quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Nightcrawler. A frieza como virtude e como senão


Não é um filme impressionante. Não escala, não vai buscar um zénite onde não estávamos à espera, não tem alcance suficiente para nos arrebatar. Ao mesmo tempo, também não é previsível ou vulgar. É como que uma anestesia, uma carga venenosa que nos deixa adormentados. Não nos mata, não nos exalta, deixa-nos, em vez, como que paralisados com a sua frieza cirúrgica, com a limpeza crua do seu pragmatismo. Nightcrawler é uma história do "jornalismo" sanguessuga, do freelancing abutrificante da 25ª hora, que leva repórteres avulsos a perseguirem a polícia madrugadas a fio, em busca das tragédias onde possa gangrenar o pior sensacionalismo televisivo.

Acho que o maior mérito do filme é o seu carácter desapaixonado. A forma como se auto-repudia, evitando, por todos os meios, ser estético, moral ou remotamente empático. Nightcrawler é um trabalho sujo. Não tem entrelinhas, não tem redenções, é exactamente o que parece. Sugere-nos o contrário, sugere-nos um desenlace mais óbvio, mas afinal, e de certa maneira, não tem sequer "ficção". Não raras vezes é mais difícil ser realista do que criativo e é incontornável a forma como o argumento se despe desse protagonismo fácil, garantindo uma experiência quase documental ao espectador. O californiano Dan Gilroy é quem assina, na qualidade de argumentista a estrear-se como realizador . A nível técnico, a competência também transparece na direcção. O sumo visual do filme é o resultado de um trabalho próprio de uma régie televisiva - curiosamente omnipresente à própria acção -, com a cadência, o ângulo e a desmultiplicação de uma grande emissão. Os momentos de "grande reportagem", sejam no acto, sejam na transmissão, são irrepreensíveis e agarram-nos a essa vertigem do directo.

O problema de um trabalho nestes moldes é que está cronicamente limitado à partida. Condenado a que se enalteça o rigor fílmico, a técnica, a interpretação, quase todos os subprodutos, mas com aquela distância que separa os filmes bem feitos dos que absolutamente nos roubam. A Nightcrawler faltou génio e reflexão. Faltou uma finta que fosse, faltou ser mais provocador, negro ou delirante. Faltou desequilíbrio, febre, sal. Aquele tipo de retrato, acabado como o foi, é ázimo. É um filme que estará sempre incompleto, desconfiado de que aquilo não pode realmente ser e acabar só assim.

A nível de performance, Nightcrawler é o one man show por definição. Jake Gyllenhaal não tem sequer uma sombra nas entranhas da sua noite, enquanto sujeito descarnado, deslocado e sociopata, que tropeça num rumo por acaso e faz da sua negritude a carreira que nunca poderia ter. Já o escrevi mais do que uma vez ao longo dos últimos anos e, desta feita, parece que a época dos prémios vai finalmente fazer-lhe jus: Gyllenhaal é um dos mais notáveis protagonistas da sua geração e, sem lugar a dúvidas, uma das certezas mais sustentadas da actualidade. A sua mutabilidade e a compleição intensa que lhe imprime sempre colocam-no num nível especial e é isso a que assistimos mais uma vez. A alienação do homem que retrata, a sua resposta na aparência, os seus modos autísticos, a sua descolagem social, tudo compõe notavelmente uma das personagens do ano. Se não acho que o filme vá morar nessa elite, pois ele sim.

Nightcrawler não é para qualquer disposição, nem para qualquer estilo, mas o grande lead, a frieza e a competência técnica transversal serão, contudo, razões suficientes para justificar a oportunidade.

7/10

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O diário da nossa paixão


'This man showed again why he's my idol'
Drogba

Um extremo desce pela meia esquerda, na vertigem do contra-ataque, a cavalgar sobre um adversário desequilibrado, sob o prenúncio da ferida que está iminente. A adrenalina sente-se, mas não se consegue adivinhar o desenlace à nossa frente. Sabe-nos a sangue, mas tudo o que vemos é um avançado encoberto pelo mar de pernas adversárias, acotovelado na jaula que é a pequena área. É nesse exacto momento que sai o passe para o vazio. Aquele, porém, não é um vazio qualquer. O passe sai exactamente para a esquina da área e naquela esquina de área só não está ninguém de propósito. Só não está ninguém na exacta fracção de segundo que duram os teletransportes de Frank Lampard.

Um matador finaliza de qualquer quadrado do campo. Ele também já os marcou de todas as formas, mas há qualquer coisa de especial nos que reservam uns metros específicos para si próprios, nos que têm uma assinatura. Aquele será sempre o seu movimento. O que todos estudaram, previram e adivinharam ao longo dos anos, mas que muito poucos conseguiram conter. Um dia a Terra pode parar de girar, mas Lampard nunca deixará de entrar a correr na esquina da área, para marcar mais um golo. Num jogo de título, a perder em casa com o adversário mais directo, a 5 minutos do fim, Milner confessou na conferência de imprensa que, naquele contra-ataque, soube instintivamente onde pôr a bola. Que foi só cruzar como se, afinal, jogassem juntos há 30 anos. Ele, claro, estava lá. Como em todas as outras tardes da sua vida. Mesmo que, por uma vez, não quisesse ter estado.

