segunda-feira, 23 de junho de 2014

Copa, dia 12: keep calm and trust Louis


Holanda 2-0 Chile

Jogo espectacular em potência, com duas das grandes equipas do Mundial até agora, sem a neura da qualificação e com o bónus que era, com toda a probabilidade, evitar o anfitrião nos oitavos-de-final. Infelizmente, foram promessas não cumpridas. O Chile quis mais, mas nunca foi capaz de emprestar ao jogo a sua fúria; a Holanda mandou um autêntico balde de gelo para a relva, sabendo que o empate lhe sobrava. À laia da velha raposa que tem no banco, e graças a um Robben que continua a escrever na relva canarinha uma história especial, a Laranja mataria o jogo no quarto-de-hora final, com o sangue frio dos melhores assassinos.

Foi uma exibição cínica de uma das selecções mais entusiasmantes do torneio. De facto, e quando o momento o pediu, Van Gaal nem hesitou em emprestar ao jogo cada gota do seu pragmatismo. Com Blind a central, Kuyt a lateral-esquerdo! e sem ponta-de-lança, a Holanda foi quase provocadora no seu experimentalismo e num certo alheamento ao jogo. Evidentemente conscientes de que o vento soprava a seu favor, os holandeses pareceram limitar-se a fazer descanso activo, oferecendo ao Chile toda e qualquer iniciativa de jogo. Com um posicionamento sólido, esse bluff serviria para intimidar o adversário que, apesar de muito mais dedicado, nunca se prestou às nuances kamikazes que tanto constituem a sua imagem de marca. Como perceberam depois, de pouco serve jogar xadrez com Van Gaal. O empate chegava, mas a Holanda também previra o exacto momento para fazer o cheque-mate, assim que, por cozê-lo em lume brando, tivesse roubado ao adversário toda a alegria de jogar. Entrados no último quarto-de-hora, 90 segundos em campo foram suficientes para que Leroy Fer concretizasse o plano, através das bolas paradas onde é tão forte. O KO seria um mero fim simbólico assinado por um futebolista excepcional, o único que, no fundo, teve liberdade para jogar sempre no seu próprio mundo. Que Mundial está a fazer Arjen Robben.

Ainda que longe da exuberância do jogo anterior, o Chile merecia melhor sorte. Impecável nos cinco detrás, e com Alexis num grande dia, a equipa acabou por sucumbir na medida em que o adversário lhe tornou o jogo tão desconfortável. Os chilenos são uma equipa de coração na boca que, pura e simplesmente, não sabe especular. Com a Holanda a baixar o ritmo e, maquiavelicamente, a 'recusar' jogar, os homens de Sampaoli perderam as referências e assemelharam-se a peixes fora de água, condenados a sufocar devagar até sucumbirem à armadilha. Daqui para a frente, o Chile nunca será favorito e são essas as circunstâncias que melhor capitalizam o seu jogo. O Brasil será, contudo, imprudente e pouco inteligente se não tiver estado hoje a tirar notas de mais uma perversa lição estratégica de Van Gaal.

HOLANDA - Robben. Que luxo. Até num jogo fechado e armado como este, sem sequer Van Persie a acompanhar, foi impossível negar-lhe o palco. Aos 30 anos, o homem de cristal está melhor do que nunca. É um dos futebolistas de elite que mais melhorou com a idade, logo ele, em tempos tão exposto a lesões e a sub-rendimentos. Hoje, mental e fisicamente assente, o seu futebol é uma imensa proposta irresistível. Ficará na História como um daqueles talentos excelsos que nunca pôde ganhar uma Bola de Ouro. Memphis Depay voltou a entrar muito forte e já é um dos suplentes de luxo da prova.

CHILE - É impressionante que, na Catalunha, o tenham em tão baixa estima. No dia em que se volta a dar como certa a sua partida, Alexis Sanchéz provou novamente que é um avançado de nível mundial. Passe o portento físico, tem tudo e faz tudo, destacando-se o papel na construção que desempenha, sem embaraços, na equipa nacional. Um craque. Mesmo em dia de derrota, é difícil deixar de admirar a postura dos lutadores: Medel lidera a defesa, mas sempre a cuidar da bola; Mena é um pilar na ala-esquerda; e no miolo, por seu turno, é Aranguiz quem acrescenta o toque quente à força legionária.

