domingo, 12 de janeiro de 2014

O teste do tempo



"I will survive. I will not fall into despair. I will keep myself hardy until freedom is opportune" 
Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), 12 Years a Slave 

É uma das frases da ordem, em noite de Globos de Ouro, e tornou-se insistente durante o derby. É que, de forma improvável, também consegue lê-lo a uma luz especial. Ver o que o Benfica jogou hoje é a constatação de como a paciência é mesmo uma das virtudes mais determinantes no futebol, como na vida. O Benfica passou os últimos três anos a ser humilhado pelo rival de todas as formas a que a imaginação permitiu chegar, perdendo os jogos fáceis, os jogos difíceis e todos os outros pelo meio. Foi uma equipa muito boa quase sempre, mas assombrada de cada vez pela ideia de que essa capacidade não era mais do que pó no vento. Um onze digno e esforçado, que se tentou sempre abstrair desse medo, mas que, por melhor cara que tenha feito, jamais se conseguiu dissociar do mau pressentimento que lhe gritava aos ouvidos que a morte estava ali, à espera, ao virar de cada próxima esquina.

Cada um terá a sua opinião sobre a continuidade de Jorge Jesus. Eu acho que ela não fez sentido. O facto é que o treinador do Benfica sobreviveu. Contra quase tudo e averso à razão que, na magia negra do pontapé de Kelvin, lhe explicou que já não valia a pena, Jesus subsistiu agarrado à ilusão da oportunidade que estava para vir. Como um jogador de poker que viu as fichas esvaírem-se como sangue, mas que sabia ter de esperar pela sua jogada. A sua mão, poderosa, decisiva e indiscutível, e que não chegaria nem um momento antes, nem um momento depois. Jesus teve hoje um dos seus melhores jogos de sempre pelo Benfica, não porque esfacelou o adversário, não pela nota artística, não porque isto defina alguma coisa, mas porque provou que era possível. Porque teve de ir ao Inferno primeiro, mas soube enxergar o seu momento quando ele chegou.

O Porto esteve bem nos bastidores. Durante a semana, os media proclamaram o histórico recente entre ambas as equipas, como se fosse necessário. Vítor Pereira veio reiterar a maneira como conseguia agredir o jogo adversário e como esse tinha sempre de mudar por causa dele, e Paulo Fonseca provocou ao dizer que Jesus não teria coragem de entrar com dois avançados. O Benfica ganhou pela forma como soube estar perante tudo isso desde que entrou em campo. O Porto está mais fraco, é evidente que sim. Bluffou como devia mas apanhou pela frente um adversário calejado a ferro e fogo que, mais do que não o temer, nunca o respeitou.

Isto não é o mesmo que dizer que o Benfica só podia ganhar a um Porto 'diminuído'. É que esse é um estado discutível, como a História o evidencia fartamente, e porque, se cada equipa tem idiossincrasias, a do Benfica era não ganhar por decreto. Esta é, pelo contrário, uma crónica de mérito, sobre a vitória inegável de quem, tendo um uma memória recente tão corrosiva, soube fazer acontecer em campo a sua superioridade, algo muito mais difícil do que pode parecer à primeira vista. Enzo e Matic foram perfeitos, nesse duplo-pivot de sonho em vias de ser destruído, como foram determinantes Luisão e Gaitán.

Já sobre o mais estupendo de todos, permito-me ao parágrafo só para escrever: Lazar Markovic. O resto é para quem viu.

Claro está que as equipas não jogam sozinhas e que as vitórias dificilmente se fazem só do merecimento de quem as ganha. Mesmo que venha a ser campeão, acto que os registos consideram provável, Paulo Fonseca deixou hoje demasiado a nu tudo o que lhe falta para estar a este nível. Já falei aqui dos restantes dilemas conjunturais que rodearam a equipa nesta época, mas tudo isso é chutado para plano de fundo se virmos o que o Porto não jogou hoje na Luz. Aliás, nessa antítese, o seu único mérito foi conseguir que o rival também não jogasse durante uma parte (num jogo monstruoso de Fernando, o tipo de jogador que já vem com chip para poder jogar alheio às insuficiências que o ladeiem). O Porto foi macio, desencantado e perdido, tanto como o olhar baço e os braços cruzados do seu próprio treinador. Não teve uma solução para criar, jamais desequilibrou e saiu da Luz com uma anoréctica oportunidade de golo. Fonseca foi o pastor de um constrangedor rebanho de sacrifício e, avaliando o que têm sido os Benfica-Porto, isso fala de tudo alto demais.

