segunda-feira, 30 de junho de 2014

Copa, dia 17: a Grécia não pôde ganhar à Grécia

 

Costa Rica 1-1 Grécia (5-3, agp)

Não sei se nalgum momento dos últimos 10 anos pensei realmente escrever isto mas, hoje, tive pena deles. Só houve uma equipa em campo a querer ganhar e a trabalhar realmente para isso, não porque foi obrigada, não porque teve de correr atrás do prejuízo, mas porque a isso se prestou desde o início, por honestidade e por convicção competitiva. Não sei se o percurso acidentado e a saída inglória lhe farão justiça mas, pese o seu ADN, todas as suas deficiências e o próprio preconceito generalizado, a Grécia deve ser lembrada como uma equipa que dignificou o jogo e que, não só mereceu chegar às eliminatórias, como devia ter estado entre as oito mais fortes. Os helénicos foram sempre positivos e foram melhores em três dos seus quatro jogos. Esqueçam tudo o que sabiam deles. Fernando Santos fez um trabalho notável com os recursos e a mentalidade que tinha à disposição e transformou a Grécia para muito melhor... só para vê-la ruir perante um adversário que usou os seus antigos segredos como um guião: muito esforço, futebol em metade do campo, um grande guarda-redes e um tiro de sorte, jogar em inferioridade e ganhar nos penalties. Nada pode ser tão irónico quanto o destino.

Não se pense que estou aqui a diabolizar a Costa Rica, porque isso jamais seria possível. Os ticos serão sempre a grande história deste Brasil. A equipa que nunca ninguém respeitou, mas que, do fundo do grupo da morte, chega a uns quartos-de-final após desterrar três campeões do Mundo e um campeão da Europa. Falaremos sempre deles com o carinho que eles merecem e a odisseia segue aí, viva. A minha única tese é que o futebol não pode ser dogmático, nem nos heróis, nem nos vilões. Na antecâmara, claro que teria sempre ratificado este resultado, mas jamais consigo ficar indiferente à competência. A relva é como o algodão, não engana. E, por mais que eu respeite a Costa Rica, hoje não era um papão que estava do outro lado, mas uma equipa real quanto baste, humana, uma equipa que merecia, pelo menos, alguma devoção de crédito. Depois do brilhantismo da estreia, tudo o que os homens de Jorge Luis Pinto tinham de fazer era sobreviver, a todo o custo, forjando a ferro e fogo que tinham nervo para levar as promessas até ao fim. Hoje, pelo contrário, era o dia para a Costa Rica voltar a jogar, voltar a ser alegre, voltar a mostrar porque é que nos conquistou. Seja por incapacidade, seja por mérito adversário, seja porque se convenceu do cinismo, não aconteceu.

Até ao golo pincelado de Bryan Ruiz, a equipa manteve-se a uma distância segura do jogo, especulando com as dádivas que ele lhe pudesse dar. Nunca pôs ideias em campo, nunca foi atrás da sorte. Quando a sorte por acaso lhe calhou, foi como se o jogo já tivesse acabado, o que só piorou com a expulsão de Óscar Duarte. A Grécia foi em crescendo. Carrilou sempre mais jogo, teve a única oportunidade da primeira-parte, sofreu contra a corrente e, depois, abateu um volume ofensivo em tempos inimaginável sobre o adversário. Os gregos têm um ataque algo primário, sem muita criatividade, mas com muita vontade e muito carácter. Sob todos os prismas, é difícil ficar indiferente ao que foram fazendo no Brasil, à valia da equipa e ao mérito de Fernando Santos. O golo nos descontos foi uma orgulhosa reminiscência muito sua, um vestígio do seu sangue perverso de tantas outras noites e, por uma vez, fez-lhes jus, deixando o cheque-mate suspenso no ar. No entanto, era só um presente envenenado. A Grécia ainda não deve ter percebido como é que não ganhou no prolongamento (24 remates contra 6, 57% de posse de bola...) mas, chegados aos penalties, só era, afinal de contas, o seu jogo para perder. Uma década depois de ter sabotado todos os que lhe apareceram pela frente, foi amoralmente no momento da redenção que a Grécia encontrou uma das suas mais dramáticas derrotas.

