sábado, 19 de maio de 2012

Claro que ganhou o Chelsea


Claro que ganhou o Chelsea. Éramos tolos se duvidássemos. Os deuses andaram 300 minutos a gozar-nos na cara, desde que o Barça entrou em Stamford Bridge a fazer contas ao jogo de hoje com o Real. Claro que ganhou o Chelsea. O Barça meteu quatro bolas no barrote, o Bayern outra, o Messi falhou um penalty, o Robben falhou outro, estava tudo perdido ao intervalo no Camp Nou, tudo perdido ao minuto 90 da final, tudo perdido depois do penalty do Mata, qual quê, éramos tolos se duvidássemos. Claro que ganhou o Chelsea. O 6º classificado da Premier League é campeão europeu, com um adjunto a treinador, com 4 titulares castigados, a estrear na final um miúdo francês, e em casa do adversário, obviamente. Éramos tolos se duvidássemos. Esta era a Champions da ironia, do caos, estava assombrada, já todos devíamos saber. Passará à História como a Champions que toda a gente perdeu, o Barça, o Real, e o Bayern em casa, as três melhores equipas da Europa. O Universo decidiu que o 6º classificado da Liga Inglesa é que teria 7 vidas, e isso é quanto baste. Amo-te futebol.

10 anos, 900 milhões, 4 meias-finais e 1 final depois, Abramovich chega finalmente à sua Champions, com o seu pior Chelsea. Insondáveis são os caminhos do Senhor. Com ela despede-se, como não podia deixar de ser em 2012, mais uma geração extraordinária de jogadores. Outra das equipas da década. O futebol nem sempre é justo, e é provavelmente isso que dirão desta Champions um dia. Já para mim, no meio do caos, foi-o à sua maneira. Como mereciam ganhar aquilo Terry, Lampard e Drogba (e Cech, e Cole, e Essien...). Como mereciam sair assim.

Que ano memorável.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ruud


2012 foi um ano cabrão para a minha infância. De repente, parece que se querem ir todos embora. Raúl e Del Piero fartaram-se da alta competição. Foi-se o Milan. E, no último dia da época, e depois do Pippo, foi-se também o Ruud.

Sobre Inzaghi, já escrevi. Sobre Nistelrooy tenho obviamente de lembrar o gigante, a verdadeira máquina dos grandes palcos, eternamente celebrada pelo rasto brilhante que deixou no glamouroso eixo Manchester-Madrid. Como Inzaghi, também não era um jogador estético, também não teve esse dom de ser bonito de ver, só aquele sobre-humano cheiro a golo. Raúl e Del Piero exalavam classe, pareciam de outro campeonato, Ruud era mais simples, uma massa humana em forma de seguro de vida, que só precisava da pequena área para viver. Um colosso. Esteve no United entre títulos europeus, e no Madrid pós-Del Bosque. Faltou-lhe essa Champions. No resto, é a Champions que vai sentir falta dele, ainda hoje o seu segundo melhor marcador de sempre. Irónico que se despeça logo no ano em que ajudou o Málaga a lá chegar pela primeira vez.

Como Inzaghi, sai na alta roda. Ainda gosto mais deles por causa isso. Ano cabrão, 2012. Levou-me o meu par de noves.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Também tu, Manel


Bruta ironia, as duas surpresas virem de Braga, haver uma para o meio-campo, e Hugo Viana ficar na mesma a ver pela televisão.

Miguel Lopes em vez de Nélson, claro, o que não o torna exactamente convocável. Se o terceiro lateral tinha de jogar nos dois lados, Sílvio é de outro nível. A verdade é que está na lista Ricardo Costa, que joga onde for, e o melhor dos "laterais suplentes" (e o que fez uma melhor época, e a um nível mais alto) é Eliseu.

Custódio fez uma época tremenda. É um jogador inteligente, um grande trinco, que pode valer muito como pêndulo defensivo. O que se estranha é que Bento só o chame agora, quando Custódio é claramente um jogador "para ser titular", e o trinco foi Meireles neste tempo todo. Abdicar de Manuel Fernandes para ter Custódio no banco não faz sentido.

