sexta-feira, 13 de junho de 2014

Copa, dia 1: crónica de uma vitória anunciada (à força)


Brasil 3-1 Croácia

O Mundial é como um comboio em andamento. Mesmo quem queira ser sôfrego a respeito, não pode jamais competir com o facto de qualquer notícia deixar de o ser nem duas horas depois. Será impossível acompanhá-lo por cá com o detalhe e a abrangência desejadas, sobretudo em cima do acontecimento, mas tentar é mais do que uma missão, é um vício. Daí que, antes de seguir ao resto, seja inevitável recuperar o venturoso jogo de abertura. Acredito que qualquer pessoa minimamente avisada saberia que, para a sua tão ansiada estreia, o Brasil não se daria ao luxo de contar com algo como uma guarda de honra. De facto, apesar do Escrete não morar num grupo proibitivo, e de ser favorito aos 9 pontos, o nível médio da pole não era desprezável e as armadilhas estariam no caminho como, de resto, a selecção das 'camisolas esquisitas' já se encarregou e muito bem de provar.

Como escrevi na antevisão, a Croácia era uma das equipas para quem guardava maiores expectativas neste Campeonato do Mundo. Tradicionalmente hábeis e cativantes, os croatas chegavam ao Brasil com uma geração notável, cujos líderes espirituais, Modric e Rakitic, haviam acabado de guiar as respectivas equipas à glória uefeira. Se a isso juntarmos um Euro-2012 de água na boca, os ingredientes estavam mais do que reunidos para cozer um underdog de estimação. Todavia, devo dizer que os croatas me desiludiram. A equipa de Niko Kovac demonstrou a resiliência que se lhe reconhecia, sim. Criou muitos problemas ao Brasil e, além de não merecer a derrota, só perdeu numa aberração arbitral para a qual sinceramente não há palavras. Ainda assim, os croatas ficaram a milhas do que podem fazer. Não tiveram à vontade com bola, não souberam ser criativos, nem tiveram lucidez para explorar os tormentos do Brasil e fazerem valer as suas maiores armas (bola no chão, posse nos interiores), limitando-se a ser arrumados e verticais (jogo na ala e cruzamento rasteiro vezes infinito). Se ia resultando assim, imaginem com ambição e sem a auto-censura no miolo... 
 
A Canarinha, por seu lado, gastou a primeira vida e mais vale não contar com muitas mais. O primeiro jogo era positivamente crucial e salvou-se o imprescindível, o que pode vir a resumir quase tudo. No entanto, os homens de Scolari não estiveram sequer perto de convencer. Não houve surpresas no onze e era um dado mais ou menos adquirido que este seria o Brasil menos fantasista de que há memória, em benefício do equilíbrio e da força. O que vimos, na verdade, foi uma equipa sem ideias e sem processo, à qual nem valeu essa ilusão de pujança, com laterais atados, duplo-pivot de chumbo, Hulk em São Petersburgo e Fred ainda a orar pela dádiva que é ser titular. A virtude do Brasil parece ser a reactividade, mas Scolari não poderá ser Campeão do Mundo se não souber assumir as suas próprias fases no jogo.

No fim, valeu o suspeito do costume que, honra lhe seja feita, não tremeu na hora H, mais um simpático guarda-redes croata e um camarada japonês muito mais apto para pedir autógrafos e tirar fotografias do que para arbitrar um Campeonato do Mundo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mundial 2014, antevisão: decadentes, Ronaldodependentes, mas mais vale pagarem para ver


12 de Junho de 2000. Foi aí que tudo começou. Nesse Portugal-Inglaterra para todo o sempre maior do que a vida que, ironicamente, à mera vintena de minutos já fazia ruir pela base a ilusão de ouro de uma geração inteira, tão boa como jamais tínhamos visto. Foi aí, prestes a perder o nada que tínhamos, que tudo começou, naquele pontapé ridiculamente perfeito com que Figo siderou David Seaman e, em boa verdade, qualquer ser vivo que um dia tenha querido ser guarda-redes. Ainda hoje não conheço melhor prova do livre arbítrio do que esse torpedo cósmico, que não só nos dobrou a sorte de um jogo e o destino de um torneio como, muito mais bestial que isso, nos fundou uma dinastia. Até ao Euro-2000, Portugal jogara quatro grandes competições internacionais em 70 anos; daí para cá jogou o dobro, não voltando a falhar uma qualquer. Orgulhosamente, a minha foi a geração dos que não falharam. Todavia, numa idade não propriamente bíblica, passar dos grupos não era um dado adquirido e ganhar às duas eliminatórias não era a medida do sucesso. O privilégio era sequer lá estar.

