"I have no choice but to direct my energies toward the acquisiton of fame and fortune. Frankly, I have no taste for either poverty or honest labor, so writing is the only recourse left for me." Hunter S. Thompson
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
"As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem"
É manchete no Diário de Notícias de hoje e anuncia que se fará História: o PSD não só se prepara para perder, pela primeira vez, a maioria na Câmara do Funchal como, a duas semanas do dia D, ainda não trancou a vitória, pela qual, desta vez, terá de lutar até à 25ª hora. A principal razão? Paulo Cafôfo, o candidato que, no pior dos casos, fará o melhor resultado de sempre de uma segunda força política na capital. A sua candidatura é particular: não veicula de um partido, mas de seis, incluindo o PS e o Bloco de Esquerda, e, mesmo assim, 90% dos seus vereadores, a contar com ele próprio, não têm qualquer passado ou filiação partidária. A "Mudança", como se auto-intitula, é uma candidatura branca, emanada da sociedade civil, com os partidos signatários a emprestarem estrutura à disponibilidade dos cidadãos comuns, mas a reconhecerem, eles próprios, que a hora é desses se chegarem à frente. Neste momento da Madeira, a marca que poderá vir a deixar é indizível.
No célebre "O Leopardo", o Príncipe de Lampedusa escreveu que "é preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar igual." Ao fim de 20 anos de reinado de Miguel Albuquerque, o PSD insinua essa mesma fantasia de que, no fundo, se vai auto-injectar de vitalidade. O seu candidato, porém, não pode enganar nem os mais distraídos. Bruno Pereira foi vice de Albuquerque durante anos... e é filho do seu antecessor. Não tenho nada de pessoal contra ele, mas ele personifica tudo o que há de mau na política madeirense. Bruno Pereira já nasceu político e, antes de saber escrever, já tinha reservado a cadeira do pai. É uma fusão de nepotismo e do jotismo, um exemplo acabado da profética eternização do regime jardinista - ele que, como se não bastasse, nem hesitou em virar costas ao seu presidente, para poder estar alinhado de corpo e alma com o chefe. Bruno Pereira até pode não ser a pior coisa da máquina; votar nele, contudo, é perpetuar uma aberração de sistema que, vai para 40 anos, monopoliza a democracia para abocanhar tudo o que tem à sua volta. Um sistema febril e tentacular que já perdeu toda a noção do que o rodeia, e cujo fim se tornou numa questão de sanidade.
Mas quem é Paulo Cafôfo, afinal, senão o tipo inexperiente, que não anda mais do que atrás da própria sorte? As pessoas olham e talvez não se sintam seguras. Pode faltar o saber fazer, pode faltar o domínio dos meandros, pode-se irritar a ordem das coisas. Pode ser perigoso, para quê arriscar? Certo é que, por definição, a mudança é tão desconfortável quanto necessária. Hoje, na Madeira, é muito mais do que isso: é oxigénio. As pessoas talvez olhem para Cafôfo e vejam o que ele não tem. Eu acho que deviam ver o que ele representa. Cafôfo não é só o homem respeitável, bom falante, de boa presença. Não é, como lhe chama certamente a camorra, mais um vendedor de banha de cobra. É um homem com ideias e vontade de fazer, rodeado de gente que se anda a fartar de trabalhar para poder estar à altura. Ganhará a pulso e, por isso, nunca será acomodado, nunca relativizará a responsabilidade. É um voto pessoal, um voto de confiança. É, no fim do dia, um voto num de nós. Não no político que é filho de político e que já nasceu político, mas no tipo normal, que se importou o suficiente para vir sujar as mãos num meio hostil e feudal, porque só assim é que se pode mudar alguma coisa. "A política é feita por aqueles que dão a cara", como diria um velho episódio do inesquecível West Wing. Cafôfo deu e está a provar que, na Madeira, também há lugar para quem acha que ser político é um dever cívico e não uma profissão em si mesma.
