Acabam os Jogos, e o Verão fica irremediavelmente mais pobre. Não há forma mais cristalina de os definir do que este sentimento universal de perda quando eles acabam. Tanta gente não gostará de desporto, muitos mais não os seguirão de papel e caneta, mas não pode haver ninguém que não goste dos Jogos.
As transmissões de manhã à noite, o banho democrático que são as dezenas de modalidades, as provas de manhã antes de ir para a praia, e as finais à noite, depois do jantar, descobrir, numa tarde quente ao sofá, que o ténis de mesa desfaz os nervos, ficar a ver o concurso de ginástica em que tropeçámos, e electrizar com os únicos jogos de vólei, e provas de natação e corridas de atletismo que veremos em 4 anos, com a devoção de um verdadeiro aficionado. Que se seja indiferente ao desporto, claro. Que se fique indiferente a esta universalidade dos Olímpicos, à adrenalina das medalhas nas esquinas mais escusas, à possibilidade do nosso hino, ao Phelps e ao Bolt, à História a escrever-se, tudo 24 sobre 24 horas, como se estivéssemos todos em Londres a viver isto ao mesmo tempo, impossível.
Para nós foram amargos, os piores desde Barcelona, há 20 anos, mas, mesmo assim, deu para medalhar, e pela 5ª vez seguida, prolongando a nossa melhor série de sempre. E ter vibrado como um esganado, às 10 da manhã e ainda de olhos turvos, com a primeira tirada de canoagem que vi na vida, valeu pelo resto.
Se não fossem monumentais, não seriam Jogos Olímpicos, e é sempre um bocado redundante querer achar o que os distinguem. Mesmo assim, arrisco que Londres 2012 lembrarei pela ocidentalidade, por ter sido uma coisa muito próxima, muito europeia nossa, a esbanjar cultura comum. Mas também pelo enorme ambiente, próprio de um sítio senhorial, à medida destas coisas, e pela competência, pelo gosto em estar à altura. E, tão fresca que está na memória, a matriz é mesmo a brutal cerimónia de encerramento, tão genuína e tão fiel a esse património imaterial da Humanidade que é a música britânica. Os nomes, os concertos, o desenho do espectáculo, o Mercury, por deus, a pedir odes ao público, não havia ali nada de mau gosto, tudo o que havia eram razões para pagar bilhete.
Como se não bastasse, o círculo completou-se com a água que fica na boca para daqui a 4 anos, numa miragem tremente de excitação. A juntar à Copa do Mundo, em 2014, o Brasil, e a Cidade Maravilhosa em particular, é a próxima casa dos Jogos, e não há ninguém que, hoje, não tenha sonhado acordado com o Rio de Janeiro que está para vir. Serão os primeiros na América Latina... e, muito especialmente, os primeiros na lusofonia. Os próximos Jogos vão respirar português por todos os poros, vão-nos ter entranhados na pele, e vão fazer parte de nós. Vão ser em casa. No calor, no samba, na cor e no apelo de um Brasil palpitante, que, pura e simplesmente, não se pode recusar.
É que uns Jogos Olímpicos no Rio não se vão ver; vão-se viver.
"I have no choice but to direct my energies toward the acquisiton of fame and fortune. Frankly, I have no taste for either poverty or honest labor, so writing is the only recourse left for me." Hunter S. Thompson
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
México, uma competitividade singular, e o Brasil que não sabe ganhar
A postura em campo das selecções mexicanas é sempre qualquer coisa de espectacular. Equipas tão talentosas quanto duras, tão capazes de se superarem como de abordarem qualquer jogo avisadas, que dificilmente não cumprem objectivos mínimos, e que nunca vão para casa sem vender cara a derrota. Os mexicanos são um manual de cultura competitiva. Vê-se na seriedade, na maneira de estar, sem pequenez de espírito contra os grandes, sem serem apanhados desprevenidos contra os pequenos. Se a estaleca muitas vezes não dá para bater os maiores, a geração que se sagrou hoje campeã olímpica merece, pelo menos, o benefício da dúvida para os próximos anos: até à final de Londres, foram campeões do mundo de sub17, 3ºs no mundial de sub20, e ganharam Toulon.
