segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

The Wolf of Wall Street. A vitalidade de Scorsese, o génio de DiCaprio e um filme que alguém se esqueceu de cortar


2013 ofereceu um catálogo vasto e multifacetado. Histórias altamente aguardadas, ideias de risco e performances de celebração bastante antecipável. Blockbusters, filmes de autor e clássicos de peso. Todo um manancial que sugeriu, contudo, uma certeza maior do que as outras: se Scorsese e DiCaprio iam entrar em campo, a coroa da pré-época era entregue ainda antes do jogo começar. 12 anos depois da primeira vez, a parceria entre os dois já era pouco menos do que um trilho gravado a ouro e pedras preciosas. De Gangs of New York a Aviator, de Departed, e do histórico primeiro Óscar de Scorsese, a Shutter Island, para mim o melhor de todos, a carteira de uma das parelhas mais icónicas do último quarto de século dispensava, sequer, considerações. O Lobo vem entrar neste palmarés como, possivelmente, o mais subjectivo dos seus elementos. É o filme mais longo (três redondas horas) e, de forma algo surpreendente, o mais arriscado. A máxima de que os dois juntos jamais podem fazer um filme mau mantém-se intocável, mas acho que, desta vez, o produto final ficou à margem do que poderia ter sido. Com uma realização admirável e uma excepcional performance individual, mas a ser incapaz de, no fim das contas, ser efectivamente um filme inesquecível.

Como é possível que um grande lead e uma grande câmara façam um filme discutível? Na minha opinião foi essencialmente um problema de conceito e considero que, de facto, se pode ser muito bom a fazer algo que devia ter sido melhor pensado. Acho que, por esta altura, já toda a gente deve ter visto um trailer, lido qualquer coisa ou ouvido algum comentário. A biografia é a de Jordan Belfort, nome histórico e excêntrico de Wall Street, um self made millionaire no mundo surrealista da especulação em Bolsa dos 90s, que viveu a sua jornada com direito a tudo - e o tudo é literal, sendo o filme fiel a isso -, até ter soçobrado numa investigação de fraude financeira, ainda precoce à catástrofe natural que aconteceria anos depois. Numa palavra, a vida de Belfort era uma overdose. De dinheiro, mulheres, carros, casas, festas, excentricidades. E de droga, claro. Muita, muita droga. Toxicodependente assumido, o seu dia-a-dia era uma permanente viagem de todas as cores e a todas as velocidades, capaz dos excessos mais brutalizantes. Foi por aí que Scorsese lhe pegou.

The Wolf of Wall Street é um filme de três horas em fast forward. Não porque passa muito rápido, mas porque tudo o que acontece em cena é esbaforido, intenso, levemente doentio. Nesse quadro de fundo, o trabalho de Scorsese é, de facto, brilhante. A vitalidade, a energia e a criatividade que um dos maiores de sempre é capaz de continuar a imprimir aos 71 anos é qualquer coisa de alucinante. A vontade de se reinventar e de arriscar não pode deixar ninguém indiferente e essa realização de desfazer o sistema nervoso rende cenas que deslumbram, desafiando a nossa concentração e correndo quase sempre à nossa frente. Isso resulta muitas vezes e, acima de tudo, é sempre muitíssimo bem executado. Ao fim de três horas, porém, torna-se um pouco auto-destrutivo.

The Wolf of Wall Street acaba por ser um filme exaustivo que, ao materializar o excesso do seu protagonista, se excede ele próprio no interesse para o espectador e no engenho da narrativa. É, em suma, um filme que gasta, que, apesar da cadência, não consegue ser importante o suficiente para justificar uma tão longa segunda metade e que, ainda por cima, é acabado de uma forma inócua demais para fazer-lhe jus. Os méritos de Terence Winter não são questionáveis (argumentista principal de Sopranos e criador de Boardwalk Empire) e a sua adaptação do livro de Belfort é óptima na caracterização do espaço, do ambiente e dos personagens. Parte substancial da própria acção é igualmente forte. No global, porém, faltou-lhe inspiração para destrinçar formalidades cronológicas da história e para acabar com o lance deslumbrante que se exigia.

