"I have no choice but to direct my energies toward the acquisiton of fame and fortune. Frankly, I have no taste for either poverty or honest labor, so writing is the only recourse left for me." Hunter S. Thompson
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Whiplash. Doentiamente, genial
É adrenalina, mas em overdose. Uma pulsação pasmante, agonizante, incontrolável. Um ataque de pânico qualquer. É para acabar de ver e procurar a bomba de ar mais próxima, qualquer coisa que evite a taquicardia que por essa altura deverá estar iminente. Whiplash é um monumento, tão doentio quanto genial. Pensem num filme em contra-relógio. Pensem num drama realizado como um filme de acção. Sem tempo para pensar, só para sofrer e tentar respirar pelo meio. Em Whiplash, cada minuto foi idealizado para ter um efeito, para provocar uma reacção. É, sob todas as metáforas possíveis, um portentoso trabalho de orquestra, uma 5ª sinfonia possuída por um demónio acordado 1 hora e 40 minutos. O mais espantoso não é a intensidade, é o tempo que ela dura. Whiplash é um concerto esmagador para ovacionar de pé.
O léxico da introdução não foi escrito por acaso: a fusão de fórmulas, no filme, é realmente fascinante. Whiplash conta a história de um aspirante a músico, um baterista clássico na mais exclusiva de todas as escolas, aquela onde todos queriam estar, morada do homem que todos sonhavam impressionar. Um psicopata visionário, capaz de tudo para que os seus alunos desvendassem o seu verdadeiro potencial. Não é, de todo, comum encontrar uma peça fílmica tão incrivelmente coesa, isto é, uma realização que comungue tanto, pela forma, a mesmíssima narrativa que trata como conteúdo. Não é comum e não me parece que seja muito possível. Mas olhamos para Whiplash e vemos não um, mas dois ou três canais a contar a mesma coisa. A música - bendita sonorização, bendita banda sonora -, a electricidade e a exaltação, na trama, nas performances e na realização. Whiplash é um produto realmente excepcional. Honra e glória de um puto chamado Damien Chazelle, 29 anos, que inventou, escreveu, realizou, dirigiu e tudo o mais que lhe queiram creditar. Que tenha falhado os Globos de Ouro é aberrante. Que possa falhar os Óscares, uma tragédia. Damien Chazelle é o melhor realizador do ano. Lembrem-se do nome.
Os melhores filmes têm o hábito perverso de sugerirem que foi tudo fácil. A um texto fantástico, a uma realização brilhante, juntaram-se ainda duas daquelas performances para nos sentarmos e agradecermos. Para querermos pagar o bilhete. Miles Teller é um fenómeno. Muito poucos actores na casa da vintena de anos conseguem inspirar aquele respeito, aquela seriedade natural, tão comprometida com o papel, que logo nos esquecemos da idade, porque ele ignora esses teoremas e obriga-nos a concentrar-nos somente no que ele está a fazer. Era um papel que, nas mãos de outro, poderia facilmente ser cansativo, desgostoso, pouco crível. Não com ele. Teller faz ruir o ecrã com uma performance própria de um colapso nervoso, sempre em agonia, sempre no limite, na hipertensão e na superação. A sua jornada é uma droga, uma proposta irrecusável que nos cola ao ecrã de olhos tão arrebanhados como Kubrick um dia imaginou a sua Laranja Mecânica. As pistas estão todas aí. Não será este ano, mas a glória é só uma questão de tempo.
Para JK Simmons, por sua vez, já tem mesmo data marcada: 22 de Fevereiro de 2015. Após embrulhar toda a temporada dos prémios, será esse o dia de reclamar o seu inevitável e inquestionável Óscar. Um longo caminho percorreu ele, da histórica figura paternal que aprendemos a acarinhar em Spider-Man e até em Juno... mas que aqui, mais do que reinventar-se, transforma-se verdadeiramente, tão negro como o traje de que não abdica, concebido algures entre um manicómio e o Inferno. Simmons é um filme de terror dentro do próprio filme, uma figura que nos inspira realmente medo, por mais distância que queiramos manter. Não há ali nada empático, nada redentor, nada que nos vá surpreender. Simmons é todo ele a raiz do mal, multiplicando cena sobre cena a um nível quase inalcançável. Um verdadeiro recital.