Quando o vi ajeitar-se de azul celeste junto à linha lateral, à entrada do quarto-de-hora decisivo, confesso que o coração ficou pequenino. O futebol, como a vida, não devia ser assim. Lampard e o Chelsea sempre foram uma e a mesma coisa e, onde quer que estejam, unos serão até ao fim dos tempos. Nenhum dos dois merecia a crueldade deste desencontro. E desejei, por isso, que Pellegrini não jogasse sujo, que nos poupasse àquela facada à traição, mesmo sabendo que o futebol, como a vida, é muito mais perverso do que isso. Mesmo sabendo que ele tinha de o fazer.

Aquele golo, cravado pelo destino a ferro e fogo, é um momento icónico e ímpar, tragicamente deslumbrante. Foi uma implosão filosófica, cujas ondas de choque nos devem ter carcomido a todos de maneira diferente. Não sei quanto a vocês, mas eu, nem que tenha sido por um segundo, vi aquela carreira toda a passar à minha frente. E, nem que tenha sido por um segundo, pareceu-me ver outra coisa. Pareceu-me adquirido que quem lá estava era um tipo com 26 anos mal feitos, cabelo invariavelmente em desalinho e as ganas na cara de quem tem tudo para provar. Um promissor médio inglês no tempo em que de inglês não havia nada de promissor, um exemplo de líder antes de ser um líder pelo exemplo, numa armada azul pungente que, então, ainda nem conhecíamos. Pareceu-me ver o 8 estatual de outros tempos, às costas de um verdadeiro caça em transição ofensiva que foi, no fundo, a maior publicidade que a Fly Emirates nunca pôde pagar. Sempre que olhar para ele, sei que vou ver esse início de tudo, com o privilégio mal escondido de saber que o resto, como dizem, foi História.


Do caldeirão encantado desse Chelsea imortal não saiu apenas um dos médios europeus mais verdadeiramente excepcionais de uma geração. Fez-se um daqueles homens que marca a vida de um clube e a era de uma liga inteira. Talvez o Chelsea tenha ajudado a fazer Lampard. Mas num tempo cínico demais, em que tivemos de aprender a pôr um preço em tudo, engolidos pelo tsunami financeiro que teve o próprio clube como intérprete original… certo é que foi definitivamente Lampard a fazer o Chelsea. A dar-lhe a humanidade, a altivez, o carisma. O Chelsea podia ter acertado ou falhado, mas podia, sobretudo, nunca ter sido o que foi. Teve a felicidade de, mesmo sem muitas vezes o merecer, ter reunido, mais do que grandes jogadores, um punhado impagável de grandes homens. Não sonegando a guarda de honra, que todos sabemos quem são, nenhum pode remotamente querer disputar o lugar do maior de todos.

Nunca vou perceber porque é que Lampard aceitou o City e esse ónus ponho-o nele, por mais irracional que isso seja. O Chelsea é que disse, com todas as letras, que ele já não cabia. Que um tempo tinha chegado ao fim e que a hora era de partir. O Chelsea é que o deu por acabado… mas, mesmo assim, era a ele que exigíamos mais. Era a ele que exigíamos ser, não o herói que merecíamos, mas aquele do qual precisávamos. Num processo rocambolesco, Frankie acabou na mais detestável de todas as némesis. Na única com estômago suficiente para tentá-lo, envenená-lo, para aliciá-lo. Nunca vou conseguir aceitar aquele sim. Não sei se ele o fez por amargura, por achar que devia sair nos seus próprios termos ou por considerar que ainda era genuinamente útil, e não sei se se arrependeu. Não sei muitas coisas. O pouco que sei é que ele não merecia ouvir o que Mourinho lhe disse no fim do jogo. O pouco que sei é que, no Chelsea, quase tudo pode ser um dia posto em causa. Ele não.

Ao longo dos anos julgaremos muitas pessoas. Na maior parte das vezes não saberemos as suas razões, noutras tantas estaremos errados. Quase nunca poderemos ter a certeza. No Domingo, tivemos. Acho que já toda a gente teve um momento na vida em que só não chorou porque não pôde. Na twilight zone aberta por aquele volley eterno, Lampard descobriu que o único adversário que não podia bater era ele próprio. A maneira como baixou imediatamente a cabeça depois de marcar, envergonhado e impotente, fazendo-nos adivinhar as lágrimas que lhe marejavam os olhos, tornou-se, naquele instante, na mais pura de todas as suas provas de amor ao Chelsea. Diz-se que só damos o devido valor a uma pessoa quando a perdemos. Lampard conseguiu ser a bandeira maior de um clube, mesmo no dia em que, como adversário e no último encontro, lhes custou a vitória. Por uma tarde mais, foi ele a alma do Chelsea. Foi ele a razão porque olhámos para o clube e conseguimos ver para além da marca, porque guardamos as memórias e conservamos a estima. Por uma tarde mais, o mundo falou dele e falou do Chelsea com admiração. Foi sempre assim.

No fim da minha vida, terei querido estar em muitos lugares a que o futebol me levou ao longe. Um deles será certamente aquela bancada do Etihad, em Setembro de 2014, na tarde em que os adeptos do Chelsea tiveram a grandeza de despedir-se orgulhosamente de pé do adversário a quem deviam tudo o que são.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Calvary. Cru e ambicioso, mas errante


O carisma transbordante de Brendan Gleeson e do seu mau feitio irlandês conquistou-me cedo e nunca me chegou a desiludir desde aí. Para mim, ele consta daquele punhado de nomes cujos filmes já valem sempre por si. Apesar das muitas horas a vê-lo, confesso que há três anos ainda me rendi mais profundamente: The Guard, apesar de relativamente fora de radar, foi um dos filmes sensacionais de 2011, uma cáustica e irresistível alegoria negra que o emprestou absolutamente à sua praia. Com uma avenida escancarada para brilhar, Gleeson, como é bom de ver, não vacilou, assinando um filme de culto. Foi, por isso, natural que, no momento em que se anunciou nova colaboração entre ele e o realizador-argumentista John Michael McDonagh, o meu reflexo tenha sido instintivo. Durante os últimos três anos, Calvary foi um dos meus filmes mais honestamente aguardados.

