"I have no choice but to direct my energies toward the acquisiton of fame and fortune. Frankly, I have no taste for either poverty or honest labor, so writing is the only recourse left for me." Hunter S. Thompson
sábado, 27 de outubro de 2012
Sam Mendes fez o melhor Bond da História
Para mim, o Casino Royale não era só o melhor 007 jamais feito. A superação e o engrandecimento que emprestou à saga representaram um marco tão grande, que, como Dark Knight, no Batman de Nolan, tornava pouco crível que se pudesse vir a fazer maior do que aquilo. Quando o Skyfall acaba, no entanto, não precisamos de mais do que uns segundos para ter a certeza.
A realização de Sam Mendes é uma monumentalidade com todas as letras. É qualquer coisa de espectacularmente abusivo, uma arte com vida própria dentro do filme. Não me lembro de ter dado por mim tantas vezes maravilhado com a beleza da técnica. O realizador de American Beauty, que lhe valeu o Óscar (bisneto de madeirenses!), tem mais sequências de génio em Skyfall do que muitos realizadores na carreira inteira. O filme valeria a pena só por causa dele, mesmo que fosse um lixo no resto.
A luta num parapeito de um arranha-céus, feita de silhuetas num plano estático, de luzes ondulantes em fundo e da banda sonora de Thomas Newman (perfeita) é, possivelmente, a mais deslumbrante cena de acção que já vi. O permanente jogo com a escuridão - em cunha com o negrume do próprio argumento -, o Bardem cambaleante na noite entre chamas, o metro pelas galerias de Londres, o poder a filmar acção, a magnitude a filmar os lugares - da ilha deserta de Bardem aos majestáticos campos escoceses -, enfim, Sam Mendes escreveu uma poema com uma câmara nas mãos. Se a Academia o desterrar, como fez criminosamente com Nolan, descredibiliza-se até onde isso for possível.
O argumento é dos menos conspiratórios que a saga já teve e, ao mesmo tempo, dos mais felizes. Skyfall não é uma história de luta pelo domínio global ou de criminalidade caótica. É uma história pessoal, um ajuste de contas, um mergulho de cabeça no passado, que fala de confiança, de medo, de vingança e de expiação, e dos fantasmas que assombram cada um de nós. É a história mais humana de sempre, do Bond que volta à amargura da infância, da M para quem não há fuga das decisões que teve de tomar, e do impagável laço fraternal entre os dois, concretizando, de forma plena, a reinvenção do Bond impessoal, concebida em Casino Royale.
Na comemoração do meio século de filmes 007 (1962-2012), ainda houve tempo para ser revivalista, e ressuscitar, em homenagem, uns quantos símbolos que fizeram a saga. A Neal Purvis e Robert Wade, que asseguram o texto há 13 anos, desde The World is not Enough, juntou-se, desta vez, o colossal John Logan (Gladiador, Último Samurai, Aviador!), e, não sabendo mesurar o contributo, para um leigo, o peso pareceu imenso.
Bardem é o melhor vilão de sempre. Assim, fácil. Era coisa que o trailer já fazia adivinhar. Com a performance em No Country for Old Men ainda na cabeça, dar-lhe esta insanidade era pouco menos do que uma escolha perfeita. É impressionante a forma como o espanhol projecta no olhar, no esgar e nos gestos a loucura que se queria, a maneira como todo o seu corpo responde ao papel, possuído e febril, como se tivesse, realmente, uma sede quase física de vingança. Necessariamente para atacar o segundo Óscar da carreira, sem dúvidas.
Sagas não costumam ser muito gratas ao protagonista, mas Daniel Craig continua a merecer que se enalteça a encarnação brilhante de um papel que fez tão seu. Tão pessoal, tantas vezes em fiapos, mas sempre comprometido, e inevitavelmente intenso. A incomparável individualidade do seu Bond é um legado que ninguém lhe poderá tirar.
Skyfall é tão bom, que deu-se ao luxo de ter um fim como merecia. Pintado como um quadro, quase místico, reverente, duro e incontornável. Um fim à altura do melhor Bond de sempre.
9/10
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Das hienas não reza a História
Na antecâmara da decisão sobre o caso Armstrong, já escrevi o que queria.
O linchamento público que se sucedeu foi, porém, ainda maior do que poderia imaginar. Sobre isso, só gostava de notar uma coisa. Três reacções, lidas na Marca.
Andy Schleck, um inevitável número 2, um crónico derrotado, sempre incapaz de se provar na estrada, e cujo irmão, e eterno companheiro de equipa, está suspenso por doping disse: "É uma decisão justa, que chega tarde. O que aconteceu foi muito grave."
Bradley Wiggins, o vencedor em título do Tour, que nunca o teria sido se não estivesse toda a gente lesionada, e se a Sky não tivesse instituído uma disciplina militar para levá-lo num berço à vitória, riu: "Armstrong é como o Pai Natal, ao envelhecer compreendes que não existe."
Alberto Contador, vencedor histórico de 7 Grandes Voltas, um monstro da corrida, e que até teve uma cisão pública grave com Armstrong, quando eram colegas de equipa, deixou, por sua vez, o seguinte: "Estão a humilhar o Lance, a faltar-lhe ao respeito. O que sei é que se o ciclismo é popular nos Estados Unidos, se sabem lá o que é o Tour, é graças a ele."
Nos tempos difíceis, como na estrada, só está à altura quem pode. Grandeza não é coisa que se aprenda. Na História, também não fica quem quer.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Louie (2010), season 1
Excessivamente experimental.
Que Louis C.K. é um génio, não há dúvidas. É um nome incontornável do stand-up mundial, um dos absolutos grandes da actualidade, e vê-lo em palco é uma monumentalidade.
