quinta-feira, 8 de maio de 2014

23 convocados. Os melhores, os fiéis e os necessários


Rascunhar a convocatória do seleccionador em Verão de grande torneio será sempre um dos mais unânimes passatempos nacionais. A realidade diz, porém, que chegada a hora esse é, quase sempre, um exercício redundante, que muito raramente se presta a corroborar surpresas de monta. De facto, um Mundial não é notícia de ontem. É o resultado prático de dois anos de qualificação, com todas as experiências, nuances e calejamento de um grupo mais ou menos definido de jogadores que, na maior parte dos casos, até é geracional e sobrepõe esse ciclo bienal de apuramento. A última chamada é sempre crua. Não é hora de inventar a roda, mas de encontrar a fusão entre os melhores e os que foram treinados exactamente para esse efeito. A Selecção, como toda a gente sabe, tem uma equipa titular definida desde o pós-África do Sul e não há nenhuma razão para crer que ela possa ou vá mudar. Para além disso, ficaria mesmo bastante surpreendido se a convocatória do próximo dia 17 não fosse a seguinte (titulares a negrito, não que fosse necessário):

GR: Patrício, Beto, Anthony Lopes.
DEF: J. Pereira, Pepe, Bruno Alves, Coentrão, André Almeida, Ric. Costa, Neto.
MED: Veloso, Meireles, Moutinho, William Carvalho, Amorim, Ruben Micael.
ATA: Ronaldo, Nani, Postiga, Quaresma, Varela, Hugo Almeida, Éder.

Desmistificada a questão, diria que qualquer projecção da convocatória, para ter significado, terá de ser um esboço, por assim dizer, dos 12 suplentes. Haverá deles com lugar cativo, sim, mais ou menos justificado, mas é na especulação sobre o banco que há margem para pensar a Selecção e ser inteligente sobre o alcance das opções. Ao contrário do senso comum, não acho que a equipa tenha de ser, no sentido lato, o lugar onde moram os 23 melhores jogadores da Nação. Esta deve ser, na verdade, o grupo que dê maiores garantias de sucesso, e esse sucesso não é directamente proporcional nem ao talento, nem à forma, mas, na minha opinião, à complementaridade e ao plano emocional. Grosso modo, os meus critérios para acabar a lista seriam, por esta ordem, a capacidade para oferecer soluções diferentes, a experiência, o talento e o valor para o balneário.

BALIZA


Patrício e Beto são positivamente inquestionáveis. Parecia certo que Eduardo nunca perderia um lugar, mas o pasmo de época no Braga foi suficiente para varrer uma das sensações do Mundial-2010. A baliza, curiosamente, desafia as premissas anteriores, uma vez que o terceiro guardião é uma figura honorária que, garantidamente, não terá qualquer minuto. Neste sentido, compreendo se Paulo Bento optar por Anthony Lopes, titular do Lyon aos 23 anos, numa lógica de incorparação do futuro. A minha escolha seria, contudo, Ricardo (Académica). O guardião da Briosa anda há épocas a ser um dos melhores da Liga e, no dealbar de mais uma grande temporada, aos 31 anos, representaria uma oportunidade honesta para o seleccionador mostrar que não olha só para os grandes e para o estrangeiro.

DEFESA


Garantido será que só existem 7 bilhetes para a defesa, distribuindo-se os lugares vagantes por dois centrais e um lateral. Aqui, acredito que Paulo Bento escolherá bem. Cédric fez uma época boa, e tem o lobby da formação do Sporting, Miguel Lopes tem experiência e Antunes uma canhota. Para o lateral suplente, todavia, o critério só pode ser a polivalência. O lugar seria, portanto, de Sílvio, não tivesse ocorrido a fatalidade da lesão. Assim, André Almeida (Benfica), com dois anos a dar boa conta de si pela provas europeias, e onde foi preciso, é a opção correcta. No coração da defesa, só tenho pena que Fonte (Southampton) não tenha tido oportunidades no último ano. Se não preconceito, foi desconsideração enviesada do seleccionador sobre o bastião de uma das grandes defesas do melhor campeonato do mundo. Nesta fase, contudo, chamá-lo seria ilógico. Paulo Oliveira (Guimarães) é o futuro da posição, mas as vagas devem ser de Neto (Zenit) e Ricardo Costa (Valência). O primeiro por, qualitativamente, ser, de facto, o terceiro melhor da esquadra, o segundo pelo incontornável capital no balneário.