Como na grande maioria dos casos em que a bitola ficou muito alta, a sombra, no entanto, exerceu uma influência nociva no subproduto. Calvary conta a história de um padre de aldeia genuinamente bom, que será forçado a enfrentar o mau fundo de quase todos à sua volta, e a lutar contra circunstâncias perversas e irracionais, que o perseguem, ainda que nada tenham a ver com ele. É, sob uma análise justa, um filme com vários predicados. Não nos convence sempre, porque ora perde-se, mas completa-se de uma forma fiável e coesa. Todo o filme se rege sob o signo da ameaça de morte ao seu protagonista, anunciada de chofre, e acompanha a candura de espírito com que ele lida com o assunto, mantendo-se imperturbável à sua fé e expiando, até, as suas próprias feridas familiares. Temos, todavia, de esperar até ao final para reconhecer o alcance do argumento e o bom gosto de algumas opções.

O problema de Calvary é ser demasiado errante. Perder, como já disse, a noção do tempo e do que estava a fazer, com nuances redundantes, que foram travando o filme, momentos contemplativos e diálogos demasiado absorvidos em si mesmos. Faltou-lhe um desígnio orientador mais claro, cadência e chispa para levar a ideia a outros patamares, ainda que não tenha deixado de ser um filme ambicioso, no sentido em que consegue ser particularmente desamorável para o espectador (com uma vénia ao último terço) e agarra um tema fracturante - a pedofilia na igreja católica - para ser cru, sem ser bacoco ou moralista. Como, de resto, seria expectável, em virtude do que já mostrara, McDonagh voltou a escrever um guião com um potencial evidente. Pena que desta vez não o tenha conseguido concretizar.

Num elenco interessante, destaco a beleza cansada de Kelly Reilly, que não me tinha convencido nem um pouco há dois anos, em The Flight. Na pele da filha que foi abandonada por um pai assombrado, a forma alheada como pontua as suas cenas, com uma tristeza quase natural, venceu e convenceu. O veteraníssimo Michael Emmet Walsh evidenciou-se, igualmente, como um daqueles secundários carinhosos e cheios de cor. De Brendan Gleeson nunca saberei dizer mal e este, de resto, também não era o caso. Mesmo após a sinopse, estava à espera de algo bem mais próximo do seu natural carácter intenso e irascível. O filme é, porém, propositadamente preso pelas rédeas. É, nas linhas bíblicas, uma profissão de fé, um teste de vocação. Gleeson tem um porte de leão, mas o objectivo do filme é, pelo contrário, que ele voluntariamente se contenha. Que cumpra a sua via sacra. A performance tem empatia, mas a verdade é que não conseguimos deixar de a estranhar. Tal como o resto do filme, estamos sempre à espera que aconteça mais qualquer coisa que a defina.

Calvary merece consideração, quanto mais não seja por ser um filme inteligente, o que é um elogio sempre maior do que parece. É provocante, agreste, tem um óptimo ambiente e tem Gleeson, o que será sempre um seguro. Peca por ser tão ocluso. No fundo, é um filme sobre equívocos que acaba, ele próprio, por equivocar-se no caminho.

6.5/10

sábado, 6 de setembro de 2014

Toy Story


'El Madrid ha seguido buscando la fórmula cuando ya la había encontrado'
Valdano

'Si fuera yo quien mandara, a lo mejor no lo habría hecho así'
Ronaldo

Lisboa, 24 de Maio de 2014. Estádio da Luz. Minuto 110, final da Liga dos Campeões. O Madrid, ainda hipertenso, respira sofregamente, na adrenalina de continuar vivo. Aquele era um dos jogos que não tinha preço. Era a profecia do tamanho de uma nação inteira, conjurada nas chuteiras de Di Stéfano e almejada durante os 60 anos seguintes. La Décima. Jogada, por ironia, na primeira final da História entre equipas da mesma cidade. Que o sonho maior tivesse de ser conquistado ao Atlético era a derradeira e a pior de todas as perversões. Minuto 110. O Real, ainda lívido, nem pudera congratular o milagre que fora aquele empate, porque uma final continental não espera por ninguém e porque o rival dedicava-se a viver de faca nos dentes, à espera do mais pequeno deslize. Tudo à volta era guerra de nervos. Foi esse o momento em que um anjo da guarda saiu a voar.

