quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

True Detective. Não é tão boa como ouviram dizer


Nos últimos meses, a série dedicou-se a coleccionar lideranças em listas das mais esperadas do ano. A história de dois detectives da América sulista na pista de um serial killer não esbanjava novidade nem sedução, mas o selo da HBO e a recruta de Matthew McConaughey e Woody Harrelson, ambos em fases douradas das respectivas carreiras, criaram o aparato, alimentado por bons trailers e vastamente sancionado pelas primeiras críticas. No início de Janeiro, o episódio inaugural não fez por menos e despojou A Guerra dos Tronos como abertura mais vista de sempre da HBO. Da minha parte, sou forçado a constatar que não, True Detective não é assim tão boa como ouviram dizer. Na sua tonelagem gótica e incrivelmente própria, é muito melhor do que isso.

Não é, porém, um amor instantâneo, porque primeiro estranha-se. À cabeça, True Detective é algo como uma martelada arrogante de modos e de conceitos. Uma série provocadora, no sentido em que não faz nada para que gostemos dela. É propositadamente pesada, estranha, desconfortável. Não ficamos convencidos à partida e o instinto é achar que não vai ser suficiente. Demora-se, é violentamente sombria e repele-nos com a pretensão da sua filosofia. Certo é que, quando damos de conta, já estamos completa e magneticamente colados. True Detective é um objecto perverso porque nos ressaca antes de viciar, contagiando-nos de um jeito inapelável para o seu vórtex de negrume, como quando se olha para um abismo. Aí, já não conseguimos parar de olhar. Não podemos e já não queremos.

A série é dos produtos mais idiossincráticos de que me lembro. No fim de contas, a verdade é que tem uma magia e uma proposta bestiais. Uma sedução tão elegante quanto perigosa, que não sabemos recusar. A primeira temporada tem um único realizador, portanto a fidelidade de conceito foi salvaguardada. Assina Cary Fukunaga, um jovem de 36 anos e curta carreira, mas já premiado em Sundance (Sin Nombre, 2009) que, até ver, tem feito um trabalho no limite da perfeição, na recriação paralela do obscurantismo do caso, do ambiente e daqueles que o fazem.

Como era inevitável, a narrativa também transborda as medidas, sendo o elemento-chave a forma brilhante como sabe vender a história. Primeiro na criatividade das timelines: a trama de um serial killer e dos dois detectives que o apanharam é contada num intervalo de 17 anos, com os flashbacks a serem dois terços da acção, mas com o halo a manter-se transversal a tudo; depois, no requinte cirúrgico do que se concebe. Tudo é executado num conta-gotas magistral, cheio de segredos e insinuações, de pistas e ilusões, que torna quaisquer momentos normais em instantes tensos, cinematográficos e, no limite, imprevisíveis, que nos estimulam até à medula. Mesmo quando não acontece nada, tudo vale a pena, e uma série capaz de impressionar tanto com a mera sugestão do que pode fazer, é sempre uma série especial. O criador e showrunner é Nic Pizzolatto (38 anos), um ex-professor universitário e romancista em estreia absoluta nestas andanças, e que não podia ter inventado forma melhor de o fazer.


Falei no cast de início e os galões não ficam, de facto, por mãos alheias. Se dúvidas houvesse, Mat McConaughey está mesmo no período mais glorioso da sua vida profissional. Depois do melhor filme da carreira - o estupendo Mud, estreado em Sundance há ano e meio -, do Globo de Ouro por Dallas Buyers e do mais que antecipado Óscar, o texano arrisca-se bem a ir buscar uma tripleta extraterrestre com um Emmy no fim do Verão, a continuar por este andar. O seu Detective Rust Cohle é difícil de descrever, o que, neste caso, é efectivamente uma coisa boa e, sem volta a dar, a trave-mestra que eleva tudo o resto. É um misto entre polícia obcecado e homem destruído, entre compromisso com o trabalho e uma filosófica falta de rumo e assombração, puro nos gestos mas indecifrável no resto. Uma figura que despeja génio, daquelas que, mesmo num dia mau, seria capaz de impressionar qualquer um à sua volta, sem esforço. Que deslumbra e assusta na mesma medida, como um velho ancião a contar as lendas e as profecias da sua vida. Parte da acção é exactamente isso: ele sentado a uma cadeira, velho, desfeito, gasto e consumido por 20 anos de uma demanda. O poder que irradia nesse estado é tudo o que há para dizer sobre o seu momento de graça.

