segunda-feira, 23 de junho de 2014

Copa, dia 10: cortinas de fumo


Argentina 1-0 Irão

Não pensei viver para ver Queiroz ser o líder de uma 'equipa do povo'. Que o Irão tivesse segurado o nulo a ferro e fogo já seria verdadeiramente notável; que ainda tenha roçado a vitória em 2 ou 3 momentos deixa-me sinceramente boquiaberto. Não sou fã de Queiroz, não lhe reconheço competências humanas, nem acho que seja o treinador de nível mundial que tanto se intitula mas, ao longo da carreira, o português adquiriu realmente competências tácticas e um calejamento de alta competição que, a juntar à sua ambição, sobretudo neste tipo de selecções, pode criar um cocktail acima da média. Nos últimos 6 jogos em campeonatos do Mundo, as suas equipas sofreram... 2 golos: um da Espanha campeã, outro dum extraterrestre. Vénia quando ele a merece. No cume, o episódio incontornável: que o penalty sobre Dejagah não tenha sido marcado é uma vergonha incompreensível. O Mundial parecia ter entrado nos eixos, mas que isto continue a acontecer sempre aos mesmos, num contexto tão limítrofe quanto titânico, é absolutamente devastador.

A Argentina há de estar a suar frio. A estreia com a Bósnia foi miserável, o jogo de Sábado também fala por si. Em ambos, 'o favorito com o melhor ataque' foi uma equipa atrofiada, com o nível estratégico de uma parede. A táctica argentina, por um dia mais, resumiu-se a duas palavras: Lionel Messi. Deu para ontem, deu para hoje, talvez dê para amanhã, mas é certo que chegará o dia em que os relâmpagos de génio do predestinado não poderão maquilhar um tamanho vazio técnico.


Alemanha 2-2 Gana

Há duas ideias centrais que me importam defender: a primeira é que o tropeção da Alemanha foi efectivamente uma grande surpresa. O empate, porém, não torna os homens de Low remotamente menos favoritos, nem lhes pode pôr em causa o que quer que seja. A Alemanha deu, até ver, a maior mostra de superioridade colectiva do Mundial, por piores que tenhamos sido; achar agora que a Mannschaft afinal não é assim tão boa é uma barbaridade. Tal como aconteceu à Holanda frente à Austrália, os níveis de competitividade ressentem-se sempre depois de tamanhas vitórias, sobretudo frente aos que estão identificados como maiores rivais do grupo.

Depois, é evidente o mérito do Gana, o que vai de encontro ao segundo tópico que queria defender. Ao contrário do que muita gente parece achar, por desconhecimento, calhou-nos um grupo tão duro como os da morte. O Gana que, no último Mundial, ficou a centímetros de ser a primeira selecção africana a jogar umas meias-finais, continua a ser, indiscutivelmente, a melhor esquadra do continente. É uma equipa bem orientada, com uma qualidade individual altíssima, agressiva e eminentemente atlética. A chocante derrota inaugural foi só, como tive oportunidade de então constatar, uma partida do destino. A exibição de Sábado, por seu turno, não sendo adquirida, dificilmente pode surpreender quem andasse de olhos abertos. O contexto era desfavorável mas, em vez de pesar, exponenciou-lhes a personalidade. O talento e a espantosa capacidade física fizeram o resto, frente a um adversário que, na minha opinião, também os subestimou. Neste momento, o Gana é claramente mais forte do que Portugal ainda que, em virtude do desastre de ontem, os tenhamos eliminado tanto como a nós próprios.


Nigéria 1-0 Bósnia

A eliminação da Bósnia, à segunda jornada, equivale-me a todos os maiores choques a que o Brasil já deu palco até agora. Teria apostado dinheiro em como os bósnios não só se qualificariam sem problemas, como iam impressionar e, quiçá, dar até uma dor de cabeça à Argentina. A crueza do desfecho, num dos dois grupos mais acessíveis da prova, condenou de forma mais seca tanto a falta de experiência, como a falta de... ambição. A Bósnia ultra-ofensiva, que nos fez vida difícil duas vezes nos últimos quatro anos, teria encontrado o seu espaço neste Mundial. O que vimos, porém, foi uma equipa assoberbada pelo medo de falhar e que, ironicamente, deu o passo para o abismo justamente por causa disso. Por discutível que isto soe, acho que o jogo-chave foi a estreia. Não pelo resultado, que era sempre expectável, mas exactamente pela postura. A Bósnia foi uma sombra triste do que mostrara em tempos e, alegadamente mais madura e resultadista, contentou-se a especular com o empate. Devia ter sabido que, no Mundial, mais do que em qualquer outra paragem, a sorte protege os audazes.