DiCaprio é um monumento, ao nível do que de melhor já fez na sua prodigiosa carreira. Se o olharmos nos olhos, jamais podemos deixar de acreditar que ele é o próprio Belfort e que viveu cada bocado daquela luxúria inebriante, cada passo daquela loucura descompassada. Fora as chapas assombrantes que acumula, o que é verdadeiramente notável é a intensidade que empresta a cada um dos 180 minutos da fita, como se as pilas e as suas pastilhas nunca se pudessem gastar. É uma interpretação esmagadora e genial que o coloca, automaticamente, como o meu favorito para chegar ao Óscar que, para lá de tudo o que é racional e crível, ainda não tem. Os Globos já lhe deram um aperitivo (ainda que na ridícula partição de categorias, tenho sido o Melhor Actor... Comédia), mas agora é a vez da Academia ajustar contas com o passado. Perder para Mat McConaughey, no filme mais fácil do ano, seria uma barbaridade histórica.

Devo reconhecer que também fiquei contente com a nomeação de Jonah Hill, que os Globos esqueceram, para Secundário. Depois da primeira indicação injustificada com Moneyball, Wolf é um verdadeiro atestado de maioridade num tipo de papel muito característico, de alguém que nunca se imaginou poder vir a jogar neste campeonato. Esta crónica não estaria completa sem falar em Margot Robbie, que desconhecia, e que deve ter transtornado, no sentido mais apaixonante de todos, qualquer alma que já tenha visto o filme.

The Wolf of Wall Street é uma obra importante e com grandes predicados. Um corte a direito na última hora e um fim menos linear, quiçá num pico da história, eram a fórmula para tê-la eternizado num outro patamar.

7/10

sábado, 18 de janeiro de 2014

O pós-Globos e o pré-Óscares


Ainda não tinha havido tempo para fazer o balanço do pontapé de saída e como a temporada dos prémios não espera por ninguém, há que aproveitar a boleia para também avaliar, desde já, as nomeações da Academia. Com uma ou outra surpresa maior e as habituais desconsiderações imperdoáveis, confirma-se a ausência de um candidato que vá açambarcar estatuetas. A tendência é a de dividir para reinar. Com os Critics Choice a também já terem laureado quase um a um os vencedores dos Globos, os favoritos já não são, por ora, branqueáveis.

A cerimónia
Antes demais, voltar a Domingo e à envolvência dos Globos de Ouro. Faltaram umas quantas caras conhecidas, mas plasmou, como sempre, aquele delicioso carisma informal dos prémios, de toda a gente na mesa e de copo na mão, a fazer conversa cruzada, a sorver o ambiente e a rever amigos, mais do que a fazer contas ao que se ganha e ao que se perde. Aquele que, no fundo, sempre foi e continua a ser o seu traço mais marcante. O alto da noite foram os discursos. Os Globos 2014 tiveram um dos melhores conjuntos de aceitações de que me lembro, com DiCaprio acima de todos, mas igualmente com McConaughey, Jenny Lawrence e Amy Adams, Amy Poehler e Breaking Bad. O hosting, pelo contrário, esteve à margem de outras noites e, sobretudo, do que Tina Fey e Poehler tinham feito no ano passado. Com duas ou três grandes tiradas, mas com um registo abertamente morno e baço, a soprar o fantasma de Gervais a cada curva.


Slave e Gravity racharem prémios por linhas tortas
Era antecipável que acontecesse, mas saiu exactamente ao contrário de como desejava. 12 Years a Slave levou o prémio mais ambicionado da noite - que já repetiu no Critics Choice - e confirmou-se como favorito ao Óscar, chancelando Alfonso Cuáron o prémio individual. A ironia é que, se na Realização, Steve McQueen foi melhor mas a vitória de Cuáron será sempre inatacável, já no plano fílmico, Gravity é necessariamente superior a Slave. Como, de resto, já é normal nestas alturas, a adoração a que a elite da crítica votou este último, e que o carregará até ao dia D, dá-me um nó ao discernimento. Atentando, por sua vez, à corrida a melhor filme da Academia que lhe sucedeu, destacar uma decisão integralmente incompreensível: deixar Rush à porta quando, não só é melhor filme do que metade dos nomeados, como só foram ocupados nove dos dez lugares possíveis nas indicações...


