sexta-feira, 27 de junho de 2014

Copa, dia 15: os bem-aventurados


Estados Unidos 0-1 Alemanha

O dia fica indiscutivelmente marcado pela qualificação de duas equipas que, mais do que não serem favoritas, eram consideradas as mais frágeis dos respectivos grupos. Aqui, o feito dos Estados Unidos é tanto mais impressionante: num dos grupos da morte, os americanos deram conta de afastar um semi-finalista do último Europeu e a ainda melhor selecção africana, sem disporem de quaisquer recursos que nos fizessem acreditar que isso era minimamente possível. Um desfecho destes nunca pode ser linear e tem, sem dúvida, um sem número de condicionantes, nomeadamente o demérito dos mais fortes e um vestígio de sorte. De facto, os Estados Unidos usufruíram de ambos, nomeadamente na vitória impossível da estreia quando, sem merecerem sequer empatar, ganharam nos descontos, com um canto chutado do céu. Seja como for, nunca abdicarei do princípio de que quem cumpre, justifica-o sempre. O jogo com Portugal provou isso mesmo. A equipa estudou, foi solidária e, em boa parte, fez a sua própria sorte. Não me parece que os americanos possam sobreviver a qualquer eliminatória, mas a passagem é extraordinária. Depois do 3º lugar em 2006, e à sua devida escala, Klinsmann volta a dar cartas num Mundial.

Da Alemanha, ressalvar a inatacável altivez competitiva. Assim que se começaram a vilipendiar as possibilidades de um arranjo entre as duas equipas, que as qualificasse às duas, tive vontade de rir. Só quem não faz rigorosa ideia do que é mentalidade alemã podia assombrar-se com isso. Mesmo em ritmo de cruzeiro, Low bateu o homem de quem um dia foi adjunto e ganhou o grupo como se lhe exigia. Todavia, depois do apocalipse da estreia, é hoje menos líquido o alcance desta Mannschaft, ainda que estar entre os oito melhores tenha de ser uma mera formalidade. Uma nota obrigatória para Thomas Muller: 9 jogos, 9 golos em Mundiais, aos 24 anos. Tão discreto quanto surrealmente eficiente, é um avançado - assim, em termos latos - realmente bestial. A máquina não podia ter melhor porta-estandarte.


Argélia 1-1 Rússia

É um desfecho igualmente impressionante, mesmo que os argelinos chegassem ao jogo decisivo em condições mais favoráveis, a precisarem de um único ponto para concretizarem o sonho. Acontece que a Argélia era velada no grupo do Irão e das Honduras, como a tríade de selecções rotundamente piores a estarem presentes no Brasil. Os homens de Vahid Halilhodzic até se prestaram a chocar o mundo no dia inaugural, batendo ao intervalo a super-Bélgica mas, tanto a remontada, como esse penalty caído do céu, por entre um deserto de futebol, pareciam destinar-lhes a mesma sorte. Por acaso, Rússia e Coreia não fizeram melhores coisas, pelo que o segundo jogo, contra os asiáticos, acabou por ser o oásis das Raposas do Deserto. Halilhodzic mudou meia equipa e acabou com uma goleada impensável: foi a primeira vez que uma equipa africana marcou 4 ou mais golos num Campeonato do Mundo. Hoje, eram realmente os norte-africanos a chegar moralizados mas, mesmo nestes termos... do outro lado estava Capello. No global, será justo reconhecer que a Argélia não foi a equipa mais forte em campo. Esteve a perder, foi ressuscitada pelo seu grande guarda-redes - M'Bolhi - e só subsistiu com muita vontade, até encontrar a porta para o paraíso na cabeça de Slimani. O avançado do Sporting voltou a ser decisivo e fez História: este foi o primeiro apuramento de sempre da Argélia para uma segunda fase. Notável.

