quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O bom gigante


Michael Clarke Duncan não era uma grande estrela. Era um secundário que, um dia, teve o papel de uma vida. Era natural que, mesmo assim, passasse mais ou menos despercebido.

Duncan teve, contudo, a particularidade de estar em dois dos meus filmes incontornáveis. Por mérito próprio, com o dom de fazer-se lembrar. Nunca fez grande carreira, podia ter sido só aquele tamanho, mas, para todos quantos o viram, será eternamente lembrado pelo sorriso desconcertante e por uma bondade estranha, que plasmada nos seus maiores papéis, parecia mesmo vir-lhe de dentro.

Será pacífico dizer que não lhe estava reservada a posteridade. Nunca ganhou um Óscar, foi poster uma vez. Não era uma grande estrela. No fim, porém, a empatia e o carisma que sempre irradiou garantem que será lembrado com o carinho próprio de uma.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

E tudo o Zenit levou


Os negócios foram surreais, de tão impressionantes, eram necessários para os clubes, irrecusáveis.

Curiosamente, o Porto vende um símbolo inalienável, de longe o jogador mais preponderante do campeonato, e o Benfica consegue, mesmo assim, ficar a perder. É cru, mas é a realidade.

Ambos perdem capacidade, inevitavelmente, o que se notará na Europa. Vítor Pereira perde o abono, mas tem um plantel sustentado, pensado, que dá garantias. O Benfica não tem suplentes para a defesa, ainda não sabe se tem lateral-esquerdo, e quer fazer, pelo menos 4 meses, exclusivamente com Matic e Carlos Martins no miolo. A época, essa, começou com 15 atacantes, e com Rúben Amorim, um internacional A, emprestado. É possível que num clube profissional, que não é gerido por um miúdo de 10 anos, não tenha passado pela cabeça de ninguém contratar qualquer coisa que não um avançado? Jesus vai precisar de um milagre digno do nome para que isto não lhe rebente na cara.

Uma última nota para os jogadores. Hulk e Witsel irão para a Rússia receber como príncipes. Com sorte, o Zenit até faz um ano europeu digno. Não deixa, contudo, de ser desolador que os 2 melhores jogadores do campeonato português, na flor das carreiras, tenham decidido que o caminho é uma  passagem só de ida para um desterro gelado. É pena.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Thanks, Boss




Faltam-me 5 episódios para acabar as 7 temporadas de West Wing.

Sinceramente, já não há como descrever a sua monumentalidade. É tão grande, que o dia chegou em que a ficção se confundiu com a realidade, e só pudemos ficar esmagados de comoção com a simbiose de tudo aquilo.

Arrepiante.

sábado, 1 de setembro de 2012

The Newsroom (2012)


Pode tornar-se na série monumental que ainda não é.

The Newsroom (10 episódios) foi uma pedrada no charco deste início de Verão. Jornalismo numa série, e criado, imagine-se, por um dos senhores do Olimpo da televisão: 5 anos depois, o monstro Aaron Sorkin, pai de West Wing, decidiu voltar às lides do pequeno ecrã.

A acção é a de um noticiário de horário nobre, do cabo, tradicionalmente leve e pacífico, mas que se torna perfeitamente acutilante, num espaço de comentário duro e imparcial, aquando da mudança editorial que inicia a série. 

The Newsroom é fácil de gostar, fácil de assimilar. Fazer o grande jornalismo, a coisa certa, fazer a diferença. Não ter medo, falar alto, resistir às pressões, educar as pessoas. Se essa é, contudo, a sua face, e uma virtude, é também o seu maior ponto fraco. The Newsroom foi, desde a primeira hora, uma série lírica demais. Muito brilhante e pouco difícil, em vários aspectos, pouco realista. O jornalismo não vive sem o romantismo, mas a realidade é mais crua, obriga a mais concessões, a mais sacrifícios para fazer a diferença. Não pode ser tudo fácil, heróico, não basta só querer. A Newsroom falta dar-lhe o lado feio, a falência dos homens. Apesar de ter tido momentos de nível altíssimo, a temporada acabou nessa toada de conto de fadas, e há que amargar o tom para encarar a próxima.