Xabi Alonso resumiu-o tão bem quanto possível. Gracias por todo, Fideo. Nunca olvidaremos el zigzag de Lisboa. Num jogo espectacularmente simbólico para a História do maior clube do mundo, assombrado pelo prenúncio de morte e tenso em cada músculo, Angel Di María esmagou-nos um dia mais com a magia dos que já nasceram assim. Um, dois, três adversários pelo caminho, como se não fosse a melhor defesa da Europa, como se ele estivesse num palco só seu, iluminado por um holofote celestial. Se fazes aquilo numa final dos Campeões, podes fazer tudo o que quiseres na vida. Se fazes aquilo numa final dos Campeões e não te assinam um casamento vitalício, estás a lidar com loucos dos quais deves fugir. O mais incrível, neste caso, é que, para tantos e tantos outros, essa teria sido a jogada de uma carreira. Angelito fê-la três vezes durante essa noite quente de Lisboa. O mais incrível, aliás, é que ter decidido esse jogo não passou de uma nota de rodapé à sua época desconcertante.


Assistir à sua criatividade, à velocidade e ao seu jogo de pernas, à fantasia na extrema acepção da palavra, é o capítulo em que o futebol é menos jogo e mais arte clássica. Ao vê-lo, calha-me sempre lembrar de uma lenda que morreu dez anos antes de eu ter nascido. Curiosamente, partilhava com Di María a mesma candura de cognome: era Mané Garrincha, o ‘Anjo das Pernas Tortas’. Em miúdo, Garrincha foi vítima de uma poliomielite, que lhe deixou uma perna mais curta do que a outra e ambas arqueadas. Os médicos diziam que ele nem deveria conseguir andar; Mané escolheu ser o maior driblador de todos os tempos. Os defesas reconheciam que era impossível pará-lo, porque não compreendiam realmente como é que ele funcionava. Em galope, como que reconheço em Di María esse enigma genial, uma certa supra-distrofia que ele impinge a cada quebra de rins, a cada vírgula, a cada rabona, qualquer coisa de cabalístico que o torna vertiginoso, deslumbrante e imparável.

Pode não ser literal, mas não será chocante dizer que Angelito foi o futebolista de elite internacional que mais evoluiu nos últimos 5 anos. É fácil lembrar-se do miúdo franzino e malabarista que chegou ao Benfica, na pele de tantos outros, e constatar, ao contrário desses anónimos, as enormidades que ele soube beber ao longo dos anos. Jesus, Mourinho, Ancelotti, é verdade que teve sorte com os treinadores e com as eras de Benfica e Real, mas o que conseguiu assimilar de ano para ano foi, sob todas as medidas, extraordinário. Da canhota vertical no losango de Jesus, à extrema-direita açucarada do ataque de Mourinho, até, finalmente, ao visionário e subversivo médio-interior de Ancelotti. É um caso honestamente raro de um futebolista que se educou cada vez mais, sem chegar a capar um pingo do génio nato que o notabilizou. Passou, simplesmente, a aplicá-lo melhor. Sempre melhor.


Com Ronaldo e Modric, Di María foi a trindade a quem o Real deve a Décima pela qual tanto esperou. Aos 26 anos, com todo o melhor ainda pela frente, e depois da mais espectacular das metamorfoses tácticas, Angelito tornou-se num futebolista virtualmente impagável. O Real, como sempre... entendeu ao contrário. Na primeira esquina, pegou, pois, em nada menos do que 80 milhões de euros e comprou outro para o seu lugar. Às vezes acho que a direcção merengue sofre de uma condição médica qualquer e que, por isso, mais vale relevar a verdadeira esquizofrenia que se pratica em Chamartín a cada Verão, tal como se trataria qualquer doente grave que é inimputável.

Depois de anos de derrotas ou de vitórias de guerra, o Real encontrara finalmente a sua paz. Um treinador brilhante e senatorial, futebolistas notáveis e articulados numa sinfonia quase perfeita. Bom futebol, compromisso, estabilidade, reconhecimento e moral, tudo isso na antecâmara do ataque ao campeonato e à época dos 5 troféus para ganhar. Nas palavras de Valdano, o Real tinha mesmo encontrado a sua fórmula. Como um perfeito sociopata, porém, Florentino Pérez não pôde controlar o impulso irreprimível de gastar 100 milhões em craques que o Mundial fez famosos, para poder desterrar, em menos de um piscar de olhos, autênticos pilares que lhe tinham acabado de oferecer tudo em bandeja de prata. A gestão desportiva do Real é um pesadelo daliano qualquer, uma aberração tão incompreensível que olhar para ela deve deixar-nos mal-dispostos. Ver Xabi Alonso e Di María empurrados à porta da rua, simplesmente porque já não eram os brinquedos mais novos da estante, é triste, degradante e imbecil. É terrorismo futebolístico, é a linha imperdoável a partir da qual todo o respeito já se perdeu.

Nunca gostei do Real, mas habituei-me a gostar de toda a boa gente que lá estava e a torcer pelo seu sucesso. A minha pena é que ainda lá estejam outros tantos, sendo escusado falar de Ronaldo. Só espero que ele, ao menos, saia da loja de brinquedos antes de ser devorado por ela.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O United que vivemos


Ideológica e espiritualmente, o meu clube inglês será sempre o Liverpool. É daquelas coisas que eu não vi, que não experimentei, mas que sei que está certa. Não se explica, mesmo que eu já o tenha tentado explicar. Faço o salvo conduto, porque depois é inevitável ser honesto: a minha geração cresceu com outro gigante. Apesar de rivais insolúveis, aos olhos de um afficionado do jogo será sempre impossível hostilizar a outra nação vermelha de Velha Albion. O Liverpool é a minha utopia. Pragmaticamente, porém, a quota-parte dos meus sonhos acabei por vivê-la no Teatro onde eles moraram nos últimos 20 anos, derramados da batuta encantada do maior de todos os feiticeiros.