A Rússia sai pelos fundos e deixa em aberto o reinado de Capello, depois de tamanho falhanço. Tal como no Euro-2012, a equipa foi desfeiteada no último jogo dos grupos, quando tinha todas as condições para passar. Por uma vez, Capello teve honestamente azar. Os russos, sem talento visível, e depois de terem perdido o seu melhor jogador à 25ª hora, foram superiores aos respectivos adversários em todos os três jogos!, o que dá que pensar. Não muito melhores, mas mais inteligentes, melhor preparados, no controlo. A verdade é que todos os tiros saíram pela culatra. A equipa marcou menos do que devia, nunca teve sangue frio, sofreu golos verdadeiramente indigestos e, como se não bastasse, foi vítima dos erros imperdoáveis do seu guarda-redes, Akinfeev, um dos homens que certamente mais desterrados sairão do Brasil. No fim, porém, as contas são sempre cruas. Don Fabio chegou ao Brasil com os honorários de treinador mais bem pago da competição, a Rússia com os pergaminhos históricos e com o diploma de qualificada directa. Num grupo destes, nem com todo o azar do mundo podia ter acabado assim.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Copa, dia 14: a canhota dos ricos, a dignidade dos pobres


Honduras 0-3 Suíça

Num dos dias mais pacíficos do Campeonato do Mundo, com os destinos decididos ou razoavelmente encaminhados, o palco foi de duas figuras maiores. Depois do trauma napoleónico, a Suíça estava bem ciente da tragédia que era poder falhar, quando tinha uma passadeira vermelha estendida. O estado emocional da equipa, todavia, deixou muito cedo de ser um problema, assim que o seu pequeno touro meteu da direita para o meio e, a 25 metros, desolou as redes hondurenhas com um dos golos do torneio. Seria o início de um dia histórico para Xherdan Shaqiri. O criativo do Bayern voltaria a marcar por duas vezes, em unha e carne com o ponta-de-lança Drmic que, por sua vez, bisou nas assistências. Depois de quatro! más campanhas sucessivas, a pior de todas a não qualificação para o último Europeu, Der General Hitzfeld qualificou finalmente a equipa para as eliminatórias, naquela que deverá a ser a sua despedida, e frente ao próprio adversário que lhe sabotara os planos há quatro anos. A Suíça tem um plantel de muito bom nível e uma equipa bem organizada, que teve o mérito de saber valer-se do talento, sendo um justo qualificado. Ainda assim, a derrota com a França pesará sob qualquer julgamento e mancha no ar a ideia de que os suíços deixaram, na verdade, coisas importantes por provar. No papel, bater esta Argentina não é, na verdade, uma tarefa impossível, mas se sugerirem sequer dificuldades na transição defensiva, os suíços acabarão dizimados.


Nigéria 2-3 Argentina

Com a equipa já qualificada, Alejandro Sabella decidiu, mesmo assim, manter o onze argentino inalterado, certamente consciente do tanto que ainda tem a mostrar e de que todos os minutos podem ser úteis para engrenar. Por um dia mais, contudo, o suspeito do costume roubou a festa: este também já é o Mundial de Leo Messi. Numa equipa com pouco que a valha a não ser o talento cru, a Pulga tem-se dedicado a resolver jogo sobre jogo, como numa jornada incansável, em jeito de missão. Depois dos momentos assombrosos das duas primeiras jornadas, foi a vez de um Messi, hoje mais relaxado, servir um bis para sobremesa. A Suíça é superior a qualquer rival do grupo F, mas ainda não será exactamente o adversário que pode pôr tudo em causa. Seja como for, já sabemos que há Messi. E isso diz muita, muita coisa. O único parâmetro que se equivaleu ao #10 viria a ser a compostura nigeriana. De facto, os campeões africanos foram de ganas ao jogo, recuperaram duas desvantagens e, sinceramente, mereciam melhor sorte. A Nigéria, é bom lembrar, não era favorita à passagem e, não só se qualifica com dois clean sheets, como ainda jogou taco a taco com um dos candidatos. É, possivelmente, uma das surpresas mais subvalorizadas da prova. Não parece, contudo, possível ter estaleca para segurar o TGV que aí vem.


