sexta-feira, 21 de março de 2014

O peso do mundo


"Do you ever ask yourself if you lived up to the expectations?"
Lady Mary Crawley, Downton Abbey

Lembro-me do tempo em que achava que Quaresma era tão bom como Ronaldo. Achava isto com a honestidade de uma criança, sem partidarismos nem concessões. Estava lá a monstruosidade técnica, a fantasia, o génio, a vertigem, eram iguais. Claro que, na altura, eram ambos miúdos inconsequentes, irremediavelmente mais perto de falharem do que de chegarem ao topo do mundo, mas a excepcionalidade de um talento reconhece-se sempre quando a vemos. Quaresma e Ronaldo eram da mesma casta, nasceram com as mesmas capacidades inatas. Estavam destinados a fazerem coisas parecidas e saíram do Sporting ao mesmo tempo. Li algures que, nesse determinante Verão de 2003, aconselharam vivamente a Quaresma que fosse para o Arsenal, crescer com Wenger. Ele, contudo, teve outras ideias. Foi para a Liga das Estrelas, porque o Barça era o Barça. Já Ronaldo ouviu o que lhe disseram e toda a gente sabe como é que isso acabou.

Não digo isto com qualquer menosprezo, mas a verdade é que nunca foram iguais, ele e Ronaldo. Nunca se é, claro, e é injusto alguma vez comparar-se como tal. Injusto mas, tantas vezes, inevitável. Mesmo nos melhores anos do Porto, Quaresma não me voltou a conquistar. Enquanto Ronaldo ganhava mundo ano após ano, Quaresma regressara a casa com aquele abismo de qualidade na mala. De certa forma, acho que é isso que nunca lhe consegui perdoar. Não a arrogância, não a impessoalidade, não a errância imprópria dos campeões, mas que tenha desbaratado tantas vezes um tão grandioso talento. Quaresma foi o melhor da liga enquanto esteve no Porto, mas ser o melhor desta liga fazia-o pequeno. Ele sabia disso e essa é uma nuvem da qual ninguém se pode livrar. Quando Mourinho o foi resgatar para o Inter, confesso que meti as fichas todas. Era a hora. Um projecto com tempo e espaço para dar certo e um grandíssimo futebolista finalmente maturado.

Ter falhado em Milão é o ponto definidor de toda a sua carreira. Uma tragédia infinitamente maior do que na Catalunha, seis anos antes. Porque foi nos campos nerazzurri que Quaresma teve, por fim, a certeza de que não ia conseguir. De que todo aquele virtuosismo e toda aquela atitude não eram acompanhados da resiliência que forja os eternos. Não quero com isto dizer que Quaresma seja mau profissional, coisa que, de resto, nem está documentada. Nem acho que tenha falhado por pretensão ou por indolência. Acho, simplesmente, que não tinha o que era preciso a nível emocional. Ao tipo da cara austera e dos modos graves faltou, por ironia do destino, o sangue frio, o juízo certo, a capacidade de lidar com a pressão e com o esforço, o nervo. No fim das contas, Quaresma foi devorado pela sombra do que poderia ter sido. Tinha tantas condições naturais para vingar que a impossibilidade do contrário tornou-se, ela própria, na razão do seu fracasso. Quaresma tem um talento monstruoso, que o levou a ter oportunidades de que poucos se podem gabar. Barcelona, Inter, Chelsea. No resto, era só humano. Um tipo falível, para quem o preço do talento foi quase sempre alto demais. 10 anos depois do adeus a Alcochete, Ronaldo preparava-se para ser melhor do mundo pela segunda vez, enquanto ele estava de sabática nos Emirados Árabes. Talvez não seja grato compará-los, mas era inevitável. E dificilmente poderia ser mais cru.

Por tudo isto, apostava que, aos 30 anos, Quaresma já não poderia ser uma solução, e nunca para um Porto irreconhecível, sem rede e em degradação acelerada. Que voltasse de seis anos de baixa competição e de seis meses de férias para ser o mais produtivo jogador da equipa e o líder da sua retoma era tão provável como viver na Terra do Nunca. Era demagogia, era torná-lo num vendilhão de sonhos impossíveis. Porque ao Porto esvaíram-se quase todas as opções, o seu regresso não foi um reforço; foi, na verdade, um acto de fé.