Isto não significa que a série não tenha densidade, ou que seja banal. Quer dizer que as coisas, sendo já bem feitas, têm ainda de ser engrossadas, tornadas mais realistas, melhores. Porque, como escrevi a abrir, se o forem, então The Newsroom torna-se num absoluto incontornável. Que já provou poder ser. Sorkin ainda está a afinar a coisa, nota-se isso, mas o seu génio já apareceu a toda a linha, e os momentos pele-de-galinha não enganam (o 5º episódio é uma obra-de-arte de princípio a fim). Se a série sair da simpatia da zona de conforto, as possibilidades são infinitas.

As personagens ainda não convenceram totalmente. Tenho dificuldade em gostar de Jeff Daniels. É ele o ícone da companhia, a vedeta, um pivot que fez carreira pela paz com deus e com o diabo, mas que incendeia o seu velho nervo pelo jornalismo, assim que integra a equipa uma antiga e irascível paixão sua. Acho-o muito pouco carismático, pouco venerável, e a sua ocasional postura cómica não ajuda. Emily Mortimer é melhor. Estridente, pouco dada a formalismos, entusiasta, é uma personagem mais cativante. Fica a faltar-lhe, mesmo assim, um pouco de peso e de seriedade. O romance entre ambos, sempre omnipresente, chega a ter um peso exagerado, mas melhora para o fim da temporada.

As minhas personagens favoritas são Sam Waterston e Dev Patel. O primeiro é um patriarca estilo desenho-animado, que é o presidente da divisão de notícias. É ele quem saca quase sempre a performance mais genuína. Patel (Slumdog Millionaire!) é um rookie que sabe todos os segredos da internet, e que nesta sua "estreia" em televisão, demonstra uma altitude digna de registo. 

Das outras personagens mais relevantes, Thomas Sadoski, um produtor truculento, cru e pragmático, mulherengo mas de bom fundo, é o mais interessante. John Gallagher esgota-se em triângulos amorosos, Alison Pill e Olivia Munn são fracas.

The West Wing foi uma série perfeita desde o pontapé de saída. Em cadência, em agressividade, em crueza, nos temas, nas personagens. É também a obra-prima que acontece uma vez na vida, e não pode ser termo de comparação. The Newsroom tem grandeza em si, e isso é a chave de tudo. Falta que Sorkin a trabalhe, que a torne mais dura e adulta. E as expectativas são altas, obviamente, para quando se der o regresso, em Junho de 2013.

P.S. - O genérico, musicado pelo colossal Thomas Newman, é dos mais apaixonantes que já ouvi.

Has André been sacked yet?


Nos primeiros meses do ano passado, quando as coisas teimavam em correr mal ao Chelsea, lembro-me de escrever que havia futebol para muito mais naquela equipa. As coisas foram como se sabe: Villas-Boas implodiu o balneário, foi embora, e o Chelsea acabou campeão europeu.

Nas primeiras jornadas deste ano, com as coisas a teimarem em correr mal ao Tottenham, não há como escrever a mesma coisa. O 3º grande de Londres, do alto do seu voluptuoso plantel, não joga um pingo de futebol. A equipa é passividade, falta de vontade e falta de criatividade. O miolo não inventa porque não tem quem o faça, e é tudo banal naquele 4-3-3, chegando a ser desolador esperar que, nas alas, Lennon ou Bale, os únicos pequenos rasgos, inventem algum milagre. O Tottenham fica em campo à espera de um lance de felicidade, de um erro adversário, ou de um momento de inspiração, qualquer coisa que mascare a sua grosseira falta de método, de ritmo e de critério, coisas só compreensíveis numa equipa que ou não tem treinador, ou não treina. 

