quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sonho de uma noite de Verão


'Miúdos, eu tinha 23 anos e já tinha visto umas coisas. A Copa, mesmo assim, foi um sonho especial muito antes de acontecer, foi, no fundo, o sonho bonito que eu nunca iria cumprir. Para quem ama isto, o Mundial do Brasil era a proposta irrecusável, a mera sugestão que, nos anos que a antecederam, se dedicara a inebriar-nos. A Copa era o calor e todas as cores, era o futebol do copo na mão e do samba nos pés, para ver na praia com um sorriso na cara e fazer aquilo de lés a lés, até às noites longas que nunca acabariam verdadeiramente, recheadas de todas as promessas do mundo. O Mundial do Brasil era a história que só um louco não quereria viver. Como em qualquer idealização, porém, tendemos quase sempre a romantizar tudo de mais. Queríamos tanto, que aquela Copa já nos devia tudo antes sequer de começar. Racionalmente, ela jamais poderia ter vivido à altura das expectativas. Miúdos, eu tinha 23 anos e já tinha visto umas coisas. Nunca tinha visto nada assim.

Não tive tempo para escrever remotamente tudo o que gostaria, e nunca me vou perdoar por isso, apesar das muitas horas dedicadas a rascunhar três jogos por dia, com o Spotify a derramar-me Bossa Nova nos ouvidos, com a graça de quem diz que gosta de mim. Todavia, nas forjas da Terceira Revolução Digital, este foi o Mundial mais universal de sempre, a Copa do Facebook e do Twitter, dos bits, dos vídeos e dos memes. Foi a Copa mais democrática, mais instantânea, mais popular. Foi o Mundial total. Não sei como é que será o futebol quando me estiverem a ler, daqui a muitos anos, mas foi aqui que começou. Para a minha geração, o Brasil foi uma ponte entre o fim da Faculdade e o primeiro trabalho e foi, portanto, a minha última oportunidade antes de ir ser adulto. Vi os jogos 'todos' e, ainda que a 7000 km de distância, vivi irresistivelmente a intensidade desse turbilhão, com aquele fascínio de quem só quer fazer modesta parte de algo demasiado deslumbrante. 

Sim, miúdos, eu 'estive' no 7-1. Aberrado à frente da televisão como qualquer ser humano normal, numa experiência extra-corporal limítrofe, como se o tempo tivesse parado à volta, menos para aquela máquina sociopata alemã, Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!, como o celebrou um Álvaro de Campos em febre, que eu espero que vocês ainda leiam na escola. Esse não foi o melhor jogo que vi na vida, mas foi, por certo, a minha experiência futebolística mais incomparavelmente radical. 4 golos em 6 minutos que eu, por mais anos que viva, nunca vou conseguir explicar, numa demolição filosófica e emocional como não houve antes nem depois, no futebol e provavelmente na vida. Nesse dia, Belo Horizonte incendiou como Roma. Foi o mais próximo que estive de ver a Bíblia a acontecer.

Sim, miúdos, também vi a Costa Rica, aquela casca de alma confinada ao Pacífico, eliminar três campeões do Mundo, um da Europa e outro quase. O Brasil não teria sido o Brasil sem essa história de heróis. A Copa América foi ganha pela Europa, mas nunca me esquecerei do México e daquele coração imensurável, medido em cada defesa de Ochoa e em cada festejo maior do que a vida del Piojo Herrera, a figura mais apaixonante que lá viveu. Do Chile hipertenso que deu o golpe de misericórdia na melhor selecção de sempre e ficou a uma barra de replicá-lo ao Brasil, e da inglória do Uruguai, na campanha trágica em que Suárez foi deus e voltou a ser um vampiro. Nem dos Estados Unidos, o soccer miraculoso que sobreviveu a um grupo da morte, até desembocar no melhor jogo da prova, o mais que improvável América-Flandres, numa noite esquecida de segunda-feira em que Tim Howard se tornou imortal. Na coroa, claro, a Colômbia. Que perfume, por deus, o mais irresistível de todos os rebeldes, na graça de um predestinado, meio Zidane, meio Riquelme, o herdeiro profético dos sagrados #10 da História, de quem hoje vocês já muito devem ter ouvido falar. James, com R.

Os americanos que chegaram mais longe foram os que sacrificaram mais, ou quase tudo. O Mundial do Brasil foi o Mundial em que o Brasil se esqueceu de o ser, perdido na neurose do Hexa, o Mundial em que trocou tudo por uma táctica militarista cujo único crédito foi, durante 18 meses e até ao último dia, um único nome de craque tropical. Neymar era o último vestígio do canarismo; quando partiu ou, em boa verdade, o partiram, a centelha foi engolida por um breu capaz de devorar 200 milhões de nação, a mesma que, depois de todas as manifestações, orou o 'Vai ter Copa', e cantou o hino mais carnífice a fundos pulmões, com a ilusão destilada nos olhos. No fim, todavia, ingrata e irremediavelmente, este foi o Mundial de todos menos do Brasil, que dele se envergonhará até ao dia do Juízo Final, ainda que eles achem, com propriedade, que esse já o viveram. 

