sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Um Obama branco


"Todos sabem que o silêncio do Presidente da República é de ouro, hoje a cotação do ouro foi 1730 dólares por onça, uma onça são 31 gramas, mais 1,7% do que a cotação do ouro naquele dia de setembro em que a generalidade dos portugueses ficou a saber o significado da conjugação de três letras do alfabeto português: "tê, ésse, u" (TSU)"
Excerto do stand-up de Cavaco, ontem à noite

Heróis do mar, ainda há esperança! O desemprego sobe, os salários baixam, vão-se os subsídios, aumenta o IRS, o IVA e o ar na rua, os jovens emigram, a troika puxa-nos a trela, temos greves todos os dias e estamos quase a incendiar a Assembleia. Mas afinal há esperança, nação valente. Não que já não soubéssemos todos que, ao menos, temos o privilégio de ser liderados por um estadista nestes tempos amargos. Deus dá as piores batalhas aos seus melhores soldados, e a nós, reencarnou-nos o Afonso Henriques, deu-nos um John Connor do futuro para velar por nós, pôs-nos no Palácio o segundo líder mais carismático do Ocidente, e segundo se não estiver num dia bom, o Obama que se amanhe.

Ontem, estava num dia bom, graças a deus. O povo até amanheceu mais contente, o dia até pareceu mais bonito na rua. O Cavaco não falou, nobre povo!, o Cavaco fez piadas num jantar. Foda-se, é que já nem tristeza, nem frustração, nem falta de dinheiro deveis sentir! Muito menos fome, nação imortal, ou não soubéssemos que o nosso Grande Líder passa ele próprio as passas do Algarve, e ontem fez de luz da nossa vida só com uma côdea de pão bolorento no estômago, ou provavelmente nem isso.

Na Grécia, o Presidente Papoulias (83 anos) disse isto há um par de meses: "Não aceito insultos ao meu país feitos pelo senhor Schäuble. Não aceito isso como grego. Quem é o senhor Schäuble para ridicularizar a Grécia? Quem são os holandeses? Quem são os finlandeses? Teremos sempre orgulho em defender não apenas a nossa liberdade, não apenas a liberdade do nosso país, mas a liberdade de toda a Europa." Que exibicionista barato. Nada que se compare à dignidade do beato Cavaco, que, nesse mesmo dia, estava custosamente de pijama, debaixo dos cobertores, a tentar congeminar uma boa piada ou duas, só para nos aliviar a dor assim que possível, ou seja, daí a uns 6 meses, quando saísse da Alegoria da Caverna em que vive.

O Conquistador fez de nós um país, o Rei-Poeta lançou-nos as bases modernas, o Príncipe Perfeito fez de nós a potência global. Daqui a 100 anos lembrar-se-ão do Obama branco, do Presidente que, conta a lenda, vivia numa torre como a Rapunzel, e tinha feito um voto de silêncio como a Irmã Lúcia, mas que, quando se dirigia a um país em agonia com a segunda maior crise económica do século, país cuja única certeza era que não podia contar com ele para nada, ainda era patriarca para consolar os conterrâneos, com nada menos do que umas piadas pseudo-paliativas sobre o seu impensável e insuportável vazio político.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que ganhámos


A um quarto-de-hora do fim, a minha frustração era que ninguém estivesse a ver. Que ninguém fosse ver, que ninguém ouvisse falar. Estávamos a jogar no mítico St. James Park, estádio de um dos históricos ingleses, com mais propriedade do que se estivéssemos a treinar na nossa própria casa. Confiança, moral, alegria de jogar, de tocar a bola, capacidade para olhar o adversário de frente, ir para cima, tentar a sorte, tentar ser feliz, tentar não ir embora sem deixar no campo, no maior dos palcos, o quanto merecíamos estar ali. Que jogão estava a fazer o Marítimo. Com muito mais posse de bola, muito mais remates, infinitamente mais atitude. 6 milhões de euros para nós, 90 para eles. O Krul, o Coloccini, o Ben Arfa, o Cissé, o Ba do outro lado. Uma brutalidade. E nós a sermos aquilo tudo, e a perdermos pela única infelicidade de ataque deles.

Amanhã teria sido só mais uma derrota. Desta vez, porém, fechámos a cara e fizemos o que tínhamos e o que não tínhamos para este não ser só mais um jogo sem história. Não ganhámos, estamos fora, não vamos abrir telejornais. Mas o golo do Fidélis vai recordar este Marítimo com o respeito que merece, vai emprestar a admiração devida às crónicas, e vai fazer com que aquela gente se lembre que, numa noite fria da Liga Europa, houve uns tipos sem dinheiro mas com um coração do tamanho do mundo, a quem o grande Newcastle não chegou a conseguir ganhar.