Há um par de meses escrevi este texto. "Eu quero que as pessoas reais se cheguem à frente. As pessoas que já deram mais à sociedade do que se alimentaram dela, gente com seriedade, ideias e, sobretudo, com boa-vontade. Pessoas a sério, que não tenham nada a ganhar e que já estejam fartas de perder, pessoas que tenham a hombridade e a coragem de admitir que têm alguma coisa para dar, e que chegou a hora de o fazerem. Porque amanhã já vai ser tarde demais." Não sabia, então, que o poderia experenciar, em breve, às portas de casa, muito menos que a minha própria mãe faria parte disso. Digo-o sem pejo nenhum: tenho um orgulho tremendo que ela lá esteja. Porque é exactamente aí que devem estar pessoas com o carisma e a competência dela, e porque o faz ao lado de quem criou uma oportunidade única de fazer História e de mudar de História na Madeira, coisa que todos deviam ter consciência do que significa.
A "Mudança" é isso. São pessoas capazes do dia-a-dia, reconhecidas e respeitadas nos seus respectivos meios, que não têm um histórico de trela às velhas torneiras e que acharam que, de uma vez por todas, precisamos de mais do que a alucinação laranja. O Império amolece todos os dias e os madeirenses começam a viver essa curiosidade. Ainda a medo, mas a crerem que sim, que há futuro numa Era em que não tenham de viver num bafo de medo totalitário e complexados pelos abusos que toleram na sua própria casa. Como soaria uma canção de Leonard Cohen, primeiro levamos o Funchal, depois levamos a Madeira. É hora dos funchalenses darem o exemplo, antes de ser a vez da ilha recuperar o orgulho.
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sábado, 7 de setembro de 2013
Star Trek Into Darkness
Bom blockbuster, apesar de dar a sensação de que podia ter chegado ainda mais longe.
4 anos depois do excelente regresso da saga ao grande público, os principais méritos continuam lá, mesmo que Into Darkness não tenha o brilho de renascimento do antecessor. J.J. Abrams voltou a dar conta do recado, com uma realização extremamente intensa, que, mesmo adstrita à natural parafernália de efeitos especiais, nunca é vulgar, e consegue agarrar o espectador durante as mais de 2h de curso. Star Trek é um filme de entretenimento puro e é importante sublinhar que, a nível visual, tem bom gosto e é quase sempre irrepreensível; fartos são os exemplos em que os efeitos comprometeram o resto. J.J. Abrams reforçou que, com ele, isso não é problema, e confirmou uma carreira atrás das câmaras cada vez mais sólida.
O cast também continua a dar conta do recado. Chris Pine é o tipo de protagonista tão estilizado que dificilmente pode inovar no papel, mas, seja porque razão for, este assenta-lhe bastante. Continua a ser o pretty boy rebelde tão caro a Hollywood, mas tem carácter e química como Capitão Kirk, e é uma mais-valia indiscutível. Zachary Quinto, como Spock, é menos convincente e, no resto da tripulação da Enterprise, é verdade que falta algum peso e sobeja um certo non-sense, mas, como colectivo, acho que corre bem. A ter visto muito pouco da saga original, quer-me parecer que a recriação de J.J. Abrams capta exactamente o espírito com que esta foi concebida. O joker, por fim, não podia ter sido melhor escolhido: Benedict Cumberbatch (Khan) é, claramente, o actor de outro campeonato, poderosíssimo sempre que entra em cena, e rende, por si próprio, muitos pontos ao filme.
Into Darkness não está noutro patamar porque, se boa parte de si sabe lidar com o carácter comercial, já o argumento sofre com ele. Desde logo, porque consegue ser terrivelmente abrupto. Em vez de investir num par de pontos-chave e construir-se à volta deles, tem um excesso de episódios significativos, o que os banaliza, e trata-os sempre muito rápido, aniquilando-lhes a importância, porque o espectador não tem tempo de os assimilar. Admito que, entretanto, oferece nuances interessantes, mas é incontornável que escasseia densidade à história - outra moralidade/sacrifício -, investindo esta em fórmulas que já todos vimos muitas vezes (a do herói que quebra as regras é abusiva), e não sendo, no fim de contas, alguma vez capaz de surpreender. Esta padece, igualmente, do hábito de ameaçar sem cumprir, o que acaba por ceifar boa parte da emotividade das cenas mais exigentes (pena pela carismática narrativa com Bruce Greenwood, de mentor/pupilo, não ter sido capitalizada de outra maneira).