MEIO-CAMPO


Neste momento, deixar William Carvalho (Sporting) em terra seria uma barbaridade tão bíblica, que nem a sério se pode levar. O melhor jogador português da liga não só foi a bestial revelação do ano como, por todas as características e mais algumas, seria sempre, no meu entender, o titular da casa #6. Provavelmente não será, mas é certo que estará na lista (pelo menos, depois do episódio-Fernando...). Sobre os médios-centro, acho que há duas concepções essenciais: desde logo, e mais importante, salvaguardar o perfil da equipa, com um interior puro, sábio, que equilibre sempre. Só vejo dois jogadores com essas características: Rúben Amorim e Adrien. O subcapitão do Sporting fez, de facto, uma grande época, e de certa forma merece a pressão que se tem exercido para que conste da lista final; todavia, partilho da provável decisão do seleccionador. Rúben Amorim (Benfica) é melhor jogador, fez óptima época, é bem mais rodado e está no grupo há mais tempo. Sem discussão.


Pelo contrário, o último elemento do miolo deve romper o padrão. Deve ser diferente dos que lá estão e deve oferecer soluções que os outros não podem. Será das vagas mais metamórficas: até ver, Rúben Micael é o dono do posto; André Martins foi cultivado durante o último ano e André Gomes e Josué já foram ambos observados de perto. Sendo muito objectivo, diria que carregar Rúben Micael seria ridículo. É o #10 mais evidente dos seleccionáveis, mas padece de um pequeno problema: não ter absolutamente qualidade para lá estar. A época no Braga faz o cheque-mate. Sobra, assim, um porta-bandeira juvenil de cada um dos grandes, todos bastante particulares. O melhor jogador? André Martins. O que, na minha opinião, pode causar mais impacto a sair do banco? André Gomes (Benfica). Tem o físico, a passada e a personalidade.

ATAQUE


Sobre o debate mais icónico, também reconheço o tão difícil que é Quaresma (Porto). Também discuto a sua operacionalização numa equipa que não está sequer próxima de jogar para ele e, mais do que isso, a sua utilidade, produtiva e emocional, na pele de suplente. Tudo pesado... e convocava-o sempre. Há talentos que só um louco recusaria e o que Quaresma pode fazer numa fracção de segundo, num único lance, é mais relevante do que outros em torneios inteiros. Diz a regra que os três últimos lugares deveriam corresponder a um extremo e a dois pontas-de-lança... o tipo de coisa que valerá a pena desconstruir. Primeiro, porque Portugal tem mais e melhores soluções no transporte do que na área; depois, porque joga com um único avançado; finalmente porque, em boa verdade, se o desespero chegar, é Ronaldo quem vai ao meio, não um Edinho ou um Nélson Oliveira. A minha opção era, então, sacrificar dois soldados de Bento.


Varela é um tipo leal, brutalmente comprometido e tem a seu favor o facto de, por mais do que uma vez, já ter inventado um milagre. É um amuleto e dificilmente não será convocado. Acredito, no entanto, mais na qualidade do que na fé e, por mais esforçado que seja, Varela é só um jogador comum. Incomparável, por exemplo, ao alcance da capacidade de Danny (Zenit). O madeirense nunca foi feliz nas quinas, é verdade, mas só por desonestidade se poderia pôr em causa o seu incrível rendimento na Rússia ao longo de tantos anos. É versátil em relação aos outros extremos, joga por dentro e pode, inclusive, apresentar-se como um #10. Esquecê-lo era o tipo de luxo para quem não tem a nossa parcimónia de recursos.


Na eterna sombra de Postiga, Hugo Almeida terá assinado uma das melhores épocas da carreira. Está no grupo vai para uma década e sugere uma solução alternativa que tem de estar prevista. Não consigo, contudo, deixar de optar uma vez mais pelo talento. Éder (Braga) teve um ano difícil, mas não engana. Ao físico e ao jogo-alvo, acrescenta agilidade, leitura e instinto. E, sejamos crus, é infinitamente mais jogador do que Almeida. Para o bem e para o mal, também chegaria fresco ao Brasil.


Para o fim, o joker. Acho que cabe um em qualquer convocatória e, no nosso caso, não há rigorosamente nada a perder. O meu jogador número 23 seria Bebé (Paços). No Natal, pouco parecia sobrar ao mais meteórico negócio da História do futebol português. A eurodisseia do Paços fora um fracasso e a travessia no deserto insinuava prolongar-se muito para lá da segunda metade da época. O que aconteceu ao ainda jogador do United desde aí foi monumental. Com a produção e os golões a falarem por si, as suas características únicas tornam-no, neste momento, terrivelmente valioso. Compará-lo aos candidatos a terceiro ponta-de-lança é tão primário que dispensa mais explicações.