Na negra, uma Nigéria que é evidentemente inferior, mas que não tinha nada a perder, escalou esse drama existencial. Claro que há um golo mal anulado a Dzeko e há, ainda mais, aquela desoladora bola ao poste no último segundo, mas o essencial estava contado. A Bósnia não foi ambiciosa quando devia, e já não teve tempo quando o quis. Uma pena.

Curtas de um soco no estômago

 

1 - Estamos fora, mas é futebol e é melhor precisar de um milagre do que chegar eliminado ao último jogo. Não, não 'era melhor não ter ido', não, não 'era melhor já ter perdido'. Que se foda, mas vou pensar assim até morrer.

2 - É fácil dizer que foi falta de atitude, mas a boa vontade não ganha jogos. Caso contrário, as Honduras eram campeãs do mundo. A culpa é 200% nossa, mas não vi ali as 'vedetas do gel' a passear. Os problemas foram outros e bem mais complexos.

3 - A raiz foi a má preparação: não podíamos ter chegado ao Brasil de véspera, o que é uma irresponsabilidade da Federação, que preferiu ir fazer uns trocos a Boston; não podemos ter cinco lesionados em dois jogos, a menos que tenhamos pedreiros no lugar dos preparadores e dos fisioterapeutas; não podíamos ter achado que a forma física dos jogadores era um mal menor, o que é culpa integral de quem os avaliou e convocou aos 23. O resultado é ninguém ali ter pernas, tão pouco conseguir lidar com o clima e, portanto, 'controlarmos' os jogos como se estivéssemos nos distritais. Eles não se estão a cagar, só não têm um pulmão a mais. 

4 - O cheque-mate foi a total incompetência estratégica. Fosse qual fosse o estado dos jogadores, a Selecção #4 do ranking da FIFA tem de ter outra fiabilidade táctica. No desenho colectivo, e no que é estritamente da sua responsabilidade, Paulo Bento não usou a táctica nem para alavancar o talento, nem para esconder as fragilidades. Portugal tem um modelo, mas, no Brasil, nem por um momento teve uma estratégia. No plano individual, trocar a razão pela lealdade, e ter insistido ir a jogo com aquele meio-campo, foi grotesco. Que William Carvalho ainda só tenha jogado meia-parte, à força, e sido o melhor português, é uma tragédia.

5 - Confio na seriedade da equipa no último jogo, porque sempre respeitei a seriedade do seleccionador. É com a mesma honestidade de quem lhe reconheceu todo o mérito nas vitórias que digo, sem dramas nem exaltações, que é ele o responsável evidente pelo que acontecer no Brasil. Se for isto, então é um ciclo que tem de se fechar.

sábado, 21 de junho de 2014

Copa, dia 9: viver e morrer no Pacífico


Honduras 1-2 Equador

Foi um dos jogos mais primários e, quiçá, mais puros do Campeonato do Mundo. Frente a frente duas das equipas mais duras das Américas, ambas tão honestas quanto os seus 4-4-2 clássicos, largos e directos como nos velhos tempos. No fim ganhou o mais forte, mas é justo que ninguém vá ainda eliminado no grupo E. Ao contrário do que seria de esperar, Equador e Honduras ofereceram um espectáculo sempre agradável e cativante, temperado pelo tropicalismo tão próprio que os une.

