quinta-feira, 10 de abril de 2014

Uma quarta-feira qualquer


"You find out life's this game of inches, so is football. Because in either game - life or football - the margin for error is so small. I mean, one half a step too late or too early and you don't quite make it. One half second too slow or too fast and you don't quite catch it. The inches we need are everywhere around us. You've got to look at the guy next to you, look into his eyes. Now I think you're gonna see a guy who will go that inch with you. You're gonna see a guy who will sacrifice himself for this team, because he knows when it comes down to it you're gonna do the same for him. That's a team. That's football guys, that's all it is."
Al Pacino, Any Given Sunday

20 minutos dos quartos-de-final. 1-0, três bolas na trave, um furacão vermelho e branco a varrer cada bocado da relva do Caldéron. Uma arritmia em forma de exibição, hipertensa, sufocante, perfeitamente avassaladora. Mais perto ou mais longe do Olimpo, o Barça continuava a ser Barça. Continuava a gozar duma mão de futebolistas incomparável, capaz de perverter sempre a estratégia de qualquer mortal. Todavia, o facto de qualquer jogador catalão ser melhor do que o seu respectivo adversário não estava a ser mais do que lógica amassada. Mais do que universo a ser devorado pela radicalidade de um livre arbítrio, assim que, por cada elegante pirueta blaugrana, apareciam três ou quatro leões ao mesmo tempo, como se tivessem mais jogadores ou o seu campo fosse mais pequeno, numa carga irreprimível e sem fim, comprometidos com cada lance como se deles dependesse a vida ou a sua morte.

O Atlético não é o melhor onze que vimos jogar, o mais talentoso ou, alguma vez, o favorito. Mas é aquele que levaríamos sempre para a guerra. O Atlético é a equipa que não te desilude, porque não tem dias maus e não depende do adversário, nem da sorte. É a equipa que nunca te vai deixar mal porque, mesmo se tudo o resto falhar, sabes que jamais te deixará sozinho, que jamais deixará de lutar. Porque toda ela é de uma desconcertante e impagável honestidade competitiva, que não demora a convencer-te do quão é especial, e que demora ainda menos a mostrar-to de todas as vezes. Woody Allen escreveu um dia que o talento é sorte, o que conta na vida é a coragem. O Atlético é a equipa que gostávamos de ser.

Se um colectivo se mede pela abnegação, pela audácia e pela solidariedade, pela crença inabalável de que não há impossíveis, mais do que em nós próprios, naqueles que nos rodeiam, então o Atlético é mesmo a melhor equipa do mundo. A melhor porque é muito mais do que isso. É um batalhão, um bando de irmãos, uma profissão de fé. Uma equipa feita muito melhor do que é, porque nunca joga sozinha. Ontem não estava a sua estrela, um dos monstros do ano, e a Simeone bastou reiterar que 'por cada jogador do Atlético que caia, outro se levantará'. Que o suplente, ao fim de um ano de ocaso, não só jogaria, como ia marcar. Foi de Adrián o passe decisivo. O Atlético não joga com 11, joga com 25 de cada vez, com o terceiro guarda-redes, o último lateral, o médio dos juniores e um ultra da claque. Na Antiga Pérsia, a tropa de elite do Imperador tinha um nome especial, baseado no facto de, fossem quais fossem as baixas e as circunstâncias, ter permanentemente um corpo de 10 mil homens: chamavam-se Os Imortais. Este Atlético já não morrerá no coração de muita gente.

No banco, El Cholo, de fato breu e cruz de prata ao peito, parece ele próprio uma figura mitológica. Um último evangelista com o mapa para a Terra Prometida, um feiticeiro que pede aos seus humanos para ousarem ser gigantes, única e exclusivamente por confiarem nele. Um general com os gritos, os gestos e a aura dos loucos, com um carisma capaz de arrancar até gente aos mortos, um líder que os tornou a todos tão incrivelmente melhores, que talvez tenha, de facto, algum super-poder. No campeonato mais bipolar do Mundo, que não ganha há 18 anos - então com Simeone... em campo - o Atlético já era líder isolado. Agora eliminou o Adamastor de uma Era, e voltou às meias-finais dos Campeões, 40 anos depois. A sua travessia não tem sido só um hino ao futebol. Tem sido um tratado de transcendência, no campo como na vida. Num clube conformado à sombra e à derrota, Simeone foi o profeta que lhes ensinou que se quisermos todos, somos muitos mais. Que se estivermos todos, somos muito melhores. Que se acreditarmos juntos, podemos tudo.


