sexta-feira, 30 de agosto de 2013

The Place Beyond the Pines


Realizado por Derek Cianfrance, criador de um dos filmes absolutamente maiores de 2010 - Blue Valentine -, e protagonizado por dois dos nomes em melhor forma do cinema actual, The Place Beyond the Pines assumiu-se como uma aposta tão segura quanto entusiasmante desde a primeira hora: era um dos meus filmes mais esperados do ano. A história do motard que abraça uma carreira de crime para prover pelo filho que acabou de descobrir, e da forma como a sua vida se vai cruzar com um polícia jovem e inescrupoloso, procurou ser provocante, negra, surpreendente e, sobretudo, romântica. No fim de contas, procurou mas a verdade é que nem esteve perto de conseguir. The Place Beyond the Pines é só uma ideia bem pior do que achava de si própria, perdida nas suas considerações vagas sobre poesia e noir, e sempre mal sustentada, incompetente na narrativa e na caracterização das personagens.

A história parece, desde logo, grande demais para ser contada. Ao fim de um quarto-de-hora já foi debitada uma tonelada de coisas, e ainda nos estamos a ligar ao certo para perceber o que aquilo é. O filme nunca é capaz de sacudir essa sensação: parece estar sempre a atropelar-se a si próprio, a querer ser muito rápido e muito em grande, quando o que isso lhe vale, sem provavelmente perceber, é obliterar a coesão e a sustentação da história. The Place Beyond the Pines é um filme ambicioso, mas oco. Quer ser um grande drama, mas não é capaz de fugir à superficialidade das duas narrativas principais que, ainda por cima, são coladas a cuspo, com uma falta de criatividade gritante e uma injecção de clichés pela espinha. Pode-se dizer que o filme se divide em duas metades, e se o primeiro momento de choque é, de facto, surpreendente, o segundo "twist" é desastroso. É óbvio e completamente enjoativo, e deriva o resto do filme para uma espécie de novela mexicana de qualidade bastante discutível.

As interpretações não salvam a honra do convento. Ryan Gosling é bastante fraco, em mais um papel enervante à la Drive, como sex-symbol bad-boy que fará o que for preciso para salvaguardar a família, enquanto murmura mais do que fala. Não é um registo especialmente feliz, depois da notável strike de 2010/11 - Blue Valentine, Crazy Stupid Love, The Ides of March -, que o deixou, então, injustamente à porta dos Óscares. Bradley Cooper, ele sim, a quente de uma nomeação da Academia, pelo incrível Silver Linings Playbook, também não é capaz de brilhar, mercê de um papel relativamente mal escrito, que exagera nas suas metamorfoses e o torna confuso e artificial. A nota positiva vai para Dane DeHaan (26 anos), a melhor das performances a uma considerável distância. Carismático, afectado e assombrado, agarrou um papel que não era assim tão rico e convenceu pela intensidade, assinando, talvez, os melhores segmentos do filme.

Apesar de claramente deficitário no argumento, o trabalho de Cianfrance na realização é excelente, e é o melhor que o filme tem para oferecer. Estranha-se primeiro, borrado pela tal balbúrdia de coisas para contar, mas é indiscutível que, no fim, é um exercício de alto nível, inteligente, com timing, bom gosto e fluidez, a que lhe soma uma boa fotografia e uma óptima banda sonora. Os seus méritos continuam lá; desta vez foram só sabotados por um texto pretensioso demais para a sua pobreza.

6/10

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Before Midnight

 

18 anos. Before Midnight não é o epílogo de uma trilogia normal, mas de uma que demorou uma vida a fazer. Em 1995, Richard Linklater- realizador-argumentista -, Ethan Hawke e Julie Delpy puseram na rua um pequeno romance indie tão sedutor quando incapaz de medir o culto que viria a personificar. Acho que o grau mais alto a que um filme pode aspirar é o de entrar no imaginário colectivo. Before Sunrise foi um desses filmes perfeitos. Tão puro quanto despretensioso, foi, tal como eles, um amor à primeira vista. Europa, uma viagem de comboio e uma miúda bonita. Um assomo de coragem e uma noite, uma única noite, perdidos deliciosamente por uma cidade tão apaixonante quanto os dois. Conta-se que o aumento do turismo em Viena foi mesurável nos anos seguintes, menos, conquanto, do que o imaginário de todos os 20 anistas que tenham entrado num comboio para cruzar a Europa, nestas duas últimas décadas. Before Sunrise foi um tipo-ideal, em simbolismo, ambiente, qualidade extrema do texto e química entre os protagonistas. Teve tudo.