Woody Harrelson, todavia, não pode ser descurado. Mantém a máxima de que não sabe fazer nada mal e nunca é um secundário na verdadeira acepção da palavra, pelo carácter, pela omnipresença em todos os pontos essenciais, pelo contra-peso. É uma personagem muito empática pela humanidade latente, pela sobriedade, pela forma genuína e honesta como reage às coisas, mesmo que nunca seja imaculado. Como era de querer, fazem uma parelha tão fracturante em cena como ideal fora dela. A fechar o leque está a cativante Michelle Monaghan (Gone Baby Gone, Source Code), mulher de Harrelson, que empresta expressividade à história e serve de pêndulo ao ambiente e à própria relação entre os protagonistas.

A série tem a particularidade de ser uma antologia, o que significa que a segunda temporada terá sempre realizador, argumento e protagonistas diferentes. Com 8 episódios, a ordem é, portanto, aproveitar o maná enquanto ele cai do céu, coisa que, até ver, tem correspondido religiosamente a cada semana. True Detective é o primeiro grande acontecimento do ano e, acredito, um que ficará muito para além dele.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Breaking Bad. A supra-série


Ponto prévio: Breaking Bad não é uma das séries da minha vida, portanto estou particularmente à vontade para o que vou escrever a seguir. Curiosamente comecei-a a ver no fim da segunda temporada, bem antes do furor que a envolveu no final. Foi nessa altura que estabeleci com Breaking Bad todos os laços verdadeiramente estruturantes da nossa relação. À partida, e independentemente do meu gosto ter apontado a outros registos, há uma verdade inelutável sobre ela: ninguém que a tenha visto pode dizer, em consciência, que algo daquilo é mau.


À cabeça é, sem grande esforço, a série mais extraordinariamente bem realizada que já vi. Ao contrário do cinema, onde o realizador é sempre uma peça fulcral, as séries têm essa nuance de fazerem-nos parecer secundários. A longitude e o alcance da acção são o que marca, e a câmara é muito mais impessoal, ao ponto de parecer que qualquer um a pode fazer. Não aqui. A realização foi sempre uma parte insubstituível do conceito da série. Devota, cheia, com o dom de canalizar ela própria a mensagem que se estava a passar. Os planos imensos e os silêncios vazios do Novo México desértico, a sua opulência grave e majestática e a forma cirúrgica e perigosa como lidou com os momentos de escalada nervosa, tornaram-na numa absoluta imagem de marca. Se Breaking Bad teve o nível que teve, deve-o, entre todo o resto, à sua coesão e compleição.


Fora o conceito e a direcção, o texto conseguiu ser extraterrestre. Costumo dizer que é fácil identificar um grande argumento quando o vemos, mas Breaking Bad foi o tipo de texto que nem dava para ver chegar. Há episódios que não são bons, são outra coisa qualquer, uma espécie de antimatéria que não sabemos de onde veio, que não faz particular sentido, que não contribui para o evoluir da acção, mas que não é menos do que arte em estado puro. E vai daí, num rasgo subliminar, até tinha tudo a ver com qualquer coisa e o resto do tempo passávamos só a tentar entender como raio alguém foi bom o suficiente para o concretizar assim. Vince Gilligan merecia que, de cada vez que Breaking Bad fosse lembrada, dissessem sempre o seu nome.


Ninguém que a tenha visto pode dizer, em consciência, que algo daquilo é mau. E, no entanto, não me foi suficiente durante tempo que baste. Como uma mulher perfeita, que tem tudo, que é um par ideal, mas que não tem o je ne sais quoi. Vi as duas primeiras temporadas e depois parei. Breaking Bad cansava-me. Era quase sempre boa quando a via, mas era igualmente uma experiência exaustiva. Arrastada, contemplativa, pretensiosa. Compensava, mas aquela química para seduzir-nos ao ecrã, para passar-nos o que não se mede, o que não pode ser executado por uma grande lente, um grande guião e por grandes actores, tendia a rarear. De uma forma ou de outra, acho que lhe faltou isso até ao fim. Uma vulnerabilidade no seu castelo de gelo, algo que pudéssemos assimilar, outra maneira de falar ao espectador. Não sei se me faço entender, ou se mais alguém o partilha, mas tenho pena que a série nunca me tenha inspirado mais. Não no sentido chorável do termo, mas no domínio pessoal. Impressionou, agrediu, deslumbrou, chocou. Mas, seja por fidelidade ao conceito, admito isso, seja por défice de humanidade (com a eterna excepção às costas de Aaron Paul), ficou-me a essa margem.