A Argentina teve a certeza absoluta de que tinha chegado a sua hora, com o Messias, no Brasil e contra a Alemanha, um ritual maquiavélico para vingar um quarto de século inteiro, coroando o Príncipe, no mais perverso de todos os palcos. A miragem provocou mas, quando chegou a hora, esfumou-se no abismo da realidade. A Argentina foi sempre um gigante de pés de barro que, honestamente, não mereceu metade do que lhe aconteceu. O fim desfez-se na derradeira desolação, desonrado na desgraça da mais imperdoável de todas as bolas de ouro. Adoro aquele povo, adoro os melhores hinchas do mundo, que o foram mais uma vez, dime lo qué siente, adoro-lhes o Deus e, noutra década qualquer, estaria devotamente por eles. Mas não era a hora. Os monstros latinos foram os secundários do filme. Também é por isso que ele foi especial.

A Copa América, não obstante, ficou na Europa. Não obstante as baixas incontáveis. Sim, miúdos, também vi o 5-1, no dia em que Van Gaal deu uma parte de avanço antes de assassinar a maior selecção que já jogou, no dia em que Robben espantou os espíritos de outra vida e se vingou de Casillas, um desmoronamento lendário onde achámos, pueris, já ter visto tudo o que havia para ver. Afinal, esse momento estonteante da História, à luz da monumentalidade do resto, pareceu depois quase vulgar. Sim, miúdos, Portugal também fez feio. Impreparados, teimosos e vagamente decadentes, caímos tão lívidos como os outros pardais. Não tivemos história; o segredo é que também não tivemos muito tempo para nos lembrar disso. A Copa não esperou por ninguém. Imaginem a viagem que isto foi. A Inglaterra jogou como nunca e perdeu como sempre, a Itália deslumbrou e foi embora tão rápido como lerem esta frase. O Inglaterra-Itália, contudo, entre dois precoces, foi um dos verdadeiramente maiores. Vi-o com uma garrafa de whisky e com grandes amigos a um sábado à noite, a contemplar da única maneira possível o último bailado de um dos meus maestros sagrados. Se calhar já ninguém se lembra, mas, nesse dia, Pirlo fez uma assistência sem tocar na bola e desenhou um zigue-zague de livre de propósito até à barra, só porque nunca foi deste mundo. Que honra beber à tua, Andrea.

Os europeus que se pareceram safar, foram pouco menos do que isso. A Bélgica, menina dos olhos, só fez o jogo mais especial, mas ficou-nos a dever o resto. A Suíça esvaiu-se fácil, Fernando Santos ainda hoje não acredita no que lhe aconteceu. Valeu-nos a Grande Armadilha de um oclumante, um mago negro em pessoa que assombrou quase tudo o que lhe apareceu à frente, com os cheque-mates mais estapafurdiamente geniais que vi na vida. Van Gaal fez coisas no Brasil que ninguém vai fazer 20 anos depois dele. O futebol são onze contra onze mas, no fim, sabemos bem quem ganha. Foi a glorificação de uma geração bestial, tão melhor do que todos os outros que nos deixou quase comprometidos. Não gosto da Alemanha, mas ter rivalizado Neuer, Lahm ou Schweinsteiger será para sempre um privilégio. Houve tempo até para que Herr Klose firmasse a posteridade nos livros. 12 anos a marcar golos, 4 meias-finais, 2 finais, até ser finalmente feliz. O futebol encontra-nos sempre. A primeira fase do Brasil foi tão boa que até hoje não vos posso garantir, com certeza, que aconteceu mesmo. Mas aposto com vocês, miúdos, que ninguém voltará a ver em directo uma igual. Depois, foi sobreviver na selva e, na selva, vale sempre a lei do mais forte. Quando ganha o melhor, encontramos sempre alguma paz.

Este foi o Mundial dos guarda-redes. Neuer, Ochoa, Navas, Howard, já falei deles, mas igualmente de M'Bolhi, o sopro de vida do deserto africano que podia ter escrito uma História diferente, naquela Argélia que foi o único verdadeiro adversário alemão, e ainda de Bravo, Romero, das lágrimas de Júlio César e da substituição de Krul. O Mundial podia ser condensado naquele minuto 120 do Holanda-Costa Rica e sintetizaria toda a explosão de génio, loucura e feitiçaria que o pintou. Com o desplante de Van Genius, omnipresente, omnisciente e omnipotente no banco, o Mundial também foi o voo estratosférico de Van Persie, numa caderneta que só acabou na tesoura da final, passando pela arca do tesouro do Bandido Jamesito, de primeira ao Uruguai, claro, mas com aquele poema ao Japão, mais ainda. Foi o tiki-taken alemão, o chocolate colombiano, o contra-ataque francês e holandês, o futebol total mexicano e chileno, foi a vertigem de Neymar e Messi jogarem-no sozinhos e foi o vólei de Cahill, 34 anos e no seu último dia de vida internacional, corolário justo do carisma australiano e dos outros digníssimos eliminados prematuros, sem os quais isto nunca teria sido tão inteiro. Estar em casa de madrugada e ver um Honduras-Equador. Meu deus, que saudades.