O problema é que C.K. não quis ser muito ortodoxo no desenho da sua comédia, que produz, realiza, escreve e protagoniza. Louie é a história de uma versão ficcionada de si próprio, um comediante de cena urbana, recém-divorciado, e que tem de criar as duas filhas menores em Nova Iorque. A acção, no entanto, não tem uma linha orientadora. É colada aos trechos, às vezes nem relacionados, com performances reais de stand-up de C.K. pelo meio. Há episódios em que o seu talento plasma na acção da série, mas durante a maior parte do tempo investe-se no constrangimento e no non-sense, sem um resultado muito bem sucedido. A liberdade criativa e de edição acaba por revelar-se como uma falta de coesão estranha e, na verdade, são quase sempre as performances verídicas que salvam o episódio.
Com a terceira temporada recém-concluída, Louie já rendeu a C.K. um Emmy para Melhor Argumento Comédia, pela season 2. Não é comparável, contudo, ao que o americano alcança no stand-up puro.
Looper
Boa ficção científica.
Em 2074, viajar no tempo é possível, mas ilegal, e só está ao alcance da máfia, que o usa como a melhor forma de eliminar os seus alvos. Esses são, assim, enviados 30 anos para o passado, onde hitmen esperam por eles para concluir o serviço. O problema é que o alvo podem ser eles próprios.
Looper tem várias ideias boas. O cenário futurista é sóbrio e elegante, e o enquadramento histórico da trama é muito bom - o futuro que assombra o passado. Ao mesmo tempo, é agridoce em vários planos: a densidade do que o protagonista tem de assimilar é boa, mas sempre um pouco artificial e sentida de menos. Gordon-Levitt não ajuda quanto a isso. Alguns elementos da história são roubados ao cinema de horror, o que é surpreendente e arrojado, no entanto deviam ter sido mais cirúrgicos e menos exagerados. E o desfecho, não sendo banal, não é pleno e inquestionável. Independentemente destas oscilações, o trabalho de Rian Johnson, que realizou e escreveu o filme, é claramente digno de registo.
Gordon-Levitt continua a não me convencer. Novamente num papel generoso, voltou a demonstrar falta de alma e de empatia. Era fácil criar ali algum calor humano, mas Levitt pareceu tão impessoal como sempre, difícil de se relacionar com tudo aquilo. Bruce Willis é só força bruta. O melhor do cast é a vulnerabilidade de Emily Blunt, uma mãe possível, em remissão do passado para dar uma oportunidade ao filho.
Looper tinha potencial para um pouco mais, mas a sua qualidade não está em questão.
7/10
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Derrota normal em casa de um rival na luta pela manutenção
Godinho Lopes foi eleito às custas de Domingos. Num Domingo, disse que "a saída de Domingos é uma questão que não faz sentido", e despediu-o na 2ª. O Sporting falhou o pódio, ficou fora da Liga dos Campeões e, no último dia da época, perdeu a final da Taça (onde não merecia estar) para a Académica. Menos de uma semana depois, Godinho Lopes renovou com Sá Pinto.
Ainda não acabámos Outubro, e o Sporting está em 12º no campeonato, já foi eliminado da Taça e segue em último do grupo na Liga Europa. Em 11 jogos oficiais, ganhou 2, 1 dos quais contra uns tipos chamados Horsens, que não jogavam na nossa Liga de Honra. Sá Pinto, claro, já foi despedido há três semanas e, enquanto não arranja forma de arranjar um treinador - nem com o rebuçado que foram duas semanas sem competição -, o Sporting ainda paga o salário de Domingos e de Sá Pinto. Pelo meio, não conseguiu melhor do que esmolar as vendas de João Pereira e Matías.
Uma pergunta é tudo o que resta: como é que é possível que Godinho Lopes ainda não se tenha demitido?
"Una mina de oro"
Falcão marcou ontem o golo da vitória do Atlético. Tudo normal até aqui. Ou não. Afinal de contas, coisas normais não é o forte do Tigre.
Falcão marcou ontem o golo da vitória do Atlético ao minuto 90, num estádio agreste, e de livre directo. No caso, o primeiro livre directo da carreira. Simeone explica: "O Falcão pediu-me desesperadamente para bater o livre porque tem treinado imenso para melhorar." Como é óbvio. O melhor 9 do planeta só podia passar os treinos a reflectir sobre o que está mal.
Dissemos todos o quão penoso era um tipo destes falhar um grande europeu. O desperdício, o crime, a perda. Que ridículos que nós somos. O Falcão é tão bom que se limitou a assegurar que o Atlético passava a ser a escolha correcta. No fundo, era tudo simples, como um euromilhões. Não existia o sítio certo, saía simplesmente a qualquer um e depois mudava-lhe a vida.
Graças à sua pornografia de golos (neste momento, 10 jogos seguidos a marcar, por exemplo), o Atlético ganhou duas finais europeias de goleada, e lidera agora a Liga Espanhola, pela primeira vez desde 1995/96. A Colômbia, que não vai a um Mundial desde 1998, segue destacada no pódio da qualificação sul-americana, graças a 3 vitórias seguidas esta época, assinadas com 4 golos seus.
Estas coisas de fábulas não acontecem, pelo que é possível que ele ser do Atlético e ser colombiano seja só uma experiência científica, para ver o que ele pode render em condições adversas. Como quando o Tartaruga Genial punha o Son Goku a lutar com peso às costas. Qualquer dia aparece alguém a dizer que, na verdade, o Falcão é brasileiro e pertence ao Real, mas que era feio andar aí a humilhar os mortais.
Pensar que o Iniesta pode ganhar a Bola de Ouro dá-me vontade de rir. O Iniesta não devia estar sequer nos três finalistas.
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