"I have no choice but to direct my energies toward the acquisiton of fame and fortune. Frankly, I have no taste for either poverty or honest labor, so writing is the only recourse left for me." Hunter S. Thompson
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Amanhã
Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós. Sermos muito melhores do que até agora é só a parte fácil. Precisamos de uma abusiva ajuda adversária e precisávamos, tanto pior, que os rivais directos, que tão mais capazes têm sido, decidissem, logo amanhã, deitar tudo a perder. O milagre do apuramento não é mais do que uma linha de equilibrismo impossível, em que a maior das fés se presta a deixar engolir pelo abismo da razão. Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós, salvo a mais importante: escolhermos como é que queremos sair.
Amanhã é um dia para ganhar. Por uma vez, não porque nos vai levar em frente, não porque há uma História a fazer, mas porque precisamos de nos dar a esse respeito. Porque, mesmo se tudo acabar mal, deve acabar nos nossos termos. Aceito qualquer derrota, mas não aceito qualquer eliminação. Nunca fui jogador, mas não há nada que me confunda mais do que estar lá e não querer saber. Como é que é possível entrar na relva e ser alguma vez indiferente? Quem não joga para ganhar, não é mau profissional, é mau na vida. Se estar no Campeonato do Mundo com o escudo ao peito não for um argumento suficiente, espero que eles ao menos percebam o quanto são pequenos em relação ao resto. O país mais antigo da Europa joga no Brasil apenas o seu sexto Mundial. Gerações de enormes futebolistas, tantos tão maiores do que eles que lá estão, teriam morto pela chance deste Portugal-Gana, fossem quais fossem as circunstâncias. Lembrem-se que parte dos que ali estão não voltará a pisar um Mundial. Lembrem-se que, um dia, quando forem velhos e não vos sobrar mais nada, nem umas férias nem um salário para voltar, não vão querer olhar para trás e envergonharem-se da oportunidade que tiveram a sorte de ter. Representar o país não é vosso mérito; é vosso privilégio. Se vos faltar a vontade, lembrem-se que ela também não nos interessa para nada e tenham a hombridade de correr por todos quantos, no fundo do poço das probabilidades, vão vestir o verde e o vermelho e sofrer até que não haja milagre que nos valha, por todos quantos dariam tudo para lá estar no campo, a poder, ao menos, perder como homens.
Amanhã é um dia para não ser arrogante. Errámos muito, provavelmente para lá da salvação, mas não temos de errar até ao fim. Nunca é tarde para admitir e, fazê-lo, é a maior de todas as provas de dignidade. Consigo respeitar um treinador que quer ganhar com as suas ideias, jamais alguém que prefere perder em vez de mudá-las. Qualquer miúdo de 12 anos já fez o diagnóstico da Selecção. Não temos balanço, uma ideia, nem nada treinado. Não temos capacidade física, nem temos Ronaldo apto. É preciso lucidez para reparar o sistema, coragem para afastar os consagrados. Neste momento, Bruno Alves, Meireles, Veloso, até Moutinho, não têm condições de jogar. É preciso recorrer a quem tenha algo para dar a nível técnico, físico, táctico (Neto, William, Amorim, William, Varela, William, William, William). Se Ronaldo não pode defender, se nem é útil que defenda, requisitem uns vídeos do que Ancelotti inventou no Real. Não é física quântica.
Beto, João Pereira, Pepe, Neto, André Almeida, Nani, William, Amorim, Varela, Ronaldo, Éder. Um 4-4-2 nem sequer porque precisamos de muitos golos, que tem muitas mudanças, mas não porque precisamos de uma lição. Simplesmente porque esse guião e esses actores são aquilo que mais genuinamente nos pode servir agora. Que Paulo Bento, cujo trabalho sempre zelei, perceba que isto não tem de ser uma exibição marcial de lealdade, um hara-kiri irredutível, cuja grandeza só existe na sua própria cabeça. Pode não haver qualificação, mas que haja redenção. O seu serviço não está à cartilha de nomes que elegeu, mas àqueles que sempre respeitaram o seu trabalho. E esses merecem mais.
