quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

The Class of 92. A Ínclita Geração e o jogo mais bonito do mundo


"You always hope and think that things will happen again. But will there ever be a time where six lads who grew up from the age of 12, 13, will come through and win the treble, having supported the club? I dont think you'll ever see it again."
Gary Neville

The Class of 92 é um poço de suprema nostalgia. Do que vimos, do que nos contaram e de coisas que nem sequer sabíamos. É um tributo excepcional a uma geração tão especial de jogadores, propriedade de um futebol verdadeiramente de outro tempo. O futebol romântico, estranho à globalização, onde chegar a uma casa sem tamanho de gente e crescer até aos holofotes do mundo não era um bilhete de lotaria, mas uma probabilidade orgânica. O futebol local e pessoal, mesmo para os maiores, tão identitário dessa essência sagrada que sempre prosperou na Velha Albion, mais do que em qualquer outro sítio do mundo.

Becks, Gary, Philly, Scholsey, Butts, Giggsy. Seis miúdos amigos desde o infantário onde aprenderam a jogar à bola, que puderam passar uma vida a jogar juntos, até chegarem a Campeões de tudo, década e meia depois. O documentário intercala o perfil de cada um deles, num ângulo delicioso, em geral definido pelos outros, com as duas fases mais estruturantes do legado dos Fergie Babes. A primeira é a temporada 1995/96. O título escapara no ano anterior e Sir Alex não fez por menos: vendeu três dos seus jogadores mais simbólicos e começou a época com todos os miúdos a titulares. Foi goleado. É daí que remonta a histórica frase de Alan Hansen, de que "não se pode ganhar nada com crianças." Esse United ganharia cinco dos seis títulos seguintes. Cantona lembra com o olhar desafiante de sempre: "Nós queríamos acreditar. Tentávamos acreditar, mas tínhamos de ser realistas. Ele, contudo, sabia."


Claro que sabia. Três anos depois chegaria o reconhecimento planetário. Gary Neville diz que se pudesse voltar a viver dez dias da vida, escolheria sempre aquelas vertiginosas duas semanas de Maio de 99 em que os miúdos de Carrington, os irmãos que conhecera desde o berço, ganharam tudo o que havia para ganhar. Campeonato, Taça e a melhor final da Champions de todos os tempos. Ele e os amigos, feitos maiores do mundo. Toda a história da casta de 92 seria sempre épica em cada um dos seus filamentos. O facto do auge ter sido esse jogo profético, capaz de provar cientificamente a existência de um destino, foi só a chave de ouro do Universo.

Acho que o documentário podia ter sido ainda mais pejado de testemunhos adjacentes - faltou mais Fergie, por exemplo -, mas, no fim, não há como evitar a magia daquilo. O sorriso a cada trago, plasmado da mais sincera cumplicidade e camaradagem entre tamanhos e tão pessoalizados ícones. Ouvir que Gary Neville, da primeira vez que viu Giggs jogar, pensou que, se a medida era aquela, tinha de ir embora na semana seguinte. E que, por isso, todos os dias trabalhou mais para merecer estar lá. É esse carácter que, na opinião Beckham, levou a que todos o respeitassem tanto como capitão. Ouvir o quão incrível foi que um tipo tão franzino, lento e asmático como Scholes tenha sido um futebolista tão fascinante. 'The Ghost' era um purista, um introvertido, mas tinha as melhores one liners de sempre e eram imperdíveis as vezes em que que treinava as suas bolas a 40 metros, sempre que, em Carrington, um colega ia fazer do bosque casa de banho.

Ver a reverência com que se fala de Magic Ryan, o mais precoce e estupendo de todos. Ou como ele recorda, com um brilho nos olhos, que Beckham foi o símbolo mais mediático dessa geração e de toda a revolução cultural que a acomodou, mas que, no vestiário, nunca deixou de ser, nem por um segundo, o mais trabalhador e o mais acessível, "o velho Becks com quem crescemos". O 'Pretty Boy' que inventou o empate ao minuto 89 no Camp Nou, não porque podia ser campeão da Europa, mas porque Schmeichel tinha subido à área contrária e porque o matava se ele falhasse. Ou como Fergie o avisou de que não ia ter sempre sorte, quando marcou o seu mítico golo de meio-campo ao Wimbledon, só para Cantona rebater que "era certo mesmo se não tivesse entrado, miúdo."