Esta é uma oportunidade tão boa como qualquer outra para lembrar que tudo o que conseguimos nesta Era, fizemo-lo por oposição a todas as nossas circunstâncias. Não fomos tocados pelo Céu, nem apareceu talento nas árvores, nem a vida acordou um dia mais fácil. Claro que há Ronaldo, e que à esmagadora maioria das casas não calhará nenhum Ronaldo na vida. Mas quando nos engalanamos no acto de definir metas mínimas, autoritária e irremediavelmente ambiciosas, esquecemos quase sempre de onde partimos. Esquecemos que, de uma forma vagamente romântica, a Selecção dos 10 milhões é uma improbabilidade. A única verdade é que temos mais talento do que podíamos, muito mais do que era lógico e que, como se isso não bastasse, ainda o aprendemos a usar melhor do que os outros. Ontem, hoje e sempre, as nossas condições não são remotamente comparáveis às das potências, que nos multiplicam em tudo aos dobros: população, recursos, capital, estrutura. Cada grande campanha nossa é um respeitoso desafio estatístico, um orgulhoso teste ao racional que, acredito, a maioria de nós não reconhece quando o vê. Cada meia-final, cada gigante derrubado, não é obrigação, é inteiramente superação. Vale a pena pensar nisto porque é a verdade, não porque é bonito. Mas também é.

Ao fim e ao cabo, indiscutível é que estamos mal habituados. Mas estar mal habituado costuma ser muito bom. Hoje, uma vez mais, não temos o direito de exigir outra grande jornada, mas temos a necessidade de o fazer. Menos do que isso será um fracasso, mesmo que não faça sentido assim. Portanto, por uma campanha mais, lá estaremos a ser melhores do que devíamos, imbuídos de fazer necessariamente mais do que era suposto, nessa vertigem surda que ou não reconhecemos ou ignoramos, só para depois nos rirmos do caos como mais ninguém. A minha meta são as meias-finais. É realista? Não sei, mas é, pelo menos, tão difícil quanto gostamos.


Antes de mais, o Brasil. Naquela noite de Solna, no Inverno passado, quando ainda não sabíamos ir ver a melhor performance nacional da nossa vida, fomos todos atormentados pelo mesmo prenúncio de morte, algures pela hora em que Ibrahimovic marcou o segundo da Suécia. Seria mesmo possível que, de todos, falhássemos exactamente o primeiro Mundial lusófono dos tempos modernos? Não passariam realmente mais do que cinco minutos até que o extraterrestre ridicularizasse esse nosso fraquejo de fé. Claro que ele o fez nas suas proporções monstruosas, mas o essencial estava lá. Um bocado da nossa alma mora nesta Copa do Mundo, morou desde o Início. O Brasil é o Mundial onde sempre estivemos. Na História e na diáspora, evidentemente. Mas também nas ruas, nas praias, no calor, nos costumes, na bebida, na memória, nas noites longas, no saber viver. O Brasil é irmos ver a família, é fazerem-nos sentir parte, o que é único e pode ser impagável. A Copa tem um organizador e trinta convidados. Já nós, somos de casa. Acho que se tivéssemos perdido o play-off tínhamos sido convocados na mesma. O Mundial português sem Portugal, não era um Mundial. Era um estropio.