Em 2004, Before Sunset cumpriu o assomo de manter-se na mesma bitola. Bem menos juvenil, com mais uns quantos anos no tempo real e no tempo da história, mas, como nos melhores romances, a demorar quase nada até parecer que a última vez tinha sido ontem. Uma tarde de reencontro inimaginável em Paris, o mesmo contra-relógio e o mesmo fim aberto, e a merecida nomeação ao Óscar para Melhor Argumento. Mais uma hora e meia de um par perdido a pé por ruas fora, de excitação mal disfarçada, numa viagem para não deixar ninguém indiferente e que ninguém queria que acabasse. Deste último capítulo, não era certo o que esperar. Se uma mudança na forma, se uma mudança no tom, se, de facto, um fim, na verdadeira acepção da palavra.

Before Midnight é, realmente, um filme mais diferente do que os seus antecessores, por culpa de um contexto que é diferente e obrigatório. O momento já não é o da descoberta, da sedução e da ilusão. É o dos anos de história vivida e da vida para ser gerida. É o momento de sombra em que as traves mestras começam a ceder, e onde emergem o gasto e o embate. É um filme menos puro e mais adulto, mais difícil, que nos seduz menos, mas que se aprende a admirar o mesmo tanto. O lirismo está sempre adstrito ao seu código genético, e é mais ou menos omnipresente, mas Before Midnight não evita que ninguém se magoe. Volta a ter um texto extraordinário (Linklater, aqui em co-escrita com os protagonistas, continua a ser genial), mas, desta vez, é cru, até hostil, ao marcar distâncias, repensar necessidades pessoais e retratar desencanto, o tempo que passou e as histórias perfeitas que não existem. É o fim do espectro como ele tinha de ser, o quadro completo com todas as suas dimensões, e com a maneira como Jesse e Céline decidem reagir a elas pela última vez. Se a paixão são só as coisas boas, essa ficou nos dois primeiros capítulos. Midnight é um filme sobre o que o amor nos exige, sobre conseguir ficar ou ter de partir quando há coisas que já se perderam, um filme não tanto sobre gostar, mas sobre saber ou não continuar.

Hawke e Delpy estão no ponto em que começaram há duas décadas. O mesmo enleio, o mesmo toque, o mesmo laço, seja como for que acabe. Ele tão errante, sem jeito e certo de si como então, ela sempre sensual, pungente e afligida pela dúvida. Papéis feitos à sua medida e que eles brilhantemente elevaram ao expoente de ícones. Before Midnight não teve o desconcerto de outros tempos, como um adulto já não tem o rasgo da juventude. Exactamente da mesma forma, ofereceu uma profundidade cáustica que só agora seria possível. Ser diferente não belisca o imenso estatuto que partilha com os antecessores; é, pelo contrário, o que o reafirma como tal, porque os completa. Os Before serão a obra magna da carreira de todos os envolvidos, e uma que, em 18 anos, o foi até à última hora.

8/10

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

"We are the happy ones"


Tarde de sol, casa cheia, ilusão a jorrar da rua para as bancadas. Alegria, um entusiasmo tão genuíno quanto mal disfarçado, um quase frenesi para poder viver tudo aquilo outra vez. Dizem que não devemos voltar ao lugar onde fomos felizes. No momento mais frágil da carreira, ele voltou. E eles voltaram com ele, como se nem tivessem forma de lhe agradecer. O Chelsea ganhou dois títulos europeus nos últimos dois anos, e, mesmo assim, arrisco a dizer que nenhuma dessas finais pôs os olhos daquela gente a brilhar tanto como este último domingo de Agosto, contra o pequeno Hull. Ganhar não é tudo na vida e, no fim de contas, o que fica no coração da gente é a forma como se o faz. É provável que qualquer blue preferisse perder com Mourinho do que ganhar com Benítez ou outro qualquer, e isso diz quase tudo. Não conheço nenhum adepto que, em vez de um treinador, não preferisse ter lá um dos seus.

