quarta-feira, 4 de junho de 2014

Mundial 2014, antevisão: um messias, os motores da Baviera e a outra história de pretendentes

A declaração de intenções de um Campeonato do Mundo é quase tão antiga como ele próprio. Não há ninguém que goste disto e que não saiba enunciar, pelos dedos, todas as potências eterna e inevitavelmente candidatas, por mais retórico que isso acabe tantas vezes por ser. Já isolei Brasil e Espanha porque, na minha opinião, é de toda uma exigência diferente que estamos a falar. No andar seguinte, contudo, resgatam-se unanimemente dois velhos conhecidos.


Mais ou menos justificadamente, este é um Mundial para a Argentina há quase tanto tempo como é o para o seu arqui-inimigo. Não há nada com que a alviceleste pudesse alguma vez sonhar mais ardentemente do que com o Tri na areia brasileira, e se tudo pode ser posto em causa relativamente à equipa, a paixão que será emprestada a esse desígnio não. Individualmente, a profusão de recursos ofensivos é, numa campanha mais, estonteante e é inevitável selar tudo isso com um terço de cinco letras: Messi, Messi, Messi. Aos 26 anos, o messias das quatro Bolas de Ouro chega ao Rio de Janeiro praticamente na mesma idade com que um Deus converteu o universo há três decénios no calor do México, e essa alucinação radical é exactamente a medida do peso que Leo terá de carregar nos ombros. No Brasil, Messi viverá não só o torneio mais importante da sua carreira, como aquele pelo qual em toda a probabilidade se avaliará a sua lenda. Não digo isto com nenhum gosto especial, nem nada que o valha, mas a minha aposta é que falhará. Porque o Mundial é como navegar num buraco negro que mal pode esperar por esmagar-te os sonhos. Porque a Argentina tem muito, mas não tem um treinador. E porque, apesar do lugar nos livros, não acredito que Messi goze realmente da transcendência cósmica com que se pode ganhar isto sozinho, a tal que habitava cada fio de cabelo do Profeta.


A correr por fora, só vejo honestamente uma grande equipa. No Brasil terá passado quase um quarto de século desde que, em Itália, a Mannschaft roubou o Tri e o derradeiro sonho d'El Diego. Nos últimos 12 anos, por seu lado, os alemães perderam duas finais e três grandes meias-finais internacionais o que, no seu dicionário, equivale à febre de uma obsessão. Se o Mundial pode descarnar as equipas que jogam com o coração, é possivelmente o oásis das que têm gelo nas veias. No ano passado, a final germânica da Champions insinuava que a onda poderia ser um tsunami às portas do Brasil, mas este ano foi menos esmagador e erodiu o bombardeiro de algum capital. Ainda assim, esta é uma história de mentalidade e de uma geração extraordinária de futebolistas que... nunca ganhou. A Alemanha é a única equipa com nervo e legitimidade para reclamar uma final ao complô hispano-brasileiro.


A fechar este quinteto imaginário, a melhor selecção do Euro-2012, romanticamente massacrada na final de Kiev. Nenhum Mundial se faz sem a Squadra Azzurra, sem o Tetra em pessoa. Os italianos são, não só os penúltimos vencedores, como uma das raras equipas a ter intemporalmente em conta, aconteça o que acontecer. Um dos eternamente grandes. Desse excelso Europeu, onde poucos davam por ela, mantêm-se quase todos, Cesare Prandelli à cabeça, o que deve ser suficiente para estar optimista. A verdade é que a Itália não era favorita então, e não o pode ser agora. A Azzurra é só um misto bem bebido de veteranos, miúdos e jogadores-sombra, que põe a ilusão numa estrela com tanto de enfant terrible como de jogador de bola. É verdade que pode chegar para qualquer um num dia bom, mas não é honesto pedir-lhe mais do que o jogo bonito e o último poema de Pirlo.


Dos outros três maiores, confesso a curiosidade agridoce pela Inglaterra. Depois da prova de dignidade no Euro, os Três Leões voltam a dar caras com uma equipa que esbanja uma juventude entusiasmada quase sem paralelo, que merecia ser feliz. O problema é não haver casa mais assombrada que a de Sua Majestade. Partilhar o grupo com Itália e Uruguai é só mais uma partida do destino que, honestamente, não sei se os ingleses poderão contornar. Na França, a lesão de Ribéry anuncia-se avassaladora. Como se não bastasse a intratável lista de ausências forçadas, a ausência provável do Bola de Bronze na 25ª hora tornou-se quase chocante. Depois do caso Nasri, uma selecção que até prometia, do assombro de Pogba ao faro de Benzema, parece agora mais orfã do que nunca. As suas garantias acabam na passagem às eliminatórias. Finalmente, a Holanda será a mais frágil de todas. A perda de Van der Vaart veio só pungir as deficiências de uma equipa em falta de tudo, menos de Sneijder, Robben e Van Persie. Há Van Gaal, um seguro para todas as horas, e o diploma de vice-campeã em título mas, num grupo com Espanha e Chile, nada será demasiado surpreendente.