Ao 5º parágrafo, acho que é introdução que chegue para falar do tabu. Confio sinceramente no que vamos fazer a partir de amanhã, mas nem com toda a boa vontade do mundo poderia relativizar o joelho de Ronaldo. Desde o primeiro jogo em que Ancelotti o puxou ao banco que estamos todos a pensar na mesma coisa e não pode ser um drama reconhecer algo que me parece puramente elementar: o melhor jogador do mundo não estará no Brasil em pico de forma. Isto não significa, contudo, que vá estar mal. Afinal de contas, é de Ronaldo que estamos a falar. Não significa, sequer, que abdique dos galões de um #1. Mas uma das poucas certezas em futebol é que não há borracha para lesões. Alguma diminuição, algum défice de explosividade, alguma humanidade são, tão só, inevitáveis. O que faz parte e, de resto, afectou quase como um trovão transversal a esmagadora maioria das esquadras. Apesar de tudo, não sei se mais por fé, mais por julgamento, confio que Ronaldo vai mesmo fazer a diferença, uma vez mais. Porque me parece ter sido bem protegido, porque há tempo, porque, aos 29 anos, é o seu Mundial nuclear, e porque, se há alguma coisa que define o seu calibre, é a transcendência sobre a adversidade. Quando lhe perguntaram as maiores qualidades da equipa, Moutinho respondeu que 'somos solidários e temos Ronaldo'. Escusado será dizer que a sorte do capitão será também a nossa.


Num paradoxo às vezes inexplicável, a nossa imagem de marca é exigir muito, mas dizer, quase sempre, que somos maus. Esta última referência foi particularmente impingida no último ano, diagnosticando-se esta Selecção como um grupo em curva descendente, mais exposto, por isso, às suas insuficiências, e com parcas alternativas, porque não se soube renovar. Parte das críticas terá razão de ser. Algumas figuras, por exemplo, estão teoricamente pior do que há dois anos. A equipa não tem uma matriz propriamente fantasista e o banco é, de facto, escasso. Ninguém pode dizer, em consciência, que somos candidatos declarados ao que quer que seja... mas, de novo, alguma vez fomos? Nunca menosprezando o que acabei de reconhecer, mas o que vejo é uma equipa tremendamente experimentada e calejada, que joga junta há quatro anos, chegando brilhantemente a uma meia-final continental, que só perdeu nos penalties para o futuro campeão.

Num torneio curto, poucas coisas são mais valiosas do que as rotinas, e basta um olhar ligeiro por outras selecções importantes para vermos que, na verdade, esse está longe de ser um trunfo vulgar. Para além disso, não convivemos com quaisquer casos, ao que se acrescenta um treinador que os jogadores respeitam, o que proporciona um ambiente tão saudável como se poderia desejar. Em paralelo, continuo a identificar-nos alguns dos melhores jogadores do continente (Pepe, Coentrão, Moutinho, Nani) que, pese oscilações da carreira, devem ser analisados num contexto emocionalmente inestimável, numa competição curta e com níveis de motivação estratosféricos. O onze completa-se de forma competitiva e equilibrada (Bruno Alves, Meireles, Postiga), até com um par de soluções frescas para duas posições historicamente difíceis - William e Éder. Menosprezar-nos será um erro grande, como, de resto, costumamos provar por passatempo.


Infelizmente, desengane-se quem acha engraçado dizer que o calendário é difícil no papel. A Alemanha é tão brutal como sempre e é difícil estar optimista para esse tipo de começo a frio. Para além disso, se os Estados Unidos me parecem, a larga distância, um adversário frágil, já o Gana só não impressiona quem não estiver atento. Vamos ter a primeira final logo ao segundo jogo e é bom que estejamos todos bem conscientes disso. Seja como for, não somos pior equipa e, na linha do que já me demorei, seria impensável uma despedida nos grupos. No pior dos casos... temos de passar. A partir daí, não melhora, com a larga probabilidade de apanharmos a idolatrada Bélgica nos oitavos e nada menos do que a Argentina nos quartos, tanto num caso como noutro, onde será pacífico dizer que temos menos soluções. No entanto, a partir dos grupos também é um torneio diferente. Um que, ao contrário dos nossos prováveis adversários, conhecemos bem. Não era escandaloso cairmos nos grupos, muito menos perdermos qualquer uma das eliminatórias referidas. No balneário, contudo, não duvido que as meias-finais também são a medida pela qual todos se esperam provar.

