quinta-feira, 19 de junho de 2014

Copa, dia 8: só faltas tu, Radamel


Colômbia 2-1 Costa do Marfim

Ainda não tinha visto nenhuma das equipas em jogo e começou por parecer um dia mau para o fazer. Colômbia e Costa do Marfim cumpriram na estreia o estatuto de mais fortes do grupo D e, durante uma primeira-parte abrasiva à uma da tarde, pareceram ambas atadas a um armistício qualquer, num respeito mútuo que sugeria mais valer adiar tudo para as presas da última jornada. Isso só viria a mudar nos meados da hora de jogo, quando os colombianos esbarraram no óbvio: eram eles, indiscutivelmente, a melhor equipa em campo.

A Colômbia é qualidade por toda a parte. Dedicara-se a insinuar isso praticamente desde o início, mas nunca forçara; quando finalmente se deu ao jogo, patrocinou uma autêntica inundação de talento. Com a dramática ausência de Falcão, a equipa abdicou da dupla de avançados da qualificação e apresenta-se hoje num sustentado e, porventura, mais adequado 4-2-3-1. Os cafeteros têm soluções para todos os momentos do jogo. Em construção, podem contar com o génio de James e Quintero para inventarem espaço dentro de cabines telefónicas. Em transição, conseguem ser ainda mais assustadores, mercê de um porte explosivo excepcional, cujo maior de todos os intérpretes é o apaixonante e imparável Juan Cuadrado. Tanto numa como noutra estratégia contam com laterais motorizados, omnipresentes na possibilidade de rasgarem o jogo. Sendo muito intensa, a Colômbia é, contudo, uma equipa que não se desequilibra com facilidade. No zénite, é dos onzes mais impressionantes do Mundial até agora e, no meio-campo adversário, só tem par com Alemanha e Holanda. Assim que abriu a sua caixa de Pandora, o jogo acabou e, apesar do adversário capaz, a proximidade do resultado final é enganosa. O único vazio... é mesmo um ponta-de-lança. Que Falcão não possa ser a jóia desta coroa é uma tragédia por todos os tempos.

A Costa do Marfim continua a ser favorita à passagem. Esta é a última oportunidade da geração de ouro dos Elefantes qualificar-se para uma segunda fase e acredito que será desta, mesmo que o fulgor já não seja o de outros tempos. Ainda assim, há recursos suficientes, tanto mais em relação ao adversário final, e a equipa parece-me bastante lúcida. As justificadas ausências de Drogba e Kalou demonstram, desde logo, rectidão e bom julgamento, e isso é um bom começo. Claro que, tantas vezes, a Grécia é como a morte que nos vem buscar, mas os marfinenses podiam estar pior preparados para essa esfíngica tarefa. Consciente dos préstimos sul-americanos, a equipa especulou com o jogo enquanto pôde. O pacto de não-agressão, a ter vingado, seria a estratégia perfeita. O jogo, porém, foi mais cru do que isso. Lamouchi tinha acabado de substituir Bony quando James fez o 1-0 e essa foi uma condicionante demasiado infeliz para quem é forçado a ter, então, de ir discutir o jogo. Gervinho, sempre o melhor, ainda reduziu num lance brilhante, mas o desfecho foi o único que fazia sentido. Esperemos que, no fim das contas, os apurados também façam.

COLÔMBIA - Por onde começar? O mais impressionante foi Juan Cuadrado. O extremo da Fiorentina teve uma época gorda na Serie A e não é à toa que tem sido tão associado ao Barcelona. É um desequilibrador bestial e é impossível roubar-lhe a bola, seja em toque, seja em explosão. É ficar a vê-lo ir. Pelo critério falam as 3 assistências em 2 jogos. Um abuso e talvez a grande revelação da prova até agora. James não fica atrás. Convertido a estrela da equipa, não é tão exuberante, mas é tanto mais sábio. As suas botas continuam a derramar diamantes e a dar novos mundos ao mundo da equipa, e ainda por cima tem somado golos. À entrada do pequenino Quintero ficou associada a pujança da equipa. O Porto deu um ano duro a todos os reforços, mas o criativo azul não engana. Assombroso com a bola colada ao chão, podia até ter bisado com um golo olímpico. Talvez chegue o dia em que Zuniga e Armero sejam a traição da equipa, mas a febre ofensiva dos laterais colombianos é um regalo e, não raras vezes, um transbordo que engole os adversários. Finalmente, Mario Yepes. Aos 38 anos, o capitão pôde jogar o seu primeiro Mundial e continua a ter classe para dar e vender. Com o seu ar de pirata, não só lidera a linha como se dedica a meter técnica em cada corte. Uma referência. Nota negativa para Téo Gutiérrez: com Jackson e Bacca no banco é impensável que seja ele o ponta-de-lança duma armada deste tamanho.