GRÉCIA - Holebas foi talvez o melhor lateral-esquerdo deste Campeonato do Mundo. Explosão, intensidade, técnica, um comboio verdadeiramente incansável com soluções técnicas de fazer inveja aos mais avançados. Brilhante. Lazaros, na extrema direita, foi o outro fórmula 1 da equipa. Com jogo de cintura e uma finta curta e objectiva, tem um pulmão insuperável e vende pragmatismo. Aos 37 anos, Karagounis correu 12km e encheu verdadeiramente o campo. A criatividade da juventude trocou-a pela maturidade táctica, pela capacidade de trabalho e pelos dons da construção a partir de trás. O capitão bem mereceu despedir-se de outra maneira. Muito bom jogo dos centrais também - Manolas e Sokratis - e peso sempre indiscutível de Samaras e das suas viagens menos ortodoxas pelo último terço.

COSTA RICA - A vitória tem um nome: Keylor Navas já era, com propriedade, um dos grandes guardiões deste Mundial. Hoje chegou-se verdadeiramente à elite, com duas defesas monumentais, a primeira a segurar o 0-0, a segunda a garantir os penalties que ele próprio viria a decidir, com a derradeira parada de ouro. Já dissera anteriormente que a Costa Rica pode não ter muitas individualidades, mas que tem a sorte das principais corresponderem. Hoje tal não poderia ter ficado mais claro, sobretudo quando a isto se juntou aquele bilhete delicioso de Bryan Ruiz.

domingo, 29 de junho de 2014

Copa, dia 17: corazón partío

 

Holanda 2-1 México

Foi o que de mais parecido este Mundial já ofereceu a um episódio da Guerra dos Tronos. Estava tudo bem, era como se já tivesse acabado e, por uma vez, o herói ia ganhar. Ochoa voltara a ser um extraterrestre, houve a centelha de génio na frente e o resto era a obra do carácter único de uma equipa com a qual já tínhamos aprendido a sonhar. Sem a hipertensão com que contáramos, num certificado de maturidade e competência, o México ia mesmo concretizar serenamente um destino surpreendente mas que todos quantos o têm visto sabiam ser verdadeiramente possível. Os últimos cinco minutos são uma bastonada no corpo todo. A sensação de impotência foi grotesca, o requinte maquiavélico do fim engoliu-nos por dentro e restou-nos ficar a olhar para o ecrã adormentados, esmagados perante o choque. O sonho acabara-nos de ser arrancado ali, sem aviso e à traição, como numa armadilha crua que, afinal, nunca poderíamos ter ganho.

O jogo foi diferente do que se podia prever. Nem os mexicanos conseguiram emprestar-lhe a sua notável dinâmica, nem a Holanda soube ser elegante com bola. Pelo menos até ao golo de Giovanni, foi uma partida pragmática e renitente ao risco, com ambas as equipas, em 3-5-2, a conservarem linhas baixas, a pressionarem pouco e a privilegiarem o equilíbrio, ou seja, a mandarem gelo sobre o campo, num dos dias em que, de resto, o calor também foi uma das mais incontornáveis condicionantes. Num perfil mais próximo do que a Holanda sabe fazer, o México foi, contudo, mais perigoso. Com paciência e menos excesso, os tricolores perceberam que defendiam melhor do que o adversário e que, afinal de contas, o registo podia-lhes até servir melhor. O 1-0, apesar de não decorrer dum domínio claro, foi o corolário da única equipa que tinha tido efectivamente oportunidades para marcar.

É um lugar-comum dizer que os golos mudam as equipas, mas há, de facto, uma Holanda antes e outra depois do golo sofrido. Três jogos depois da goleada ao Campeão do Mundo, a Laranja é hoje uma charada táctica que começa a ser difícil de compreender. Van Gaal tem usado dois sistemas por jogo e rodado peças com uma compulsão que até aos jogadores me parece estranha de assimilar. Kuyt e Blind, por exemplo, jogaram hoje em três posições diferentes!?, o que é, pelo menos, bastante inortodoxo. Nesta alienação teórica, a Holanda pareceu, até ao golo mexicano, simplesmente convencida de que o tempo corria a seu favor, de que um golpe dos génios estaria sempre no fim da história. E estava certa, mesmo que por linhas tortas. Pelo que fizeram na última meia-hora, os holandeses justificaram a chance. Mesmo sem o compasso de outras tardes, a equipa foi com tudo o que tinha e acabou por triunfar nos seus próprios termos: pelo génio dos seus ases - melhor jogo de Sneijder no Mundial, mais o Robben normal - e pelo seu extraordinário sangue frio.