Ainda não tinha feito 14 anos, e aquele Chelsea já se prestava a ser uma das equipas da minha vida. Foi amor à primeira vista, a cada carga de cavalaria liderada pelo generalíssimo Frankie, com um recém-prodígio holandês e um irlandês de ruivo sério a desconcertarem nas asas, a melhor dupla de centrais que vi jogar (Nesta-Maldini a par, sendo justo) e o mais carismático de todos os avançados-centro a que o futebol europeu assistiu no novo século. Mais um soldado checo então ainda averso a capacetes, um luso de brandos costumes a fazer a lateral-direita valer os 20 milhões de vez em quando, um francês pequenino que foi sempre uma âncora imensa, um 10 inglês que chegou a jogar o suficiente para o chamarem de brasileiro e um avançado com tanto de albino quanto de trunfo, nascido quase no Pólo Norte. Um exíguo ano depois do propalado melhor campeão de sempre - os Invencíveis de Wenger - uma equipa que, na verdade, quase só tinha gente para se provar, bateu esse recorde de pontos. I'm not one of the bottle. I think I'm a special one. Nunca ninguém poderá dizer que ele não avisou. 

O resto toda a gente sabe. Num deserto árido de títulos, notoriedade e reputação, ele esculpiu à mão um gigante europeu. Bicampeão na relva onde toda a gente sonha ganhar, mais um saco de taças e outras duas meias-finais continentais que ficarão para sempre a ser devidas à eternidade. Um projecto futebolístico temível e inesquecível, glorificado por uma legião de fiéis que o venerou como um herói em todas as horas. Uma explosão simbiótica de futebol, militância e carisma incapaz de deixar alguém indiferente. O jogo muito maior do que um jogo, no patamar onde só moram os que já não podem morrer. Reza a lenda que, no dia em que se despediu, Drogba chorou no balneário como uma criança. Lampard descreveu o momento em que o viu sair pela última vez como o mais emocional de toda a carreira. O povo, esse, dedicou-se a fazer-lhe o luto nos longos anos seguintes e a velar, sem pudor, e contra quase todos, pelo seu regresso sebastiânico.

Passaram 10 anos desde o primeiro dia. No campo, porém, foi como se nunca tivesse acabado. Foi isso que se viu no orgulho insuperável a encher a cara de todos os que o receberam de pé. Welcome home, Jose. We are the happy ones. Ele, mais velho, mais batido, mal pôde segurar a emoção nos olhos. Uma, duas, três vezes a ter de levantar-se e a agradecer, ele que não estará sempre no Chelsea, mas àquela gente que, como o provou uma vez mais, estará sempre lá para ele. O jogo rendeu vitória, claro. E o melhor foi Lampard, só porque era mesmo dia para as coisas que nunca mudam.

Até onde irá este Chelsea, não se prevê. Certo é que, em consciência, já tenho o meu campeão. Há viagens no tempo que ninguém pode recusar fazer, e os heróis são para sempre.


domingo, 28 de julho de 2013

O saque já começou


"Como o Bayern não há igual, que tem o equivalente a uma bazuca, mas nós temos um arco e flechas e, se apontarmos bem, podemos ser como o Robin dos Bosques e podemos fazer estragos"
Klopp, a lançar a época

Dia 1 da Bundesliga como miúda mais gira da escola. O ano passado já era que chegue, tal foi a instituição futebolística, mas a chegada de Guardiola e a manutenção de Klopp escreveram a negrito a equação de quanto toda a gente a vai querer ver. Na Alemanha passa a morar a equipa mais suprema do mundo em estatuto, a equipa que já tinha tudo e que já tinha ganho tudo, e que, à laia da sua plenipotência, foi buscar a única peça que faltava ao seu modelo perfeito, o treinador-filósofo mais codiciado do sistema-solar. Uma sinfonia idílica e prestada a ser uníssona, não fosse vizinha do projecto futebolístico mais sedutor dos dois hemisférios. O Bayern é viciante por ser uma alucinação de poder, o Borussia é irresistível por ser a provocação das possibilidades. O Bayern é majestoso porque é perfeito, o Borussia é apaixonante exactamente por não o ser.