Escrevo isto porque, como é bom de ver, depois do frenesim da despedida, forcei-me a voltar a ela. As percepções que tinha mantiveram-se até ao fim, mas as primeiras até aumentaram. Breaking Bad foi-se sempre reinventando para melhor. Teve o mérito de nunca se aligeirar, de nunca acomodar-se à sombra dos louros alcançados. O negrume inumano que veio a atingir, a crueldade, o desamor, a amoralidade e o castigo foram de um nível a partir do qual não é possível fazer melhor. A série fez uma escalada corajosa a pulso de ferro, desafiou-se constantemente a si própria e acabou em zénite. Não há nada que possa respeitar numa mais do que isso.


Quando acabou, Sir Anthony Hopkins definiu o cast como o melhor conjunto de actores que vira na vida. Sem tornar isto exaustivo com os secundários (vénia inteira a Dean Norris e Jonathan Banks), o alcance do que fizeram Bryan Cranston e Aaron Paul foi, de facto, hipnotizante. Cranston viveu um lead eterno que dispensa considerações e que passará à História como um símbolo cultural. Aaron Paul, todavia, foi quem sacou os mais absolutamente geniais bocados interpretativos de tudo o que se fez, coisas tão incrivelmente boas que mereciam que aquilo se visse só por causa dele. A ocasional falta de mística valeu para tudo, menos para ele. Nunca para aquele coração colossal, da cabeça aos pés. Que não tenha chegado a ganhar o Globo de Ouro é uma injustiça de todos os tempos.

 

Breaking Bad não é uma das séries da minha vida. Por isso, é tanto mais importante deixar claro que é uma das verdadeiramente melhores que já vi. E no fim tomou-me, de facto, e consumiu-me como um viciado, esmagando-me no gigantismo da sua tragédia. Acabada que está, não me perdoaria se não lhe prestasse esse reconhecimento. Se não deixasse claro que, no fim do dia, não é uma série que tenha a ver com gostos ou com estilos, porque isso não passam de notas de rodapé ao seu carácter obrigatório. Breaking Bad é tão necessária como ler um clássico, com a diferença de que, no futuro, vão-nos invejar por ter sido seus contemporâneos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Um natural


A morte agride-nos sempre. A pessoal, claro, mas, com contornos particulares, a mediática. Pela proliferação de testemunhos, pelo bombardeamento de pêsames, pela malha globalizante de reconhecimento. Vimos todos isso nos últimos meses, infelizmente, a contar dos mais diversos quadrantes. Não comparando o que não é comparável, devo dizer que hoje foi um dia especialmente triste. Não foi um estadista que morreu, um desportista da nação ou um James Dean. A partida, porém, de um talento tão extremo, e ainda tão estupidamente novo, doeu como uma bastonada no crânio. Ver, não acreditar e depois haver qualquer coisa de físico nessa repulsa e nessa negação.

Philip Seymour Hoffman não era um ícone. Não era um tipo romanceável, nem era sequer, na maior parte do tempo, o papel principal. Não era camaleónico, excêntrico, nem era um incendiário. Tinha um registo muito próprio, o tipo baixo, com barriga, rosáceas e olhos piscos, ora brusco, pouco galante, nem sequer dócil, tantas vezes impessoal. Seymour Hoffman não era muitas coisas mas era, definitivamente, alguém que já nasceu para fazer aquilo. Ao olhar para ele, acho que podíamos garantir que não foi precisa nenhuma motivação para ser actor. Que não teve de crescer aos poucos, educar-se, proteger-se, procurar um nicho. Seymour Hoffman era daquela casta dos que, nem um dedo tivessem de levantar, e convenceriam-nos de todas as vezes. Com esse manto de genuinidade a grosseira maioria apenas pode sonhar.

