segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

"Whatever makes you happy"


Sonhar, fazer, ir, rir, aproveitar tudo o que der, e depois mais um bocado. Fazer coisas boas, divertir-se genuinamente, contagiar quem estiver à nossa volta e, acima tudo, estar de bem com a vida todos os dias. "Tudo o que nos fizer felizes", como diria o Mestre.

Que 2013 seja isso tudo, em muito melhor. Venha ele!

Frankenweenie


É um filme tão pouco convencional como Tim Burton.

Isso fica claro, desde o início. É um stop motion a preto e branco, melancólico, estranho sempre que possível, e com temáticas quase raras em Animação, nomeadamente a omnipresença da morte e do pós-vida. Até gabo a originalidade. Acredito que é sempre melhor fazer qualquer coisa diferente, gostem ou não, do que mais do mesmo, e com Burton isso nunca está em questão. Frankenweenie é um exercício criativo para o seu gosto próprio, uma homenagem sua a uma quase infinitude de elementos do cinema fantástico, e tem coisas de valor: o cão é um belíssimo boneco, por exemplo, e o amor e a pureza da relação com o protagonista têm expressividade. O problema é que acaba tudo mais ou menos atropelado pelo exagero artístico de Burton.

Aprecio que se faça diferente, mas diferente está longe de ser necessariamente bom. Tim Burton poderia ter feito o "seu" filme, com os "seus" elementos, mas conferindo-lhe mais empatia, tornando-o mais ortodoxo, e mais apreensível para o género em geral. Prefere, no entanto, elaborar tudo na sua paleta, e deixar-se levar. O filme é sempre obscuro e tristonho, falta-lhe vida, e depois, como se não bastasse, envereda por uma espécie de horror movie infanto-juvenil que torna as coisas simplesmentes penosas. Tem tudo de ser tão fantasioso, tão retorcido e tão estranho, tão exageradamente assinado e artístico, que o produto final é um filme cansativo, não especialmente bonito, e difícil de gostar.

Não sou familiar da filmografia de Burton, e não sou fã do que conheço. Acredito que, para quem é, Frankenweenie esteja na medida. Para o resto das pessoas, e de fronte para o deserto árido que tem sido a Animação nos últimos tempos, mais vale ir ver dvds do que a Pixar andava a fazer há 4 ou 5 anos atrás, e esperar que esses dias ainda possam voltar.

5/10

domingo, 30 de dezembro de 2012

Spielberg voltou aos grandes filmes


Passaram sete anos desde Munique. Uma péssima sequela, uma péssima incursão na Animação e um ainda pior regresso à Guerra. Sentia-se o vazio, e ficavam dúvidas se, de facto, uma das lendas vivas da indústria seria capaz de recuperar a sua altitude, e fazer de um prato cheio como este, o que ele devia ser. Felizmente, Lincoln trouxe-o de volta. Bom gosto, cadência, inteligência e, acima de tudo, a grandiosidade que sempre o caracterizou. Não com a crueza da guerra ou o luxo visual que o celebraram, mas com uma maturidade e uma reverência notáveis, que se acumulam em cenas não raras vezes sublimes (e a que não é estranha, claro, a colaboração de velhos parceiros como o eterno John Williams, com mais uma bela banda sonora, e a Fotografia de Janusz Kamiński). Como já deixava antever o início da época dos prémios, Lincoln cumpriu mesmo as expectativas, e é um dos filmes maiores de 2012.

A acção centra-se nos últimos meses da vida do lendário Presidente americano que, foram, de alguma forma, o corolário do seu legado, com a abolição da escravatura e com o fim da Guerra Civil. O argumento adaptado de Tony Kushner merece todas as honras. Não será à toa que o seu último trabalho tenha sido também o último grande filme de Spielberg, o já mencionado Munique, em 2005. Nova parceria, novo sucesso. A chave é a capacidade notável para saber contar a história. O filme é biográfico, dependente de travessões históricos, mas Kushner recria-o com mestria, cheio de intimidade, de situações enternecedoras e privadas, de encontros pessoais passíveis de ser conhecidos só por quem lá tivesse estado, que dão ao filme uma personalidade absoluta e sedutora. A acção que vem nos livros ocorre como que num segundo plano - a guerra e o assassínio não têm expressão, por exemplo -, e o filme flui com a riqueza da recriação dos bastidores, sempre altivo, mas nunca sério demais, com uma dignidade humanizada, e com espaço para o escape e para uma familiaridade educativa e confortável. Para isto também contribuiu a excelente caracterização de personagens.

Day-Lewis continua a provar-se, de todas as vezes, um dos maiores actores do nosso tempo. Logo ele, que é tão entusiástico e intenso, teve de se ver com um papel de quem era a paz em pessoa. O discernimento, a paciência, a cultura, o vulto, o homem que nunca gritava, que tinha sempre o conselho candelar e a parábola para contar. A resposta, claro, foi brilhante. Day-Lewis é um colosso em tudo o que faz, e na pele do gigante Abe Lincoln não poderia perder tamanho. O ícone, o juízo, o riso e o entusiasmo cansado, a resiliência, o peso do mundo nas costas, e, acima de tudo, o cariz patriarcal, são tão genuínos, que quase custa a crer que Lincoln não tenha sido mesmo assim. Performance magnífica.