Quando teve de decidir, Into Darkness optou por ser mais rápido e menos cirúrgico, mais leve e menos difícil. Ficou-se pelo bom entretenimento, em prejuízo de uma experiência maior.
7/10
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Um erro histórico
"Ozil é único. Não há uma cópia dele, nem sequer uma má. Tornava as coisas fáceis para mim e para os colegas. Todos o deviam querer. É o melhor número 10 do Mundo."
Mourinho
O Real saiu de um ano pesado e precisava de expiação. Precisava de destruir para construir, e precisava, em suma, de mais uma aquisição intergaláctica que voltasse a baralhar a ilusão das pessoas. Nos anos de Mourinho, caro foi um defesa-esquerdo de 30 milhões. Não é sexy, e o Real precisa desesperadamente de o ser, todos os dias. Tem no seu código genético ser essa fábrica de sonhos, ser a catarse com que as pessoas fantasiam. Não correu tudo bem no Mourinhismo, longe disso, mas, nos últimos 3 anos, e para variar, o futebol foi mesmo a principal razão em Madrid. Menos circo, mais resultados. Em Chamartín, contudo, não se sabe viver assim. Acho que Ozil é o melhor resumo dessa Era. Chegou a Madrid como não mais do que um talento para polir, à semelhança de tantos outros. Hoje, dificilmente haverá alguém a rebater que não é ele o melhor 10 do mundo. Mesmo assim, saiu pela porta dos fundos, porque uma coisa é certa: o mago de Oz nunca poderia ser uma pop-star. E, como à mulher de César, ao Real não basta ser, é preciso parecer.
Achar que Ozil é um jogador muito talentoso é um erro de palmatória. Não é. Mesut é infinitamente melhor do que isso. É um predestinado. É uma perda incomensurável não pelo que fazia efectivamente - e se calhar as pessoas não têm noção de como era extraordinária a sua produção -, mas pelo que podia vir a fazer em qualquer momento. Pela fusão brutalizante entre qualidade, inteligência e rendimento. Nestes três anos, terão sido incontáveis os jogos que resolveu por ser tão melhor do que os outros. Não a marcar os 60 golos, mas a inventar 120 caminhos impossíveis para lá chegar. Não pelas dezenas de assistências que deu, mas pelas centenas que possibilitou. Ozil é o tipo de jogador insubstituível, não porque não haja outros muitos bons, mas porque, quando se ganha a lotaria, não se deita o bilhete fora para começar a jogar outra vez. É que, não é mal lembrar, sem um Ozil a meio, nem sempre há um Bale no fim. Ter Ozil em campo era como levar para dentro um feiticeiro e uma bola de cristal. A classe pachorrenta com que carregava a bola, o génio com que a dava, a ver muito antes e muito melhor do que quase todos, e a estapafúrdia qualidade técnica fizeram-me lembrar tantas vezes o maior que vi jogar, o mágico francês da camisola 5, que, um dia, também morou naquele miolo. Alguém que tenha visto Ozil vestir a merengue uma única vez e que o ache dispensável, não sabe nada de futebol.
O problema de Ozil, como já disse, foi só jogar a bola. No Madrid, mesmo quem o faz tão gloriosamente bem, não chega. O problema de Ozil é ter sido um galáctico que só custou 15 milhões. É ser o Nemo em vez de um Armani. É resolver os jogos todos sem ter de aparecer na ficha. Como o Mourinhismo, o problema de Ozil foi não ser sexy. E, por isso, não ter nada a ver com o Real. Mesut é um futebolista de outra casta e de outro tempo ou, senão, definitivamente para outro clube.
