano, também assina Lincoln. Javier Bardem, como vilão, é a cereja no topo do bolo.


8. Nero Fiddled (Junho), Woody Allen

Depois de um ano extraordinário, que lhe valeu o filme mais rentável da carreira e o seu 4º Óscar, o mestre Woody Allen continua o seu périplo pela Europa e, desta vez, assenta malas e bagagens em Roma. Nero Fiddled é mais uma comédia romântica, com o destaque de marcar o seu regresso à interpretação, ao fim de 6 anos. A acompanhá-lo, estão as magníficas Penélope Cruz e Ellen Page, e ainda Jesse Eisenberg e Alec Baldwin. O filme sai a abrir o Verão, como no ano passado, e é imperdível, como sempre.


9. Argo (Setembro), Ben Affleck

No ano em que chega aos 40, o antigo menino bonito de Hollywood apresenta a sua terceira realização, depois dos bem sucedidos Gone Baby Gone e The Town. Desta vez não assina o argumento (lembre-se o magnífico Good Will Hunting, que lhe valeu o Óscar), mas o trabalho de Affleck merece ser olhado cada vez mais com olhos de ver, e Argo é promissor. O filme baseia-se no resgate verídico de 6 diplomatas americanos de Teerão, na sequência da Revolução Islâmica de 1979 e, ao lado de Affleck no grande ecrã, estarão nomes notáveis como Bryan Cranston e Alan Arkin.


10. The Great Gatsby (Dezembro), Baz Luhrmann

É a adaptação do histórico livro homónimo de Scott Fitzgerald (1925), considerado uma das obras literárias de referência do século XX, que retrata, com um olhar trágico, o sonho americano dos Loucos Anos 20. O australiano Baz Luhrmann (criador de Moulin Rouge) realiza e adapta o argumento, mas é no cast que está o deslumbre: Di Caprio protagoniza, naquela que parece ser, claramente, a sua grande aposta para os Óscares, e é acompanhado pela brilhante Carey Mulligan. Como secundários, os nomes consistentes de Tobey Maguire e Joel Edgerton.


Merecem referência:
The Master, Paul Thomas Anderson. O realizador-argumentista californiano foi 5 vezes nomeado para os Óscares, e é notícia de cada vez que volta ao trabalho. Depois de 5 anos parado, regressa com a história de um veterano da 2ª Guerra Mundial que, na ressaca do conflito, cria uma Religião. O filme, protagonizado pelo fantástico Philip Seymour Hoffman, promete polémica, por estar a ser associado às origens da Cientologia.

Untitled Malick Project, Terrence Malick. Sabe-se muito pouco a respeito do filme, nem sequer se vai mesmo existir em 2012, dado o facto de Malick nunca realizar em dois anos seguidos. De qualquer maneira, depois de Tree of Life, vale a pena esperar por este romance dramático, encabeçado pelos excelentes Javier Bardem e Jessica Chastain.

Untitled Osama bin Laden Film (Dezembro), Kathryn Bigelow.
4 anos e 1 Óscar depois, Bigelow regressa no mesmo tom, para filmar o clima de guerra como já provou ser capaz. O que é verdadeiramente curioso a respeito deste filme sobre a captura e morte de Bin Laden é que estava previsto e escrito... ainda antes destas terem acontecido. Os episódios do ano passado obrigaram a uma revisão total do guião, para colá-lo, então, à realidade. No elenco, Jessica Chastain, Joel Edgerton e Mark Strong.

Les Misérables (Dezembro), Tom Hooper. De caras para os Óscares, e realizado por Tom Hooper, que venceu no ano passado, pelo trabalho brilhante em The King's Speech. A base é, obviamente, a histórica obra de Victor Hugo sobre um ex-condenado que chega a mayor, em França, que é considerada uma das mais importantes do século XIX. Hugh Jackman e Russel Crowe são as estrelas, num filme que, pessoalmente, só tem um grande senão: é um musical.

The Gangster Squad (Outubro), Ruben Fleischer. É uma crónica da luta da LAPD para manter a Máfia fora da Los Angeles, na década de 40. Será o filme mais "normal" da lista, mas o destaque está todo no elenco: é o único filme de Sean Penn previsto para 2012, e conta ainda com Ryan Gosling, Nick Nolte e Emma Stone, todos a virem de um ano magnífico.

A ver se em 2013 as expectativas se confirmaram.

terça-feira, 6 de março de 2012

O calcanhar de Witsel


Um monumento a forma como inventou o caminho para os quartos-de-final.

Na conjuntura da equipa, o apuramento tem uma importância indizível. Como bem lembrou Jesus, o Benfica chega aos quartos-de-final da Liga dos Campeões pela 2ª vez em 20 anos, o que diz muito sobre o mérito do seu trabalho, e prova, se calhar mais importante, que haverá mesmo campeonato até ao fim.