Copa, dia 11: só o talento pode perverter a lógica


Bélgica 1-0 Rússia

Ter pena de uma equipa de Capello, eis mais um conto para os anais deste Campeonato do Mundo. Num jogo terrivelmente tépido, a abordagem do italiano foi tão boa como seria possível. Consciente do que os diabos vermelhos podiam fazer em qualquer instante, a Rússia começou por ocupar-se muito bem atrás - sem autocarro, com redobrada competência - e soube sempre sair, acabando por controlar o jogo todo e ter as melhores oportunidades em 80 minutos. A Bélgica, por seu lado, limitou-se a ser estremunhada... mas sabemos que se pode dar a luxos reservados a muito poucos. Os flamengos acordaram expressamente para a recta final e, mais uma vez graças ao seu insultuoso talento, ganharam o jogo contra as cordas.

As estreias merecem ser relevadas, as confirmações não. A nível individual, é provável que a Bélgica mereça realmente o estatuto de 5º favorito das apostas; a nível colectivo, as limitações do onze de Wilmots já são hoje evidentes e denunciam que a esperança de vida não vá possivelmente tão longe assim. Dando sequência à boa reacção do primeiro jogo, o seleccionador belga promoveu três alterações aos titulares, com destaque para Fellaini e Mertens, ambos decisivos frente à Argélia. Pela frente estaria o adversário mais credenciado do grupo, mas a equipa já tinha o calo, agora só tinha de valer o bilhete. Uma vez mais, não valeu. Durante a eternidade do jogo, os diabos foram um conjunto errante, assente nos fogachos isolados dos seus fantasistas, um onze incapaz de mandar na partida, porque nem sabia ao certo o que queria dela. Fellaini entrou como duplo pivot, quando é muito mais efectivo junto do avançado; De Bruyne, que é tão vertical, mora a #10, quando parece muito mais um extremo; Lukaku ainda nem chegou ao Brasil. A Bélgica dispensa talento, mas é incontornável o tempo que passa à espera que as peças se limitem a cair magicamente nos sítios certos. Funcionou ontem, mais uma vez, mas a violência das eliminatórias é todo um outro campeonato. Um que dificilmente admite que se joguem aos dados.

Há equipas que fazem treinadores, há treinadores que fazem equipas. A segunda premissa é a Rússia. De facto, dificilmente se vislumbra talento aparente no onze da terra dos czares. O mérito russo é todo ele estratégico, na maneira como a equipa se coloca, lê e avalia o jogo, e tenta tirar partido dele. Depois do frango colossal que custou dois pontos na estreia, um golo em cima da hora foi de uma ingratidão inenarrável. Mesmo assim, ganhar à Argélia será suficiente. Ainda que os magrebinos estejam a dar boa conta de si, compadeço-me sempre da transcendência inerente ao trabalho de um grande treinador. Capello é bom que chegue para fazer acontecer até a estrelinha que ainda não teve.

BÉLGICA - Talento que nunca mais acaba. Impressionante. Mais uma vez, Hazzard no lance que tudo decidiu, ontem com uma jogada perfeitamente extraordinária, a fazer o que um plano inteiro não tinha conseguido. Na sombra de uma equipa que tem sido bem menos total do que se contava, o pequeno génio do Chelsea passa muitos minutos na solitária; ainda assim, podem crer que, se houver um lugar ao sol, ele guia-os até lá. Origi foi de provável não convocado, até à lesão de Benteke, a provável titular, dado o ocaso de Lukaku. O esguio avançado do Lille, 19 anos, foi uma pedrada no charco da equipa pela segunda vez e, desta, marcou mesmo o golo de ouro. Finalmente, porque é normal esquecermo-nos dele, Kompany. A Bélgica vai tendo muito que se lhe diga, mas se sofre de menos, deve-o necessariamente ao melhor central do mundo.

RÚSSIA - Destaques individuais são relativamente redundantes, numa equipa tão competente como a verdadeira acepção da palavra. Salientaria o bom meio-campo: Shatov, nas costas do avançado, tem escola, é objectivo e revela sempre discernimento; Fayzulin, o homem dos equilíbrios, tem pés agradáveis para a posição e muita compostura; Glushakov, a espécie de box-to-box, é efectivamente disponível e está confortável até nos flancos.