Ao leme, dois homens tão diferentes quanto os seus clubes e o seu contexto. Guardiola criado na nata do futebol universal, nascido num berço de ouro para ser rei. No coração de um gigante, assinou a melhor equipa da História, para ancorar, agora, em novo Golias. Em Pep, tudo é pesado religiosamente para ser perfeito, cada palavra, cada acto, cada gesto. É difícil imaginá-lo a arriscar seja o que for, a não estar salvaguardado, a não ser, por um segundo, unânime. É um diagrama vivo do politicamente correcto, o tipo-ideal que parece sempre flutuar ligeiramente acima dos mortais. Klopp, pelo contrário, não poderia ser mais mundano. É um louco, um incendiário, um provocador. Brutalmente intenso e carismático, pratica tudo menos a celestialidade da aparência. Como ele próprio o diz, cresceu numa pequena vila da Floresta Negra, onde nem ele nem os seus jamais ousaram augurar que ele cá pudesse chegar. Fez carreira longe da ribalta e não deveria ter sido mais do que o treinador bem-disposto do seu Mainz, na segunda divisão. Não foi cultivado na alta roda e não faz para que alta roda se cultive nele. Se fossem livros, Guardiola era bibliografia obrigatória, mas Klopp é que nos contagiaria desde a primeira página. Um é o homem-modelo, mas o outro é a inspiração.

O Bayern foi campeão com 25 pontos à maior, e ainda ganhou a Champions e a Taça na relva. Foi tudo o que poderia ter sido... e acrescentou a isso o treinador mais simbólico do planeta. No primeiro round, porém, com o mundo a deitar-se a ver o zénite do seu plano, o Borussia abriu as hostilidades com uma chapa 4 e uma chuva de olés a pontear. No fim, é provável que volte a valer a lei do mais forte. Até lá, uma coisa é certa: se Guardiola saiu de Espanha porque estava farto de sujar as mãos, não foi exactamente para o sítio certo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A humanidade dos super-homens


O dia em que fraquejou pela primeira vez é, possivelmente, o ideal para falar do melhor ciclista da actualidade e daquele que será o vencedor do Tour, a menos que aconteça um cataclismo bíblico qualquer. Chris Froome tem sido uma assombração. Com mais ou menos nuvens sobre o ciclismo, que, nos dias que correm, é como uma paixão que está farta de nos trair, mas à qual continuamos a dar oportunidades, o americano tem lembrado os bons velhos momentos. Depois de, no ano passado, ter ido a França nos espartilhos da disciplina de equipa, embrulhar a vitória de Bradley Wiggins, este ano não há verdadeiramente nada que o segure. Nem o défice de açúcar com que ia caindo hoje, nem a penalização de 20 segundos... ele que, mesmo assim, ainda ganhou mais de um minuto a quem vem atrás. Já venceu 3 etapas, Mont Ventoux e um contra-relógio incluídos!, e é seguro dizer que, mesmo que um ano atrasado, os Campos Elísios estão destinados a serem seus.

Froome ou, em onomatopeia, Froom-Froom-Frooooom, qual mota, tem deslumbrado de todas as vezes. Com a equipa ou sozinho, a escalar ou no cronómetro, os seus sprints curtos, quais séries de atletismo, a agressividade e a disponibilidade, têm subvertido todos os adversários. Responde a ataques a 100km da meta ou ataca ele próprio a 1000 metros do fim, tão brilhante quanto obstinado com a sua vitória prometida. Tudo isto, e, para mim, o seu momento mais marcante terá sido gripar hoje no Alpe D'Huez, na maior de todas. Froome, o plenipotenciário, não teve, por uma vez, estofo para ir atrás dos outros. Zonzeou, teve de tirar o pé, pediu ajuda e foi penalizado. Fraquejou, por fim. Naqueles minutos, foi só um de nós, mais, podia ter sido batido por qualquer um de nós. Cada um acredita no que quiser, mas sabe estranhamente bem ver provas de humanidade. O ciclismo já não se permite a super-heróis; que o melhor de todos sofra à nossa frente, é exactamente a sua prova como tal.