No segundo do empate, achei honestamente que o prolongamento era justo. Que se uma destas duas enormes equipas tinha de cair, pois que a outra sofresse e o honrasse o suficiente. O futebol, porém, tinha em mente outro tipo de sacrifício. Mais radical, finito. Definitivamente mais cruel. O adeus do México seria sempre um dia triste. Só não tinha de ser desumano.

MÉXICO - Deus Ochoa, ou 'Oshowa', como lhe chamaram os brasileiros na semana passada, fez mais uma partida inesquecível. Ir embora nos oitavos é como ficar em 4º nos Jogos Olímpicos: é já teres uma história, mas morreres na praia do reconhecimento. Não há ninguém no México que merecesse mais a qualificação histórica do que o melhor guarda-redes do Mundial. Mesmo que em apenas quatro jogos, porém, as suas paradas insuperáveis serão lembradas para a posteridade. Na próxima época, estará numa equipa à sua altura. Num dia de futebol ingrato, que tenha sido Rafa Márquez a fazer o penalty fatal é outra perversão. O capitão foi sempre uma bandeira desta campanha e, hoje, fez mais uma exibição quase perfeita. Que pena. Muito bom jogo de Guardado no meio, outro dos que sai bastante valorizado. E golaço de Giovanni dos Santos, naqueles lances de génio que, por mais interminente que seja a sua carreira, podemos sempre acreditar que moram por lá.

HOLANDA - Mesmo quando tudo se torna confuso, podemos sempre confiar na simplicidade do talento. Por um dia mais, Arjen Robben voou quase sozinho rumo às estrelas. Nunca me posso cansar de dizer que há muitos grandes jogadores, mas que ele é um dos excelsos predestinados. Foi o seu génio vertiginoso que guiou a Holanda à sua sorte. No momento mais sensível da equipa até agora, apareceu Sneijder. O Pequeno Genial tem andado muito distante do Brasil, num modelo que, de resto, também não sabe exactamente o que lhe pedir. Hoje, porém, desdobrou-se no que foi preciso e propeliu todos à sua volta, mais o grande golo. Depay é mesmo uma das revelações da prova e começa a exasperar pela titularidade. Mais uma exibição do suplente de luxo, na ala esquerda.

sábado, 28 de junho de 2014

Mata-mata


Onze da primeira fase [3-4-3]:  

Ochoa (México); 
Rafa Márquez (México), Medel (Chile), Óscar Duarte (Costa Rica); 
Robben (Holanda), Herrera (México), Matuidi (França), James (Colômbia); 
Messi (Argentina), Benzema (França), Neymar (Brasil)

T: Miguel Herrera (México)

Parte da alma do Mundial acabou anteontem para a posteridade, na energia inenarrável dos três e quatro jogos por dia e dos 32 sonhos diferentes em campo. O Brasil 2014 tem sido um espectáculo ainda maior do que prometeu: um jorro de futebol inacreditável, regado com uma média de golos lendária, um lugar de jogos históricos, de surpresas irresistíveis e de filosofias que morrem, de uma identidade muito própria, o naufrágio europeu aos pés do Novo Mundo, e um palco de ídolos que chovem como ases. Perfeito. Agora que retomamos o fôlego, contudo, é hora de dizer que hoje começa outro Mundial. Outra face do planeta futebol, porventura menos eufórica, mas brutalmente mais intensa, os jogos de nervos em que cada segundo mata ou morre, na relva onde já não há segundas oportunidades. Agora só há lugar para quem falar a sério. Ficam as apostas:

Brasil-Chile. O Brasil vai ganhar mas só porque tem mesmo, mesmo de ganhar. Depois duma fase de grupos amorfa, a Canarinha teve o azar de encontrar de chofre um dos mais terríveis segundos classificados. O Chile fará a vida negra a Scolari - vai marcar, nunca se vai descompor e um prolongamento não está fora da mesa - mas, mais pela magnitude do contexto do que pela sua efectiva superioridade, o Brasil está condenado a seguir em frente. Nem os apocalipses podem ser prematuros.