Aos adeptos do Atlético chamam-se colchoneros porque, feitos na classe operária madrilena, era na precariedade de modestos colchões que sobreviviam aos piores dos tempos. Na cidade do clube do século, foi em cima da resiliência dessa gente que o Atleti se construiu. Foi na altivez das suas durezas, e exactamente por causa delas, que esculpiu a sua mística e se cunhou "eternamente grande". É tanto mais certo por isso que a vida lhes tenha emprestado o líder que eles merecem. Há uma cena do 300, de Zack Znyder, em que explicam ao Rei Leónidas que determinado exército tem mais homens do que os seus espartanos. Ele responde-lhes, "Homens sim. Mas quantos soldados?". Hoje em dia, é essa a pergunta que qualquer adversário do Atlético deve fazer.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

À altura da ilusão


Imagino-me a entrar num pub com o cachecol de lã, em vermelho e branco puro, sem letras e sem emblemas, escapando ao frio gelado da rua. Lá dentro, os Beatles a tocarem em fundo, como num ritual em dia de jogo, com cerveja e inglês cerrado, no meio de uma procissão de fé capaz de trazer à vida o poster da equipa bicampeã europeia em 78. Imagino-me a sair de sobretudo, a cruzar um mural de Paisley e a prestar reverência contrita à estátua de Shankly, ao lado de um miúdo esbugalhado de espanto, enquanto o pai lhe conta quem foram eles, e porque ali estão, eternamente maiores do que os outros mortais. Imagino-me a chegar aos metafísicos portões de ferro de Anfield e a ficar encadeado por eles, fixo nas letras encimadas por todos os tempos. 'Nunca caminharás sozinho'. Poucos momentos antes de, em pé, no Kop, ser também eu uma modesta voz a plenos pulmões, cantando o hino sagrado numa experiência extra-corporal, como se tivesse estado em Liverpool todo e cada dia da minha vida.

Há clubes grandes, há clubes históricos e há clubes ricos. O Liverpool está no raríssimo lote de clubes místicos, porque nada daquilo se pode remotamente comprar, porque nada daquilo pode ser substituído por vitórias, por troféus ou, sequer, pelo tempo. Apaixonei-me pelo Liverpool nos anos que já não eram os seus: o último campeonato, por exemplo, foi ganho três meses antes de eu ter nascido. Apaixonei-me porque, em consciência, era inevitável. Porque qualquer um que ame futebol está condenado a essa irrecusável proposta do que o jogo pode significar para a vida das pessoas, de como pode tornar-se tão maior do que elas. Como Dalglish, que se despediu pedindo que não chorassem por ele, porque "ninguém podia alguma vez ser maior do que o Liverpool'. O futebol é pessoal, tem de ser. Quando um futebol nos arrepia, sabemos sempre que chegámos ao sítio certo.

Estava à frente da televisão quando, em Istambul, aconteceu a outra final da minha vida, numa segunda-parte onde nunca me poderão convencer de que o Liverpool jogou só com onze. Quem tiver olhado com atenção, terá visto, lá evocados, Keegan a cruzar para Gerrard ou Rush a recargar o penalty decisivo. Todas as lendas de todos os tempos voltaram à Terra nessa noite sobrehumana, como almas canalizadas pelas gargantas daquela gente que, a perder uma final europeia por 3-0 ao intervalo, cantou assim no descanso. Esses milhares que tiveram o privilégio de estar no Atatürk, no fundo, limitaram-se a viver à altura do mantra de Shankly, e sabiam que "o futebol não é um jogo de vida ou de morte, é muito mais importante do que isso". 

À parte esse dia maior do que a vida, porém, o Liverpool mais forte que vi, a temível némesis europeia de Mourinho, era uma equipa de Benítez. Feia, armada, desapaixonada, lobotomizada de carisma. Um Liverpool de Benítez não era verdadeiramente o Liverpool. Os anos que lhe sucederam também não foram amáveis. A equipa não deu o salto em frente nem se reencontrou, derivou na tabela e teve de abdicar da Champions. 2013-2014 tem, contudo, sido uma época especial. Envergonhada de início, orgulhosa nas suas insuficiências depois... e deslumbrante neste epílogo. No último sábado, à oitava vitória seguida e ao 88º golo marcado, a equipa para quem o top-4 era um sonho risível de Verão, isolou-se no comando da Premier League, a um mês do fim.

Se o velho Paisley, até hoje o único treinador da História a ter ganho três Champions, pudesse olhar para o último quarto de século e escolher uma saída, acredito que chancelaria sempre a proposta de jogo deste Liverpool. Isso fala por ela. Uma equipa tão jovem quanto apaixonada, tão inglesa quanto evoluída, tão inexperiente quanto abusada de talento, tão culta e preparada, quanto positiva, entusiasmada, entusiasmante. Liderada por quem, ainda na semana passada, reiterou que nunca será o dinheiro a construir as grandes equipas, e que faz ainda mais sentido por tê-lo no banco.

Uma equipa com o luxo de ainda ir a tempo de desfrutar dum monstro sagrado do panteão de Anfield, numa das melhores formas da carreira - o quanto merecias esse campeonato, Gerrard - e de um rebelde indomável nascido nos confins do Rio da Prata, que perpassou todos os excessos para, na era ronaldo-messiânica da História, apresentar uma folha de préstimos igual às deles. Uma equipa em vermelho pulsante, que personifica um espírito, que ressuscita as aspirações de uma causa, uma equipa que está certa e que merece tudo o que de bom lhe for acontecer. Uma equipa à altura da ilusão que é o Liverpool.