Amanhã é um dia para saber ganhar mas, sobretudo, para saber perder. Se houver milagre, pois que estejam à altura da transcendência que o tornou possível; decerto que os problemas não terão desaparecido por magia. E não queiram ser vingadores de conferências de imprensa, como se estivessem sozinhos contra o mundo. Mas se cairmos, por pior que seja, tenham respeito, por vocês e por nós. Não lavem roupa suja, não cacem bruxas, não ponham tudo em causa. Nem na derrota temos de ser um bando de perdedores. O eterno Sócrates, pai espiritual do Brasil-82, a melhor selecção que já jogou, disse uma vez que ser campeão é detalhe. Mostrem que jamais iremos embora sem uma luta e, se isto for o fim do ciclo, lembrem-nos porque é que vale a pena ter orgulho nele. Amanhã, no fundo, é tudo muito mais importante do que ganhar ou perder.
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terça-feira, 24 de junho de 2014
Copa, dia 12: a equipa que nunca nos vai trair
Croácia 1-3 México
O futebol é Miguel Herrera a festejar um golo. É ser espoliado por um árbitro e ter um empate suficiente para a qualificação, mas atacar como se a vida dependesse disso. É Rafa Márquez, 35 anos, capitão pelo 4º Mundial seguido, a marcar o golo que mais ninguém podia marcar, a um quarto de hora do fim. É não conhecer o lado feio disto. É continuar a carregar mesmo depois de já se estar na frente. É ter um mundo de gente a abraçar-se nas bancadas como se nunca tivesse sentido nada tão absolutamente. É acreditar que o jogo pelo jogo é um mantra que vale a pena honrar, um romance pelo qual vale a pena lutar. México é castelhano para 'joga bonito'.
À tarde, víramos o cume da adultez competitiva: a Holanda a usar o jogo e a corrompê-lo a seu bel-prazer, a sacrificar o que foi preciso sem sequer hesitar, impenetrável e imbatível. À noite, percebemos que nada pode ser mais diametral do que o confronto que se avizinha nos oitavos: o México é um coração do tamanho de uma equipa de futebol. Uma equipa apaixonada e apaixonante, que só sabe estar em campo de uma maneira, comprometida com o seu ideal de que é preciso viver a 200%, de que é preciso gozar e sentir tudo o que se faz. Nada ali é desonesto, cínico. O México é a equipa que nunca nos vai trair. É o futebol total à flor da pele, o mesmo que um dia, em miúdos, jogamos todos na rua, com o mesmo brilho nos olhos e o mesmo entusiasmo impoluto de devorar o mundo em cada lance, ganhar ou morrer.
Desde o primeiro pontapé, tudo aconselhava prudência e sangue frio aos mexicanos. Estavam na frente, vinham a ser melhores, o prejuízo era croata. Desde o primeiro pontapé, porém, o México colocou-se alegremente do lado contrário ao das próprias odds. Só porque se o futebol é sombrio, deixa de ser futebol. Sangue frio? Como se fosse possível. A última meia-hora é um vendaval memorável, de cujo desnorte os croatas demorarão bastante tempo a recuperar-se. Nada parou aquele tufão futebolístico pejado de compromisso, nem o penalty imperdoável por marcar, até o circo místico ter-se finalmente começado a fechar na cabeçada do capitão. Aconteça o que acontecer, Miguel Herrera já é um símbolo. Obrigado por tudo, El Tri. E toda, toda a sorte do mundo para o que vier.
A Croácia foi uma desilusão. Do pudor da estreia, pese o assalto arbitral, à inferioridade consumada hoje no campo, a cadência do Brasil foi um desafio, afinal, demasiado exigente, mesmo para quem tinha tanto talento. O Mundial é, antes do resto, o sítio dos duros; à Croácia faltou desde o início essa personalidade e essa agressividade competitiva. Hoje, com o México pela frente, a diferença foi como um abismo. À semelhança do Euro-2012, os croatas voltam a deixar uma história por contar, se bem que, agora, tenham de sair pela porta dos fundos.