E Villas-Boas nem se pode queixar da sorte. Foi assim com o WBA, na semana passada, quando, a um quarto-de-hora do fim, Ekoto inventou um golo a 35 metros. Foi assim hoje, contra o Norwich, com Dembele a entrar em campo, meter um calcanhar pelo meio, e marcar ao mesmo quarto-de-hora do fim. Extraordinariamente, em ambos os casos, em pleno White Hart Lane, o Tottenham ainda conseguiu a proeza de deixar-se empatar. De ambas as vezes em cima da hora, com golos aos ressaltos de dois dos clubes mais pobres da prova. A equipa não tem nem discernimento, nem atitude para segurar sequer este tipo de vantagens neste tipo de jogos. E pior, hoje, se não fosse um guarda-redes de 41 anos, o Tottenham teria mesmo perdido.

Neste momento, os Spurs são, inexplicavelmente, um zero de produção e um zero de capacidade competitiva. Se AVB fez alguma coisa, foi piorar o que Redknapp lhe fez chegar às mãos. Ou acontece algum milagre rápido, ou a carreira do Special Two na alta roda europeia será resumida a um ano tormentoso em Londres, a sangrar dois dos grandes do país.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

É verde-rubro o sonho, do outro lado do mar


A Europa sempre foi o nirvana do maritimismo.

Troféus são outros campeonatos. Ainda sonhávamos com a Taça, mas nada preenchia o nosso imaginário como a UEFA. Jogar com os melhores do continente. Ter aquela vertigem de ir mostrar o Marítimo ao mundo, de estar nos grandes palcos, de jogar onde interessa, onde se faz a diferença.

Cresci com as imagens do Rui Fontes a chorar na tribuna dos Barreiros, em Maio de 1993, quando a equipa-maravilha liderada por um tal de Paulo Autuori se tornou no primeiro clube madeirense a chegar às competições europeias. Com o golo do Paulo Alves ao Aarau, no ano seguinte, que fez com que uma equipa madeirense vencesse pela primeira vez uma eliminatória europeia. Com a bola do Vado à trave, revista no VHS vezes e vezes sem conta, enquanto a geração do meu pai, ainda estarrecida de espanto, se enganava que talvez esse golo pudesse ter derrubado uma tal de Juventus, que tinha o Baggio, o Del Piero e o Ravanelli.

Cresci a acordar cedo para ver o nosso papelinho desenrolado no sorteio da Eurosport, puto a fazer as figas todas para que não apanhássemos um tubarão. E depois a ficar desolado pela forma como nos agigantávamos com os Leeds e os Rangers deste mundo, só para o universo nos virar as costas e fazer-nos perder nos penalties.

A Europa sempre foi o nosso sonho. Do outro lado do mar, ganhar, ganhar, ganhar, como diz o hino. Com mais e menos azares, porém, há muito tempo que a primeira eliminatória nos sabia a pouco.

Ter ganho hoje, chegar finalmente à fase de grupos, é uma emoção indizível. De fora, pode parecer nada, mas, para nós, é um dia em directo para a História. O Marítimo, o grande Marítimo, o maior da Madeira, o Campeão das Ilhas, vai finalmente jogar entre os melhores da velha Europa. Mesmo em crise, e a milhas do dinheiro e das equipas de outros tempos, é desta que vamos finalmente à aventura.

Obrigado ao Presidente, que investiu pessoalmente na campanha. A este grupo impagável de jogadores, que lembraremos daqui a muitos anos. E, acima de todos, ao Pedro Martins. Pensei que nunca ia ver o meu Autuori. Afinal tenho o privilégio de estar a ser liderado por um melhor.

Isto são os nossos títulos. Levar orgulhosamente ao mundo o nome de uma ilha com 250 mil habitantes, bater-se em Anfield, no San Mamés ou em San Siro com o brio do verde-rubro, com as cores dos nossos pais, e dos pais dos pais deles. Ganhar, poder crescer, contribuir para a saúde do futebol português e do país em si. Reviver o Marítimo do Funchal, do Caldeirão dos Barreiros, o Marítimo que se foi perdendo no caminho, mas que continua a não ter igual no coração da Madeira.

O Marítimo que está na casa e no carinho de toda a gente, e que pode voltar a estar na vaidade e na rua e por todo o lado. O Marítimo que só precisa de uma oportunidade para voltar a ser o Marítimo. Uma oportunidade que começou hoje.

Obrigado Leão.