De como Phill Neville era a alma e a electricidade do balneário ou como Nicky Butt era a sabedoria da rua, o sobrevivente do bairro mais difícil, e aquele que os outros levariam sempre para a guerra, sem pensar segunda vez. Ouvi-los falar dos primeiros carros, das primeiras festas e do privilégio impensável que foi viverem cada bocado daquilo juntos, numa Inglaterra efervescente que eles próprios transformaram. E vê-los, por fim, voltar ao balneário e ocupar instintivamente os seus lugares, só para Scholes e Beckham constatarem, com um orgulho mal escondido, que a meio deles ainda pendia a camisola de Giggs.

The Class of 92 é uma gema para qualquer amante de futebol. Tem um carisma vivo, arrepiante, quase difícil de acreditar. É uma peça histórica, emocional e indispensável, que isola o jogo até à partícula de Deus que o define como maior espectáculo do mundo.

8.5/10

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Inside Llewyn Davis. Os Coen voltaram a fazer magia em negro


A minha relação com os irmãos mais glorificados do mercado foi sempre de amor-ódio. Estreei-me com No Country for Old Men e fiz, pelo menos, mais dois filmes a tratá-los como um caso perdido, até ter-me deparado com a demência vagamente genial de Big Lebowski. Voltariam, depois, os chutes ao lado até que, em 2010, curiosamente na repetição da parceria com Jeff Bridges, rendi-me a True Grit e concedi-lhes, de vez, o benefício da dúvida. É difícil gostar dos Coen, até porque eles fazem muito pouco por isso, na sua escrita sempre labiríntica, auto-absorvida e non sense; acontece, porém, que a loucura e a iluminação andam não raras vezes lado a lado, e é certo que, quando acertam as agulhas, o resultado final pode ser impactante. Inside Llewyn Davis, não sendo alheio a algumas das suas idiossincrasias difíceis, é um filme a que é impossível resistir. Pelo irrecusável romantismo triste que plasma, pela alma com tanto carisma quanto cicatrizes e, definitivamente, pelo seu monumental contexto, banhado a folk dos pés à cabeça. É um filme eminentemente musical, que materializa a nível visual todo o peso, a melancolia e a aura das suas canções.
"You've probably heard that one before. If it isn't new, and it never gets old, it's a folk song."
Sou um fã supremo do estilo e, portanto, sou suspeito para avaliar um filme que o homenageia ostensivamente em todos os momentos. Quem gosta de folk precisa mesmo de ir vê-lo o mais rápido possível, mas acho que ninguém poderá ficar indiferente ao seu perfume. Só a primeira sequência, com Oscar Isaac a interpretar a uma cena inteira, sem cortes, Hang Me, oh Hang Me, de Dave van Ronk, num café-concerto subterrâneo, em lusco-fusco, é magia em estado puro e amor à primeira vista. Num registo, aliás, que lhes brota sem esforço, ninguém poderia ter executado este espírito melhor do que os Coen. O cinzentismo do seu olhar deixa-nos inevitavelmente lânguidos e cola-se-nos à pele, fazendo-nos doer tanto quanto possível a desolação do seu protagonista. As suas cidades frias, os seus planos vazios, o permanente vaguear para lado nenhum e a frustração agreste repelem-nos mas, de repente, somos presenteados com instantes como cantar numa sala de espectáculos deserta, em segundos oníricos, cristalizados e impermeáveis a tudo de mau, que nos deixam num quase transe. A esmagadora maioria das músicas do filme são cantadas integralmente e ao vivo, e pode-se bem imaginar o efeito catártico que isso causa. Não sendo preciso reforçar, Inside Llewyn Davis tem efectivamente uma banda sonora boa demais para ser verdade, uma das melhores que ouvi na vida.