MÉXICO - Hector Herrera, hoje e sempre. Já sobra pouco a dizer sobre o jogador do Porto e, agora que os elogios se amontoam, resta afirmar o essencial: é o melhor médio do Mundial. Guardado é um parceiro de miolo perfeito, pela meia-esquerda. As suas chegadas à área contrária têm a graça de um bombardeiro. Chicharrito merecia mais minutos. Por fim, Rafa Márquez. Pese a postura abertamente positiva, o México tem mostrado ser uma das grandes defesas da prova. No dia em que isso não era suficiente, o capitão foi à área contrária resolver o jogo. Um líder não se compra e jamais se pode pagar.
CROÁCIA - Perisic foi o melhor croata no Brasil. Com golos, assistências e conexão directa ao jogo, alheia aos humores, o extremo do Wolfsburgo é o clássico jogador de alto rendimento. No talento puro, o que me dói mais é a despedida de Rakitic. Tem classe em cada madeixa de cabelo.
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segunda-feira, 23 de junho de 2014
Copa, dia 12: keep calm and trust Louis
Holanda 2-0 Chile
Jogo espectacular em potência, com duas das grandes equipas do Mundial até agora, sem a neura da qualificação e com o bónus que era, com toda a probabilidade, evitar o anfitrião nos oitavos-de-final. Infelizmente, foram promessas não cumpridas. O Chile quis mais, mas nunca foi capaz de emprestar ao jogo a sua fúria; a Holanda mandou um autêntico balde de gelo para a relva, sabendo que o empate lhe sobrava. À laia da velha raposa que tem no banco, e graças a um Robben que continua a escrever na relva canarinha uma história especial, a Laranja mataria o jogo no quarto-de-hora final, com o sangue frio dos melhores assassinos.
Foi uma exibição cínica de uma das selecções mais entusiasmantes do torneio. De facto, e quando o momento o pediu, Van Gaal nem hesitou em emprestar ao jogo cada gota do seu pragmatismo. Com Blind a central, Kuyt a lateral-esquerdo! e sem ponta-de-lança, a Holanda foi quase provocadora no seu experimentalismo e num certo alheamento ao jogo. Evidentemente conscientes de que o vento soprava a seu favor, os holandeses pareceram limitar-se a fazer descanso activo, oferecendo ao Chile toda e qualquer iniciativa de jogo. Com um posicionamento sólido, esse bluff serviria para intimidar o adversário que, apesar de muito mais dedicado, nunca se prestou às nuances kamikazes que tanto constituem a sua imagem de marca. Como perceberam depois, de pouco serve jogar xadrez com Van Gaal. O empate chegava, mas a Holanda também previra o exacto momento para fazer o cheque-mate, assim que, por cozê-lo em lume brando, tivesse roubado ao adversário toda a alegria de jogar. Entrados no último quarto-de-hora, 90 segundos em campo foram suficientes para que Leroy Fer concretizasse o plano, através das bolas paradas onde é tão forte. O KO seria um mero fim simbólico assinado por um futebolista excepcional, o único que, no fundo, teve liberdade para jogar sempre no seu próprio mundo. Que Mundial está a fazer Arjen Robben.
Ainda que longe da exuberância do jogo anterior, o Chile merecia melhor sorte. Impecável nos cinco detrás, e com Alexis num grande dia, a equipa acabou por sucumbir na medida em que o adversário lhe tornou o jogo tão desconfortável. Os chilenos são uma equipa de coração na boca que, pura e simplesmente, não sabe especular. Com a Holanda a baixar o ritmo e, maquiavelicamente, a 'recusar' jogar, os homens de Sampaoli perderam as referências e assemelharam-se a peixes fora de água, condenados a sufocar devagar até sucumbirem à armadilha. Daqui para a frente, o Chile nunca será favorito e são essas as circunstâncias que melhor capitalizam o seu jogo. O Brasil será, contudo, imprudente e pouco inteligente se não tiver estado hoje a tirar notas de mais uma perversa lição estratégica de Van Gaal.