Antes de mais, é justo elogiar as Honduras. Depois do primeiro jogo, ficou a imagem de que os homens do colombiano Luis Suárez dificilmente podiam ou quereriam jogar futebol. Se, realmente, a respeito do talento e do potencial não fomos induzidos em erro - os catrachos são mesmo uma das duas ou três equipas a quem menos se pode pedir -, agora que o ónus duma estreia com a França já passou, é incontornável salientar a sua compostura competitiva. Com as armas que tinham (força, verticalidade, vontade), as Honduras apostaram tudo no sonho que era ganhar este jogo e fizeram-no com uma atitude sinceramente positiva quando ao futebol jogado. O golo de Carlo Costly, o terceiro da História do país em Mundiais e o primeiro desde 1982, acabou por ser um prémio curto para quem mereceu estar a ganhar ao intervalo e acabar com, pelo menos, um ponto.

O Equador cumpriu a sua obrigação com competência. Depois duma estreia de muito bom nível, este era o jogo em que a tricolor sabia ter tudo a perder e, desde o início, as Honduras explicaram que iam vender cara a derrota. Talvez por esse ascendente adversário, talvez por não saberem mesmo controlar um jogo, os equatorianos foram ainda menos regrados do que no primeiro dia e deram-se a uma partida comprida de para e resposta, assente na velocidade das alas e num futebol quase sempre directo, confiando que bateriam o adversário na sua própria estratégia. Até podia ter corrido mal, mas a verdade é que estavam certos. No fim, o talento individual foi como o azeite e veio ao de cima. O Equador precisará de um pequeno milagre no último dia, mas só depende de si e a imagem que patenteou até agora no Brasil não poderá envergonhar ninguém.

EQUADOR - Aconteça o que acontecer, este já terá sido o Mundial de Enner Valencia. O avançado do Pachuca, do México, é a antítese da equipa e, por isso, o seu trunfo: ágil, hábil e invisível, num equipa de altos, duros e velozes. Estar a assinar 100% dos golos tricolores ajuda a perceber. Dominguez, nas redes, foi a cavilha que garantiu que aquela granada em forma de plano não lhes rebentava nas mãos: irredutível e decisivo. Num jogo menos rentável dos extremos, Paredes deu nas vistas. Muita vida na lateral-direita.

HONDURAS - Uma dupla de avançados à antiga, cujo estilo se tornou propício pelo curso do jogo. Costly mais raçudo e batalhador, na génese dos 9 americanos, e a marcar um golaço simbólico; Bengtson mais simples e vertical, a acertar no poste, fora o resto. Num onze que não é propriamente técnico ou metódico, Espinoza é instrumental no meio, a agarrar a equipa. Boniek Garcia, na ala direita, mesmo sem brilhar, pareceu o jogador de maiores recursos.

Copa, dia 9: napoleonicamente candidatos


Suíça 2-5 França

No dia em que a Itália perdeu, e em que a Inglaterra foi ajudar a Espanha a fazer as malas, pelo menos uma casa nobre do velho Continente resolveu deixar claras algumas coisas. A França de Deschamps saíra discreta do Polónia/Ucrânia. No grupo de qualificação para o Brasil, perdeu para a Espanha e só num autêntico milagre da Senhora de Lourdes sobreviveu ao play-off com a Ucrânia. Na 25ª hora, a equipa ainda viu partir o seu melhor jogador e isto já depois de ter ostracizado o seu segundo mais mediático. A França que chegou ao Mundial era, se tanto, um ponto de interrogação. A estreia foi doce mas, claro, não se tiram ilações das Honduras. Hoje era, porventura, o dia mais importante do reinado do capitão de 98, perante um dos mais cotados outsiders da prova, uma equipa talentosa e competente. Hoje, dificilmente a demonstração de força francesa poderia ter sido mais brutal.