Sim, miúdos, ainda vamos falar da Copa muitas vezes. Sempre que vocês me pedirem para ensinar o salto do Robbie, e o festejarmos com a dança dos cafeteros ou os abraços do Herrera, de cada vez que me perguntarem se o Van Gaal tinha um bola de cristal ou me pedirem, a medo, para voltar a contar os terrores da Alemanha. E eu sei que podia ficar a falar dela eternamente, quanto mais não seja porque ela vai mesmo viver até lá. Da minha parte, contudo, mais do que todos os jogos grandificantes e todo o êxtase, a única forma suficientemente justa de lembrar o Brasil 2014 será o brilho nos olhos com que vos vou recordar de cor cada pormenor, quando já for velhinho e isto já tiver sido tudo noutra vida. Como Snape respondeu um dia a Dumbledore, quando então me perguntarem 'após todo este tempo?', será a minha vez de dizer:

'Sempre.'

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Copa das Copas: os ases


1. James Rodríguez
2. Robben
3. Manuel Neuer


Neuer; Lahm, Hummels, Garay, Blind; Mascherano, Kroos, James; Robben, Muller, Messi.

Navas, Ochoa; Giancarlo González, Medel, Vlaar, Boateng; Bastian, Herrerra, Pogba; Cuadrado, Neymar, Benzema.


T: Van Gaal 
(Menção honrosa, por ordem: Löw, Pekerman, Jorge Luis Pinto, Miguel Herrera, Halilhodzic, Sampaoli e Fernando Santos)


Revelação:
M'Bolhi (Argélia); Fabian Johnson (EUA), De Vrij (Holanda), Manolas (Grécia), Holebas (Grécia); Depay (Holanda), Celso Borges (Costa Rica), Aranguiz (Chile), Campbell (Costa Rica); Origi (Bélgica) e Enner Valencia (Equador).

terça-feira, 1 de julho de 2014

Copa, dia 18: a inevitabilidade da derrota


Alemanha 2-1 Argélia (ap)

Poucos teriam arriscado que o Alemanha-Argélia pudesse alguma vez durar mais do que a hora e meia obrigatória. Podia nem estar quebrado à partida, pela própria exigência física e mental desta fase da prova, mas a Mannschaft conservara os galões a brilhar e o entusiasmo da Argélia não parecia nunca poder patrocinar qualquer golpe. O melhor elogio a fazer à partida é que o 0-0 no fim do tempo regulamentar foi mais exuberante do que tantos outros jogos cheios de golos que um dia já vimos. E, afinal, não era à toa que os chamavam de Raposas do Deserto. Os argelinos tinham, de facto, um plano e a eficiência com que, não só anularam a Alemanha, como ainda a fizeram suar frio, passará sempre como uma das belas histórias deste Campeonato divinal. Ao fim e ao cabo, só mesmo aqui é que a Alemanha ir a prolongamento com a Argélia poderia não ser assim tão chocante. Os homens de Halilhodzic fizeram brilhantemente quase tudo o que estava no seu controlo. Para o golpe de teatro faltariam sempre um momento genial e uma estrela da sorte e esses é que, infelizmente, nunca chegaram. A Argélia resistiu enquanto pôde mas sabia que, no momento em que a disciplina começasse a soçobrar às pernas, estaria acabado. Os alemães também.

Os norte-africanos entraram no Mundial pela porta dos fundos, com uma derrota triste frente a uma Bélgica cinzenta, parecendo dar crédito aos que os velavam como os mais débeis do grupo. A transformação que se seguiu foi admirável. 6 golos em 3 jogos, um apuramento histórico a eliminar a selecção do treinador mais caro e um prolongamento ao adversário mais temível da prova. Hoje, Halilhodzic voltou a pensar tudo bem. Com a defesa baixa e a sobre-população ao meio, anulou todo o jogo interior alemão, jamais dando metros ao contra-ataque adversário, consciente de que, pelas alas, não chegaria o perigo. A chave do seu planeamento foi a capacidade de resposta. Com a Alemanha a usar a defesa mais alta do torneio, o bósnio plantou Slimani no meio dos dois postes centrais, soltando dois e três médios para as suas segundas bolas. As coisas saíram ainda melhores do que no papel. O avançado do Sporting fez uma exibição brilhante e, a espaços, caiu-nos o queixo de tão evidente estava a ser a exposição alemã. Os germânicos foram apanhados em contra-pé constantemente e não fosse a leitura prodigiosa de Neuer, hoje um verdadeiro líbero à imagem e semelhança de Beckenbauer, e podíamos ainda estar todos a fazer contas a um terramoto no Beira-Rio.