Whiplash é das surpresas mais sensacionais a que vão assistir este ano. Não chega saberem que é bom, porque não vão estar inteiramente preparados para o que verão a seguir. Que haja justiça no mundo e que o dignifiquem amanhã com a Nomeação a Melhor Filme.
8.5/10
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
O que não nos mata
Há exactamente dois anos, escrevi aqui aquele que viria a ser o meu texto mais lido de sempre. Essa podia ter sido uma segunda-feira qualquer, não parecesse declaradamente ferida por um abismo da História. O planeta resfolgava no frenesim dourado já típico da segunda semana de Janeiro, mas para uns tantos era dia apenas de mais uma fatalidade anunciada. Messi ganharia a sua 4ª Bola de Ouro e bom era que todos nos conformássemos com isso, mesmo que olhássemos a custo para o ano que ficara para trás e o asco nos engolisse vivos, com aquele impulso de um miúdo que vai ser injustiçado por um professor e que sabe que não há nada a fazer. Ronaldo alcançara nessa época o que na meia década que o antecedeu parecera puramente irrealizável: bater o Barça, quebrar o tiki-taka, ganhar a pulso um jogo que o único rival tivera viciado. E, no fim, não chegara. Nesse dia, pareceu certo nunca ir chegar. Mais do que em revolta, lembro-me de olhar para essa inevitabilidade da derrota com desolação. Fizemos tudo o que podíamos, miúdo. Todavia, pensei eu, na vida há jogos que não podemos realmente ganhar. Lembro-me de ter aceite, de não ter mais nada a dizer, de nenhum argumento valer ainda a pena perante a grosseira evidência das circunstâncias. Até que parei num directo da SIC.
Com a passadeira vermelha de Zurique em fundo, Nuno Luz perorava sobre a infimidade das nossas hipóteses, num fado triste e pachorrento para conservar a longa emissão ligada às máquinas e servir-nos a morfina, antes do nosso destino terminal. Honestamente, não lhe estava a prestar muita atenção, até que, na praxística revista de imprensa internacional, ecoou o seguinte: "alguns colunistas acreditam que Ronaldo tem uma hipótese... porque Messi tem três Bolas de Ouro e a 4ª já não teria muito significado." Nesse momento, foi como sentir veneno na alma. O impulso de expiá-lo pela ponta dos dedos foi, tão só, inevitável. Ao fim e ao cabo, aquilo já não era sobre ganhar ou perder uma Bola de Ouro outra vez. Aquilo era um fim da História nele próprio. O melhor futebolista desse ano, nessa sabotada luta titânica, não só ia inevitavelmente voltar a perder, como ia ter de assistir a que lhe condescendessem essa derrota. A nós, restava admitir, sucumbir envergonhados àquele destino cáustico que outros lhe tinham escrito. É nessas alturas que percebemos que, no limite, a vida é um KO. Que não são os outros que nos vencem, somos nós que perdemos. E que perder é só uma opção. Que se nunca deitarmos a toalha, então o jogo não pode realmente acabar. O jogo acaba quando e como nós quisermos. Se não hoje, pois amanhã. Orgulho-me de muitos textos que escrevi, mas esse é definitivamente especial.