O City continua a ser favorito, não sei torcer contra Mourinho e não faço ideia de como é que esta extraordinária Premier League pode acabar. Sei é que num Liverpool vivo é uma honra poder acreditar.

Walk on, walk on with a hope in your heart
And you'll never walk alone
You'll never, ever walk alone

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Foi assim que aconteceu


Se fechar os olhos, ainda consigo imaginar-me a trautear a música do genérico numa noite gelada no Porto, entre cobertores, tarde e a más horas, com Faculdade na manhã seguinte. Não comecei a vê-la em 2005 e não continuei a vê-la até 2014, mas foi, sem sombra de dúvida, a série mais profundamente marcante da minha era universitária. Marcante não por ter sido a que mais me deslumbrou, não por ter sido aquela com que mais aprendi, mas pela sua desarmante colagem ao nosso ideário. Se calhar, as séries eternas são aquelas maiores do que nós; é, contudo, pelas que estão à nossa medida que nos apaixonamos. O How I Met Your Mother foi sempre uma do nosso tamanho. Palpável, contagiante e tão profundamente carismática nas suas infinitas particularidades. Não foi refundadora de um conceito, mas é inegável a vénia a todas as vezes em que foi tão bem foi escrita, tão perspicaz, genuína e tão criativa. Com tanta intimidade, tanta identidade e tanto grupo debaixo da pele.

Porque tive de consumir as primeiras temporadas por atacado - que foram sobejamente as melhores -, lembro-me de falar delas com um carinho desarmante, de todas as suas pequenas coisas que, ao longo do tempo, víamos e reconhecíamos como se fosse connosco. Da forma como uma série universalizava hábitos que desconfiávamos serem só dos nossos e como criou, muito mais do que isso, uma assinatura tão sua, concretizada em cada Intervention, num General Knowledge com continência, no Bro Code ou num qualquer Thanksgiving, da mesa do canto no MacLaren's ao imortal T2 com escada para o terraço. Falar naqueles bocados de dia-a-dia e no que eles valeram, nas lembranças e nas invenções, nas relações e nos rompimentos, do frenesim entusiástico e pueril até ao peso da maturação. No fundo, no tempo e no senti-lo passar, na vida da série e na nossa. E falar deles, claro, iconizados para todo o sempre no nosso imaginário, com a familiaridade surreal a que só as séries que marcam gerações podem aspirar.

Parei de vê-la há três anos, assim que me licenciei, porque tenho uma regra que é nunca prolongar uma série mais do que é devido, nunca poupar-lhe o golpe de misericórdia. No fim da sexta temporada, a realidade é que o auge já tinha passado e a série ameaçava arrastar-se indefinidamente num limbo doloroso. Perder a magia a cada mês era, pois, coisa que não podia permitir a algo que me trazia tão boas recordações. Ontem, porém, foi diferente, como tinha de ser. Agora que tocou o último sino, era inevitável voltar para prestar a minha respeitosa despedida. Se me perguntassem, teria feito quase tudo diferente: do derradeiro guião à edição, da narrativa individual ao desenlace. Isso, todavia, tem uma importância muito relativa, quando colocado na perspectiva de que ali se fechou um livro com uma década.

O que conta é que, durante aqueles 45 minutos finais, pudemos voltar a lembrar tantas coisas e a sorrir uma última vez com todas elas, porque as corremos juntos. Ao vermos as caras do primeiro episódio nos créditos, pensarmos como tem sido e como será na nossa vez, numa nostalgia do que já fomos e do que ainda vamos ser, na melancolia da camaradagem, das histórias únicas e irrepetíveis, da juventude sem data e da omnipresença - you've got to be there for the big moments -, até ficarmos com o vago aperto sobre a vida que muda e que separa, e sobre o que fica depois disso.

Não sei se algum dia o How I Met será equiparável ao Friends, à luz da História. Sei que, para mim, para a minha geração, teve com certeza esse alcance. E que, para nós, há algo que, por pequeno que seja, também ficou ali, com eles. É esse o tesouro da televisão.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O peso do mundo


"Do you ever ask yourself if you lived up to the expectations?"
Lady Mary Crawley, Downton Abbey

Lembro-me do tempo em que achava que Quaresma era tão bom como Ronaldo. Achava isto com a honestidade de uma criança, sem partidarismos nem concessões. Estava lá a monstruosidade técnica, a fantasia, o génio, a vertigem, eram iguais. Claro que, na altura, eram ambos miúdos inconsequentes, irremediavelmente mais perto de falharem do que de chegarem ao topo do mundo, mas a excepcionalidade de um talento reconhece-se sempre quando a vemos. Quaresma e Ronaldo eram da mesma casta, nasceram com as mesmas capacidades inatas. Estavam destinados a fazerem coisas parecidas e saíram do Sporting ao mesmo tempo. Li algures que, nesse determinante Verão de 2003, aconselharam vivamente a Quaresma que fosse para o Arsenal, crescer com Wenger. Ele, contudo, teve outras ideias. Foi para a Liga das Estrelas, porque o Barça era o Barça. Já Ronaldo ouviu o que lhe disseram e toda a gente sabe como é que isso acabou.