O que sempre me fascinou nele foi isso: o impacto aliado à falta de esforço. Não no sentido diletante do termo, mas como fruto lógico da sua monstruosa qualidade. Hoffman actuava com o automatismo de um pintor a criar, de um músico a compor, como se toda a sua vida tivesse sido aquele guião, sem nada de alheio ou de plástico e, mais importante, sem nunca perder a espinha da sua identidade. O carácter verdadeiramente excepcional, a autoridade da presença e a elegância do seu carisma estiveram sempre lá. Sempre. Há boas e más performances, papéis em cheio e casts infelizes. Hoffman era uma daquelas batotas para qualquer realizador, um jogo que ele tornava viciado por fazê-lo tão invariavelmente melhor. Não era só uma mais-valia para o filme, era uma razão em si própria para ir assisti-lo.

Tenho-lhe tamanha consideração e ainda me faltam ver alguns dos seus trabalhos mais substanciais. Um punhado que, sorte egoísta a minha, me fará reafirmar a brutalidade de talento que se perdeu, mas que, infelizmente, nunca poderá compensar tudo o que, com certeza, ter-nos-ia vindo a chegar. Fico com o meu top3, que reflecte, de certa maneira, as suas pequenas coisas. Hoffman teve papéis mais técnicos e mais estilizados que o levaram justamente ao reconhecimento da Academia, mas os meus três são filmes suaves, submersos na sua essência. No carácter, no ideário e no carisma. Filmes que o eternizam como um poeta áspero, um senador que aparentava ser difícil, mas que era só espectacularmente reverenciável. Filmes que o celebram com a aura que ele sempre carregou. Charlie Wilson's War, The Ides of March e The Boat that Rocked. Neste último, sobre um barco que serviu de rádio-pirata à Inglaterra conservadora dos anos 60, uma das suas frases mais memoráveis foi "we're never gonna die". Hoje, inconformável é que ele já não possa viver o suficiente.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

The Hunger Games: Catching Fire. A confirmação


Em 2012, o antecipado capítulo inicial da saga de Suzanne Collins surpreendeu muito boa gente. Bem realizado e bem construído, com um cast inteligente e a mais brilhante escolha de lead possível, The Hunger Games sugeriu, desde logo, que vinha para ficar e para levar a sério. Não era só um blockbuster bacoco, um Twilight desta vida. Demonstrou ser um filme com densidade carismática e com uma história alicerçada num ideário maior que, apesar de ser juvenil, e de explorar assim o seu romance, fazia crer, sem esforço, que era muito mais relevante do que isso. Catching Fire veio nivelar essa ideia por cima e confirmou definitivamente a franchise como a mais significativa do mercado actual.

Tecnicamente, a execução continua a ser irrepreensível. Efeitos generosos, muita agilidade na acção, boa banda sonora. Mais do que isso, tendo em conta que tanto daquilo é criado digitalmente, acaba por ser admirável a sua humanidade e a fiabilidade dos grandes planos, da modéstia doce de um bosque ao pôr-do-sol aos anfiteatros da Capital, dos cenários pós-apocalípticos da Resistência a uma festa palaciana digna de um Gatsby. Era fácil que o filme passasse por artificial ou excessivamente plástico e não é isso que acontece, pelo equilíbrio e pelo bom gosto a doseá-lo. Mérito de Francis Lawrence, já habituado a filmar cenários distópicos (I am Legend), e que me parece ter superado um trabalho que Gary Ross já tinha feito muito competente na estreia.

O traço mais evidente da maioridade do filme a todos os níveis, do seu crescimento transversal, é, no entanto, a adaptação de argumento. É da história original que tenho medo e na qual considero poder estar a sua mais inevitável fraqueza - falarei disso abaixo - mas, em todo o resto, o input da dupla de peso contratada - ambos vencedores de Óscar, Simon Beaufoy (Slumdog Millionaire) e Michael Arndt (Little Miss Sunshine) - foi impactante. Catching Fire, mesmo sujeitando-se a uma quase repetição da narrativa principal, é um filme mais sério e mais poderoso do que o seu antecessor em quase tudo. É mais desconfortável, mais triste, mais perigoso. Mas igualmente mais real, mais espontâneo, eminentemente mais cativante. O medo e o segredo prosperam, a rebelião insinua-se e tudo parece mais à flor da pele, mais vivido, mais imediato. Isso nota-se, inclusive, nas peculiaridades do triângulo amoroso, agora muito mais interessante do que no início.