Copa, dia 10: cortinas de fumo


Argentina 1-0 Irão

Não pensei viver para ver Queiroz ser o líder de uma 'equipa do povo'. Que o Irão tivesse segurado o nulo a ferro e fogo já seria verdadeiramente notável; que ainda tenha roçado a vitória em 2 ou 3 momentos deixa-me sinceramente boquiaberto. Não sou fã de Queiroz, não lhe reconheço competências humanas, nem acho que seja o treinador de nível mundial que tanto se intitula mas, ao longo da carreira, o português adquiriu realmente competências tácticas e um calejamento de alta competição que, a juntar à sua ambição, sobretudo neste tipo de selecções, pode criar um cocktail acima da média. Nos últimos 6 jogos em campeonatos do Mundo, as suas equipas sofreram... 2 golos: um da Espanha campeã, outro dum extraterrestre. Vénia quando ele a merece. No cume, o episódio incontornável: que o penalty sobre Dejagah não tenha sido marcado é uma vergonha incompreensível. O Mundial parecia ter entrado nos eixos, mas que isto continue a acontecer sempre aos mesmos, num contexto tão limítrofe quanto titânico, é absolutamente devastador.

A Argentina há de estar a suar frio. A estreia com a Bósnia foi miserável, o jogo de Sábado também fala por si. Em ambos, 'o favorito com o melhor ataque' foi uma equipa atrofiada, com o nível estratégico de uma parede. A táctica argentina, por um dia mais, resumiu-se a duas palavras: Lionel Messi. Deu para ontem, deu para hoje, talvez dê para amanhã, mas é certo que chegará o dia em que os relâmpagos de génio do predestinado não poderão maquilhar um tamanho vazio técnico.


Alemanha 2-2 Gana

Há duas ideias centrais que me importam defender: a primeira é que o tropeção da Alemanha foi efectivamente uma grande surpresa. O empate, porém, não torna os homens de Low remotamente menos favoritos, nem lhes pode pôr em causa o que quer que seja. A Alemanha deu, até ver, a maior mostra de superioridade colectiva do Mundial, por piores que tenhamos sido; achar agora que a Mannschaft afinal não é assim tão boa é uma barbaridade. Tal como aconteceu à Holanda frente à Austrália, os níveis de competitividade ressentem-se sempre depois de tamanhas vitórias, sobretudo frente aos que estão identificados como maiores rivais do grupo.

Depois, é evidente o mérito do Gana, o que vai de encontro ao segundo tópico que queria defender. Ao contrário do que muita gente parece achar, por desconhecimento, calhou-nos um grupo tão duro como os da morte. O Gana que, no último Mundial, ficou a centímetros de ser a primeira selecção africana a jogar umas meias-finais, continua a ser, indiscutivelmente, a melhor esquadra do continente. É uma equipa bem orientada, com uma qualidade individual altíssima, agressiva e eminentemente atlética. A chocante derrota inaugural foi só, como tive oportunidade de então constatar, uma partida do destino. A exibição de Sábado, por seu turno, não sendo adquirida, dificilmente pode surpreender quem andasse de olhos abertos. O contexto era desfavorável mas, em vez de pesar, exponenciou-lhes a personalidade. O talento e a espantosa capacidade física fizeram o resto, frente a um adversário que, na minha opinião, também os subestimou. Neste momento, o Gana é claramente mais forte do que Portugal ainda que, em virtude do desastre de ontem, os tenhamos eliminado tanto como a nós próprios.


Nigéria 1-0 Bósnia

A eliminação da Bósnia, à segunda jornada, equivale-me a todos os maiores choques a que o Brasil já deu palco até agora. Teria apostado dinheiro em como os bósnios não só se qualificariam sem problemas, como iam impressionar e, quiçá, dar até uma dor de cabeça à Argentina. A crueza do desfecho, num dos dois grupos mais acessíveis da prova, condenou de forma mais seca tanto a falta de experiência, como a falta de... ambição. A Bósnia ultra-ofensiva, que nos fez vida difícil duas vezes nos últimos quatro anos, teria encontrado o seu espaço neste Mundial. O que vimos, porém, foi uma equipa assoberbada pelo medo de falhar e que, ironicamente, deu o passo para o abismo justamente por causa disso. Por discutível que isto soe, acho que o jogo-chave foi a estreia. Não pelo resultado, que era sempre expectável, mas exactamente pela postura. A Bósnia foi uma sombra triste do que mostrara em tempos e, alegadamente mais madura e resultadista, contentou-se a especular com o empate. Devia ter sabido que, no Mundial, mais do que em qualquer outra paragem, a sorte protege os audazes.