O Real achou razoável abdicar do seu rendimento incrível, porque as pessoas precisavam de novo pão e de novo circo. É assim que provavelmente perderá o próximo campeonato, com super-jogadores de dezenas de golos a atropelarem-se em campo, no expoente da única anormalidade competitiva em que o clube parece ser feliz. Já Ozil, depois de 3 anos aos holofotes do mundo, parte agora para um sítio onde nem pelo título poderá lutar. Uma coisa é certa, porém: o Real sentirá mais falta dele, do que ele do Real. E se o jogo nem sempre é grato ao talento, as pessoas são. O Arsenal de Wenger tem muitos defeitos, mas nenhum deles é ter alguma vez deixado de ser um santuário de bom futebol. Há coisas mais importantes do que ganhar ou perder, e Londres é um bom lugar para se ser feliz.
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Comedy Central Roast of James Franco
A celebração já a consagrei cá: roasts são sinónim para melhor humor do mundo. No último ano, foram amor à primeira vista e tornaram-se num vício absoluto, ao ponto de que agora, finalmente na antecâmara à espera do seguinte, a expectativa seguisse grande. À moda de um por ano com que os realiza, a Comedy Central acabou justamente o Verão com o seu evento mais simbólico, e era inevitável mal poder esperar para ir consumir, com o roasted a ser possivelmente a maior celebridade até hoje (e em melhor momento da carreira), e um dos meninos bonitos de Hollywood, James Franco.
Foi um roast bom, que não deixou de "valer o bilhete", mas do qual é justo dizer, no fim de contas, que não foi genial. Foi ofensivo, mas sempre nas malhas invisíveis do politicamente correcto, à parte da brutalidade e do choque de outros anos. As piadas de "mau gosto", assumidamente hostis sobre eventos e temas fracturantes, ficaram à porta, e, apesar de todos os roasters terem passado por maus tratos, nenhum teve de lidar com verdadeira controvérsia. A isso não será estranho um painel que, ao contrário da composição mundana de outros anos, incluiu, desta vez, gente envolvida activamente no mercado cinematográfico, ao ponto de tocar as nomeações da Academia.
Seth Rogen foi um Roast Master fraquíssimo, completamente obliterado se lembrarmos as recentes performances de glória de Seth MacFarlane (2010-2011). Esteve pouco à vontade, sempre mais ou menos envergonhado e sem nunca ter capacidade de encaixe para lidar com o que tinha de ouvir. Adam Samberg (The Lonely Island), num devaneio pseudo-subversivo, foi o pior de todos os roasters, e Bill Hader (ex-Saturday Night Live) assumiu um dos seus personagens, coisa que nunca acho que funcione verdadeiramente.
Jonah Hill pediu desculpa em todas as que disse, mas teve um grande texto e ainda demonstrou, depois, um fairplay e uma boa disposição extraordinárias, exactamente o tipo de ambiente que se quer para estas coisas. O melhor, desta vez quase sem concorrência, foi o deus, o Roast Master honorário, Jeff Ross, um mito vivo dos roasts e o derradeiro guardião do tesouro que é o conceito. Sarah Silverman, outra reincidente e outra senhora deste humor, seguiu-lhe as pisadas de qualidade, com Natasha Leggero (actriz e stand-uper) a ser uma bela surpresa, e a completar o leque de melhores da noite. James Franco, que só foi verdadeiramente passado a ferro por Ross, também não foi capaz de mascarar a sua falta de intensidade e carisma, e despediu-se com um rebate pobre, muito longe do poder, por exemplo, do grande Charlie Sheen, há dois anos.
Insisto que não foi um roast sensaborão, porque o conceito tem vida própria, e quase todas as subidas ao palco tiveram algum tipo de sumo, mas faltou claramente o alcance do velho humor de insulto, e figuras do génio de Lisa Lampanelli, Nick DiPaolo, Anthony Jeselnik, Whitney Cummings ou Amy Schumer, gente da casta do já falecido Greg Giraldo, sem qualquer pudor e aversos a qualquer auto-censura, e que elevaram, ao longo destes anos, os roasts da Comedy Central ao nível das lendas. Da próxima, que se mantenham as coisas boas - trazer gente que esteja na mó de cima, por exemplo -, mas que se voltem às assassinas e irresistíveis origens, e ao que de mais puro os roasts sempre tiveram para oferecer.