Escrevi, no texto em que me despedi dele, que nunca acreditei que o United fosse alguma vez ter outro treinador. Quem viveu na constelação mitológica que uniu a Catalunha a Moscovo, nos 10 anos que intervalaram os seus dois icónicos títulos europeus, vai sempre perceber. Esse United foi muitas coisas: um cruzamento do Beckham, um passe do Scholes e um pique do Giggs; foi aquele golo do Solskjaer, no fim duns descontos que duraram mais do que algumas vidas inteiras, e foi o recorde de títulos; foi ver crescer à nossa frente a lenda do novo Milénio, there’s only one Ronaldo, e foi cada tarde inesquecível sob o sol frio de sábado, em Old Trafford, enquanto a Premier League se tornava, de vez e para sempre, no maior espectáculo do mundo. Esse United foi muitas coisas; nenhuma, porém, maior do que Sir Alex Ferguson.

Diz-se que os homens passam e o clube fica, mas a verdade é que há homens que nunca passam e clubes que não ficam, pelo menos como eram. Era inevitável que, depois de Ferguson, se estranhasse, se duvidasse, que doesse. Confesso, no entanto, ter desconfiado que a sua plenipotência seria suficiente para quase tudo, que o seu vulto podia remediar até a sua própria partida. Esse parece ser, porém, um dos raros desafios que o mestre não pôde suplantar. Moyes nunca foi um iluminado, mas a sucessão velada e a venerável estabilidade que lhe ofereceram não fariam adivinhar o maremoto que se sucedeu. O super-campeão em título, a equipa europeia com mais presenças na Liga dos Campeões, aquele monstro de Instituição que era, no fundo, o único United que conhecíamos, ruiu num desconcertante estalar de dedos, vulgarizado quase todos os dias da época, até ao humilhante 7.º lugar na grelha final. Nada nos preparara realmente para aquilo.

À equipa que, no próprio ano anterior, tinha obliterado a melhor liga do mundo, diagnosticou-se envelhecimento geracional e falta de renovação, especulou-se com a carência de compromisso e de ambição, contaram-se lesões e denunciou-se a falta de investimento, mas a Inquisição pública só devorou verdadeiramente um homem. No clube que conservara o mesmo treinador durante um quarto de século, Moyes não viveu para ver um segundo Verão, perdido num buraco negro existencial perfeitamente desamparável. Foi como uma epifania: quando alguém é demasiado bom, durante demasiado tempo, tende-se a achar que o trabalho é, afinal, muito mais fácil do que parece. Moyes percebeu que não da forma mais crua.


Se os clubes maiores têm uma benção, é poderem começar de novo sempre com a mesma ilusão. Independentemente do que aconteça, estará sempre no horizonte um Agosto de promessas. Este United tornou-se na hipérbole dessa ideia. Menos habituado a perder do que os outros, só havia realmente uma opção para o novo ano: que a Ira de deus, e dos diabos, se abatesse sobre a Europa futebolística. Tenho de admitir que participei da histeria colectiva, assim que se anunciou a primeira pedra. Depois do honesto enfado com o bom partido que era Moyes, o anúncio da chegada de Van Gaal foi quase comovente. Se me tivessem pedido 3 ou 4 nomes à altura da sucessão, o dele estaria sempre lá. Irascível, cáustico, louco, genial. Um dos poucos com tamanho suficiente para olhar o emblema de frente. A epopeia laranja e mecânica do Brasil foi só o reforço redundante de toda a expectativa. Van Genius e o United: era um romance feito no céu.

Nunca ninguém ganhou nem perdeu nada com um mês de época, e nunca é demais lembrar isso. É mais difícil, contudo, ficar indiferente ao rumo, quando não o vemos. Depois de uma pré-época idílica, sem mais, nem menos, o pesadelo recomeçou exactamente de onde tinha acabado, alheio a simpatias ou a paliativos quaisquer. Mais do que o desastre de resultados - 4 jogos, 0 vitórias, 2 golos marcados e uma eliminação pornográfica -, o que perturba é essa desorientação. O United habituou-nos a ser o modelo, o exemplo, a saber sempre o que fazer, de forma tão autoritária, quanto intrínseca. O United era a medida sob a qual todos se regiam, a que todos tentavam imitar. Para onde é que olhamos, pois, quando o farol se apaga? Sabemos que há talento, liderança, fome; mas vemos aquilo e é como se nem Van Gaal percebesse porque é que não está a funcionar. Isso é que é assustador. Ele, claro, tem sido igual a si próprio: instaurou uma táctica inortodoxa, gastou 200 milhões em reforços - acrescentando que, no Bayern, alguém o teria parado - e manteve o dom de dominar qualquer conferência de imprensa. O que não parece é haver forma de descobrir se o trauma é circunstancial, táctico, emocional ou filosófico. Tudo o que sabemos é que, à entrada do segundo ano sem ele, Fergie parece mais insubstituível do que nunca.