A corrida ao título é finalmente primeiro-mundista e isso é uma boa notícia para todos, ainda que hoje, como é bom enaltecer sempre, não se tenha ganho nem perdido nenhum campeonato. Para os adversários do Benfica, porém, é impreterível ter bem presente que alguém acabou de superar o mais terrível de todos os seus traumas.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Blue Jasmine. A viagem anual ao culto


A questão tende a ser simples: o melhor argumentista original de todos os tempos não faria um filme mau nem se tentasse. O Mestre não pode, portanto, ser avaliado pela medida dos outros. A cada ano, não é importante se as suas obras são melhores ou piores, mas que a renovada oportunidade para beber da sua psicologia filosofal seja, em vez, devidamente aproveitada. Como não podia deixar de ser, Blue Jasmine é, pois, um Woody Allen dos pés à cabeça.

Usa e abusa das relações, retratando o conforto passageiro e o desalento permanente, até encarar a sua profética fatalidade e a solidão inevitável. Tem o olhar único sobre as peculiaridades do ser humano, com as suas tão caras compulsões mentais e a sua doce e omnipresente loucura, e tem personagens sempre descoladas da banalidade do quotidiano, reflectindo cruamente sobre as motivações e as necessidades de cada um, sobre a forma como as pessoas se vêem e sobre o que gostavam realmente de ter. E não esquece, claro, as ironias do destino, desterrando de forma cáustica qualquer justiça e qualquer sorte do universo. O conto trágico da socialite nova-iorquina que hostilizava a irmã até cair na mais rotunda pobreza conduz-nos em nova viagem por um ideário único, cujo génio para pintar o mundo e as pessoas, à beira dos 80 anos, não parece capaz de cessar o fascínio. Haverá quem olhe para o reconhecimento ao trabalho de Woody Allen e o ache, hoje em dia, meramente glorificado. Eu diria que ninguém que consuma os seus filmes pode, em consciência, sonegar que cada novo guião seu é um Melhor Argumento em potência, nomeável por decreto.

Depois de dois anos na Europa, o Mestre voltou aos Estados Unidos, no caso a São Francisco. Sou suspeito, porque acho que o seu roteiro Londres-Barcelona-Paris-Roma teve uma mística histórica, e mantenho que assistir ao Velho Continente pela sua lente tem sido uma experiência impagável que, espero, ainda esteja longe de se completar. Seja como for, e reiterando que estávamos mal habituados com os seus passeios recentes, Allen pinta São Francisco com uma cor e um prazer irrecusáveis. Com o talento para procurar lugares e focar pormenores, e com aquele jeito único de fazer-nos sentir sempre parte disso que vemos à nossa volta.

Cate Blanchett tem um papel muito interessante, muito mais quente e mais metamórfico do que lhe é habitual. É uma mulher perturbada e em negação, com um feitio agreste e muito amassada pelo passado recente. A fragilidade com que tenta recompor-se pelas próprias pernas, numa profunda desadequação ao mundo a sério, é woodyanismo por excelência, interpretado a um nível tão genuíno que lhe merece todo o aplauso. A cena em que está a falar ao telefone e tira três segundos para chorar, apenas por sentir uma nesga de chão a recolar-se novamente sobre os seus pés, é génio em estado puro. Não gostei de Sally Hawkins - banal em quase tudo, foi uma opção para lá de discutível -, mas o resto dos secundários compensou. Pessoalmente, destaco a hipertensão do grande Bobby Cannavale, a naturalidade de Louis CK a agarrar papéis (ano muito feliz no cinema) e o óptimo cast de Andrew Dice Clay.

Colocando as coisas em perspectiva, é impreterível reconhecer que Blue Jasmine não é um filme inesquecível. Não tem um toque especialmente único e não estaria, inclusive, nos meus cinco favoritos da galeria na última década. No entanto, como disse no início, isso só seria uma razão preponderante para os muitos mortais que apenas podem sonhar com o seu talento. No resto, e mesmo sabendo que ele não vai comparecer, saberá bem que os Globos de Ouro o honrem amanhã com o prémio carreira.