Não digo isto com qualquer menosprezo, mas a verdade é que nunca foram iguais, ele e Ronaldo. Nunca se é, claro, e é injusto alguma vez comparar-se como tal. Injusto mas, tantas vezes, inevitável. Mesmo nos melhores anos do Porto, Quaresma não me voltou a conquistar. Enquanto Ronaldo ganhava mundo ano após ano, Quaresma regressara a casa com aquele abismo de qualidade na mala. De certa forma, acho que é isso que nunca lhe consegui perdoar. Não a arrogância, não a impessoalidade, não a errância imprópria dos campeões, mas que tenha desbaratado tantas vezes um tão grandioso talento. Quaresma foi o melhor da liga enquanto esteve no Porto, mas ser o melhor desta liga fazia-o pequeno. Ele sabia disso e essa é uma nuvem da qual ninguém se pode livrar. Quando Mourinho o foi resgatar para o Inter, confesso que meti as fichas todas. Era a hora. Um projecto com tempo e espaço para dar certo e um grandíssimo futebolista finalmente maturado.

Ter falhado em Milão é o ponto definidor de toda a sua carreira. Uma tragédia infinitamente maior do que na Catalunha, seis anos antes. Porque foi nos campos nerazzurri que Quaresma teve, por fim, a certeza de que não ia conseguir. De que todo aquele virtuosismo e toda aquela atitude não eram acompanhados da resiliência que forja os eternos. Não quero com isto dizer que Quaresma seja mau profissional, coisa que, de resto, nem está documentada. Nem acho que tenha falhado por pretensão ou por indolência. Acho, simplesmente, que não tinha o que era preciso a nível emocional. Ao tipo da cara austera e dos modos graves faltou, por ironia do destino, o sangue frio, o juízo certo, a capacidade de lidar com a pressão e com o esforço, o nervo. No fim das contas, Quaresma foi devorado pela sombra do que poderia ter sido. Tinha tantas condições naturais para vingar que a impossibilidade do contrário tornou-se, ela própria, na razão do seu fracasso. Quaresma tem um talento monstruoso, que o levou a ter oportunidades de que poucos se podem gabar. Barcelona, Inter, Chelsea. No resto, era só humano. Um tipo falível, para quem o preço do talento foi quase sempre alto demais. 10 anos depois do adeus a Alcochete, Ronaldo preparava-se para ser melhor do mundo pela segunda vez, enquanto ele estava de sabática nos Emirados Árabes. Talvez não seja grato compará-los, mas era inevitável. E dificilmente poderia ser mais cru.

Por tudo isto, apostava que, aos 30 anos, Quaresma já não poderia ser uma solução, e nunca para um Porto irreconhecível, sem rede e em degradação acelerada. Que voltasse de seis anos de baixa competição e de seis meses de férias para ser o mais produtivo jogador da equipa e o líder da sua retoma era tão provável como viver na Terra do Nunca. Era demagogia, era torná-lo num vendilhão de sonhos impossíveis. Porque ao Porto esvaíram-se quase todas as opções, o seu regresso não foi um reforço; foi, na verdade, um acto de fé.

O que tem acontecido nos últimos três meses, e que teve ontem auge na relva sacrossanta do San Paolo, é o futebol em tudo o que ele tem de mais fascinante. Na 3ª ou na 4ª vida, depois de um milhão de oportunidades perdidas e quando já não seria razoável dar nada por ele, foi face a todas as probabilidades que Quaresma encontrou, por fim, a transcendência que lhe fugiu a carreira inteira. Já não vai a tempo de ser um dos melhores do mundo, não foi a tempo de ser campeão e nem sei se ainda vai a tempo do Mundial. Mas ter aceite que já não tem de ir a tempo de nada é a sua grande vitória. Quaresma já não deixará de ser o miúdo imprevisível a quem Bolöni puxava as orelhas, mas a centelha, essa, continua lá. Viva. Talvez o problema tenha sido sempre a percepção. Como Marlon Brando celebrou no monumental Apocalypse Now, "é o julgamento que nos derrota". Se calhar Quaresma podia ter sido outra coisa qualquer, maior. Ao vê-lo, porém, esfumar-se entre os defesas do Nápoles, a irradiar magia daquelas botas, tem-se a certeza de que, apesar de tudo, ser ele próprio valeu a pena. O Brasil, não custa lembrar, também é um bom lugar para se ser feliz.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Porque foi uma honra


"People always think of us as rivals but he was among the very few I liked and even fewer that I respected. He remains the only person I envied."
Niki Lauda sobre James Hunt (Rush)