Como referi à partida, não espero quaisquer surpresas no dia 17. Fica apenas o registo para memória futura.

GR: Patrício, Beto, Ricardo.
DEF: J. Pereira, Pepe, Bruno Alves, Coentrão, André Almeida, Ric. Costa, Neto.
MED: Veloso, Meireles, Moutinho, William Carvalho, Amorim, André Gomes.
ATA: Ronaldo, Nani, Postiga, Quaresma, Danny, Bebé, Éder.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Lone Survivor. Mais uma incursão no herói americano


Lone Survivor é um filme superior ao nível de um elemento em especial: a realização. De facto, pouco mais se poderia pedir ao trabalho de Peter Berg, ele que anteriormente já explorara o registo em The Kingdom (2007). A história verídica de uma missão falhada dos SEAL nas montanhas do Afeganistão é arrebatada com um realismo digno de registo, espectacular mas de uma forma crua, abusivo da tensão em cenários apertados e muito cirúrgico. Não é um filme "em grande", isto é, não vive de efeitos especiais, nem de grandes milícias, nem de cargas épicas, sendo, ao invés, um retrato ocular, pessoal e, por isso, crível, a respeito do carácter da jornada de quatro homens deixados à própria sorte, com a ira do mundo no seu encalço. Não investindo em exageros, é um filme passível, todavia, de impressionar e, quanto a isso, destaco as excepcionais sequências dos personagens a despenharem-se, em carne e osso, por desfiladeiros inteiros. São daquelas que marcam.

Diria, contudo, que os méritos do filme se esgotam nesse competente jogo da câmara. Não que seja pouco - e são tantos os filmes de acção, até com premissas melhores, que não têm essa qualidade de leitura, por défice ou excesso -, mas também não é suficiente para o colocar no patamar em que o chegaram a aventar na época dos prémios. Saber que a história é verídica nunca deixa ninguém indiferente e é inevitável que isso injecte, por si só, mais crédito ao produto final. Há, porém, que saber distinguir o que é a qualidade da história pela sua raiz, do que é a qualidade do texto, ou seja, da capacidade do argumento em modelá-la para ser cinema. Neste caso, se Peter Berg merece muitos pontos pela direcção, perde outros tantos no guião. Lone Survivor é um filme perfeitamente vazio, sem qualquer densidade dramática. Tem má caracterização, maus diálogos, não tem carisma e não tem nada que, no fim de contas, dê coesão emocional aos préstimos visuais da história. É tudo demasiado ligeiro e, pior do que isso, reduz-se ao lirismo do ideal heróico americano, o que o torna oco, menos sofrido e, consequentemente, menos sério.

O cast também não colaborou. Simpatizo bastante com Mark Wahlberg, com a sua personalidade, história de vida e com os seus projectos de produção, mas não posso fazer nada em relação às suas limitações interpretativas. Quando lhe pedem para fazer drama, então, é penoso. Num registo mais flexível, como em 2 Guns, também no ano passado, as coisas até lhe saem bem; de contrário, Wahlberg é só uma rocha que não passa nada, tanto pior se torturado pelo peso de ser protagonista. No mais, sem nenhum grande actor a bordo, e antecipando-se os tempos de antena para a martirização, o filme já estava, de certo modo, ceifado à partida. Só merece algum reconhecimento Ben Foster, que era o mais capaz do lote e foi mesmo o melhor.

Lone Survivor é generosamente tenso, com uma temática fácil e bastante bem filmado. No resto, é só raso.

6.5/10

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Nebraska. A vida não é preta e branca


Nebraska é um filme adorável a todos os níveis. Adorável de uma forma envergonhada, daquela que nos seduz e nos desarma, dando cor à existência por libertá-la de pragmatismos crus. Não é lírico, mas passa a sua mensagem de uma forma extraordinária, pelas metafóras, pela assimilação e pela vida que nunca é preta ou branca, mas muito menos óbvia do que isso, aqui de alguma forma replicada na própria alegoria semiótica a cinza. Nebraska conta a história de um velho pai nas muralhas escusas da demência e do último grande empreendimento da sua vida: cruzar meia América para ir reclamar um alegado prémio de um milhão de dólares. O prémio, como é bom de ver, nunca foi mais do que propaganda boçal, mas às unhas de quem percebe a vida a fugir-lhe debaixo dos pés, servia tão bem mesmo assim. O compadecente filho mais novo vai, então, guiá-lo numa redundante viagem de milhares de quilómetros que representará, naturalmente, muito mais do que isso. Materializará um regresso aos lugares da memória, numa jornada sobre vazio e sobre propósito, sobre ilusão honesta e ainda ir a tempo de alguma coisa e, acima de tudo, sobre a compaixão anuente que nos torna humanos.