7/10

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dallas Buyers Club. A diferença entre grandes histórias e grandes filmes


1985. Num Texas tacanho, muito próprio às suas idiossincrasias, um electricista da construção civil, performer de rodeos nas horas vagas e óptimo vivant a tempo inteiro, acorda num hospital para lhe dizerem que acusou VIH positivo e que tem 30 dias de vida. Figura carismática entre os seus, vê o mundo que conhecia ruir num estalar de dedos, a partir do segundo em que o boca a boca sanguinário o passa a conotar com a doença dos homossexuais. Começará, assim, a jornada verídica de Ron Woodroof à procura da cura impossível, num caminho que o levará a construir pontes com que nunca sonhou e a transformá-lo, de redundante abusador de álcool e drogas, em activista de uma causa inteira.

Dallas Buyers Club era um filme à espera de ser feito. Isso não significa, no entanto, que era mais fácil de fazer por isso. Se uma história inventada pela base depende do génio, um conto da vida real nunca pode triunfar sem engenho. Sem um guião e uma câmara que superem, no fundo, o que toda a gente já sabia. A magnitude da realidade é só o generoso ponto de partida. O resto é a arte de a contar, medida que separa os excelentes dos outros. Dallas Buyers Club é, infelizmente, um exemplo acabado de quem fracassou nessa elaboração.

Craig Borten e Melisa Wallack, ele um estreante e ela depois de duas longas-metragens sem expressão, conceberam um texto manifestamente deficitário para o alcance do que tinham em mãos. O filme não tem uma gota de alma e jamais nos agarra, contagia ou exalta. Arrisco a dizer que não há ali uma linha que o faça melhor do que a efectiva história real. É um trabalho sem risco e sem rasgo, quase documental, melancólico e antecipável, onde as âncoras emocionais soam sempre forçadas, como se estivessem ali por decreto, num cronograma invisível. Isso contaminou decisivamente a prestação dos actores, que até sugeriram estar à altura do desafio mas que não puderam remediar a escassez de liberdade e de estímulo.

Jean-Marc Vallé, outra face com trabalho de menos a falar por ele, também passa indistinto pelo filme o que, no caso de um realizador, é tanto pior. Não se percebe um conceito, não se sente agilidade, não se encontra uma grande cena. Em suma, nada que não pudesse ter sido feito por uma centena de outros. Vallé foi um tarefeiro, que se limitou a cumprir os serviços mínimos e a entregar um filme quadrado a tempo e horas.

As interpretações são melhor notícia, de facto, ainda que, ao contrário da chuva de nomeações, não me pareçam galardoáveis. McConaughey vinha de um filme divino como Mud e segurou-se dentro do possível, sem deslumbrar. É o homem simplório e pouco instruído, mergulhado nos prazeres da vida, que o universo fará carregar às costas o peso do mundo. O estilo arruaceiro e a debilidade física dão-lhe identidade, mas acabam por fazê-lo um pouco artificial. Seja como for, é sua a única grande cena do filme, num diálogo sobre o futuro com Jennifer Garner (muito má escolha de cast). Jared Leto, por sua vez, tem um papel grosseiramente estilizado, que o tornou num nomeado obrigatório desde a primeira cena que fez. Confesso que tenho dificuldade em avaliar performances tão polarizadas, mas reconheço que a sua descarnação física e mental acaba por ser importante para o filme. No global, tenho todavia de sublinhar que, mesmo sendo a circunstância de ambos tão violenta, o seu registo nunca é poderoso o suficiente para nos conseguir agredir. Que um filme destes não passe quase nada é a epítome do seu falhanço.

Dallas Buyers Club é uma grande história humana ferida pelo amadorismo de quem a executou. Condenou-se, por isso, a ficar inapelavelmente à margem de si própria.

6/10

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

American Hustle. Às vezes parece fácil


No ano passado, David O. Russell assinou aquele que muito apregoei como o melhor filme de 2012. Silver Linnings Playbook foi uma jóia de coroa, uma celebração rara do cinema comercial ao nível do que de maior se faz na Sétima Arte. Rendeu o Óscar de Melhor Actriz a Jennifer Lawrence e foi o primeiro filme em 30 anos a cometer a proeza de chancelar todas as sete grandes nomeações da Academia. A antecipação do que seria o próximo passo tornou-se, como é normal, inevitável. American Hustle confirma, um ano depois, que O. Russell é, de facto, um dos mais fascinantes contadores de histórias do grande circuito. A forma como as engrandece até onde não parecia possível que pudessem chegar, como lhes injecta vitalidade e como potencia o cast que tem ao seu dispor, se não é caso único nos dias que correm, andará muito perto disso.