Na negra, uma Nigéria que é evidentemente inferior, mas que não tinha nada a perder, escalou esse drama existencial. Claro que há um golo mal anulado a Dzeko e há, ainda mais, aquela desoladora bola ao poste no último segundo, mas o essencial estava contado. A Bósnia não foi ambiciosa quando devia, e já não teve tempo quando o quis. Uma pena.

Curtas de um soco no estômago

 

1 - Estamos fora, mas é futebol e é melhor precisar de um milagre do que chegar eliminado ao último jogo. Não, não 'era melhor não ter ido', não, não 'era melhor já ter perdido'. Que se foda, mas vou pensar assim até morrer.

2 - É fácil dizer que foi falta de atitude, mas a boa vontade não ganha jogos. Caso contrário, as Honduras eram campeãs do mundo. A culpa é 200% nossa, mas não vi ali as 'vedetas do gel' a passear. Os problemas foram outros e bem mais complexos.

3 - A raiz foi a má preparação: não podíamos ter chegado ao Brasil de véspera, o que é uma irresponsabilidade da Federação, que preferiu ir fazer uns trocos a Boston; não podemos ter cinco lesionados em dois jogos, a menos que tenhamos pedreiros no lugar dos preparadores e dos fisioterapeutas; não podíamos ter achado que a forma física dos jogadores era um mal menor, o que é culpa integral de quem os avaliou e convocou aos 23. O resultado é ninguém ali ter pernas, tão pouco conseguir lidar com o clima e, portanto, 'controlarmos' os jogos como se estivéssemos nos distritais. Eles não se estão a cagar, só não têm um pulmão a mais. 

4 - O cheque-mate foi a total incompetência estratégica. Fosse qual fosse o estado dos jogadores, a Selecção #4 do ranking da FIFA tem de ter outra fiabilidade táctica. No desenho colectivo, e no que é estritamente da sua responsabilidade, Paulo Bento não usou a táctica nem para alavancar o talento, nem para esconder as fragilidades. Portugal tem um modelo, mas, no Brasil, nem por um momento teve uma estratégia. No plano individual, trocar a razão pela lealdade, e ter insistido ir a jogo com aquele meio-campo, foi grotesco. Que William Carvalho ainda só tenha jogado meia-parte, à força, e sido o melhor português, é uma tragédia.

5 - Confio na seriedade da equipa no último jogo, porque sempre respeitei a seriedade do seleccionador. É com a mesma honestidade de quem lhe reconheceu todo o mérito nas vitórias que digo, sem dramas nem exaltações, que é ele o responsável evidente pelo que acontecer no Brasil. Se for isto, então é um ciclo que tem de se fechar.

sábado, 21 de junho de 2014

Copa, dia 9: viver e morrer no Pacífico


Honduras 1-2 Equador

Foi um dos jogos mais primários e, quiçá, mais puros do Campeonato do Mundo. Frente a frente duas das equipas mais duras das Américas, ambas tão honestas quanto os seus 4-4-2 clássicos, largos e directos como nos velhos tempos. No fim ganhou o mais forte, mas é justo que ninguém vá ainda eliminado no grupo E. Ao contrário do que seria de esperar, Equador e Honduras ofereceram um espectáculo sempre agradável e cativante, temperado pelo tropicalismo tão próprio que os une.

Antes de mais, é justo elogiar as Honduras. Depois do primeiro jogo, ficou a imagem de que os homens do colombiano Luis Suárez dificilmente podiam ou quereriam jogar futebol. Se, realmente, a respeito do talento e do potencial não fomos induzidos em erro - os catrachos são mesmo uma das duas ou três equipas a quem menos se pode pedir -, agora que o ónus duma estreia com a França já passou, é incontornável salientar a sua compostura competitiva. Com as armas que tinham (força, verticalidade, vontade), as Honduras apostaram tudo no sonho que era ganhar este jogo e fizeram-no com uma atitude sinceramente positiva quando ao futebol jogado. O golo de Carlo Costly, o terceiro da História do país em Mundiais e o primeiro desde 1982, acabou por ser um prémio curto para quem mereceu estar a ganhar ao intervalo e acabar com, pelo menos, um ponto.