O que tem acontecido nos últimos três meses, e que teve ontem auge na relva sacrossanta do San Paolo, é o futebol em tudo o que ele tem de mais fascinante. Na 3ª ou na 4ª vida, depois de um milhão de oportunidades perdidas e quando já não seria razoável dar nada por ele, foi face a todas as probabilidades que Quaresma encontrou, por fim, a transcendência que lhe fugiu a carreira inteira. Já não vai a tempo de ser um dos melhores do mundo, não foi a tempo de ser campeão e nem sei se ainda vai a tempo do Mundial. Mas ter aceite que já não tem de ir a tempo de nada é a sua grande vitória. Quaresma já não deixará de ser o miúdo imprevisível a quem Bolöni puxava as orelhas, mas a centelha, essa, continua lá. Viva. Talvez o problema tenha sido sempre a percepção. Como Marlon Brando celebrou no monumental Apocalypse Now, "é o julgamento que nos derrota". Se calhar Quaresma podia ter sido outra coisa qualquer, maior. Ao vê-lo, porém, esfumar-se entre os defesas do Nápoles, a irradiar magia daquelas botas, tem-se a certeza de que, apesar de tudo, ser ele próprio valeu a pena. O Brasil, não custa lembrar, também é um bom lugar para se ser feliz.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Porque foi uma honra


"People always think of us as rivals but he was among the very few I liked and even fewer that I respected. He remains the only person I envied."
Niki Lauda sobre James Hunt (Rush)

O desporto é, por definição, um jogo de interacções emocionais. Entre treinadores e jogadores, entre jogadores e adeptos, entre adeptos e críticos e entre cada um deles em particular. É, igualmente, o espaço onde essa emocionalidade atinge os patamares de maior excepção. O desporto edifica heróis e vilões, constrói fés e incendeia as paixões mais proféticas. A idolatria não é igualável, põe quase tudo em causa e faz dos adversários, não raras vezes, maiores do que inimigos. É por isso que, para mim, não há nada de mais singularmente grandificante do que admirar um verdadeiro rival. Um dos duros, um dos terrivelmente temíveis, um dos que faz vida negra e que nunca, nunca vai perdoar uma oportunidade. Puyol foi o capitão da equipa mais radical que vi na vida. Uma que dizem ter reinventado o jogo e que, garantem, foi a melhor que já jogou. O Barça de Guardiola não era só forte ou, sequer, muito melhor do que os outros. O Barça de Guardiola foi o adversário impossível.

Adversário, para mim, por duas bases fundamentais: porque esteve no caminho dos meus e porque sou, por princípio, a antítese das equipas providenciais. Para mim, a beleza daquele carrossel orquestral esgotou-se na sua inevitabilidade de vitória, reforçada, depois, na insuportável presunção de ser perfeito. O Barça era o modelo do sonho, o tipo-ideal em cada um dos seus filamentos, o princípio e o fim de tudo o que é bom... e não podia ser batido. Esses são os casos em que eu fico respeitosamente do outro lado. Sei reconhecer talento e capacidade, e o mérito, sempre. Esse Barça abusou em cada qual. Era plenipotenciário e inatacável. A minha única vitória era poder não gostar, era sintetizá-lo até à condição de instigador de medo. Às vezes penso se, com o tempo, não me vou arrepender de não ter querido mais a esse Barça e de os ter vilificado a todos. Um, porém, foi sempre especial.

Puyol era a prova de que até as maiores máquinas têm um coração. Não foi o central mais talentoso nem o defesa mais brilhante que vi jogar mas foi, indiscutivelmente, um dos dois ou três homens de maior carácter que já vi em campo. Um que se mediu sempre em mais do que cada sprint vertiginoso, do que cada corte elástico e limítrofe, do que na agressividade legionária de quem disputa cada bola por vida ou morte. Porque Puyol foi sempre o líder nas coisas que não se vêem, o exemplo nos pormenores que nunca se vão saber. O seu gesto que mais me marcou foi um episódio de segundos, apanhado por acaso numa câmara secundária e destinado a ser ignorado pelas manchetes. Era o auge do sanguinismo entre o Barça e o Real de Mourinho. Cada atitude, cada toque, cada olhar era questão de celeuma, era o fósforo passível de explodir o barril de pólvora. Estávamos no Bernabéu, num canto defensivo, com a claque do Madrid de bafo no pescoço adversário. Nisto, chove um par de isqueiros na área catalã e Piqué não perde tempo. Num reflexo, agarra um e presta-se a parar tudo, agitando-o em direcção ao árbitro. O capitão, contudo, decidiu fazer diferente. Tirou-lhe o isqueiro da mão, jogou-o para fora e ordenou-lhe que voltasse calado à posição. Puyol é isto. A lisura de carácter, a seriedade, esta desarmante altivez competitiva sobre todas as coisas.

Numa equipa que, algures no caminho, se obcecou em parecer mais do que ser, e que usou de todos os meios para alimentar esse sufoco imaculado, Puyol era o bloco de genuinidade que insistia em bonificar tudo à sua volta. Lembro-me de pensar tantas vezes em como o Barça não o merecia. Mas lá continuava ele, obstinado à sua missão e à sua tropa, inapelavelmente devoto à única causa que amou na vida inteira. A ser, em si mesmo, a própria razão que lhe deu sentido. Nunca invejei Messi, nem o tiki-taka, nem nenhuma noite insuperável do Camp Nou. Nem uma. Invejei-lhes Puyol. Hoje, dia em que anunciou o seu último ano, não podia deixar de escrever isto. Foi ele o adversário que mais respeitei e o que mais honestamente admirei.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Óscares 86 - BALANÇO


Acho que a pior coisa que se pode dizer de qualquer grande espectáculo é que decorreu tudo como era esperado. Não porque não tenha acontecido um desastre ou nenhuma vergonha, mas porque ninguém quer pagar bilhete se já souber o fim. Se a surpresa tem de fazer parte do dia-a-dia, para o mundo do entretenimento é estritamente vital. Mais do que isso, a subversão do provável e o espanto de última hora, o twist, são a própria essência do cinema. Pode ser uma falsa percepção, mas acho que, nesta fase da nossa Era, os Óscares têm perdido parte substancial da sua capacidade de deslumbramento.