Na antecâmara, não consigo pensar no Brasil sem um final feliz. Vale o que vale, mas não está mal para começar.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mundial 2014, antevisão: os novos diabos vermelhos e o eixo latino-jugoslavo


Nenhuma outra selecção se dará ao luxo de chegar ao Brasil com carinho reunido de tantos quadrantes diferentes. De facto, ao longo dos últimos dois anos, a Bélgica tornou-se num caso bestial de popularidade, alimentado pelo mediatismo da Premier League, onde jogam quase todos e, acima de tudo, pela quantidade pornográfica de diamantes pueris que os belgas reúnem hoje no seu joalheiro. No ano passado já falei disso cá, mas nunca é demais lembrar: Courtois, Kompany, Hazzard, Fellaini, Witsel, Lukaku, uma segunda geração de ouro que parece não ter fim. Ainda no mês passado, por exemplo, foi a pedra da coroa do United, Adnan Januzaj, a escolher a nacionalidade belga, dentre as suas seis possíveis. 12 anos após o seu último Mundial, e depois de cinco grandes competições falhadas, os diabos vermelhos de Marc Wilmots chegam ao Brasil com um capital sequer impensável no pós-África do Sul. A cereja no topo do bolo é um grupo onde são os favoritos. A Bélgica será a menina dos olhos no Brasil... feliz ou infelizmente, o nosso mais provável adversário dos oitavos-de-final.


Se a Bélgica é a segunda equipa de toda a gente, a única que lhe beliscou esse estatuto foi a Colômbia. Às costas de um Tigre, os Cafeteros, que não marcavam presença num Mundial desde 1998, ficaram a uma unha negra de ganharem a zona americana de qualificação. No ano passado, chegaram a estar três colombianos no top-10 de marcadores da UEFA (Radamel, Jackson, Bacca), ao passo que craques como James, então no Porto, ou Cuadrado, na Fiorentina, eclodiam sem margem para dúvidas. A história de como o céu se abateu sobre as suas cabeças toda a gente se lembra: o ano novo foi só um dantesco presente envenenado, soube-mo-lo todos, assim que o melhor #9 do mundo se prostrou sem tornozelo num jogo redundante e esquecido da Taça de França. A ausência de Falcão é, singularmente, a ferida mais funda do Mundial do Brasil e, porque estas coisas são mesmo assim, ceifou meio coração a uma esquadra inteira. Seja como for, os colombianos fizeram por merecer toda a consideração e, num grupo propenso, têm uma história a contar.


Um Mundial sul-americano é, naturalmente, lugar dos nativos. Uruguai e Chile, à parte serem equipas brutalmente carismáticas, serão mais duas a passear alegremente nesse carrossel. Desde logo, têm duas semelhanças fundamentais, que deverão definir, em boa parte, a sua sorte: serão jokers em grupos de nobreza europeia e têm o seu melhor jogador em processo de cicatrização, naquela que parece ser, aliás, uma das imagens de marca da prova. Em 2010, o exército charrua foi a equipa do povo. O Uruguai ficou em 4º, mas levou o coração da gente e Forlán reclamou nada menos do que a Bola de Ouro do torneio. Um ano depois, os homens de Tabárez viriam mesmo a ganhar a Copa América, assumindo o estatuto detido em tempos esquecidos: o de casa mais forte do continente. Hoje, as coisas voltam a ser menos escorreitas, como o provou a duríssima fase de qualificação, mas é hora de uma estrela tanto maior: com toda a raça do Rio da Prata condensada num só corpo, Luisito Suárez, bota de Ouro, chegava ao Brasil como uma das figuras extremas da temporada... até uma operação de última hora ao menisco, que ninguém viu chegar, ter sido o nosso enésimo soco no estômago. Resta esperar, sabendo que, sob o misticismo do Maracanazo, a história do regresso do Uruguai ao Brasil estará directamente ligada à sua. Seja como for, aposto tanto num como noutro para seguirem em frente nos seus grupos, na vez de ingleses e holandeses, respectivamente. O Chile, até ver, também não foi feliz, com o traumatismo de Arturo Vidal, mas com uma alma da altura dos Andes, mais Alexis Sanchéz e uns bons amigos, pode-se muito.


Finalmente, também creio que o Brasil será um lugar ao sol para a ex-Jugoslávia, justamente a pátria tantas vezes apelidada de Canarinha da Europa. Acima de tudo, na companhia de bailado que é a Croácia, senhora de um meio-campo de cristal que tem tudo para forjar memória em terras de Vera Cruz. Modric e Rakitic, um par de génios, guiaram as respectivas equipas às conquistas europeias da época e fundem-se agora para trazer justiça à campanha de 2012, onde os croatas sucumbiram dramaticamente num grupo com campeão e vice-campeão europeu. Desta vez, estarão de caras na fase a eliminar e daí é o que vier. A Bósnia é outra que já merecia. Depois de, nos últimos quatro anos, lhes termos servido de bestas negras no play-off, Dzeko e companhia reservaram-se ao direito de apurar de vez o seu crescimento. Ganharam, na negra, o bilhete directo à muito mais experimentada Grécia de Fernando Santos e o karma premiou-os com um grupo, a todos os títulos, acessível. Ao Diamante de Sarajevo, junta-se uma respeitável elite com Pjanic e Ibisevic à cabeça, que há muito batalhava por esta oportunidade. Absolutamente a ter em conta.