A história é a de uma semana na vida de um cantor-compositor na cena musical de Nova Iorque, no início da década de 60. Llewyn Davis é um vagante, sem dinheiro, reconhecimento e quase sem abrigo, que tenta derrubar a cada novo dia o fracasso que o destino lhe prescreveu. Desengane-se, porém, quem pensa que este é um filme lírico, motivacional, moral. Não é o filme, nem nunca foram os Coen. Llewyn Davis não tem nada de poético ou sonhador. É um cáustico, orgulhoso demais do talento para mudar de vida, mas sempre amargamente consciente de que não lhe espera a sorte nem um final feliz. O resultado cativa tanto porque se sustenta, de facto, nessa ideia intrínseca de falhanço. Davis é tão notável porque não tem esperança, porque sofre com cada uma das suas canções e porque as concretiza com uma negritude e um desalento que lhe vêm do fundo da alma, num estilo onde só se pode ser verdadeiramente bom se doer o que se está a cantar.

Oscar Isaac assina uma prestação tão boa como lhe era possível pedir. Cada bocado daquilo está-lhe no sangue e custa-lhe pela vida, e não pode haver proveito maior para um actor do que impingir-nos isso de forma tão genuína. O carácter auto-destrutivo, a maneira como se desiludiu a si próprio e se despreza, as perdas de cabeça e as sujeições a quase tudo, ao sabor do vento e sem amor próprio que sobre, edificam uma das mais simbólicas prestações do ano. Num elenco capaz, Carey Mulligan também soma pontos, numa figura corrosiva que agride o protagonista ao ponto de personificar, em parte, o fel que o consome.

Inside Llewyn Davis é uma peça requintada e profunda, incrivelmente coesa na fusão entre a história contada e cantada, senhora de um bom gosto que chega a pasmar. Ter sido esquecida pelos Óscares é o tipo de humor negro que nem os Coen teriam coragem de fazer.

8.5/10

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rush. A excelência de uma crónica supera sempre o seu assunto


Mais do que acção cativante, consistente ou bem feita é, acima de tudo, um tributo. Primeiro, ao dramatismo verdadeiramente cinematográfico que eternizou o Mundial de Fórmula 1 de 1976, depois, e mais importante do que isso, à rivalidade icónica entre dois homens que marcou de forma tão profunda essa década. Rush é um autêntico desportivo de luxo, muito fácil de interessar e naturalmente popular, cuja capacidade para contar a sua história o tornou, de facto, num dos maiores produtos do ano, só idioticamente desterrado pelos Óscares.

James Hunt vs. Niki Lauda. Um incorrigível playboy inglês apaixonado pela vida e por tudo de bom que ela tem para dar, carismático, talentoso, com um carácter que o tornava único na pista. Do outro lado das boxes, um austríaco quase matemático, disciplinado em cada gesto, maquinalmente racional em cada opção, devoto à excelência em cada pormenor e obstinado com a glória. Uma rivalidade que começou pela base, nos confins da Fórmula 3, e que os levou ao topo do mundo, desafiando-se um ao outro de forma extraordinária e, com isso, todos os seus limites. Os que conhecem a história não poderão negligenciar o nível do revivalismo; os que, como eu, não desconfiavam de cada bocado do que ela envolve, jamais ficarão indiferentes. Trabalho brilhante de Peter Morgan no guião, mais um, ele que já assinou, entre outros, Frost/Nixon ou The Damn United.

Narrado por Lauda, o argumento gere de forma notável a profundidade dos personagens, emprestando densidade ao mais agreste e ligeireza ao mais simbólico, num equilíbrio que acaba por fundir-se às mil maravilhas. Com a acção e a corrida omnipresentes, a natureza do filme não é reflexiva, mas este consegue ser surpreendentemente atraente nesse campo, nas linhas fortes e na moldagem contínua dos protagonistas. E tem um mérito que, pessoalmente, ponho sempre nos píncaros: ter um fim de ouro que, em vez de se desvanecer, eleva tudo um degrau acima. A realização de Ron Howard - responsável por alguns dos meus filmes preferidos de sempre (Cinderella Man, A Beautiful Mind) - é de alto calibre, e sem ter de se evidenciar muito dá ao filme tudo o que ele precisa para fluir. É irrepreensível nas sequências de velocidade, agressiva nos momentos susceptíveis e tem uma lente sempre chamativa, muito experimentada, com que nos identificamos sem esforço.