É verdade que as pessoas esquecem-se que a cerimónia é o reflexo dos votos de um clube. Os tais 6 mil membros da Academia de Artes e Ciências gozam do direito de voto e ninguém tem nada a ver com isso; o facto do clube deles ser especial para o resto do mundo é só um pormenor. É seguro, aliás, dizer que, em boa medida, os Óscares sempre terão sido previsíveis. Mas hoje, com tanta exposição prematura de opiniões, com uma disseminação tão fácil de pensamento único e com um lobismo tão impactante, acho que o que sobrava da pureza dos Óscares está mais ameaçado do que nunca. Não digo isto só pela desilusão da cerimónia de ontem ter debitado, a regra e esquadro, um por um, todos os vencedores pré-aquecidos. Escrevo porque tenho muita pena que os Óscares sejam, cada vez mais, vistos como prémios "políticos", que não merecem assim tanta consideração. E, sobretudo, por achar que quem tira à noite maior um Benigni a escalar uma plateia ou o entusiasmo estarrecido de dois miúdos, quem lhe tira a ilusão, tira-lhe tudo.


Não é um caso perdido, claro que não, e para parte substancial dos fiéis, a festa das festas será sempre uma proposta muito difícil de recusar. E se este ano a enunciação de laureados não trouxe magia, foi um prazer presenciar o melhor hosting que já vi. Depois de um monólogo morno e vagamente fugidio nada o faria prever, mas Ellen DeGeneres arrombou autenticamente o Dolby Theatre, com uma liderança de gala que, sinceramente, será quase impossível de emular e que meteu o nível muito, mas muito nas nuvens. Sou um fã eterno da forma gervasiana de fazer, mas os Óscares pedem um engenho elegante que, achava, já se concretizara com brilho em Hugh Jackman ou Seth MacFarlane. DeGeneres optou por uma fuga para o futuro e reinventou todo um conceito, mercê de uma interacção histórica com a plateia e com as redes sociais. A dada altura, acredito que gente nos quatro cantos do mundo se tenha sentido parte daquilo em directo, e essa alucinação impagável coloca-a num verdadeiro Olimpo de tudo o que já se fez. O facto de ter sido a cerimónia mais vista em 10 anos completa a ideia. Absolutamente fenomenal.


A realização justifica igualmente o enaltecimento, num registo leve, pouco exuberante, mas sempre tremendamente agradável. Os momentos musicais, doutras vezes descurados, foram na mouche, os clips foram coloridos que baste e o trunfo residiu nas inusitadas quebras de ritmo, com a mítica selfie, com as pizzas, etc, que lhe conferiram o tal toque imprevisível e pessoal. Muito bom. Ao nível dos discursos, os melhores foram, como quase sempre, os quatro da interpretação, com o momento da noite a morar claramente com Lupita Nyong'o. McConaughey e Blanchett têm o calejamento, Leto elaborou demais, mas Nyong'o encantou verdadeiramente a sala, num momento irresistível de genuína honestidade e deslumbramento.


Sobre os vencedores, emergem três de forma mais ou menos indiscutível. 12 Years não vacilou e formalizou mesmo a consagração, com o bónus de 'Argumento Adaptado', que estava em aberto, num total de três grandes prémios. Respeitando o filme, já disse o que achava na antevisão, e gostava só de evidenciar duas nuances curiosas: Michael Fassbender e Steve McQueen que foram, para mim, os expoentes máximos da obra, ficaram exactamente como não agraciados; Brad Pitt, por sua vez, colheu a ironia de chegar, na pele de produtor, ao primeiro Óscar da carreira (exacto, ele também não tinha nenhum...).


Mercê do impacto técnico, Gravity acabou por sair da sombra que lhe estaria reservada e teve a sacola maior, com nada menos do que 7 Óscares, brilhantemente encabeçados por Alfonso Cuáron (saliento, ainda, Fotografia, com a primeira vitória, à sexta nomeação, de um génio chamado Emmanuel Lubezki). É uma medida de reconhecimento francamente justa para um filme excepcional, de um alcance que vai perdurar por muitos anos e que não merecia ficar fora das notícias.


Finalmente, Dallas Buyers também confirmou os dois prémios masculinos de interpretação e passa aos livros com um halo que é dezenas de vezes maior do que a qualidade do filme. Não vou continuar a insistir no mesmo mas, honestamente, nunca poderei perceber a forma inculcada como as vitórias de McConaughey e Leto se tornaram tão inevitáveis nos últimos meses, à luz de tão extraordinária concorrência. A glória de Dallas Buyers é um erro histórico que o tempo provará.