Colômbia-Uruguai. Acredito que o destino do jogo se escreveu no momento em que a FIFA puniu Suárez como ele merecia. Claro que menosprezar o Uruguai seria um erro imenso e, se há um sobrevivente no Brasil, é o conjunto de Tabárez; sem o vampiro, contudo, a equipa fica desterrada e literalmente sem presas. Não me parece, por isso, que possa responder àquela que é uma das três grandes selecções do Mundial até agora. Menos experiente, menos agressiva e menos cínica, a Colômbia é, no essencial, uma equipa brilhantemente idealizada, senhora de uma monumentalidade de talento que parece desafiar quaisquer convenções.

Holanda-México. Declaradamente a tripla dos oitavos, pelo nível excepcional que ambos estão a apresentar. É, aliás, criminoso que Holanda ou México tenham de ir já embora. A Laranja é aquele 5-1. Tem um treinador de classe planetária, uma equipa equilibradíssima e dois génios na forma das suas vidas. Ainda vice-campeã em título, é quem tem mais responsabilidades e será a teórica favorita. Honestamente, porém, digo sempre que será um 50/50. Não há um parâmetro do jogo em que este México não seja excelente (capacidade defensiva, coesão táctica, pressão, dinâmica do miolo, golos) e, no resto, estamos a falar de um coração gigante em forma de equipa. Os mexicanos são mais inocentes mas igualmente mais intensos, talvez piores no ataque, se calhar melhores no resto e nunca, nunca vão desistir. É este o jogo que ninguém pode perder. E sim, voto México.

Costa Rica-Grécia. O feel-good game da eliminatória. Duas equipas que não deviam cá estar mas que, por honesta competência, merecerão cada bocado do seu lugar ao sol. Pela rodagem, a favorita é esta Grécia, diferente de outros tempos, sempre assombrante mas, hoje, a jogar mais do que se pensa. Seja como for, este não é, por certo, o Mundial dos estatutos e ninguém o provou mais ostensivamente que os ticos. Vencedores sem derrotas do grupo da morte, com um futebol quente e atraente, os homens de Jorge Luis Pinto são a lenda maior deste Brasil e acredito que será ela a subsistir.

França-Nigéria. Os campeões africanos terão o prazer de despedir-se frente a uma das mais espectaculares equipas do torneio e um dos sinceros candidatos ao título.

Alemanha-Argélia. Segundo take da conferência UE-África e necessariamente o mesmo desfecho, até ao titânico embate franco-alemão dos quartos-de-final.

Argentina-Suíça. Messi resolve, ainda que sobre alguma curiosidade para ver como é que a Alviceleste, com tanto provar, se comporta perante o seu adversário mais exigente até agora. A Suíça é uma equipa positiva e talentosa que pode sempre pregar uma partida mas, sinceramente, a derrota com a França parece feri-la de morte. Os alpinos mostraram-se, aí, terrivelmente macios e desequilibrados em desvantagem, com o resultado que se sabe, e nunca puderam criar o élan que se lhes antecipava. Mesmo com um treinador primário e cheia de interrogações, o talento individual e o calendário parecem condenar a Argentina a mais um final feliz.

Bélgica-EUA. Que as odds estejam sempre a seu favor deve ser o lema dos belgas. A equipa mais antecipada do Brasil 2014 foi presenteada com o grupo mais fácil da primeira fase e a verdade é que ficou-nos a dever o bilhete. Sem uma visão colectiva e sem autoridade sobre o jogo, sem um único momento de afirmação cabal, os belgas viriam a fazer o pleno com base exclusivamente no talento abusivo dos seus jogadores. Os oitavos antecipam-se como o enésimo episódio da série. Os Estados Unidos fizeram um apuramento digno, mas são uma equipa de demasiado baixo alcance para transtornar uma Bélgica infinitamente mais talentosa e, ainda por cima, moralizada. Os homens de Wilmots chegarão longe antes de terem realmente de provar alguma coisa.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Copa, dia 15: os bem-aventurados


Estados Unidos 0-1 Alemanha

O dia fica indiscutivelmente marcado pela qualificação de duas equipas que, mais do que não serem favoritas, eram consideradas as mais frágeis dos respectivos grupos. Aqui, o feito dos Estados Unidos é tanto mais impressionante: num dos grupos da morte, os americanos deram conta de afastar um semi-finalista do último Europeu e a ainda melhor selecção africana, sem disporem de quaisquer recursos que nos fizessem acreditar que isso era minimamente possível. Um desfecho destes nunca pode ser linear e tem, sem dúvida, um sem número de condicionantes, nomeadamente o demérito dos mais fortes e um vestígio de sorte. De facto, os Estados Unidos usufruíram de ambos, nomeadamente na vitória impossível da estreia quando, sem merecerem sequer empatar, ganharam nos descontos, com um canto chutado do céu. Seja como for, nunca abdicarei do princípio de que quem cumpre, justifica-o sempre. O jogo com Portugal provou isso mesmo. A equipa estudou, foi solidária e, em boa parte, fez a sua própria sorte. Não me parece que os americanos possam sobreviver a qualquer eliminatória, mas a passagem é extraordinária. Depois do 3º lugar em 2006, e à sua devida escala, Klinsmann volta a dar cartas num Mundial.