American Hustle seria um filme sempre normal caso não fosse concebido por um visionário. A adaptação livre dos factos que, no fim da década de 70, levaram à prisão de congressistas e de senadores americanos, num golpe de subornos patrocinado pelo FBI, teria sempre sumo e seria fácil de fazer; o filme jamais correria tão bem, contudo, sem a extraordinária caracterização das personagens. Como nas maiores obras, a acção acaba por ser só o secundário do que ali acontece. American Hustle é um filme sobre pessoas, sobre motivações, sobre o que se queria ser e o que não se pode ter, sobre desejo e aceitação, ambição e sobrevivência e, acima de tudo, sobre o que é real num mundo de mentiras. Tem um texto estupendo a todos os níveis, no ângulo, na reflexão, na narração e nos notáveis diálogos. O argumento de O. Russell, em parceria com Eric Singer, surpreende-nos sucessivamente pelo nível até onde chega, pela intimidade e pelo realismo, e transcende em muito o filme que já estaria feito mesmo sem ele.

Para além disso, é uma obra cheia de vida. Reforço a cadência e a inteligência dos diálogos que lhe ceifam quase todos os tempos mortos, mas enalteço a cor, os ambientes, o barulho. É um filme com uma envolvência permanente, com muito movimento e muito burburinho de fundo, que abdica de concentração para nos encadear no melhor sentido. Capta notavelmente o espírito e os espaços dos anos 70, sendo burlesco, enleante, muitas vezes sensual. A câmara hiperactiva e curiosa de O. Russell faz o resto, sempre à procura de mais um palmo, sempre a fazer de conta que é o próprio espectador a perder-se na descoberta de cada nova cena. A somar isso, qual cereja no topo do bolo, o filme desfruta da playlist mais viciante do ano.

Actualmente, trabalhar com David O. Russell deve ser um privilégio para qualquer actor. No ano passado, o nova-iorquino garantiu o abuso de colocar um nomeado em cada uma das quatro categorias individuais... e, até ver, já o repetiu agora nos Globos. Christian Bale e Amy Adams são quem brilha a maior altura. Ele é uma figura peculiar, com barriga e sem cabelo, alheio a qualquer glamour, mas senhor daquele engenho extraordinário que só se aprende na rua e nos momentos de necessidade. Tem nos olhos a luz dos que sobrevivem sempre, mas jamais se distancia da sua simplicidade e do seu bom fundo. É ele quem canaliza a essência do filme, num papel riquíssimo e de empatia invejável. Amy Adams é o melhor de dois mundos, uma mulher espantosamente sensual e de recursos infindáveis para conseguir o que quer mas, ao mesmo tempo, terrivelmente vulnerável na procura por um pilar genuíno que a sustente no universo falso que criou à sua volta. Prepara-se para chegar à 5ª nomeação nos últimos 9 anos!, o que diz quase tudo sobre o seu talento.

Figuras maiores do ano transacto, Jenny Lawrence e Bradley Cooper voltam a dizer presente na etapa decisiva. Ela sobretudo, que capitaliza com o seu poderio incandescente um papel volátil e que provavelmente ficaria cingido nas mãos de alguém com um pouco menos de carácter. Cooper tem mais espaço e chega a reunir vários momentos estruturantes, todavia a certa boçalidade da personagem não o ajudou. Num elenco que era, de facto, de grandíssimo nível, ainda merecem reconhecimento Jeremy Renner, na pele do político de grande coração, vítima ingrata do momento e do lugar errados; Louis CK, que caiu como uma luva no boneco que lhe pediram; e o cameo de De Niro que, nos dias bons, continua, mesmo em cinco minutos, a ter o vulto dos gigantes.

Sacramentada por um dos mais importantes realizadores actuais, American Hustle é a oficialização da maturidade e do alcance do cinema de entretenimento, um cinema que é popular porque, acima de tudo, sabe falar sobre as pessoas. Um must.