Porque é bestial até nos dias maus, porém, a etapa acidentada de hoje foi-lhe suficiente para dar o golpe de misericórdia em Contador e fechar de vez este Tour. Ainda faltam duas etapas terroristas nos Alpes, mas é tudo pesado demais para inversões. El Pistolero não tem as pernas. Falhou em todos os confrontos directos e, por cada ataque para recuperar o tempo que lhe fugia das mãos como areia, ficou a dever mais um e outro minuto. Na verdade, a sua própria prata está agora abertamente em jogo, ou a consequência da etapa-rainha não tivesse sido deixar o 2º e o 5º classificados separados por exíguos 47 segundos. É aí que reside o coração do que falta, com Contador a ter de defender-se de Quintana, Kreuziger e Rodriguez.

Do quarteto a lutar por dois lugares ao sol, o mais contagiante tem sido, sem sombra para dúvidas, um pequenito colombiano de 23 anos, que, aos 9, já fazia 15km de bicicleta para poder ir à escola, numa vila pobre do interior da Colômbia: em ano de estreia no Tour, Nairo Quintana tem sido sensacional. Como virtual número 3 da equipa, atrás de Rui Costa, e destinado a trabalhar para o líder Alejandro Valverde, Quintana sorveu os holofotes quando, na etapa 13 dos Pirinéus, Valverde furou, e o resto da Movistar ruiu à sua espera. Quintana foi o único a ficar na frente, de bastião - 1.66m e 57kg eram insuficientes para ajudar -, e isso acabou por convertê-lo a #1 da equipa. Desde aí, não tem feito por menos, e dedicou-se a ratificar o estatuto de único capaz de trepar qualquer montanha com o monstro Froome. Foi segundo para ele em duas etapas, bateu-o hoje e, nisto, chegou ao pódio que tão bem merece. É uma força da natureza, tem uma resiliência a toda a prova e é um daqueles ciclistas com história na cara, empático, um natural. Passará, garantidamente, como o mais acarinhado da edição 100 da Volta.

Froome já tem mão e meia na Amarela, mas o resto do pódio é uma história mais espectacular do que em muitos anos, e os Alpes prometem que não vão embora sem a contar como deve ser.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Os vencidos da vida


Disse Churchill uma vez que a Democracia é a pior forma de governo, à parte de todas as outras que já foram experimentadas. A Democracia não é boa, é, na verdade, menos má. Nesta semana, isso ter-nos-á passado pela cabeça a todos, de uma forma ou de outra. Como é que foi possível? Como é que está a ser possível? O país desbunda-se pela falésia, mas os nossos representantes eleitos vieram lembrar-nos do essencial: o barco afunda, mas eles não se podem afundar com o barco. Se o custo disso é um país, pois que seja. Nós é que perdemos, os últimos dois anos e a próxima década. Paciência. Ao menos o primeiro-ministro pode dizer que não abandonou o país. O parceiro de coligação pode lembrar que foi o bastião da coisa certa. O líder da oposição pode argumentar que não tem condições para trabalhar com a raiz de todos os males. E o presidente da república pode enunciar como é melhor do que eles todos e como tem, por isso, a altivez de não se envolver. O país é um incêndio que, por eles, podia arder para sempre. Eles estão lá para fazerem tudo o que podem, para serem melhores do que os outros e para não terem culpa. Jamais para se queimar.

A casa dos horrores dos últimos dias é um exemplo espectacular do nosso falhanço enquanto nação. Estar na pior crise do século com toda esta gloriosa pequenez, com esta podridão de espírito, diz tudo o que há para dizer sobre nós. Passos, Portas, Seguro, Cavaco, estão todos na máquina, com mais ou menos poder, há décadas. Foram sempre os mesmos, as carreiras paridas nos intestinos do sistema, para acabarem onde quiserem acabar, sem propósito, sem uma única boa razão de ser. Em sítio nenhum do mundo a política fez-se só de estadistas. O problema é nós não termos nenhum, há tanto, tanto tempo. Ninguém com a grandeza humilde de um sentido patriótico, nenhum exemplo, ninguém para admirar. Nenhuma inspiração. A política portuguesa é isto. É uma selva, uma lei do mais forte, orientada única e exclusivamente para a preservação pessoal. Nos nossos altos cargos, não há ninguém que lá esteja para servir a causa pública em vez de servir-se dela, ninguém disposto a perder qualquer coisa, ninguém que queira genuinamente fazer algo pelo país, à parte da sua auto-sobrevivência tão prosaicamente lusitana.