Os anéis de American Hustle
A nova jóia de David O. Russell foi a mais lucrativa da cerimónia de Domingo e, a meio da semana, não fez por menos, repetindo o feito histórico alcançado por Silver Linings Playbook no ano passado: as sete grandes nomeações da Academia. 30 anos depois, O. Russell garantiu-o duas vezes seguidas!, fazendo o absurdo de repetir o melhor filme do ano e de confirmar, para lá de qualquer dúvida, o seu toque de Midas. Isso tudo e a grande forma de Hustle deve, ingratamente, ser relativizada. A vitória em Musical/Comédia só foi possível pela partição de categorias dos globos, o mesmo valendo para o triunfo de Amy Adams. Não têm ambos hipóteses nos Óscares. Só Jenny Lawrence assumiu, de facto, uma candidatura efectiva à segunda estatueta consecutiva. Pessoalmente, Hustle arrebatou três globos mas a história da noite conta-se com a dolorosa derrota em Argumento Original, no qual acreditava piamente. Her, de Spike Jonze, venceu e já acumulou, igualmente, o Critics Choice, deixando meio caminho feito. Como ainda não vi, vou evitar destilar ódio com convicção, para já.


O fenómeno Dallas Buyers
Se a propensão por Jared Leto era evidente, já a vitória de Mat McConaughey foi uma surpresa boquiaberta. A minha opinião sobre o filme já a deixei bem explícita: papéis extremamente polarizados, com o clamor por prémios colado à testa mas que, preto no branco, ficaram a muitas milhas do que podiam ter feito. Para mim, tanto num caso como noutro, a sugestão da sua figura real, e não o que fizeram efectivamente, tem sido a medida do seu reconhecimento. Escusado será dizer que olho para Dallas Buyers Club como o cavalo de Tróia do ano e ainda me custa a acreditar no estrago que pode vir a causar. Em particular, ao tirar autenticamente das mãos de DiCaprio o seu - e é surreal escrever isto - primeiro Óscar. Mas também pela naturalidade com que já se atesta a derrota de Fassbender em Secundário, numa exibição terrivelmente superior.


O desterro de Captain Phillips
Não era um candidato "para ganhar", mas nada justifica o grosseiro desprezo da Academia. Que Tom Hanks tenha ficado fora da corrida a Melhor Actor é, sem margem para questões, o absurdo do ano. Pondo-o de uma forma simples, a sua última cena, apenas, é mais nomeável do que somado aquilo que fizeram McConaughey e Ejiofor. É de um patamar alheio a um ano ou a um filme que correu bem, coisa a que só muito poucos têm capacidade de chegar. Do mesmo modo, em Realização, parece-me que Paul Greengrass não podia ter sido esquecido. A sua direcção é intensa e cirúrgica, temporizada brilhantemente e fulcral para o resultado final. Salvou-se, ao menos, a indicação para Melhor Filme.

  
O adeus quase pleno de Breaking Bad
Em ano de despedida, Breaking Bad ganhou a noite televisiva no Beverly Hilton Hotel, como se esperava, com aqueles que foram, apenas, os seus dois primeiros globos. Todavia foi assaltado onde jamais poderia: Aaron Paul passou amargamente à História sem ganhar um prémio que merecia por decreto, mais do que qualquer outra pessoa naquela sala. Robin Wright, por sua vez, marcou justamente o ponto de honra de House of Cards.