Não simpatizo com Chris Hemsworth e ainda não foi desta que ele me surpreendeu. É facto que a sua personagem tinha traços propositadamente leves, que lhe condicionavam alguma coisa para efeitos da história, mas a figura era fácil de agarrar e de cativar. Hemsworth não está mal enquanto poster boy, como bom-vivant sempre com duas linhas espertas para dizer, mas há nele qualquer coisa de plástico a que é impossível escapar. Não é no personagem, é nele mesmo. Apesar de não ter vitimado o filme, um actor um pouco mais capaz teria facilmente feito melhor. Já Daniel Brühl faz valer plenamente o alcance do seu Lauda. Não é o homem frio que se reinventa e que, com o decorrer do filme, se passa a acarinhar. É o que se aprende, isso sim, a respeitar absolutamente, numa jornada excepcional de fazer. Compreendemos o seu primado do pragmatismo, admiramos a sua excelência competitiva e, mais do que qualquer outra coisa, o seu desígnio. Brühl tem e capitaliza um papel riquíssimo, e é outro dos esquecimentos mais ingratos da Academia.

Rush é um filme do qual é inevitável gostar. É muito fácil de seguir e de apreciar, e compõe-se com naturalidade, até darmos por ele e percebermos o quanto é um grande filme. Um obrigatório de 2013, para os fãs da modalidade e para todos quantos saibam reconhecer a excelência de uma crónica quando a vêem.

8/10

The Wolf of Wall Street. A vitalidade de Scorsese, o génio de DiCaprio e um filme que alguém se esqueceu de cortar


2013 ofereceu um catálogo vasto e multifacetado. Histórias altamente aguardadas, ideias de risco e performances de celebração bastante antecipável. Blockbusters, filmes de autor e clássicos de peso. Todo um manancial que sugeriu, contudo, uma certeza maior do que as outras: se Scorsese e DiCaprio iam entrar em campo, a coroa da pré-época era entregue ainda antes do jogo começar. 12 anos depois da primeira vez, a parceria entre os dois já era pouco menos do que um trilho gravado a ouro e pedras preciosas. De Gangs of New York a Aviator, de Departed, e do histórico primeiro Óscar de Scorsese, a Shutter Island, para mim o melhor de todos, a carteira de uma das parelhas mais icónicas do último quarto de século dispensava, sequer, considerações. O Lobo vem entrar neste palmarés como, possivelmente, o mais subjectivo dos seus elementos. É o filme mais longo (três redondas horas) e, de forma algo surpreendente, o mais arriscado. A máxima de que os dois juntos jamais podem fazer um filme mau mantém-se intocável, mas acho que, desta vez, o produto final ficou à margem do que poderia ter sido. Com uma realização admirável e uma excepcional performance individual, mas a ser incapaz de, no fim das contas, ser efectivamente um filme inesquecível.

Como é possível que um grande lead e uma grande câmara façam um filme discutível? Na minha opinião foi essencialmente um problema de conceito e considero que, de facto, se pode ser muito bom a fazer algo que devia ter sido melhor pensado. Acho que, por esta altura, já toda a gente deve ter visto um trailer, lido qualquer coisa ou ouvido algum comentário. A biografia é a de Jordan Belfort, nome histórico e excêntrico de Wall Street, um self made millionaire no mundo surrealista da especulação em Bolsa dos 90s, que viveu a sua jornada com direito a tudo - e o tudo é literal, sendo o filme fiel a isso -, até ter soçobrado numa investigação de fraude financeira, ainda precoce à catástrofe natural que aconteceria anos depois. Numa palavra, a vida de Belfort era uma overdose. De dinheiro, mulheres, carros, casas, festas, excentricidades. E de droga, claro. Muita, muita droga. Toxicodependente assumido, o seu dia-a-dia era uma permanente viagem de todas as cores e a todas as velocidades, capaz dos excessos mais brutalizantes. Foi por aí que Scorsese lhe pegou.

The Wolf of Wall Street é um filme de três horas em fast forward. Não porque passa muito rápido, mas porque tudo o que acontece em cena é esbaforido, intenso, levemente doentio. Nesse quadro de fundo, o trabalho de Scorsese é, de facto, brilhante. A vitalidade, a energia e a criatividade que um dos maiores de sempre é capaz de continuar a imprimir aos 71 anos é qualquer coisa de alucinante. A vontade de se reinventar e de arriscar não pode deixar ninguém indiferente e essa realização de desfazer o sistema nervoso rende cenas que deslumbram, desafiando a nossa concentração e correndo quase sempre à nossa frente. Isso resulta muitas vezes e, acima de tudo, é sempre muitíssimo bem executado. Ao fim de três horas, porém, torna-se um pouco auto-destrutivo.