Mundial 2014, antevisão: a Era de Castela e a profecia do Hexa


É oficial: já só cheira a Brasil. A temporada está enterrada e Junho veio para ficar. É finalmente a hora do planeta futebol respeitar o seu quadriénio sagrado e prestar-se ao maior de todos os seus espectáculos: a Copa do Mundo. Copa, mais do que nunca, por derramar-se durante o tão aguardado próximo mês no coração do futebol. Porque se a Inglaterra inventou o jogo, só no Brasil é que ele ficou a cores. Todos sabemos o que vai custar este Campeonato do Mundo e ninguém, em consciência, o poderá menosprezar. Mas, honestamente, não me podem pedir para não ser apaixonado a respeito dum Mundial como este, porque não sei se algum dia farão outro onde se sonhasse mais estar. Durante um mês, o Brasil será invadido por legiões dos quatro cantos do mundo. De Manaus ao Rio, de Fortaleza ao Mato Grosso, de Salvador da Baía a Porto Alegre, este será o Mundial do futebol tropical, sempre com um sorriso nos lábios, com o sol nas costas, mulheres bonitas, noites longas e um copo na mão. O Brasil será o lugar onde qualquer um queria estar, a jornada que qualquer um quereria viver. Um Mundial azul e amarelo tem mais magia do que um que pudéssemos inventar.


O primeiro texto de antevisão é sobre os Favoritos, assim, com letra grande. E se nos condenarmos a pensar neles, o que nos sobressai é a dualidade de uma guerra dos tronos. À partida, se tens um Campeão do Mundo em título, que por acaso também é bicampeão europeu, pelo menos uma candidatura já se entregou sozinha. De facto, ninguém no seu juízo estará em condições de afastar a Espanha seja do que for. Há já incríveis 6 anos que a Roja não tem adversário à altura, e a História continua a escrever-se até este verdadeiro momento. A profusão de resultados nunca abrandou e o plantel continua a oferecer um insultuoso manancial de soluções. A Espanha tem tudo: o génio, o calejamento e a moral. É, sem sombra de dúvida, o adversário mais temível que irá pisar os gramados canarinhos. Paradoxalmente, não a sanciono bicampeã.

Este é um ponto de vista sobejamente discutível, mas não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. A verdade é que, nos últimos três anos, o tiki-taka provou o antídoto. Era inevitável que, um dia, os adversários perdessem o respeito, que ousassem pôr tudo em causa. Não sendo liminar decalcar o futebol de clubes e o de selecções, certo é que aconteceu muita coisa ao Barça, e o Barça sempre foi a madre espiritual de toda a peregrinação. Depois, que a Espanha já tenha ganho tudo, e um pouco mais do que isso, é tanto a sua benção como a sua maldição. Ninguém se pode fartar de ganhar e para nenhum dos seus ases a Copa será remotamente indiferente; mas as vitórias acumuladas são, não raras vezes, abissais. No caso da Espanha, tudo isto parece, hoje, uma maratona única, que correu tão, mas tão bem, que, na verdade, continua a viagem para lá da própria meta. O mais razoável é que me arrependa de escrever isto, mas vejo a Espanha como a Selecção que vai ao Brasil para perder. Para levar o golpe de misericórdia, para livrar-se do fardo, para passar formalmente um testemunho.


As minhas fichas, como é bom de ver, estão do outro lado, mesmo que isso não seja de todo racional. Há mero ano e meio, o Brasil estava em pânico. Tudo começara na Argentina, em 2011. Foi nessa Copa América que a muito velada renovação geracional de Mano Menezes provou a sua fatalidade, despenhando-se nos quartos-de-final, com uma vitória em quatro jogos. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita: o harakiri chegaria em pleno Wembley, no ano seguinte. Com parte substancial do elenco juvenil sonhado para a própria Copa, foi a vez de perder-se com estrondo a final olímpica para o México, e de estalarem, então, os alarmes e todos os tormentos. No lado mau da ampulheta, Mano chegara ao fim do caminho, sem qualquer capital político e com uma equipa que, a olho nu, não era mais do que um bando de miúdos de parca identidade e terrivelmente mais pequenos do que o desígnio que a Nação inteira lhes exigia no horizonte. Hoje, na iminência do primeiro pontapé em São Paulo, ninguém ousa pensar o mesmo.

