"I have no choice but to direct my energies toward the acquisiton of fame and fortune. Frankly, I have no taste for either poverty or honest labor, so writing is the only recourse left for me." Hunter S. Thompson
terça-feira, 17 de junho de 2014
Os campeões que podemos ser
Perder foi a coisa mais importante que aprendi a viver futebol. Perder por pouco, perder sem merecer, pedir para perder ou perder espectacularmente. Não há nada que nos ensine mais do que uma derrota. Porque é exactamente nesse momento, quando nos põem tudo em causa e nos viram as costas, quando começam a alimentar a fogueira e temos de escolher entre ir ou ficar, que sabemos realmente o que somos. Acreditem que poucas coisas são mais puras do que ficar num estádio até ao fim só para bater palmas a quem acabou goleado. Porque isso é o derradeiro teste de fé. O que nem sempre nos dizem é que a próxima vitória começa no fim de cada um desses dias, assim a saibamos merecer. Nenhuma vitória tem a grandeza e a dignidade que se pode encontrar nas maiores derrotas. Porque ganhar é necessariamente eufórico. Só nas derrotas é que podemos provar que acreditamos nalguma coisa. Se queremos conhecer um homem, se queremos saber com quem contamos, é essa a hora de olhar para ele. A diferença entre ganhar e perder é que nas vitórias estão todos. Nas derrotas só estão os que interessam.
Ontem descobrimos que não vamos ser campeões do mundo. O Pai Natal, a Cegonha e o Batman devem estar iminentes. Não vamos ser campeões do mundo porque temos o pior treinador do mundo. O guarda-redes mais odiável, os defesas mais anormais, os médios mais acabados e os avançados mais inúteis. Até o nosso Bola de Ouro é o pior melhor jogador do mundo. Em boa verdade, descobrimos ontem só ter realmente três grandes jogadores: o Antunes, o Adrien e o Quaresma. Eles que teriam ganho o Mundial sozinhos, mas ficaram em casa. Ontem descobrimos que não vamos ser campeões do mundo. Até aí, para a doce pátria, era como se tivéssemos nascido no Penta; afinal somos o Madagáscar. Somos imprestáveis, estamos acabados e se calhar nem nunca fomos futebolistas. Ontem descobrimos que não vamos ser campeões do mundo. Ninguém nos preparou para isto.
As críticas tornam-nos melhores e a vida não espera por quem não sabe lidar com elas, é a verdade. A Selecção não é a Santa Sé e não só tem ser criticada, como é bom que o seja. O problema das críticas, como do mundo, é o quociente de idiotas. Os episódios de esquizofrenia colectiva, pela goleada de uma das duas únicas equipas que pode realmente ganhar isto, não são normais. São portugueses. Se eu sou epicurista nas derrotas? Não sou, morro por dentro. Se é admissível acatar a exibição nacional mais degradante de que nos podemos lembrar? O que é inadmissível é o frenesim febril que se alimentou a si próprio, o bota abaixo prosaicamente lusitano, o nosso fatalismo estúpido e tragicamente insuportável. É termos memória curta e tanto despeito para destilar, é sermos tão pequenos de espírito e toxicodependentes da culpa, é chocarmo-nos com pouco e desistirmos por menos do que isso. Se me perguntarem, as piores pessoas são sempre as que põem tudo em causa. Porque o fazem num ápice e porque nunca nos ajudarão a sair do buraco. Estão demasiado ocupadas a ter razão.