COSTA DO MARFIM - Acho que está para chegar uma grande competição internacional em que Gervinho não seja o mais determinante jogador da equipa. O extremo da Roma é muitas vezes um alvo fácil, e muitas vezes é hábil e trapalhão na mesma medida, mas a sua rentabilidade é inquestionável. Rápido, fantasista e finalizador está sempre ligado ao jogo. Que golão o de hoje. Serge Aurier foi a outra referência. O lateral-direito do Toulouse, de apenas 21 anos, já tinha dado que falar na estreia e continua a justificar créditos como os que o associam ao Arsenal. Força, técnica e um bem em extinção: cruzamentos com açúcar. Na mó de baixo, note-se o pouco impacto dos pontas-de-lança e, acima de tudo, a diminuta influência de Yaya Touré no futebol da equipa. O melhor médio centro do mundo não esteve sequer nos arredores de Brasília.

Copa, dia 7: eram imortais, só não podiam viver para sempre


Espanha 0-2 Chile

Lembro-me que, na final do último Europeu, fechei o meu texto com a única epígrafe que me pareceu suficiente. Essa crónica chamou-se 'A equipa que vimos jogar'. Hoje, dia em que esse livro se fechou, é o melhor para afirmar que não sei se algum dia voltaremos a presenciar um fenómeno como a era Espanhola. Como em tudo o que é suficientemente marcante, não está em causa só o que se ganhou, e este é um dos casos em que as evidências a esse nível falariam estritamente por si; o cerne, porém, é verdadeiramente a forma como se fez. A Espanha foi a equipa que nunca tínhamos visto. Uma conspiração alienígena qualquer que reinventou o jogo às suas regras próprias e que, durante anos a fio, nunca teve realmente um adversário. Isto é uma hipérbole por definição, mas a Espanha era a hipérbole por definição. A equipa que não perdia nada, nem sequer a bola. Às vezes tinha um dia mau, às vezes tinha azar mas, em circunstâncias normais, e na maior parte das outras, acabava tudo da mesma maneira. 1 Mundial, 2 Europeus, dezenas de vitórias, centenas de posses de bolas, a experiência competitivo-estilística mais desafiante da História, e isso estão condenados a reconhecer tanto os aprendizes da filosofia como os mais entusiastas dissonantes. A Espanha foi fascinante para quem gostou de ver, para quem não a suportou e para quem nunca a pôde parar. Fascinante naquela vertigem impossível da inevitabilidade da vitória que a tornou no mais único de todos os rivais. Estou à vontade para falar, porque não houve um jogo em que eu tivesse querido pela Roja. Não houve um dia em que aquele bailado me tivesse seduzido, nem um torneio onde eu não tivesse torcido por melhores futebóis. É, por isso, com todo o desprendimento que hoje digo que nunca existiu e nunca existirá maior adversário.