Da Alemanha, ressalvar a inatacável altivez competitiva. Assim que se começaram a vilipendiar as possibilidades de um arranjo entre as duas equipas, que as qualificasse às duas, tive vontade de rir. Só quem não faz rigorosa ideia do que é mentalidade alemã podia assombrar-se com isso. Mesmo em ritmo de cruzeiro, Low bateu o homem de quem um dia foi adjunto e ganhou o grupo como se lhe exigia. Todavia, depois do apocalipse da estreia, é hoje menos líquido o alcance desta Mannschaft, ainda que estar entre os oito melhores tenha de ser uma mera formalidade. Uma nota obrigatória para Thomas Muller: 9 jogos, 9 golos em Mundiais, aos 24 anos. Tão discreto quanto surrealmente eficiente, é um avançado - assim, em termos latos - realmente bestial. A máquina não podia ter melhor porta-estandarte.


Argélia 1-1 Rússia

É um desfecho igualmente impressionante, mesmo que os argelinos chegassem ao jogo decisivo em condições mais favoráveis, a precisarem de um único ponto para concretizarem o sonho. Acontece que a Argélia era velada no grupo do Irão e das Honduras, como a tríade de selecções rotundamente piores a estarem presentes no Brasil. Os homens de Vahid Halilhodzic até se prestaram a chocar o mundo no dia inaugural, batendo ao intervalo a super-Bélgica mas, tanto a remontada, como esse penalty caído do céu, por entre um deserto de futebol, pareciam destinar-lhes a mesma sorte. Por acaso, Rússia e Coreia não fizeram melhores coisas, pelo que o segundo jogo, contra os asiáticos, acabou por ser o oásis das Raposas do Deserto. Halilhodzic mudou meia equipa e acabou com uma goleada impensável: foi a primeira vez que uma equipa africana marcou 4 ou mais golos num Campeonato do Mundo. Hoje, eram realmente os norte-africanos a chegar moralizados mas, mesmo nestes termos... do outro lado estava Capello. No global, será justo reconhecer que a Argélia não foi a equipa mais forte em campo. Esteve a perder, foi ressuscitada pelo seu grande guarda-redes - M'Bolhi - e só subsistiu com muita vontade, até encontrar a porta para o paraíso na cabeça de Slimani. O avançado do Sporting voltou a ser decisivo e fez História: este foi o primeiro apuramento de sempre da Argélia para uma segunda fase. Notável.

A Rússia sai pelos fundos e deixa em aberto o reinado de Capello, depois de tamanho falhanço. Tal como no Euro-2012, a equipa foi desfeiteada no último jogo dos grupos, quando tinha todas as condições para passar. Por uma vez, Capello teve honestamente azar. Os russos, sem talento visível, e depois de terem perdido o seu melhor jogador à 25ª hora, foram superiores aos respectivos adversários em todos os três jogos!, o que dá que pensar. Não muito melhores, mas mais inteligentes, melhor preparados, no controlo. A verdade é que todos os tiros saíram pela culatra. A equipa marcou menos do que devia, nunca teve sangue frio, sofreu golos verdadeiramente indigestos e, como se não bastasse, foi vítima dos erros imperdoáveis do seu guarda-redes, Akinfeev, um dos homens que certamente mais desterrados sairão do Brasil. No fim, porém, as contas são sempre cruas. Don Fabio chegou ao Brasil com os honorários de treinador mais bem pago da competição, a Rússia com os pergaminhos históricos e com o diploma de qualificada directa. Num grupo destes, nem com todo o azar do mundo podia ter acabado assim.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Copa, dia 14: a canhota dos ricos, a dignidade dos pobres