The Wolf of Wall Street acaba por ser um filme exaustivo que, ao materializar o excesso do seu protagonista, se excede ele próprio no interesse para o espectador e no engenho da narrativa. É, em suma, um filme que gasta, que, apesar da cadência, não consegue ser importante o suficiente para justificar uma tão longa segunda metade e que, ainda por cima, é acabado de uma forma inócua demais para fazer-lhe jus. Os méritos de Terence Winter não são questionáveis (argumentista principal de Sopranos e criador de Boardwalk Empire) e a sua adaptação do livro de Belfort é óptima na caracterização do espaço, do ambiente e dos personagens. Parte substancial da própria acção é igualmente forte. No global, porém, faltou-lhe inspiração para destrinçar formalidades cronológicas da história e para acabar com o lance deslumbrante que se exigia.

DiCaprio é um monumento, ao nível do que de melhor já fez na sua prodigiosa carreira. Se o olharmos nos olhos, jamais podemos deixar de acreditar que ele é o próprio Belfort e que viveu cada bocado daquela luxúria inebriante, cada passo daquela loucura descompassada. Fora as chapas assombrantes que acumula, o que é verdadeiramente notável é a intensidade que empresta a cada um dos 180 minutos da fita, como se as pilas e as suas pastilhas nunca se pudessem gastar. É uma interpretação esmagadora e genial que o coloca, automaticamente, como o meu favorito para chegar ao Óscar que, para lá de tudo o que é racional e crível, ainda não tem. Os Globos já lhe deram um aperitivo (ainda que na ridícula partição de categorias, tenho sido o Melhor Actor... Comédia), mas agora é a vez da Academia ajustar contas com o passado. Perder para Mat McConaughey, no filme mais fácil do ano, seria uma barbaridade histórica.

Devo reconhecer que também fiquei contente com a nomeação de Jonah Hill, que os Globos esqueceram, para Secundário. Depois da primeira indicação injustificada com Moneyball, Wolf é um verdadeiro atestado de maioridade num tipo de papel muito característico, de alguém que nunca se imaginou poder vir a jogar neste campeonato. Esta crónica não estaria completa sem falar em Margot Robbie, que desconhecia, e que deve ter transtornado, no sentido mais apaixonante de todos, qualquer alma que já tenha visto o filme.

The Wolf of Wall Street é uma obra importante e com grandes predicados. Um corte a direito na última hora e um fim menos linear, quiçá num pico da história, eram a fórmula para tê-la eternizado num outro patamar.

7/10

sábado, 18 de janeiro de 2014

O pós-Globos e o pré-Óscares


Ainda não tinha havido tempo para fazer o balanço do pontapé de saída e como a temporada dos prémios não espera por ninguém, há que aproveitar a boleia para também avaliar, desde já, as nomeações da Academia. Com uma ou outra surpresa maior e as habituais desconsiderações imperdoáveis, confirma-se a ausência de um candidato que vá açambarcar estatuetas. A tendência é a de dividir para reinar. Com os Critics Choice a também já terem laureado quase um a um os vencedores dos Globos, os favoritos já não são, por ora, branqueáveis.

A cerimónia
Antes demais, voltar a Domingo e à envolvência dos Globos de Ouro. Faltaram umas quantas caras conhecidas, mas plasmou, como sempre, aquele delicioso carisma informal dos prémios, de toda a gente na mesa e de copo na mão, a fazer conversa cruzada, a sorver o ambiente e a rever amigos, mais do que a fazer contas ao que se ganha e ao que se perde. Aquele que, no fundo, sempre foi e continua a ser o seu traço mais marcante. O alto da noite foram os discursos. Os Globos 2014 tiveram um dos melhores conjuntos de aceitações de que me lembro, com DiCaprio acima de todos, mas igualmente com McConaughey, Jenny Lawrence e Amy Adams, Amy Poehler e Breaking Bad. O hosting, pelo contrário, esteve à margem de outras noites e, sobretudo, do que Tina Fey e Poehler tinham feito no ano passado. Com duas ou três grandes tiradas, mas com um registo abertamente morno e baço, a soprar o fantasma de Gervais a cada curva.