Na verdade, abdicar de Manuel Fernandes não faz sentido em nenhuma equação. Desde logo, porque também ele arrancou na Turquia a sua melhor época em bastante tempo. Depois, e principalmente, porque é um jogador de uma rotação só comparável a Meireles e a Moutinho, muito melhor fisicamente do que qualquer um dos outros três, mais polivalente, mais disponível, e sem lhes ficar a dever nada técnica ou ofensivamente. Não vai Viana, e agora também não vai o terceiro melhor médio do núcleo duro.

Como dizia o outro, agora é ir para a selva, no matter what, mas Paulo Bento e o meio-campo é uma coisa que não me assiste.

"Médios que têm vindo adaptam-se mais ao nosso jogo"


"Não tem sido opção. Não pelo seu valor, não pelo rendimento - que tem sido bom -, mas porque entendemos que os médios que têm vindo à selecção preenchem uma série de características que vão mais de encontro à nossa forma de jogar. Quer do ponto de vista ofensivo, quer do defensivo."

Paulo Bento à TVI, há dois meses

Hugo Viana ficará, com toda a probabilidade, fora do Europeu. Mesmo assim, pelo melhor médio do campeonato, não deixa de valer a pena esperar até ao fim.

Paulo Bento nunca foi um treinador fácil. É um general por natureza, de pavio curto, sempre um tanto ou quanto distante dos jogadores. Mesmo assim, conservou um perfil empático. Com ele é pouco provável lidar-se com mal entendidos, toda a gente joga com as cartas em cima da mesa, sabe com o que contar. É justo que se debata até que ponto uma postura tão susceptível ao choque é rentável em alta competição, mas a verdade é que Bento tem cumprido sempre, e em locais tão delicados como um Sporting mendicante, e uma Selecção em polvorosa, que ao segundo jogo da qualificação já via o Euro muito negro.

Se a Selecção estava melhor com Bosingwa e Ricardo Carvalho? Estava. Mas, com tudo o que foi exposto, sou capaz de dizer que Bento tem provavelmente razão em ambos os casos, o que é bem melhor do que Queiroz com Deco-Pepe-Nani, ou mesmo do que com Scolari e Baía. Hoje, não discuto Bosingwa e Ricardo Carvalho. Hugo Viana, pelo contrário, é coisa que me ultrapassa. Ele e Bento chegaram a ser, imagine-se, colegas de equipa. Mais tarde, diz-se que foi Bento a vetar o seu possível regresso a Alvalade. Não sei se há ou não passado, ou se a decisão de Bento é mesmo meramente técnica, mas o resultado é criminoso, seja qual for a causa. Viana tem inteligência, leitura, classe, experiência, e um perfil cordato, fora o pormenor que é aquele prodigioso pé esquerdo. Em cima disso, tem uma época excepcional, que devia dispensar explicações. Em que universo não reúne ele as características que vão de encontro à nossa forma de jogar? Como é que pode ficar ele de fora em benefício de Veloso, Micael ou Carlos Martins, quando esses, além de lhe serem inferiores em quase tudo, fizeram épocas tão discutíveis?

Viana não só cabe nos 23, como seria titular de caras. Deixá-lo de fora é o tipo de luxo a que não nos devíamos poder dar.

P.S. - Na defesa, espero Sílvio ou Eliseu, em vez de Nélson. No ataque, a confirmação de Nélson Oliveira. Hélder Barbosa por Varela, pela disparidade de épocas, mereceria consideração.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O fim do meu Milan


 "Sandro, Rino, Pippo, Clarence: compagni e/o avversari, ma nemici mai. Felice di aver giocato con e contro di voi. Vi stimo, ragazzi. Ale"
Del Piero

Despedem-se estes dias do Milan, não um, não dois, mas quatro históricos. Quatro verdadeiramente grandes: Nesta, Gattuso, Seedorf e Inzaghi. Com eles despede-se, por fim, uma das mais extraordinárias equipas com quem cresci, uma das inesquecíveis: o monumental Milan europeu de Ancelotti. Já tinham ido o eterno Maldini, Dida, Kaladze, Sheva e Rui Costa, há menos tempo Kaká e Pirlo, desta vez celebra-se definitivamente o fim da história. Que jogadores.