Isto não é um tratado sobre os políticos-bandidos, é muito maior do que isso. É um texto sobre pobreza de espírito, sobre vazio cívico, sobre a nossa derrota enquanto sociedade. Nós somos os mesmos vencidos da vida que éramos há 100 anos com o Eça. Nós desistimos do país, muito antes dele desistir de nós. Não falamos, não expomos as nossas ideias e não nos comprometemos, porque isso dá maçada e não interessa, isso é coisa para os outros fazerem por nós. O Estado é o inimigo externo e a política é para ficar às víboras, o que queremos é o conforto dissimulado do nosso canto. Se chegamos à maior crise económica do século, presenciamos esta tragédia pública e tudo o que temos para dar é um par de piadas e uma chateação balofa no facebook, se não nos indignamos, se não reflectimos alto, se não queremos saber, se não temos nada a acrescentar, não merecemos isto. Merecemos muito pior.

Se presenciamos uma aberração como a desta semana, e formos acefalamente preencher os boletins nas próximas eleições com cruzes no Passos, no Seguro e no Portas, então merecemos horror. Eles não são maus políticos, são os políticos que fizemos acontecer. São os políticos suficientes para o mau que nós fomos. Isto é o fundo. Se ainda não é desta que queremos saber, alguém que tenha misericórdia de nós, porque, depois do respeito próprio, já sobra muito pouco. Da próxima, eu não quero ter de votar em jotinhas parasitas a servirem de ex e actual primeiro-ministro. Eu não quero escolher um mercenário que há de vir bradar-se defensor dos pobres e dos desfavorecidos. Eu não quero considerar pseudo-esquerdistas que nunca vão ser solução para nada. Eu não quero ter de ver a figura esfíngica e escarrável do Cavaco a orar sobre a sua superioridade moral, enquanto padecemos todos à volta dele. Eu quero que as pessoas reais se cheguem à frente. As pessoas que já deram mais à sociedade do que se alimentaram dela, gente com seriedade, ideias e, sobretudo, com boa-vontade. Pessoas a sério, que não tenham nada a ganhar e que já estejam fartas de perder, pessoas que tenham a hombridade e a coragem de admitir que têm alguma coisa para dar, e que chegou a hora de o fazerem. Porque amanhã já vai ser tarde demais.

É impensável que o PSD macumbe uma alternativa ao Passos nos seus cozinhados gordurosos, que o PS se reúna à volta do vácuo existencial que é o Seguro ou que o CDS faça culto do líder, porque já ninguém, em perfeita consciência, pode tolerar o business as usual. Hoje perdemos 2,6 mil milhões de euros só porque estas aberrações andavam a brincar à política. Se ainda tivermos vergonha na cara, acabou. Da próxima, eu quero uma não-campanha, longe dos tumores e dos favores de sempre. Quero os poucos que valem a pena dos partidos e quero os independentes. Quero gente que acredite nalguma coisa e quero-me poder inspirar. À sua própria maneira, estes são tempos de opressão, de um sistema podre e de um modelo esgotado. Como numa velha rádio-pirata, esta é, pois, uma missiva para os bons que estão por aí: cheguem-se à frente. O país precisa de vós. A escumalha de sempre está-nos a levar a melhor, mas ainda podemos. Cheguem-se à frente, porque ainda há de nós dispostos a fazer parte de qualquer coisa.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mundial U20: O triste fado


Portugal - Gana, 2-3

Quem perde como Portugal perdeu hoje, dificilmente não o mereceria. Uma tão promissora geração de jogadores sucumbiu a não mais do que à própria fatalidade que tem nos genes e ao risco estúpido em que nunca soube deixar de viver, fruto de uma impreparação tão grotesca, que só lhe podia mesmo ter ceifado todas as esperanças. Esta selecção de sub20 é uma das piores equipas que alguma vez vi defender. Não é uma questão de agressividade, nem sequer de talento que, admito, possa não abundar no sector; o cancro foi a total falta da noção mais primária do que é defender em conjunto, fazer pressing, ocupar espaços ou compensar. O melhor ataque do Mundial conseguiu perder 5 vantagens e encaixar 7 golos, sem ter chegado a defrontar nenhum grande. Tacticamente, o trabalho de Edgar Borges não foi pobre; foi muito pior do que amador. Felizmente, há de continuar glorificado nos quadros de luxo da Federação.