É curioso que a fórmula-base não tenha nada de novo. Aliás, o registo do herói icónico que se vai prestar a derrubar um Império do mal deve ser o mais batido em toda a história das grandes sagas. Sucede que as coisas são, de facto, muito bem feitas. É uma fórmula comprovadamente de sucesso mas que sabe encontrar o seu espaço, ser crível e cativante, e levar-nos consigo. O filme é muito simbólico e é difícil resistir a isso. O pin do tordo ostensivamente elevado nos meandros da clandestinidade, o léxico próprio (The odds are never in our favour), toda essa carga contextual, apela-nos, de facto, ao instinto de sobrevivência, de luta e de Revolução que já nos vem entranhado na genética, e vicia-nos. A cena em que, ainda na primeira meia-hora de filme, um velho silva o tordo no meio do silêncio da multidão, enquanto faz a saudação de três dedos, é monumental e arrepiante, e cristaliza numa sequência perfeita o tom de tudo o resto.

Depois, claro que ter Jennifer Lawrence, se não resolve os problemas todos, pelo menos ajuda bastante. Aos 23 anos, encontra-mo-la no topo do mundo - primeira lead feminina a reclamar a coroa da box-office em 40 anos e, ao mesmo tempo, candidata de peso a um segundo Óscar consecutivo -, e ninguém que a veja em cena pode deixar de perceber porquê. Lawrence é uma predestinada, que parece já ter nascido a fazer aquilo. A forma como vive qualquer cena da mesma forma, de um blockbuster a um filme de autor, como parece sempre na iminência de perder o controlo, com o coração na boca, até à facilidade para se vulnerabilizar e, logo depois, superar, é todo um manual que se escreve sozinho. Neste momento, já a tornou num ícone automático e quem a escalou devia estar a agradecer ao céu todos os dias.

De qualquer forma, e ao contrário do que é regra nestes filmes, todo o cast esteve a um nível extremamente bom. Saliento, em particular, Josh Hutcherson, num papel suave, que não costumo apreciar, mas a que ele empresta uma generosidade e um compromisso desarmantes. Beneficia-o, igualmente, o termo de comparação com Liam Hemsworth, de longe, o elemento mais fraco de todos. Woody Harrelson está ainda melhor do que no primeiro, e confirma-se como estruturante, sendo essa tendência acompanhada por Donald Sutherland e Lenny Kravitz. O gigante Philip Seymour Hoffman foi, evidentemente, uma grande ideia, e ainda merecem referência Jena Malone e Sam Claflin, secundários de grande nível que vieram trazer química grupal à história e que aumentaram ainda mais o alcance que ela pode vir a assumir.

Para o fim, fica o calcanhar de Aquiles: The Hunger Games continua a ser completamente incapaz de fazer um sacrifício ou de tomar uma única decisão verdadeiramente difícil. O filme especula com muita violência e com muito tormento, mas depois não consegue concretizar seja o que for nesse aspecto. O cúmulo é, como se pode imaginar, a competição propriamente dita, pela qual os protagonistas passam com uma leveza permanente e um lirismo desconcertante. Fazerem religiosamente a coisa certa e passarem sempre incólumes, sem nada que os agrida de forma irremediável, é algo que fere o filme de uma descredibilização que não é passível de contornar. Não li os livros e, portanto, estou a falar completamente no escuro. Mas estas palavras de George Martin continuam a ser doutrinais. Se, no seu último capítulo, a história não for capaz de provar a coragem para tomar decisões difíceis, Os Jogos da Fome ficarão sempre à margem do patamar notável onde teriam definitivamente condições para chegar.

7.5/10

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

The Class of 92. A Ínclita Geração e o jogo mais bonito do mundo


"You always hope and think that things will happen again. But will there ever be a time where six lads who grew up from the age of 12, 13, will come through and win the treble, having supported the club? I dont think you'll ever see it again."
Gary Neville

The Class of 92 é um poço de suprema nostalgia. Do que vimos, do que nos contaram e de coisas que nem sequer sabíamos. É um tributo excepcional a uma geração tão especial de jogadores, propriedade de um futebol verdadeiramente de outro tempo. O futebol romântico, estranho à globalização, onde chegar a uma casa sem tamanho de gente e crescer até aos holofotes do mundo não era um bilhete de lotaria, mas uma probabilidade orgânica. O futebol local e pessoal, mesmo para os maiores, tão identitário dessa essência sagrada que sempre prosperou na Velha Albion, mais do que em qualquer outro sítio do mundo.