Van Gaal ainda tem tempo de sobra para fazer tudo bem, quiçá, até para lutar pelo título, como o próprio reclama. E continuo a gostar de pensar que ele é um homem certo para o lugar, porque é ali que pertence gente feita do seu carisma. Acredito que este United ainda pode ser um caso especial... pena que olhemos à volta e já não o consigamos reconhecer. A equipa que, pura e simplesmente, não tem um único defesa de elite, decidiu, no último dia, pagar a Falcão 42 euros por minuto para ser o seu ducentésimo avançado. Esta febre gatsbyana é justamente tudo o que o United nunca foi. Vi, há dias, a equipa com que Ferguson cilindrou o Arsenal, há irrisórios três anos atrás. 8-2 em Old Trafford. Acho que não dá para evitar o sorriso. Talvez este United ganhe, talvez um dia venha a ser uma grande equipa. O que custa, no fundo, é que nunca vá voltar a ser o mesmo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os poetas são imortais


'Carpe diem. Seize the day, boys. Because, believe it or not, each and every one of us in this room is one day going to stop breathing, turn cold and die. Make your lifes extraordinary.' 

Já vi O Clube dos Poetas Mortos muitas vezes. Desde a primeira, presto-me a um teste bastante particular: tentar ficar indiferente àquilo. Convenci-me de que, um dia, ia entrar a última cena e eu ia-me manter impávido e pensar: 'olha, já passou'. Talvez por já tê-lo vistos vezes demais, talvez por já não estar disposto, talvez por estar velho. Nunca aconteceu e, hoje, desconfio que nunca vá acontecer. Desde a primeira vez, com 14 ou 15 anos, e em cada uma das outras, que O Clube dos Poetas Mortos é um dos filmes da minha vida. Honestamente, acho que nem o dia mais cínico do ano podia-me livrar do nó na garganta que é ver Robin Williams a baixar a cabeça e a despedir-se dos seus miúdos uma última vez. Gosto de acreditar que serei sempre fiel a essa essência e que, até ao fim, terei sempre a mesma capacidade para me inspirar e emocionar com eles.

O Clube devia ser serviço público. Devia ser um plano curricular, devia ser obrigatório nas escolas. Porque duas horas daquilo ensinam-te mais sobre liberdade de pensamento e arte, sobre lealdade, ilusão e transcendência diária do que quase todas as aulas a que poderemos assistir na vida. Qualquer pessoa de bem dirá que eu estou a ser lírico, pueril, redundantemente sentimental. Eu tenho pena de quem assiste a uma obra-prima sem nunca a conseguir ver. O tesouro do cinema é essa capacidade para deslumbrar, para ensinar, converter e inspirar, alheia à forma e à duração, ao entretenimento e ao politicamente correcto. Duas horas daquilo contagiam-te mais para o mundo do que uma carreira de boas decisões. O Clube dos Poetas Mortos é o tipo de filme que se faz uma vez na vida. O tipo de filme depois do qual é uso dizer que já se pode morrer descansado. Essa é provavelmente a única mentira a seu respeito.

Ao contrário da maioria das pessoas, as minhas memórias mais orgulhosas de Robin Williams não serão as gargalhadas do ícone que arriscaria tudo por elas, nem a comédia e a excelsa carreira que ele aí construiu. Claro que não posso ser estranho a isso, ou não tivesse crescido com a omnipresença de um Papá para Sempre, nos domingos à tarde da SIC, entre todos os tantos outros, mas nunca o poderei recordar sem ser pela sua grandeza injustamente desconsiderada enquanto actor dramático. Os grandes intérpretes fazem quaisquer personagens. Mas tenho para mim que determinados papéis não se podem transcender com bons actores, mas apenas com boas pessoas. Robin Williams era alguém que criava tanta estima no ecrã, que jamais nos podíamos distanciar ou, sequer, duvidar de que aquilo era sempre coisa dele, do coração para fora. Não da boca, como os outros.

É redutor que o lembrem como cómico porque, no fundo, ter piada era só uma ínfima parte do seu imensurável carisma. O que ele praticava era o humor enquanto terapia e expiação, prontificado a contar uma piada para salvar qualquer situação, qualquer drama e qualquer mal do mundo. Era o humor enquanto expoente emocional, o humor filosofal como forma de cuidar, como ponte para ligar as pessoas. Para mim, o humor de Robin Williams será sempre isso, aquele sorriso cúmplice, indistinto e desconcertante com que ele quebrava cena sobre cena, enquanto nos convertia ao que era verdadeiramente importante, como John Keating, do alto de uma mesa nos Poetas Mortos, ou como Sean Maguire, nos fundos de um gabinete em O Bom Rebelde, outro dos meus pesos preciosos, e que lhe valeu o inominável Óscar, que ele mereceria por decreto.

No fim, cruel é pensar que alguém que se dedicou a emprestar alegria e inspiração a tanta gente tenha acabado sem uma nem outra para si próprio. O suicídio é a maior perversão do mundo porque é a mais equivocada. Desde ontem à noite que dou por mim a pensar na quantidade deles que podiam ser evitados, se as pessoas tivessem, ao menos, uma segunda chance. Se pudessem voltar no dia seguinte para ver o impacto que tiveram na vida dos outros e pudessem medir tudo uma última vez. No fim, o mais ingrato é que ninguém lá tenha estado para obrigá-lo a subir a mais uma mesa e a ver as coisas de maneira diferente. No resto, o que ele deixa são as palavras e as ideias que, independentemente do que nos disserem, podem mesmo mudar o mundo. Nesse clube viveremos sempre juntos. Oh captain, my captain...