Sobre os meus favoritos, Her manteve-se felizmente no lado certo dos números e garantiu 'Argumento Original', como tão genialmente mereceu. Todavia, acho que fiquei mais aliviado do que contente com a vitória - podia acabar em Dallas Buyers, nunca se sabe -, até porque, de uma certa forma, encaro-a como um prémio redutor: Her é um filme demasiado bom para ter sido balizado em consolações e jamais aspirar a honras maiores. Ironicamente, a vitória de Spike Jonze alienou a única possibilidade viável do seu camarada O. Russell e do meu outro favorito. O bestial American Hustle - o segundo ano seguido em que David O. Russell nomeou um filme nas 7 grandes categorias! - passou absoluta e ingratamente ao lado, perdendo ainda Secundária - tinha sido Jennifer Lawrence a salvar a honra do convento no ano passado - e Filme, onde se "dizia" ter uma hipótese. Mais um para o trágico buraco negro da Academia.


Para acabar, pouco mais haverá a dizer sobre DiCaprio. O facto de, mesmo assim, ter sido ele a figura da noite explica quase tudo. Mesmo que isto soe gasto, a convicção das pessoas representará sempre muito mais do que qualquer estatueta, e se não foi à 4ª - fora a idiotice de vezes em que nem o nomearam: Django, Departed, Catch Me... -, será necessariamente numa das próximas dez. Por eventualidade, num filme pior do que estes todos, como a Academia gosta de fazer.

Sobra desejar que 2014 seja um ano com a mesma qualidade farta que acabamos de experimentar, mas com a consciência que faltou e sem o veneno que são os vencedores por decreto.

domingo, 2 de março de 2014

Óscares 86 - ANTEVISÃO

 

Pelo quinto ano de vivência aqui do espaço, vou-me prestar a lançar os dados a uma das noites que é, indefectivelmente, uma das que conservo em mais alta estima. Como sempre, a minha resenha dos Óscares não tem nada de elenco de apostas, e é, na maior parte dos casos, uma negação mais ou menos barulhenta de derrotas esperadas. O que não as torna menos agonizantes nem me desencoraja a vivê-las de forma menos clubística. Com as honras da festa a cargo de Ellen DeGeneres - sendo tão carismática, continua a ser uma incógnita, ainda por cima com o fardo que é suceder a MacFarlane -, fica aqui a minha cartilha, de trás para a frente.


ACTRIZ SECUNDÁRIA
Será uma corrida reservada a duas senhoras que, até agora, dividiram quase irmanamente a temporada dos prémios: Jennifer Lawrence, que estará na cerimónia a defender o título, venceu o Globo de Ouro e o BAFTA, ao passo que a estreante Lupita Nyong'o reclamou o Sindicato de Actores e o prémio da Crítica. Repito uma verdade que já aqui deixei há um mês atrás e que me parece providencial: nunca me verão escrever que Lawrence não merece ganhar seja o que for; todavia, este Óscar também o daria a Lupita Nyong'o que, de resto, me parece efectivamente a favorita. A sua vulnerabilidade inelutável, a desesperança e a desolação que carrega nos olhos e na carne são, de forma merecida, uma das iconografias do sucesso de 12 Years a Slave e um papel que não me parece comparável ao das restantes.

ACTOR SECUNDÁRIO
É uma das minhas obsessões de há semanas para cá, desde que vi Dallas Buyers e desde que a vitória de Jared Leto se tornou num dogma. Sou forçado a bater nesta tecla uma última vez: Leto é crível na pele agreste de um homossexual às portas da morte, mas o papel ganhou o Óscar no momento em que foi escrito. Simples quanto isso. Sendo capaz, a performance não está sequer perto de ser a melhor do ano. A medida pela qual se avaliou foi a do emagrecimento, da degradação física e do transformismo. Isso reflecte um trabalho técnico excepcional, mas não traduz genuína capacidade interpretativa. Pensar que a monumentalidade atroz de Michael Fassbender será desterrada com tamanha e tão perturbadora naturalidade nunca me poderá caber na cabeça. Será a vitória de um papel feito, em piloto automático, sobre quem, com uma caracterização 'comum', consegue-nos agredir só por estar a olhar do outro lado da tela.

ARGUMENTO ADAPTADO
É das categorias mais 'aleatórias' da cerimónia: o Sindicato de Argumentistas galardoou Captain Phillips, o Critics Choice deu o prémio a 12 Years a Slave e os BAFTA, como é costumeiro, deixaram a taça em casa, com Philomena. Para mim, o vencedor seria claro: Billy Ray fez um trabalho sensacional com Captain Phillips e é um exemplo acabado de tudo o que uma adaptação de argumento deve ser, ou seja, de como a gestão magistral da narrativa pode engrandecer decisivamente um filme com linhas tão bem definidas e que, inclusive, sabemos como vai acabar. Gostava de mencionar, ainda assim, Richard Linklater: a suprema obra de arte que foram os Before merecia ser eternizada com mais do que a honra de uma segunda nomeação (Before Sunrise também o fora, em 2004).