O Equador cumpriu a sua obrigação com competência. Depois duma estreia de muito bom nível, este era o jogo em que a tricolor sabia ter tudo a perder e, desde o início, as Honduras explicaram que iam vender cara a derrota. Talvez por esse ascendente adversário, talvez por não saberem mesmo controlar um jogo, os equatorianos foram ainda menos regrados do que no primeiro dia e deram-se a uma partida comprida de para e resposta, assente na velocidade das alas e num futebol quase sempre directo, confiando que bateriam o adversário na sua própria estratégia. Até podia ter corrido mal, mas a verdade é que estavam certos. No fim, o talento individual foi como o azeite e veio ao de cima. O Equador precisará de um pequeno milagre no último dia, mas só depende de si e a imagem que patenteou até agora no Brasil não poderá envergonhar ninguém.

EQUADOR - Aconteça o que acontecer, este já terá sido o Mundial de Enner Valencia. O avançado do Pachuca, do México, é a antítese da equipa e, por isso, o seu trunfo: ágil, hábil e invisível, num equipa de altos, duros e velozes. Estar a assinar 100% dos golos tricolores ajuda a perceber. Dominguez, nas redes, foi a cavilha que garantiu que aquela granada em forma de plano não lhes rebentava nas mãos: irredutível e decisivo. Num jogo menos rentável dos extremos, Paredes deu nas vistas. Muita vida na lateral-direita.

HONDURAS - Uma dupla de avançados à antiga, cujo estilo se tornou propício pelo curso do jogo. Costly mais raçudo e batalhador, na génese dos 9 americanos, e a marcar um golaço simbólico; Bengtson mais simples e vertical, a acertar no poste, fora o resto. Num onze que não é propriamente técnico ou metódico, Espinoza é instrumental no meio, a agarrar a equipa. Boniek Garcia, na ala direita, mesmo sem brilhar, pareceu o jogador de maiores recursos.

Copa, dia 9: napoleonicamente candidatos


Suíça 2-5 França

No dia em que a Itália perdeu, e em que a Inglaterra foi ajudar a Espanha a fazer as malas, pelo menos uma casa nobre do velho Continente resolveu deixar claras algumas coisas. A França de Deschamps saíra discreta do Polónia/Ucrânia. No grupo de qualificação para o Brasil, perdeu para a Espanha e só num autêntico milagre da Senhora de Lourdes sobreviveu ao play-off com a Ucrânia. Na 25ª hora, a equipa ainda viu partir o seu melhor jogador e isto já depois de ter ostracizado o seu segundo mais mediático. A França que chegou ao Mundial era, se tanto, um ponto de interrogação. A estreia foi doce mas, claro, não se tiram ilações das Honduras. Hoje era, porventura, o dia mais importante do reinado do capitão de 98, perante um dos mais cotados outsiders da prova, uma equipa talentosa e competente. Hoje, dificilmente a demonstração de força francesa poderia ter sido mais brutal.

Em relação ao primeiro jogo, caíram Pogba e Griezmann, com a França a surgir, no papel, num 4-3-3 onde cabiam dois pontas-de-lança. Na prática, foi mais do que isso. A equipa viria a apresentar-se espantosamente metamórfica, com Benzema e Giroud a alterarem a ala-esquerda, em transição, e Valbuena a derivar para as costas de ambos, em construção. Já não me lembro se houve um aviso; só sei que, quando começou, foi como se o Inferno se tivesse aberto sob os Alpes. O volume de futebol ofensivo da França foi surreal, a elegância, a rapidez e o critério do seu jogo absolutamente deslumbrantes. A Suíça, tão geneticamente equilibrada, foi destroçada em jogadas de compulsiva e quase incompreensível inferioridade numérica atrás, como se a França soubesse todos os seus segredos, vagas atrás de vagas que ameaçaram que o placard se tornasse grotesco (16 remates à baliza, um penalty falhado, uma bola na trave, um golo mal anulado...). Benzema fez um dos melhores jogos da carreira em todo o último terço do campo, Valbuena foi desconcertante entre linhas e, se puxava ao físico, estavam Giroud, Matuidi ou Sissoko. Os franceses são uma máquina de contra-golpe impressionante, uma víbora azul que se desdobra em dois toques, que te serpenteia num golpe de rins e que atira sempre, sempre para matar. Se haviam dúvidas, pois elas já não existem: a França é, com todos os galões e com toda a autoridade, uma autêntica candidata ao título.