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sonho de uma noite de Verão


'Miúdos, eu tinha 23 anos e já tinha visto umas coisas. A Copa, mesmo assim, foi um sonho especial muito antes de acontecer, foi, no fundo, o sonho bonito que eu nunca iria cumprir. Para quem ama isto, o Mundial do Brasil era a proposta irrecusável, a mera sugestão que, nos anos que a antecederam, se dedicara a inebriar-nos. A Copa era o calor e todas as cores, era o futebol do copo na mão e do samba nos pés, para ver na praia com um sorriso na cara e fazer aquilo de lés a lés, até às noites longas que nunca acabariam verdadeiramente, recheadas de todas as promessas do mundo. O Mundial do Brasil era a história que só um louco não quereria viver. Como em qualquer idealização, porém, tendemos quase sempre a romantizar tudo de mais. Queríamos tanto, que aquela Copa já nos devia tudo antes sequer de começar. Racionalmente, ela jamais poderia ter vivido à altura das expectativas. Miúdos, eu tinha 23 anos e já tinha visto umas coisas. Nunca tinha visto nada assim.

Não tive tempo para escrever remotamente tudo o que gostaria, e nunca me vou perdoar por isso, apesar das muitas horas dedicadas a rascunhar três jogos por dia, com o Spotify a derramar-me Bossa Nova nos ouvidos, com a graça de quem diz que gosta de mim. Todavia, nas forjas da Terceira Revolução Digital, este foi o Mundial mais universal de sempre, a Copa do Facebook e do Twitter, dos bits, dos vídeos e dos memes. Foi a Copa mais democrática, mais instantânea, mais popular. Foi o Mundial total. Não sei como é que será o futebol quando me estiverem a ler, daqui a muitos anos, mas foi aqui que começou. Para a minha geração, o Brasil foi uma ponte entre o fim da Faculdade e o primeiro trabalho e foi, portanto, a minha última oportunidade antes de ir ser adulto. Vi os jogos 'todos' e, ainda que a 7000 km de distância, vivi irresistivelmente a intensidade desse turbilhão, com aquele fascínio de quem só quer fazer modesta parte de algo demasiado deslumbrante. 

Sim, miúdos, eu 'estive' no 7-1. Aberrado à frente da televisão como qualquer ser humano normal, numa experiência extra-corporal limítrofe, como se o tempo tivesse parado à volta, menos para aquela máquina sociopata alemã, Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!, como o celebrou um Álvaro de Campos em febre, que eu espero que vocês ainda leiam na escola. Esse não foi o melhor jogo que vi na vida, mas foi, por certo, a minha experiência futebolística mais incomparavelmente radical. 4 golos em 6 minutos que eu, por mais anos que viva, nunca vou conseguir explicar, numa demolição filosófica e emocional como não houve antes nem depois, no futebol e provavelmente na vida. Nesse dia, Belo Horizonte incendiou como Roma. Foi o mais próximo que estive de ver a Bíblia a acontecer.

Sim, miúdos, também vi a Costa Rica, aquela casca de alma confinada ao Pacífico, eliminar três campeões do Mundo, um da Europa e outro quase. O Brasil não teria sido o Brasil sem essa história de heróis. A Copa América foi ganha pela Europa, mas nunca me esquecerei do México e daquele coração imensurável, medido em cada defesa de Ochoa e em cada festejo maior do que a vida del Piojo Herrera, a figura mais apaixonante que lá viveu. Do Chile hipertenso que deu o golpe de misericórdia na melhor selecção de sempre e ficou a uma barra de replicá-lo ao Brasil, e da inglória do Uruguai, na campanha trágica em que Suárez foi deus e voltou a ser um vampiro. Nem dos Estados Unidos, o soccer miraculoso que sobreviveu a um grupo da morte, até desembocar no melhor jogo da prova, o mais que improvável América-Flandres, numa noite esquecida de segunda-feira em que Tim Howard se tornou imortal. Na coroa, claro, a Colômbia. Que perfume, por deus, o mais irresistível de todos os rebeldes, na graça de um predestinado, meio Zidane, meio Riquelme, o herdeiro profético dos sagrados #10 da História, de quem hoje vocês já muito devem ter ouvido falar. James, com R.

Os americanos que chegaram mais longe foram os que sacrificaram mais, ou quase tudo. O Mundial do Brasil foi o Mundial em que o Brasil se esqueceu de o ser, perdido na neurose do Hexa, o Mundial em que trocou tudo por uma táctica militarista cujo único crédito foi, durante 18 meses e até ao último dia, um único nome de craque tropical. Neymar era o último vestígio do canarismo; quando partiu ou, em boa verdade, o partiram, a centelha foi engolida por um breu capaz de devorar 200 milhões de nação, a mesma que, depois de todas as manifestações, orou o 'Vai ter Copa', e cantou o hino mais carnífice a fundos pulmões, com a ilusão destilada nos olhos. No fim, todavia, ingrata e irremediavelmente, este foi o Mundial de todos menos do Brasil, que dele se envergonhará até ao dia do Juízo Final, ainda que eles achem, com propriedade, que esse já o viveram. 

A Argentina teve a certeza absoluta de que tinha chegado a sua hora, com o Messias, no Brasil e contra a Alemanha, um ritual maquiavélico para vingar um quarto de século inteiro, coroando o Príncipe, no mais perverso de todos os palcos. A miragem provocou mas, quando chegou a hora, esfumou-se no abismo da realidade. A Argentina foi sempre um gigante de pés de barro que, honestamente, não mereceu metade do que lhe aconteceu. O fim desfez-se na derradeira desolação, desonrado na desgraça da mais imperdoável de todas as bolas de ouro. Adoro aquele povo, adoro os melhores hinchas do mundo, que o foram mais uma vez, dime lo qué siente, adoro-lhes o Deus e, noutra década qualquer, estaria devotamente por eles. Mas não era a hora. Os monstros latinos foram os secundários do filme. Também é por isso que ele foi especial.