Hoje, lavaram autenticamente, e com toda a naturalidade do planeta, a selecção A brasileira. Aversos às insinuações de superioridade, meteram a faca entre os dentes e foram massacrando a super-canarinha. Aos 30 segundos já ela lá morava, e, valendo a verdade, o Brasil nunca foi mais do que uma borrão alegre de malabarismos inconsequentes. Quando Mano Menezes, desesperado, desfez qualquer vestígio de táctica que pudesse ter, os mexicanos tiveram 4 bolas de golo clamorosas em 10 minutos, até terem dado o cheque-mate no jogo. Tudo gerido com uma maioridade desarmante, que deve envergonhar um Brasil de gala, que, no fundo, nunca foi mais do que um conjunto de miúdos, incapaz de se comportar como um vencedor.
Este projecto de Mano Menezes para o grande objectivo de uma era - a mítica Copa do Mundo, que se joga daqui a dois anos - oscila entre o melhor e o pior. Para mim, é sensacional que a Selecção principal da Canarinha se dê ao luxo absoluto de ter, hoje, 15 ou 16 jogadores com menos de 23 anos. É uma vitalidade sem paralelo em mais sítio nenhum do mundo, fruto de uma geração fantástica, que não me lembro nem do próprio Brasil ter, tão massiva e organicamente, de uma vez. Entre o Santos campeão americano, o Brasil campeão do mundo de sub20, e a pujança do próprio Brasileirão, fruto do crescimento económico do país, esta equipa é uma amálgama de certezas, todos a crescerem e a virem para a Europa ao mesmo tempo.
O talento transborda, o futebol flui em campo, e as possibilidades são totais, mas se Mano tem o mérito de ter congregado e investido desde a primeira hora neste conjunto tão jovem, continua sem dotá-lo das vitórias. Também na Copa América do ano passado o Brasil foi a melhor equipa da prova; então, como agora, não sobra nenhum título para contar a história.
Assim, a maldição da Canarinha nos Jogos continua. Pela terceira vez perdeu uma final, e o ouro olímpico continuará a ser o unicórnio do super-Brasil, o único grande título que a melhor Selecção de sempre nunca conseguiu ganhar. Desta vez, contudo, era tangível demais para maldições, e já não haverá nenhum brasileiro que não seja assombrado pela ideia da reedição do Maracanazo na final do Rio, 64 anos depois.
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terça-feira, 7 de agosto de 2012
Mea culpa
Revi o Inception, dois anos depois.
Sem a adrenalina da estreia, com tudo pesado, a beber todos os pormenores.
Se calhar é surpreendente, mas fiquei muito mais esmagado do que da primeira vez. Não que o deslumbre não tenha sido instantâneo, mas, então, vi-lhe defeitos a mais.
Não podia deixar passar sem um acto de contrição. Inception é um filme total, monstruoso, só ao alcance de um génio absoluto. Di Caprio é altíssimo. O seu drama pessoal esbanja emotividade. O contrato, em si, não poderia ter nenhuma motivação maior. As pontas da história, que abrem e fecham o filme, são de uma monumentalidade indizível. E o fim é, todo ele, uma obra-prima, é Nolan no seu auge.
Se não o vi da primeira vez, é porque não consegui acompanhar. Devia estar atordoado.
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012
The Dark Knight Rises
Antes de mais, duas coisas: a primeira é que era virtualmente impossível que TDKR superasse o seu antecessor, simplesmente porque The Dark Knight é o melhor filme de super-heróis de todos os tempos, e foi um magnum opus que não acontece duas vezes na mesma trilogia. E não superou, de facto. A segunda é que Nolan faz filmes bons, muito bons ou excelentes, nunca menos do que isso.
The Dark Knight Rises é muito bom, mas fica a uns palmos da excelência. É ingrato dizer isto de qualquer filme de Nolan, mas é, ao mesmo tempo, dos maiores elogios que lhe posso fazer: o nível é tão alto, que os seus vácuos notam-se mais do que os dos outros. Em TDKR o ambiente gastou, como seria normal. Já todos tínhamos passado duas vezes por aquela Gotham no limite, caótica e possuída por um louco, só que desta vez não houve o glamour do festival do Joker. Depois, a acção prometeu muita coisa, mas teve dificuldade em concretizar, ferida de uma certa inevitabilidade de fim de história, que lhe toldou o rasgo criativo, e a impediu de ir mais longe aqui e ali. Uma linha importante da trama - Miranda Tate (Marion Cotillard) - é francamente infeliz. E, para acabar a lista, foi criminoso ter vulgarizado um fim que foi, até aos últimos fiapos, de altíssimo nível.