8.5/10

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

12 Years a Slave. Os clássicos que só se vêem uma vez



Não é fácil viver sob o epíteto de favorito do ano. 12 Years a Slave carrega-o desde há muito, num processo que já desembocou numa chuva de nomeações para os Globos e que, por certo, terá o mesmo desfecho na comunicação que a Academia fará na próxima semana. Não é fácil viver sob o epíteto de favorito porque não é preciso ser o melhor para ser efectivamente muito bom. É disso que se trata. 12 Years a Slave brota de um daqueles contos verídicos bigger than life que sensibilizam ao primeiro olhar. Tem uma realização não raras vezes deslumbrante, boas prestações individuais e uma extraordinária banda sonora, paternidade do imortal Hans Zimmer. É, por isso, uma obra que merecerá sempre ser vista e admirada. Ao mesmo tempo, é aquilo a que chamo um filme para ver só uma vez. Pesado, majestático, em vários momentos assoberbado e absorvido no seu próprio compasso. É um filme que choca mais do que emociona, mais um retrato do que uma mensagem e tem todo o mérito nisso. Pessoalmente, porém, mesmo sabendo apreciá-lo, não é um registo que me apaixone. Faltou-lhe, quiçá, intimidade, isto é, aproximar-se do espectador e marcá-lo de uma forma mais pessoal.

Para o bem e para o mal, Steve McQueen assinou um filme de autor. Um filme sem nada de ordinário, que plasma em todos os pormenores o seu gosto e a sua leitura. Isso torna-o às vezes distante, fazendo com que abuse nas temporizações e tornando a acção mais dolosa e mais filosofada. Coloca-o, ao mesmo tempo, num permanente patamar de excepcionalidade, que rende algumas das mais brilhantes cenas do ano. Os 2 ou 3 minutos de "pontas dos pés no chão" - quem viu, perceberá - são qualquer coisa de inenarrável, como é assombrosa a crueza da violência e deliciantes os grandes planos de que este se socorre constantemente para articular o filme (a que também não é alheia a notável cinematografia de Sean Bobbitt, que colaborou com McQueen em todos os seus filmes). Talvez 12 Years a Slave não seja esse tão propalado filme maior de 2013, mas dificilmente Steve McQueen não é o realizador do ano. O seu trabalho é de um requinte plástico monumental.

Ironicamente há momentos em que se sente que a forma como o realizador se evidencia, como se nota a sua presença, bonifica o seu trabalho mas penaliza a fluidez e a coesão do filme. É, aliás, um pouco difícil avaliar a adaptação de argumento de John Ridley - que, em traços gerais, é bastante sustentada nas balizas da história -, porque o seu principal défice parece-me contaminado pela realização. O primeiro capítulo é excessivamente precipitado e essa brusquidão, essas omissões de narrativa compensadas, nos entretantos, por excessos cirúrgicos, são uma constante do filme. Parecem exactamente consequência das leituras pincelares de McQueen, do registo discursivo inortodoxo que imprimiu ao filme, e não opções argumentativas. No resto, contudo, é uma adaptação forte, desencantada, triste e não particularmente lírica, apesar dos indícios sugerirem o contrário.

Nas performances, Michael Fassbender é bestial. De início até parece que vai soar artificial, tal o exagero pretendido, mas o germano-irlandês saca mesmo uma daquelas exibições de levantar o estádio, mercê de uma loucura profética e incendiada que, mais do que isso, lhe brilha no olhar e lhe palpita nos gestos em cada minuto a uma intensidade sobrehumana. O desconforto e a adrenalina que sugere sempre que entra em cena estão ao alcance de muito poucos e ilustram, para mim, a melhor prestação da sua carreira (Hunger incluído). Chiwetel Ejiofor, por sua vez, é afectado pelo presente armadilhado que era ter um papel tão fácil. Não está em causa que tem uma performance sólida, que não fica de menos ao filme, mas com uma caracterização tão inevitavelmente favorável, a única medida de reconhecimento era que se transcendesse e não acho que Ejiofor tenha alguma vez tocado esse nível. A grande surpresa veio da estreante Lupita Nyong'o que, no meio de um abuso doentio e no papel mais físico da película, soube representar de forma desarmante a inelutável fragilidade do ser, e que por isso já foi muito justamente reconhecida com a nomeação nos Globos.

Apesar do potencial humano da história, 12 Years a Slave é sobretudo um produto estético de apreciação obrigatória, ao qual faltou uma emocionalidade, pelo menos, diferente. Será um filme unânime, provavelmente reconhecido como tal pelos prémios, que é de facto muito bom, mas que não é um dos cinco melhores da temporada.