Em relação ao primeiro jogo, caíram Pogba e Griezmann, com a França a surgir, no papel, num 4-3-3 onde cabiam dois pontas-de-lança. Na prática, foi mais do que isso. A equipa viria a apresentar-se espantosamente metamórfica, com Benzema e Giroud a alterarem a ala-esquerda, em transição, e Valbuena a derivar para as costas de ambos, em construção. Já não me lembro se houve um aviso; só sei que, quando começou, foi como se o Inferno se tivesse aberto sob os Alpes. O volume de futebol ofensivo da França foi surreal, a elegância, a rapidez e o critério do seu jogo absolutamente deslumbrantes. A Suíça, tão geneticamente equilibrada, foi destroçada em jogadas de compulsiva e quase incompreensível inferioridade numérica atrás, como se a França soubesse todos os seus segredos, vagas atrás de vagas que ameaçaram que o placard se tornasse grotesco (16 remates à baliza, um penalty falhado, uma bola na trave, um golo mal anulado...). Benzema fez um dos melhores jogos da carreira em todo o último terço do campo, Valbuena foi desconcertante entre linhas e, se puxava ao físico, estavam Giroud, Matuidi ou Sissoko. Os franceses são uma máquina de contra-golpe impressionante, uma víbora azul que se desdobra em dois toques, que te serpenteia num golpe de rins e que atira sempre, sempre para matar. Se haviam dúvidas, pois elas já não existem: a França é, com todos os galões e com toda a autoridade, uma autêntica candidata ao título.

Os gauleses bateram uma equipa muito boa, que leram bem e desmontaram melhor, mas a Suíça fez uma figura muito pobre. Era um conjunto em que eu apostava muito, especialmente depois do nível com que se estreou e, apesar deste ser sempre um caso de mérito do vencedor, a verdade é que os homens de Hitzfeld não estiveram à altura. O jogo é marcado pelo duplo golo assassino, que o implode completamente, mas parece-me que os próprios suíços terão subestimado o adversário, acreditando que tinham tudo para causar-lhe impacto e condicioná-lo. Faltou, todavia, nervo, concentração, agressividade e intensidade. O 1-0 é uma bola parada, o 2-0 uma perda infantil. O melhor período helvético viria depois, mas a exposição que escancarou o terceiro da França (e já antes o penalty) tornou tudo uma questão de tempo. O mais provável é que baste à Suíça um empate para qualificar-se, mas o mais importante é que os suíços entendam que o sucesso só pode chegar no fim da inocência.

FRANÇA - Benzema. Foi um manual em directo, de cada vez que entrava desde a esquerda, de cada vez que baixava para receber e enquadrar, um vórtice de todo o génio francês no meio-campo adversário. Fez duas assistências dignas de um trequartista e, até ver, marcou moralmente cinco golos no torneio. Está a ser um prodígio na relva canarinha. Valbuena é o herói improvável. Fossem as coisas lineares e o pequenino marselhês seria suplente. Deschamps, porém, confiou-lhe a batuta da equipa e hoje não poderia estar mais realizado. Da ala para o meio, com uma bola curta irresistível, Valbuena parece duma dimensão à parte, viajando entre linhas para perverter tudo o que o adversário acha que sabe. Um joker. Matuidi é, definitivamente, o médio-chave da equipa. À disponibilidade bestial alia uma óptima chegada, num expresso que deve com certeza deixar os carris marcados em toda a meia-esquerda. Giroud foi igualmente instrumental e deve ter ganho a titularidade para parear Benzema no seu jogo de sombras.

SUÍÇA - Não necessariamente pelos golos, mas foram eles os melhores: Granit Xhaka, hoje um #10 a viver na ala, foi o único a encarar o jogo desde que tudo ia mal; Dzemaili entrou a ferver para o miolo e demonstrou a raça de que a equipa tanto precisava. Foi dele o primeiro livre directo do Mundial.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Copa, dia 8: 'de qué planeta viniste...'


'...para dejar en el camino a tanto inglés?'
 
Uruguai 2-1 Inglaterra

Espero que já toda a gente tenha ouvido esta frase pelo menos uma vez na vida. Foi dita há 28 anos por um senhor chamado Victor Hugo Morales. O calendário marcava 22 de Junho de 1986 e a maioria saberá que ela emoldura a ouro o golo do Século, ainda que os mais religiosos tenham de explicar que se trata de algo mais: o que ela descreve é a descida de Deus à Terra. Hoje, em São Paulo, o que aconteceu não é evidentemente comparável a essa tarde mística na relva do Azteca, como não é nenhuma obra humana que tenha acontecido antes ou depois. Mas que melhor sítio para lembrá-la se não um Campeonato do Mundo, no dia em que um sul-americano louco e genial voltou a arrancar o coração inglês com as próprias mãos?