HOLANDA - Robben. Que luxo. Até num jogo fechado e armado como este, sem sequer Van Persie a acompanhar, foi impossível negar-lhe o palco. Aos 30 anos, o homem de cristal está melhor do que nunca. É um dos futebolistas de elite que mais melhorou com a idade, logo ele, em tempos tão exposto a lesões e a sub-rendimentos. Hoje, mental e fisicamente assente, o seu futebol é uma imensa proposta irresistível. Ficará na História como um daqueles talentos excelsos que nunca pôde ganhar uma Bola de Ouro. Memphis Depay voltou a entrar muito forte e já é um dos suplentes de luxo da prova.
CHILE - É impressionante que, na Catalunha, o tenham em tão baixa estima. No dia em que se volta a dar como certa a sua partida, Alexis Sanchéz provou novamente que é um avançado de nível mundial. Passe o portento físico, tem tudo e faz tudo, destacando-se o papel na construção que desempenha, sem embaraços, na equipa nacional. Um craque. Mesmo em dia de derrota, é difícil deixar de admirar a postura dos lutadores: Medel lidera a defesa, mas sempre a cuidar da bola; Mena é um pilar na ala-esquerda; e no miolo, por seu turno, é Aranguiz quem acrescenta o toque quente à força legionária.
Copa, dia 11: só o talento pode perverter a lógica
Bélgica 1-0 Rússia
Ter pena de uma equipa de Capello, eis mais um conto para os anais deste Campeonato do Mundo. Num jogo terrivelmente tépido, a abordagem do italiano foi tão boa como seria possível. Consciente do que os diabos vermelhos podiam fazer em qualquer instante, a Rússia começou por ocupar-se muito bem atrás - sem autocarro, com redobrada competência - e soube sempre sair, acabando por controlar o jogo todo e ter as melhores oportunidades em 80 minutos. A Bélgica, por seu lado, limitou-se a ser estremunhada... mas sabemos que se pode dar a luxos reservados a muito poucos. Os flamengos acordaram expressamente para a recta final e, mais uma vez graças ao seu insultuoso talento, ganharam o jogo contra as cordas.
As estreias merecem ser relevadas, as confirmações não. A nível individual, é provável que a Bélgica mereça realmente o estatuto de 5º favorito das apostas; a nível colectivo, as limitações do onze de Wilmots já são hoje evidentes e denunciam que a esperança de vida não vá possivelmente tão longe assim. Dando sequência à boa reacção do primeiro jogo, o seleccionador belga promoveu três alterações aos titulares, com destaque para Fellaini e Mertens, ambos decisivos frente à Argélia. Pela frente estaria o adversário mais credenciado do grupo, mas a equipa já tinha o calo, agora só tinha de valer o bilhete. Uma vez mais, não valeu. Durante a eternidade do jogo, os diabos foram um conjunto errante, assente nos fogachos isolados dos seus fantasistas, um onze incapaz de mandar na partida, porque nem sabia ao certo o que queria dela. Fellaini entrou como duplo pivot, quando é muito mais efectivo junto do avançado; De Bruyne, que é tão vertical, mora a #10, quando parece muito mais um extremo; Lukaku ainda nem chegou ao Brasil. A Bélgica dispensa talento, mas é incontornável o tempo que passa à espera que as peças se limitem a cair magicamente nos sítios certos. Funcionou ontem, mais uma vez, mas a violência das eliminatórias é todo um outro campeonato. Um que dificilmente admite que se joguem aos dados.
Há equipas que fazem treinadores, há treinadores que fazem equipas. A segunda premissa é a Rússia. De facto, dificilmente se vislumbra talento aparente no onze da terra dos czares. O mérito russo é todo ele estratégico, na maneira como a equipa se coloca, lê e avalia o jogo, e tenta tirar partido dele. Depois do frango colossal que custou dois pontos na estreia, um golo em cima da hora foi de uma ingratidão inenarrável. Mesmo assim, ganhar à Argélia será suficiente. Ainda que os magrebinos estejam a dar boa conta de si, compadeço-me sempre da transcendência inerente ao trabalho de um grande treinador. Capello é bom que chegue para fazer acontecer até a estrelinha que ainda não teve.