Daqui em diante vão-se duplicar argumentos, triplicar razões e ver revelados todos os dogmas do mundo sobre a diferença entre o sucesso e o fracasso espanhol. Que nos últimos dois anos era evidente o atrofio do Barça, a Meca onde tudo isto começou. Que Del Bosque resistiu à renovação geracional e levou todos os velhos que pôde. Que quem já ganhou tudo acomodou-se, perdeu a fome. Que não havia plano B, que lhes faltou seriedade ou que os adversários descobriram a poção mágica. Talvez tenha sido um pouco de tudo, talvez os prognósticos estejam sempre certos no fim do jogo. Da minha parte, digo em consciência que não há nada técnico nem nada táctico que pudesse realmente antecipar um fim deste tamanho e que, portanto, é desonesto crucificar seja o que for. De facto, algo falhou. De facto, já todos haviam ganho tudo, mas alguém pode jogar um Mundial e não querer saber? Mais, se não confiar em quem já ganhou tudo, já lhes ganhou tudo, então em quem? Cabeças rolarão, é certo, porque é disso que a vida se faz. Rolarão por linhas tortas, mas rolarão bem, ceifadas nesse inelutável teste que é o tempo. Por mim, apenas lembrarei o que aconteceu no Brasil como um fim muito grande, para quem foi muito maior do que isso. Um fim orgânico, natural, um ciclo de vida quando a vida achou que era a hora, porque nada pode viver para sempre. Nem um Império. Duvido que os próprios espanhóis lho dêem, mas esta equipa merecia o respeito dum luto desses. Limpo.

Sobre o jogo, resta pouco a dizer, tão maiores foram as suas consequências e tão distantes estiveram ambas as equipas. Só havia duas opções no Espanha-Chile: ou a Campeã se impunha, e sobrevivia à força, ou seria perfeitamente obliterada. Acreditei honestamente que não era desta, que a sorte podia estar traçada mas que ainda teriam de ser os maiores a vir provar se eram bons o suficiente. O Chile, no entanto, encarregou-se de demonstrar que era grande que chegue. Os homens de Sampaoli, a quem se antecipavam tantas coisas mas que haviam sido modestos na estreia, não tremeram nem por um segundo. Subiram ao Maracanã como predadores inebriados com o cheiro a sangue e, hoje sim, na consumação inteira do que vale o ADN da equipa, deixaram a Espanha em pedaços. A sua agressividade sobre a bola, a ultra-velocidade das suas transições e a filosofia suicida com que praticamente todos atacam ao mesmo tempo foi um furacão perante o qual, percebemos cedo, a Roja não detinha qualquer chance. O 1-0 é uma mistura cósmica de fôlego, técnica e velocidade da luz, perante algo comparável a uma Internet Explorer das defesas. Hoje, nenhum teria sido pior adversário do que o Chile.

Na segunda-parte, quando o jogo já tinha positivamente acabado, ainda pareceu tudo mais agreste. A Espanha foi desoladora. Um gigante derrubado sem poder contar com a misericórdia do cronómetro, de joelhos sem poder sequer arranhar o adversário, no meio do seu castelo a arder, do seu próprio Maracanazo. Uma das imagens do Brasil será Iniesta sozinho entre três e quatro chilenos durante aquela segunda-parte inacabável, the last man standing, como nos filmes, queimado e ferido, com mortos e desistentes à sua volta, por uma vez humano, por uma vez menor do que o seu destino. A Espanha acabou em grande, porque só podia ser assim, como o resto. Eu, como tantos outros, brindei à queda. No fundo, não conheço forma mais honesta de honrar um verdadeiro adversário.

Copa, dia 7: oficiais e cavalheiros

 

Austrália 2-3 Holanda

Um gajo às vezes questiona-se do saudável que é andar a ver compulsivamente três jogos por dia mas, graças ao Redentor, tem havido no Brasil sempre uma Austrália para provar que estamos certos. A segunda semana começou como acabou a primeira: com mais uma maravilha de espectáculo, talento, carácter, emoção e duas reviravoltas. No fim, vingou a lei do mais forte e começaram a separar-se as águas mas, mesmo que saiam do Brasil sem um único ponto, os socceroos já provaram o mais importante: que quando se quer jogar, não interessam as limitações; que quando se quer jogar, merece-se sempre lá estar.