O Mundial tem sido verdadeiramente espantoso. Não há um único dia que não tenha oferecido um jogo bestial, seja qual for o domínio em que o jogo é bestial: talento, estratégia, carácter, sorte, emoção. Pela mera amostra desta primeira semana, o Brasil 2014 deixará uma conta de jogos memoráveis que não sei se tão cedo se poderá pagar. No entanto, ao 8º dia, digo, com a formalidade necessária, que nenhum bateu o Uruguai-Inglaterra. Que não foi o mais chocante, nem o mais exuberante, mas cujo alcance mental não tem simplesmente comparação. A atmosfera do jogo foi tão grandiosa como uma batalha. Dois campeões do mundo frente a frente, ambos acossados, ambos forçados ao limite para salvarem a própria vida. O medo respirava-se no ar, a tensão sentia-se na cara e a electricidade insuportável tornava todos os lances decisivos em algo muito mais dramático do que isso. Um jogo, por ironia, menos imprevisível do que parece. É que, no íntimo, sabemos sempre se estamos ou não à altura. Com idiossincrasias tão díspares como as de um Uruguai-Inglaterra, porém, também podíamos desconfiar.

Conta a lenda que, antes da final de '50, que o Uruguai jogaria no Brasil, frente à equipa da casa e a 200 mil canarinhos, o capitão charrúa, Obdulio Varela, dirigiu-se aos companheiros e, numa frase, sintetizou o ADN de um país: 'só há uma forma de ganhar, é termos os colhões na ponta das botas'. O Uruguai é isto. A Inglaterra, sabemos bem, é outra coisa. É a derrota com menos de romântico e mais de perdedor. É a equipa que, em trezentos desempates por penalidades, perdeu todos, a equipa dos Três Leões, se eles forem o abismo, o azar e as vitórias morais. Ainda assim, chegavam ambos a este jogo com estados de espírito diferentes, apesar das derrotas iguais: o Uruguai estreara-se humilhado, a Inglaterra, claro, caíra de pé. Honra lhes seja feita, começou como sempre, com os ingleses a liderarem a carga, numa projecção heróica muito própria. E lideraram-na sempre, na ilusão da madrugada do jogo, depois do primeiro golpe e quando o tempo já fugia por entre os dedos. Rooney já falhara golos de todas as maneiras, quando, para extâse geral, marcou finalmente o primeiro da carreira em Mundiais. A Inglaterra voltava ao jogo, a Inglaterra ia virar a sorte. Seria possível? Não, era só um prenúncio de morte. A tragédia seria, afinal, ainda mais cruel.

Qualquer vitória uruguaia é uma vitória do carácter. Daquele que os faz ganhar o último metro, roubar o último segundo, transcender as suas circunstâncias e fazer o próprio destino. Poucos terão acreditado que a redenção ainda fosse possível, depois da hecatombe inicial, com a estrela amarrada ao banco e a uma lesão, e perante um adversário vaidoso, jovem, sofisticado. A verdade é que não podia haver melhor cenário. O caos é o prato celeste favorito e o limbo o seu melhor restaurante. Qualquer vitória uruguaia é uma vitória do carácter. Quando o seu depositário é um predestinado, então mais vale pagar bilhete e deslumbrar-se com o espectáculo. Luís Suárez teve um pé fora do Campeonato do Mundo, depois de uma época que o podia levar a disputar a Bola de Ouro. Era impossível ter a certeza em que condição surgiria hoje, logo com a equipa num estado cumular de desespero. A sua exibição, bigger than life, será lembrada para sempre. Ali, semi-lesionado e sem segundas chances, no contexto e no palco mais radicais de todos, Suárez foi o melhor ponta-de-lança do universo que conhecemos. Inspirou os companheiros, liderou-os, tornou-os a todos melhores e fez o que mais nenhum podia fazer, numa demonstração inacreditável de génio, coragem e carácter. Poucos se podem alguma vez dar ao luxo de escrever tamanho capítulo sobre o que é estar à altura das expectativas.