A escalada vai continuar até 2 de Março, com os prémios de todos os Sindicatos e os BAFTA.Tempo para saldar as contas que faltam e avaliar o alcance de Nebraska, Her, Philomena e Osage County, e o esquecimento de All is Lost e Inside Llewyn Davis.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Globos 2014. O telegrama


Com toda a pompa e com toda a circunstância, os Globos de Ouro darão, como sempre, o luxurioso mote a mais uma viciante temporada dos prémios grandes do cinema. Daqui a pouco, no salão de festas do Beverly Hilton Hotel, começará a ser escrita a crónica de um 2013 generoso e marcante. Vamos, então, a ele, em jeito de bloco de notas:

- Gravity sobre 12 Years a Slave, pelo conceito inovador, pela criatividade, pela densidade do seu ideário e pela experiência cinematográfica. 12 Years é um clássico instantâneo, executado brilhantemente, mas sempre mais majestático do que cativante.

- Tom Hanks sobre Chiwetel Ejiofor, não para pungir a implicância, mas porque Hanks fez o filme ao nível dos velhos tempos e Ejiofor foi feito por ele, jamais conseguindo transcender o personagem.

- Sandra Bullock sobre Cate Blanchett, não porque esta não tenha tido uma performance admirável, tão genuína na forma como agarrou a escrita de Woody Allen, mas porque o alcance bestial de Bullock foi demasiado significativo para que passe em claro.

- American Hustle sobre The Wolf of Wall Street, já que, pese a vitalidade de Scorsese e o festival de DiCaprio, o contrário seria um escândalo. Wolf é bom mas só de uma forma exaustiva, Hustle é irresistível e contagiante, espectacularmente bem escrito, com uma grande realização e performances ainda melhores.

- DiCaprio sobre Chris Bale, porque ficando rendido a Bale, DiCaprio é pornograficamente bom.

- Amy Adams sobre Julie Delpy. Ficava contente se os Before se despedissem com um grande prémio, mas Adams foi claramente superior.

- Michael Fassbender sobre Jared Leto, para premiar a verdadeira e palpável excelência interpretativa, e não um papel que, no fundo, se cozinhava a si próprio.

- Lupita Nyong'o, por merecimento, ainda que nunca ninguém me verá escrever que Jennifer Lawrence não justifica qualquer prémio do sistema solar.

- Steve McQueen sobre Alfonso Cuarón, David O. Russel e Paul Greengrass, na categoria mais notável da noite, porque, não tendo feito o melhor filme assinou, com um requinte inacreditável, uma obra-prima estética.

- American Hustle para Argumento. Porque, caso contrário, a Associação de Imprensa Estrangeira merece uma bomba. 

- Na Televisão, racional era que House of Cards e Breaking Bad dividissem Melhor Drama e Melhor Actor. Porque Breaking Bad é o colossal obrigatório, mas pelo carisma, pela novidade e pelo génio de Cards.

- Vou deixar escrito "Masters of Sex", pela ingratidão que era não falar dela nesta hora. Aliás, conto que ainda vão a casa de Lizzy Caplan entregar-lhe o Globo de Melhor Actriz, justificando com um erro técnico a sua idiótica ausência nas Nomeações.

- Zooey Deschanel com um ano de atraso.

- Aaron Paul, compulsiva e absolutamente.

- E, finalmente, aplaudir de pé o Cecil B. DeMille Award para Woody Allen. Ele não quer saber, mas nós ficamos orgulhosos na mesma. E matamos saudades de Diane Keaton.

A partir da meia-noite, num canal que aparentemente se chama SIC Caras.

O teste do tempo



"I will survive. I will not fall into despair. I will keep myself hardy until freedom is opportune" 
Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), 12 Years a Slave 

É uma das frases da ordem, em noite de Globos de Ouro, e tornou-se insistente durante o derby. É que, de forma improvável, também consegue lê-lo a uma luz especial. Ver o que o Benfica jogou hoje é a constatação de como a paciência é mesmo uma das virtudes mais determinantes no futebol, como na vida. O Benfica passou os últimos três anos a ser humilhado pelo rival de todas as formas a que a imaginação permitiu chegar, perdendo os jogos fáceis, os jogos difíceis e todos os outros pelo meio. Foi uma equipa muito boa quase sempre, mas assombrada de cada vez pela ideia de que essa capacidade não era mais do que pó no vento. Um onze digno e esforçado, que se tentou sempre abstrair desse medo, mas que, por melhor cara que tenha feito, jamais se conseguiu dissociar do mau pressentimento que lhe gritava aos ouvidos que a morte estava ali, à espera, ao virar de cada próxima esquina.