Num elenco absolutamente estonteante, Tommy Lee Jones está à altura do protagonista, o que diz quase tudo. É ele quem leva para casa a cena do filme, carismático, a falar grosso e a impor a força, mas profundamente comprometido com os seus ideais e com a coisa certa. Apesar de ser fã de Alan Arkin, e de ter feito uma vénia tremenda a Bardem, é ele quem deverá ganhar, com toda a justiça, o segundo Óscar de Secundário da carreira. Numa personagem com pouca empatia - Mary Todd é retratada como uma mulher deprimida, possessiva e de trato difícil -, Sally Field é fidedigna no desconforto e no baralhar emocional da acção, e merece o crédito. E fique uma nota de rodapé para o grande James Spader (Boston Legal), no seu registo gozão e mundano de sempre.

Mal apareceu no horizonte, as expectativas dispararam. A melhor coisa que se pode dizer de um peso pesado é que viveu para estar à altura delas. Lincoln chegará aos Óscares com todas as razões para crer que pode roubar a noite.

8/10

sábado, 29 de dezembro de 2012

Do facto da Premier League ser a melhor competição do sistema solar


Hoje vi seguidos o Norwich 3-4 City e o Arsenal 7-3 Newcastle. Isto de gente que jogou há três dias, e três dias antes disso, e que volta a jogar daqui a dois. Enquanto no sul da Europa quentinho o pessoal embala as malas na altura das férias da escola, vai para a terrinha ou para o Verão da América Latina, e tira uma semaninha de férias e só volta a competir a sério lá depois dos Reis, que a Taça da Liga é paneleirice, os tipos mais bem pagos do mundo, da liga mais mediática e assistida do mundo, têm de passar a Consoada a correr com a família e em gestão de esforço, que estão na fase mais exigente da época. Acham eles que faz sentido que, na altura do ano em que as famílias se juntam, em que vêm os filhos das Universidades boas e os tios do Sul e os primos da fronteira, e está toda a gente em casa, se aproveite para fazer jogos em não mais do que o limite do suportável pelas pernas, para que, naqueles dias, possam ir todos a jogo, logo depois da almoçarada em casa dos avós e imediatamente antes da jantarada nos vizinhos de sempre. E as pessoas lá aderem a esta ideia estapafúrdia, vá-se lá saber, de quem troca as férias saborosas por uma tournée em contra-relógio pelo país todo. E ainda por cima com aquele frio dos diabos. Raio de coisa.

Sinceramente, acho que se devia pagar um dízimo qualquer à Sporttv acima da quota do mês, quando estamos no campeonato de Natal. Não é decente desfrutar de tamanha coisa como se fosse o mesmo de sempre. Era justo, eu pagava. É que, reparem, não é só o facto daqueles jogadores todos se sujeitarem a 4 jogos no espaço alucinogénico de 11 dias; é jogarem com uma brutalidade tal de nível, de qualidade, de entrega, de disponibilidade, de cultura competitiva, de gosto pela bola, pelas pessoas e, acima de tudo, e sacrossantamente, por dar espectáculo, que é como se a época deles acabasse já aqui no ano novo, e não lá para os confins de Maio. Todo o planeta futebolístico devia ser obrigado a formar-se na Premier League. Uma espécie de licenciamento da UEFA, mandatório. Os miúdos, já nos infantis, deviam passar lá umas semanas. Os pais que começam a levar os filhos ao futebol, deviam ter logo x viagens pagas a Londres. A televisão estatal devia dar só jogos ingleses. E os nossos dirigentes deviam ter um tratamento estilo Laranja Mecânica, em mais doloroso, para verem que o futebol não tem de ser um espectáculo degradante de jogos sofríveis, equipas sem adeptos, estádios vazios e jogos à noite na semana. Como uma grande evangelização, umas Cruzadas do futebol.

Em Inglaterra, o jogo é cultural, e claro que isso não se pode copiar. Mais depressa voltavam a cair o Carmo e a Trindade do que tínhamos um boxing day. Também é económico. Eles são uma potência, têm poder, dinheiro, pessoas e jogadores que não tem quem quer. Mas acredito que é, acima de tudo, educação. A mentalidade educa-se, desde que existam condições para que o campo esteja tão próximo dos adeptos como deve. Num campeonato que até é impregnado de estrangeiros, o que faz a verdadeira diferença é a maneira como se escolhe estar, e a reciprocidade inacreditável que se escolhe ter para com o jogo e para com as pessoas. E isso só não aprende quem não quiser.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

2012. O dream-team


Casillas. Lahm, Pepe, Hummels, Alba. Xabi Alonso, Pirlo, Iniesta. Ronaldo, Messi, Falcão.