Equador 0-0 França

A França fez alterações e esteve na mesma em alta rodagem, tornando redundante o que já se sabia: a equipa sobeja talento, motivação e confiança (e até Pogba, que ainda faltava, já está em evidente crescendo). Só uma hecatombe pode prevenir que esteja, no pior dos casos, no grupo dos oito melhores. Só não ganhou hoje porque encontrou pela frente aquele que é, até ver, o mais altivo de todos os eliminados. Na crónica do jogo com as Honduras escrevi que, acontecesse o que acontecesse, os equatorianos já não envergonhariam ninguém. Hoje eles fizeram questão de provar-me verdadeiramente certo. Frente a um adversário tremendo, que quis mesmo ganhar o jogo, o Equador deu uma extraordinária demonstração de carácter, sobre todas as suas circunstâncias. À meia hora, a Suíça já ganhava por dois no outro campo, aos 60', Antonio Valencia expulsou-se  - a estrela foi, de muito, muito longe, o pior de todos - e, mesmo assim, foi irresistível a demonstração dos últimos 20 minutos. Em inferioridade, os homens de Reinaldo Rueda não só defenderam com tudo o que tinham (o guardião Domínguez foi uma das estrelas do torneio), como responderam para ganhar como se este fosse o seu Maracanã. É por equipas como o Equador que o Brasil 2014 está a ser um sítio tão memorável.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Amanhã


Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós. Sermos muito melhores do que até agora é só a parte fácil. Precisamos de uma abusiva ajuda adversária e precisávamos, tanto pior, que os rivais directos, que tão mais capazes têm sido, decidissem, logo amanhã, deitar tudo a perder. O milagre do apuramento não é mais do que uma linha de equilibrismo impossível, em que a maior das fés se presta a deixar engolir pelo abismo da razão. Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós, salvo a mais importante: escolhermos como é que queremos sair.

Amanhã é um dia para ganhar. Por uma vez, não porque nos vai levar em frente, não porque há uma História a fazer, mas porque precisamos de nos dar a esse respeito. Porque, mesmo se tudo acabar mal, deve acabar nos nossos termos. Aceito qualquer derrota, mas não aceito qualquer eliminação. Nunca fui jogador, mas não há nada que me confunda mais do que estar lá e não querer saber. Como é que é possível entrar na relva e ser alguma vez indiferente? Quem não joga para ganhar, não é mau profissional, é mau na vida. Se estar no Campeonato do Mundo com o escudo ao peito não for um argumento suficiente, espero que eles ao menos percebam o quanto são pequenos em relação ao resto. O país mais antigo da Europa joga no Brasil apenas o seu sexto Mundial. Gerações de enormes futebolistas, tantos tão maiores do que eles que lá estão, teriam morto pela chance deste Portugal-Gana, fossem quais fossem as circunstâncias. Lembrem-se que parte dos que ali estão não voltará a pisar um Mundial. Lembrem-se que, um dia, quando forem velhos e não vos sobrar mais nada, nem umas férias nem um salário para voltar, não vão querer olhar para trás e envergonharem-se da oportunidade que tiveram a sorte de ter. Representar o país não é vosso mérito; é vosso privilégio. Se vos faltar a vontade, lembrem-se que ela também não nos interessa para nada e tenham a hombridade de correr por todos quantos, no fundo do poço das probabilidades, vão vestir o verde e o vermelho e sofrer até que não haja milagre que nos valha, por todos quantos dariam tudo para lá estar no campo, a poder, ao menos, perder como homens.