Becks, Gary, Philly, Scholsey, Butts, Giggsy. Seis miúdos amigos desde o infantário onde aprenderam a jogar à bola, que puderam passar uma vida a jogar juntos, até chegarem a Campeões de tudo, década e meia depois. O documentário intercala o perfil de cada um deles, num ângulo delicioso, em geral definido pelos outros, com as duas fases mais estruturantes do legado dos Fergie Babes. A primeira é a temporada 1995/96. O título escapara no ano anterior e Sir Alex não fez por menos: vendeu três dos seus jogadores mais simbólicos e começou a época com todos os miúdos a titulares. Foi goleado. É daí que remonta a histórica frase de Alan Hansen, de que "não se pode ganhar nada com crianças." Esse United ganharia cinco dos seis títulos seguintes. Cantona lembra com o olhar desafiante de sempre: "Nós queríamos acreditar. Tentávamos acreditar, mas tínhamos de ser realistas. Ele, contudo, sabia."


Claro que sabia. Três anos depois chegaria o reconhecimento planetário. Gary Neville diz que se pudesse voltar a viver dez dias da vida, escolheria sempre aquelas vertiginosas duas semanas de Maio de 99 em que os miúdos de Carrington, os irmãos que conhecera desde o berço, ganharam tudo o que havia para ganhar. Campeonato, Taça e a melhor final da Champions de todos os tempos. Ele e os amigos, feitos maiores do mundo. Toda a história da casta de 92 seria sempre épica em cada um dos seus filamentos. O facto do auge ter sido esse jogo profético, capaz de provar cientificamente a existência de um destino, foi só a chave de ouro do Universo.

Acho que o documentário podia ter sido ainda mais pejado de testemunhos adjacentes - faltou mais Fergie, por exemplo -, mas, no fim, não há como evitar a magia daquilo. O sorriso a cada trago, plasmado da mais sincera cumplicidade e camaradagem entre tamanhos e tão pessoalizados ícones. Ouvir que Gary Neville, da primeira vez que viu Giggs jogar, pensou que, se a medida era aquela, tinha de ir embora na semana seguinte. E que, por isso, todos os dias trabalhou mais para merecer estar lá. É esse carácter que, na opinião Beckham, levou a que todos o respeitassem tanto como capitão. Ouvir o quão incrível foi que um tipo tão franzino, lento e asmático como Scholes tenha sido um futebolista tão fascinante. 'The Ghost' era um purista, um introvertido, mas tinha as melhores one liners de sempre e eram imperdíveis as vezes em que que treinava as suas bolas a 40 metros, sempre que, em Carrington, um colega ia fazer do bosque casa de banho.

Ver a reverência com que se fala de Magic Ryan, o mais precoce e estupendo de todos. Ou como ele recorda, com um brilho nos olhos, que Beckham foi o símbolo mais mediático dessa geração e de toda a revolução cultural que a acomodou, mas que, no vestiário, nunca deixou de ser, nem por um segundo, o mais trabalhador e o mais acessível, "o velho Becks com quem crescemos". O 'Pretty Boy' que inventou o empate ao minuto 89 no Camp Nou, não porque podia ser campeão da Europa, mas porque Schmeichel tinha subido à área contrária e porque o matava se ele falhasse. Ou como Fergie o avisou de que não ia ter sempre sorte, quando marcou o seu mítico golo de meio-campo ao Wimbledon, só para Cantona rebater que "era certo mesmo se não tivesse entrado, miúdo."

De como Phill Neville era a alma e a electricidade do balneário ou como Nicky Butt era a sabedoria da rua, o sobrevivente do bairro mais difícil, e aquele que os outros levariam sempre para a guerra, sem pensar segunda vez. Ouvi-los falar dos primeiros carros, das primeiras festas e do privilégio impensável que foi viverem cada bocado daquilo juntos, numa Inglaterra efervescente que eles próprios transformaram. E vê-los, por fim, voltar ao balneário e ocupar instintivamente os seus lugares, só para Scholes e Beckham constatarem, com um orgulho mal escondido, que a meio deles ainda pendia a camisola de Giggs.

The Class of 92 é uma gema para qualquer amante de futebol. Tem um carisma vivo, arrepiante, quase difícil de acreditar. É uma peça histórica, emocional e indispensável, que isola o jogo até à partícula de Deus que o define como maior espectáculo do mundo.