Dois anos depois do excepcional The Descendants, e no padrão de Sideways, Alexander Payne apresenta-nos mais um incontornável projecto sobre família e fraternidade, confirmando-se como um dos mais importantes realizadores dos últimos anos. Nebraska é um filme impecavelmente medido, doce e bonito, com uma grande fotografia e óptima banda sonora, ao qual o preto e branco assenta exactamente como uma luva. Não é fácil escrever sobre família, mas é igualmente árduo filmá-la de forma genuína. Payne capta-o, mais uma vez, com a candura, o tacto e a ironia que já o celebrou e assina mais um grande trabalho. Ao contrário dos filmes supracitados - que lhe valeram em ambos os casos o Óscar para Melhor Argumento Adaptado -, aqui o texto ficou a cargo de terceira pessoa: Bob Nelson, um argumentista televisivo de pequena monta que, às portas dos 60 anos, escreveu a primeira longa-metragem da carreira. Os Spirit Awards galardoaram-no com o prémio de Estreante do Ano e, de facto, não podia ser mais merecido. Como desfio no parágrafo inaugural, o texto de Nelson é de uma riqueza apaixonante, sendo delicado, inspirador e emotivo no seu trejeito de cara fechada. Um dos Argumentos do ano, como bem reconheceu a Academia.

Interpretativamente, também ficou tudo em óptimas mãos. Bruce Dern é imenso no retrato da velhice crua, que nos tira tudo e nos parece empurrar sem rede para um final inevitável. Carrega o filme no seu jeito seco, todo ele trémulo, desajeitado e ácido, mas capaz de emprestar aos olhos o brilho dos sonhos impossíveis, qual D. Quixote atrás de gigantes, desconfiando que são só moinhos, mas que valem a pena mesmo assim, por fazerem-no correr e porque, no fim, a jornada é mesmo a única recompensa. E é supremo o desfecho em que todo o personagem se desfaz num sorriso juvenil averso à austeridade, tão vindo do âmago que nos toca como o de um velho conhecido. June Squibb é, por seu lado, outra estrela na companhia. Parece, à partida, limitada a determinado tipo de personagem, mas chancela-se como uma secundária de luxo, bestial no seu carácter corrosivo, maus modos e agilidade hostil, que a tornam irresistível cena sobre cena. Will Forte, o filho mais novo, parece, conquanto, algo bidimensional para o que poderia ter sido o papel, ainda que o seu tom pachorrento acabe por pontear plenamente o curso final.

Nebraska não é um filme para nos tirar o chão ou varrer-nos de surpresa, mas exala qualidade em todos os seus momentos. Pode condicionar quem tiver menos paciência, porque dá-se ao seu próprio tempo e acrescenta cenas por mera composição estética ou reforço de contexto, mas é uma história francamente bonita, que não deve deixar de ser vista e cujo fim, acredito, não dispensa um sorriso nos lábios.

7.5/10

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Fazer a própria sorte

 
'- Esta época, o que é que mudou no Benfica e no Porto, já pensou nisso?
- Já... mas tenho uma opinião diferente da sua. Não faço um juízo de valor por esta época, faço-o pelos cinco anos em que estou no Benfica, e pelo que eram o FC Porto e o Benfica antes e pelo que são agora. Só por este ano, não'
Jesus, depois da meia-final da Taça da Liga

Jorge Jesus nunca foi um bem-amado. Provavelmente, nunca será, ou não fosse ele a exacta antítese do modelo consumeiro dos 'treinadores de que se gostam'. Jesus tem uma facilidade para ser intratável, vezes demais no limite da falta de educação. Não mede palavras nem gestos, tem pouco tacto e tem a capacidade comunicativa de uma rocha. Dá espalhafato, é agreste e nunca aparenta sangue frio. Este é, não custa lembrar, o mesmo ano da molhada com a polícia em Guimarães e do festival de horrores em White Hart Lane. Desconfio que, até neste preciso momento de euforia, não seriam assim tantos os benfiquistas a assinar-lhe um contrato vitalício. Foram inúmeras e recorrentes as ocasiões em que o quiseram ver pelas costas, em que fantasiaram com outros perfis, em que, até, desamoraram as suas conquistas. Acredito que a sinopse é suficiente para perceber que, se chegou a treinador de maior longevidade da liga, no maior clube português, Jesus não pode ser só um treinador razoável.