Nesta foi, a par de Ricardo Carvalho, o melhor central que vi jogar. Jogava de pantufas, antes dos outros, sem bater. Passeava-se numa zona feia do campo, onde parecia sempre não pertencer. Tinha classe até a andar.

Gattuso era o contrário. Jogava com o coração nas mãos, sempre no limite, sempre ligado à máquina, disposto a correr quando já mais ninguém corria. Disse uma vez que, ao ver Rui Costa e Kaká, não sabia como podia ser jogador de futebol. Falava como jogava, sempre de coração aberto.

Seedorf era o senhor. Parecia jogar num andar acima do campo, sempre paciente e filosofal, a ver o que os outros não viam, a encaminhá-los. Aos 36 anos, era o único dos quatro ainda titular. A pensar, dura-se mais tempo.

E, finalmente, Pippo, com Nistelrooy, o 9 que mais idolatrei, uma ave de rapina em forma de homem, capaz de aparecer nas costas de qualquer defesa, ou de um exército que fosse, e de decidir qualquer jogo.

Com eles, acaba uma das razões porque isto pareceu valer tanto a pena para um miúdo de 12 anos. Ainda verei muito futebol, mas as lendas com quem cresci nunca serão menos do que isso. Que equipa.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Vítor Pereira e Jesus: deviam ir embora, mas faz sentido que fiquem


Ainda é cedo para dizer com certeza, mas é, pelo menos, bastante provável que Porto e Benfica mantenham os seus treinadores. Em Portugal, é surpreendente. Os portistas odeiam Vítor Pereira, porque o título foram miúdos, e não pagou a humilhação no resto e o futebol sofrível; os benfiquistas fartaram-se de Jesus, e não lhe perdoam mais um ano de derrotas, egomania, e incapacidade para aprender com os erros. Se a decisão fosse dos adeptos, nenhum deles ficava, e não posso dizer que os adeptos não tenham razão.

Já aqui disse várias vezes que Jesus é o melhor treinador que vi no Benfica. O problema é tudo o que acabou por se perder nestes dois anos, este último desmoronamento em especial. Jesus voltou a perder porque foi incapaz de evitar que a equipa se voltasse a desfazer mentalmente na hora H, e, no global, porque foi arrogante, ostracizou quem não devia, e porque voltou a não ser inteligente ao abordar os adversários. Jesus foi, de longe, o grande artífice de tudo o que de bom o Benfica alcançou nestes três anos. Infelizmente para ele, e para o Benfica, é também o maior culpado pelos fracassos. Como li há tempos no Lateral Esquerdo, Jesus tem capacidade para ser campeão as vezes que quiser. Mas se continua a não aprender com os próprios erros, então o mais provável é que continue a perder.

Vítor Pereira é só fraco. Deve orgulhar-se da forma como a equipa se transcendeu nos jogos grandes que lhe salvaram a época, mas o título é muito mais da estrutura do que seu. Numa prova de regularidade, a máquina Porto será sempre competitiva, e, no fim, é indiscutível admitir que também usufruiu do demérito adversário. No resto, foi uma época desgastante, com um futebol desencantado, jogadores aquém da forma, casos, e saídas penosas de todas as Taças. Pior, ficou a sensação de que, este ano, qualquer um teria ganho naquela cadeira. É irónico que Vítor Pereira seja o campeão e se discuta a sua competência, e que, do outro lado, esteja um Jesus que perdeu duas vezes, mas cuja qualidade não está em causa. Porém, é essa a realidade.

Tanto Porto como Benfica podiam fazer melhor se mudassem, mas, ainda assim, faz sentido que não mudem. É bom não esquecer que a mudança é delicada, e que há coisas a perder. No Benfica, porque se conseguiu muito com Jesus, e coisas que o clube já não estava habituado a ter. Com todas as falências, há uma excelente equipa criada, que, para o ano, começará em pé de igualdade com o rival. Não é pacífico mexer nisso, nem arranjar outro que o garanta. No Porto, porque é assim que se funciona. Toda a gente pediu a cabeça de Vítor Pereira, mas, no fim, a postura inabalável de Pinto da Costa e dos pares entregou mais um título. No Porto não se decide da rua, e essa estabilidade paga. Despedir um treinador campeão era pôr tudo isso em causa.

Saberemos em breve. A minha aposta é que o risco não vá compensar.