8.5/10

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Inside Llewyn Davis. Os Coen voltaram a fazer magia em negro


A minha relação com os irmãos mais glorificados do mercado foi sempre de amor-ódio. Estreei-me com No Country for Old Men e fiz, pelo menos, mais dois filmes a tratá-los como um caso perdido, até ter-me deparado com a demência vagamente genial de Big Lebowski. Voltariam, depois, os chutes ao lado até que, em 2010, curiosamente na repetição da parceria com Jeff Bridges, rendi-me a True Grit e concedi-lhes, de vez, o benefício da dúvida. É difícil gostar dos Coen, até porque eles fazem muito pouco por isso, na sua escrita sempre labiríntica, auto-absorvida e non sense; acontece, porém, que a loucura e a iluminação andam não raras vezes lado a lado, e é certo que, quando acertam as agulhas, o resultado final pode ser impactante. Inside Llewyn Davis, não sendo alheio a algumas das suas idiossincrasias difíceis, é um filme a que é impossível resistir. Pelo irrecusável romantismo triste que plasma, pela alma com tanto carisma quanto cicatrizes e, definitivamente, pelo seu monumental contexto, banhado a folk dos pés à cabeça. É um filme eminentemente musical, que materializa a nível visual todo o peso, a melancolia e a aura das suas canções.
"You've probably heard that one before. If it isn't new, and it never gets old, it's a folk song."
Sou um fã supremo do estilo e, portanto, sou suspeito para avaliar um filme que o homenageia ostensivamente em todos os momentos. Quem gosta de folk precisa mesmo de ir vê-lo o mais rápido possível, mas acho que ninguém poderá ficar indiferente ao seu perfume. Só a primeira sequência, com Oscar Isaac a interpretar a uma cena inteira, sem cortes, Hang Me, oh Hang Me, de Dave van Ronk, num café-concerto subterrâneo, em lusco-fusco, é magia em estado puro e amor à primeira vista. Num registo, aliás, que lhes brota sem esforço, ninguém poderia ter executado este espírito melhor do que os Coen. O cinzentismo do seu olhar deixa-nos inevitavelmente lânguidos e cola-se-nos à pele, fazendo-nos doer tanto quanto possível a desolação do seu protagonista. As suas cidades frias, os seus planos vazios, o permanente vaguear para lado nenhum e a frustração agreste repelem-nos mas, de repente, somos presenteados com instantes como cantar numa sala de espectáculos deserta, em segundos oníricos, cristalizados e impermeáveis a tudo de mau, que nos deixam num quase transe. A esmagadora maioria das músicas do filme são cantadas integralmente e ao vivo, e pode-se bem imaginar o efeito catártico que isso causa. Não sendo preciso reforçar, Inside Llewyn Davis tem efectivamente uma banda sonora boa demais para ser verdade, uma das melhores que ouvi na vida.

A história é a de uma semana na vida de um cantor-compositor na cena musical de Nova Iorque, no início da década de 60. Llewyn Davis é um vagante, sem dinheiro, reconhecimento e quase sem abrigo, que tenta derrubar a cada novo dia o fracasso que o destino lhe prescreveu. Desengane-se, porém, quem pensa que este é um filme lírico, motivacional, moral. Não é o filme, nem nunca foram os Coen. Llewyn Davis não tem nada de poético ou sonhador. É um cáustico, orgulhoso demais do talento para mudar de vida, mas sempre amargamente consciente de que não lhe espera a sorte nem um final feliz. O resultado cativa tanto porque se sustenta, de facto, nessa ideia intrínseca de falhanço. Davis é tão notável porque não tem esperança, porque sofre com cada uma das suas canções e porque as concretiza com uma negritude e um desalento que lhe vêm do fundo da alma, num estilo onde só se pode ser verdadeiramente bom se doer o que se está a cantar.

Oscar Isaac assina uma prestação tão boa como lhe era possível pedir. Cada bocado daquilo está-lhe no sangue e custa-lhe pela vida, e não pode haver proveito maior para um actor do que impingir-nos isso de forma tão genuína. O carácter auto-destrutivo, a maneira como se desiludiu a si próprio e se despreza, as perdas de cabeça e as sujeições a quase tudo, ao sabor do vento e sem amor próprio que sobre, edificam uma das mais simbólicas prestações do ano. Num elenco capaz, Carey Mulligan também soma pontos, numa figura corrosiva que agride o protagonista ao ponto de personificar, em parte, o fel que o consome.