Slave e Gravity racharem prémios por linhas tortas
Era antecipável que acontecesse, mas saiu exactamente ao contrário de como desejava. 12 Years a Slave levou o prémio mais ambicionado da noite - que já repetiu no Critics Choice - e confirmou-se como favorito ao Óscar, chancelando Alfonso Cuáron o prémio individual. A ironia é que, se na Realização, Steve McQueen foi melhor mas a vitória de Cuáron será sempre inatacável, já no plano fílmico, Gravity é necessariamente superior a Slave. Como, de resto, já é normal nestas alturas, a adoração a que a elite da crítica votou este último, e que o carregará até ao dia D, dá-me um nó ao discernimento. Atentando, por sua vez, à corrida a melhor filme da Academia que lhe sucedeu, destacar uma decisão integralmente incompreensível: deixar Rush à porta quando, não só é melhor filme do que metade dos nomeados, como só foram ocupados nove dos dez lugares possíveis nas indicações...


Os anéis de American Hustle
A nova jóia de David O. Russell foi a mais lucrativa da cerimónia de Domingo e, a meio da semana, não fez por menos, repetindo o feito histórico alcançado por Silver Linings Playbook no ano passado: as sete grandes nomeações da Academia. 30 anos depois, O. Russell garantiu-o duas vezes seguidas!, fazendo o absurdo de repetir o melhor filme do ano e de confirmar, para lá de qualquer dúvida, o seu toque de Midas. Isso tudo e a grande forma de Hustle deve, ingratamente, ser relativizada. A vitória em Musical/Comédia só foi possível pela partição de categorias dos globos, o mesmo valendo para o triunfo de Amy Adams. Não têm ambos hipóteses nos Óscares. Só Jenny Lawrence assumiu, de facto, uma candidatura efectiva à segunda estatueta consecutiva. Pessoalmente, Hustle arrebatou três globos mas a história da noite conta-se com a dolorosa derrota em Argumento Original, no qual acreditava piamente. Her, de Spike Jonze, venceu e já acumulou, igualmente, o Critics Choice, deixando meio caminho feito. Como ainda não vi, vou evitar destilar ódio com convicção, para já.


O fenómeno Dallas Buyers
Se a propensão por Jared Leto era evidente, já a vitória de Mat McConaughey foi uma surpresa boquiaberta. A minha opinião sobre o filme já a deixei bem explícita: papéis extremamente polarizados, com o clamor por prémios colado à testa mas que, preto no branco, ficaram a muitas milhas do que podiam ter feito. Para mim, tanto num caso como noutro, a sugestão da sua figura real, e não o que fizeram efectivamente, tem sido a medida do seu reconhecimento. Escusado será dizer que olho para Dallas Buyers Club como o cavalo de Tróia do ano e ainda me custa a acreditar no estrago que pode vir a causar. Em particular, ao tirar autenticamente das mãos de DiCaprio o seu - e é surreal escrever isto - primeiro Óscar. Mas também pela naturalidade com que já se atesta a derrota de Fassbender em Secundário, numa exibição terrivelmente superior.


O desterro de Captain Phillips
Não era um candidato "para ganhar", mas nada justifica o grosseiro desprezo da Academia. Que Tom Hanks tenha ficado fora da corrida a Melhor Actor é, sem margem para questões, o absurdo do ano. Pondo-o de uma forma simples, a sua última cena, apenas, é mais nomeável do que somado aquilo que fizeram McConaughey e Ejiofor. É de um patamar alheio a um ano ou a um filme que correu bem, coisa a que só muito poucos têm capacidade de chegar. Do mesmo modo, em Realização, parece-me que Paul Greengrass não podia ter sido esquecido. A sua direcção é intensa e cirúrgica, temporizada brilhantemente e fulcral para o resultado final. Salvou-se, ao menos, a indicação para Melhor Filme.

  
O adeus quase pleno de Breaking Bad
Em ano de despedida, Breaking Bad ganhou a noite televisiva no Beverly Hilton Hotel, como se esperava, com aqueles que foram, apenas, os seus dois primeiros globos. Todavia foi assaltado onde jamais poderia: Aaron Paul passou amargamente à História sem ganhar um prémio que merecia por decreto, mais do que qualquer outra pessoa naquela sala. Robin Wright, por sua vez, marcou justamente o ponto de honra de House of Cards.