Amanhã é um dia para não ser arrogante. Errámos muito, provavelmente para lá da salvação, mas não temos de errar até ao fim. Nunca é tarde para admitir e, fazê-lo, é a maior de todas as provas de dignidade. Consigo respeitar um treinador que quer ganhar com as suas ideias, jamais alguém que prefere perder em vez de mudá-las. Qualquer miúdo de 12 anos já fez o diagnóstico da Selecção. Não temos balanço, uma ideia, nem nada treinado. Não temos capacidade física, nem temos Ronaldo apto. É preciso lucidez para reparar o sistema, coragem para afastar os consagrados. Neste momento, Bruno Alves, Meireles, Veloso, até Moutinho, não têm condições de jogar. É preciso recorrer a quem tenha algo para dar a nível técnico, físico, táctico (Neto, William, Amorim, William, Varela, William, William, William). Se Ronaldo não pode defender, se nem é útil que defenda, requisitem uns vídeos do que Ancelotti inventou no Real. Não é física quântica.

Beto, João Pereira, Pepe, Neto, André Almeida, Nani, William, Amorim, Varela, Ronaldo, Éder. Um 4-4-2 nem sequer porque precisamos de muitos golos, que tem muitas mudanças, mas não porque precisamos de uma lição. Simplesmente porque esse guião e esses actores são aquilo que mais genuinamente nos pode servir agora. Que Paulo Bento, cujo trabalho sempre zelei, perceba que isto não tem de ser uma exibição marcial de lealdade, um hara-kiri irredutível, cuja grandeza só existe na sua própria cabeça. Pode não haver qualificação, mas que haja redenção. O seu serviço não está à cartilha de nomes que elegeu, mas àqueles que sempre respeitaram o seu trabalho. E esses merecem mais.

Amanhã é um dia para saber ganhar mas, sobretudo, para saber perder. Se houver milagre, pois que estejam à altura da transcendência que o tornou possível; decerto que os problemas não terão desaparecido por magia. E não queiram ser vingadores de conferências de imprensa, como se estivessem sozinhos contra o mundo. Mas se cairmos, por pior que seja, tenham respeito, por vocês e por nós. Não lavem roupa suja, não cacem bruxas, não ponham tudo em causa. Nem na derrota temos de ser um bando de perdedores. O eterno Sócrates, pai espiritual do Brasil-82, a melhor selecção que já jogou, disse uma vez que ser campeão é detalhe. Mostrem que jamais iremos embora sem uma luta e, se isto for o fim do ciclo, lembrem-nos porque é que vale a pena ter orgulho nele. Amanhã, no fundo, é tudo muito mais importante do que ganhar ou perder.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Copa, dia 12: a equipa que nunca nos vai trair


Croácia 1-3 México

O futebol é Miguel Herrera a festejar um golo. É ser espoliado por um árbitro e ter um empate suficiente para a qualificação, mas atacar como se a vida dependesse disso. É Rafa Márquez, 35 anos, capitão pelo 4º Mundial seguido, a marcar o golo que mais ninguém podia marcar, a um quarto de hora do fim. É não conhecer o lado feio disto. É continuar a carregar mesmo depois de já se estar na frente. É ter um mundo de gente a abraçar-se nas bancadas como se nunca tivesse sentido nada tão absolutamente. É acreditar que o jogo pelo jogo é um mantra que vale a pena honrar, um romance pelo qual vale a pena lutar. México é castelhano para 'joga bonito'.

À tarde, víramos o cume da adultez competitiva: a Holanda a usar o jogo e a corrompê-lo a seu bel-prazer, a sacrificar o que foi preciso sem sequer hesitar, impenetrável e imbatível. À noite, percebemos que nada pode ser mais diametral do que o confronto que se avizinha nos oitavos: o México é um coração do tamanho de uma equipa de futebol. Uma equipa apaixonada e apaixonante, que só sabe estar em campo de uma maneira, comprometida com o seu ideal de que é preciso viver a 200%, de que é preciso gozar e sentir tudo o que se faz. Nada ali é desonesto, cínico. O México é a equipa que nunca nos vai trair. É o futebol total à flor da pele, o mesmo que um dia, em miúdos, jogamos todos na rua, com o mesmo brilho nos olhos e o mesmo entusiasmo impoluto de devorar o mundo em cada lance, ganhar ou morrer.