Para revisão de matéria dada, e antes da auto-avaliação nacional, fica aqui o quadro de apostas.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Mundial 2014, antevisão: um messias, os motores da Baviera e a outra história de pretendentes

A declaração de intenções de um Campeonato do Mundo é quase tão antiga como ele próprio. Não há ninguém que goste disto e que não saiba enunciar, pelos dedos, todas as potências eterna e inevitavelmente candidatas, por mais retórico que isso acabe tantas vezes por ser. Já isolei Brasil e Espanha porque, na minha opinião, é de toda uma exigência diferente que estamos a falar. No andar seguinte, contudo, resgatam-se unanimemente dois velhos conhecidos.


Mais ou menos justificadamente, este é um Mundial para a Argentina há quase tanto tempo como é o para o seu arqui-inimigo. Não há nada com que a alviceleste pudesse alguma vez sonhar mais ardentemente do que com o Tri na areia brasileira, e se tudo pode ser posto em causa relativamente à equipa, a paixão que será emprestada a esse desígnio não. Individualmente, a profusão de recursos ofensivos é, numa campanha mais, estonteante e é inevitável selar tudo isso com um terço de cinco letras: Messi, Messi, Messi. Aos 26 anos, o messias das quatro Bolas de Ouro chega ao Rio de Janeiro praticamente na mesma idade com que um Deus converteu o universo há três decénios no calor do México, e essa alucinação radical é exactamente a medida do peso que Leo terá de carregar nos ombros. No Brasil, Messi viverá não só o torneio mais importante da sua carreira, como aquele pelo qual em toda a probabilidade se avaliará a sua lenda. Não digo isto com nenhum gosto especial, nem nada que o valha, mas a minha aposta é que falhará. Porque o Mundial é como navegar num buraco negro que mal pode esperar por esmagar-te os sonhos. Porque a Argentina tem muito, mas não tem um treinador. E porque, apesar do lugar nos livros, não acredito que Messi goze realmente da transcendência cósmica com que se pode ganhar isto sozinho, a tal que habitava cada fio de cabelo do Profeta.


A correr por fora, só vejo honestamente uma grande equipa. No Brasil terá passado quase um quarto de século desde que, em Itália, a Mannschaft roubou o Tri e o derradeiro sonho d'El Diego. Nos últimos 12 anos, por seu lado, os alemães perderam duas finais e três grandes meias-finais internacionais o que, no seu dicionário, equivale à febre de uma obsessão. Se o Mundial pode descarnar as equipas que jogam com o coração, é possivelmente o oásis das que têm gelo nas veias. No ano passado, a final germânica da Champions insinuava que a onda poderia ser um tsunami às portas do Brasil, mas este ano foi menos esmagador e erodiu o bombardeiro de algum capital. Ainda assim, esta é uma história de mentalidade e de uma geração extraordinária de futebolistas que... nunca ganhou. A Alemanha é a única equipa com nervo e legitimidade para reclamar uma final ao complô hispano-brasileiro.


A fechar este quinteto imaginário, a melhor selecção do Euro-2012, romanticamente massacrada na final de Kiev. Nenhum Mundial se faz sem a Squadra Azzurra, sem o Tetra em pessoa. Os italianos são, não só os penúltimos vencedores, como uma das raras equipas a ter intemporalmente em conta, aconteça o que acontecer. Um dos eternamente grandes. Desse excelso Europeu, onde poucos davam por ela, mantêm-se quase todos, Cesare Prandelli à cabeça, o que deve ser suficiente para estar optimista. A verdade é que a Itália não era favorita então, e não o pode ser agora. A Azzurra é só um misto bem bebido de veteranos, miúdos e jogadores-sombra, que põe a ilusão numa estrela com tanto de enfant terrible como de jogador de bola. É verdade que pode chegar para qualquer um num dia bom, mas não é honesto pedir-lhe mais do que o jogo bonito e o último poema de Pirlo.