Os gauleses bateram uma equipa muito boa, que leram bem e desmontaram melhor, mas a Suíça fez uma figura muito pobre. Era um conjunto em que eu apostava muito, especialmente depois do nível com que se estreou e, apesar deste ser sempre um caso de mérito do vencedor, a verdade é que os homens de Hitzfeld não estiveram à altura. O jogo é marcado pelo duplo golo assassino, que o implode completamente, mas parece-me que os próprios suíços terão subestimado o adversário, acreditando que tinham tudo para causar-lhe impacto e condicioná-lo. Faltou, todavia, nervo, concentração, agressividade e intensidade. O 1-0 é uma bola parada, o 2-0 uma perda infantil. O melhor período helvético viria depois, mas a exposição que escancarou o terceiro da França (e já antes o penalty) tornou tudo uma questão de tempo. O mais provável é que baste à Suíça um empate para qualificar-se, mas o mais importante é que os suíços entendam que o sucesso só pode chegar no fim da inocência.

FRANÇA - Benzema. Foi um manual em directo, de cada vez que entrava desde a esquerda, de cada vez que baixava para receber e enquadrar, um vórtice de todo o génio francês no meio-campo adversário. Fez duas assistências dignas de um trequartista e, até ver, marcou moralmente cinco golos no torneio. Está a ser um prodígio na relva canarinha. Valbuena é o herói improvável. Fossem as coisas lineares e o pequenino marselhês seria suplente. Deschamps, porém, confiou-lhe a batuta da equipa e hoje não poderia estar mais realizado. Da ala para o meio, com uma bola curta irresistível, Valbuena parece duma dimensão à parte, viajando entre linhas para perverter tudo o que o adversário acha que sabe. Um joker. Matuidi é, definitivamente, o médio-chave da equipa. À disponibilidade bestial alia uma óptima chegada, num expresso que deve com certeza deixar os carris marcados em toda a meia-esquerda. Giroud foi igualmente instrumental e deve ter ganho a titularidade para parear Benzema no seu jogo de sombras.

SUÍÇA - Não necessariamente pelos golos, mas foram eles os melhores: Granit Xhaka, hoje um #10 a viver na ala, foi o único a encarar o jogo desde que tudo ia mal; Dzemaili entrou a ferver para o miolo e demonstrou a raça de que a equipa tanto precisava. Foi dele o primeiro livre directo do Mundial.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Copa, dia 8: 'de qué planeta viniste...'


'...para dejar en el camino a tanto inglés?'
 
Uruguai 2-1 Inglaterra

Espero que já toda a gente tenha ouvido esta frase pelo menos uma vez na vida. Foi dita há 28 anos por um senhor chamado Victor Hugo Morales. O calendário marcava 22 de Junho de 1986 e a maioria saberá que ela emoldura a ouro o golo do Século, ainda que os mais religiosos tenham de explicar que se trata de algo mais: o que ela descreve é a descida de Deus à Terra. Hoje, em São Paulo, o que aconteceu não é evidentemente comparável a essa tarde mística na relva do Azteca, como não é nenhuma obra humana que tenha acontecido antes ou depois. Mas que melhor sítio para lembrá-la se não um Campeonato do Mundo, no dia em que um sul-americano louco e genial voltou a arrancar o coração inglês com as próprias mãos?

O Mundial tem sido verdadeiramente espantoso. Não há um único dia que não tenha oferecido um jogo bestial, seja qual for o domínio em que o jogo é bestial: talento, estratégia, carácter, sorte, emoção. Pela mera amostra desta primeira semana, o Brasil 2014 deixará uma conta de jogos memoráveis que não sei se tão cedo se poderá pagar. No entanto, ao 8º dia, digo, com a formalidade necessária, que nenhum bateu o Uruguai-Inglaterra. Que não foi o mais chocante, nem o mais exuberante, mas cujo alcance mental não tem simplesmente comparação. A atmosfera do jogo foi tão grandiosa como uma batalha. Dois campeões do mundo frente a frente, ambos acossados, ambos forçados ao limite para salvarem a própria vida. O medo respirava-se no ar, a tensão sentia-se na cara e a electricidade insuportável tornava todos os lances decisivos em algo muito mais dramático do que isso. Um jogo, por ironia, menos imprevisível do que parece. É que, no íntimo, sabemos sempre se estamos ou não à altura. Com idiossincrasias tão díspares como as de um Uruguai-Inglaterra, porém, também podíamos desconfiar.