Quando comecei a ver futebol, o Benfica não era uma das três melhores equipas portuguesas. Ser eliminado de forma idiótica da Taça UEFA era só normal e uma boa venda era fazer meia dúzia de milhões com Tiago ou Manuel Fernandes. Houve anos que até sorriram pela certa - lembrem-se Camacho, a nível interno, e Koeman lá fora -, mas, até Jesus, o Benfica tinha ganho um campeonato em 17 temporadas. O seu legado fala por si em todo e cada um desses vectores. Os mais ásperos dirão que duas ligas em cinco anos é pouco. Que outras duas perdidas no último fôlego foram inadmissíveis. Que Jesus beneficiou de dinheiro, jogadores e estabilidade como nenhum outro nas duas décadas que o antecederam. E todos terão alguma razão... ainda que, se fizerem disso argumento, não tenham claramente a noção da realidade. A ingratidão e o irreconhecimento são dos piores defeitos na vida, como no futebol. Se há uma regra de ouro no jogo é que nada acontece por acaso. Podemos todos crer que, quem ganha, merece sempre. Questionar a folha de serviços de Jesus nestes cinco anos não seria só desonesto; seria estúpido. Goste-se ou não do estilo - e remeto para o primeiro parágrafo -, se há uma coisa jamais questionável nele é a sua espectacular competência. Como táctico, como criador de talentos e como aculturador de vitórias. Talvez Jesus seja um arruaceiro. Mas é um dos melhores arruaceiros da Europa.

As vitórias são necessariamente a medida do sucesso e o Benfica precisa das finais que faltam para poder regenerar-se da tragédia que ainda tomba na sua memória colectiva. Porém, acho justo dizer que, se acabasse agora, se acabasse assim, Jesus já teria ganho. Sou um profundo admirador da sua qualidade desde sempre e um defensor inquestionável do seu mérito. Na fim da época passada, contudo, achei honestamente que era impensável continuar. Que o futebol é parte treino, parte emoção, e que se Jesus só podia ser excelente em metade, então o Benfica estava condenado. Que o único desfecho lógico para os dois era partirem caminho e começarem de novo. Tê-lo-ia sacrificado quando, ao minuto 90 da segunda jornada, já perdera o campeonato, ou quando a Liga dos Campeões se tornou num enorme nada, às mãos de um perecível Olympiakos. Jesus, pelo contrário, fez o impossível. Depois de ir ao inferno, depois das perversões de um purgatório de saídas escusas e a ter de reinventar a equipa pela milionésima vez, o Benfica foi ao campeonato, vai às Taças com requintes maquiavélicos e repete uma final europeia, com direito a jornada épica.

Filipe Vieira é um dos indissociáveis de tudo, pela visão, pela coragem e pelo tipo de instinto dirigente que, de facto, pode marcar uma era. Todavia, o Benfica deve a época à assombrosa capacidade de um homem em particular e, de facto, a um trabalho cujo alcance excede em muito 2013/2014. O tal que faz sempre feio na fotografia, mas que nunca parou de melhorar tudo aquilo à sua volta, o tal que provou hoje, com chave de ouro, que a sua excepcionalidade técnica dobrou, em última instância, a própria fronteira emocional. Neste momento, o Benfica parece capaz de derrotar qualquer adversário, com quaisquer jogadores em campo, seja até com quantos for. Jesus tornou a equipa numa máquina tão competente, que a sorte e o azar passaram a ser-lhe indiferentes. O Benfica deve mais a Jesus do que Jesus deve ao Benfica.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Uma quarta-feira qualquer


"You find out life's this game of inches, so is football. Because in either game - life or football - the margin for error is so small. I mean, one half a step too late or too early and you don't quite make it. One half second too slow or too fast and you don't quite catch it. The inches we need are everywhere around us. You've got to look at the guy next to you, look into his eyes. Now I think you're gonna see a guy who will go that inch with you. You're gonna see a guy who will sacrifice himself for this team, because he knows when it comes down to it you're gonna do the same for him. That's a team. That's football guys, that's all it is."
Al Pacino, Any Given Sunday