Ontem a Alemanha foi melhor e ganhou. Porque é muito melhor e porque ganharia quase sempre. Mas nem isso, nem o facto do árbitro ter sido um rato, pode mascarar, de facto, a desgraça que fomos. Sobre isso também teria muitas coisas a dizer. O funeral, todavia, outros já fizeram. Infelizmente, depois do jogo, só não ouvimos o que era preciso. Só não soubemos dizer que se perdemos, perdemos todos, mas que estaremos sempre, sempre lá. Hoje, o que me apetece dizer é que esta equipa é o 6-2 à Bósnia, depois deles prometerem que nos esfolavam vivos. Que é o golo do Varela à Dinamarca, quando já estávamos eliminados, e que é vulgarizarmos um vice-campeão do Mundo, depois de sermos decadentes. Que é prendermos a melhor selecção da História pelos penalties e é irmos ao primeiro mundo nórdico fazer o jogo internacional do ano e ganhar uma Bola de Ouro. Hoje, o que me apetece dizer é que esta é a equipa que nunca deixou de ser pior do que os outros e de fazer melhor do que eles, e que por isso, e só por isso, somos burgueses alucinados e mal habituados. O que me apetece dizer é que a Selecção de todos nós é uma falácia, porque o próximo mês não é de todos os portugueses. É dos que sabem que não pode haver orgulho sem sacrifício e dos que têm mais brio no escudo do que em qualquer resultado. Daqueles para quem sofrer não é um insulto, mas uma honra. Dos que, até ao último suspiro, com um aperto no coração e um brilho nos olhos, vão acreditar estupidamente que podemos, porque essa é a única maneira de o merecer. Os outros nem contam, nem nunca serviram para nada.
A vida não é futebol, mas o futebol é pessoal, tem de ser. Em ambos, ninguém precisa dos profetas da desgraça, dos fáceis, dos que não se comprometem. No futebol, como na vida, só os apaixonados é que valem, os inteiros, os incondicionais. O caminho foi sempre a recompensa e, para agonia do Velho do Restelo, o nosso não acaba aqui. No fim do dia, não é àquelas 23 almas que devemos alguma coisa. É a nós próprios. Talvez não possamos ser campeões, mas podemos viver e perder como uns.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Copa, dia 4: ensaio sobre a cegueira

Argentina 2-1 Bósnia
Ao intervalo, o jogo entre dois dos ataques mais importantes da competição ameaçava decidir-se num auto-golo via bola parada, entre duas equipas com cinco defesas. De facto, na estreia do Maracanã, é difícil descrever o degredo exibicional da primeira-parte, a não ser que foram provavelmente os piores 45 minutos do Mundial até agora. Alejandro Sabella e Safet Susic entenderam convictamente que o caminho era caparem as respectivas equipas, em troca da ilusão de segurança patrocinada pela sobrepopulação atrás. Se, no caso do bósnio, foi uma sincera desilusão, no que respeita à albiceleste foi quase constrangedor.
A Argentina tem muitas coisas, tem, decerto, os melhores avançados do mundo, como sempre, mas nunca tem a sorte de arranjar um treinador. Não me vou estender na apreciação às qualidades tácticas de Maradona, porque a santidade vive muito acima dessas mesquinhezes mundanas, mas, de um Mundial para outro, os argentinos viajaram de um 4-2-4 para um 5-3-2. Se há quase um quarto de século a selecção não pisa uma meia-final do Campeonato do Mundo, deve-o quase inteiramente à tragédia que é nunca recrutar um treinador mais ou menos digno desse nome. Reconheço a Sabella, ao menos, a hombridade de não ser um radical: quando percebeu, afinal, que não tinha inventado a roda, voltou ao desenho habitual - o que, em sentido lato, equivale a deixá-los entrar na relva e atrapalhar o menos possível - e as coisas recompuseram-se. Mercê da infelicidade inaugural, a Bósnia forçou-se a sair do casulo e a Argentina pura, de rua, a que já nasce assim, teve, então, todo o espaço e todo o desequilíbrio que lhe corre no sangue. Mesmo a provável contra-gosto do seu treinador, vimos finalmente futebol. A vitória é indiscutível - também por demérito do adversário - mas essa não é a conclusão essencial: se é garantido que a Argentina vai voar imperturbada no seu grupo, que ninguém ponha aos mãos no fogo quando chegar o primeiro adversário a sério.
Depois de quatro anos a verem-nos roubar o sonho, os bósnios chegaram finalmente a uma fase final pela porta da frente. Ganharam o grupo de qualificação e foram o 4º melhor ataque da zona europeia, com Dzeko e Ibisevic no pódio de marcadores. Num romântico 4-1-3-2, Susic disse, ao longo dos últimos dois anos, que essa era uma ideia de futebol pela qual valia a pena lutar... só para, no primeiro jogo mundial da História do país, com um adversário gigante e sem pressão, a filosofia atrofiar-se como num golpe de magia, caíndo um avançado para entrar um quinto defesa. A Bósnia teve, pois, o jogo horrível e a derrota que mereceu. Continua a ser favorita à passagem, dada a miséria franciscana do grupo, mas provas de pequenez deixam sempre as suas marcas.