ARGUMENTO ORIGINAL
Her.

REALIZADOR
Aqui não há dúvidas, o prémio será mesmo para Alfonso Cuáron, e com toda a justiça. A sua leitura do que podia ser o filme foi visionária e, como se não bastasse, a execução conseguiu ser ainda maior do que isso. Gravity foi a experiência cinematográfica verdadeiramente fascinante do ano e será um daqueles filmes para, daqui a muito tempo, quando se estiver a edificar uma cronologia qualquer de marcos, deixar 2013 à vista. É uma vitória que também faz sentido porque é provável que o filme não tenha mais distinções; noutro contexto, Steve McQueen merecia ter uma palavra a dizer. Com meios e necessidades completamente diferentes, o seu registo em 12 Years a Slave é uma tirada de arte perfeitamente deslumbrante. Por último, a ausência de Spike Jonze (Her) é impensável.

ACTRIZ
Cate Blanchett pode-se dar ao luxo de já ter o texto de agradecimento escrito há semanas, porque não há hecatombe nenhuma que lhe vá roubar o segundo Óscar da carreira. A correr por fora, socorreu-se dos históricos guiões femininos de Woody Allen para bater o peso da concorrência e ter a questão virtualmente arrumada no grande dia. A sua alcoólica, neurótica, em regime acelerado de auto-destruição, apresentou-a a uma luz sob a qual jamais a tínhamos visto e alargou-lhe de forma inquestionável o espectro da carreira. Ainda assim, tenho de salientar o enorme registo de Sandra Bullock, em Gravity. Honesta, crua e vulnerável, foi uma performance de enorme nível que completou o filme excepcionalmente, e que me parece nunca ter chegado a ser valorizada como devia.

ACTOR
É a verdadeira plataforma de frenesim da cerimónia e, através das redes sociais, ganhou nas últimas semanas uma expressão que duvido que tenha paralelo com qualquer outra coisa. A razão é a demanda quase mitológica para que Leonardo DiCaprio chegue ao seu primeiro Óscar. Wolf of Wall Street foi, talvez, a mais sensacional recepção do ano e o motim digital tem crescido de forma exponencial com o aproximar do dia D. Muitas vezes, a multidão não sabe do que está a falar e pode ser perigosa. Esta não é uma delas: DiCaprio, com a enésima prestação extraterreste da carreira, merece mesmo toda a devoção que lhe estão a emprestar e, mais importante, o seu primeiro Óscar. Tudo isto é tanto mais interessante dado o contexto... e a virtual impossibilidade do cenário vir mesmo a concretizar-se. É que, ironia das ironias, as entidades ininteligíveis da Academia e da Crítica já sancionaram, por decreto, que quem ganha é Mat McConaughey (com a única coisa banal que fez nos últimos dois anos; conferir o que já escrevi para Jared Leto). Ou, no pior dos casos, como nos BAFTA, Chiwetel Ejiofor. Só porque sim. Será definitivamente o tema fervente da noite e um dos envelopes dourados mais esperados de que me lembro.

FILME
Por fim, a razão por excelência. 2013 foi um ano espectacular para quem gosta de bom cinema. Talvez seja redudante dizer isto, talvez seja do gosto ou talvez sejam sempre mas, no ano que passou, acumularam-se ases atrás de ases, como dá gosto. Como sempre, a Academia deverá fazer jus à sua regra de ouro: premiar o politicamente mediano. O mais clássico e menos arriscado, o mais equilibrado e menos genial. Sinceramente, desde que sigo os Óscares, nunca vi o melhor filme do ano ganhar Melhor Filme do ano. Para 2013 não será excepção. Com um vasto grau de certeza, o vencedor será 12 Years a Slave. Que é um filme de peso a muitos níveis, mas que é só um filme bom num ano de enormes. Um filme, para todos os efeitos, premiável pelo decalque ao tipo-ideal da Academia: porque tem época, majestade, técnica, lobby.

O melhor filme de 2013 foi Her, que já vi tarde e a más horas, e sobre o qual, infelizmente, ainda não pude escrever. Her é perfeito. É tudo o que o cinema pode ser no seu auge: tacto, talento, bom gosto, criatividade e génio. Ousadia, mensagem, metáfora, cor e música. Tudo condensado num produto final incrivelmente leve, que inebria tanto quanto apaixona. Que um filme destes não tenha possibilidades de ganhar é criminoso.