O que aconteceu na primeira hora de jogo será unanimemente atribuído à falta de agressividade e de concentração, e a uma certa sobranceria holandesa, derivada do estapafúrdio resultado inaugural. De facto, os holandeses não tiveram metade da electricidade da estreia e isso valeu-lhes um jogo nas covas, a grande distância do anterior, mas a questão não se resume a esse problema de atitude. A verdade é que a Laranja não é uma equipa suficientemente intensa em posse, sendo, antes de qualquer outra coisa, reactiva. Para além disso, por maior que seja a qualidade ofensiva, o 5-1 à Espanha não emenda por magia o rácio mais discutível das outras posições. Contra uma Austrália muito rija, muito bem organizada e muita disposta, a equipa de Van Gaal não pôde contra-atacar, como tanto gosta, tendo em vez de assumir o jogo. O que isso lhe custou ficou patente e é uma dica importante para os futuros adversários. A Holanda pressiona pouco e vegeta num ritmo mais baixo de jogo. A sua sorte transformar-se-ia por uma ironia do destino. Em cima do intervalo, Cahill lesionou Indi, Van Gaal teve de abdicar do sistema - passou de 3-5-2 para 4-3-3 -, e a potência de Depay na ala esquerda veio a revelar-se determinante. No resto, toda a gente sabe o que aqueles avançados fazem num dia normal.

A Austrália é das equipas pelas quais mais estima vou ter sentido no Brasil. O nível individual é tão baixo que é perfeitamente incrível o que os aussies fizeram suar Chile e Holanda, que, a nível de talento, pertencem ambos a outro sistema solar. Arrumada num simpático 4-2-3-1, a equipa de Ange Postecoglou faz-se valer de um entusiasmo inatacável para render em todos os minutos de jogo, a defender, onde tem de fazer das tripas coração, e a atacar, onde tem... Cahill. Ali só mora verdadeiramente um craque: aos 34 anos, o eterno Tim despediu-se hoje do futebol internacional com aquele chutão de outro mundo e esse dvd será para sempre a modesta homenagem à imensidão de carácter que os australianos emprestaram aos gramados brasileiros. Não estava sinceramente à espera de tamanha demonstração, mas só é um choque para quem não viu o jogo com o Chile. Então, como agora, os australianos discutiram o jogo como gente grande e, durante longos e ingratos minutos, dedicaram-se a espreitar o golo do caos... mas não estava escrito. Resta recordar todo o carácter e reviver aqueles cinco minutos de euforia global, depois do penalty de Jedinak, neste que também é o Mundial da terceira Revolução Tecnológica, do imediatismo e dos memes.

HOLANDA - Robben e Van Persie, pelo óbvio que é não pararem de marcar. Van Gaal pode ter inventado no Brasil uma dupla histórica. Com 20 anos ainda frescos, Memphis Depay, extremo do PSV, foi o trunfo da equipa. Só ao transformar o sistema que tão espectacular conta de si dera na estreia é que a Holanda levou a melhor. Por outro lado, o jogo deficitário do miolo deve preocupar Van Gaal.

AUSTRÁLIA - No Brasil, para poucos jogadores significaria tanto dizer que estiveram à altura das circunstâncias. No último jogo internacional da carreira, e depois de já ter ferido o Chile, Tim Cahill marcou um top10 do Mundial. É o único australiano a ter marcado em três Campeonatos do Mundo e são dele, aliás, metade de todos os golos do país em fases finais. Uma lenda. Outro dos antigos, Mark Bresciano foi importante enquanto esteve em campo, nas costas do avançado. A maior revelação do dia foi, porém, Mathew Leckie. O extremo-direito de 23 anos, que anda pela segunda divisão alemã, demonstrou rins, passada e autoridade no flanco e foi a maior quebra no casco laranja, o municiador por excelência do ataque.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Copa, dia 6: o Cristo é mexicano, o Brasil não é brasileiro

 

Brasil 0-0 México

A estreia já tinha avisado, ontem confirmou-se. Este Brasil tem em mãos um problema delicado e dificilmente poderá resolvê-lo com tempo ou engenho estando o comboio em andamento. O contexto fará a Canarinha favorita todos os dias em que entrar em campo, mas agora que baixou a poeira da estreia, e que já se findaram dois jogos, é impossível ignorar o essencial. A equipa discerne um único mérito: Neymar.