20 minutos dos quartos-de-final. 1-0, três bolas na trave, um furacão vermelho e branco a varrer cada bocado da relva do Caldéron. Uma arritmia em forma de exibição, hipertensa, sufocante, perfeitamente avassaladora. Mais perto ou mais longe do Olimpo, o Barça continuava a ser Barça. Continuava a gozar duma mão de futebolistas incomparável, capaz de perverter sempre a estratégia de qualquer mortal. Todavia, o facto de qualquer jogador catalão ser melhor do que o seu respectivo adversário não estava a ser mais do que lógica amassada. Mais do que universo a ser devorado pela radicalidade de um livre arbítrio, assim que, por cada elegante pirueta blaugrana, apareciam três ou quatro leões ao mesmo tempo, como se tivessem mais jogadores ou o seu campo fosse mais pequeno, numa carga irreprimível e sem fim, comprometidos com cada lance como se deles dependesse a vida ou a sua morte.

O Atlético não é o melhor onze que vimos jogar, o mais talentoso ou, alguma vez, o favorito. Mas é aquele que levaríamos sempre para a guerra. O Atlético é a equipa que não te desilude, porque não tem dias maus e não depende do adversário, nem da sorte. É a equipa que nunca te vai deixar mal porque, mesmo se tudo o resto falhar, sabes que jamais te deixará sozinho, que jamais deixará de lutar. Porque toda ela é de uma desconcertante e impagável honestidade competitiva, que não demora a convencer-te do quão é especial, e que demora ainda menos a mostrar-to de todas as vezes. Woody Allen escreveu um dia que o talento é sorte, o que conta na vida é a coragem. O Atlético é a equipa que gostávamos de ser.

Se um colectivo se mede pela abnegação, pela audácia e pela solidariedade, pela crença inabalável de que não há impossíveis, mais do que em nós próprios, naqueles que nos rodeiam, então o Atlético é mesmo a melhor equipa do mundo. A melhor porque é muito mais do que isso. É um batalhão, um bando de irmãos, uma profissão de fé. Uma equipa feita muito melhor do que é, porque nunca joga sozinha. Ontem não estava a sua estrela, um dos monstros do ano, e a Simeone bastou reiterar que 'por cada jogador do Atlético que caia, outro se levantará'. Que o suplente, ao fim de um ano de ocaso, não só jogaria, como ia marcar. Foi de Adrián o passe decisivo. O Atlético não joga com 11, joga com 25 de cada vez, com o terceiro guarda-redes, o último lateral, o médio dos juniores e um ultra da claque. Na Antiga Pérsia, a tropa de elite do Imperador tinha um nome especial, baseado no facto de, fossem quais fossem as baixas e as circunstâncias, ter permanentemente um corpo de 10 mil homens: chamavam-se Os Imortais. Este Atlético já não morrerá no coração de muita gente.

No banco, El Cholo, de fato breu e cruz de prata ao peito, parece ele próprio uma figura mitológica. Um último evangelista com o mapa para a Terra Prometida, um feiticeiro que pede aos seus humanos para ousarem ser gigantes, única e exclusivamente por confiarem nele. Um general com os gritos, os gestos e a aura dos loucos, com um carisma capaz de arrancar até gente aos mortos, um líder que os tornou a todos tão incrivelmente melhores, que talvez tenha, de facto, algum super-poder. No campeonato mais bipolar do Mundo, que não ganha há 18 anos - então com Simeone... em campo - o Atlético já era líder isolado. Agora eliminou o Adamastor de uma Era, e voltou às meias-finais dos Campeões, 40 anos depois. A sua travessia não tem sido só um hino ao futebol. Tem sido um tratado de transcendência, no campo como na vida. Num clube conformado à sombra e à derrota, Simeone foi o profeta que lhes ensinou que se quisermos todos, somos muitos mais. Que se estivermos todos, somos muito melhores. Que se acreditarmos juntos, podemos tudo.