A Alemanha sai disto viva, como quase sempre, mas com a reputação razoavelmente abalada. A inaptidão da equipa para variar soluções quando lhe negam o plano principal, aliada à falsa segurança atrás - se, com defesas tão discutíveis, jogar tão alto já doeu contra a Argélia, imaginem o que aí vem - deixaram um mal-estar muito real. A Alemanha saiu do pedestal e teve de começar a sofrer muito antes do que se podia antecipar, com dúvidas que, ainda por cima, são estruturais. Desde logo, os laterais são um problema grave e capam a equipa de toda a profundidade. Dificilmente manter defesas adaptados pode ser a solução. Depois, jogar tão alto com estes centrais também parece pouco razoável. É bom lembrar, no fundo, que se estas são ideias de Guardiola, esta não é, pelo menos, a defesa do Bayern. Por sua vez, à frente, a passada de Reus faz muita falta e a confirmação de que Ozil está a passar ao lado disto é a outra pior notícia. Ficar a contar com remates a 30 metros e ter fé em Muller augura coisas más. Não é por um jogo que se pode pôr tudo em causa e, no fim, a equipa bateu o adversário por KO, mas certo é que esta já não é a equipa que pareceu imaculada a devorar Portugal e que se acumulem tantos indícios dá, pelo menos, que pensar. Isso e saber que a França não é a Argélia.

ARGÉLIA - No Mundial dos grandes guarda-redes, M'Bolhi vai embora mas fica no panteão. Irredutível sempre, foi na fase do tudo ou nada alemão que se deixou brilhar exponencialmente, com paradas cada vez melhores. Também concorre a melhor defesa do torneio, por um tiraço de Lahm. Não merecia que o castelo tivesse ruído naquele golo sem querer. Slimani sai tão valorizado como devia deste Campeonato do Mundo. Muita raça, muito à vontade de costas, ainda mais perigoso a encarar. Foi o homem perfeito para o trabalho e tornou o plano de Halilhodzic tanto mais notável. Faltou o golo de ouro. Halliche, a segurar o forte, Ghoulam, pela mescla entre sacrifício e perigo, na lateral-esquerda, e Feghouli, pelo talento livre nas costas do avançado, como tanto doeu aos alemães, foram as outras figuras.

ALEMANHA - Todas as odes para Manuel Neuer. Não fosse o melhor guarda-redes do mundo tão bom em áreas tão incomuns (jogo de pés, antecipação, presença fora da área) e esta seria certamente uma história diferente. As chapas icónicas deste Alemanha-Argélia serão indiscutivelmente as suas saídas a toda a força para cortar adversários na meia-lua. Num jogo muito mau dos interiores e dos falsos extremos, sobressaiu Phillip Lahm. Foi só quando Low finalmente libertou o capitão do estigma guardiolista, e o devolveu à ala-direita, que a equipa cresceu de forma instrumental. Khedira também entrou muito bem, na mesma lógica. Mais vertical a transportar do que qualquer um dos outros médios, foi determinante para sabotar o plano argelino. Finalmente, Muller, porque é um dia tão bom como qualquer outro para reafirmar que faz mesmo tudo, tudo bem.

Copa, dia 18: a altura da tarefa

 

França 2-0 Nigéria

A conferência UE-África acabou em bem mas deu muito, muito mais trabalho do que se poderia estar à espera. A França resolveu os seus problemas com menos dramatismo do que o seu adversário de sexta-feira, mas a Copa deliciou-se com o seu caos e insistiu em provar mais uma vez que não há ninguém que ainda possa dormir descansado. Valeu à França o temperamento e responder alto como se pedia.

Começo pela Nigéria, que provou até ao fim o porquê de lá ter merecido estar e o porquê disto estar a ser uma coisa tão genuinamente boa de ver. Já a tinha considerado como uma das surpresas mais subvalorizadas da prova, isto porque os homens de Stephen Keshi passaram mais ou menos incólumes num grupo onde eram necessariamente da Bósnia as maiores responsabilidades. Depois, "reduziram" a Argentina a Messi, mas como por estes dias isso vai sendo normal, não parecia realmente que o TGV francês pudesse acabar fora dos seus carris. No Mundial, todavia, é tudo muito menos claro do que isto. A Nigéria entrou com uma óptima postura, no fundo aquela que já nos tinha mostrado, e a França assustou-se um pouco com as próprias circunstâncias. Afinal, o peso estava todo de um lado, afinal agora é sempre e só a doer. Num ápice, baralharam-se os estatutos e precipitou-se um equilíbrio em campo que os africanos muito gratamente decidiram abraçar. Mesmo sem densidade táctica, nem processos particularmente idealizados do meio-campo para a frente, a Nigéria foi descomplexada e solidária, e isso foi tanto quanto bastou. A equipa dividiu as oportunidades na primeira-parte e entrou fortíssima das cabines, mirando Lloris à bomba, e deixando os franceses em visíveis dificuldades. Que o golo não tenha surgido aí, para uma equipa nitidamente emocional, foi o princípio do fim. Assim que o tempo começou a fugir, a Nigéria como que se constrangiu com a própria competência. Não sabendo o que fazer, baixou e convidou o adversário. Há convites, como todos sabemos, que não se podem fazer.