A escalada vai continuar até 2 de Março, com os prémios de todos os Sindicatos e os BAFTA.Tempo para saldar as contas que faltam e avaliar o alcance de Nebraska, Her, Philomena e Osage County, e o esquecimento de All is Lost e Inside Llewyn Davis.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Globos 2014. O telegrama


Com toda a pompa e com toda a circunstância, os Globos de Ouro darão, como sempre, o luxurioso mote a mais uma viciante temporada dos prémios grandes do cinema. Daqui a pouco, no salão de festas do Beverly Hilton Hotel, começará a ser escrita a crónica de um 2013 generoso e marcante. Vamos, então, a ele, em jeito de bloco de notas:

- Gravity sobre 12 Years a Slave, pelo conceito inovador, pela criatividade, pela densidade do seu ideário e pela experiência cinematográfica. 12 Years é um clássico instantâneo, executado brilhantemente, mas sempre mais majestático do que cativante.

- Tom Hanks sobre Chiwetel Ejiofor, não para pungir a implicância, mas porque Hanks fez o filme ao nível dos velhos tempos e Ejiofor foi feito por ele, jamais conseguindo transcender o personagem.

- Sandra Bullock sobre Cate Blanchett, não porque esta não tenha tido uma performance admirável, tão genuína na forma como agarrou a escrita de Woody Allen, mas porque o alcance bestial de Bullock foi demasiado significativo para que passe em claro.

- American Hustle sobre The Wolf of Wall Street, já que, pese a vitalidade de Scorsese e o festival de DiCaprio, o contrário seria um escândalo. Wolf é bom mas só de uma forma exaustiva, Hustle é irresistível e contagiante, espectacularmente bem escrito, com uma grande realização e performances ainda melhores.

- DiCaprio sobre Chris Bale, porque ficando rendido a Bale, DiCaprio é pornograficamente bom.

- Amy Adams sobre Julie Delpy. Ficava contente se os Before se despedissem com um grande prémio, mas Adams foi claramente superior.

- Michael Fassbender sobre Jared Leto, para premiar a verdadeira e palpável excelência interpretativa, e não um papel que, no fundo, se cozinhava a si próprio.

- Lupita Nyong'o, por merecimento, ainda que nunca ninguém me verá escrever que Jennifer Lawrence não justifica qualquer prémio do sistema solar.

- Steve McQueen sobre Alfonso Cuarón, David O. Russel e Paul Greengrass, na categoria mais notável da noite, porque, não tendo feito o melhor filme assinou, com um requinte inacreditável, uma obra-prima estética.

- American Hustle para Argumento. Porque, caso contrário, a Associação de Imprensa Estrangeira merece uma bomba. 

- Na Televisão, racional era que House of Cards e Breaking Bad dividissem Melhor Drama e Melhor Actor. Porque Breaking Bad é o colossal obrigatório, mas pelo carisma, pela novidade e pelo génio de Cards.

- Vou deixar escrito "Masters of Sex", pela ingratidão que era não falar dela nesta hora. Aliás, conto que ainda vão a casa de Lizzy Caplan entregar-lhe o Globo de Melhor Actriz, justificando com um erro técnico a sua idiótica ausência nas Nomeações.

- Zooey Deschanel com um ano de atraso.

- Aaron Paul, compulsiva e absolutamente.

- E, finalmente, aplaudir de pé o Cecil B. DeMille Award para Woody Allen. Ele não quer saber, mas nós ficamos orgulhosos na mesma. E matamos saudades de Diane Keaton.

A partir da meia-noite, num canal que aparentemente se chama SIC Caras.

O teste do tempo



"I will survive. I will not fall into despair. I will keep myself hardy until freedom is opportune" 
Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), 12 Years a Slave 

É uma das frases da ordem, em noite de Globos de Ouro, e tornou-se insistente durante o derby. É que, de forma improvável, também consegue lê-lo a uma luz especial. Ver o que o Benfica jogou hoje é a constatação de como a paciência é mesmo uma das virtudes mais determinantes no futebol, como na vida. O Benfica passou os últimos três anos a ser humilhado pelo rival de todas as formas a que a imaginação permitiu chegar, perdendo os jogos fáceis, os jogos difíceis e todos os outros pelo meio. Foi uma equipa muito boa quase sempre, mas assombrada de cada vez pela ideia de que essa capacidade não era mais do que pó no vento. Um onze digno e esforçado, que se tentou sempre abstrair desse medo, mas que, por melhor cara que tenha feito, jamais se conseguiu dissociar do mau pressentimento que lhe gritava aos ouvidos que a morte estava ali, à espera, ao virar de cada próxima esquina.