Desde o primeiro pontapé, tudo aconselhava prudência e sangue frio aos mexicanos. Estavam na frente, vinham a ser melhores, o prejuízo era croata. Desde o primeiro pontapé, porém, o México colocou-se alegremente do lado contrário ao das próprias odds. Só porque se o futebol é sombrio, deixa de ser futebol. Sangue frio? Como se fosse possível. A última meia-hora é um vendaval memorável, de cujo desnorte os croatas demorarão bastante tempo a recuperar-se. Nada parou aquele tufão futebolístico pejado de compromisso, nem o penalty imperdoável por marcar, até o circo místico ter-se finalmente começado a fechar na cabeçada do capitão. Aconteça o que acontecer, Miguel Herrera já é um símbolo. Obrigado por tudo, El Tri. E toda, toda a sorte do mundo para o que vier.

A Croácia foi uma desilusão. Do pudor da estreia, pese o assalto arbitral, à inferioridade consumada hoje no campo, a cadência do Brasil foi um desafio, afinal, demasiado exigente, mesmo para quem tinha tanto talento. O Mundial é, antes do resto, o sítio dos duros; à Croácia faltou desde o início essa personalidade e essa agressividade competitiva. Hoje, com o México pela frente, a diferença foi como um abismo. À semelhança do Euro-2012, os croatas voltam a deixar uma história por contar, se bem que, agora, tenham de sair pela porta dos fundos.

MÉXICO - Hector Herrera, hoje e sempre. Já sobra pouco a dizer sobre o jogador do Porto e, agora que os elogios se amontoam, resta afirmar o essencial: é o melhor médio do Mundial. Guardado é um parceiro de miolo perfeito, pela meia-esquerda. As suas chegadas à área contrária têm a graça de um bombardeiro. Chicharrito merecia mais minutos. Por fim, Rafa Márquez. Pese a postura abertamente positiva, o México tem mostrado ser uma das grandes defesas da prova. No dia em que isso não era suficiente, o capitão foi à área contrária resolver o jogo. Um líder não se compra e jamais se pode pagar.

CROÁCIA - Perisic foi o melhor croata no Brasil. Com golos, assistências e conexão directa ao jogo, alheia aos humores, o extremo do Wolfsburgo é o clássico jogador de alto rendimento. No talento puro, o que me dói mais é a despedida de Rakitic. Tem classe em cada madeixa de cabelo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Copa, dia 12: keep calm and trust Louis


Holanda 2-0 Chile

Jogo espectacular em potência, com duas das grandes equipas do Mundial até agora, sem a neura da qualificação e com o bónus que era, com toda a probabilidade, evitar o anfitrião nos oitavos-de-final. Infelizmente, foram promessas não cumpridas. O Chile quis mais, mas nunca foi capaz de emprestar ao jogo a sua fúria; a Holanda mandou um autêntico balde de gelo para a relva, sabendo que o empate lhe sobrava. À laia da velha raposa que tem no banco, e graças a um Robben que continua a escrever na relva canarinha uma história especial, a Laranja mataria o jogo no quarto-de-hora final, com o sangue frio dos melhores assassinos.

Foi uma exibição cínica de uma das selecções mais entusiasmantes do torneio. De facto, e quando o momento o pediu, Van Gaal nem hesitou em emprestar ao jogo cada gota do seu pragmatismo. Com Blind a central, Kuyt a lateral-esquerdo! e sem ponta-de-lança, a Holanda foi quase provocadora no seu experimentalismo e num certo alheamento ao jogo. Evidentemente conscientes de que o vento soprava a seu favor, os holandeses pareceram limitar-se a fazer descanso activo, oferecendo ao Chile toda e qualquer iniciativa de jogo. Com um posicionamento sólido, esse bluff serviria para intimidar o adversário que, apesar de muito mais dedicado, nunca se prestou às nuances kamikazes que tanto constituem a sua imagem de marca. Como perceberam depois, de pouco serve jogar xadrez com Van Gaal. O empate chegava, mas a Holanda também previra o exacto momento para fazer o cheque-mate, assim que, por cozê-lo em lume brando, tivesse roubado ao adversário toda a alegria de jogar. Entrados no último quarto-de-hora, 90 segundos em campo foram suficientes para que Leroy Fer concretizasse o plano, através das bolas paradas onde é tão forte. O KO seria um mero fim simbólico assinado por um futebolista excepcional, o único que, no fundo, teve liberdade para jogar sempre no seu próprio mundo. Que Mundial está a fazer Arjen Robben.