A França só nunca pareceu totalmente em cheque porque, neste momento, terá o onze titular mais forte da prova. Apesar da boa réplica nigeriana e apesar da extrema dificuldade francesa em definir no último terço, a defesa manteve o nível altíssimo e o meio-campo nunca deixou de ser capaz de acelerar e abrir. Não é como se o jogo tivesse estado sempre no bolso, porque esta França renovada ainda não tem esse tipo de cinismo, e a Nigéria podia ter contado uma história diferente, mas essa impressão subsistiu no desenlace. O grande problema era a desinspiração total na área e essa resolve-se quase sempre, pelo menos para quem tem o tipo de recursos gauleses. Claro que não é recomendável deixar as coisas por decidir, mas a verdade é que o tempo jogava a favor da França. Assim que a Nigéria se assustou com a sua própria sombra, os homens de Deschamps reagiram por automatismo. Cresceram, apertaram e decidiram. Não podia ter sido de outra maneira. Por mais impensável que isso fosse há três semanas, serão eles os favoritos sexta-feira, no Maracanã.

FRANÇA - Pogba foi o melhor em campo, nem sequer pelo golo. O puto-maravilha até já tinha ido ao banco e andava a ser ofuscado pelo colega de sector mas, na linha do jogão que já tinha feito ao Equador, hoje não deu os holofotes a ninguém. Foi a âncora da equipa quando o vento soprou e a principal garantia da sua compostura, arrastando-a consigo, a acelerar e a abrir nos colegas. O golo era só uma questão de tempo. Matuidi manteve o nível altíssimo a seu lado, participando de acções idênticas, e confirmou um dado basilar: fazem ambos o melhor miolo do Mundial. O outro grande trunfo francês foi a ala direita, com Valbuena (2 assistências!) a rasgar ao meio e Debuchy a ir prego a fundo.

NIGÉRIA - No Mundial dos craques das redes, Enyeama. Para as estatísticas da FIFA, foi ele o guarda-redes mais valioso da primeira-fase e hoje a velha lenda do Football Manager não se deixou ficar por mãos alheias, segurando o destino enquanto pôde. Que tenha falhado no golo é duma injustiça desoladora. Numa equipa mais forte a fazer do que a pensar, a energia de Musa e Emenike fez viver o ataque. Ambrose, na lateral-direita, e porque Benzema não tinha de o acompanhar, foi um secundário de luxo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Copa, dia 17: a Grécia não pôde ganhar à Grécia

 

Costa Rica 1-1 Grécia (5-3, agp)

Não sei se nalgum momento dos últimos 10 anos pensei realmente escrever isto mas, hoje, tive pena deles. Só houve uma equipa em campo a querer ganhar e a trabalhar realmente para isso, não porque foi obrigada, não porque teve de correr atrás do prejuízo, mas porque a isso se prestou desde o início, por honestidade e por convicção competitiva. Não sei se o percurso acidentado e a saída inglória lhe farão justiça mas, pese o seu ADN, todas as suas deficiências e o próprio preconceito generalizado, a Grécia deve ser lembrada como uma equipa que dignificou o jogo e que, não só mereceu chegar às eliminatórias, como devia ter estado entre as oito mais fortes. Os helénicos foram sempre positivos e foram melhores em três dos seus quatro jogos. Esqueçam tudo o que sabiam deles. Fernando Santos fez um trabalho notável com os recursos e a mentalidade que tinha à disposição e transformou a Grécia para muito melhor... só para vê-la ruir perante um adversário que usou os seus antigos segredos como um guião: muito esforço, futebol em metade do campo, um grande guarda-redes e um tiro de sorte, jogar em inferioridade e ganhar nos penalties. Nada pode ser tão irónico quanto o destino.

Não se pense que estou aqui a diabolizar a Costa Rica, porque isso jamais seria possível. Os ticos serão sempre a grande história deste Brasil. A equipa que nunca ninguém respeitou, mas que, do fundo do grupo da morte, chega a uns quartos-de-final após desterrar três campeões do Mundo e um campeão da Europa. Falaremos sempre deles com o carinho que eles merecem e a odisseia segue aí, viva. A minha única tese é que o futebol não pode ser dogmático, nem nos heróis, nem nos vilões. Na antecâmara, claro que teria sempre ratificado este resultado, mas jamais consigo ficar indiferente à competência. A relva é como o algodão, não engana. E, por mais que eu respeite a Costa Rica, hoje não era um papão que estava do outro lado, mas uma equipa real quanto baste, humana, uma equipa que merecia, pelo menos, alguma devoção de crédito. Depois do brilhantismo da estreia, tudo o que os homens de Jorge Luis Pinto tinham de fazer era sobreviver, a todo o custo, forjando a ferro e fogo que tinham nervo para levar as promessas até ao fim. Hoje, pelo contrário, era o dia para a Costa Rica voltar a jogar, voltar a ser alegre, voltar a mostrar porque é que nos conquistou. Seja por incapacidade, seja por mérito adversário, seja porque se convenceu do cinismo, não aconteceu.