Cada um terá a sua opinião sobre a continuidade de Jorge Jesus. Eu acho que ela não fez sentido. O facto é que o treinador do Benfica sobreviveu. Contra quase tudo e averso à razão que, na magia negra do pontapé de Kelvin, lhe explicou que já não valia a pena, Jesus subsistiu agarrado à ilusão da oportunidade que estava para vir. Como um jogador de poker que viu as fichas esvaírem-se como sangue, mas que sabia ter de esperar pela sua jogada. A sua mão, poderosa, decisiva e indiscutível, e que não chegaria nem um momento antes, nem um momento depois. Jesus teve hoje um dos seus melhores jogos de sempre pelo Benfica, não porque esfacelou o adversário, não pela nota artística, não porque isto defina alguma coisa, mas porque provou que era possível. Porque teve de ir ao Inferno primeiro, mas soube enxergar o seu momento quando ele chegou.

O Porto esteve bem nos bastidores. Durante a semana, os media proclamaram o histórico recente entre ambas as equipas, como se fosse necessário. Vítor Pereira veio reiterar a maneira como conseguia agredir o jogo adversário e como esse tinha sempre de mudar por causa dele, e Paulo Fonseca provocou ao dizer que Jesus não teria coragem de entrar com dois avançados. O Benfica ganhou pela forma como soube estar perante tudo isso desde que entrou em campo. O Porto está mais fraco, é evidente que sim. Bluffou como devia mas apanhou pela frente um adversário calejado a ferro e fogo que, mais do que não o temer, nunca o respeitou.

Isto não é o mesmo que dizer que o Benfica só podia ganhar a um Porto 'diminuído'. É que esse é um estado discutível, como a História o evidencia fartamente, e porque, se cada equipa tem idiossincrasias, a do Benfica era não ganhar por decreto. Esta é, pelo contrário, uma crónica de mérito, sobre a vitória inegável de quem, tendo um uma memória recente tão corrosiva, soube fazer acontecer em campo a sua superioridade, algo muito mais difícil do que pode parecer à primeira vista. Enzo e Matic foram perfeitos, nesse duplo-pivot de sonho em vias de ser destruído, como foram determinantes Luisão e Gaitán.

Já sobre o mais estupendo de todos, permito-me ao parágrafo só para escrever: Lazar Markovic. O resto é para quem viu.

Claro está que as equipas não jogam sozinhas e que as vitórias dificilmente se fazem só do merecimento de quem as ganha. Mesmo que venha a ser campeão, acto que os registos consideram provável, Paulo Fonseca deixou hoje demasiado a nu tudo o que lhe falta para estar a este nível. Já falei aqui dos restantes dilemas conjunturais que rodearam a equipa nesta época, mas tudo isso é chutado para plano de fundo se virmos o que o Porto não jogou hoje na Luz. Aliás, nessa antítese, o seu único mérito foi conseguir que o rival também não jogasse durante uma parte (num jogo monstruoso de Fernando, o tipo de jogador que já vem com chip para poder jogar alheio às insuficiências que o ladeiem). O Porto foi macio, desencantado e perdido, tanto como o olhar baço e os braços cruzados do seu próprio treinador. Não teve uma solução para criar, jamais desequilibrou e saiu da Luz com uma anoréctica oportunidade de golo. Fonseca foi o pastor de um constrangedor rebanho de sacrifício e, avaliando o que têm sido os Benfica-Porto, isso fala de tudo alto demais.

A corrida ao título é finalmente primeiro-mundista e isso é uma boa notícia para todos, ainda que hoje, como é bom enaltecer sempre, não se tenha ganho nem perdido nenhum campeonato. Para os adversários do Benfica, porém, é impreterível ter bem presente que alguém acabou de superar o mais terrível de todos os seus traumas.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Blue Jasmine. A viagem anual ao culto


A questão tende a ser simples: o melhor argumentista original de todos os tempos não faria um filme mau nem se tentasse. O Mestre não pode, portanto, ser avaliado pela medida dos outros. A cada ano, não é importante se as suas obras são melhores ou piores, mas que a renovada oportunidade para beber da sua psicologia filosofal seja, em vez, devidamente aproveitada. Como não podia deixar de ser, Blue Jasmine é, pois, um Woody Allen dos pés à cabeça.