Inside Llewyn Davis é uma peça requintada e profunda, incrivelmente coesa na fusão entre a história contada e cantada, senhora de um bom gosto que chega a pasmar. Ter sido esquecida pelos Óscares é o tipo de humor negro que nem os Coen teriam coragem de fazer.

8.5/10

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rush. A excelência de uma crónica supera sempre o seu assunto


Mais do que acção cativante, consistente ou bem feita é, acima de tudo, um tributo. Primeiro, ao dramatismo verdadeiramente cinematográfico que eternizou o Mundial de Fórmula 1 de 1976, depois, e mais importante do que isso, à rivalidade icónica entre dois homens que marcou de forma tão profunda essa década. Rush é um autêntico desportivo de luxo, muito fácil de interessar e naturalmente popular, cuja capacidade para contar a sua história o tornou, de facto, num dos maiores produtos do ano, só idioticamente desterrado pelos Óscares.

James Hunt vs. Niki Lauda. Um incorrigível playboy inglês apaixonado pela vida e por tudo de bom que ela tem para dar, carismático, talentoso, com um carácter que o tornava único na pista. Do outro lado das boxes, um austríaco quase matemático, disciplinado em cada gesto, maquinalmente racional em cada opção, devoto à excelência em cada pormenor e obstinado com a glória. Uma rivalidade que começou pela base, nos confins da Fórmula 3, e que os levou ao topo do mundo, desafiando-se um ao outro de forma extraordinária e, com isso, todos os seus limites. Os que conhecem a história não poderão negligenciar o nível do revivalismo; os que, como eu, não desconfiavam de cada bocado do que ela envolve, jamais ficarão indiferentes. Trabalho brilhante de Peter Morgan no guião, mais um, ele que já assinou, entre outros, Frost/Nixon ou The Damn United.

Narrado por Lauda, o argumento gere de forma notável a profundidade dos personagens, emprestando densidade ao mais agreste e ligeireza ao mais simbólico, num equilíbrio que acaba por fundir-se às mil maravilhas. Com a acção e a corrida omnipresentes, a natureza do filme não é reflexiva, mas este consegue ser surpreendentemente atraente nesse campo, nas linhas fortes e na moldagem contínua dos protagonistas. E tem um mérito que, pessoalmente, ponho sempre nos píncaros: ter um fim de ouro que, em vez de se desvanecer, eleva tudo um degrau acima. A realização de Ron Howard - responsável por alguns dos meus filmes preferidos de sempre (Cinderella Man, A Beautiful Mind) - é de alto calibre, e sem ter de se evidenciar muito dá ao filme tudo o que ele precisa para fluir. É irrepreensível nas sequências de velocidade, agressiva nos momentos susceptíveis e tem uma lente sempre chamativa, muito experimentada, com que nos identificamos sem esforço.

Não simpatizo com Chris Hemsworth e ainda não foi desta que ele me surpreendeu. É facto que a sua personagem tinha traços propositadamente leves, que lhe condicionavam alguma coisa para efeitos da história, mas a figura era fácil de agarrar e de cativar. Hemsworth não está mal enquanto poster boy, como bom-vivant sempre com duas linhas espertas para dizer, mas há nele qualquer coisa de plástico a que é impossível escapar. Não é no personagem, é nele mesmo. Apesar de não ter vitimado o filme, um actor um pouco mais capaz teria facilmente feito melhor. Já Daniel Brühl faz valer plenamente o alcance do seu Lauda. Não é o homem frio que se reinventa e que, com o decorrer do filme, se passa a acarinhar. É o que se aprende, isso sim, a respeitar absolutamente, numa jornada excepcional de fazer. Compreendemos o seu primado do pragmatismo, admiramos a sua excelência competitiva e, mais do que qualquer outra coisa, o seu desígnio. Brühl tem e capitaliza um papel riquíssimo, e é outro dos esquecimentos mais ingratos da Academia.

Rush é um filme do qual é inevitável gostar. É muito fácil de seguir e de apreciar, e compõe-se com naturalidade, até darmos por ele e percebermos o quanto é um grande filme. Um obrigatório de 2013, para os fãs da modalidade e para todos quantos saibam reconhecer a excelência de uma crónica quando a vêem.

8/10