Tenho igualmente de fazer um acto de contrição por ainda não ter falado de American Hustle neste texto, que foi o meu favorito desde o momento em que o vi e que, provavelmente, será hoje desterrado ao esquecimento, sem um único galhardete para memória futura. Reafirmo-o as vezes que forem precisas: pelo segundo ano seguido!, David O. Russell presentou-nos com uma autêntica jóia, com graus de humanidade e grandeza de personagens como mais ninguém é capaz de criar, por sistema, no mercado actual. Não foi no ano passado, não será neste, mas o reconhecimento para tão grande talento chegará inevitavelmente. Uma última nota para Inside Llewyn Davis, que sujeitaram ao ridículo de nem dignificar com uma nomeação: com os dois acima, completa a minha tríade de melhores do ano.

No resto, já são horas de entrar em estágio. Aproveitemos o espectáculo na expectativa de que um dia também andemos por lá e esperemos convictamente pelas únicas vitórias que valem a pena: as impossíveis.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Philomena. Tão singelo que custa levar a mal a sobrevalorização

 

O filme mais modesto dos Óscares 2014 conta a história de um jornalista e da velha senhora que este vai guiar na busca por um filho há muito perdido. Baseado em factos verídicos do início da década passada, coloca Martin Sixsmith (Steve Coogan), um ex-assessor de imprensa a encetar um regresso envergonhado ao jornalismo, na pista de Philomena (Judi Dench), uma matriarca irlandesa que escondera um segredo durante meio século: enquanto jovem, fora desterrada grávida para um convento de freiras, onde a mantiveram escrava durante anos e venderam o seu filho para adopção. Era um argumento generoso quanto baste e que, pessoalmente, me criou razoáveis expectativas, quanto mais não fosse pelo alcance do jornalismo de investigação e da história de 'interesse humano'. A falência do filme é a incapacidade de transformar o livro, que deve ser efectivamente bom, num guião digno desse nome.

Steve Coogan, o protagonista, e Jeff Popes foram nomeados tanto para os Globos de Ouro como para os Óscares, mas esse é um efeito que me custa muito a entender. O seu argumento é, na verdade, um texto em 2D: insípido, liso, sem poder imagético nem génio criador (aqui com as culpas a repartirem-se pelo realizador Stephen Frears, um duplo nomeado da Academia). O texto não tem engenho para imprimir qualquer quebra na acção e nunca surpreende, nunca se afasta, nem por um segundo, da linha sensaborona que lhe conseguimos antecipar desde o primeiro segundo. As coisas não vivem para fora do ecrã e não nos contagiam nem deslumbram, também a nível emocional. Isso faz dele, como é evidente, um produto muito pouco impressionante. Tem o mérito de não ser um filme longo nem pretensioso, que aqui e ali ganha uns pontos pelo seu modo dócil, e tem um fim melhor do que a média do resto, com, pelo menos, uma cena muito intensa, cáustica, ela sim muito bem gerida, mesmo que não seja suficiente para validá-lo. E mesmo que tenha tido a felicidade de contar com Dame Judi Dench.

É ela quem tempera quase sempre as coisas para melhor, cativando-nos num jeito adorável e muito próprio. É uma mulher com todas as razões para ser perturbada e amargurada, mas que escolhe sempre o caminho mais difícil e menos óbvio, senhora de uma leveza e de uma doçura extraordinárias, que dão ao filme a pureza desarmante que constitui o seu maior predicado. Já Steve Coogan não está à altura do que se pedia, também na interpretação. É demasiado mortiço em cena, falta-lhe desenvoltura e todos os momentos em que se apresenta magnânimo ou justiceiro soam inevitavelmente artificiais.

Philomena não é um filme mau. É um filme simples, com uma história e uma protagonista honestas, mas nunca mais do que isso. Porventura teria sempre o seu lugar, mas não pertence à passadeira vermelha. Uma dezena de filmes justificaria a nomeação em vez e é chocante pensar que Inside Llewyn Davis foi um deles.

6/10

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

House of Cards. Um porta-aviões à deriva


Kevin Spacey. Se esta crónica acabasse agora, já faria sentido. Seria auto-explicativa e resumiria plenamente a grandeza essencial do que é suposto tratar. Porque é impossível assistir a um único episódio sem pensar no privilégio que é ter podido contar com tamanho monstro no papel principal. A série é muito boa em muitas nuances. É pior em várias outras e, no global, ainda não foi capaz de atingir determinado patamar. Isto vale para tudo, menos para ele.

Spacey é um mundo à parte, um espectáculo só dele, é insubstituível. Talvez não seja justo chamar one man show a House of Cards, mas certo é que a sua estatura banaliza tudo o resto. Não é um papel fácil de quantificar nos moldes normais, porque não é uma performance de relevo técnico. Não é uma reinvenção e não tem especificidade interpretativa, pelo menos como a costumamos identificar. O que nos passa é que é um papel em directo, sem esforço, que é o carisma de Spacey em estado puro, ligeiramente temperado por um guião. Nesse sentido, talvez parta em desvantagem na luta pelos prémios, como aconteceu no primeiro ano. Certo é que é impensável que lhe possam negar reconhecimento até ao fim. Frank Underwood não tem culpa de precisar de tão pouco para ser tão arrogantemente bom.