Usa e abusa das relações, retratando o conforto passageiro e o desalento permanente, até encarar a sua profética fatalidade e a solidão inevitável. Tem o olhar único sobre as peculiaridades do ser humano, com as suas tão caras compulsões mentais e a sua doce e omnipresente loucura, e tem personagens sempre descoladas da banalidade do quotidiano, reflectindo cruamente sobre as motivações e as necessidades de cada um, sobre a forma como as pessoas se vêem e sobre o que gostavam realmente de ter. E não esquece, claro, as ironias do destino, desterrando de forma cáustica qualquer justiça e qualquer sorte do universo. O conto trágico da socialite nova-iorquina que hostilizava a irmã até cair na mais rotunda pobreza conduz-nos em nova viagem por um ideário único, cujo génio para pintar o mundo e as pessoas, à beira dos 80 anos, não parece capaz de cessar o fascínio. Haverá quem olhe para o reconhecimento ao trabalho de Woody Allen e o ache, hoje em dia, meramente glorificado. Eu diria que ninguém que consuma os seus filmes pode, em consciência, sonegar que cada novo guião seu é um Melhor Argumento em potência, nomeável por decreto.

Depois de dois anos na Europa, o Mestre voltou aos Estados Unidos, no caso a São Francisco. Sou suspeito, porque acho que o seu roteiro Londres-Barcelona-Paris-Roma teve uma mística histórica, e mantenho que assistir ao Velho Continente pela sua lente tem sido uma experiência impagável que, espero, ainda esteja longe de se completar. Seja como for, e reiterando que estávamos mal habituados com os seus passeios recentes, Allen pinta São Francisco com uma cor e um prazer irrecusáveis. Com o talento para procurar lugares e focar pormenores, e com aquele jeito único de fazer-nos sentir sempre parte disso que vemos à nossa volta.

Cate Blanchett tem um papel muito interessante, muito mais quente e mais metamórfico do que lhe é habitual. É uma mulher perturbada e em negação, com um feitio agreste e muito amassada pelo passado recente. A fragilidade com que tenta recompor-se pelas próprias pernas, numa profunda desadequação ao mundo a sério, é woodyanismo por excelência, interpretado a um nível tão genuíno que lhe merece todo o aplauso. A cena em que está a falar ao telefone e tira três segundos para chorar, apenas por sentir uma nesga de chão a recolar-se novamente sobre os seus pés, é génio em estado puro. Não gostei de Sally Hawkins - banal em quase tudo, foi uma opção para lá de discutível -, mas o resto dos secundários compensou. Pessoalmente, destaco a hipertensão do grande Bobby Cannavale, a naturalidade de Louis CK a agarrar papéis (ano muito feliz no cinema) e o óptimo cast de Andrew Dice Clay.

Colocando as coisas em perspectiva, é impreterível reconhecer que Blue Jasmine não é um filme inesquecível. Não tem um toque especialmente único e não estaria, inclusive, nos meus cinco favoritos da galeria na última década. No entanto, como disse no início, isso só seria uma razão preponderante para os muitos mortais que apenas podem sonhar com o seu talento. No resto, e mesmo sabendo que ele não vai comparecer, saberá bem que os Globos de Ouro o honrem amanhã com o prémio carreira.

7/10

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dallas Buyers Club. A diferença entre grandes histórias e grandes filmes


1985. Num Texas tacanho, muito próprio às suas idiossincrasias, um electricista da construção civil, performer de rodeos nas horas vagas e óptimo vivant a tempo inteiro, acorda num hospital para lhe dizerem que acusou VIH positivo e que tem 30 dias de vida. Figura carismática entre os seus, vê o mundo que conhecia ruir num estalar de dedos, a partir do segundo em que o boca a boca sanguinário o passa a conotar com a doença dos homossexuais. Começará, assim, a jornada verídica de Ron Woodroof à procura da cura impossível, num caminho que o levará a construir pontes com que nunca sonhou e a transformá-lo, de redundante abusador de álcool e drogas, em activista de uma causa inteira.