Até ao golo pincelado de Bryan Ruiz, a equipa manteve-se a uma distância segura do jogo, especulando com as dádivas que ele lhe pudesse dar. Nunca pôs ideias em campo, nunca foi atrás da sorte. Quando a sorte por acaso lhe calhou, foi como se o jogo já tivesse acabado, o que só piorou com a expulsão de Óscar Duarte. A Grécia foi em crescendo. Carrilou sempre mais jogo, teve a única oportunidade da primeira-parte, sofreu contra a corrente e, depois, abateu um volume ofensivo em tempos inimaginável sobre o adversário. Os gregos têm um ataque algo primário, sem muita criatividade, mas com muita vontade e muito carácter. Sob todos os prismas, é difícil ficar indiferente ao que foram fazendo no Brasil, à valia da equipa e ao mérito de Fernando Santos. O golo nos descontos foi uma orgulhosa reminiscência muito sua, um vestígio do seu sangue perverso de tantas outras noites e, por uma vez, fez-lhes jus, deixando o cheque-mate suspenso no ar. No entanto, era só um presente envenenado. A Grécia ainda não deve ter percebido como é que não ganhou no prolongamento (24 remates contra 6, 57% de posse de bola...) mas, chegados aos penalties, só era, afinal de contas, o seu jogo para perder. Uma década depois de ter sabotado todos os que lhe apareceram pela frente, foi amoralmente no momento da redenção que a Grécia encontrou uma das suas mais dramáticas derrotas.

GRÉCIA - Holebas foi talvez o melhor lateral-esquerdo deste Campeonato do Mundo. Explosão, intensidade, técnica, um comboio verdadeiramente incansável com soluções técnicas de fazer inveja aos mais avançados. Brilhante. Lazaros, na extrema direita, foi o outro fórmula 1 da equipa. Com jogo de cintura e uma finta curta e objectiva, tem um pulmão insuperável e vende pragmatismo. Aos 37 anos, Karagounis correu 12km e encheu verdadeiramente o campo. A criatividade da juventude trocou-a pela maturidade táctica, pela capacidade de trabalho e pelos dons da construção a partir de trás. O capitão bem mereceu despedir-se de outra maneira. Muito bom jogo dos centrais também - Manolas e Sokratis - e peso sempre indiscutível de Samaras e das suas viagens menos ortodoxas pelo último terço.

COSTA RICA - A vitória tem um nome: Keylor Navas já era, com propriedade, um dos grandes guardiões deste Mundial. Hoje chegou-se verdadeiramente à elite, com duas defesas monumentais, a primeira a segurar o 0-0, a segunda a garantir os penalties que ele próprio viria a decidir, com a derradeira parada de ouro. Já dissera anteriormente que a Costa Rica pode não ter muitas individualidades, mas que tem a sorte das principais corresponderem. Hoje tal não poderia ter ficado mais claro, sobretudo quando a isto se juntou aquele bilhete delicioso de Bryan Ruiz.

domingo, 29 de junho de 2014

Copa, dia 17: corazón partío

 

Holanda 2-1 México

Foi o que de mais parecido este Mundial já ofereceu a um episódio da Guerra dos Tronos. Estava tudo bem, era como se já tivesse acabado e, por uma vez, o herói ia ganhar. Ochoa voltara a ser um extraterrestre, houve a centelha de génio na frente e o resto era a obra do carácter único de uma equipa com a qual já tínhamos aprendido a sonhar. Sem a hipertensão com que contáramos, num certificado de maturidade e competência, o México ia mesmo concretizar serenamente um destino surpreendente mas que todos quantos o têm visto sabiam ser verdadeiramente possível. Os últimos cinco minutos são uma bastonada no corpo todo. A sensação de impotência foi grotesca, o requinte maquiavélico do fim engoliu-nos por dentro e restou-nos ficar a olhar para o ecrã adormentados, esmagados perante o choque. O sonho acabara-nos de ser arrancado ali, sem aviso e à traição, como numa armadilha crua que, afinal, nunca poderíamos ter ganho.