Por mais tortuosos que tenham sido os caminhos, este é o Brasil que Felipão limou para a guerra, que, contra as expectativas e contra o tempo, não só concluiu a recruta, como se graduou com excelência, Taça das Confederações incluída. Se formos matemáticos a respeito disto, dizer que o Brasil é favorito sobre a Espanha continua a parecer, na verdade, ridículo. Estamos a falar de uma equipa incomparavelmente menos experiente, menos testada, e que não pode reclamar ser, sequer, mais talentosa. O Brasil perde para a Espanha em toda e qualquer conta. O futebol, contudo, não é estatística. E, se é alguma coisa, este é o Mundial com que o Brasil sonha há anos a fio, o conto encantado do pentacampeão que se desencontrou há mais de uma década, só para ter descoberto o seu novo prodígio, Neymar, Neymaravilha, um predestinado protegido a todo o custo na pureza do Brasileirão, e que estagiou o último ano numa Meca do jogo, só a tempo de liderar uma selecção ao seu destino, rumo ao deslumbramento do mundo e à vingança do Maracanazo, meio século depois.

Seja sob que ângulo for, surpreendente é que, a 13 de Julho, o português e o castelhano não sejam as línguas oficiais no Rio. Mas se há Mundial em que tudo pode acontecer, é 2014. Em nenhum outro momento, o perfume inebriante no ar pode enganar gigantes e emergir heróis, perverter probabilidades e fazer conquistadores da terra prometida. No Brasil, todas as expectativas são legítimas, todos os sonhos realizáveis. Que seja singularmente espectacular é só o dado adquirido.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Jack Ryan: Shadow Recruit. O primeiro blockbuster de 2014 saiu vivo


As expectativas eram necessariamente baixas: em causa estava a enésima adaptação da espionagem de Tom Clancy ao cinema, num argumento cujas fundações eram um ataque russo aos Estados Unidos, o tema, por si só, mais espectacularmente explorado desde sempre por Hollywood. É escusado dizer que Shadow Recruit não reinventa a roda. Não traz nada de novo, não é excelente em nenhum ponto particular e é tão fiel ao heroísmo americano quanto seria de esperar. No entanto, dando esta palmatória à partida, sobra espaço para reconhecer que, na verdade, estamos na presença de um produto competente no género. O experimentadíssimo David Koepp (Jurassic Park, Mission Impossible, Spider-Man) juntou-se ao rookie Adam Cozad para conceber, pela primeira vez, um argumento original na saga, baseado apenas nas personagens de Clancy. No guião possível de blockbuster primaveril, salientaria, ainda assim, a boa capitalização dessas personagens, na caracterização, nos bons diálogos e no interrelacionamento, tendo em conta e a própria natureza ligeira do produto.

O factor diferenciador é, indiscutivelmente, Kenneth Branagh. O brilhante senhor norte-irlandês, nomeado a cinco Óscares!, foi a face maior deste regresso da saga Jack Ryan ao grande ecrã, 12 anos depois, assumindo a cadeira de realizador e o lugar de secundário de luxo. Na direcção, conseguiu resistir a espectacularidades desnecessárias, e emprestou uma temperança apreciável a um filme de acção, patente nos sucessivos momentos a dois entre as personagens. Optou pelo sangue frio cirúrgico enquanto pôde, como na primeira sequência no hotel, antes de eventualmente ter soltado os cavalos para a inevitável vertigem final. O filme não permitia milagres, mas notou-se a sua assinatura. Ainda assim, é na interpretação que tem de reunir os maiores elogios. O seu oligarca pós-soviético é formidável, em carisma e em densidade, e é, a grande distância, a melhor figura da película. Diria mesmo que a cena do jantar com Keira Knightley é coisa de outro campeonato.