Aos adeptos do Atlético chamam-se colchoneros porque, feitos na classe operária madrilena, era na precariedade de modestos colchões que sobreviviam aos piores dos tempos. Na cidade do clube do século, foi em cima da resiliência dessa gente que o Atleti se construiu. Foi na altivez das suas durezas, e exactamente por causa delas, que esculpiu a sua mística e se cunhou "eternamente grande". É tanto mais certo por isso que a vida lhes tenha emprestado o líder que eles merecem. Há uma cena do 300, de Zack Znyder, em que explicam ao Rei Leónidas que determinado exército tem mais homens do que os seus espartanos. Ele responde-lhes, "Homens sim. Mas quantos soldados?". Hoje em dia, é essa a pergunta que qualquer adversário do Atlético deve fazer.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

À altura da ilusão


Imagino-me a entrar num pub com o cachecol de lã, em vermelho e branco puro, sem letras e sem emblemas, escapando ao frio gelado da rua. Lá dentro, os Beatles a tocarem em fundo, como num ritual em dia de jogo, com cerveja e inglês cerrado, no meio de uma procissão de fé capaz de trazer à vida o poster da equipa bicampeã europeia em 78. Imagino-me a sair de sobretudo, a cruzar um mural de Paisley e a prestar reverência contrita à estátua de Shankly, ao lado de um miúdo esbugalhado de espanto, enquanto o pai lhe conta quem foram eles, e porque ali estão, eternamente maiores do que os outros mortais. Imagino-me a chegar aos metafísicos portões de ferro de Anfield e a ficar encadeado por eles, fixo nas letras encimadas por todos os tempos. 'Nunca caminharás sozinho'. Poucos momentos antes de, em pé, no Kop, ser também eu uma modesta voz a plenos pulmões, cantando o hino sagrado numa experiência extra-corporal, como se tivesse estado em Liverpool todo e cada dia da minha vida.

Há clubes grandes, há clubes históricos e há clubes ricos. O Liverpool está no raríssimo lote de clubes místicos, porque nada daquilo se pode remotamente comprar, porque nada daquilo pode ser substituído por vitórias, por troféus ou, sequer, pelo tempo. Apaixonei-me pelo Liverpool nos anos que já não eram os seus: o último campeonato, por exemplo, foi ganho três meses antes de eu ter nascido. Apaixonei-me porque, em consciência, era inevitável. Porque qualquer um que ame futebol está condenado a essa irrecusável proposta do que o jogo pode significar para a vida das pessoas, de como pode tornar-se tão maior do que elas. Como Dalglish, que se despediu pedindo que não chorassem por ele, porque "ninguém podia alguma vez ser maior do que o Liverpool'. O futebol é pessoal, tem de ser. Quando um futebol nos arrepia, sabemos sempre que chegámos ao sítio certo.

Estava à frente da televisão quando, em Istambul, aconteceu a outra final da minha vida, numa segunda-parte onde nunca me poderão convencer de que o Liverpool jogou só com onze. Quem tiver olhado com atenção, terá visto, lá evocados, Keegan a cruzar para Gerrard ou Rush a recargar o penalty decisivo. Todas as lendas de todos os tempos voltaram à Terra nessa noite sobrehumana, como almas canalizadas pelas gargantas daquela gente que, a perder uma final europeia por 3-0 ao intervalo, cantou assim no descanso. Esses milhares que tiveram o privilégio de estar no Atatürk, no fundo, limitaram-se a viver à altura do mantra de Shankly, e sabiam que "o futebol não é um jogo de vida ou de morte, é muito mais importante do que isso". 

À parte esse dia maior do que a vida, porém, o Liverpool mais forte que vi, a temível némesis europeia de Mourinho, era uma equipa de Benítez. Feia, armada, desapaixonada, lobotomizada de carisma. Um Liverpool de Benítez não era verdadeiramente o Liverpool. Os anos que lhe sucederam também não foram amáveis. A equipa não deu o salto em frente nem se reencontrou, derivou na tabela e teve de abdicar da Champions. 2013-2014 tem, contudo, sido uma época especial. Envergonhada de início, orgulhosa nas suas insuficiências depois... e deslumbrante neste epílogo. No último sábado, à oitava vitória seguida e ao 88º golo marcado, a equipa para quem o top-4 era um sonho risível de Verão, isolou-se no comando da Premier League, a um mês do fim.

Se o velho Paisley, até hoje o único treinador da História a ter ganho três Champions, pudesse olhar para o último quarto de século e escolher uma saída, acredito que chancelaria sempre a proposta de jogo deste Liverpool. Isso fala por ela. Uma equipa tão jovem quanto apaixonada, tão inglesa quanto evoluída, tão inexperiente quanto abusada de talento, tão culta e preparada, quanto positiva, entusiasmada, entusiasmante. Liderada por quem, ainda na semana passada, reiterou que nunca será o dinheiro a construir as grandes equipas, e que faz ainda mais sentido por tê-lo no banco.