Dos outros três maiores, confesso a curiosidade agridoce pela Inglaterra. Depois da prova de dignidade no Euro, os Três Leões voltam a dar caras com uma equipa que esbanja uma juventude entusiasmada quase sem paralelo, que merecia ser feliz. O problema é não haver casa mais assombrada que a de Sua Majestade. Partilhar o grupo com Itália e Uruguai é só mais uma partida do destino que, honestamente, não sei se os ingleses poderão contornar. Na França, a lesão de Ribéry anuncia-se avassaladora. Como se não bastasse a intratável lista de ausências forçadas, a ausência provável do Bola de Bronze na 25ª hora tornou-se quase chocante. Depois do caso Nasri, uma selecção que até prometia, do assombro de Pogba ao faro de Benzema, parece agora mais orfã do que nunca. As suas garantias acabam na passagem às eliminatórias. Finalmente, a Holanda será a mais frágil de todas. A perda de Van der Vaart veio só pungir as deficiências de uma equipa em falta de tudo, menos de Sneijder, Robben e Van Persie. Há Van Gaal, um seguro para todas as horas, e o diploma de vice-campeã em título mas, num grupo com Espanha e Chile, nada será demasiado surpreendente.

Mundial 2014, antevisão: a Era de Castela e a profecia do Hexa


É oficial: já só cheira a Brasil. A temporada está enterrada e Junho veio para ficar. É finalmente a hora do planeta futebol respeitar o seu quadriénio sagrado e prestar-se ao maior de todos os seus espectáculos: a Copa do Mundo. Copa, mais do que nunca, por derramar-se durante o tão aguardado próximo mês no coração do futebol. Porque se a Inglaterra inventou o jogo, só no Brasil é que ele ficou a cores. Todos sabemos o que vai custar este Campeonato do Mundo e ninguém, em consciência, o poderá menosprezar. Mas, honestamente, não me podem pedir para não ser apaixonado a respeito dum Mundial como este, porque não sei se algum dia farão outro onde se sonhasse mais estar. Durante um mês, o Brasil será invadido por legiões dos quatro cantos do mundo. De Manaus ao Rio, de Fortaleza ao Mato Grosso, de Salvador da Baía a Porto Alegre, este será o Mundial do futebol tropical, sempre com um sorriso nos lábios, com o sol nas costas, mulheres bonitas, noites longas e um copo na mão. O Brasil será o lugar onde qualquer um queria estar, a jornada que qualquer um quereria viver. Um Mundial azul e amarelo tem mais magia do que um que pudéssemos inventar.


O primeiro texto de antevisão é sobre os Favoritos, assim, com letra grande. E se nos condenarmos a pensar neles, o que nos sobressai é a dualidade de uma guerra dos tronos. À partida, se tens um Campeão do Mundo em título, que por acaso também é bicampeão europeu, pelo menos uma candidatura já se entregou sozinha. De facto, ninguém no seu juízo estará em condições de afastar a Espanha seja do que for. Há já incríveis 6 anos que a Roja não tem adversário à altura, e a História continua a escrever-se até este verdadeiro momento. A profusão de resultados nunca abrandou e o plantel continua a oferecer um insultuoso manancial de soluções. A Espanha tem tudo: o génio, o calejamento e a moral. É, sem sombra de dúvida, o adversário mais temível que irá pisar os gramados canarinhos. Paradoxalmente, não a sanciono bicampeã.

Este é um ponto de vista sobejamente discutível, mas não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. A verdade é que, nos últimos três anos, o tiki-taka provou o antídoto. Era inevitável que, um dia, os adversários perdessem o respeito, que ousassem pôr tudo em causa. Não sendo liminar decalcar o futebol de clubes e o de selecções, certo é que aconteceu muita coisa ao Barça, e o Barça sempre foi a madre espiritual de toda a peregrinação. Depois, que a Espanha já tenha ganho tudo, e um pouco mais do que isso, é tanto a sua benção como a sua maldição. Ninguém se pode fartar de ganhar e para nenhum dos seus ases a Copa será remotamente indiferente; mas as vitórias acumuladas são, não raras vezes, abissais. No caso da Espanha, tudo isto parece, hoje, uma maratona única, que correu tão, mas tão bem, que, na verdade, continua a viagem para lá da própria meta. O mais razoável é que me arrependa de escrever isto, mas vejo a Espanha como a Selecção que vai ao Brasil para perder. Para levar o golpe de misericórdia, para livrar-se do fardo, para passar formalmente um testemunho.