O futebol do Brasil começa, vive e acaba no #10, exclusivamente. Não há ali mais nada, nem mais nada foi trabalhado. O duplo-pivot não funciona, a ala direita é uma lástima e os pontas-de-lança dão vontade de chorar. Óscar está perdido a anos-luz do que pode fazer e, quanto muito, às vezes dão-se uns espasmos de vida nas laterais. O Brasil não tem dinâmicas colectivas, criatividade ou capacidades visíveis na construção continuada. É um bloco mais ou menos sisudo que reza todos os minutos do jogo pelos baldes de cor que Neymar lhe derrama, não raras vezes em modo desenhos animados, a correr 50 metros e a tentar passar por 5 ou 6 adversários. O facto do menino de Santos ser efectivamente genial é o único factor que perverte esta análise. Apenas e só graças a ele o Brasil podia realmente ter ganho ontem. Calhou que, do outro lado, o universo decidiu equilibrar as coisas.

Guillermo Ochoa fez, indiscutivelmente, a melhor exibição individual do Campeonato do Mundo. O guardião azteca fez o jogo da sua vida, defendendo tudo e de todas as formas - reflexos, instinto, saída, à queima-roupa -, defesa do torneio incluída - a Neymar, como é evidente -, e garantiu com chave de ouro um ponto profundamente simbólico para a sua equipa. Engane-se, contudo, quem acha que isso conta a história do jogo. De facto, foi graças a ele que tudo acabou a zeros, mas durante o seu festival existiu uma enorme equipa. Não sei se os resumos farão jus ao jogo do México, mas os comandados de Miguel Herrera fizeram uma exibição quase perfeita, estancando as intenções brasileiras em tudo o que estava humanamente ao seu alcance. O seu 3-5-2 pareceu concebido digitalmente, tão orgânica foi a ocupação dos espaços, ao ponto dos mexicanos parecerem quase sempre ter mais jogadores em campo. Sempre na raça e sempre a jogar positivo, a equipa jamais abdicou da partida e, mesmo nas alturas de extremo sufoco, manteve Júlio César em cheque (13 remates!, mesmo com a opção a recair na meia distância). O trio de centrais foi irrepreensível, o triângulo do miolo encheu verdadeiramente o campo.

Apesar do 0-0, o jogo foi intenso, talentoso, tacticamente elevado e emocionante. Depois da grande estreia, o México confirmou todos os seus enormes predicados: é favorito à passagem e ao coração dos adeptos. Ao Brasil, destinado a outras lutas, resta acreditar numa alucinação mais radical: a de que Neymar pode ganhar isto sozinho.

MÉXICO - De facto, há poucas palavras para resumir a exibição de Ochoa. A antiga lenda do Football Manager nem tinha a titularidade assegurada, mas fez ontem o jogo que lembrará por toda a vida. Um monumento do tamanho do Cristo. Atrás, Mazza Rodríguez continua a ser o mais poderoso dum sector que praticamente não errou. Numa equipa cuja imagem de marca é explanar-se no campo todo, ontem a virtude esteve no meio: Vázquez no vértice recuado, Herrera na direita, Guardado na esquerda. Um poço nuclear que sabotou o Brasil, a comer metros, a ganhar bolas e a visar o alvo. Cada um deles terá tido, pelo menos, dois grandes remates.

BRASIL - Um pouco de Dani Alves, de Júlio César, de Thiago Silva e de Luiz Gustavo, o que traduz a evidência do que o México soube fazer. Mas, no essencial, já expliquei: Neymar da Silva Santos Júnior é o primeiro, o segundo e o terceiro melhor jogador do Brasil.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Copa, dia 6: a montanha ia parindo um rato


Bélgica 2-1 Argélia

As expectativas para a Bélgica eram tão salientes que dispensariam quaisquer apresentações. No desflorar da sua segunda geração de ouro, os belgas eram, grosso modo, a equipa pela qual toda a gente esperava no Brasil. Alheada de uma grande competição internacional há doze anos, desde a África do Sul que a produção futebolística do país se assemelhara a uma Revolução Industrial. Nos últimos anos, os melhores campeonatos da Europa encheram-se autenticamente de flamengos, com a Premier League a servir de palco maior e a colocar o mediatismo em níveis estratosféricos: a Bélgica foi nada mais, nada menos, do que o 5º favorito nas apostas para o Mundial.