O desporto é, por definição, um jogo de interacções emocionais. Entre treinadores e jogadores, entre jogadores e adeptos, entre adeptos e críticos e entre cada um deles em particular. É, igualmente, o espaço onde essa emocionalidade atinge os patamares de maior excepção. O desporto edifica heróis e vilões, constrói fés e incendeia as paixões mais proféticas. A idolatria não é igualável, põe quase tudo em causa e faz dos adversários, não raras vezes, maiores do que inimigos. É por isso que, para mim, não há nada de mais singularmente grandificante do que admirar um verdadeiro rival. Um dos duros, um dos terrivelmente temíveis, um dos que faz vida negra e que nunca, nunca vai perdoar uma oportunidade. Puyol foi o capitão da equipa mais radical que vi na vida. Uma que dizem ter reinventado o jogo e que, garantem, foi a melhor que já jogou. O Barça de Guardiola não era só forte ou, sequer, muito melhor do que os outros. O Barça de Guardiola foi o adversário impossível.

Adversário, para mim, por duas bases fundamentais: porque esteve no caminho dos meus e porque sou, por princípio, a antítese das equipas providenciais. Para mim, a beleza daquele carrossel orquestral esgotou-se na sua inevitabilidade de vitória, reforçada, depois, na insuportável presunção de ser perfeito. O Barça era o modelo do sonho, o tipo-ideal em cada um dos seus filamentos, o princípio e o fim de tudo o que é bom... e não podia ser batido. Esses são os casos em que eu fico respeitosamente do outro lado. Sei reconhecer talento e capacidade, e o mérito, sempre. Esse Barça abusou em cada qual. Era plenipotenciário e inatacável. A minha única vitória era poder não gostar, era sintetizá-lo até à condição de instigador de medo. Às vezes penso se, com o tempo, não me vou arrepender de não ter querido mais a esse Barça e de os ter vilificado a todos. Um, porém, foi sempre especial.

Puyol era a prova de que até as maiores máquinas têm um coração. Não foi o central mais talentoso nem o defesa mais brilhante que vi jogar mas foi, indiscutivelmente, um dos dois ou três homens de maior carácter que já vi em campo. Um que se mediu sempre em mais do que cada sprint vertiginoso, do que cada corte elástico e limítrofe, do que na agressividade legionária de quem disputa cada bola por vida ou morte. Porque Puyol foi sempre o líder nas coisas que não se vêem, o exemplo nos pormenores que nunca se vão saber. O seu gesto que mais me marcou foi um episódio de segundos, apanhado por acaso numa câmara secundária e destinado a ser ignorado pelas manchetes. Era o auge do sanguinismo entre o Barça e o Real de Mourinho. Cada atitude, cada toque, cada olhar era questão de celeuma, era o fósforo passível de explodir o barril de pólvora. Estávamos no Bernabéu, num canto defensivo, com a claque do Madrid de bafo no pescoço adversário. Nisto, chove um par de isqueiros na área catalã e Piqué não perde tempo. Num reflexo, agarra um e presta-se a parar tudo, agitando-o em direcção ao árbitro. O capitão, contudo, decidiu fazer diferente. Tirou-lhe o isqueiro da mão, jogou-o para fora e ordenou-lhe que voltasse calado à posição. Puyol é isto. A lisura de carácter, a seriedade, esta desarmante altivez competitiva sobre todas as coisas.

Numa equipa que, algures no caminho, se obcecou em parecer mais do que ser, e que usou de todos os meios para alimentar esse sufoco imaculado, Puyol era o bloco de genuinidade que insistia em bonificar tudo à sua volta. Lembro-me de pensar tantas vezes em como o Barça não o merecia. Mas lá continuava ele, obstinado à sua missão e à sua tropa, inapelavelmente devoto à única causa que amou na vida inteira. A ser, em si mesmo, a própria razão que lhe deu sentido. Nunca invejei Messi, nem o tiki-taka, nem nenhuma noite insuperável do Camp Nou. Nem uma. Invejei-lhes Puyol. Hoje, dia em que anunciou o seu último ano, não podia deixar de escrever isto. Foi ele o adversário que mais respeitei e o que mais honestamente admirei.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Óscares 86 - BALANÇO


Acho que a pior coisa que se pode dizer de qualquer grande espectáculo é que decorreu tudo como era esperado. Não porque não tenha acontecido um desastre ou nenhuma vergonha, mas porque ninguém quer pagar bilhete se já souber o fim. Se a surpresa tem de fazer parte do dia-a-dia, para o mundo do entretenimento é estritamente vital. Mais do que isso, a subversão do provável e o espanto de última hora, o twist, são a própria essência do cinema. Pode ser uma falsa percepção, mas acho que, nesta fase da nossa Era, os Óscares têm perdido parte substancial da sua capacidade de deslumbramento.