Nesse dia, o Ronaldo perdeu, de facto, a Bola de Ouro. Orgulhava-me mesmo se ele tivesse continuado a perder, orgulho-me mais porque acredito que esse dia é a razão de termos voltado cá hoje. Se o que não nos mata torna-nos sempre mais fortes, Ronaldo é a materialização estatual de Nietzsche. Discutir o quão bom ele é realmente é dos passatempos que mais gozo me dá. Discutir o quanto é ou não um dos melhores de sempre, qual é, afinal, o seu alcance futebolístico, o que é que oferece ao futebol do Real, se ainda vale a pena ver. A ironia que muita gente ainda não percebe é que a eternidade de Ronaldo não se medirá nas fintas, nas assistências, nas vitórias, nem no demencial número de golos que marcará até ao fim da vida. Quando daqui a 30 anos olharem para trás, no que não vão acreditar é na alma daquele cabrão. Na anormalidade competitiva, na obstinação pela excelência, na mentalidade olímpica. Na necessidade instintiva de fazer mais todos os dias, de ser espectacularmente melhor todos os anos. Quase todos os que se cruzaram com ele, dizem que Ronaldo foi o profissional mais excepcional que conheceram. Mas Ronaldo não é profissional nenhum, porque o profissionalismo é uma história de esforço, disciplina e sacrifício. Ronaldo não sofre para ser melhor, pelo contrário, transcende-se por isso e por causa disso. Alimenta-se, respira e precisa disso. Os profissionais falham, fartam-se, acabam. Ronaldo é para sempre. Se me perguntarem se é o melhor jogador de todos os tempos? Não é. Mas é o mais próximo que o jogo já esteve de um super-homem. Os seus números são uma nota de rodapé se comparados ao tamanho da sua mentalidade.
Quando daqui a 30 anos olharem para trás, no que não vão acreditar é no tamanho do exemplo. E vão à merda com cada um dos vossos lirismos e preconceitos, Exemplo sim senhor, com letra grande e para o dia-a-dia, por mais que os seus excelsos contemporâneos preferissem avaliar-lhe a forma e o feitio e achassem que não se pode aprender nada com o futebol. Com um gajo que nunca teve uma fácil e, pior do que nunca ganhar um favor, que ainda fizeram questão de humilhar, antes de, pelo próprio pulso, provar-lhes a todos que se o quisessem matar, então iam ter de querer muito, mas muito mais do que ele. Um exemplo sim senhor, para quem se levanta todos os dias e professa o "somente o necessário". Para quem o mais ou menos é mais do que suficiente. Para quem acha que tem azar, para quem se anula à sombra da primeira pancada e para quem volta para casa, ao fim do dia, muito ocupado a ter pena de si próprio. Fomos feitos para querer sempre mais. Para sermos melhores do que as nossas expectativas. Para sermos superlativos seja qual for o nosso lugar, para gostarmos de fazer bem e para ter brio em ver bem feito. Fomos feitos para ter uma porra dum sonho e para que ninguém nos diga onde raio é que podemos parar. Hoje, há quem me vá ler e se constranja porque eu digo isto tudo "de um jogador de futebol." Não de um mártir, de um estadista ou dum herói qualquer. Eu digo que o problema do mundo é olhar para o céu em vez de ver o que está à nossa frente. E que quem é bom demais para inspirar-se com "um jogador de futebol", que não se preocupe, porque nunca vai ser como ele.
No ano passado não escrevi uma palavra. Há vezes em que não é preciso. Em boa verdade, nem uma consegui dizer, enquanto me tentava comportar como um adulto, com ele a chorar na televisão à nossa frente. Daqui a muitos anos, quando já houver a noção do que foi realmente o Ronaldo, não sei se vão acreditar no que isto custou a ganhar. Já nós, os que vimos, nunca vamos esquecer o orgulho que foi poder ficar tão contente por ele. Gosto de pensar que dificilmente o maior prémio individual voltará a ser ganho por tanta gente. Hoje festejamos mais uma, monstro. Tua e de todos os que sabem o tanto que as mereceste.
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sábado, 10 de janeiro de 2015
The Imitation Game. Estatuto e pouco mais
Todos os filmes se sujeitam a ser avaliados à luz das expectativas que criamos para eles. Não sei se é lógico, mas é legítimo. É por isso que há determinados filmes de baixa monta que até nos enchem as medidas, mesmo quando estamos absolutamente conscientes das suas falências, ao passo que outros, tecnicamente impecáveis, efectivamente "superiores", acabamos por deixar de parte. Posto de uma forma simples, isto serve para dizer que The Imitation Game é uma desilusão.