As minhas fichas, como é bom de ver, estão do outro lado, mesmo que isso não seja de todo racional. Há mero ano e meio, o Brasil estava em pânico. Tudo começara na Argentina, em 2011. Foi nessa Copa América que a muito velada renovação geracional de Mano Menezes provou a sua fatalidade, despenhando-se nos quartos-de-final, com uma vitória em quatro jogos. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita: o harakiri chegaria em pleno Wembley, no ano seguinte. Com parte substancial do elenco juvenil sonhado para a própria Copa, foi a vez de perder-se com estrondo a final olímpica para o México, e de estalarem, então, os alarmes e todos os tormentos. No lado mau da ampulheta, Mano chegara ao fim do caminho, sem qualquer capital político e com uma equipa que, a olho nu, não era mais do que um bando de miúdos de parca identidade e terrivelmente mais pequenos do que o desígnio que a Nação inteira lhes exigia no horizonte. Hoje, na iminência do primeiro pontapé em São Paulo, ninguém ousa pensar o mesmo.

Por mais tortuosos que tenham sido os caminhos, este é o Brasil que Felipão limou para a guerra, que, contra as expectativas e contra o tempo, não só concluiu a recruta, como se graduou com excelência, Taça das Confederações incluída. Se formos matemáticos a respeito disto, dizer que o Brasil é favorito sobre a Espanha continua a parecer, na verdade, ridículo. Estamos a falar de uma equipa incomparavelmente menos experiente, menos testada, e que não pode reclamar ser, sequer, mais talentosa. O Brasil perde para a Espanha em toda e qualquer conta. O futebol, contudo, não é estatística. E, se é alguma coisa, este é o Mundial com que o Brasil sonha há anos a fio, o conto encantado do pentacampeão que se desencontrou há mais de uma década, só para ter descoberto o seu novo prodígio, Neymar, Neymaravilha, um predestinado protegido a todo o custo na pureza do Brasileirão, e que estagiou o último ano numa Meca do jogo, só a tempo de liderar uma selecção ao seu destino, rumo ao deslumbramento do mundo e à vingança do Maracanazo, meio século depois.

Seja sob que ângulo for, surpreendente é que, a 13 de Julho, o português e o castelhano não sejam as línguas oficiais no Rio. Mas se há Mundial em que tudo pode acontecer, é 2014. Em nenhum outro momento, o perfume inebriante no ar pode enganar gigantes e emergir heróis, perverter probabilidades e fazer conquistadores da terra prometida. No Brasil, todas as expectativas são legítimas, todos os sonhos realizáveis. Que seja singularmente espectacular é só o dado adquirido.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Jack Ryan: Shadow Recruit. O primeiro blockbuster de 2014 saiu vivo


As expectativas eram necessariamente baixas: em causa estava a enésima adaptação da espionagem de Tom Clancy ao cinema, num argumento cujas fundações eram um ataque russo aos Estados Unidos, o tema, por si só, mais espectacularmente explorado desde sempre por Hollywood. É escusado dizer que Shadow Recruit não reinventa a roda. Não traz nada de novo, não é excelente em nenhum ponto particular e é tão fiel ao heroísmo americano quanto seria de esperar. No entanto, dando esta palmatória à partida, sobra espaço para reconhecer que, na verdade, estamos na presença de um produto competente no género. O experimentadíssimo David Koepp (Jurassic Park, Mission Impossible, Spider-Man) juntou-se ao rookie Adam Cozad para conceber, pela primeira vez, um argumento original na saga, baseado apenas nas personagens de Clancy. No guião possível de blockbuster primaveril, salientaria, ainda assim, a boa capitalização dessas personagens, na caracterização, nos bons diálogos e no interrelacionamento, tendo em conta e a própria natureza ligeira do produto.