Hoje acabou o sonho. 0 vitórias, 2 golos marcados, não há muitos milagres no futebol. Talvez acabemos em último do grupo. De certeza é que valia a pena fazer tudo outra vez. E, com um nó na garganta, enquanto ouvia a nossa gente a gritar Marítimo no silêncio da Premier League, só pensava que quem me dera ter estado hoje no St. James Park, a honrar mais um agigantamento deste tremendo grupo de jogadores. Perdemos a aventura nos resultados, mas ganhámos uma infinidade nos campos. Mostrámos ao Brugges e ao Bordéus e ao Newcastle que, mesmo que o orçamento 10 e 15 vezes inferior não nos faça ganhar no fim, até lá, podemos ganhar seja a quem for. A prova de dignidade e de grandeza não se paga, e é a razão porque, de uma ilha pequenina do Atlântico para o mundo, qualquer um de nós sabe o orgulho que é poder dizer que somos do Marítimo.

Hoje não ganhámos nada, mas, enquanto escrevíamos mais um dos dias para explicar o que é o verde e o vermelho, começámos a ganhar o que pode ser o Marítimo do futuro. Saímos disto melhores, e saímos com a certeza de que é uma obrigação voltar ao lugar onde merecemos estar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Mancini ainda acreditou no Pai Natal


O Campeão Europeu decidiu estrear ontem uma equipa com 5 defesas, perdeu feio, ficou com um pé fora da Champions e perdeu o treinador esta manhã. Mancini deve ter achado piada porque, hoje, na iminência do seu City, a equipa mais cara do mundo, falhar a Liga dos Campeões rotundamente pelo segundo ano seguido, também ele achou que receber o Madrid com 5 defesas era uma ideia de valor.

Na primeira meia-hora, o Real deu um festival que podia ter rendido 5 golos, e garantido a Mancini o mesmo destino do conterrâneo Di Matteo. Depois de Benzema, Nastasic salvou em cima da linha, Khedira picou a relva em vez da bola, ninguém conseguiu aproveitar o incêndio de Ronaldo na ala esquerda, ao som dos seus tão queridos assobios, e o Real perdoou. O italiano teve, então, a epifania de voltar a jogar com 4 defesas, fazer entrar um trinco e regressar ao esquema habitual.

O Real moderou-se e o City cresceu, mas nunca o suficiente, até que Arbeloa fez um penalty e foi expulso. Com um quarto de hora para jogar em superioridade (e as pontas finais são uma especialidade citizen), Mancini deve ter sentido que talvez o seu Natal tivesse chegado mais cedo. Não chegou. O City não merecia ter perdido no Bernabéu, mas hoje podia ter sido trucidado. A estrelinha que então faltou a Mancini, teve-a hoje, e mesmo assim o City não foi bom o suficiente.

Individualmente, Xabi Alonso fez uma monstruosidade de jogo. Um metrónomo em todos os momentos, brutalmente inteligente a compassar a equipa, capaz de entregar qualquer bola no pé a 50 metros, mesmo que tivesse uma floresta à frente. O seu jogo nos 15 minutos de inferioridade do Real foi um tratado. O primeiro regresso de Ronaldo a Manchester não passará a História, mas foi ele quem encheu o campo, quer a deslumbrar na primeira meia-hora, quer a chegar sozinho para a defesa do City, quando foi preciso. Ridícula a forma como só lhe marcaram 1 de cada 2 faltas que sofreu. Finalmente, no City, foi Silva quem carregou toda a ilusão. Começou mal a época, andou lesionado, mas está a regressar ao nível prodigioso do ano passado. A forma como solta a bola no último terço é coisa de outro mundo, que faz da equipa, não raras vezes, bem mais capaz do que é.

Pelo segundo ano seguido, o City volta a ser um desastre europeu. Desta vez, o agora campeão inglês nem foi capaz de esperar pela última jornada para fazer as malas, e precisou da graça de mais um passeio do Borussia em Amesterdão, para não perder até a vaga na Liga Europa. No cargo, Mancini é, de vez, o dead man walking que sempre pareceu. Resta saber se ainda é capaz de fazer um campeonato tão extraordinário que o aguente até ao Verão.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Não se vai a Turim tentar enganar uma Velha Senhora


Grande exibição do Campeão Italiano, a lembrar as velhas grandes noites europeias de que andava arredado há anos demais. Extrema personalidade, segurança de si, uma ideia de jogo atractiva, grandes intérpretes e a sua proverbial cultura de vitória. Tudo junto, rendeu um 3-0 redondo, que só peca por escasso, e que nunca esteve em causa.