Desde logo, porque a história era demasiado boa. Era como um thriller dos livros mas na vida real, um episódio mítico, incontornável e, durante meio século, secreto da 2ª Grande Guerra: a forma como os ingleses descodificaram a Enigma, a máquina criptográfica inquebrável que sustentava todas as comunicações nazis, obra e graça dum génio autista, homossexual e ostracizado de Cambridge, chamado Alan Turing. O elenco era tão bom como a história. No pico da forma e do reconhecimento do público e dos seus pares, Benedict Cumberbatch declarava a candidatura ao Óscar, secundado por uma lista de luxo da nata britânica. Era quase só pôr a toalha, afiar os talheres e esperar. The Imitation Game padeceu, porém, do mal tantas vezes inerente aos filmes que parecem fazer-se sozinhos.
O americano Graham Moore foi quem levou a cabo a adaptação do livro e a sensação que fica é que todo o seu cunho se resumiu a não querer estragar. A sintetizar a obra até à forma de um argumento, sem inventar demais, sem arriscar e sem nada que pudesse falhar. O resultado é um filme absolutamente liso, sem pulso nenhum, que se limita a fazer duas horas num piloto automático mais ou menos imperturbado e previsível. Pior do que isso, das poucas vezes em que tenta ser confrontacional ou emotivo, falha completamente, criando essas pequenas situações sem engenho, como quem está a seguir as deixas de um livro de instruções, porque era suposto. Em suma, o texto não é rico, as situações não são críveis e a relação entre as personagens, mais do que falhar, nunca chega realmente a ser profunda que baste.
Não é que o filme seja um transtorno, é só insuficiente. A história, seja como for, é inevitavelmente boa. A realização de Morten Tyldum é competente e a banda sonora de Alexandre Desplat é tão boa como sempre. O melhor em The Imitation Game é evidentemente Cumberbatch, mas o filme também é meritório na envolvência que, por ora, lhe consegue criar. Narrado em três faixas temporais, o bullying, o desconforto e a desconfiança são genuínos e, a espaços, respiram-se no ar, dando-lhe a credibilidade que a acção propriamente dita não consegue dar. Depois, claro, há o alcance de Benedict Cumberbatch.
A corrida ao Óscar foi precoce este ano e o britânico posicionou-se muito cedo, com muita opinião pública a favor. Gosto realmente dele e considero a performance de primeira água, mas também acho pacífico dizer que não é a melhor do ano. Não necessariamente por sua causa, mas porque o filme não o soube potenciar mais e melhor. Cumberbatch é um grande Alan Turing, com tantas idiossincrasias que já lhe reconhecemos de Sherlock que, hoje, quase já parecem dele. Trata-se de um papel exposto, a pedir uma vulnerabilidade estranha e perturbada, disfarçada de arrogância, que ele capitaliza como poucos. E o seu fim, enquanto personagem, é realmente brilhante. No resto, é o filme que não é bom o suficiente. Nem lhe exigiu mais, nem lhe deu mais interpretações à altura.
Os secundários são a outra grande derrota de The Imitation Game. Matthew Goode é, mesmo assim, quem melhor consegue disfarçar. Tem boa presença, carisma e aquela altivez cativante dos melhores adversários. Sem muito espaço, mas bem. Todos os outros são sombras e, quanto a isso, destaco com pesar o desaproveitamento de Charles Dance e Mark Strong. Keira Knightley, por fim, é de uma inocuidade total. Já há uns bons anos afastada da alta roda, voltou a ter oportunidade num filme com ambições, mas desperdiçou-a. É completamente unidimensional. Não tem uma única grande cena e toda a sua presença é ligeira e boçal, como quem só lá está para decorar. Uma pena.