Dito isto, reforço que TDKR está à altura de uma trilogia tão brilhante como este Batman de Nolan, o que fala por ele. A grandeza do texto prova-se quase a cada cena. Os dilemas, as teses, os dramas pessoais, as relações, os propósitos, continuam a ser puxados pelos Nolan com uma mestria e um peso sem paralelo neste tipo de filmes. Uma Gotham irremediável, condenada a voltar à guerra independente aos anos de paz; um Batman de joelhos, que perdeu tudo e perdeu o rumo, mas que é incapaz de virar as costas; e vilões humanos, complexos, que a vida, não a psicopatia, precipitou para fins doentios. Além disso, se é que era preciso, Nolan provou-se, uma vez mais, como um colosso do cinema-espectáculo, provavelmente sem rival nos dias que correm, apoiado na gloriosa banda sonora de sempre de Hans Zimmer.
Chris Bale sustentou, uma vez mais com aquele peso do mundo aos ombros tão distinto, um Bruce Wayne morto para a sociedade há 8 anos, morto por dentro e sem razão para continuar. Anne Hathaway cumpriu as expectativas num papel que era a sua cara, como uma Catwoman lasciva mas nunca vulgar, a navegar como free agent. Tom Hardy é um Bane sensacional, digno sucessor do Joker de Ledger, um monstro de força profundamente torturado pelo passado, a quem a vida virou as costas, e que dela se tenta vingar. E, finalmente, o meu Óscar para Secundário era já entregue a Michael Caine. O Alfred ancião e venerável, mais mortificado do que nunca por aquele filho que nunca teve, e que rouba, possivelmente, as duas melhores cenas do filme, a última, então, de deixar um imenso nó na garganta.
Frustra-me, não posso evitar, que Nolan tenha tido o fim no ponto, e que não tenha evitado cair no óbvio, nem deixado de martelar uns favores comerciais. O seu Batman merecia ter sido perfeito até ao ecrã preto. Apesar de tudo, The Dark Knight Rises é mais um filme impressionante, e completa, com a altitude que se impunha, uma tão groundbreaking trilogia. No cinema de super-heróis, haverá, para sempre, o antes e o depois do Batman de Nolan.
8/10
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domingo, 5 de agosto de 2012
O nosso feel good day nos Jogos
Não ganhamos nada, que se foda.
Mas durante 3 horas e meia o ténis de mesa foi desporto nacional, e estivemos a dois sets, jogados contra um campeão Olímpico, de eliminar a segunda melhor selecção do mundo. Foi o primeiro jogo de ténis de mesa que vi na vida, eu e uns muitos milhares de portugueses, mas vivi-o como um Mundial de futebol. Os Jogos são isto. Vermos as nossas cores pinceladas em mil e uma modalidades, que nunca vimos nem nunca gostamos, e sentirmos uma familiaridade pele de galinha, sentirmos que está ali uma coisa nossa, e fazermos daquilo uma coisa nossa, mesmo que estejamos em eliminatórias impossíveis, que não vamos ganhar. Enquanto eles estiveram ali, David contra Golias, estivemos todos, para o que desse e viesse. Há medalhas que não devem ter tido tanto orgulho como estes quartos-de-final.
Antes, a Jéssica Augusto foi fazer um brilhante 7º lugar na Maratona, e assinar o nosso 4º Diploma. Acabámos por ser a 3ª melhor selecção na prova, com 3 atletas nas 21 primeiras (Marisa Barros, 13ª, e a Dulce Félix, 21ª), só batidos pela Etiópia e pelo Quénia.
O pessoal da Vela, o Bernardo Freitas e o Francisco Andrade, consolidaram-se num espectacular 4º lugar da geral, com que devem encarar a Medal Race de 4ª-feira.
O João Costa, no Tiro, depois do Diploma que sacou no primeiro dia, ficou a uma décima de ir buscar mais outro. Até o João Rodrigues, nos seus sextos! Jogos Olímpicos, acabou num digno 14º lugar.