À partida, qualquer pessoa minimamente avisada conseguiria ler a perniciosidade deste cenário. Muita gente jovem, muita pressão, pouco calo. A Bélgica era a proposta que não podíamos recusar, mas o caminho seria sempre uma enorme armadilha. Ao intervalo do jogo com Argélia, já não perceber isso melhor. Perante uma autêntica companhia de autocarros, a primeira-parte foi um gigantesco nada, onde tudo correu mal. Sem criatividade, capacidade de construção, velocidade, força ou desequilíbrio, os belgas pareciam tão somente uma recriação moderna do Êxodo, a estarrecerem num calor bíblico, enquanto esperavam que o mar argelino se pudesse abrir miraculosamente aos seus pés. Como se não bastasse, claro, a Argélia até já estava a ganhar. Não me perguntem como.

Nos balneários é certo que não houve qualquer reanimação cardiopulmonar, porque o primeiro quarto de hora da segunda parte foi só mais do mesmo. A Bélgica parecia honestamente condenada. Honra lhe seja feita, o maior artífice da vitória terá sido o treinador: Marc Wilmots nunca se conformou. À passagem da hora de jogo já fizera as três substituições, sacrificando, entre outros, Lukaku. Não aconteceria nenhuma transformação divina até ao fim e a Bélgica nunca jogou o suficiente, mas essa energia contagiou o grupo, ao ponto de todos os três suplentes terem sido determinantes. A isso não será estranho, claro, o facto do banco da Bélgica ser um candidato à qualificação, caso existissem equipas B. Ironia das ironias, o catenaccio argelino acabaria traído a dez minutos do fim, na única de todas as vezes em que se expôs ao contra-ataque adversário.

A Bélgica saiu viva mas jamais poderá dormir descansada. E se acha a Argélia intratável, a seguir vem a Rússia de Capello...

BÉLGICA - Fellaini é indissociável da vitória. Entrou para jogar ao melhor estilo dos bons velhos tempos de Everton, como segundo ponta-de-lança, e dizimou o adversário, decidindo a sorte do jogo. Foi o melhor em campo e merecia o segundo golo. Era sobre Hazzard que recairia todo o onús da desilusão, mas o jogo fez-lhe justiça. Eddie nunca se escondeu do jogo e a assistência primordial para o 2-1 lembrará isso mesmo. Mertens e Origi entraram muito bem e também foram essenciais, no que é o epíteto de um verdadeiro banco de luxo.

ARGÉLIA - Assumidamente uma das selecções mais fracas no Brasil, se teve o sonho na ponta dos dedos, deve-o essencialmente à marcial disciplina defensiva. O guardião M'Bolhi foi a figura, numa sucessão de golpes de rins que pareceram realmente ir desterrar o proeminente adversário. Numa equipa onde honestamente é impossível vislumbrar uma ideia de jogo, destacar ainda o lateral-esquerdo Ghoulam, do Nápoles, provavelmente o mais esclarecido da equipa... e o seu melhor intérprete ofensivo.

Copa, dia 5: o futebol perdeu nos descontos


Gana 1-2 Estados Unidos

É, por si só, um dos resultados mais honestamente surpreendentes do Brasil até agora, tendo em conta a disparidade de recursos de ambas as equipas. O grupo G fez questão de apresentar-se caótico às lides do torneio e, depois da catástrofe lusa à hora de almoço, foi a vez de, pela noite, serem os ganeses a não poderem acreditar na sua própria sorte. Quem não viu, pode sempre especular sobre que o Gana fez feio ou que os Estados Unidos estavam mais ou menos deflacionados. Mas nada disso. Os africanos são e foram infinitamente melhores e a má fortuna do seu curso de carga ofensiva chegou-nos a deixar desolados. Quando, uma eternidade depois da equipa ter-se retirado daquela área, John Brooks cabeceou uma granada caída do céu para o coração inimigo, acho que nos sentimos todos vagamente melancólicos. Porque o empate servia tão bem a Portugal mas, sobretudo, porque o jogo não merecia tamanha desfeita.