7.5/10

domingo, 5 de janeiro de 2014

Os que nos fazem universais


"Para mim, Eusébio será sempre o melhor jogador de todos os tempos"
Don Alfredo di Stéfano

Nunca me vou esquecer da minha primeira cassete de futebol. Tinha por volta de uns 7 anos e deu-ma um tio-avô que eu idolatrava e com quem estava todos os dias. A cassete era a "História dos Campeonatos do Mundo" até ao Itália-90 e escusado será dizer que, nas mãos de um miúdo fascinado, valeu mais do que uma Bíblia original. Revi-a até exaurir o velhinho VHS cá de casa, mais vezes do que alguma vez poderei contar. Acho que me sinto velho a escrever isto, mas esses eram os dias em que não havia youtube, canais desportivos ou documentários à descrição. Aquela cassete era, portanto, um daqueles portais das aventuras, um impagável mapa do tesouro para aprender futebol. Foi aí que tive a honra de os conhecer a todos.

Da Itália bicampeã fascista em tempos de guerra ao profético Maracanazo, quando 11 uruguaios derrotaram 200 mil brasileiros. Do Milagre de Berna ao lençol extraterrestre com que um menino de 17 anos chamado Pelé abafou Estocolmo. Dessa Canarinha estrelar, onde também ponteou Mané Garrincha, o anjo das pernas tortas, até à queda poética da Laranja Mecânica de Cruyff, aos pés de Kempes e de um bombardeiro chamado Gerd Muller. Da forma como a Velha Senhora de Rossi e Tardelli matou o Brasil-82, a melhor Selecção que já jogou, até à aparição no calor tórrido do México do Deus em pessoa. Nesse tempo parecia tudo grande demais. Tão mitificado, distante, inacessível. Gigantes eternos num Olimpo vasto muito para lá da modéstia da Humanidade. Mas também foi aí que conheci Eusébio.

Quem nunca o viu jogar, que tire agora uns minutos e lhe preste essa contrita homenagem. Para mim, que aquele monstro bestial tivesse levado o escudo ao peito e fosse do meu país foi, então, estarrecedor. Vi o Coreia do Norte-Portugal tantas vezes que é como se lá tivesse estado. Depois fui correr toda a campanha dos Magriços, das eliminatórias até ao terceiro lugar. Por educação e por feitio, a ideia de ser imparcial sempre foi das minhas mais caras. Lembro-me, por isso, da grosseira satisfação de pensar que podia admirar esse Eusébio da Silva Ferreira como os maiores, não porque ele era português, mas porque essa galeria excelsa era efectivamente o único lugar onde ele poderia morar. Então, na grandeza da infância, tomei uma decisão que qualquer pessoa de bem compreenderá como estruturante: com Garrincha e Maradona, Eusébio jogaria sempre no meu onze da História.

Não conheço dele o suficiente para falar do carácter, das opiniões ou sequer da sua vida extra-futebol. O que reconheço, porque bastava olhar para ele, era a sua transtornante simplicidade. Mais do que humilde, acessível e afável, coisas que toda a gente lhe enaltece, vou recordar o homem simples, com a graça e a gratidão na cara de quem acha secretamente que as pessoas não se deviam dar a tantos trabalhos só por estarem na sua presença. O homem que pela sua total excepcionalidade veio a ser maior do que qualquer estigma político e do que qualquer clube, conjugando carinho e unanimidade enquanto desportista maior de uma nação inteira e que, mesmo assim, parecia sempre envergonhado e passaria despercebido se pudesse. Acho que as pessoas respeitaram tanto o que foi Eusébio como aquilo que ele não quis ser.

Que não se tenha a verdadeira consciência da alucinação que foi o Inglaterra-66 é um crime nacional. Um Portugal que tinha tão pouco, ou até menos do que isso, que não tinha amor próprio e que estava orgulhosamente só no mundo foi às costas de um homem ter um Verão de luz em 50 anos de breu. Há quem olhe e decida destacar o aproveitamento propagandístico do Estado Novo. Eu prefiro lembrar que a genialidade extrema de um de nós, mesmo no pior dos tempos, foi capaz de rachar até a hostilização planetária e de iluminar-nos num raio de admiração incondicional.