O Chelsea foi a Turim reinventar a roda. Sabendo que o empate deixava a equipa em condições favoráveis, Di Matteo acreditou que um esquema estranho de 5 defesas e sem ponta-de-lança, podia ser suficiente para trancar a única grande equipa europeia que joga sempre com 3 defesas. Quando ainda se andava pelo jogo de pantufas, uma jogada genial de Óscar até podia ter mudado a história, mas Cech só conseguiu parar as duas primeiras bolas bianconeri com selo de golo. Assim que Quagliarella fez o 1-0, os londrinos foram varridos do mapa, e arrastaram-se envergonhados pelas dezenas de minutos que se seguiram. A imagem simbólica acontece à passagem da hora de jogo: Di Matteo mexe na equipa pela primeira vez, tira um defesa, mas recusa fazer entrar o seu único ponta-de-lança. No minuto seguinte, Vidal matou o que havia para matar.

No seu elegante 3-5-2, que lhe valeu um campeonato sem derrotas no ano passado, e que colocou 6 titulares na Itália vice-campeã da Europa, a Juve chega a ser senhorial. Ainda não tinha sido nesta Champions, complicou até a vida com um empate incompreensível na Dinamarca, mas hoje deixou tudo claro. Gigi Buffon, já com 34 anos, continua a ser tão monumental como sempre. Barzagli e, sobretudo, Chiellini e Bonucci são centrais do nível da imortal escola italiana. No ataque, são muitas e boas as soluções: Quagliarella, Giovinco e Matri, mais o joker Vucinic, têm todos golos nas botas, educados por uma vida no contra-relógio do Calcio.

É no miolo, no entanto, que irradia o génio da equipa. A jogar mais de trás, Pirlo controla, com a sua batuta invisível na mão, todo e qualquer pensamento da equipa. O que acontece do meio-campo para a frente, foi ele que concebeu 5 segundos antes. L'Architetto continua tão bom como sempre, e é razão mais do que suficiente para se desejar toda a fortuna a esta Juve. Com uma facilidade natural para aparecer na área, surgem, à sua frente, Marchisio e Vidal. O italiano mais técnico, o mais avançado dos três, Vidal mais explosivo, a fazer tudo rápido na sua passada larga, ambos com golos generosos, sempre bem compensados pela disponibilidade física dos alas.

Na última jornada deste segundo grupo da morte, um empate em Donetsk apura a Juve, e o Shakhtar em primeiro, desterrando o Campeão Europeu para a Liga Europa. Continua a poder cair para qualquer um, mas Di Matteo devia ter sabido melhor. Quem se recusa a jogar, escreve quase sempre a sua própria sorte.

sábado, 17 de novembro de 2012

Os tortuosos caminhos do Chelsea de Di Matteo


Ter sido Campeão Europeu com a equipa do ano passado, é uma daquelas coisas que só acontece mesmo uma vez na vida. Debater-se-á para sempre se não foi mais sorte ou mera aleatoriedade do Universo, e quem viu sabe que teve decerto de ambos, mas se há alguma coisa garantida no futebol, é que não há nenhum campeão que não o mereça. Ter-se estreado como treinador principal no navio a afundar que era aquele Chelsea, e ter aguentado ser pior do que quase todos os adversários que apanhou, para, no fim, ganhar a melhor competição de clubes do Mundo, não é coisa que possa ser menosprezada.

Aquela Champions saiu da pele de Di Matteo, e parece justo dizer que provavelmente não teria acontecido sem ele. Sucede que, no futebol, não há passado nem há gratidão. Não pode haver. E, mesmo quem fez a vénia ao treinador italiano, foi forçado a relativizar o seu sucesso. Com tudo a ruir à sua volta, às vezes à parte de qualquer razão, foi ele, de facto, quem encontrou o caminho. Os campeões, porém, não costumam germinar de circunstâncias anormais, antes pelo contrário, e a normalidade está muito longe de ser uma coisa mais fácil. Escolher os jogadores certos, pensar uma equipa, e concretizá-la em campo, subsistir às provações de um ano inteiro e nunca falhar. No caos, quando não há nada a perder e quando não esperam nada de nós, a transcendência propicia-se; a verdade é que as épocas das grandes equipas dependem de condições bem menos líricas - resiliência, pragmatismo, maturidade -, que só se manifestam se houver capacidade genuína.