Conta a lenda que, antes da final de '50, que o Uruguai jogaria no Brasil, frente à equipa da casa e a 200 mil canarinhos, o capitão charrúa, Obdulio Varela, dirigiu-se aos companheiros e, numa frase, sintetizou o ADN de um país: 'só há uma forma de ganhar, é termos os colhões na ponta das botas'. O Uruguai é isto. A Inglaterra, sabemos bem, é outra coisa. É a derrota com menos de romântico e mais de perdedor. É a equipa que, em trezentos desempates por penalidades, perdeu todos, a equipa dos Três Leões, se eles forem o abismo, o azar e as vitórias morais. Ainda assim, chegavam ambos a este jogo com estados de espírito diferentes, apesar das derrotas iguais: o Uruguai estreara-se humilhado, a Inglaterra, claro, caíra de pé. Honra lhes seja feita, começou como sempre, com os ingleses a liderarem a carga, numa projecção heróica muito própria. E lideraram-na sempre, na ilusão da madrugada do jogo, depois do primeiro golpe e quando o tempo já fugia por entre os dedos. Rooney já falhara golos de todas as maneiras, quando, para extâse geral, marcou finalmente o primeiro da carreira em Mundiais. A Inglaterra voltava ao jogo, a Inglaterra ia virar a sorte. Seria possível? Não, era só um prenúncio de morte. A tragédia seria, afinal, ainda mais cruel.

Qualquer vitória uruguaia é uma vitória do carácter. Daquele que os faz ganhar o último metro, roubar o último segundo, transcender as suas circunstâncias e fazer o próprio destino. Poucos terão acreditado que a redenção ainda fosse possível, depois da hecatombe inicial, com a estrela amarrada ao banco e a uma lesão, e perante um adversário vaidoso, jovem, sofisticado. A verdade é que não podia haver melhor cenário. O caos é o prato celeste favorito e o limbo o seu melhor restaurante. Qualquer vitória uruguaia é uma vitória do carácter. Quando o seu depositário é um predestinado, então mais vale pagar bilhete e deslumbrar-se com o espectáculo. Luís Suárez teve um pé fora do Campeonato do Mundo, depois de uma época que o podia levar a disputar a Bola de Ouro. Era impossível ter a certeza em que condição surgiria hoje, logo com a equipa num estado cumular de desespero. A sua exibição, bigger than life, será lembrada para sempre. Ali, semi-lesionado e sem segundas chances, no contexto e no palco mais radicais de todos, Suárez foi o melhor ponta-de-lança do universo que conhecemos. Inspirou os companheiros, liderou-os, tornou-os a todos melhores e fez o que mais nenhum podia fazer, numa demonstração inacreditável de génio, coragem e carácter. Poucos se podem alguma vez dar ao luxo de escrever tamanho capítulo sobre o que é estar à altura das expectativas.

Ao Uruguai ainda falta o pior adversário, à Inglaterra ainda sobra um milagre, mas acho que todos sabemos como é que isto vai acabar. Querem apostar?

URUGUAI - Cavani foi instrumental em ambos os golos. Saiu da orfandade e está reeditada uma das duplas idílicas da Copa. Arévalo foi determinante a ancorar o meio-campo e Lodeiro, a atacar por dentro, aproxima a equipa da sua matriz.

INGLATERRA - O milagre ainda é matemático e mais vale não subestimar o futebol, mas o Mundial foi demasiado ingrato, como sempre. A Inglaterra é das selecções com maior margem de progressão nos próximos anos, resta saber se também descobrirá um exorcista, até porque o talento nunca foi o problema. Rooney está condenado a ser o bode expiatório, mas ninguém tentou mais do que ele, ainda que as três perdidas sejam demasiado amargas. Johnson e Baines, nas laterais, foram os extremos que a equipa não teve. Sturridge, por fim, já é certamente um dos melhores #9 europeus.