Os meus melhores de sempre:
Charlie Sheen, 2011
Donald Trump, 2011
Pamela Anderson, 2005
David Hasselhoff, 2010
Larry the Cable Guy, 2009
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
The Place Beyond the Pines
Realizado por Derek Cianfrance, criador de um dos filmes absolutamente maiores de 2010 - Blue Valentine -, e protagonizado por dois dos nomes em melhor forma do cinema actual, The Place Beyond the Pines assumiu-se como uma aposta tão segura quanto entusiasmante desde a primeira hora: era um dos meus filmes mais esperados do ano. A história do motard que abraça uma carreira de crime para prover pelo filho que acabou de descobrir, e da forma como a sua vida se vai cruzar com um polícia jovem e inescrupoloso, procurou ser provocante, negra, surpreendente e, sobretudo, romântica. No fim de contas, procurou mas a verdade é que nem esteve perto de conseguir. The Place Beyond the Pines é só uma ideia bem pior do que achava de si própria, perdida nas suas considerações vagas sobre poesia e noir, e sempre mal sustentada, incompetente na narrativa e na caracterização das personagens.
A história parece, desde logo, grande demais para ser contada. Ao fim de um quarto-de-hora já foi debitada uma tonelada de coisas, e ainda nos estamos a ligar ao certo para perceber o que aquilo é. O filme nunca é capaz de sacudir essa sensação: parece estar sempre a atropelar-se a si próprio, a querer ser muito rápido e muito em grande, quando o que isso lhe vale, sem provavelmente perceber, é obliterar a coesão e a sustentação da história. The Place Beyond the Pines é um filme ambicioso, mas oco. Quer ser um grande drama, mas não é capaz de fugir à superficialidade das duas narrativas principais que, ainda por cima, são coladas a cuspo, com uma falta de criatividade gritante e uma injecção de clichés pela espinha. Pode-se dizer que o filme se divide em duas metades, e se o primeiro momento de choque é, de facto, surpreendente, o segundo "twist" é desastroso. É óbvio e completamente enjoativo, e deriva o resto do filme para uma espécie de novela mexicana de qualidade bastante discutível.
As interpretações não salvam a honra do convento. Ryan Gosling é bastante fraco, em mais um papel enervante à la Drive, como sex-symbol bad-boy que fará o que for preciso para salvaguardar a família, enquanto murmura mais do que fala. Não é um registo especialmente feliz, depois da notável strike de 2010/11 - Blue Valentine, Crazy Stupid Love, The Ides of March -, que o deixou, então, injustamente à porta dos Óscares. Bradley Cooper, ele sim, a quente de uma nomeação da Academia, pelo incrível Silver Linings Playbook, também não é capaz de brilhar, mercê de um papel relativamente mal escrito, que exagera nas suas metamorfoses e o torna confuso e artificial. A nota positiva vai para Dane DeHaan (26 anos), a melhor das performances a uma considerável distância. Carismático, afectado e assombrado, agarrou um papel que não era assim tão rico e convenceu pela intensidade, assinando, talvez, os melhores segmentos do filme.
Apesar de claramente deficitário no argumento, o trabalho de Cianfrance na realização é excelente, e é o melhor que o filme tem para oferecer. Estranha-se primeiro, borrado pela tal balbúrdia de coisas para contar, mas é indiscutível que, no fim, é um exercício de alto nível, inteligente, com timing, bom gosto e fluidez, a que lhe soma uma boa fotografia e uma óptima banda sonora. Os seus méritos continuam lá; desta vez foram só sabotados por um texto pretensioso demais para a sua pobreza.