É verdade que as pessoas esquecem-se que a cerimónia é o reflexo dos votos de um clube. Os tais 6 mil membros da Academia de Artes e Ciências gozam do direito de voto e ninguém tem nada a ver com isso; o facto do clube deles ser especial para o resto do mundo é só um pormenor. É seguro, aliás, dizer que, em boa medida, os Óscares sempre terão sido previsíveis. Mas hoje, com tanta exposição prematura de opiniões, com uma disseminação tão fácil de pensamento único e com um lobismo tão impactante, acho que o que sobrava da pureza dos Óscares está mais ameaçado do que nunca. Não digo isto só pela desilusão da cerimónia de ontem ter debitado, a regra e esquadro, um por um, todos os vencedores pré-aquecidos. Escrevo porque tenho muita pena que os Óscares sejam, cada vez mais, vistos como prémios "políticos", que não merecem assim tanta consideração. E, sobretudo, por achar que quem tira à noite maior um Benigni a escalar uma plateia ou o entusiasmo estarrecido de dois miúdos, quem lhe tira a ilusão, tira-lhe tudo.


Não é um caso perdido, claro que não, e para parte substancial dos fiéis, a festa das festas será sempre uma proposta muito difícil de recusar. E se este ano a enunciação de laureados não trouxe magia, foi um prazer presenciar o melhor hosting que já vi. Depois de um monólogo morno e vagamente fugidio nada o faria prever, mas Ellen DeGeneres arrombou autenticamente o Dolby Theatre, com uma liderança de gala que, sinceramente, será quase impossível de emular e que meteu o nível muito, mas muito nas nuvens. Sou um fã eterno da forma gervasiana de fazer, mas os Óscares pedem um engenho elegante que, achava, já se concretizara com brilho em Hugh Jackman ou Seth MacFarlane. DeGeneres optou por uma fuga para o futuro e reinventou todo um conceito, mercê de uma interacção histórica com a plateia e com as redes sociais. A dada altura, acredito que gente nos quatro cantos do mundo se tenha sentido parte daquilo em directo, e essa alucinação impagável coloca-a num verdadeiro Olimpo de tudo o que já se fez. O facto de ter sido a cerimónia mais vista em 10 anos completa a ideia. Absolutamente fenomenal.


A realização justifica igualmente o enaltecimento, num registo leve, pouco exuberante, mas sempre tremendamente agradável. Os momentos musicais, doutras vezes descurados, foram na mouche, os clips foram coloridos que baste e o trunfo residiu nas inusitadas quebras de ritmo, com a mítica selfie, com as pizzas, etc, que lhe conferiram o tal toque imprevisível e pessoal. Muito bom. Ao nível dos discursos, os melhores foram, como quase sempre, os quatro da interpretação, com o momento da noite a morar claramente com Lupita Nyong'o. McConaughey e Blanchett têm o calejamento, Leto elaborou demais, mas Nyong'o encantou verdadeiramente a sala, num momento irresistível de genuína honestidade e deslumbramento.


Sobre os vencedores, emergem três de forma mais ou menos indiscutível. 12 Years não vacilou e formalizou mesmo a consagração, com o bónus de 'Argumento Adaptado', que estava em aberto, num total de três grandes prémios. Respeitando o filme, já disse o que achava na antevisão, e gostava só de evidenciar duas nuances curiosas: Michael Fassbender e Steve McQueen que foram, para mim, os expoentes máximos da obra, ficaram exactamente como não agraciados; Brad Pitt, por sua vez, colheu a ironia de chegar, na pele de produtor, ao primeiro Óscar da carreira (exacto, ele também não tinha nenhum...).


Mercê do impacto técnico, Gravity acabou por sair da sombra que lhe estaria reservada e teve a sacola maior, com nada menos do que 7 Óscares, brilhantemente encabeçados por Alfonso Cuáron (saliento, ainda, Fotografia, com a primeira vitória, à sexta nomeação, de um génio chamado Emmanuel Lubezki). É uma medida de reconhecimento francamente justa para um filme excepcional, de um alcance que vai perdurar por muitos anos e que não merecia ficar fora das notícias.


Finalmente, Dallas Buyers também confirmou os dois prémios masculinos de interpretação e passa aos livros com um halo que é dezenas de vezes maior do que a qualidade do filme. Não vou continuar a insistir no mesmo mas, honestamente, nunca poderei perceber a forma inculcada como as vitórias de McConaughey e Leto se tornaram tão inevitáveis nos últimos meses, à luz de tão extraordinária concorrência. A glória de Dallas Buyers é um erro histórico que o tempo provará.


Sobre os meus favoritos, Her manteve-se felizmente no lado certo dos números e garantiu 'Argumento Original', como tão genialmente mereceu. Todavia, acho que fiquei mais aliviado do que contente com a vitória - podia acabar em Dallas Buyers, nunca se sabe -, até porque, de uma certa forma, encaro-a como um prémio redutor: Her é um filme demasiado bom para ter sido balizado em consolações e jamais aspirar a honras maiores. Ironicamente, a vitória de Spike Jonze alienou a única possibilidade viável do seu camarada O. Russell e do meu outro favorito. O bestial American Hustle - o segundo ano seguido em que David O. Russell nomeou um filme nas 7 grandes categorias! - passou absoluta e ingratamente ao lado, perdendo ainda Secundária - tinha sido Jennifer Lawrence a salvar a honra do convento no ano passado - e Filme, onde se "dizia" ter uma hipótese. Mais um para o trágico buraco negro da Academia.