Ainda que longe da exuberância do jogo anterior, o Chile merecia melhor sorte. Impecável nos cinco detrás, e com Alexis num grande dia, a equipa acabou por sucumbir na medida em que o adversário lhe tornou o jogo tão desconfortável. Os chilenos são uma equipa de coração na boca que, pura e simplesmente, não sabe especular. Com a Holanda a baixar o ritmo e, maquiavelicamente, a 'recusar' jogar, os homens de Sampaoli perderam as referências e assemelharam-se a peixes fora de água, condenados a sufocar devagar até sucumbirem à armadilha. Daqui para a frente, o Chile nunca será favorito e são essas as circunstâncias que melhor capitalizam o seu jogo. O Brasil será, contudo, imprudente e pouco inteligente se não tiver estado hoje a tirar notas de mais uma perversa lição estratégica de Van Gaal.

HOLANDA - Robben. Que luxo. Até num jogo fechado e armado como este, sem sequer Van Persie a acompanhar, foi impossível negar-lhe o palco. Aos 30 anos, o homem de cristal está melhor do que nunca. É um dos futebolistas de elite que mais melhorou com a idade, logo ele, em tempos tão exposto a lesões e a sub-rendimentos. Hoje, mental e fisicamente assente, o seu futebol é uma imensa proposta irresistível. Ficará na História como um daqueles talentos excelsos que nunca pôde ganhar uma Bola de Ouro. Memphis Depay voltou a entrar muito forte e já é um dos suplentes de luxo da prova.

CHILE - É impressionante que, na Catalunha, o tenham em tão baixa estima. No dia em que se volta a dar como certa a sua partida, Alexis Sanchéz provou novamente que é um avançado de nível mundial. Passe o portento físico, tem tudo e faz tudo, destacando-se o papel na construção que desempenha, sem embaraços, na equipa nacional. Um craque. Mesmo em dia de derrota, é difícil deixar de admirar a postura dos lutadores: Medel lidera a defesa, mas sempre a cuidar da bola; Mena é um pilar na ala-esquerda; e no miolo, por seu turno, é Aranguiz quem acrescenta o toque quente à força legionária.

Copa, dia 11: só o talento pode perverter a lógica


Bélgica 1-0 Rússia

Ter pena de uma equipa de Capello, eis mais um conto para os anais deste Campeonato do Mundo. Num jogo terrivelmente tépido, a abordagem do italiano foi tão boa como seria possível. Consciente do que os diabos vermelhos podiam fazer em qualquer instante, a Rússia começou por ocupar-se muito bem atrás - sem autocarro, com redobrada competência - e soube sempre sair, acabando por controlar o jogo todo e ter as melhores oportunidades em 80 minutos. A Bélgica, por seu lado, limitou-se a ser estremunhada... mas sabemos que se pode dar a luxos reservados a muito poucos. Os flamengos acordaram expressamente para a recta final e, mais uma vez graças ao seu insultuoso talento, ganharam o jogo contra as cordas.