Suplentes: Buffon, Hart. Sérgio Ramos, Bonucci, Thiago Silva, Ivanovic. Yaya, Silva, Ozil. Ibrahimovic, Drogba, Van Persie.

Treinador: Mourinho

sábado, 22 de dezembro de 2012

O Real não está à espera da Champions, está à espera do que vier depois de Mourinho


Não é só o campeonato já estar morto, enterrado e em ossos. É toda a gente ali já ter fechado a porta e apagado a luz. Nos dias que correm, o Real só ganha um jogo se o adversário não quiser rigorosamente nada com aquilo. É um rival de sonho, uma equipa frustrada e conformada, sem agressividade, sem vontade e sem génio, que assiste passiva às dúzias de golos que sofre, e que está quase a deixar de ir jogar fora do Bernabéu, para ao menos poupar o dinheiro das viagens.

Havia quem acreditasse que o campeonato perdido em Novembro não era insustentável, porque ainda havia a Liga dos Campeões, e porque, para o madridismo, ganhar a Décima era mais do que ser campeão. Os últimos jogos, porém, deixaram tudo dolorosamente claro: num clube como o Real, deixar a época em espera durante 3 meses é uma impossibilidade. E se já é difícil manter o balneário mais difícil do mundo colado quando as coisas correm bem, a mal torna-se tudo simplesmente penoso. Vê-se na sala de imprensa, e vê-se, sobretudo, no campo, que aquele balneário, Mourinho já o perdeu. Ao contrário do Chelsea ou do Inter, ali não mora "a sua gente". Ali são poucos os que se sacrificariam por ele, porque o balneário do Real é um contrato de trabalho, sempre o foi: faz-se o melhor, porque isso é o melhor para todos, mas não se segue ninguém por lealdade ou por camaradagem. Não há química, há negócios, e se as coisas correm mal, é preciso mudar.

Não estou a demonizar nada, estou a constatar que é assim que funciona, e Mourinho, antes de todos, não estará chocado com isso. Há clubes para gratidão, para carisma ou para militância; no maior clube do mundo, no entanto, it's just business. Quando o barco perdeu o rumo, Mourinho recusou-se a ser cozido em lume brando. Foi igual a si próprio, como seria de esperar, e canalizou tudo para o tratamento de choque que, se calhar, até era a única coisa que podia ter resultado. Falhou, e ver hoje Casillas a assistir do banco a mais um descalabro, tem o peso das imagens finais.

Não havia tempo a nível desportivo, e já não há espaço a nível humano. Mourinho costuma ser a chave; quando não é, não há meio termo. A sua aventura em Madrid acabou. Acaba mal, mas o tempo fará justiça ao muito que conseguiu. Certo é que, hoje, está sozinho, e isso não é coisa contra a qual possa lutar.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ted


Excelente estreia de Seth MacFarlane em cinema (primeiro argumento e primeira realização). O urso propriamente dito é o boneco do ano, e Ted está, necessariamente, na nata do que 2012 viu em comédia.

O filme evidencia-se pela tremenda qualidade do texto do celebrado criador de Family Guy, nas piadas e nas gags, e pelas excelentes personagens. Numa noite de Natal, um miúdo desejou que o seu peluche favorito ganhasse vida, e teve um milagre à altura. Depois, cresceram juntos (um mimo a sequência de fotos com os anos a passar), e a acção ocorre nos mid 30s do protagonista, um tipo extraordinariamente divertido, mas imaturo, que se vê, nessa fase da vida, sem um trabalho que lhe dê perspectivas, a desiludir a mulher de quem gosta, e a ter, como companheiro inseparável, o peluche de infância, numa situação que lhe começa a ser impossível. A vida de John Bennett é indissociável da de Ted, e vivem juntos como melhores amigos, num registo de crianções, boys will be boys, de palavreado, luxúria e javardice, que rende grandíssimos diálogos e situações. O mundo de Ted é cheio de gozo, é carismático e inteligente, e mantém-nos entretidos a tempo inteiro.

As personagens são o outro pilar do sucesso. O peluche, mais um boneco saído do génio de MacFarlane (que lhe dá a voz), deslumbra a tempo inteiro, no seu registo ácido, grosseiro e pervertido, e diria que é a personagem animada com mais carácter que já vi em cinema. Mas também Mark Wahlberg está à altura, num papel que lhe é pouco familiar. É surpreendente a naturalidade com que está nas piadas, e com que cumpre, de forma genuína e bem disposta, o papel de bebé grande. Rende-lhe a performance mais interessante desde The Departed (2006). Giovanni Ribisi, fruto de uma caracterização de personagem deliciosa, merece igualmente a nota.

A chegada de MacFarlane ao cinema só pode ser celebrada e, para quem dita regras em televisão há 13 anos, já devia ter acontecido há bastante tempo. Aguardam-se os próximos projectos, sendo que as expectativas vão grandes para quando, a 24 de Fevereiro, for ele o host dos Óscares.

7/10