O factor diferenciador é, indiscutivelmente, Kenneth Branagh. O brilhante senhor norte-irlandês, nomeado a cinco Óscares!, foi a face maior deste regresso da saga Jack Ryan ao grande ecrã, 12 anos depois, assumindo a cadeira de realizador e o lugar de secundário de luxo. Na direcção, conseguiu resistir a espectacularidades desnecessárias, e emprestou uma temperança apreciável a um filme de acção, patente nos sucessivos momentos a dois entre as personagens. Optou pelo sangue frio cirúrgico enquanto pôde, como na primeira sequência no hotel, antes de eventualmente ter soltado os cavalos para a inevitável vertigem final. O filme não permitia milagres, mas notou-se a sua assinatura. Ainda assim, é na interpretação que tem de reunir os maiores elogios. O seu oligarca pós-soviético é formidável, em carisma e em densidade, e é, a grande distância, a melhor figura da película. Diria mesmo que a cena do jantar com Keira Knightley é coisa de outro campeonato.

O cast acabou por ser uma escolha feliz a toda a linha. Knightley também provou, sem esforço, que é de elite e puxou o filme furos acima, com Kevin Costner a sustentar bem a figura de mentor. Chris Pine, a seu turno, também continua a somar. Ainda não é um grande actor, e não sei se eventualmente vai conseguir dobrar o patamar, mas já é certo que não é só um poster boy de algibeira. Tem crédito, seriedade e consegue ser escuro e, com mais uma franchise nas mãos, repetiu as boas sensações de Star Trek e do Capitão Kirk. Shadow Recruit está longe de ser apaixonante, mas é provável que valha mais do que davam por ele, e dá, com certeza, uma tarde bem passada.

7/10

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Non-stop. Liam Neeson paga sempre o bilhete


É a primeira boa novidade do ano. Os primeiros meses nunca se levam muito a sério, depois da ressaca dos prémios e antes dos blockbusters de Verão, mas volta e meia dão azo a um catálogo de qualidade, abaixo dos holofotes. Non-Stop é isso. Sem muita notoriedade, correndo o risco de ser velado como um de muitos, é, na verdade, um filme surpreendentemente consistente. Inteligente, dinâmico e competente do início ao fim. Parte de premissas comuns - a maior de todas, claro, a do agente assombrado e desacreditado, que terá de mover o mundo para provar que está certo, ao que lhe junta o cenário tradicional de um sequestro de avião -, e tem várias nuances líricas que seriam dispensáveis, mas é preciso tirar-lhe o chapéu: nunca é demasiado antecipável, baralha-nos generosamente e mantém o seu suspense intacto até ao bom acabamento.

O argumento é tripartido entre estreantes, ficando a realização a cargo de Jaume Collet-Serra, no seu 5º filme de grande circuito (House of Wax, Orphan), já depois de também ter colaborado com Neeson, em Unknown (2011). O catalão faz um belo trabalho. Numa história sobre mais uma viagem na vida de um Air Marshall, que vai evidentemente ser bem mais complicada do que isso, sublinho a boa utilização de um espaço evidentemente circunscrito. Collet-Serra dá muita vida à câmara, muito movimento, e faz igualmente bom uso das cenas mais claustrofóbicas. A juntar a isso, capitaliza o ambiente favorável, resultante da mística dos voos longos, e que plasma na escuridão da cabine, na profusão de desconhecidos e no mistério do ar. 

Como seria inevitável, o maior traço do filme é Liam Neeson. 20 anos depois da nomeação da Academia pel'A Lista de Schindler, a carreira do norte-irlandês deu muitas voltas. Longe da alta roda, personificado ícone de acção e profundamente institucionalizado a estes filmes série B, Neeson continua, porém, a valer o bilhete, sempre. Não por ser um Stallone ou um Seagal desta vida, longe disso, mas justamente por emprestar ao género postura, voz, carisma e um certo enfado doloroso que torna tudo mais crível. Não escondo que é dos actores por quem tenho mais estima e acredito realmente que, neste registo, continua a ser suficiente para, sozinho, fazer metade do trabalho. Num elenco que se desdobrou em muitas caras conhecidas, é impreterível nomear, ainda, as performances muito sólidas de Scoot McNairy (que vinha nos últimos anos a acumular papéis menores em filmes de peso, como Argo e 12 Years a Slave) e Corey Stoll (House of Cards).

Non-Stop é, em suma, um thriller no ponto. Certamente um dos mais consumíveis do ano.

7.5/10