As estreias merecem ser relevadas, as confirmações não. A nível individual, é provável que a Bélgica mereça realmente o estatuto de 5º favorito das apostas; a nível colectivo, as limitações do onze de Wilmots já são hoje evidentes e denunciam que a esperança de vida não vá possivelmente tão longe assim. Dando sequência à boa reacção do primeiro jogo, o seleccionador belga promoveu três alterações aos titulares, com destaque para Fellaini e Mertens, ambos decisivos frente à Argélia. Pela frente estaria o adversário mais credenciado do grupo, mas a equipa já tinha o calo, agora só tinha de valer o bilhete. Uma vez mais, não valeu. Durante a eternidade do jogo, os diabos foram um conjunto errante, assente nos fogachos isolados dos seus fantasistas, um onze incapaz de mandar na partida, porque nem sabia ao certo o que queria dela. Fellaini entrou como duplo pivot, quando é muito mais efectivo junto do avançado; De Bruyne, que é tão vertical, mora a #10, quando parece muito mais um extremo; Lukaku ainda nem chegou ao Brasil. A Bélgica dispensa talento, mas é incontornável o tempo que passa à espera que as peças se limitem a cair magicamente nos sítios certos. Funcionou ontem, mais uma vez, mas a violência das eliminatórias é todo um outro campeonato. Um que dificilmente admite que se joguem aos dados.

Há equipas que fazem treinadores, há treinadores que fazem equipas. A segunda premissa é a Rússia. De facto, dificilmente se vislumbra talento aparente no onze da terra dos czares. O mérito russo é todo ele estratégico, na maneira como a equipa se coloca, lê e avalia o jogo, e tenta tirar partido dele. Depois do frango colossal que custou dois pontos na estreia, um golo em cima da hora foi de uma ingratidão inenarrável. Mesmo assim, ganhar à Argélia será suficiente. Ainda que os magrebinos estejam a dar boa conta de si, compadeço-me sempre da transcendência inerente ao trabalho de um grande treinador. Capello é bom que chegue para fazer acontecer até a estrelinha que ainda não teve.

BÉLGICA - Talento que nunca mais acaba. Impressionante. Mais uma vez, Hazzard no lance que tudo decidiu, ontem com uma jogada perfeitamente extraordinária, a fazer o que um plano inteiro não tinha conseguido. Na sombra de uma equipa que tem sido bem menos total do que se contava, o pequeno génio do Chelsea passa muitos minutos na solitária; ainda assim, podem crer que, se houver um lugar ao sol, ele guia-os até lá. Origi foi de provável não convocado, até à lesão de Benteke, a provável titular, dado o ocaso de Lukaku. O esguio avançado do Lille, 19 anos, foi uma pedrada no charco da equipa pela segunda vez e, desta, marcou mesmo o golo de ouro. Finalmente, porque é normal esquecermo-nos dele, Kompany. A Bélgica vai tendo muito que se lhe diga, mas se sofre de menos, deve-o necessariamente ao melhor central do mundo.

RÚSSIA - Destaques individuais são relativamente redundantes, numa equipa tão competente como a verdadeira acepção da palavra. Salientaria o bom meio-campo: Shatov, nas costas do avançado, tem escola, é objectivo e revela sempre discernimento; Fayzulin, o homem dos equilíbrios, tem pés agradáveis para a posição e muita compostura; Glushakov, a espécie de box-to-box, é efectivamente disponível e está confortável até nos flancos.

Copa, dia 10: cortinas de fumo


Argentina 1-0 Irão

Não pensei viver para ver Queiroz ser o líder de uma 'equipa do povo'. Que o Irão tivesse segurado o nulo a ferro e fogo já seria verdadeiramente notável; que ainda tenha roçado a vitória em 2 ou 3 momentos deixa-me sinceramente boquiaberto. Não sou fã de Queiroz, não lhe reconheço competências humanas, nem acho que seja o treinador de nível mundial que tanto se intitula mas, ao longo da carreira, o português adquiriu realmente competências tácticas e um calejamento de alta competição que, a juntar à sua ambição, sobretudo neste tipo de selecções, pode criar um cocktail acima da média. Nos últimos 6 jogos em campeonatos do Mundo, as suas equipas sofreram... 2 golos: um da Espanha campeã, outro dum extraterrestre. Vénia quando ele a merece. No cume, o episódio incontornável: que o penalty sobre Dejagah não tenha sido marcado é uma vergonha incompreensível. O Mundial parecia ter entrado nos eixos, mas que isto continue a acontecer sempre aos mesmos, num contexto tão limítrofe quanto titânico, é absolutamente devastador.