Honduras 0-3 Suíça

Num dos dias mais pacíficos do Campeonato do Mundo, com os destinos decididos ou razoavelmente encaminhados, o palco foi de duas figuras maiores. Depois do trauma napoleónico, a Suíça estava bem ciente da tragédia que era poder falhar, quando tinha uma passadeira vermelha estendida. O estado emocional da equipa, todavia, deixou muito cedo de ser um problema, assim que o seu pequeno touro meteu da direita para o meio e, a 25 metros, desolou as redes hondurenhas com um dos golos do torneio. Seria o início de um dia histórico para Xherdan Shaqiri. O criativo do Bayern voltaria a marcar por duas vezes, em unha e carne com o ponta-de-lança Drmic que, por sua vez, bisou nas assistências. Depois de quatro! más campanhas sucessivas, a pior de todas a não qualificação para o último Europeu, Der General Hitzfeld qualificou finalmente a equipa para as eliminatórias, naquela que deverá a ser a sua despedida, e frente ao próprio adversário que lhe sabotara os planos há quatro anos. A Suíça tem um plantel de muito bom nível e uma equipa bem organizada, que teve o mérito de saber valer-se do talento, sendo um justo qualificado. Ainda assim, a derrota com a França pesará sob qualquer julgamento e mancha no ar a ideia de que os suíços deixaram, na verdade, coisas importantes por provar. No papel, bater esta Argentina não é, na verdade, uma tarefa impossível, mas se sugerirem sequer dificuldades na transição defensiva, os suíços acabarão dizimados.


Nigéria 2-3 Argentina

Com a equipa já qualificada, Alejandro Sabella decidiu, mesmo assim, manter o onze argentino inalterado, certamente consciente do tanto que ainda tem a mostrar e de que todos os minutos podem ser úteis para engrenar. Por um dia mais, contudo, o suspeito do costume roubou a festa: este também já é o Mundial de Leo Messi. Numa equipa com pouco que a valha a não ser o talento cru, a Pulga tem-se dedicado a resolver jogo sobre jogo, como numa jornada incansável, em jeito de missão. Depois dos momentos assombrosos das duas primeiras jornadas, foi a vez de um Messi, hoje mais relaxado, servir um bis para sobremesa. A Suíça é superior a qualquer rival do grupo F, mas ainda não será exactamente o adversário que pode pôr tudo em causa. Seja como for, já sabemos que há Messi. E isso diz muita, muita coisa. O único parâmetro que se equivaleu ao #10 viria a ser a compostura nigeriana. De facto, os campeões africanos foram de ganas ao jogo, recuperaram duas desvantagens e, sinceramente, mereciam melhor sorte. A Nigéria, é bom lembrar, não era favorita à passagem e, não só se qualifica com dois clean sheets, como ainda jogou taco a taco com um dos candidatos. É, possivelmente, uma das surpresas mais subvalorizadas da prova. Não parece, contudo, possível ter estaleca para segurar o TGV que aí vem.


Equador 0-0 França

A França fez alterações e esteve na mesma em alta rodagem, tornando redundante o que já se sabia: a equipa sobeja talento, motivação e confiança (e até Pogba, que ainda faltava, já está em evidente crescendo). Só uma hecatombe pode prevenir que esteja, no pior dos casos, no grupo dos oito melhores. Só não ganhou hoje porque encontrou pela frente aquele que é, até ver, o mais altivo de todos os eliminados. Na crónica do jogo com as Honduras escrevi que, acontecesse o que acontecesse, os equatorianos já não envergonhariam ninguém. Hoje eles fizeram questão de provar-me verdadeiramente certo. Frente a um adversário tremendo, que quis mesmo ganhar o jogo, o Equador deu uma extraordinária demonstração de carácter, sobre todas as suas circunstâncias. À meia hora, a Suíça já ganhava por dois no outro campo, aos 60', Antonio Valencia expulsou-se  - a estrela foi, de muito, muito longe, o pior de todos - e, mesmo assim, foi irresistível a demonstração dos últimos 20 minutos. Em inferioridade, os homens de Reinaldo Rueda não só defenderam com tudo o que tinham (o guardião Domínguez foi uma das estrelas do torneio), como responderam para ganhar como se este fosse o seu Maracanã. É por equipas como o Equador que o Brasil 2014 está a ser um sítio tão memorável.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Amanhã


Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós. Sermos muito melhores do que até agora é só a parte fácil. Precisamos de uma abusiva ajuda adversária e precisávamos, tanto pior, que os rivais directos, que tão mais capazes têm sido, decidissem, logo amanhã, deitar tudo a perder. O milagre do apuramento não é mais do que uma linha de equilibrismo impossível, em que a maior das fés se presta a deixar engolir pelo abismo da razão. Amanhã há muitas coisas que não dependem de nós, salvo a mais importante: escolhermos como é que queremos sair.