ARGENTINA - Nos últimos tempos, tem sido quase redundante dizer que Di María foi o melhor em campo, mas sim, mal se recuperou da catanada estilística do próprio treinador, foram dos arranques radicais de Angelito e da sua condução limítrofe que a equipa mais pôde viver. No miolo argentino, Mascherano parece mais barcelonista do que no próprio Barça. A equipa é desequilibrada na abundância, toda a gente sabe, mas o sucapitão é sempre o primeiro a dar a cara e, pela atitude, consegue ser melhor do que é realmente. Pipa Higuaín entrou muito bem e, claro... Messi fez uma daquelas.
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Copa, dia 4: os suíços chegam sempre a horas
Suíça 2-1 Equador
Para não destoar da média, mais um grande jogo este Suíça-Equador. Final dramático para os sul-americanos, que foram muito melhores do que estava a contar e mereceram o empate, mas vitória do mais forte. O país dos relógios resolveu no último minuto e já tem um pé nos oitavos-de-final.
O Equador é um caso de estudo porque nunca se tem a certeza do que esperar quando a equipa é retirada ao seu habitat que, como se sabe, é muito particular: os jogos em casa na zona de qualificação sul-americana são jogados a quase 3000 metros de altitude, o que é uma espécie de pesadelo a cores para os adversários e que, grosso modo, proporciona aos visitados um registo quase imaculado de vitórias que os coloca, de resto, no terceiro dos últimos quatro mundiais. Depois de ter sido sensação em 2006, o Equador falhou a ida à Alemanha e, oito anos depois, parecia chegar ao Brasil com uma selecção, a olho nu, razoavelmente desinteressante, da qual haveria pouco a esperar. Nada mais errado. É facto que o desfecho fatídico do jogo de hoje pode bem ter traçado a sua sorte na competição, mas os tricolores deixaram uma bela imagem e ainda podem ter uma palavra a dizer. Sendo talvez a selecção sul-americana mais atlética, o Equador sabe temperar o seu futebol e tem lucidez no último terço. A força, a velocidade e a verticalidade são o estilo, mas os homens de Reinaldo Rueda não são unidimensionais. Estiveram a ganhar e discutiram o jogo até ao fim, sempre com a mentalidade certa. A jogada do 2-1 é a súmula perfeita de como o jogo podiam ter caído para qualquer lado da rede.
Passando largamente despercebida, a Suíça tem potencial para ser uma das grandes sensações do Brasil 2014. Muito bem armada pelo histórico Ottmar der General Hitzfeld num elegante 4-2-3-1, os suíços têm boas soluções para todos os lugares do campo, ponteadas no talento cativante da sua nova geração. São uma equipa limpa a jogar, muito pendular, sem nunca ser entediante. O coração é made in Nápoles, onde o capitão Inler define todos os ritmos, bem auxiliado pela potência de Behrami. À sua frente, um meio-campo ofensivo que gosta de jogar por dentro, encabeçado pela pequena brutalidade de Xerdan Shaquiri. Isto possibilita que os laterais se discorram pelo corredor inteiro e a Suíça tem um dos melhores pares do torneio: Lichsteiner e Ricardo Rodríguez. Uma equipa assumidamente agradável, a seguir. Os suíços não estariam à espera do soco no estômago que foi o 1-0, num erro terrível de marcação, mas nunca perderam a personalidade e a compostura. Hitzfeld também agiu com prontidão e acerto (golos de ambos os suplentes, empate a abrir a segunda-parte) e, tudo somado, sustentou o golpe de fortuna final. Diria que é quase impossível que a Suíça não esteja na fase seguinte e mais vale contarem com uma candidatura à vitória no grupo.