The Imitation Game tem acumulado um sem número de nomeações. Nos Globos, por exemplo, corre para Melhor Drama, Argumentista, Actor e Actriz... o que só o torna num dos filmes mais gravemente sobrevalorizados do ano. Na realidade, é apenas razoável. Tem estatuto, Cumberbatch e o mérito alheio de ser verídico. Fora isso, é uma das desilusões de 2014.
6.5/10
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
The Drop. Era fácil fazer melhor
Há uma categoria de filmes série B da qual sou um fã confesso. Fora do espectro dos filmes oscarizáveis e a meio caminho da teia de blockbusters, há uma nata de películas que, anualmente, providenciam aquele escape bom de domingo à tarde, algures numa equação entre crime, acção e um protagonista digno desse nome. Por estes dias, enquanto se aguardam ansiosamente todos os lançamentos da época dos prémios, acaba por haver espaço para pôr em dia essa conta de filmes que a Primavera e o Verão não permitiram. The Drop parecia reunir os pontos quase todos: tinha Brooklyn como cenário, uma história de máfia nova e rivalidades velhas e a vertigem do business as usual, predicados que coroava com Tom Hardy no papel principal e com nada menos do que a última aparição do icónico James Gandolfini. Esta casta de filmes que acabei de descrever, cíclicos por definição, padecem, contudo, do mal que é viverem quase sempre no limbo. Nunca são propriamente surpreendentes e o que separa a vulgaridade de um bom achado é um conjunto de pormenores ou, pelo menos, uma ideia feliz. The Drop não é um bom achado.
Acho que um bom ponto de partida para estes filmes é serem descomplexados. Saberem o que são, viverem com isso e tentarem transcender-se naquilo que controlam. É determinante que não se achem muito especiais. O primeiro problema de The Drop começa logo aí: o argumento é presunçoso. Fala do que toda a gente já falou com a languidez e a sobranceria de quem está a inventar a roda. Depois, é um filme demasiado lento. Parece autoritário e contemplativo, parece querer desvirtuar as fórmulas típicas do seu tipo (diálogo vivo, quebras de acção, pulso), mas a verdade crua é que só o faz de forma a mascarar o seu ostensivo vazio. No fundo, fala pouco porque não tem mais nada para dizer. The Drop não tem nenhuma grande ideia, sendo críptico e, às vezes, quase incompreensível... sobre nada (onde emerge toda a alegoria sobre um cão - um pitbull bebé que é um dos pontos altos da narrativa... exclusivamente por ser realmente adorável). No fim, vale o golo de honra, com a sociopatia e o pragmatismo a marcarem pontos. Mas soube a pouco. Ainda mais no momento em que se descobre que o argumentista era nada mais, nada menos do que Dennis Lehane, uma imperial referência que tem no currículo, apenas, uns tais de Mystic River e Shutter Island...
Falhou a estrutura e falharam os papéis-chave. O caso mais peculiar é o de Tom Hardy, que passou ao lado não por culpa própria, mas porque fez exactamente o que lhe pediram. Não me lembro de muitos casos em que um actor se tenha auto-censurado tanto para caber num papel, mas Hardy despiu-se de quase todos os seus traços (intensidade, reactividade, perspicácia), para retratar um homem solitário, aborrecido e imperturbável. Gabo a disciplina e até consigo perceber a caracterização no contexto do objectivo maior, mas é a personagem em si que não funciona, sacrificando uma hora e meia inevitavelmente fastidiosa por um efeito colateral. Gandolfini quase prefiro evitar, bastando-me dizer que não será evidentemente por esta amostra que será lembrado, num papel tão cliché como seria possível. Houve, contudo, uma boa surpresa. O belga Matthias Schoenaerts, conterrâneo e colaborador prévio do realizador Michaël R. Roskam, chegou-se, ele sim, à frente com uma performance digna desse nome, na pele de um delirante criminoso de rua que conseguiu sempre ser perigosamente desconfortável. Fica de referência futura. Noomi Rapace (Prometheus) também acabou por estar bem. Tem uma presença que não é fácil contornar.