BÉLGICA - Talento que nunca mais acaba. Impressionante. Mais uma vez, Hazzard no lance que tudo decidiu, ontem com uma jogada perfeitamente extraordinária, a fazer o que um plano inteiro não tinha conseguido. Na sombra de uma equipa que tem sido bem menos total do que se contava, o pequeno génio do Chelsea passa muitos minutos na solitária; ainda assim, podem crer que, se houver um lugar ao sol, ele guia-os até lá. Origi foi de provável não convocado, até à lesão de Benteke, a provável titular, dado o ocaso de Lukaku. O esguio avançado do Lille, 19 anos, foi uma pedrada no charco da equipa pela segunda vez e, desta, marcou mesmo o golo de ouro. Finalmente, porque é normal esquecermo-nos dele, Kompany. A Bélgica vai tendo muito que se lhe diga, mas se sofre de menos, deve-o necessariamente ao melhor central do mundo.
RÚSSIA - Destaques individuais são relativamente redundantes, numa equipa tão competente como a verdadeira acepção da palavra. Salientaria o bom meio-campo: Shatov, nas costas do avançado, tem escola, é objectivo e revela sempre discernimento; Fayzulin, o homem dos equilíbrios, tem pés agradáveis para a posição e muita compostura; Glushakov, a espécie de box-to-box, é efectivamente disponível e está confortável até nos flancos.
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Copa, dia 10: cortinas de fumo
Argentina 1-0 Irão
Não pensei viver para ver Queiroz ser o líder de uma 'equipa do povo'. Que o Irão tivesse segurado o nulo a ferro e fogo já seria verdadeiramente notável; que ainda tenha roçado a vitória em 2 ou 3 momentos deixa-me sinceramente boquiaberto. Não sou fã de Queiroz, não lhe reconheço competências humanas, nem acho que seja o treinador de nível mundial que tanto se intitula mas, ao longo da carreira, o português adquiriu realmente competências tácticas e um calejamento de alta competição que, a juntar à sua ambição, sobretudo neste tipo de selecções, pode criar um cocktail acima da média. Nos últimos 6 jogos em campeonatos do Mundo, as suas equipas sofreram... 2 golos: um da Espanha campeã, outro dum extraterrestre. Vénia quando ele a merece. No cume, o episódio incontornável: que o penalty sobre Dejagah não tenha sido marcado é uma vergonha incompreensível. O Mundial parecia ter entrado nos eixos, mas que isto continue a acontecer sempre aos mesmos, num contexto tão limítrofe quanto titânico, é absolutamente devastador.
A Argentina há de estar a suar frio. A estreia com a Bósnia foi miserável, o jogo de Sábado também fala por si. Em ambos, 'o favorito com o melhor ataque' foi uma equipa atrofiada, com o nível estratégico de uma parede. A táctica argentina, por um dia mais, resumiu-se a duas palavras: Lionel Messi. Deu para ontem, deu para hoje, talvez dê para amanhã, mas é certo que chegará o dia em que os relâmpagos de génio do predestinado não poderão maquilhar um tamanho vazio técnico.
Alemanha 2-2 Gana
Há duas ideias centrais que me importam defender: a primeira é que o tropeção da Alemanha foi efectivamente uma grande surpresa. O empate, porém, não torna os homens de Low remotamente menos favoritos, nem lhes pode pôr em causa o que quer que seja. A Alemanha deu, até ver, a maior mostra de superioridade colectiva do Mundial, por piores que tenhamos sido; achar agora que a Mannschaft afinal não é assim tão boa é uma barbaridade. Tal como aconteceu à Holanda frente à Austrália, os níveis de competitividade ressentem-se sempre depois de tamanhas vitórias, sobretudo frente aos que estão identificados como maiores rivais do grupo.