O cast acabou por ser uma escolha feliz a toda a linha. Knightley também provou, sem esforço, que é de elite e puxou o filme furos acima, com Kevin Costner a sustentar bem a figura de mentor. Chris Pine, a seu turno, também continua a somar. Ainda não é um grande actor, e não sei se eventualmente vai conseguir dobrar o patamar, mas já é certo que não é só um poster boy de algibeira. Tem crédito, seriedade e consegue ser escuro e, com mais uma franchise nas mãos, repetiu as boas sensações de Star Trek e do Capitão Kirk. Shadow Recruit está longe de ser apaixonante, mas é provável que valha mais do que davam por ele, e dá, com certeza, uma tarde bem passada.

7/10

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Non-stop. Liam Neeson paga sempre o bilhete


É a primeira boa novidade do ano. Os primeiros meses nunca se levam muito a sério, depois da ressaca dos prémios e antes dos blockbusters de Verão, mas volta e meia dão azo a um catálogo de qualidade, abaixo dos holofotes. Non-Stop é isso. Sem muita notoriedade, correndo o risco de ser velado como um de muitos, é, na verdade, um filme surpreendentemente consistente. Inteligente, dinâmico e competente do início ao fim. Parte de premissas comuns - a maior de todas, claro, a do agente assombrado e desacreditado, que terá de mover o mundo para provar que está certo, ao que lhe junta o cenário tradicional de um sequestro de avião -, e tem várias nuances líricas que seriam dispensáveis, mas é preciso tirar-lhe o chapéu: nunca é demasiado antecipável, baralha-nos generosamente e mantém o seu suspense intacto até ao bom acabamento.

O argumento é tripartido entre estreantes, ficando a realização a cargo de Jaume Collet-Serra, no seu 5º filme de grande circuito (House of Wax, Orphan), já depois de também ter colaborado com Neeson, em Unknown (2011). O catalão faz um belo trabalho. Numa história sobre mais uma viagem na vida de um Air Marshall, que vai evidentemente ser bem mais complicada do que isso, sublinho a boa utilização de um espaço evidentemente circunscrito. Collet-Serra dá muita vida à câmara, muito movimento, e faz igualmente bom uso das cenas mais claustrofóbicas. A juntar a isso, capitaliza o ambiente favorável, resultante da mística dos voos longos, e que plasma na escuridão da cabine, na profusão de desconhecidos e no mistério do ar. 

Como seria inevitável, o maior traço do filme é Liam Neeson. 20 anos depois da nomeação da Academia pel'A Lista de Schindler, a carreira do norte-irlandês deu muitas voltas. Longe da alta roda, personificado ícone de acção e profundamente institucionalizado a estes filmes série B, Neeson continua, porém, a valer o bilhete, sempre. Não por ser um Stallone ou um Seagal desta vida, longe disso, mas justamente por emprestar ao género postura, voz, carisma e um certo enfado doloroso que torna tudo mais crível. Não escondo que é dos actores por quem tenho mais estima e acredito realmente que, neste registo, continua a ser suficiente para, sozinho, fazer metade do trabalho. Num elenco que se desdobrou em muitas caras conhecidas, é impreterível nomear, ainda, as performances muito sólidas de Scoot McNairy (que vinha nos últimos anos a acumular papéis menores em filmes de peso, como Argo e 12 Years a Slave) e Corey Stoll (House of Cards).

Non-Stop é, em suma, um thriller no ponto. Certamente um dos mais consumíveis do ano.

7.5/10

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A moral dos homens

 
'Se treinas com Zanetti todos os dias e não aprendes nada, não sou eu que posso ajudar'
Mourinho sobre Balotelli

Houve um tempo em que o futebol vestia fato e gravata. Onde o sucesso se media em décadas, não em temporadas, e em que havia tempo para fazer heróis. Todas as casas tinham os seus, porque não se mudava de clube como quem muda de camisola, e por isso os estádios estavam sempre cheios, porque se sabia realmente quem estávamos a apoiar. Os treinadores adversários bebiam vinho na antecâmara e os valores mais importantes em campo eram a lealdade, a excelência e o exemplo. Houve um tempo em que o futebol era um jogo de cavalheiros. Podem duvidar, mas eu tenho provas. Pelo menos tinha, até à semana passada.