SUÍÇA - Praticamente já os enunciei. O jogador-chave foi Gokhan Inler. O capitão é um daqueles futebolistas de fina casta, cuja autoridade se vê ao longe. Idealiza o jogo da equipa, é o primeiro a construir desde trás e não se coíbe de subir sempre que o entende. Muita classe. Na lateral-esquerda, ficou denunciado que este será o Mundial de Ricardo Rodríguez. O descendente de hispânicos fez uma época bestial na Bundesliga - 5 golos, 9 assistências no Wolfsburgo - e apresentou-se hoje ao serviço com mais dois tentos oferecidos. Sairá do Brasil para um grande plantel europeu. Shaquiri também sairá do Bayern neste Verão e abriu o leilão como devia. É o ás da equipa e aquela canhota tem uma história a contar neste campeonato do Mundo. Finalmente, muito bom jogo de Behrami, um box-to-box não raras vezes impressionante e literal. A jogada do 2-1 é avassaladora.
EQUADOR - Jefferson Montero, na extrema-esquerda, é o arquétipo das virtudes da equipa: grande passada, grande disponibilidade e um acabamento criativo. Foi o mais perigoso. Enner Valencia, o shadow striker, tem pouco de sombra. Um passo atrás de Caicedo, está sempre à procura da bola e de poder encarar os defesas. Na lateral canhota, o veterano e capitão Walter Ayoví ainda dá cartas.
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domingo, 15 de junho de 2014
Copa, dia 4: foi fácil, só não foi amigável
França 3-0 Honduras
Estilisticamente, a nuance mais aprazível do jogo foi a carga de pancadaria com que os hondurenhos castigaram os franceses. Em tudo o mais, foi só descanso activo (e uma ou outra nódoa negra) para os comandados de Deschamps, um longo bocejo que teria honestamente dispensado uma segunda-parte. As Honduras são, de forma redundante, a equipa mais débil do Mundial.
Mesmo com o golo a nunca ter sido mais do que uma questão de tempo, a França deixou boas sensações na primeira-parte. Pareceu uma equipa disponível e muito homogénea em campo, com um fluxo interessante entre os interiores, os alas e os extremos. Pareceu, igualmente, uma equipa leve, positiva, de cabeça limpa. Toda a gente viu a polémica ausência de Nasri e a mais ou menos chocante lesão de Ribéry mas, e por mais injusto que isto possa soar, a ausência das pop stars pode, na verdade, fazer muito bem aos Bleus. É dado adquirido que falar na França é falar de um balneário complexado e em nenhum outro os egos fizeram tamanho estrago nos últimos anos. Agora, a primeira impressão foi a de uma equipa jovem, dinâmica e com muita vontade de fazer bem as coisas. Não pode haver melhor princípio.
Todavia, como em qualquer performance gaulesa digna desse nome, as histórias de um jogo sem história foram as suas pequenas tramas. À falta de um adversário para poder jogar, houve um agressor que afinal foi o agredido e 10 penosos segundos a suster a respiração pela possibilidade de Pogba começar isto com um vermelho directo. Houve um penalty, uma expulsão e um golo que não entrou mas afinal até entrou, num calafrio mal disfarçado para o olho de falcão que a FIFA nos tem impingido com tanta bazófia por estes dias. Ah, e não sei se já vos disse, mas houve porrada. Muita e boa porrada.
FRANÇA - Difícil tirar ilações quando é tão fácil. O melhor terá sido Valbuena. 'Le petit velo', a pequena bicicleta, nunca será um génio, mas é um futebolista de utilidade e rentabilidade a toda a prova. Ágil e rápido, gosta de jogar por dentro e é o senhor das bolas paradas. Nenhum treinador se importaria de ter um no bolso. Matuidi foi o mais forte de um meio-campo de extremo alcance sobre o qual tenho franca curiosidade. Com Cabaye a ancorar o miolo e Pogba a ser mais inortodoxo, o médio do PSG foi um expresso rumo à área contrária. Os 2,5 golos de Benzema, mesmo num amigável, também não devem ser menosprezados.
HONDURAS - Não. Uma equipa onde é suposto Wilson Palacios ser o jogador mais esclarecido está condenada à partida. Seja como for, é gente da América Central, terra onde vou passar a velhice, portanto são sempre bem-vindos. Além do mais, é possível não ter uma certa estima por quem bate em tudo o que fala francês?