Para acabar, pouco mais haverá a dizer sobre DiCaprio. O facto de, mesmo assim, ter sido ele a figura da noite explica quase tudo. Mesmo que isto soe gasto, a convicção das pessoas representará sempre muito mais do que qualquer estatueta, e se não foi à 4ª - fora a idiotice de vezes em que nem o nomearam: Django, Departed, Catch Me... -, será necessariamente numa das próximas dez. Por eventualidade, num filme pior do que estes todos, como a Academia gosta de fazer.

Sobra desejar que 2014 seja um ano com a mesma qualidade farta que acabamos de experimentar, mas com a consciência que faltou e sem o veneno que são os vencedores por decreto.

domingo, 2 de março de 2014

Óscares 86 - ANTEVISÃO

 

Pelo quinto ano de vivência aqui do espaço, vou-me prestar a lançar os dados a uma das noites que é, indefectivelmente, uma das que conservo em mais alta estima. Como sempre, a minha resenha dos Óscares não tem nada de elenco de apostas, e é, na maior parte dos casos, uma negação mais ou menos barulhenta de derrotas esperadas. O que não as torna menos agonizantes nem me desencoraja a vivê-las de forma menos clubística. Com as honras da festa a cargo de Ellen DeGeneres - sendo tão carismática, continua a ser uma incógnita, ainda por cima com o fardo que é suceder a MacFarlane -, fica aqui a minha cartilha, de trás para a frente.


ACTRIZ SECUNDÁRIA
Será uma corrida reservada a duas senhoras que, até agora, dividiram quase irmanamente a temporada dos prémios: Jennifer Lawrence, que estará na cerimónia a defender o título, venceu o Globo de Ouro e o BAFTA, ao passo que a estreante Lupita Nyong'o reclamou o Sindicato de Actores e o prémio da Crítica. Repito uma verdade que já aqui deixei há um mês atrás e que me parece providencial: nunca me verão escrever que Lawrence não merece ganhar seja o que for; todavia, este Óscar também o daria a Lupita Nyong'o que, de resto, me parece efectivamente a favorita. A sua vulnerabilidade inelutável, a desesperança e a desolação que carrega nos olhos e na carne são, de forma merecida, uma das iconografias do sucesso de 12 Years a Slave e um papel que não me parece comparável ao das restantes.

ACTOR SECUNDÁRIO
É uma das minhas obsessões de há semanas para cá, desde que vi Dallas Buyers e desde que a vitória de Jared Leto se tornou num dogma. Sou forçado a bater nesta tecla uma última vez: Leto é crível na pele agreste de um homossexual às portas da morte, mas o papel ganhou o Óscar no momento em que foi escrito. Simples quanto isso. Sendo capaz, a performance não está sequer perto de ser a melhor do ano. A medida pela qual se avaliou foi a do emagrecimento, da degradação física e do transformismo. Isso reflecte um trabalho técnico excepcional, mas não traduz genuína capacidade interpretativa. Pensar que a monumentalidade atroz de Michael Fassbender será desterrada com tamanha e tão perturbadora naturalidade nunca me poderá caber na cabeça. Será a vitória de um papel feito, em piloto automático, sobre quem, com uma caracterização 'comum', consegue-nos agredir só por estar a olhar do outro lado da tela.

ARGUMENTO ADAPTADO
É das categorias mais 'aleatórias' da cerimónia: o Sindicato de Argumentistas galardoou Captain Phillips, o Critics Choice deu o prémio a 12 Years a Slave e os BAFTA, como é costumeiro, deixaram a taça em casa, com Philomena. Para mim, o vencedor seria claro: Billy Ray fez um trabalho sensacional com Captain Phillips e é um exemplo acabado de tudo o que uma adaptação de argumento deve ser, ou seja, de como a gestão magistral da narrativa pode engrandecer decisivamente um filme com linhas tão bem definidas e que, inclusive, sabemos como vai acabar. Gostava de mencionar, ainda assim, Richard Linklater: a suprema obra de arte que foram os Before merecia ser eternizada com mais do que a honra de uma segunda nomeação (Before Sunrise também o fora, em 2004).

ARGUMENTO ORIGINAL
Her.