Em suma, não se pedia muito e as armas estavam na mão, até melhores do que a encomenda... mas The Drop atirou quase tudo ao lado. Era fácil fazer melhor.
5.5/10
Em suma, não se pedia muito e as armas estavam na mão, até melhores do que a encomenda... mas The Drop atirou quase tudo ao lado. Era fácil fazer melhor.
5.5/10
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domingo, 4 de janeiro de 2015
St. Vincent. O indie do ano
É um daqueles filmes para nos deixar com um sorriso na cara o dia todo. De coração cheio, de bem com a vida. Acho que, hoje em dia, cada vez se menosprezam mais os filmes felizes. Também porque, a dada altura, eles se puseram a jeito. Vulgarizaram-se, melodramatizaram-se, enjoaram. Acho que, em boa parte, deixamos de enxergar o seu valor. O valor do feel good movie, do cinema como catarse para o que há de melhor nas pessoas, sem jogos, sem twists e sem perversões. St. Vincent é tão puro como dizer que se gosta de alguém. Não é um filme cor-de-rosa, longe disso, não vive em nenhum Olimpo acima das nossas cruezas mundanas, mas percebe o essencial, ao exaltar a beleza das coisas e da gente, mesmo quando a vida e o mundo podem ser realmente feios à nossa volta. É tão puro como dizer que se gosta de alguém, porque isso é coisa que dizemos tão pouco e que, afinal, nos esquecemos do tão simples que é, e de todo o bem que faz. St. Vincent é isso: é um filme que nos faz bem.
O argumento é divino na interacção entre as personagens, na sua caracterização e, no fundo, na qualidade imensurável que é ter uma beleza intrínseca. Note-se que a história não é nova: um velho gasto e áspero conhece um miúdo cheio de vida e, do cume dos seus vícios, assume-se como a figura paternal que lhe faltava, ao passo que, na verdade, estava ele a receber muito mais do que a dar. A história não é nova mas, como acontece tantas vezes com as melhores, o segredo são as pessoas e a forma de as contar, porque a fórmula está lá e é de sucesso por alguma razão. Theodore Melfi foi o realizador-argumentista e, na sua primeira longa-metragem, o mérito maior está longe de ser técnico. O sua chave de ouro foi recuperar ao cinema o que o cinema tem de essencial: um coração do tamanho do mundo, a redenção e a capacidade para emocionar-se a contar essa história.
Como já se deve ter tornado óbvio, num filme sobre pessoas, nada poderia ter funcionado sem um cast perfeito. Bill Murray e Jaeden Lieberher foram o cast perfeito. Permito-me começar pelo miúdo, porque ninguém pode ficar indiferente a quem interpreta aquilo com 11 anos. Convenci-me, em tempos, de que fazer cast de crianças era meio caminho para falhar o objectivo, porque não me parecia que os miúdos conseguissem realmente ser genuínos. Não sei se foi só imaturidade minha, mas facto é que os últimos anos têm sido espantosos nesse campo. Assim de repente, basta relembrar Tye Sheridan (Mud), Quvenzhané Wallis (Beasts of the Southern Wild) ou Asa Butterfield (Hugo). Jaeden Lieberher entra pois, e de portas escancaradas, nessa pequena galeria de luxo. O puto tem tudo: instinto, peculiaridade e um timing extraordinário. Se a qualidade do texto é necessariamente equiparável à forma como se o utiliza, Lieberher fez do óptimo que recebeu, um ainda melhor. Como se o tivesse feito a vida toda.