(aqui os emmys do ano passado a explorarem a classe sem pudor)

Há um ano, revi entusiasticamente o piloto, antecipando-o como uma série de culto. Hoje, parece-me seguro dizer que House of Cards se fez até maior. Reconhecida pela crítica, dos emmys aos globos - com Robin Wright a estrear as honras -, tem corrido cada vez mais nas veias dos espectadores, como negrume no organismo dos Underwood. Com duas temporadas completas, diria que o principal factor de sucesso é o facto da série ser tão inteligente a nível comercial. Longe de ser um produto vulgar, teve muita facilidade em cativar pela provocação e pelo jogo sujo. Tem um argumento desamorável e cru, mas abusador na exacta medida em que nos seduz. Jamais é romântica, mas nunca é agreste pelo mero prazer do desconforto. É, em vez, utilitária na sua falta de escrúpulos. Cirúrgica nas distorções emocionais e sexuais que lhe dão cor. Com todos os seus arrojos, não tem problemas em ir às cordas, mas é sempre equilibrada ao fazê-lo.

Tendo um formato particular, ou seja, não sendo teletransmitida nos Estados Unidos, mas antes libertada em pacote na internet, diria que, em vez de série de culto, House of Cards soube adicionar determinado tipo de peculiaridades a um produto de massas. Facto é que, nestas duas temporadas, a série gozou de um capital de confiança que só é devotado às favoritas. Assumiu-se como uma obra nobiliárquica, de excelência e que não resistimos a acompanhar por bom gosto. E é isso que faz eco do essencial, apesar de, infelizmente, não a ter alheado de falências fundas que não seriam de esperar, e que afectaram decisivamente o seu alcance.

Reconhecendo-lhe todos os méritos, sou forçado a deixar claro que, para mim, House of Cards ainda está bastante à margem do seu potencial, e que, nesta altura, já tinha a obrigação de valer mais. Pior do que isso, veio a demonstrar vulnerabilidades primárias que nunca pensei que a fossem afligir. Desde logo ao nível do cast, que é tão bom, quanto é incompreensível a gestão que o argumento faz dele. Entre mortes, saídas de cena e narrativas perdidas, instala-se um caos que nos deixa a todos confusos. Pressionar os pontos certos e não ter amor às perdas é um factor essencial para ter sucesso; fazê-lo de um modo minimalista é ainda mais. Das piores coisas que uma série pode fazer é gerir as suas pessoas por atacado, porque começar a cortá-las sem critério sugere, apenas, que faltaram ideias para fazer melhor. House of Cards prestou-se a esse caminho minado. Há narrativas interrompidas de maneira abrupta e ilógica, sem qualquer necessidade. Há personagens que nem conseguimos perceber o que lá foram fazer. E depois há os tais curtos-circuitos com pessoas focais, que são um manifesto excesso.

O mais grave, contudo, chegou no quadro final. O fim da primeira temporada deixou-me um amargo de boca, pela linearidade, mas considerei-o parte natural do processo. Já todo o desenlace da segunda é absolutamente incompreensível, e o season finale, em particular, é um absurdo. Parece que foi metralhada, numa única hora, matéria que dava para mais meia temporada, assassinando-se etapas e corrompendo-se a coerência da narrativa. Andou tudo demasiado rápido, sem fundamento, especulação, classe, nem criatividade, justamente as características que definiram o tom da série nos seus melhores momentos e a tornaram especial. Foi como fazer um exame de fim de curso só com tópicos. Como se toda a equipa de argumentistas tivesse sido despedida em cima da hora ou se a produtora tivesse cancelado a última meia dúzia de episódios. Foi um tipo de precipitação inexplicável, completamente contranatura ao seu próprio credo, que criou um borrão do tamanho da pintura.

House of Cards continua a ter direcção, contexto, uma grande equipa e um super-craque. Continua, inclusive, a ter uma claque fiel e um vasto número de admiradores. No futuro próximo, todavia, ou arranja um treinador digno desse nome ou caminhará para o esquecimento.

O segredo de Ancelotti


O que sempre me fascinou em Carlo Ancelotti foi não ter a certeza de onde emanava a sua autoridade. Prefiro treinadores de outra casta, não escondo. Mourinho sempre foi o modelo. Ferguson era a instituição, Capello um assassino, e ultimamente rendi-me a Klopp e a Simeone. Um punhado de carismáticos, exuberantes, daqueles que seguiríamos para a guerra de todas as vezes. Irrepreensíveis no táctico, tanto quanto líderes de homens e irascíveis na batalha. Ancelotti sempre foi uma das minhas excepções, pela sua suprema habilidade entre mundos. Explico: é comum que os treinadores se dividam entre feitos e feitios, entre as figuras patriarcais e os que têm fogo nos olhos, entre os agregadores e os reaccionários, muitas vezes entre os bons sensos e as auras. Ancelotti, por seu lado, sempre se dedicou a perverter esse dogma, com a sapiência de um mago.