A Argentina há de estar a suar frio. A estreia com a Bósnia foi miserável, o jogo de Sábado também fala por si. Em ambos, 'o favorito com o melhor ataque' foi uma equipa atrofiada, com o nível estratégico de uma parede. A táctica argentina, por um dia mais, resumiu-se a duas palavras: Lionel Messi. Deu para ontem, deu para hoje, talvez dê para amanhã, mas é certo que chegará o dia em que os relâmpagos de génio do predestinado não poderão maquilhar um tamanho vazio técnico.


Alemanha 2-2 Gana

Há duas ideias centrais que me importam defender: a primeira é que o tropeção da Alemanha foi efectivamente uma grande surpresa. O empate, porém, não torna os homens de Low remotamente menos favoritos, nem lhes pode pôr em causa o que quer que seja. A Alemanha deu, até ver, a maior mostra de superioridade colectiva do Mundial, por piores que tenhamos sido; achar agora que a Mannschaft afinal não é assim tão boa é uma barbaridade. Tal como aconteceu à Holanda frente à Austrália, os níveis de competitividade ressentem-se sempre depois de tamanhas vitórias, sobretudo frente aos que estão identificados como maiores rivais do grupo.

Depois, é evidente o mérito do Gana, o que vai de encontro ao segundo tópico que queria defender. Ao contrário do que muita gente parece achar, por desconhecimento, calhou-nos um grupo tão duro como os da morte. O Gana que, no último Mundial, ficou a centímetros de ser a primeira selecção africana a jogar umas meias-finais, continua a ser, indiscutivelmente, a melhor esquadra do continente. É uma equipa bem orientada, com uma qualidade individual altíssima, agressiva e eminentemente atlética. A chocante derrota inaugural foi só, como tive oportunidade de então constatar, uma partida do destino. A exibição de Sábado, por seu turno, não sendo adquirida, dificilmente pode surpreender quem andasse de olhos abertos. O contexto era desfavorável mas, em vez de pesar, exponenciou-lhes a personalidade. O talento e a espantosa capacidade física fizeram o resto, frente a um adversário que, na minha opinião, também os subestimou. Neste momento, o Gana é claramente mais forte do que Portugal ainda que, em virtude do desastre de ontem, os tenhamos eliminado tanto como a nós próprios.


Nigéria 1-0 Bósnia

A eliminação da Bósnia, à segunda jornada, equivale-me a todos os maiores choques a que o Brasil já deu palco até agora. Teria apostado dinheiro em como os bósnios não só se qualificariam sem problemas, como iam impressionar e, quiçá, dar até uma dor de cabeça à Argentina. A crueza do desfecho, num dos dois grupos mais acessíveis da prova, condenou de forma mais seca tanto a falta de experiência, como a falta de... ambição. A Bósnia ultra-ofensiva, que nos fez vida difícil duas vezes nos últimos quatro anos, teria encontrado o seu espaço neste Mundial. O que vimos, porém, foi uma equipa assoberbada pelo medo de falhar e que, ironicamente, deu o passo para o abismo justamente por causa disso. Por discutível que isto soe, acho que o jogo-chave foi a estreia. Não pelo resultado, que era sempre expectável, mas exactamente pela postura. A Bósnia foi uma sombra triste do que mostrara em tempos e, alegadamente mais madura e resultadista, contentou-se a especular com o empate. Devia ter sabido que, no Mundial, mais do que em qualquer outra paragem, a sorte protege os audazes.

Na negra, uma Nigéria que é evidentemente inferior, mas que não tinha nada a perder, escalou esse drama existencial. Claro que há um golo mal anulado a Dzeko e há, ainda mais, aquela desoladora bola ao poste no último segundo, mas o essencial estava contado. A Bósnia não foi ambiciosa quando devia, e já não teve tempo quando o quis. Uma pena.