Dallas Buyers Club era um filme à espera de ser feito. Isso não significa, no entanto, que era mais fácil de fazer por isso. Se uma história inventada pela base depende do génio, um conto da vida real nunca pode triunfar sem engenho. Sem um guião e uma câmara que superem, no fundo, o que toda a gente já sabia. A magnitude da realidade é só o generoso ponto de partida. O resto é a arte de a contar, medida que separa os excelentes dos outros. Dallas Buyers Club é, infelizmente, um exemplo acabado de quem fracassou nessa elaboração.

Craig Borten e Melisa Wallack, ele um estreante e ela depois de duas longas-metragens sem expressão, conceberam um texto manifestamente deficitário para o alcance do que tinham em mãos. O filme não tem uma gota de alma e jamais nos agarra, contagia ou exalta. Arrisco a dizer que não há ali uma linha que o faça melhor do que a efectiva história real. É um trabalho sem risco e sem rasgo, quase documental, melancólico e antecipável, onde as âncoras emocionais soam sempre forçadas, como se estivessem ali por decreto, num cronograma invisível. Isso contaminou decisivamente a prestação dos actores, que até sugeriram estar à altura do desafio mas que não puderam remediar a escassez de liberdade e de estímulo.

Jean-Marc Vallé, outra face com trabalho de menos a falar por ele, também passa indistinto pelo filme o que, no caso de um realizador, é tanto pior. Não se percebe um conceito, não se sente agilidade, não se encontra uma grande cena. Em suma, nada que não pudesse ter sido feito por uma centena de outros. Vallé foi um tarefeiro, que se limitou a cumprir os serviços mínimos e a entregar um filme quadrado a tempo e horas.

As interpretações são melhor notícia, de facto, ainda que, ao contrário da chuva de nomeações, não me pareçam galardoáveis. McConaughey vinha de um filme divino como Mud e segurou-se dentro do possível, sem deslumbrar. É o homem simplório e pouco instruído, mergulhado nos prazeres da vida, que o universo fará carregar às costas o peso do mundo. O estilo arruaceiro e a debilidade física dão-lhe identidade, mas acabam por fazê-lo um pouco artificial. Seja como for, é sua a única grande cena do filme, num diálogo sobre o futuro com Jennifer Garner (muito má escolha de cast). Jared Leto, por sua vez, tem um papel grosseiramente estilizado, que o tornou num nomeado obrigatório desde a primeira cena que fez. Confesso que tenho dificuldade em avaliar performances tão polarizadas, mas reconheço que a sua descarnação física e mental acaba por ser importante para o filme. No global, tenho todavia de sublinhar que, mesmo sendo a circunstância de ambos tão violenta, o seu registo nunca é poderoso o suficiente para nos conseguir agredir. Que um filme destes não passe quase nada é a epítome do seu falhanço.

Dallas Buyers Club é uma grande história humana ferida pelo amadorismo de quem a executou. Condenou-se, por isso, a ficar inapelavelmente à margem de si própria.

6/10

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

American Hustle. Às vezes parece fácil


No ano passado, David O. Russell assinou aquele que muito apregoei como o melhor filme de 2012. Silver Linnings Playbook foi uma jóia de coroa, uma celebração rara do cinema comercial ao nível do que de maior se faz na Sétima Arte. Rendeu o Óscar de Melhor Actriz a Jennifer Lawrence e foi o primeiro filme em 30 anos a cometer a proeza de chancelar todas as sete grandes nomeações da Academia. A antecipação do que seria o próximo passo tornou-se, como é normal, inevitável. American Hustle confirma, um ano depois, que O. Russell é, de facto, um dos mais fascinantes contadores de histórias do grande circuito. A forma como as engrandece até onde não parecia possível que pudessem chegar, como lhes injecta vitalidade e como potencia o cast que tem ao seu dispor, se não é caso único nos dias que correm, andará muito perto disso.