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Copa, dia 3: este país não é para velhos
Uruguai 1-3 Costa Rica
É possível pedir mais do que um Mundial encharcado de golos e repleto de golpes de teatro? Em boa verdade, o banquete que a Holanda fez da Espanha teria chegado para toda a jornada 1. O que não sabíamos era que isto estava só a começar. Nas últimas semanas, o grupo oficial da morte foi analisado como se praticamente só existissem três equipas: os três ex-campeões do Mundo, o campeão sul-americano, o vice-campeão europeu e a esquadra de Sua Majestade. No calendário, estaria reservada uma vaga para mero escape, uma espécie de jogo-treino com o pessoal das Caraíbas, para descomprimir as pernas e desempatar nos golos. Não sendo comparável ao primeiro choque do Mundial devido ao alcance histórico dos números, a vitória da Costa Rica sobre o Uruguai é até mais impressionante se atentarmos às probabilidades.
Em 2010, a Celeste foi a equipa-sensação, o escudo dos oprimidos, honrado com o 4º lugar e a Bola de Ouro de Forlán. No ano seguinte, chegaria mesmo a confirmação da coroa sul-americana, com a vitória indiscutível na Copa América. Por tudo isso, o Uruguai que chegou ao Brasil, altar do seu último título mundial, ainda estava bem dentro do coração da gente. Todavia, esta é uma equipa razoavelmente diferente. À primeira-vista, até mais interessada em jogar, tendo abdicado dos três trincos e apostado em dois alas. Contudo, para quem o futebol é um estado de espírito, como para os uruguaios, isso é menos linear. O antigo modelo era menos uma táctica e mais um atalho para proporcionar a intensidade febril onde a equipa tanto se sentia em casa; procurar mais caminhos seria útil para quase todos, mas para o Uruguai equivaleu a dispersão. Ao intervalo, mesmo sem desconfiar do que lá vinha, já se distinguia uma equipa insípida, bem intencionada mas sem competência para perturbar em nada, a não ser de bola parada. A impotência tornar-se-ia pungente mais tarde e, como é evidente, nada disto pode ser dissociado da ausência d'O Canibal. Suárez agrilhoado ao banco, a ver o castelo a ruir, é já das imagens mais duras do Mundial. Que não tenha sido lançado mesmo aí, prova que Luisito não está, de facto, em condições, e isso é o mesmo que derramar veneno no sangue charrúa. A guerra de nervos contra a Inglaterra será abismal.
Alheio a estas agonias existenciais da gente graúda, o futebol alegre bebido a rum, com vista para o mar das Caraíbas, teve um dos dias mais felizes da sua História. Na mente de todos os ticos pulsava o play-off homónimo de há quatro anos, quando o Uruguai reclamou o último bilhete para a Alemanha sobre a que então apelidou de Costa Pobre. A vitória dos costa-riquenhos, que ninguém poderia ver chegar, é, a todos os níveis, excepcional. O colombiano Jorge Luís Pinto foi fiel à matriz ideológica do país e encarregou-se de potenciar o seu velho 3-5-2, ainda que no campo seja mais do que isso: sem talento individual de excepção, a equipa é muito esforçada a defender, onde coloca muitas vezes seis jogadores, mas desdobra-se com apreciável dinâmica para o ataque, tendo quase sempre dois homens na linha de passe do miúdo Campbell. Depois do empate, as coisas saíram tão bem e os jogadores galvanizaram-se de tal maneira, que a Costa Rica jogou futebol, com toda a propriedade, como os melhores do torneio. A vitória foi inapelável e, ainda por cima, foi valorizada por um Uruguai cujo tempo e as circunstâncias parecem levar a melhor, mas que jamais baixa os braços. Aconteça o que acontecer, já terá sido um dos jogos mais especiais do Brasil 2014. Fez-se Mundial.