Cada um terá a sua opinião sobre a continuidade de Jorge Jesus. Eu acho que ela não fez sentido. O facto é que o treinador do Benfica sobreviveu. Contra quase tudo e averso à razão que, na magia negra do pontapé de Kelvin, lhe explicou que já não valia a pena, Jesus subsistiu agarrado à ilusão da oportunidade que estava para vir. Como um jogador de poker que viu as fichas esvaírem-se como sangue, mas que sabia ter de esperar pela sua jogada. A sua mão, poderosa, decisiva e indiscutível, e que não chegaria nem um momento antes, nem um momento depois. Jesus teve hoje um dos seus melhores jogos de sempre pelo Benfica, não porque esfacelou o adversário, não pela nota artística, não porque isto defina alguma coisa, mas porque provou que era possível. Porque teve de ir ao Inferno primeiro, mas soube enxergar o seu momento quando ele chegou.

O Porto esteve bem nos bastidores. Durante a semana, os media proclamaram o histórico recente entre ambas as equipas, como se fosse necessário. Vítor Pereira veio reiterar a maneira como conseguia agredir o jogo adversário e como esse tinha sempre de mudar por causa dele, e Paulo Fonseca provocou ao dizer que Jesus não teria coragem de entrar com dois avançados. O Benfica ganhou pela forma como soube estar perante tudo isso desde que entrou em campo. O Porto está mais fraco, é evidente que sim. Bluffou como devia mas apanhou pela frente um adversário calejado a ferro e fogo que, mais do que não o temer, nunca o respeitou.

Isto não é o mesmo que dizer que o Benfica só podia ganhar a um Porto 'diminuído'. É que esse é um estado discutível, como a História o evidencia fartamente, e porque, se cada equipa tem idiossincrasias, a do Benfica era não ganhar por decreto. Esta é, pelo contrário, uma crónica de mérito, sobre a vitória inegável de quem, tendo um uma memória recente tão corrosiva, soube fazer acontecer em campo a sua superioridade, algo muito mais difícil do que pode parecer à primeira vista. Enzo e Matic foram perfeitos, nesse duplo-pivot de sonho em vias de ser destruído, como foram determinantes Luisão e Gaitán.

Já sobre o mais estupendo de todos, permito-me ao parágrafo só para escrever: Lazar Markovic. O resto é para quem viu.

Claro está que as equipas não jogam sozinhas e que as vitórias dificilmente se fazem só do merecimento de quem as ganha. Mesmo que venha a ser campeão, acto que os registos consideram provável, Paulo Fonseca deixou hoje demasiado a nu tudo o que lhe falta para estar a este nível. Já falei aqui dos restantes dilemas conjunturais que rodearam a equipa nesta época, mas tudo isso é chutado para plano de fundo se virmos o que o Porto não jogou hoje na Luz. Aliás, nessa antítese, o seu único mérito foi conseguir que o rival também não jogasse durante uma parte (num jogo monstruoso de Fernando, o tipo de jogador que já vem com chip para poder jogar alheio às insuficiências que o ladeiem). O Porto foi macio, desencantado e perdido, tanto como o olhar baço e os braços cruzados do seu próprio treinador. Não teve uma solução para criar, jamais desequilibrou e saiu da Luz com uma anoréctica oportunidade de golo. Fonseca foi o pastor de um constrangedor rebanho de sacrifício e, avaliando o que têm sido os Benfica-Porto, isso fala de tudo alto demais.

A corrida ao título é finalmente primeiro-mundista e isso é uma boa notícia para todos, ainda que hoje, como é bom enaltecer sempre, não se tenha ganho nem perdido nenhum campeonato. Para os adversários do Benfica, porém, é impreterível ter bem presente que alguém acabou de superar o mais terrível de todos os seus traumas.