Depois, é evidente o mérito do Gana, o que vai de encontro ao segundo tópico que queria defender. Ao contrário do que muita gente parece achar, por desconhecimento, calhou-nos um grupo tão duro como os da morte. O Gana que, no último Mundial, ficou a centímetros de ser a primeira selecção africana a jogar umas meias-finais, continua a ser, indiscutivelmente, a melhor esquadra do continente. É uma equipa bem orientada, com uma qualidade individual altíssima, agressiva e eminentemente atlética. A chocante derrota inaugural foi só, como tive oportunidade de então constatar, uma partida do destino. A exibição de Sábado, por seu turno, não sendo adquirida, dificilmente pode surpreender quem andasse de olhos abertos. O contexto era desfavorável mas, em vez de pesar, exponenciou-lhes a personalidade. O talento e a espantosa capacidade física fizeram o resto, frente a um adversário que, na minha opinião, também os subestimou. Neste momento, o Gana é claramente mais forte do que Portugal ainda que, em virtude do desastre de ontem, os tenhamos eliminado tanto como a nós próprios.
Nigéria 1-0 Bósnia
A eliminação da Bósnia, à segunda jornada, equivale-me a todos os maiores choques a que o Brasil já deu palco até agora. Teria apostado dinheiro em como os bósnios não só se qualificariam sem problemas, como iam impressionar e, quiçá, dar até uma dor de cabeça à Argentina. A crueza do desfecho, num dos dois grupos mais acessíveis da prova, condenou de forma mais seca tanto a falta de experiência, como a falta de... ambição. A Bósnia ultra-ofensiva, que nos fez vida difícil duas vezes nos últimos quatro anos, teria encontrado o seu espaço neste Mundial. O que vimos, porém, foi uma equipa assoberbada pelo medo de falhar e que, ironicamente, deu o passo para o abismo justamente por causa disso. Por discutível que isto soe, acho que o jogo-chave foi a estreia. Não pelo resultado, que era sempre expectável, mas exactamente pela postura. A Bósnia foi uma sombra triste do que mostrara em tempos e, alegadamente mais madura e resultadista, contentou-se a especular com o empate. Devia ter sabido que, no Mundial, mais do que em qualquer outra paragem, a sorte protege os audazes.
Na negra, uma Nigéria que é evidentemente inferior, mas que não tinha nada a perder, escalou esse drama existencial. Claro que há um golo mal anulado a Dzeko e há, ainda mais, aquela desoladora bola ao poste no último segundo, mas o essencial estava contado. A Bósnia não foi ambiciosa quando devia, e já não teve tempo quando o quis. Uma pena.
Curtas de um soco no estômago

1 - Estamos fora, mas é futebol e é melhor precisar de um milagre do que chegar eliminado ao último jogo. Não, não 'era melhor não ter ido', não, não 'era melhor já ter perdido'. Que se foda, mas vou pensar assim até morrer.
2 - É fácil dizer que foi falta de atitude, mas a boa vontade não ganha jogos. Caso contrário, as Honduras eram campeãs do mundo. A culpa é 200% nossa, mas não vi ali as 'vedetas do gel' a passear. Os problemas foram outros e bem mais complexos.
3 - A raiz foi a má preparação: não podíamos ter chegado ao Brasil de véspera, o que é uma irresponsabilidade da Federação, que preferiu ir fazer uns trocos a Boston; não podemos ter cinco lesionados em dois jogos, a menos que tenhamos pedreiros no lugar dos preparadores e dos fisioterapeutas; não podíamos ter achado que a forma física dos jogadores era um mal menor, o que é culpa integral de quem os avaliou e convocou aos 23. O resultado é ninguém ali ter pernas, tão pouco conseguir lidar com o clima e, portanto, 'controlarmos' os jogos como se estivéssemos nos distritais. Eles não se estão a cagar, só não têm um pulmão a mais.
4 - O cheque-mate foi a total incompetência estratégica. Fosse qual fosse o estado dos jogadores, a Selecção #4 do ranking da FIFA tem de ter outra fiabilidade táctica. No desenho colectivo, e no que é estritamente da sua responsabilidade, Paulo Bento não usou a táctica nem para alavancar o talento, nem para esconder as fragilidades. Portugal tem um modelo, mas, no Brasil, nem por um momento teve uma estratégia. No plano individual, trocar a razão pela lealdade, e ter insistido ir a jogo com aquele meio-campo, foi grotesco. Que William Carvalho ainda só tenha jogado meia-parte, à força, e sido o melhor português, é uma tragédia.