REALIZADOR
Aqui não há dúvidas, o prémio será mesmo para Alfonso Cuáron, e com toda a justiça. A sua leitura do que podia ser o filme foi visionária e, como se não bastasse, a execução conseguiu ser ainda maior do que isso. Gravity foi a experiência cinematográfica verdadeiramente fascinante do ano e será um daqueles filmes para, daqui a muito tempo, quando se estiver a edificar uma cronologia qualquer de marcos, deixar 2013 à vista. É uma vitória que também faz sentido porque é provável que o filme não tenha mais distinções; noutro contexto, Steve McQueen merecia ter uma palavra a dizer. Com meios e necessidades completamente diferentes, o seu registo em 12 Years a Slave é uma tirada de arte perfeitamente deslumbrante. Por último, a ausência de Spike Jonze (Her) é impensável.

ACTRIZ
Cate Blanchett pode-se dar ao luxo de já ter o texto de agradecimento escrito há semanas, porque não há hecatombe nenhuma que lhe vá roubar o segundo Óscar da carreira. A correr por fora, socorreu-se dos históricos guiões femininos de Woody Allen para bater o peso da concorrência e ter a questão virtualmente arrumada no grande dia. A sua alcoólica, neurótica, em regime acelerado de auto-destruição, apresentou-a a uma luz sob a qual jamais a tínhamos visto e alargou-lhe de forma inquestionável o espectro da carreira. Ainda assim, tenho de salientar o enorme registo de Sandra Bullock, em Gravity. Honesta, crua e vulnerável, foi uma performance de enorme nível que completou o filme excepcionalmente, e que me parece nunca ter chegado a ser valorizada como devia.

ACTOR
É a verdadeira plataforma de frenesim da cerimónia e, através das redes sociais, ganhou nas últimas semanas uma expressão que duvido que tenha paralelo com qualquer outra coisa. A razão é a demanda quase mitológica para que Leonardo DiCaprio chegue ao seu primeiro Óscar. Wolf of Wall Street foi, talvez, a mais sensacional recepção do ano e o motim digital tem crescido de forma exponencial com o aproximar do dia D. Muitas vezes, a multidão não sabe do que está a falar e pode ser perigosa. Esta não é uma delas: DiCaprio, com a enésima prestação extraterreste da carreira, merece mesmo toda a devoção que lhe estão a emprestar e, mais importante, o seu primeiro Óscar. Tudo isto é tanto mais interessante dado o contexto... e a virtual impossibilidade do cenário vir mesmo a concretizar-se. É que, ironia das ironias, as entidades ininteligíveis da Academia e da Crítica já sancionaram, por decreto, que quem ganha é Mat McConaughey (com a única coisa banal que fez nos últimos dois anos; conferir o que já escrevi para Jared Leto). Ou, no pior dos casos, como nos BAFTA, Chiwetel Ejiofor. Só porque sim. Será definitivamente o tema fervente da noite e um dos envelopes dourados mais esperados de que me lembro.

FILME
Por fim, a razão por excelência. 2013 foi um ano espectacular para quem gosta de bom cinema. Talvez seja redudante dizer isto, talvez seja do gosto ou talvez sejam sempre mas, no ano que passou, acumularam-se ases atrás de ases, como dá gosto. Como sempre, a Academia deverá fazer jus à sua regra de ouro: premiar o politicamente mediano. O mais clássico e menos arriscado, o mais equilibrado e menos genial. Sinceramente, desde que sigo os Óscares, nunca vi o melhor filme do ano ganhar Melhor Filme do ano. Para 2013 não será excepção. Com um vasto grau de certeza, o vencedor será 12 Years a Slave. Que é um filme de peso a muitos níveis, mas que é só um filme bom num ano de enormes. Um filme, para todos os efeitos, premiável pelo decalque ao tipo-ideal da Academia: porque tem época, majestade, técnica, lobby.

O melhor filme de 2013 foi Her, que já vi tarde e a más horas, e sobre o qual, infelizmente, ainda não pude escrever. Her é perfeito. É tudo o que o cinema pode ser no seu auge: tacto, talento, bom gosto, criatividade e génio. Ousadia, mensagem, metáfora, cor e música. Tudo condensado num produto final incrivelmente leve, que inebria tanto quanto apaixona. Que um filme destes não tenha possibilidades de ganhar é criminoso.

Tenho igualmente de fazer um acto de contrição por ainda não ter falado de American Hustle neste texto, que foi o meu favorito desde o momento em que o vi e que, provavelmente, será hoje desterrado ao esquecimento, sem um único galhardete para memória futura. Reafirmo-o as vezes que forem precisas: pelo segundo ano seguido!, David O. Russell presentou-nos com uma autêntica jóia, com graus de humanidade e grandeza de personagens como mais ninguém é capaz de criar, por sistema, no mercado actual. Não foi no ano passado, não será neste, mas o reconhecimento para tão grande talento chegará inevitavelmente. Uma última nota para Inside Llewyn Davis, que sujeitaram ao ridículo de nem dignificar com uma nomeação: com os dois acima, completa a minha tríade de melhores do ano.

No resto, já são horas de entrar em estágio. Aproveitemos o espectáculo na expectativa de que um dia também andemos por lá e esperemos convictamente pelas únicas vitórias que valem a pena: as impossíveis.