Hoje até não houve felicidade no 0-1 inaugural, ficando Portugal pela primeira vez em desvantagem na competição, mas custava a crer que o Gana, que chegou aos oitavos com duas derrotas em três jogos, fosse mesmo um adversário que chegue. E nunca foi, verdadeiramente. Antes do primeiro minuto, Bruma já tinha oferecido dois golos de baliza aberta a Aladje (aquela aos 12 segundos vai persegui-lo até ao fim da vida). Estava todo um salão de festas decorado e, no entanto, um balde de água fria foi quanto bastou para uma hipotermia colectiva. A equipa afogou-se na sua imaturidade, adensada pela horrível falta de mentalidade competitiva, e estilaçou-se numa crise existencial. Sem Bruma e sem ninguém, Portugal passou a hora seguinte a quase não jogar. Iríamos embora assim, incapazes de dobrar uma contrariedade, mortificados pelo nosso estúpido fado... até que, do céu, uma equipa que se fartou de brilhar com a bola corrida, viu chegarem dois golos de canto em dois minutos, e voltou a ter, com essa aparição, a própria sorte nas mãos. Hoje não merecíamos, mas a estrelinha apareceu a dizer que, pelo talento, desta passava. Puro engano: é que nem da sorte soubemos estar à altura.

O Gana, que enquanto deu, só fez um jogo de tranca atrás e raides bacocos, lá teve, então, de ir ver o que se passava à frente. Foi assim que, pouco depois, em plena pequena-área, no meio de 3 defesas portugueses, um avançado conseguiu receber, rodar, rematar... e deixar recarga para outro. Como não era mau que chegasse, nuns 10 minutos finais brilhantes, o golpe de misericórdia veio num livre lateral... que passou a meio da barreira. Muito mais do que descomprometidos com a equipa, o que aqueles jogadores nunca tiveram foi noção do que fazer. O que nunca tiveram foi um treinador digno desse nome, que não os pusesse em campo com a bagagem táctica e o nervo competitivo de um jogo de solteiros contra casados. A imaturidade e a falta de qualidade podem explicar algumas coisas, mas não explicam a eliminação. Este Portugal era uma das 4 melhores selecções do Mundial. Bruma, agora uma vaga lembrança para a História do torneio, era o seu melhor jogador. Fomos eliminados porque quem não tem um líder, não tem nada.

EQUIPA - Na despedida, o reconhecimento à atitude de André Gomes. Não sou fã das suas qualidades futebolísticas, e já o tinha criticado duramente neste Mundial, mas o médio do Benfica foi um adulto entre miúdos abandonados. Foi intenso e constante, chegou-se sempre à frente e arrastou a equipa. Nunca será um médio enorme, mas tem carácter, e isso há de lhe contar para muitas coisas.

Depois da glória no jogo de estreia, José Sá, guarda-redes do Marítimo, voltou a ser um bastião. Fez, pelo menos, duas enormes defesas, uma das quais na jogada surreal do 2-2. Foi uma referência da equipa para todas as horas, e não merecia que a sua última imagem tivesse sido aquele livre a passar a meio de uma barreira.

O maior crime de todos é que Bruma tenha de ficar por aqui. Por uma vez não foi o extraterrestre que uma equipa tão suicida como a portuguesa precisava, e pagou ingratamente por essa anormalidade. Mesmo em ocaso, podia ter decidido o jogo: aos 12 segundos!, já tinha passado por toda a gente e metido a bola no pé de Aladje, a um metro de uma baliza deserta. Melhor é que, ainda antes do primeiro minuto, voltou a fazer uma igual. Consumido no jogo mau da equipa, apareceu para um tiraço ao poste, já depois do 2-1, que teria garantido os quartos-de-final que ele tanto merecia. Por um défice alheio à qualidade desta geração de jogadores, o que Portugal perdeu foi uma oportunidade histórica.