Uma equipa com o luxo de ainda ir a tempo de desfrutar dum monstro sagrado do panteão de Anfield, numa das melhores formas da carreira - o quanto merecias esse campeonato, Gerrard - e de um rebelde indomável nascido nos confins do Rio da Prata, que perpassou todos os excessos para, na era ronaldo-messiânica da História, apresentar uma folha de préstimos igual às deles. Uma equipa em vermelho pulsante, que personifica um espírito, que ressuscita as aspirações de uma causa, uma equipa que está certa e que merece tudo o que de bom lhe for acontecer. Uma equipa à altura da ilusão que é o Liverpool.

O City continua a ser favorito, não sei torcer contra Mourinho e não faço ideia de como é que esta extraordinária Premier League pode acabar. Sei é que num Liverpool vivo é uma honra poder acreditar.

Walk on, walk on with a hope in your heart
And you'll never walk alone
You'll never, ever walk alone

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Foi assim que aconteceu


Se fechar os olhos, ainda consigo imaginar-me a trautear a música do genérico numa noite gelada no Porto, entre cobertores, tarde e a más horas, com Faculdade na manhã seguinte. Não comecei a vê-la em 2005 e não continuei a vê-la até 2014, mas foi, sem sombra de dúvida, a série mais profundamente marcante da minha era universitária. Marcante não por ter sido a que mais me deslumbrou, não por ter sido aquela com que mais aprendi, mas pela sua desarmante colagem ao nosso ideário. Se calhar, as séries eternas são aquelas maiores do que nós; é, contudo, pelas que estão à nossa medida que nos apaixonamos. O How I Met Your Mother foi sempre uma do nosso tamanho. Palpável, contagiante e tão profundamente carismática nas suas infinitas particularidades. Não foi refundadora de um conceito, mas é inegável a vénia a todas as vezes em que foi tão bem foi escrita, tão perspicaz, genuína e tão criativa. Com tanta intimidade, tanta identidade e tanto grupo debaixo da pele.

Porque tive de consumir as primeiras temporadas por atacado - que foram sobejamente as melhores -, lembro-me de falar delas com um carinho desarmante, de todas as suas pequenas coisas que, ao longo do tempo, víamos e reconhecíamos como se fosse connosco. Da forma como uma série universalizava hábitos que desconfiávamos serem só dos nossos e como criou, muito mais do que isso, uma assinatura tão sua, concretizada em cada Intervention, num General Knowledge com continência, no Bro Code ou num qualquer Thanksgiving, da mesa do canto no MacLaren's ao imortal T2 com escada para o terraço. Falar naqueles bocados de dia-a-dia e no que eles valeram, nas lembranças e nas invenções, nas relações e nos rompimentos, do frenesim entusiástico e pueril até ao peso da maturação. No fundo, no tempo e no senti-lo passar, na vida da série e na nossa. E falar deles, claro, iconizados para todo o sempre no nosso imaginário, com a familiaridade surreal a que só as séries que marcam gerações podem aspirar.

Parei de vê-la há três anos, assim que me licenciei, porque tenho uma regra que é nunca prolongar uma série mais do que é devido, nunca poupar-lhe o golpe de misericórdia. No fim da sexta temporada, a realidade é que o auge já tinha passado e a série ameaçava arrastar-se indefinidamente num limbo doloroso. Perder a magia a cada mês era, pois, coisa que não podia permitir a algo que me trazia tão boas recordações. Ontem, porém, foi diferente, como tinha de ser. Agora que tocou o último sino, era inevitável voltar para prestar a minha respeitosa despedida. Se me perguntassem, teria feito quase tudo diferente: do derradeiro guião à edição, da narrativa individual ao desenlace. Isso, todavia, tem uma importância muito relativa, quando colocado na perspectiva de que ali se fechou um livro com uma década.

O que conta é que, durante aqueles 45 minutos finais, pudemos voltar a lembrar tantas coisas e a sorrir uma última vez com todas elas, porque as corremos juntos. Ao vermos as caras do primeiro episódio nos créditos, pensarmos como tem sido e como será na nossa vez, numa nostalgia do que já fomos e do que ainda vamos ser, na melancolia da camaradagem, das histórias únicas e irrepetíveis, da juventude sem data e da omnipresença - you've got to be there for the big moments -, até ficarmos com o vago aperto sobre a vida que muda e que separa, e sobre o que fica depois disso.

Não sei se algum dia o How I Met será equiparável ao Friends, à luz da História. Sei que, para mim, para a minha geração, teve com certeza esse alcance. E que, para nós, há algo que, por pequeno que seja, também ficou ali, com eles. É esse o tesouro da televisão.