COSTA RICA - Joel Campbell, remember the name. O miúdo parecia saído de um videojogo qualquer e rebentou a loiça toda. Antes e depois do instrumental golo do empate, esteve em vias de marcar o golaço da Copa e seria também ele a fazer a assistência assassina para o 1-3. É um monstro de força, um comboio em progressão e depois, meus senhores, tem a canhota dos iluminados. Só tem 21 anos, mas Arsène Wenger já o descobriu nas suas alquimias aos 18. Este é o ano para assentar com o canhão gunner ao peito. A Costa Rica não tem muitas individualidades, mas as que tem disseram presentes: Keylor Navas (Levante), um dos melhores guardiões de La Liga, foi outra das figuras do jogo. A bola prensada que sacou a Forlán já está no best of do torneio. Na ala esquerda do 3-5-2, Junior Diaz também se evidenciou, pese o penalty infantil. Depois de uma primeira-parte escorregadia, nota também para o acerto decisivo do trio de centrais (com golo para Óscar Duarte).
URUGUAI - Orfão do parceiro atacante, Cavani fez das tripas coração para estar à altura. Não tremeu no penalty e farejou mais duas vezes o golo, mas Navas levou a melhor. Não foi por ele que o Uruguai perdeu. Atrás, Martin Cáceres foi a memória de um sector outrora intratável.
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sábado, 14 de junho de 2014
Copa, dia 2: a pirâmide azteca sobreviveu ao assalto, a Austrália não sobreviveu à sorte
México 1-0 Camarões
Ao segundo jogo, segundo flagrante delito arbitral. Ainda não tinha passado meia hora e a FIFA já havia de estar à procura de um buraco para se esconder: Giovanni dos Santos viu dois golos serem surrealmente anulados por fora-de-jogo, o primeiro quando estava de forma evidente em linha, o segundo quando a bola proveio... de um adversário. Muito raramente reduzo um jogo aos erros do árbitro, mas a performance desastrosa do colombiano Roldán e amigos só por um pequeno milagre não acabou por saquear hoje o baú de aspirações mexicanas. Aliás, honra lhe seja feita, não por milagre, mas pela abarcadora competência d'El Tri, que deu para tudo.
Não era um jogo particularmente fácil de ler e não seria previsível, pelo menos, que fosse estar claramente uma equipa sobre a outra, pese o México sugerir melhores atributos. Os Camarões, de resto, estudaram a lição e foram inteligentes a condicionar o adversário nos primeiros 20 minutos. Consciente da matriz 3-5-2 do México, o veterano Volker Finke exigiu disciplina à equipa e entrou com um miolo igualmente a cinco homens, deixando Samuel Eto'o desterrado na frente de ataque. Apesar disso, e apesar dos dois golos precoces tão mal anulados a Giovanni, foi a melhor fase camaronesa. O México não se sentiu muito à vontade com a falta de espaço para tocar e acabou por abrir ao contra-ataque africano, com o ponto alto a ser a bola ao poste de Eto'o.
Todavia, para os Camarões, e até ao pressing final, a história do jogo ficaria resumida aí. Ao contrário do que até seria expectável, o México não se exauriu no massacre arbitral. Usou-o, aliás, como combustível para sacudir e carregar ainda mais o adversário, ao ponto dos Camarões se terem constrangido, durante os 30 ou 40 minutos seguintes, a um assustador 6-3-1, na esperança vã do nulo. A grande jogada do golo de Oribe Peralta, o herói do ouro olímpico de 2012, foi só o corolário de tudo o que o México soube criar. Os homens do apaixonante Miguel Herrera encheram o campo e deixaram escancarada a personalidade e o jogo positivo, que os torna, por direito próprio, num inestimável underdog. O mata-mata com a Croácia será dramático.
MÉXICO - Jogaço de Hector Herrera. O médio passou um ano no Porto a parecer boçal e alheado mas, na interior-direita mexicana, é um colosso. Solidário a defender, com passada e objectividade a atacar, é ele o motor da equipa e foi instrumental no lance do golo. Giovanni dos Santos não partiu a loiça, mas esteve sempre no fim de tudo. Os dois golos mal anulados serão uma das histórias do Mundial. Na ala esquerda, alguém que será seguramente uma das revelações do torneio: Miguel Layún não engana. Já fora o melhor do amigável frente a Portugal e confirmou-o na estreia. Está sempre a pedir a bola, é sólido na traseira da ala e relativamente imparável a chegar de trás e a colocar a bola. Excelente. Por fim, bons suplentes: Chicharrito, sim, mas especialmente Marco Fábian no box-to-box. Muita, muita força.