O jogo foi diferente do que se podia prever. Nem os mexicanos conseguiram emprestar-lhe a sua notável dinâmica, nem a Holanda soube ser elegante com bola. Pelo menos até ao golo de Giovanni, foi uma partida pragmática e renitente ao risco, com ambas as equipas, em 3-5-2, a conservarem linhas baixas, a pressionarem pouco e a privilegiarem o equilíbrio, ou seja, a mandarem gelo sobre o campo, num dos dias em que, de resto, o calor também foi uma das mais incontornáveis condicionantes. Num perfil mais próximo do que a Holanda sabe fazer, o México foi, contudo, mais perigoso. Com paciência e menos excesso, os tricolores perceberam que defendiam melhor do que o adversário e que, afinal de contas, o registo podia-lhes até servir melhor. O 1-0, apesar de não decorrer dum domínio claro, foi o corolário da única equipa que tinha tido efectivamente oportunidades para marcar.

É um lugar-comum dizer que os golos mudam as equipas, mas há, de facto, uma Holanda antes e outra depois do golo sofrido. Três jogos depois da goleada ao Campeão do Mundo, a Laranja é hoje uma charada táctica que começa a ser difícil de compreender. Van Gaal tem usado dois sistemas por jogo e rodado peças com uma compulsão que até aos jogadores me parece estranha de assimilar. Kuyt e Blind, por exemplo, jogaram hoje em três posições diferentes!?, o que é, pelo menos, bastante inortodoxo. Nesta alienação teórica, a Holanda pareceu, até ao golo mexicano, simplesmente convencida de que o tempo corria a seu favor, de que um golpe dos génios estaria sempre no fim da história. E estava certa, mesmo que por linhas tortas. Pelo que fizeram na última meia-hora, os holandeses justificaram a chance. Mesmo sem o compasso de outras tardes, a equipa foi com tudo o que tinha e acabou por triunfar nos seus próprios termos: pelo génio dos seus ases - melhor jogo de Sneijder no Mundial, mais o Robben normal - e pelo seu extraordinário sangue frio.

No segundo do empate, achei honestamente que o prolongamento era justo. Que se uma destas duas enormes equipas tinha de cair, pois que a outra sofresse e o honrasse o suficiente. O futebol, porém, tinha em mente outro tipo de sacrifício. Mais radical, finito. Definitivamente mais cruel. O adeus do México seria sempre um dia triste. Só não tinha de ser desumano.

MÉXICO - Deus Ochoa, ou 'Oshowa', como lhe chamaram os brasileiros na semana passada, fez mais uma partida inesquecível. Ir embora nos oitavos é como ficar em 4º nos Jogos Olímpicos: é já teres uma história, mas morreres na praia do reconhecimento. Não há ninguém no México que merecesse mais a qualificação histórica do que o melhor guarda-redes do Mundial. Mesmo que em apenas quatro jogos, porém, as suas paradas insuperáveis serão lembradas para a posteridade. Na próxima época, estará numa equipa à sua altura. Num dia de futebol ingrato, que tenha sido Rafa Márquez a fazer o penalty fatal é outra perversão. O capitão foi sempre uma bandeira desta campanha e, hoje, fez mais uma exibição quase perfeita. Que pena. Muito bom jogo de Guardado no meio, outro dos que sai bastante valorizado. E golaço de Giovanni dos Santos, naqueles lances de génio que, por mais interminente que seja a sua carreira, podemos sempre acreditar que moram por lá.

HOLANDA - Mesmo quando tudo se torna confuso, podemos sempre confiar na simplicidade do talento. Por um dia mais, Arjen Robben voou quase sozinho rumo às estrelas. Nunca me posso cansar de dizer que há muitos grandes jogadores, mas que ele é um dos excelsos predestinados. Foi o seu génio vertiginoso que guiou a Holanda à sua sorte. No momento mais sensível da equipa até agora, apareceu Sneijder. O Pequeno Genial tem andado muito distante do Brasil, num modelo que, de resto, também não sabe exactamente o que lhe pedir. Hoje, porém, desdobrou-se no que foi preciso e propeliu todos à sua volta, mais o grande golo. Depay é mesmo uma das revelações da prova e começa a exasperar pela titularidade. Mais uma exibição do suplente de luxo, na ala esquerda.

sábado, 28 de junho de 2014

Mata-mata


Onze da primeira fase [3-4-3]:  

Ochoa (México); 
Rafa Márquez (México), Medel (Chile), Óscar Duarte (Costa Rica); 
Robben (Holanda), Herrera (México), Matuidi (França), James (Colômbia); 
Messi (Argentina), Benzema (França), Neymar (Brasil)

T: Miguel Herrera (México)