5 - Confio na seriedade da equipa no último jogo, porque sempre respeitei a seriedade do seleccionador. É com a mesma honestidade de quem lhe reconheceu todo o mérito nas vitórias que digo, sem dramas nem exaltações, que é ele o responsável evidente pelo que acontecer no Brasil. Se for isto, então é um ciclo que tem de se fechar.
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sábado, 21 de junho de 2014
Copa, dia 9: viver e morrer no Pacífico
Honduras 1-2 Equador
Foi um dos jogos mais primários e, quiçá, mais puros do Campeonato do Mundo. Frente a frente duas das equipas mais duras das Américas, ambas tão honestas quanto os seus 4-4-2 clássicos, largos e directos como nos velhos tempos. No fim ganhou o mais forte, mas é justo que ninguém vá ainda eliminado no grupo E. Ao contrário do que seria de esperar, Equador e Honduras ofereceram um espectáculo sempre agradável e cativante, temperado pelo tropicalismo tão próprio que os une.
Antes de mais, é justo elogiar as Honduras. Depois do primeiro jogo, ficou a imagem de que os homens do colombiano Luis Suárez dificilmente podiam ou quereriam jogar futebol. Se, realmente, a respeito do talento e do potencial não fomos induzidos em erro - os catrachos são mesmo uma das duas ou três equipas a quem menos se pode pedir -, agora que o ónus duma estreia com a França já passou, é incontornável salientar a sua compostura competitiva. Com as armas que tinham (força, verticalidade, vontade), as Honduras apostaram tudo no sonho que era ganhar este jogo e fizeram-no com uma atitude sinceramente positiva quando ao futebol jogado. O golo de Carlo Costly, o terceiro da História do país em Mundiais e o primeiro desde 1982, acabou por ser um prémio curto para quem mereceu estar a ganhar ao intervalo e acabar com, pelo menos, um ponto.
O Equador cumpriu a sua obrigação com competência. Depois duma estreia de muito bom nível, este era o jogo em que a tricolor sabia ter tudo a perder e, desde o início, as Honduras explicaram que iam vender cara a derrota. Talvez por esse ascendente adversário, talvez por não saberem mesmo controlar um jogo, os equatorianos foram ainda menos regrados do que no primeiro dia e deram-se a uma partida comprida de para e resposta, assente na velocidade das alas e num futebol quase sempre directo, confiando que bateriam o adversário na sua própria estratégia. Até podia ter corrido mal, mas a verdade é que estavam certos. No fim, o talento individual foi como o azeite e veio ao de cima. O Equador precisará de um pequeno milagre no último dia, mas só depende de si e a imagem que patenteou até agora no Brasil não poderá envergonhar ninguém.
EQUADOR - Aconteça o que acontecer, este já terá sido o Mundial de Enner Valencia. O avançado do Pachuca, do México, é a antítese da equipa e, por isso, o seu trunfo: ágil, hábil e invisível, num equipa de altos, duros e velozes. Estar a assinar 100% dos golos tricolores ajuda a perceber. Dominguez, nas redes, foi a cavilha que garantiu que aquela granada em forma de plano não lhes rebentava nas mãos: irredutível e decisivo. Num jogo menos rentável dos extremos, Paredes deu nas vistas. Muita vida na lateral-direita.
HONDURAS - Uma dupla de avançados à antiga, cujo estilo se tornou propício pelo curso do jogo. Costly mais raçudo e batalhador, na génese dos 9 americanos, e a marcar um golaço simbólico; Bengtson mais simples e vertical, a acertar no poste, fora o resto. Num onze que não é propriamente técnico ou metódico, Espinoza é instrumental no meio, a agarrar a equipa. Boniek Garcia, na ala direita, mesmo sem brilhar, pareceu o jogador de maiores recursos.
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