É um dos "meus" primeiros treinadores, na medida em que presidiu a uma das equipas da minha vida: o brutalizante Milan europeu de início do século. Na sua célebre 'árvore da vida', uma equipa que, a alimentar Sheva ou Pippo Inzaghi, parecia jogar com 11 médios ou mais, partilharam o campo alguns dos mais extraordinários de toda uma geração: Rui Costa, Kaká, Seedorf, Pirlo. Todos no auge. Esse Milan era uma pomada de bem jogar e de melhor dominar. Uma teia quase perfeita que parecia mover-se em piloto automático, não estivesse o piloto tão bem identificado. Se há equipas feitas a partir da costela de um treinador, essa foi uma delas. Numa palavra, aquele Milan era elegante. Impunha a sua reputação sem esforço, como se todos o soubessem respeitar mesmo se ainda não o conhecessem. Era orgânico, natural, fácil na sua venerabilidade. Como o seu treinador.

Costuma dizer-se que um líder que o afirma não é líder nenhum. Ancelotti é esse epíteto. O que sempre me fascinou nele é que nunca tenha de levantar um dedo. Que não faça barulho, que não provoque, que não tenha as boas histórias e o melhor carisma, que nunca seja ou esteja no centro. E que, mesmo assim, lhe brilhe na vista o je ne sais quoi. Que toda a gente que tenha trabalhado com ele o admire tanto e que o palmarés tenha sido tão extraordinário por todos os países onde já treinou. Ancelotti não desperta paixões, como Mourinho ou Klopp. Não é um plenipotenciário, como Ferguson ou Capello. Não é indiferente para menos, como Benítez ou Mancini. É um tipo quase só dele. Um Gandalf do futebol, que nunca tem de gritar, de reagir ou de dar nas vistas. Basta-lhe um esgar luminoso para termos a certeza de que ele sabe todos os segredos do mundo e que mais vale confiar.

Depois do circo do defeso e do incêndio mourinhista, não sabia o que esperar deste Real. Achei a política de transferências idiótica, sabia que o Atlético ia queimar etapas e achava que o Barça era naturalmente mais cicatrizável. Sobrava um trunfo, quiçá solitário, no bafo ora demente de Chamartín: o Real não poderia ter escolhido ninguém melhor para aquele banco. A época nem tem sido amorosa. Primeiro, porque a herança era efectivamente de uma tonelada. Depois, porque o reforço mais caro do mundo passou metade do tempo lesionado e, por último, porque tem-se jogado realmente a primeira liga a três em anos. Até há um par de meses, o mundo merengue achava mesmo que nem em segundo ia ficar. Em Março, está na liderança isolada de La Liga, na final da Taça do Rei, depois de massacrar o rival, e tem espalhado glamour pelo continente fora, ao nível do que de melhor fez o Moudrid.

De Ronaldo não vou falar, pela redundância. A alucinação competitiva própria de uma galáxia trekiana qualquer foi sempre oferecida por igual a qualquer um. Hoje, contudo, parece que todos à sua volta estão melhores. Benzema, depois das infindáveis dores de crescimento, reclama de vez o lugar para que estava destinado, entre os melhores pontas do mundo. Está confiante, eléctrico, imparável, ao que não será estranha a proximidade de Zidane, possibilitada pela diplomacia do treinador. Bale passou metade da época lesionado e as pessoas dizem que, na verdade, está a fazer um óptimo ano de estreia. Foi protegido vez e sobrevez pelo técnico, que o lançou da forma mais sustentada e paciente possível, sabendo sempre potenciar os outros, numa lição de bem gerir (Jesé já vai nas bocas da selecção, imagine-se). Di María, em tempos um vagabundo de pouco compromisso, foi de extremo de classe mundial a um aparente interior de classe espacial. Hoje, em Gelsenkirchen, parecia que tinha passado a carreira toda a ajudar trincos e a carregar jogo no círculo central, à velocidade do som. Modric, o pequeno genial, ressuscitou com uma batuta maior do que ele. Pepe e Marcelo regeneraram-se e até Casillas tem podido voltar a brilhar, mesmo a viver a maior parte no banco.

O que estou a dizer não é que a equipa foi do inferno ao céu. Seria, aliás, um erro primário desvalorizar algo do que Mourinho fez em Madrid, como o próprio Ancelotti reconheceu esta semana, de forma tão inteligente quanto honesta. Mourinho foi o melhor campeão de sempre, ganhou todos os troféus internos, fez três meias-finais europeias e devolveu ao clube a dimensão continental que, é bom não esquecer, andou ostracizada da capital durante anos suficientes. Mais do que isso, diria que é impossível dissociar o que pode vir a ser conseguido este ano do imenso legado português. Certo é que não será fácil fazer melhor. Seja como for, e até ver, este Madrid é um luxo. Uma equipa que abusa capacidade e que não poderia aparentar mais saúde na cabeça. Uma equipa a que a lógica desaconselha o favoritismo, mas que sibila um segredo: o de que sabe como lá chegar. Como o seu treinador.