Ao Uruguai ainda falta o pior adversário, à Inglaterra ainda sobra um milagre, mas acho que todos sabemos como é que isto vai acabar. Querem apostar?

URUGUAI - Cavani foi instrumental em ambos os golos. Saiu da orfandade e está reeditada uma das duplas idílicas da Copa. Arévalo foi determinante a ancorar o meio-campo e Lodeiro, a atacar por dentro, aproxima a equipa da sua matriz.

INGLATERRA - O milagre ainda é matemático e mais vale não subestimar o futebol, mas o Mundial foi demasiado ingrato, como sempre. A Inglaterra é das selecções com maior margem de progressão nos próximos anos, resta saber se também descobrirá um exorcista, até porque o talento nunca foi o problema. Rooney está condenado a ser o bode expiatório, mas ninguém tentou mais do que ele, ainda que as três perdidas sejam demasiado amargas. Johnson e Baines, nas laterais, foram os extremos que a equipa não teve. Sturridge, por fim, já é certamente um dos melhores #9 europeus.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Copa, dia 8: só faltas tu, Radamel


Colômbia 2-1 Costa do Marfim

Ainda não tinha visto nenhuma das equipas em jogo e começou por parecer um dia mau para o fazer. Colômbia e Costa do Marfim cumpriram na estreia o estatuto de mais fortes do grupo D e, durante uma primeira-parte abrasiva à uma da tarde, pareceram ambas atadas a um armistício qualquer, num respeito mútuo que sugeria mais valer adiar tudo para as presas da última jornada. Isso só viria a mudar nos meados da hora de jogo, quando os colombianos esbarraram no óbvio: eram eles, indiscutivelmente, a melhor equipa em campo.

A Colômbia é qualidade por toda a parte. Dedicara-se a insinuar isso praticamente desde o início, mas nunca forçara; quando finalmente se deu ao jogo, patrocinou uma autêntica inundação de talento. Com a dramática ausência de Falcão, a equipa abdicou da dupla de avançados da qualificação e apresenta-se hoje num sustentado e, porventura, mais adequado 4-2-3-1. Os cafeteros têm soluções para todos os momentos do jogo. Em construção, podem contar com o génio de James e Quintero para inventarem espaço dentro de cabines telefónicas. Em transição, conseguem ser ainda mais assustadores, mercê de um porte explosivo excepcional, cujo maior de todos os intérpretes é o apaixonante e imparável Juan Cuadrado. Tanto numa como noutra estratégia contam com laterais motorizados, omnipresentes na possibilidade de rasgarem o jogo. Sendo muito intensa, a Colômbia é, contudo, uma equipa que não se desequilibra com facilidade. No zénite, é dos onzes mais impressionantes do Mundial até agora e, no meio-campo adversário, só tem par com Alemanha e Holanda. Assim que abriu a sua caixa de Pandora, o jogo acabou e, apesar do adversário capaz, a proximidade do resultado final é enganosa. O único vazio... é mesmo um ponta-de-lança. Que Falcão não possa ser a jóia desta coroa é uma tragédia por todos os tempos.

A Costa do Marfim continua a ser favorita à passagem. Esta é a última oportunidade da geração de ouro dos Elefantes qualificar-se para uma segunda fase e acredito que será desta, mesmo que o fulgor já não seja o de outros tempos. Ainda assim, há recursos suficientes, tanto mais em relação ao adversário final, e a equipa parece-me bastante lúcida. As justificadas ausências de Drogba e Kalou demonstram, desde logo, rectidão e bom julgamento, e isso é um bom começo. Claro que, tantas vezes, a Grécia é como a morte que nos vem buscar, mas os marfinenses podiam estar pior preparados para essa esfíngica tarefa. Consciente dos préstimos sul-americanos, a equipa especulou com o jogo enquanto pôde. O pacto de não-agressão, a ter vingado, seria a estratégia perfeita. O jogo, porém, foi mais cru do que isso. Lamouchi tinha acabado de substituir Bony quando James fez o 1-0 e essa foi uma condicionante demasiado infeliz para quem é forçado a ter, então, de ir discutir o jogo. Gervinho, sempre o melhor, ainda reduziu num lance brilhante, mas o desfecho foi o único que fazia sentido. Esperemos que, no fim das contas, os apurados também façam.