Amanhã é um dia para ganhar. Por uma vez, não porque nos vai levar em frente, não porque há uma História a fazer, mas porque precisamos de nos dar a esse respeito. Porque, mesmo se tudo acabar mal, deve acabar nos nossos termos. Aceito qualquer derrota, mas não aceito qualquer eliminação. Nunca fui jogador, mas não há nada que me confunda mais do que estar lá e não querer saber. Como é que é possível entrar na relva e ser alguma vez indiferente? Quem não joga para ganhar, não é mau profissional, é mau na vida. Se estar no Campeonato do Mundo com o escudo ao peito não for um argumento suficiente, espero que eles ao menos percebam o quanto são pequenos em relação ao resto. O país mais antigo da Europa joga no Brasil apenas o seu sexto Mundial. Gerações de enormes futebolistas, tantos tão maiores do que eles que lá estão, teriam morto pela chance deste Portugal-Gana, fossem quais fossem as circunstâncias. Lembrem-se que parte dos que ali estão não voltará a pisar um Mundial. Lembrem-se que, um dia, quando forem velhos e não vos sobrar mais nada, nem umas férias nem um salário para voltar, não vão querer olhar para trás e envergonharem-se da oportunidade que tiveram a sorte de ter. Representar o país não é vosso mérito; é vosso privilégio. Se vos faltar a vontade, lembrem-se que ela também não nos interessa para nada e tenham a hombridade de correr por todos quantos, no fundo do poço das probabilidades, vão vestir o verde e o vermelho e sofrer até que não haja milagre que nos valha, por todos quantos dariam tudo para lá estar no campo, a poder, ao menos, perder como homens.

Amanhã é um dia para não ser arrogante. Errámos muito, provavelmente para lá da salvação, mas não temos de errar até ao fim. Nunca é tarde para admitir e, fazê-lo, é a maior de todas as provas de dignidade. Consigo respeitar um treinador que quer ganhar com as suas ideias, jamais alguém que prefere perder em vez de mudá-las. Qualquer miúdo de 12 anos já fez o diagnóstico da Selecção. Não temos balanço, uma ideia, nem nada treinado. Não temos capacidade física, nem temos Ronaldo apto. É preciso lucidez para reparar o sistema, coragem para afastar os consagrados. Neste momento, Bruno Alves, Meireles, Veloso, até Moutinho, não têm condições de jogar. É preciso recorrer a quem tenha algo para dar a nível técnico, físico, táctico (Neto, William, Amorim, William, Varela, William, William, William). Se Ronaldo não pode defender, se nem é útil que defenda, requisitem uns vídeos do que Ancelotti inventou no Real. Não é física quântica.

Beto, João Pereira, Pepe, Neto, André Almeida, Nani, William, Amorim, Varela, Ronaldo, Éder. Um 4-4-2 nem sequer porque precisamos de muitos golos, que tem muitas mudanças, mas não porque precisamos de uma lição. Simplesmente porque esse guião e esses actores são aquilo que mais genuinamente nos pode servir agora. Que Paulo Bento, cujo trabalho sempre zelei, perceba que isto não tem de ser uma exibição marcial de lealdade, um hara-kiri irredutível, cuja grandeza só existe na sua própria cabeça. Pode não haver qualificação, mas que haja redenção. O seu serviço não está à cartilha de nomes que elegeu, mas àqueles que sempre respeitaram o seu trabalho. E esses merecem mais.