CAMARÕES - Itandje, na baliza, evitou o que pôde. Assou-Ekoto, na lateral-esquerda, assinou a melhor jogada da equipa e, tantas vezes numa ode ultra-defensiva, Mbia foi o médio que mais fez por chegar à frente. Samuel Eto'o, mesmo ao completo Deus dará na casa #9, continua a ser a única esperança dos leões indomáveis, a finalizar, mas sobretudo a segurar e a lutar.
Chile 3-1 Austrália
Aos 14 minutos teríamos todos posto o babete, tirado os talheres e passado um cheque em branco. O Chile apresentava-se à Copa cheio de reputação, parte dela por subsistir-nos na memória o romantismo trágico de há 4 anos, quando, sob batuta do profeta Bielsa, o sonho do futebol total foi desterrado pela Canarinha nos oitavos. Novamente, era Jorge Sampaoli a apresentar-se como um bielsista crente desde o primeiro dia; os craques amadureceram e o Chile voltava com o seu 3-4-3 suicida, pelo que a única expectativa era disseminar caos num dos grupos da morte. Sucede que o gás acabou demasiado cedo ou que, porventura, foi canalizado para outras paragens do grupo B. Aos 14 minutos o Chile já tinha ganho o jogo e estava a requerer a goleada, mas, mal a poeira baixou, e não estava lá.
Pode ter sido a ansiedade principiante, a confirmação da diminuição física de Vidal ou o arrepio na espinha pelo genocídio de duas horas antes, sabendo agora terem de discutir a passagem com... o campeão do Mundo, mas o Chile acabou por ser uma sombra do que podíamos esperar. O esqueleto táctico é o mesmo de 2010, mas a maneira de estar não. Com uma das equipas mais modestas do torneio, o Chile estranhou-se do jogo ainda na sua madrugada. Os dois golos em dois minutos foram mais acerto de Alexis do que juízo e, pior, depois nem pareceu uma questão de comodismo, mas antes soluços assustadiços desde o primeiro sprint australiano, que nunca mais partiram e que desproveram a equipa de todo o engenho e de toda a identidade.
A Austrália tem uma única ideia de jogo: passar o meio-campo e meter tão rápido quanto possível na cabeça de Cahill, porque, acreditem, o velho peso do Everton vai ganhar dois terços das bolas aéreas. Por incrível que pareça, a estratégia foi efectiva. Incomparavelmente mais débil ao nível do talento, a Austrália reduziu para 2-1, deu a cara na fatia grande do jogo e mereceu inteiramente ser feliz, o que falhou por muito pouco. Beausejour mascararia o placard em cima da hora, mas não o essencial: este não é o velho Chile e este não parece ter o que é necessário para dar o tiro de misericórdia na Espanha, que hoje tanto pediu por um.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Copa, dia 2: the Lannisters send their regards
Espanha 1-5 Holanda
Os alemães têm uma palavra chamada schadenfreude. De forma simples, alude ao prazer que se sente face à desgraça dos outros. De uma forma simples, é a razão porque não consigo deixar de escrever isto com um sorriso idiota na cara. Ao terceiro jogo, o Brasil 2014 escreveu a sua primeira página nos livros de História.
Não há nenhum ser humano que pudesse antecipar o que aconteceu hoje em Salvador da Bahia. A Holanda respeita-se sempre, claro que sim, e em campo estavam nada menos do que os finalistas do último campeonato do Mundo. Na realidade, porém, o que estava em campo era um mundo a separá-los. A Espanha não era só o vencedor vacante, era também a bicampeã da Europa. Era a esquadra que marcou uma Era, senhora de um banquete de recursos com que os outros apenas podem sonhar. Arriscaria a dizer, à partida, que o banco espanhol era favorito num jogo contra esta Holanda. A Laranja, por sua vez, depois dessa noite dramática na África do Sul, sumiu, muito mais do que somou. Não passou, por exemplo, da fase de grupos do último Europeu. Não viu emergirem talentos de maior, envelheceu as suas estrelas e ainda perdeu gente importante por lesão (Van der Wiel, Van der Vaart). Honestamente, ao vê-la entrar hoje em campo com uma equipa de miúdos, num sistema experimental, era difícil não olhá-la com toda a condescendência do planeta. Por estes dias, Van Gaal dissera, aliás, qualquer coisa como 'É a Espanha, temos de entrar com cinco defesas...'. És tão grande, meu cabrão.