COLÔMBIA - Por onde começar? O mais impressionante foi Juan Cuadrado. O extremo da Fiorentina teve uma época gorda na Serie A e não é à toa que tem sido tão associado ao Barcelona. É um desequilibrador bestial e é impossível roubar-lhe a bola, seja em toque, seja em explosão. É ficar a vê-lo ir. Pelo critério falam as 3 assistências em 2 jogos. Um abuso e talvez a grande revelação da prova até agora. James não fica atrás. Convertido a estrela da equipa, não é tão exuberante, mas é tanto mais sábio. As suas botas continuam a derramar diamantes e a dar novos mundos ao mundo da equipa, e ainda por cima tem somado golos. À entrada do pequenino Quintero ficou associada a pujança da equipa. O Porto deu um ano duro a todos os reforços, mas o criativo azul não engana. Assombroso com a bola colada ao chão, podia até ter bisado com um golo olímpico. Talvez chegue o dia em que Zuniga e Armero sejam a traição da equipa, mas a febre ofensiva dos laterais colombianos é um regalo e, não raras vezes, um transbordo que engole os adversários. Finalmente, Mario Yepes. Aos 38 anos, o capitão pôde jogar o seu primeiro Mundial e continua a ter classe para dar e vender. Com o seu ar de pirata, não só lidera a linha como se dedica a meter técnica em cada corte. Uma referência. Nota negativa para Téo Gutiérrez: com Jackson e Bacca no banco é impensável que seja ele o ponta-de-lança duma armada deste tamanho.

COSTA DO MARFIM - Acho que está para chegar uma grande competição internacional em que Gervinho não seja o mais determinante jogador da equipa. O extremo da Roma é muitas vezes um alvo fácil, e muitas vezes é hábil e trapalhão na mesma medida, mas a sua rentabilidade é inquestionável. Rápido, fantasista e finalizador está sempre ligado ao jogo. Que golão o de hoje. Serge Aurier foi a outra referência. O lateral-direito do Toulouse, de apenas 21 anos, já tinha dado que falar na estreia e continua a justificar créditos como os que o associam ao Arsenal. Força, técnica e um bem em extinção: cruzamentos com açúcar. Na mó de baixo, note-se o pouco impacto dos pontas-de-lança e, acima de tudo, a diminuta influência de Yaya Touré no futebol da equipa. O melhor médio centro do mundo não esteve sequer nos arredores de Brasília.

Copa, dia 7: eram imortais, só não podiam viver para sempre


Espanha 0-2 Chile

Lembro-me que, na final do último Europeu, fechei o meu texto com a única epígrafe que me pareceu suficiente. Essa crónica chamou-se 'A equipa que vimos jogar'. Hoje, dia em que esse livro se fechou, é o melhor para afirmar que não sei se algum dia voltaremos a presenciar um fenómeno como a era Espanhola. Como em tudo o que é suficientemente marcante, não está em causa só o que se ganhou, e este é um dos casos em que as evidências a esse nível falariam estritamente por si; o cerne, porém, é verdadeiramente a forma como se fez. A Espanha foi a equipa que nunca tínhamos visto. Uma conspiração alienígena qualquer que reinventou o jogo às suas regras próprias e que, durante anos a fio, nunca teve realmente um adversário. Isto é uma hipérbole por definição, mas a Espanha era a hipérbole por definição. A equipa que não perdia nada, nem sequer a bola. Às vezes tinha um dia mau, às vezes tinha azar mas, em circunstâncias normais, e na maior parte das outras, acabava tudo da mesma maneira. 1 Mundial, 2 Europeus, dezenas de vitórias, centenas de posses de bolas, a experiência competitivo-estilística mais desafiante da História, e isso estão condenados a reconhecer tanto os aprendizes da filosofia como os mais entusiastas dissonantes. A Espanha foi fascinante para quem gostou de ver, para quem não a suportou e para quem nunca a pôde parar. Fascinante naquela vertigem impossível da inevitabilidade da vitória que a tornou no mais único de todos os rivais. Estou à vontade para falar, porque não houve um jogo em que eu tivesse querido pela Roja. Não houve um dia em que aquele bailado me tivesse seduzido, nem um torneio onde eu não tivesse torcido por melhores futebóis. É, por isso, com todo o desprendimento que hoje digo que nunca existiu e nunca existirá maior adversário.