Amanhã é um dia para saber ganhar mas, sobretudo, para saber perder. Se houver milagre, pois que estejam à altura da transcendência que o tornou possível; decerto que os problemas não terão desaparecido por magia. E não queiram ser vingadores de conferências de imprensa, como se estivessem sozinhos contra o mundo. Mas se cairmos, por pior que seja, tenham respeito, por vocês e por nós. Não lavem roupa suja, não cacem bruxas, não ponham tudo em causa. Nem na derrota temos de ser um bando de perdedores. O eterno Sócrates, pai espiritual do Brasil-82, a melhor selecção que já jogou, disse uma vez que ser campeão é detalhe. Mostrem que jamais iremos embora sem uma luta e, se isto for o fim do ciclo, lembrem-nos porque é que vale a pena ter orgulho nele. Amanhã, no fundo, é tudo muito mais importante do que ganhar ou perder.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Copa, dia 12: a equipa que nunca nos vai trair


Croácia 1-3 México

O futebol é Miguel Herrera a festejar um golo. É ser espoliado por um árbitro e ter um empate suficiente para a qualificação, mas atacar como se a vida dependesse disso. É Rafa Márquez, 35 anos, capitão pelo 4º Mundial seguido, a marcar o golo que mais ninguém podia marcar, a um quarto de hora do fim. É não conhecer o lado feio disto. É continuar a carregar mesmo depois de já se estar na frente. É ter um mundo de gente a abraçar-se nas bancadas como se nunca tivesse sentido nada tão absolutamente. É acreditar que o jogo pelo jogo é um mantra que vale a pena honrar, um romance pelo qual vale a pena lutar. México é castelhano para 'joga bonito'.

À tarde, víramos o cume da adultez competitiva: a Holanda a usar o jogo e a corrompê-lo a seu bel-prazer, a sacrificar o que foi preciso sem sequer hesitar, impenetrável e imbatível. À noite, percebemos que nada pode ser mais diametral do que o confronto que se avizinha nos oitavos: o México é um coração do tamanho de uma equipa de futebol. Uma equipa apaixonada e apaixonante, que só sabe estar em campo de uma maneira, comprometida com o seu ideal de que é preciso viver a 200%, de que é preciso gozar e sentir tudo o que se faz. Nada ali é desonesto, cínico. O México é a equipa que nunca nos vai trair. É o futebol total à flor da pele, o mesmo que um dia, em miúdos, jogamos todos na rua, com o mesmo brilho nos olhos e o mesmo entusiasmo impoluto de devorar o mundo em cada lance, ganhar ou morrer.

Desde o primeiro pontapé, tudo aconselhava prudência e sangue frio aos mexicanos. Estavam na frente, vinham a ser melhores, o prejuízo era croata. Desde o primeiro pontapé, porém, o México colocou-se alegremente do lado contrário ao das próprias odds. Só porque se o futebol é sombrio, deixa de ser futebol. Sangue frio? Como se fosse possível. A última meia-hora é um vendaval memorável, de cujo desnorte os croatas demorarão bastante tempo a recuperar-se. Nada parou aquele tufão futebolístico pejado de compromisso, nem o penalty imperdoável por marcar, até o circo místico ter-se finalmente começado a fechar na cabeçada do capitão. Aconteça o que acontecer, Miguel Herrera já é um símbolo. Obrigado por tudo, El Tri. E toda, toda a sorte do mundo para o que vier.

A Croácia foi uma desilusão. Do pudor da estreia, pese o assalto arbitral, à inferioridade consumada hoje no campo, a cadência do Brasil foi um desafio, afinal, demasiado exigente, mesmo para quem tinha tanto talento. O Mundial é, antes do resto, o sítio dos duros; à Croácia faltou desde o início essa personalidade e essa agressividade competitiva. Hoje, com o México pela frente, a diferença foi como um abismo. À semelhança do Euro-2012, os croatas voltam a deixar uma história por contar, se bem que, agora, tenham de sair pela porta dos fundos.

MÉXICO - Hector Herrera, hoje e sempre. Já sobra pouco a dizer sobre o jogador do Porto e, agora que os elogios se amontoam, resta afirmar o essencial: é o melhor médio do Mundial. Guardado é um parceiro de miolo perfeito, pela meia-esquerda. As suas chegadas à área contrária têm a graça de um bombardeiro. Chicharrito merecia mais minutos. Por fim, Rafa Márquez. Pese a postura abertamente positiva, o México tem mostrado ser uma das grandes defesas da prova. No dia em que isso não era suficiente, o capitão foi à área contrária resolver o jogo. Um líder não se compra e jamais se pode pagar.

CROÁCIA - Perisic foi o melhor croata no Brasil. Com golos, assistências e conexão directa ao jogo, alheia aos humores, o extremo do Wolfsburgo é o clássico jogador de alto rendimento. No talento puro, o que me dói mais é a despedida de Rakitic. Tem classe em cada madeixa de cabelo.