O Calcio é a grande liga que eu nunca vi. A melhor do mundo, mas só nos anos que me antecederam. No meu imaginário, a Serie A foi quase sempre uma nuvem pouco recomendável de futebol ultrapassado pelo tempo, um depósito decadente de equipas esquecidas, de ídolos em fim de carreira, de estádios decrépitos e de ultras pirómanos que tornavam tudo pior. O carácter de monstro adormecido só se insinuou aqui e ali, a canalizar o veneno imortal que sempre celebrara o futebol pátrio, nas Juventus de Lippi e Capello e, evidentemente, no maior de todos: o Milan europeu de Ancelotti. Ao Inter, por seu lado, sobrava ser o parente pobre dos grandes. Aquele perdedor crónico que ninguém consegue levar muito a sério. Um sorvedouro da fortuna Moratti em negócios dúbios, um quadro daliano com requintes perversos de via sacra. Mancini foi tricampeão, sim, mas nos anos em que os rivais foram saqueados pela corrupção. Teve, por isso, o crédito dos títulos de papel. Não é difícil sugerir, portanto, que encontrar uma só referência neste caos devoluto parece risível.

No entanto, qualquer um que tenha pronunciado o seu nome neste final de época não conseguiu tirar um semblante respeitoso da cara, ou deixar de falar dele com a veneração reservada àquelas grandes personagens de quem nos contam histórias, e perante as quais só podemos reafirmar a classe ou o carácter, com aquele olhar ilusionado que guardamos para coisas que são muito maiores do que nós. Zanetti é um jogador dos livros de História que vimos em campo. Um guardião tão intrínseco de uma altivez competitiva que, hoje em dia, parece inventado. Zanetti não jogava feio, não batia, nunca traía. Não sujava os calções, não se despenteava, jamais se cansava. Não gritava, não abusava da autoridade, tão pouco desiludia. Isso e dificilmente alguém que tenha jogado ao seu lado pode gabar-se de ter rendido mais. Perguntaram-lhe, por estes dias, se nunca se zangava. Ele respondeu que muito mais do que podíamos imaginar, mas que é sobretudo aí que é preciso saber tratar as pessoas. Quem acha que o futebol não ensina nada sobre a vida, não sabe nada sobre a vida.

Il Capitano foi o argentino mais internacional de sempre e o único a superar a barreira dos mil jogos oficiais. Foi o interista com mais minutos da História, o segundo da Serie A e o quarto de todos os tempos. Mas estar lá todos podem. Zanetti não foi só um profissional especial, foi um titular até ao fim. Aos 36 anos, quando o jogo finalmente fez a justiça de celebrá-lo campeão europeu, ele aceitou-o na condição de melhor defesa-lateral do continente, só porque, para ele, nunca podia ser menos digno do que isso. No ano passado, aos 39, rasgou o tendão de Aquiles, no que parecia um muito aventado fim de carreira. Em vez de se reformar, porém, entendeu que só sairia nos seus próprios termos. No regresso, ao fim de seis meses, entrou em campo, serpenteou por entre dois adversários e deu um golo. Para ele, nunca houve nada mais importante do que liderar pelo exemplo. Nem o tempo.

O mito é tanto mais radical se pensarmos que, de todos os sítios, foi-o no Inter. Não têm preço todos quantos devotam uma carreira a uma casa, mas há lugares onde é mais fácil. Durante 20 anos, contudo, Zanetti aparentou a idade e o alcance exibicional do primeiro dia, pela mesma devoção de quem acorda todos os dias apaixonado. Acho que foi esse o segredo daquele sorriso indistinto e da eterna juventude: um amor como nos filmes, mas a um escudo nerazurri. Mesmo nas piores noites, o Inter tinha Zanetti, e se tens Zanetti, vale a pena continuar, porque nem tudo está perdido. Não há nenhum rival que, do alto do que tinha, não tenha invejado o meio homem, meio lenda, a alma intemporal não de um clube, mas de uma era inteira.

Depois de Puyol e de Giggs, este é um ano triste para o ideário futebol. Camus escreveu uma vez que tudo o que aprendeu sobre a moral dos homens, aprendeu-o nos campos, jogando futebol. A minha geração teve o privilégio de aprender com eles.

ZON Sagres 13/14: os melhores


1 - Enzo
2 - William Carvalho
3 - Gaitán

Oblak; Danilo, Luisão, Garay, Jefferson; William Carvalho, Enzo Pérez, Evandro; Gaitán, Lima, Derley.

Ricardo, Rojo, Paulo Oliveira, Adrien, Markovic, Candeias, Slimani.

Treinador: Jorge Jesus.


Equipa-revelação: Vágner (Estoril); Aderlan Santos (Braga), Bauer (Marítimo), Miguel Rodrigues (Nacional), Djavan (Académica); Danilo Pereira (Marítimo), Pedro Tiba (Setúbal), Rafa (Braga); Mané (Sporting), Bebé (Paços), Rafael Martins (Setúbal).