6/10
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segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Before Midnight
18 anos. Before Midnight não é o epílogo de uma trilogia normal, mas de uma que demorou uma vida a fazer. Em 1995, Richard Linklater- realizador-argumentista -, Ethan Hawke e Julie Delpy puseram na rua um pequeno romance indie tão sedutor quando incapaz de medir o culto que viria a personificar. Acho que o grau mais alto a que um filme pode aspirar é o de entrar no imaginário colectivo. Before Sunrise foi um desses filmes perfeitos. Tão puro quanto despretensioso, foi, tal como eles, um amor à primeira vista. Europa, uma viagem de comboio e uma miúda bonita. Um assomo de coragem e uma noite, uma única noite, perdidos deliciosamente por uma cidade tão apaixonante quanto os dois. Conta-se que o aumento do turismo em Viena foi mesurável nos anos seguintes, menos, conquanto, do que o imaginário de todos os 20 anistas que tenham entrado num comboio para cruzar a Europa, nestas duas últimas décadas. Before Sunrise foi um tipo-ideal, em simbolismo, ambiente, qualidade extrema do texto e química entre os protagonistas. Teve tudo.
Em 2004, Before Sunset cumpriu o assomo de manter-se na mesma bitola. Bem menos juvenil, com mais uns quantos anos no tempo real e no tempo da história, mas, como nos melhores romances, a demorar quase nada até parecer que a última vez tinha sido ontem. Uma tarde de reencontro inimaginável em Paris, o mesmo contra-relógio e o mesmo fim aberto, e a merecida nomeação ao Óscar para Melhor Argumento. Mais uma hora e meia de um par perdido a pé por ruas fora, de excitação mal disfarçada, numa viagem para não deixar ninguém indiferente e que ninguém queria que acabasse. Deste último capítulo, não era certo o que esperar. Se uma mudança na forma, se uma mudança no tom, se, de facto, um fim, na verdadeira acepção da palavra.
Before Midnight é, realmente, um filme mais diferente do que os seus antecessores, por culpa de um contexto que é diferente e obrigatório. O momento já não é o da descoberta, da sedução e da ilusão. É o dos anos de história vivida e da vida para ser gerida. É o momento de sombra em que as traves mestras começam a ceder, e onde emergem o gasto e o embate. É um filme menos puro e mais adulto, mais difícil, que nos seduz menos, mas que se aprende a admirar o mesmo tanto. O lirismo está sempre adstrito ao seu código genético, e é mais ou menos omnipresente, mas Before Midnight não evita que ninguém se magoe. Volta a ter um texto extraordinário (Linklater, aqui em co-escrita com os protagonistas, continua a ser genial), mas, desta vez, é cru, até hostil, ao marcar distâncias, repensar necessidades pessoais e retratar desencanto, o tempo que passou e as histórias perfeitas que não existem. É o fim do espectro como ele tinha de ser, o quadro completo com todas as suas dimensões, e com a maneira como Jesse e Céline decidem reagir a elas pela última vez. Se a paixão são só as coisas boas, essa ficou nos dois primeiros capítulos. Midnight é um filme sobre o que o amor nos exige, sobre conseguir ficar ou ter de partir quando há coisas que já se perderam, um filme não tanto sobre gostar, mas sobre saber ou não continuar.
Hawke e Delpy estão no ponto em que começaram há duas décadas. O mesmo enleio, o mesmo toque, o mesmo laço, seja como for que acabe. Ele tão errante, sem jeito e certo de si como então, ela sempre sensual, pungente e afligida pela dúvida. Papéis feitos à sua medida e que eles brilhantemente elevaram ao expoente de ícones. Before Midnight não teve o desconcerto de outros tempos, como um adulto já não tem o rasgo da juventude. Exactamente da mesma forma, ofereceu uma profundidade cáustica que só agora seria possível. Ser diferente não belisca o imenso estatuto que partilha com os antecessores; é, pelo contrário, o que o reafirma como tal, porque os completa. Os Before serão a obra magna da carreira de todos os envolvidos, e uma que, em 18 anos, o foi até à última hora.