American Hustle seria um filme sempre normal caso não fosse concebido por um visionário. A adaptação livre dos factos que, no fim da década de 70, levaram à prisão de congressistas e de senadores americanos, num golpe de subornos patrocinado pelo FBI, teria sempre sumo e seria fácil de fazer; o filme jamais correria tão bem, contudo, sem a extraordinária caracterização das personagens. Como nas maiores obras, a acção acaba por ser só o secundário do que ali acontece. American Hustle é um filme sobre pessoas, sobre motivações, sobre o que se queria ser e o que não se pode ter, sobre desejo e aceitação, ambição e sobrevivência e, acima de tudo, sobre o que é real num mundo de mentiras. Tem um texto estupendo a todos os níveis, no ângulo, na reflexão, na narração e nos notáveis diálogos. O argumento de O. Russell, em parceria com Eric Singer, surpreende-nos sucessivamente pelo nível até onde chega, pela intimidade e pelo realismo, e transcende em muito o filme que já estaria feito mesmo sem ele.

Para além disso, é uma obra cheia de vida. Reforço a cadência e a inteligência dos diálogos que lhe ceifam quase todos os tempos mortos, mas enalteço a cor, os ambientes, o barulho. É um filme com uma envolvência permanente, com muito movimento e muito burburinho de fundo, que abdica de concentração para nos encadear no melhor sentido. Capta notavelmente o espírito e os espaços dos anos 70, sendo burlesco, enleante, muitas vezes sensual. A câmara hiperactiva e curiosa de O. Russell faz o resto, sempre à procura de mais um palmo, sempre a fazer de conta que é o próprio espectador a perder-se na descoberta de cada nova cena. A somar isso, qual cereja no topo do bolo, o filme desfruta da playlist mais viciante do ano.

Actualmente, trabalhar com David O. Russell deve ser um privilégio para qualquer actor. No ano passado, o nova-iorquino garantiu o abuso de colocar um nomeado em cada uma das quatro categorias individuais... e, até ver, já o repetiu agora nos Globos. Christian Bale e Amy Adams são quem brilha a maior altura. Ele é uma figura peculiar, com barriga e sem cabelo, alheio a qualquer glamour, mas senhor daquele engenho extraordinário que só se aprende na rua e nos momentos de necessidade. Tem nos olhos a luz dos que sobrevivem sempre, mas jamais se distancia da sua simplicidade e do seu bom fundo. É ele quem canaliza a essência do filme, num papel riquíssimo e de empatia invejável. Amy Adams é o melhor de dois mundos, uma mulher espantosamente sensual e de recursos infindáveis para conseguir o que quer mas, ao mesmo tempo, terrivelmente vulnerável na procura por um pilar genuíno que a sustente no universo falso que criou à sua volta. Prepara-se para chegar à 5ª nomeação nos últimos 9 anos!, o que diz quase tudo sobre o seu talento.

Figuras maiores do ano transacto, Jenny Lawrence e Bradley Cooper voltam a dizer presente na etapa decisiva. Ela sobretudo, que capitaliza com o seu poderio incandescente um papel volátil e que provavelmente ficaria cingido nas mãos de alguém com um pouco menos de carácter. Cooper tem mais espaço e chega a reunir vários momentos estruturantes, todavia a certa boçalidade da personagem não o ajudou. Num elenco que era, de facto, de grandíssimo nível, ainda merecem reconhecimento Jeremy Renner, na pele do político de grande coração, vítima ingrata do momento e do lugar errados; Louis CK, que caiu como uma luva no boneco que lhe pediram; e o cameo de De Niro que, nos dias bons, continua, mesmo em cinco minutos, a ter o vulto dos gigantes.

Sacramentada por um dos mais importantes realizadores actuais, American Hustle é a oficialização da maturidade e do alcance do cinema de entretenimento, um cinema que é popular porque, acima de tudo, sabe falar sobre as pessoas. Um must.

8.5/10