Em Portugal, o futebol continua a ser um parente pobre para muitos pensadores. É o pão e o circo, é arte e a cultura dos tolos, que tem sempre de ser inoculada e admirada com vergonha, oxalá ficando os seus pés sujos o mais longe possível dos salões nobres da estima intelectual. Discutiu-se ontem uma condecoração como provavelmente se questionarão agora os três dias de luto nacional. Pois que hoje, enquanto Old Trafford coloca uma bandeira portuguesa a meia-haste, o Real joga de fumos negros por nossa causa e tantos símbolos mundiais vêm falar com tamanha reverência de um dos nossos, seja um dia para ter bem presente o que o jogo significa para este país e o quanto é uma das nossas bandeiras mais incríveis. É essa a única forma digna de o homenagear.

Por uma noite mais, o mundo fala dele e fala de nós com admiração. Foi sempre assim. Obrigado por tudo, Pantera.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

The Butler. Muita pretensão, alguma técnica, nenhuma alma


Os últimos anos foram especialmente prolíficos em filmes sobre o racismo nos Estados Unidos. Coincidência ou não, Oprah Winfrey esteve envolvida, directa ou indirectamente, em três deles: produziu The Great Debaters (2007) e Precious (2009), e protagonizou agora este The Butler. Coincidência ou não, todos eles são filmes fracos e todos padecem do mesmo mal: o retrato das condições, das injustiças e dos abusos é melodramático em vez de ser genuíno, é forçado em vez de ser inspirador.

As melhores coisas costumam ser sempre as mais naturais. Foi assim o excepcional The Help (2011), uma franca obra-de-arte, que trata as mesmas temáticas transversais com pureza, jeito e com uma emotividade honesta, em relação à qual é impossível não empatizar. O problema de The Butler, tal como o dos seus 'antecessores' nesta órbita de Oprah, é esforçar-se demasiado para que nos compadeçamos dele. O filme é feito para causar dó e para reafirmar dolosamente algo com o qual já todos nos identificamos, e não é assim que as coisas devem funcionar. Isso torna-o plástico, exaustivo e sem ponta de carisma.

A história até era boa. Adaptada de uma reportagem jornalística por Danny Strong, vencedor do emmy do ano passado para melhor argumento em mini-série, faz uma recriação livre da vida de Eugene Allen, que escapou dos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos na juventude, para vir a ser mordomo da Casa Branca durante uns extraordinários 34 anos, entre 1952 e 1986. O primeiro defeito do texto é estrutural. Sendo um relato demarcadamente cronológico, não houve o indispensável engenho para moderar o efeito disso. Assim, o filme não se descolou de um prolongado martelar de datas (2h15 deste registo é um excesso), numa reafirmação de pontos de vista óbvios, sem surpresas para o sustentarem, ficando-se, em vez, por momentos falsamente emotivos que só o diminuíram.

É esse, aliás, o seu pecado capital: a pretensão. The Butler especula sobremaneira com a comoção, com os dilemas, com a grandeza moral e com a sua mensagem, ao mesmo tempo que nunca nos consegue contagiar para esse efeito. É um filme executado a regra e esquadro para ser um clássico, como mandam os livros, mas cuja absoluta ausência de alma o deita por terra. Lee Daniels, que já realizara Precious, faz um trabalho a que realmente não se podem apontar falhas de monta, mas que se torna redundante, na medida em que é sempre incapaz de fazer fluir a acção, maquilhar a passagem do tempo e, grosso modo, de nos manter interessados.

Se The Butler teve uma boa ideia, essa foi Forest Whitaker. Não que o oscarizado texano faça aqui um dos papéis da vida, mas porque é, de facto, quase impossível que este não esteja à altura do que lhe pedem. Não acho que tivesse um texto ou uma caracterização boa, nem que tenha tido nenhuma grande cena, mas, no global, tem uma performance muito sólida, que plasma, ela sim, a grandeza e a dignidade que se pretendia para o filme. Individualmente, é tudo o que há, apesar dos muitos nomes. Oprah não é qualquer mais-valia para o filme e, à semelhança do compadrio das aparições especiais de Mariah Carrey ou de Lenny Kravitz, que já se verificara em Precious, personifica pouco mais do que uma distracção. The Butler é um filme competente a nível visual, que recorre a um elenco extenso e a uma temática cara. Não sendo um desastre, a forma como se sobrevaloriza acabou por prescrever o seu falhanço.

5.5/10