Di Matteo não ficou porque confiavam nele; ficou por decreto, porque não se despede um Campeão Europeu, seja esse estigma mais ou menos justo para com ele. O conjunto, contudo, respondeu cedo. O Chelsea foi a primeira grande equipa inglesa desta época: 8 vitórias nos primeiros 9 jogos, liderança com uma folga simpática para os rivais, possivelmente o melhor futebol da Premiership. Hazzard chocou de tão bom, Mata explodiu autenticamente no ano de afirmação, o miúdo Óscar revelou-se com sustento, e a defesa sofreu pouco e marcou que se fartou.

Parecia uma paisagem mais do que suficiente para se trabalhar em cima, e arrancar para uma grande época com naturalidade. O Chelsea, porém, pareceu sempre duvidar de si próprio, inexplicavelmente. Mesmo num início tão promissor, perdeu as supertaças, a Europeia sendo triturado pelo Atlético. Depois, e apesar de estar num grupo difícil, não se conseguiu afirmar na Champions. Lidera, mas a qualificação está longe de estar assegurada. Finalmente, é a Liga que está a escorregar por entre os dedos. A equipa não ganha há um mês (2 empates e 2 derrotas), e uma vantagem que chegou a ser de 4 pontos, é hoje um 3º lugar com 4 pontos de atraso.

Continua tudo em aberto, claro, e o Chelsea merece crédito pelo que já jogou este ano. Ao mesmo tempo, é inevitável que exista uma certa nuvem sobre Di Matteo. O plantel curto foi uma péssima ideia (a inexistência de um suplente para Torres é absurda), e ideias como a de hoje, de ir rodar o seu parcimonioso plantel ao estádio de uma das equipas mais fortes da Liga em casa, não ajuda. A capacidade de Di Matteo para pragmatizar a equipa no próximo mês, e garanti-la à altura, perante a consistência dos rivais de Manchester e face à decisão na Champions, determinará, necessariamente, se é ele, ou não, o homem certo para o lugar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sem apedrejar a polícia não vamos lá


Faz-me muita confusão o entusiasmo das pessoas sempre que há fogo e pedradas às portas da Assembleia. O "isto agora é que vai ser a sério", "se não for assim não vamos lá", "eles agora vão ver", e afins mais pseudo-românticos do léxico das revoluções. As pessoas gostam de encher a boca para dizer que isto só se resolve é com o exército, ou com batatada e com coisas partidas e a arder. E falam sempre com uma certa convicção bacoca, com ignorância disfarçada de maturidade, com uma falsa e insuportável altivez de milhafre ferido na asa, como se soubessem melhor e falassem em custosa consciência, e aquilo não fosse só papagaiada que fica bonita no facebook, desde o sofá de casa. Como se um país onde, de repente, toda a gente agarrasse em calhaus na rua e atirasse a casas, carros e lojas, e incendiasse esta merda toda, e se trocasse a democracia por um estado de sítio militarista qualquer, fosse um país melhor para se viver.

Não sou partidário de manifestações, muito menos de greves, especialmente quando são sacadas em catadupa, como se de uma brincadeira corriqueira se tratassem, e, ainda por cima, quando são exploradas por classes que deviam ter mais vergonha na cara, com todo o sector dos transportes à cabeça. Contudo, respeito sinceramente quem faz greve em consciência, e vai às manifestações. Quem faz greve porque já só vê a sua vida a andar para trás, porque uma vida de trabalho lhe vale cada vez mais nada, ou pior do que isso. Quem tem os filhos na mesa à espera de comer, e já não sabe quando é que lhes vai falhar. Quem quer ter uma oportunidade de começar, e, se for um dos sortudos, arranja trabalho escravatório. Não tenho dúvidas de que a grande parte dos que saem à rua, sai porque precisa, e isso, pura e simplesmente, não se julga, porque amanhã pode calhar a qualquer um de nós.