A equipa de Jurgen Klinsmann até entrou no jogo... 'à americana'. Clint Dempsey acordou para o Brasil 2014 com um golaço, o quinto mais rápido da História dos Mundiais, e deixou o Gana vagamente dormente pelos 20 minutos seguintes. Foi nessa fase que o jogo nos mentiu. Os Estados Unidos, a espaços no losango instituído pelo alemão, pareciam prometer alguma coisa, nomeadamente naquilo que parecia ser um desdobramento competente para o ataque, essencialmente via ala direita. Modestos mas frescos e equilibrados, os Estados Unidos tiveram a infelicidade de perder dois lesionados na primeira-parte (Altidore com impacto evidente no jogo da equipa) e, até ao intervalo, prolongariam essa ilusão de mérito. Depois, foi impossível, quer prolongar a miragem, quer sair do próprio meio-campo.

O Gana, em boa verdade, já antes disso estava a fazer pela vida. Com Atsu em destaque, Gyan demorou um pouco a entrar no jogo, até lembrar-nos que continua a ser um dos melhores pontas-de-lança africanos. Quando começou a crescer, o onze ganês não mais parou e, por meados da segunda-parte, o desfilar de ases e de oportunidades era pouco menos do que impressionante. Os irmãos Ayew, Muntari, Kwadwo e uma enorme entrada de Prince Boateng imprimiram ao jogo um sentido único, que só persistiu vazio com ares de tragédia. Quando André Ayew finalmente empata, numa grande jogada, honestamente só aparentava haver um fim possível para os últimos dez minutos. O espirro americano que havia de surgir não foi um balde de água fria, foi um contentor. O futebol foi demasiado ingrato para o Gana.

GANA - Nunca vou perceber como é que, depois do excepcional Mundial da África do Sul, e ao 25 anos, Asamoah Gyan decidiu abandonar a Europa e emigrar para os Emirados Árabes Unidos. Três anos depois do desterro, o que continuamos a ver é um dos melhores pontas-de-lança do continente africano. Ágil, intenso, instintivo, falhou ingratamente o golo, mas deu outro de calcanhar. Sempre um craque. Com Essien no banco, coube a Sulley Muntari liderar o miolo e o experimentado médio do Milan está óptimo, à beira dos 30 anos. Foi subindo no campo com o decorrer do jogo e ainda se lembra como é descer pela interior-esquerda, como nos tempos do Inter. Grande pé esquerdo, grande atleta. Atsu impressionou ao sentar Boateng no banco, e, em posições muito mais interiores do que no Porto, ganhou pontos. Prince Boateng entraria de qualquer maneira para provar o essencial: tem de jogar.

ESTADOS UNIDOS - O golo de Dempsey é de uma liga à parte. No resto, quem mais impressionou foi Kyle Beckerman. Exuberante no penteado, o trinco das rastas também não deixa por mãos alheias os créditos na relva. Esteve rigorosamente em todo o lado e a equipa bem lhe pode agradecer o milagre. Na direita, Alejandro Bedoya deixou boas sensações. É um ala elegante com bola. O grande Tim Howard também disse presente.

Os campeões que podemos ser


Perder foi a coisa mais importante que aprendi a viver futebol. Perder por pouco, perder sem merecer, pedir para perder ou perder espectacularmente. Não há nada que nos ensine mais do que uma derrota. Porque é exactamente nesse momento, quando nos põem tudo em causa e nos viram as costas, quando começam a alimentar a fogueira e temos de escolher entre ir ou ficar, que sabemos realmente o que somos. Acreditem que poucas coisas são mais puras do que ficar num estádio até ao fim só para bater palmas a quem acabou goleado. Porque isso é o derradeiro teste de fé. O que nem sempre nos dizem é que a próxima vitória começa no fim de cada um desses dias, assim a saibamos merecer. Nenhuma vitória tem a grandeza e a dignidade que se pode encontrar nas maiores derrotas. Porque ganhar é necessariamente eufórico. Só nas derrotas é que podemos provar que acreditamos nalguma coisa. Se queremos conhecer um homem, se queremos saber com quem contamos, é essa a hora de olhar para ele. A diferença entre ganhar e perder é que nas vitórias estão todos. Nas derrotas só estão os que interessam.