8/10
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quarta-feira, 21 de agosto de 2013
"We are the happy ones"
Tarde de sol, casa cheia, ilusão a jorrar da rua para as bancadas. Alegria, um entusiasmo tão genuíno quanto mal disfarçado, um quase frenesi para poder viver tudo aquilo outra vez. Dizem que não devemos voltar ao lugar onde fomos felizes. No momento mais frágil da carreira, ele voltou. E eles voltaram com ele, como se nem tivessem forma de lhe agradecer. O Chelsea ganhou dois títulos europeus nos últimos dois anos, e, mesmo assim, arrisco a dizer que nenhuma dessas finais pôs os olhos daquela gente a brilhar tanto como este último domingo de Agosto, contra o pequeno Hull. Ganhar não é tudo na vida e, no fim de contas, o que fica no coração da gente é a forma como se o faz. É provável que qualquer blue preferisse perder com Mourinho do que ganhar com Benítez ou outro qualquer, e isso diz quase tudo. Não conheço nenhum adepto que, em vez de um treinador, não preferisse ter lá um dos seus.
Ainda não tinha feito 14 anos, e aquele Chelsea já se prestava a ser uma das equipas da minha vida. Foi amor à primeira vista, a cada carga de cavalaria liderada pelo generalíssimo Frankie, com um recém-prodígio holandês e um irlandês de ruivo sério a desconcertarem nas asas, a melhor dupla de centrais que vi jogar (Nesta-Maldini a par, sendo justo) e o mais carismático de todos os avançados-centro a que o futebol europeu assistiu no novo século. Mais um soldado checo então ainda averso a capacetes, um luso de brandos costumes a fazer a lateral-direita valer os 20 milhões de vez em quando, um francês pequenino que foi sempre uma âncora imensa, um 10 inglês que chegou a jogar o suficiente para o chamarem de brasileiro e um avançado com tanto de albino quanto de trunfo, nascido quase no Pólo Norte. Um exíguo ano depois do propalado melhor campeão de sempre - os Invencíveis de Wenger - uma equipa que, na verdade, quase só tinha gente para se provar, bateu esse recorde de pontos. I'm not one of the bottle. I think I'm a special one. Nunca ninguém poderá dizer que ele não avisou.
O resto toda a gente sabe. Num deserto árido de títulos, notoriedade e reputação, ele esculpiu à mão um gigante europeu. Bicampeão na relva onde toda a gente sonha ganhar, mais um saco de taças e outras duas meias-finais continentais que ficarão para sempre a ser devidas à eternidade. Um projecto futebolístico temível e inesquecível, glorificado por uma legião de fiéis que o venerou como um herói em todas as horas. Uma explosão simbiótica de futebol, militância e carisma incapaz de deixar alguém indiferente. O jogo muito maior do que um jogo, no patamar onde só moram os que já não podem morrer. Reza a lenda que, no dia em que se despediu, Drogba chorou no balneário como uma criança. Lampard descreveu o momento em que o viu sair pela última vez como o mais emocional de toda a carreira. O povo, esse, dedicou-se a fazer-lhe o luto nos longos anos seguintes e a velar, sem pudor, e contra quase todos, pelo seu regresso sebastiânico.
Passaram 10 anos desde o primeiro dia. No campo, porém, foi como se nunca tivesse acabado. Foi isso que se viu no orgulho insuperável a encher a cara de todos os que o receberam de pé. Welcome home, Jose. We are the happy ones. Ele, mais velho, mais batido, mal pôde segurar a emoção nos olhos. Uma, duas, três vezes a ter de levantar-se e a agradecer, ele que não estará sempre no Chelsea, mas àquela gente que, como o provou uma vez mais, estará sempre lá para ele. O jogo rendeu vitória, claro. E o melhor foi Lampard, só porque era mesmo dia para as coisas que nunca mudam.
Até onde irá este Chelsea, não se prevê. Certo é que, em consciência, já tenho o meu campeão. Há viagens no tempo que ninguém pode recusar fazer, e os heróis são para sempre.
Até onde irá este Chelsea, não se prevê. Certo é que, em consciência, já tenho o meu campeão. Há viagens no tempo que ninguém pode recusar fazer, e os heróis são para sempre.
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