Daqui em diante vão-se duplicar argumentos, triplicar razões e ver revelados todos os dogmas do mundo sobre a diferença entre o sucesso e o fracasso espanhol. Que nos últimos dois anos era evidente o atrofio do Barça, a Meca onde tudo isto começou. Que Del Bosque resistiu à renovação geracional e levou todos os velhos que pôde. Que quem já ganhou tudo acomodou-se, perdeu a fome. Que não havia plano B, que lhes faltou seriedade ou que os adversários descobriram a poção mágica. Talvez tenha sido um pouco de tudo, talvez os prognósticos estejam sempre certos no fim do jogo. Da minha parte, digo em consciência que não há nada técnico nem nada táctico que pudesse realmente antecipar um fim deste tamanho e que, portanto, é desonesto crucificar seja o que for. De facto, algo falhou. De facto, já todos haviam ganho tudo, mas alguém pode jogar um Mundial e não querer saber? Mais, se não confiar em quem já ganhou tudo, já lhes ganhou tudo, então em quem? Cabeças rolarão, é certo, porque é disso que a vida se faz. Rolarão por linhas tortas, mas rolarão bem, ceifadas nesse inelutável teste que é o tempo. Por mim, apenas lembrarei o que aconteceu no Brasil como um fim muito grande, para quem foi muito maior do que isso. Um fim orgânico, natural, um ciclo de vida quando a vida achou que era a hora, porque nada pode viver para sempre. Nem um Império. Duvido que os próprios espanhóis lho dêem, mas esta equipa merecia o respeito dum luto desses. Limpo.

Sobre o jogo, resta pouco a dizer, tão maiores foram as suas consequências e tão distantes estiveram ambas as equipas. Só havia duas opções no Espanha-Chile: ou a Campeã se impunha, e sobrevivia à força, ou seria perfeitamente obliterada. Acreditei honestamente que não era desta, que a sorte podia estar traçada mas que ainda teriam de ser os maiores a vir provar se eram bons o suficiente. O Chile, no entanto, encarregou-se de demonstrar que era grande que chegue. Os homens de Sampaoli, a quem se antecipavam tantas coisas mas que haviam sido modestos na estreia, não tremeram nem por um segundo. Subiram ao Maracanã como predadores inebriados com o cheiro a sangue e, hoje sim, na consumação inteira do que vale o ADN da equipa, deixaram a Espanha em pedaços. A sua agressividade sobre a bola, a ultra-velocidade das suas transições e a filosofia suicida com que praticamente todos atacam ao mesmo tempo foi um furacão perante o qual, percebemos cedo, a Roja não detinha qualquer chance. O 1-0 é uma mistura cósmica de fôlego, técnica e velocidade da luz, perante algo comparável a uma Internet Explorer das defesas. Hoje, nenhum teria sido pior adversário do que o Chile.

Na segunda-parte, quando o jogo já tinha positivamente acabado, ainda pareceu tudo mais agreste. A Espanha foi desoladora. Um gigante derrubado sem poder contar com a misericórdia do cronómetro, de joelhos sem poder sequer arranhar o adversário, no meio do seu castelo a arder, do seu próprio Maracanazo. Uma das imagens do Brasil será Iniesta sozinho entre três e quatro chilenos durante aquela segunda-parte inacabável, the last man standing, como nos filmes, queimado e ferido, com mortos e desistentes à sua volta, por uma vez humano, por uma vez menor do que o seu destino. A Espanha acabou em grande, porque só podia ser assim, como o resto. Eu, como tantos outros, brindei à queda. No fundo, não conheço forma mais honesta de honrar um verdadeiro adversário.