Ontem descobrimos que não vamos ser campeões do mundo. O Pai Natal, a Cegonha e o Batman devem estar iminentes. Não vamos ser campeões do mundo porque temos o pior treinador do mundo. O guarda-redes mais odiável, os defesas mais anormais, os médios mais acabados e os avançados mais inúteis. Até o nosso Bola de Ouro é o pior melhor jogador do mundo. Em boa verdade, descobrimos ontem só ter realmente três grandes jogadores: o Antunes, o Adrien e o Quaresma. Eles que teriam ganho o Mundial sozinhos, mas ficaram em casa. Ontem descobrimos que não vamos ser campeões do mundo. Até aí, para a doce pátria, era como se tivéssemos nascido no Penta; afinal somos o Madagáscar. Somos imprestáveis, estamos acabados e se calhar nem nunca fomos futebolistas. Ontem descobrimos que não vamos ser campeões do mundo. Ninguém nos preparou para isto.

As críticas tornam-nos melhores e a vida não espera por quem não sabe lidar com elas, é a verdade. A Selecção não é a Santa Sé e não só tem ser criticada, como é bom que o seja. O problema das críticas, como do mundo, é o quociente de idiotas. Os episódios de esquizofrenia colectiva, pela goleada de uma das duas únicas equipas que pode realmente ganhar isto, não são normais. São portugueses. Se eu sou epicurista nas derrotas? Não sou, morro por dentro. Se é admissível acatar a exibição nacional mais degradante de que nos podemos lembrar? O que é inadmissível é o frenesim febril que se alimentou a si próprio, o bota abaixo prosaicamente lusitano, o nosso fatalismo estúpido e tragicamente insuportável. É termos memória curta e tanto despeito para destilar, é sermos tão pequenos de espírito e toxicodependentes da culpa, é chocarmo-nos com pouco e desistirmos por menos do que isso. Se me perguntarem, as piores pessoas são sempre as que põem tudo em causa. Porque o fazem num ápice e porque nunca nos ajudarão a sair do buraco. Estão demasiado ocupadas a ter razão.

Ontem a Alemanha foi melhor e ganhou. Porque é muito melhor e porque ganharia quase sempre. Mas nem isso, nem o facto do árbitro ter sido um rato, pode mascarar, de facto, a desgraça que fomos. Sobre isso também teria muitas coisas a dizer. O funeral, todavia, outros já fizeram. Infelizmente, depois do jogo, só não ouvimos o que era preciso. Só não soubemos dizer que se perdemos, perdemos todos, mas que estaremos sempre, sempre lá. Hoje, o que me apetece dizer é que esta equipa é o 6-2 à Bósnia, depois deles prometerem que nos esfolavam vivos. Que é o golo do Varela à Dinamarca, quando já estávamos eliminados, e que é vulgarizarmos um vice-campeão do Mundo, depois de sermos decadentes. Que é prendermos a melhor selecção da História pelos penalties e é irmos ao primeiro mundo nórdico fazer o jogo internacional do ano e ganhar uma Bola de Ouro. Hoje, o que me apetece dizer é que esta é a equipa que nunca deixou de ser pior do que os outros e de fazer melhor do que eles, e que por isso, e só por isso, somos burgueses alucinados e mal habituados. O que me apetece dizer é que a Selecção de todos nós é uma falácia, porque o próximo mês não é de todos os portugueses. É dos que sabem que não pode haver orgulho sem sacrifício e dos que têm mais brio no escudo do que em qualquer resultado. Daqueles para quem sofrer não é um insulto, mas uma honra. Dos que, até ao último suspiro, com um aperto no coração e um brilho nos olhos, vão acreditar estupidamente que podemos, porque essa é a única maneira de o merecer. Os outros nem contam, nem nunca serviram para nada.

A vida não é futebol, mas o futebol é pessoal, tem de ser. Em ambos, ninguém precisa dos profetas da desgraça, dos fáceis, dos que não se comprometem. No futebol, como na vida, só os apaixonados é que valem, os inteiros, os incondicionais. O caminho foi sempre a recompensa e, para agonia do Velho do Restelo, o nosso não acaba aqui. No fim do dia, não é àquelas 23 almas que devemos alguma coisa. É a nós próprios. Talvez não possamos ser campeões, mas podemos viver e perder como uns.