É amargo que só nos lembremos deles de 4 em 4 anos. Mas quando é a vez deles, é a nossa vez. Para os grandes, os Jogos são as medalhas. Para nós são esta comoção nacional, crer, uma sobre outra vez, que é desta que enganamos o destino. Talvez chegue a nossa vez. Se não chegar, a vontade de superação, nossa e deles, continua a ser olimpismo em estado puro.
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quinta-feira, 2 de agosto de 2012
The Great Gatsby
A capa descreve-o como um romance que "evidencia as contradições do «sonho americano», a glória e a decadência do self-made man, a ambição e a busca desenfreada do dinheiro, a corrida em direcção a um futuro tão prometedor como ilusório." Para mim, contudo, o Gatsby não plasma assim tanto do nirvana do sonho americano. O que não o diminui. Ambiente que é incontornável à parte, é, para mim, acima de tudo, uma tragédia intemporal, com trama e vivências e relações perfeitamente contemporâneas, adaptáveis aos nossos dias. A época em que se desenrola só define o tom.
A história central é a de um homem fascinante mas do qual nada se sabe, Jay Gatsby, que, no Verão de 1922, vem abalar a cena nova-iorquina, ao tornar a sua monumental mansão num salão de festas diário, virtualmente aberto a todos quantos o quisessem frequentar. A acção, por sua vez, é narrada por Nick Carraway, um simples magistrado de classe média, que, vindo de Chicago, se estabelecera havia pouco em Nova Iorque, passando a ser, por obra do acaso, o humilde vizinho de Gatsby, de quem se vai tornar amigo chegado. Todas as personagens principais são fortes, e estendem-se, ainda, a uma prima distante de Nick - Daisy -, ao seu marido - Tom Buchanan -, e à sua melhor amiga - Jordan Baker. Nenhuma delas é especialmente carismática, mas são todas densas, por serem tristes, desiludidas e mais ou menos assombradas.
O livro retrata esse Verão quente, à medida em que a amizade entre as duas figuras centrais cresce, e Gatsby se dá a conhecer. A aparente aleatoriedade das venturas e desventuras desses meses, e as relações nos círculos em que Gatsby e Carraway se movimentam, é, então, progressivamente varrida. Emerge o passado, vem à tona os propósitos, e, enquanto a vida amarga destila ironias, precipita-se o seu corolário impossível.
The Great Gatsby não é um livro palpitante mas, como a própria História já lhe fez jus, é uma obra paradigmática, escrita com o pleno requinte de um artista. No fundo, é a jóia de uma Época que teve tanto potencial como oportunidades perdidas, assinada, num tom amargurado, por um dos maiores rostos dessa tal "Geração Perdida" americana, frustrada com o seu mundo de fingir. Não é um livro absolutamente surpreendente, mas é sempre venerável. Saliento-lhe, ainda, o potencial imagético. Nem sequer ao nível das descrições, mas da recriação de ambientes, da recriação de um Tempo: as festas, as casas, as pessoas, os sentimentos, o ar, tudo é fácil de se nos entranhar.
A grandiosidade de Gatsby é cinema em potência, pelo que as expectativas para o filme que chega no fim do ano são significativas. Já falei dele nos destaques do ano: "O australiano Baz Luhrmann (criador de Moulin Rouge) realiza e adapta o argumento, mas é no cast que está o deslumbre: Di Caprio protagoniza, naquela que parece ser, claramente, a sua grande aposta para os Óscares, e é acompanhado pela brilhante Carey Mulligan. Como secundários, os nomes consistentes de Tobey Maguire e Joel Edgerton."
A cartada para os Óscares sai a 25 de Dezembro.
terça-feira, 31 de julho de 2012
A lenda
Para mim, o momento do dia não foi ter chegado à enormidade inconcebível que é ser o melhor atleta da História dos Jogos Olímpicos.
Foi a dignidade extrema com que reagiu à "derrota" desta tarde, a prata nos 200m mariposa, uma categoria que tinha mais do que reservada. Perdeu por 5 centésimos de segundo e, à 3ª prova, continuava sem ganhar o ouro, falhando o recorde das três vitórias seguidas na disciplina. Era ele o gigante caído dos Jogos e, mesmo assim, foi ímpar a grandeza com que se comportou no pódio.
Se calhar, Londres 2012 lembrará Phelps pelas medalhas que perdeu. Eu contarei aos meus netos que o maior de sempre soube sê-lo em todas as horas.
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