Agora, sob nenhum prisma, as greves e as manifestações devem ser uma coisa de que se goste. Uma coisa onde se veste a camisola, onde há essa aberração chamada piquetes, para demover quem quer trabalhar, ou um caos que apreciamos à noite na tv, e nos dá aquela tal chama heróica. Greves e manifestações são uma infelicidade, um último recurso, que nos devia afectar, e que devíamos todos desejar não ser necessário. Não são um circo nem um filme giro. São uma coisa séria com um objectivo pragmático: fazer-se ouvir com o civismo próprio de uma democracia.

Parece-me razoável dizer que atirar entusiasticamente pedras da calçada à polícia, e meter 21 agentes no hospital, é um episódio triste, que não dignifica a democracia, nem faz nada por nós. Não é fácil ver, depois, a polícia a carregar em força o justo pelo pecador, e assistir à casa dos horrores em que aquilo se tornou, com idosos, e todos quantos estavam lá a bem, a sofrerem por tabela. Diabolizar, porém, a polícia, achar que aquilo podia ter sido controlado com um par de palmadas a 2 ou 3 rapazes mal-comportados, é absurdo. As pessoas têm tanto o direito de manifestar-se, como o dever de o fazer civilizadamente. Quem acarinha estes espectáculos tristes de foguetes e pedradas, não tem moral para condenar quem está lá a fazer o possível para garantir, a quem joga pedras, que ainda há limites, e que o poder ainda não caiu na rua. Isto ainda não é o terceiro mundo e, ao contrário do que muita gente parece pensar, não estávamos melhor se fosse. Oxalá não seja preciso nos arrependermos primeiro, antes de percebermos todos isso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Argo


A primeira grande desilusão do ano.

Para mim, era um dos 10 mais esperados de 2012. A história verídica do resgate de 6 funcionários da embaixada americana em Teerão, aquando da Revolução Islâmica, em 1979, era uma pérola, Affleck cada vez mais fazia carreira na realização, e o elenco era nada menos do que majestoso. Argo parecia um daqueles filmes que se fazem sozinhos.

Não foi. Numa reconstituição histórica, não há escape criativo, tem de se jogar com o que há. É indispensável ser inteligente, subtil, saber exactamente que pontos valem a pena ser pressionados. Não vai acontecer nada de surpreendente, portanto, na analogia ao poker, é preciso ganhar o pote sem a melhor mão, usar bluff. O bluff, em Argo, é de uma infelicidade quase constrangedora. 2/3 do filme são competentes, bem executados. Não tinham muito que explorar, mas são interessantes, preparando o caminho para o que teria de vir a seguir. E a seguir teria de vir um corolário inteligente, executado com tanta tensão quanto classe.

O que veio a seguir foram cenas de suspense de 3ª categoria. Um thrill bacoco, arrancado aos filmes rascas de acção que vão directos para o DVD. O telefone que é atendido no último suspiro, o autocarro que não arranca, os bilhetes que não estão no sistema, milícias que descobrem a verdade no último minuto... Enfim, numa história cujo fim se sabe, só funcionaria um argumento elegante, nunca um contra-relógio de clichés. Na verdade, Argo parece em quase tudo uma boa história "jornalística" mal idealizada para o ecrã: os reféns, por exemplo, são secundários quase vegetais na história, o que é contra-natura, e falta fluidez à alternância dos diferentes momentos da acção que é, não raras vezes, abrupta. Na primeira adaptação de argumento que fez, Chris Terrio (um realizador-argumentista nova-iorquino de 36 anos, sem grande expressão) não foi manifestamente feliz: Argo é dos piores argumentos que me lembro de ver num filme deste nível.

Affleck faz uma realização interessante, apesar de tudo, e de não ser a melhor que já fez. A capacidade, a leitura e as boas ideias estão lá, são uma mais-valia e garantem boas sequências, mas ainda não é desta que se candidata ao Óscar. Como protagonista, já não. Tony Mendez é um papel que exigia bastante mais nervo e personalidade, e Affleck nunca convence, também por vias do argumento, que não é capaz de fazê-lo mais denso. A linha do seu divórcio e do filho de 10 anos é só mais uma construção vulgar, pregada a fita-cola, sem qualquer empatia.

Os melhores do cast foram John Goodman e, necessariamente, o extraordinário Alan Arkin, ambos no registo bem disposto e mundano de hollywood (o que não abonará muito por um thriller histórico). Elogie-se, também, a boa banda sonora e a óptima reconstituição histórica, desde a edição, ao visual das personagens e ao vasto material de época utilizado.

Argo é uma história que tinha de ser um filme, assassinada por uma péssima adaptação de argumento, que transforma condições muito favoráveis, num filme meramente razoável.

6/10