A Copa América, não obstante, ficou na Europa. Não obstante as baixas incontáveis. Sim, miúdos, também vi o 5-1, no dia em que Van Gaal deu uma parte de avanço antes de assassinar a maior selecção que já jogou, no dia em que Robben espantou os espíritos de outra vida e se vingou de Casillas, um desmoronamento lendário onde achámos, pueris, já ter visto tudo o que havia para ver. Afinal, esse momento estonteante da História, à luz da monumentalidade do resto, pareceu depois quase vulgar. Sim, miúdos, Portugal também fez feio. Impreparados, teimosos e vagamente decadentes, caímos tão lívidos como os outros pardais. Não tivemos história; o segredo é que também não tivemos muito tempo para nos lembrar disso. A Copa não esperou por ninguém. Imaginem a viagem que isto foi. A Inglaterra jogou como nunca e perdeu como sempre, a Itália deslumbrou e foi embora tão rápido como lerem esta frase. O Inglaterra-Itália, contudo, entre dois precoces, foi um dos verdadeiramente maiores. Vi-o com uma garrafa de whisky e com grandes amigos a um sábado à noite, a contemplar da única maneira possível o último bailado de um dos meus maestros sagrados. Se calhar já ninguém se lembra, mas, nesse dia, Pirlo fez uma assistência sem tocar na bola e desenhou um zigue-zague de livre de propósito até à barra, só porque nunca foi deste mundo. Que honra beber à tua, Andrea.

Os europeus que se pareceram safar, foram pouco menos do que isso. A Bélgica, menina dos olhos, só fez o jogo mais especial, mas ficou-nos a dever o resto. A Suíça esvaiu-se fácil, Fernando Santos ainda hoje não acredita no que lhe aconteceu. Valeu-nos a Grande Armadilha de um oclumante, um mago negro em pessoa que assombrou quase tudo o que lhe apareceu à frente, com os cheque-mates mais estapafurdiamente geniais que vi na vida. Van Gaal fez coisas no Brasil que ninguém vai fazer 20 anos depois dele. O futebol são onze contra onze mas, no fim, sabemos bem quem ganha. Foi a glorificação de uma geração bestial, tão melhor do que todos os outros que nos deixou quase comprometidos. Não gosto da Alemanha, mas ter rivalizado Neuer, Lahm ou Schweinsteiger será para sempre um privilégio. Houve tempo até para que Herr Klose firmasse a posteridade nos livros. 12 anos a marcar golos, 4 meias-finais, 2 finais, até ser finalmente feliz. O futebol encontra-nos sempre. A primeira fase do Brasil foi tão boa que até hoje não vos posso garantir, com certeza, que aconteceu mesmo. Mas aposto com vocês, miúdos, que ninguém voltará a ver em directo uma igual. Depois, foi sobreviver na selva e, na selva, vale sempre a lei do mais forte. Quando ganha o melhor, encontramos sempre alguma paz.

Este foi o Mundial dos guarda-redes. Neuer, Ochoa, Navas, Howard, já falei deles, mas igualmente de M'Bolhi, o sopro de vida do deserto africano que podia ter escrito uma História diferente, naquela Argélia que foi o único verdadeiro adversário alemão, e ainda de Bravo, Romero, das lágrimas de Júlio César e da substituição de Krul. O Mundial podia ser condensado naquele minuto 120 do Holanda-Costa Rica e sintetizaria toda a explosão de génio, loucura e feitiçaria que o pintou. Com o desplante de Van Genius, omnipresente, omnisciente e omnipotente no banco, o Mundial também foi o voo estratosférico de Van Persie, numa caderneta que só acabou na tesoura da final, passando pela arca do tesouro do Bandido Jamesito, de primeira ao Uruguai, claro, mas com aquele poema ao Japão, mais ainda. Foi o tiki-taken alemão, o chocolate colombiano, o contra-ataque francês e holandês, o futebol total mexicano e chileno, foi a vertigem de Neymar e Messi jogarem-no sozinhos e foi o vólei de Cahill, 34 anos e no seu último dia de vida internacional, corolário justo do carisma australiano e dos outros digníssimos eliminados prematuros, sem os quais isto nunca teria sido tão inteiro. Estar em casa de madrugada e ver um Honduras-Equador. Meu deus, que saudades.

Sim, miúdos, ainda vamos falar da Copa muitas vezes. Sempre que vocês me pedirem para ensinar o salto do Robbie, e o festejarmos com a dança dos cafeteros ou os abraços do Herrera, de cada vez que me perguntarem se o Van Gaal tinha um bola de cristal ou me pedirem, a medo, para voltar a contar os terrores da Alemanha. E eu sei que podia ficar a falar dela eternamente, quanto mais não seja porque ela vai mesmo viver até lá. Da minha parte, contudo, mais do que todos os jogos grandificantes e todo o êxtase, a única forma suficientemente justa de lembrar o Brasil 2014 será o brilho nos olhos com que vos vou recordar de cor cada pormenor, quando já for velhinho e isto já tiver sido tudo noutra vida. Como Snape respondeu um dia a Dumbledore, quando então me perguntarem 'após todo este tempo?', será a minha vez de dizer:

'Sempre.'