Como em qualquer enorme armadilha, o primeiro passo é não dar nas vistas. Sneijder isolou-se cedo para servir a Casillas uma glória efémera, mas por meados da primeira-parte a Espanha já parecia andar aos laços no seu embrulho habitual. Mesmo num compasso abaixo do já pachorrento tiki-taka, mesmo com ar de quem acabou de acordar, parecia só um dia normal para os baixinhos de sempre, que lá iam descobrindo brechas entre as pernas alheias. Aí pela terceira vez, Diego Costa simula um penalty. Tudo como no guião, 1-0. Como em qualquer enorme armadilha, é impossível que os conspiradores não tenham duvidado de si próprios. Não foi tudo uma farsa cirúrgica, um espectáculo cronometrado para acontecer. Os nove humanos da equipa, fora aquela abençoada dupla da Terra do Nunca, tiveram de agonizar em silêncio, ser solidários, ajustar, lutar, ser ainda mais solidários. Mesmo sem nenhum ror de oportunidades do lado espanhol, houve fases em que não parecia crível que a Holanda pudesse emergir daquela teia. Isto até que Air Persie, Robbie Vantastic, fez aquilo.
Em cima do intervalo, o 1-1 foi mais do que perfeição em forma de jogada de futebol; foi Paulo de Carvalho a cantar o E Depois do Adeus no 25 de Abril, foi a senha para o ataque, o atestado para os miúdos, para o sistema experimental e para todas as dúvidas existenciais de que a Revolução das Túlipas estava na rua, pois que começasse a carga. A segunda-parte é um sonho. É uma Bíblia futebolística para ser emoldurada, vista para sempre e guardada junto aos livros de Cruyff e Van Basten, na igreja da Laranja Mecânica. Num ápice, a Holanda tinha superioridade atrás, era mais dura ao meio e era pornografia na frente. Agressividade, reacção e transições ofensivas tão abusadoramente boas que, neste momento, ainda se confundem com uma alucinação qualquer. Imaginem para a Espanha. A Roja parecia um náufrago que acordou a afogar-se, preso num pesadelo de carne e osso de que não podia acordar. A visão do inferno transformou-se em ataque de pânico, a defesa foi indizível e os cinco podiam-se bem ter transformado em sete ou oito. Em suma, o horrificante Campeão do Mundo, que começou a ganhar com um penalty roubado, acabou humilhado pela equipa de miúdos, com um sistema experimental, modesta herdeira da que há quatro anos perecera na final. Se o futebol não é magia, não sei o que seja.
HOLANDA - Em tamanha galeria, é de mau tom ter de escolher o melhor pintor, mas raios me partam, Robbie. O 1-0 é a monstruosidade dos predestinados e será o momento crucial de tudo o que a Holanda fizer daqui para a frente. De resto, deviam expulsar aquela barra da prova, só por ter-lhe roubado o hattrick. Depois, evidentemente Arjen Robben. A equipa confiava muito em ambos e dependia deles ainda mais. Os bailados dentro de área dignos do Bolshoi foram a humilde oferta do outro rei mago. Para revelação, Daley Blind. O versátil e raçudo ala-esquerdo é uma das chaves mestras do 3-5-2 de Van Gaal e as duas assistências de luxo tornam-no quase redundante. Foi o melhor dos mortais. Destacar ainda Martins Indi, o central mais imponente, e o temível De Jong, sempre com a faca nos dentes, vital em cada centímetro do seu meio-campo.
ESPANHA - Impossível relevar seja o que for. De todos, certamente um dos piores jogos da carreira de Casillas - depois da final homónima, em 2010, ter sido o contrário -, cuja titularidade, à vista da própria época no Real, passa a ser um caso realmente sensível. Mas também Piqué foi ridículo, numa defesa toda ela má de mais para ser verdade.
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