Boa notícia para o futebol português, sob todos os prismas.

segunda-feira, 5 de março de 2012

"Não preciso do apoio dos jogadores"


O Chelsea não é um clube confortável nem tem um balneário fácil, toda a gente sabia disso à partida, Villas-Boas incluído. A história do "projecto de três anos" era muito bonita, mas ninguém podia crer que sobrevivesse a uma época tão má, muito menos no Chelsea. Ao mesmo tempo, não podemos querer fazer de Stamford Bridge uma casa dos horrores: Ancelotti foi campeão há dois anos, e o plantel não é propriamente de pobres. Era preciso fazer uma transição, mas não é normal, nem nunca será aceitável que, em Março, o Chelsea esteja em 5º, a 20 pontos do líder!, e com pé e meio fora da Champions, prestes a ser eliminado pelo Nápoles.

Villas-Boas podia não ganhar nada, mas tinha de lutar por alguma coisa. Isso era, quanto muito, o que faria dele o "treinador para o futuro". O que mostrou não chega. E a culpa não é de Abramovich, como toda a gente gosta tanto de dizer, nem de um balneário minado, nem de um clube onde é muito difícil trabalhar: a culpa foi dele.

O grande erro, está claro, foi a gestão de balneário. Até Mourinho se queimou com um balneário do Chelsea, mas Villas-Boas geriu este como se fosse uma criança de 5 anos. Acho piada dizer-se que o problema foram as vacas sagradas, Terry-Lampard-Drogba: mas algum dia ter um deles pode ser encarado como um problema? O problema foi Villas-Boas mentalizar-se que a única forma de fazer uma transição era dar um corte a direito. Achou que podia ganhar no campo sem ter balneário, e a ostracizar jogadores que, além de ainda serem mais-valias, personificaram o clube na última década. As declarações sobre só interessar o apoio do presidente foram pavorosas, e dizem tudo. Estava à espera de quê? O resultado óbvio foi ver quer a performance quer o balneário a desfazerem-se como um castelo de cartas.

Villas-Boas constatou, da pior maneira, que no relvado só se joga uma parte do sucesso, e que nem todos os clubes gozam da estrutura que o Porto oferece. No entanto, como bem lembrou Ferguson, isto não apaga tudo o que de bom foi feito no ano passado. Villas-Boas já provou o que pode fazer, e acredito que começará a próxima época no banco de uma boa equipa europeia. Crucial é que tenha aprendido alguma coisa, sobretudo se Milão for a próxima paragem.

The Girl with the Dragon Tattoo


Grande injustiça terem ficado tanto o filme como Fincher à porta dos Óscares.

The Girl with the Dragon Tattoo é um dos filmes mais distintos de 2011. A história é a de um jornalista de investigação (Mikael Blomkvist, por Daniel Craig) que é contratado por um velho bilionário para investigar o homicídio de uma sobrinha sua, num caso com mais de 40 anos. Para o efeito, esse irá recorrer aos préstimos de uma detective peculiar (Lisbeth Salander, por Rooney Mara), uma jovem brilhante, mas socialmente inapta, e com um passado problemático.

O filme é absolutamente cativante, e o seu estilo gore choca-nos tanto quanto nos agarra ao ecrã. É negro, na essência e no ambiente (para o que contribuem os cenários escuros e gelados da Suécia), tem misticismo (os detalhes da história envolvem a Bíblia), carisma, nervos, violência, sexo, enfim, é surpreendente, agressivo, e vai aos limites para nos provocar.

Em paralelo com a investigação, cruzam-se as histórias dos protagonistas, como um peso evidente para a personagem de Rooney Mara, que rouba o desfecho do filme. Grande adaptação de Steve Zaillian (que esteve em altíssimo nível este ano, assinando, igualmente, Moneyball), à trilogia do sueco Stieg Larsson. Só fica a faltar um fim melhor ponteado, que não quisesse arrebanhar tantas coisas, como, por exemplo, querer fechar a história de Daniel Craig, que abre o filme.

Depois do filme bacoco que fez no ano passado - The Social Network -, o grande David Fincher está de volta. The Girl with the Dragon Tattoo é um espectáculo visual permanente, filmado com a tensão e o negrume que lhe são tão característicos. É tudo tão pesado quanto poderoso, sempre com requinte, e tem o dom de deixar-nos pregados ao ecrã durante umas pouco comuns 2h40. Mantenho uma relação de amor-ódio com Fincher (Se7en, Benjamin Button, The Game vs. Fight Club, The Social Network, Zodiac), mas quando acerta, acerta em grande. É bom tê-lo de volta ao que faz melhor.

Daniel Craig equilibra o filme, mas o ás de trunfo é, obviamente, a performance extraordinária de Rooney Mara. A nova-iorquina leva tudo à frente no primeiro grande papel da carreira: é poderosa, imprevisível e, às vezes, até arrepiante, fazendo-nos entranhar toda a sua estranheza. Brilhante.

Steve Zaillian e David Fincher já se comprometeram para o resto da trilogia Millennium, como é conhecida, e o próximo filme - The Girl Who Played with Fire -, está previsto para o Inverno de 2013, apesar da falta de unanimidade sobre o primeiro filme, nas críticas e nas bilheteiras, ter levantado algumas dúvidas sobre a sequela.

The Girl with the Dragon Tattoo não é só um filme bom a todos os níveis: o negrume, a violência e a intensidade fazem dele, indubitavelmente, um dos maiores filmes do ano.

8/10