Parte da alma do Mundial acabou anteontem para a posteridade, na energia inenarrável dos três e quatro jogos por dia e dos 32 sonhos diferentes em campo. O Brasil 2014 tem sido um espectáculo ainda maior do que prometeu: um jorro de futebol inacreditável, regado com uma média de golos lendária, um lugar de jogos históricos, de surpresas irresistíveis e de filosofias que morrem, de uma identidade muito própria, o naufrágio europeu aos pés do Novo Mundo, e um palco de ídolos que chovem como ases. Perfeito. Agora que retomamos o fôlego, contudo, é hora de dizer que hoje começa outro Mundial. Outra face do planeta futebol, porventura menos eufórica, mas brutalmente mais intensa, os jogos de nervos em que cada segundo mata ou morre, na relva onde já não há segundas oportunidades. Agora só há lugar para quem falar a sério. Ficam as apostas:

Brasil-Chile. O Brasil vai ganhar mas só porque tem mesmo, mesmo de ganhar. Depois duma fase de grupos amorfa, a Canarinha teve o azar de encontrar de chofre um dos mais terríveis segundos classificados. O Chile fará a vida negra a Scolari - vai marcar, nunca se vai descompor e um prolongamento não está fora da mesa - mas, mais pela magnitude do contexto do que pela sua efectiva superioridade, o Brasil está condenado a seguir em frente. Nem os apocalipses podem ser prematuros.

Colômbia-Uruguai. Acredito que o destino do jogo se escreveu no momento em que a FIFA puniu Suárez como ele merecia. Claro que menosprezar o Uruguai seria um erro imenso e, se há um sobrevivente no Brasil, é o conjunto de Tabárez; sem o vampiro, contudo, a equipa fica desterrada e literalmente sem presas. Não me parece, por isso, que possa responder àquela que é uma das três grandes selecções do Mundial até agora. Menos experiente, menos agressiva e menos cínica, a Colômbia é, no essencial, uma equipa brilhantemente idealizada, senhora de uma monumentalidade de talento que parece desafiar quaisquer convenções.

Holanda-México. Declaradamente a tripla dos oitavos, pelo nível excepcional que ambos estão a apresentar. É, aliás, criminoso que Holanda ou México tenham de ir já embora. A Laranja é aquele 5-1. Tem um treinador de classe planetária, uma equipa equilibradíssima e dois génios na forma das suas vidas. Ainda vice-campeã em título, é quem tem mais responsabilidades e será a teórica favorita. Honestamente, porém, digo sempre que será um 50/50. Não há um parâmetro do jogo em que este México não seja excelente (capacidade defensiva, coesão táctica, pressão, dinâmica do miolo, golos) e, no resto, estamos a falar de um coração gigante em forma de equipa. Os mexicanos são mais inocentes mas igualmente mais intensos, talvez piores no ataque, se calhar melhores no resto e nunca, nunca vão desistir. É este o jogo que ninguém pode perder. E sim, voto México.

Costa Rica-Grécia. O feel-good game da eliminatória. Duas equipas que não deviam cá estar mas que, por honesta competência, merecerão cada bocado do seu lugar ao sol. Pela rodagem, a favorita é esta Grécia, diferente de outros tempos, sempre assombrante mas, hoje, a jogar mais do que se pensa. Seja como for, este não é, por certo, o Mundial dos estatutos e ninguém o provou mais ostensivamente que os ticos. Vencedores sem derrotas do grupo da morte, com um futebol quente e atraente, os homens de Jorge Luis Pinto são a lenda maior deste Brasil e acredito que será ela a subsistir.

França-Nigéria. Os campeões africanos terão o prazer de despedir-se frente a uma das mais espectaculares equipas do torneio e um dos sinceros candidatos ao título.

Alemanha-Argélia. Segundo take da conferência UE-África e necessariamente o mesmo desfecho, até ao titânico embate franco-alemão dos quartos-de-final.

Argentina-Suíça. Messi resolve, ainda que sobre alguma curiosidade para ver como é que a Alviceleste, com tanto provar, se comporta perante o seu adversário mais exigente até agora. A Suíça é uma equipa positiva e talentosa que pode sempre pregar uma partida mas, sinceramente, a derrota com a França parece feri-la de morte. Os alpinos mostraram-se, aí, terrivelmente macios e desequilibrados em desvantagem, com o resultado que se sabe, e nunca puderam criar o élan que se lhes antecipava. Mesmo com um treinador primário e cheia de interrogações, o talento individual e o calendário parecem condenar a Argentina a mais um final feliz.

Bélgica-EUA. Que as odds estejam sempre a seu favor deve ser o lema dos belgas. A equipa mais antecipada do Brasil 2014 foi presenteada com o grupo mais fácil da primeira fase e a verdade é que ficou-nos a dever o bilhete. Sem uma visão colectiva e sem autoridade sobre o jogo, sem um único momento de afirmação cabal, os belgas viriam a fazer o pleno com base exclusivamente no talento abusivo dos seus jogadores. Os oitavos antecipam-se como o enésimo episódio da série. Os Estados Unidos fizeram um apuramento digno, mas são uma equipa de demasiado baixo alcance para transtornar uma Bélgica infinitamente mais talentosa e, ainda por cima, moralizada. Os homens de Wilmots chegarão longe antes de terem realmente de provar alguma coisa.