Do grandioso Bill Murray não há muito a dizer. Acredito que um produtor que tenha pegado no texto e fechado os olhos por um momento, só o possa ter imaginado a ele no papel. É um fato de alfaiate, cortado e costurado ao centímetro para pulsar a avalanche do seu velho carisma que, aos 64 anos, faz dele hoje uma autêntica figura de culto. Basta fazer uma pesquisa diagonal para ver tudo o que a Internet derrama dele por estes dias. E é daquelas personagens que o merece, de facto, porque é impossível não gostar dele. A sua inevitável redenção é a história que já vimos milhões de vezes mas que, em consciência, sabemos simplesmente que não podemos deixar de gostar uma mais. E a jornada inortodoxa de um velho e de um miúdo em casas de strip, em corridas de cavalos ou em tascas perdidas, com whisky e uma jukebox, toca-nos, de facto, porque, ao fim do dia, o cinema é muito mais simples do que parece.
St. Vincent não vai ganhar nenhum prémio maior - cá estaremos para torcer pelos dois Globos Musical/Comédia -, e não me parece que vá passar aos livros como um clássico. Para mim, contudo, foi amor à primeira vista e é definitivamente um dos meus mais acarinhados do ano. Como se fosse preciso, ainda tem uma daquelas playlists para beber de olhos fechados... e dá ouro até aos créditos. Boa sorte se tentarem não gostar.
8.5/10
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
The Theory of Everything. Dos filmes que têm quase tudo
O maior elogio que posso fazer a The Theory of Everything é dizer que está à altura da vida e da figura de Stephen Hawking. É essa a percepção final de duas horas de esmagamento físico e emocional que, tal como o universo ao qual ele devotamente se dedicou, nos fazem sentir muito, muito pequenos. Quase gratos.
Já vi muitas metamorfoses em cinema. Muitos retratos cruéis de doença, exponencialmente desconfortáveis, violentos e chocantes. Muito poucos, honestamente, com o alcance gravitacional que Eddie Redmayne lhe conseguiu imprimir. O seu Stephen Hawking oblitera-nos a alma. Amassa-nos as entranhas, agride-nos, deixa-nos a um canto, sem defesas, sem saber o que dizer. Poucas vezes a espectacular degradação física de um ser humano terá sido tão honestamente retratada, num plano que vai muito além da caracterização - que é melhor do que o imaginável -, e se legitima no mandato da perfeição interpretativa. Como Hawking, Redmayne comunica realmente com os olhos, com os gestos e com os esgares que lhe puderam sobrar, numa sinfonia trágica, mas absolutamente arrebatadora. A cruz de um dos génios maiores da nossa Era foi, como numa parada bíblica, ter de sacrificar o corpo e é inenarrável olhar hoje para o que têm sido os seus estupefactos 72 anos, com 2 casamentos, 3 filhos e a celebração como um dos maiores físicos da História e como figura científica de culto. Mas nada dele é aqui avaliado pela medida da sua genialidade cósmica. O que se conta aqui não é a teoria ou o talento, mas a sua superação enquanto homem, a resiliência sobre todas as coisas, quando o mais fácil, o mais decente, o mais humano era ter desistido.
Uma das cenas mais ressonantes do ano será a do momento em que, pela enésima perversão do destino, ele perde a voz. Em que bate no fundo do seu buraco negro, coisa que nos devora com um sentimento de impotência honestamente arrepiante, e em que ele se assemelha a um farrapo de gente solitário, mudo e perdido na vastidão do universo... até que os olhos lhe ficam pesados de lágrimas e, afinal, cheios de vida, e lembram-nos de que há uma luz que nunca se apaga. Que, como o próprio resumirá superiormente, se há vida, há esperança. Esta ode transcendental à condição humana é a arte da representação tão majestosa quanto ela pode ser. É escusado reiterar, portanto, quem é, desde já, o meu favorito ao Óscar.
James Marsh, galardoado pela Academia com Man on Wire, é quem realiza, com base na adaptação do livro de Jane Hawking, a primeira mulher de Stephen. Na síntese, este é um filme em que a interpretação é tão boa, que é quase tudo, açambarcando narrativa, picos cronológicos e peculiaridades da acção. Tudo é menor perante a performance de Eddie Redmayne, tudo é completado e engrandecido por ela. É justo, contudo, reconhecer a óptima direcção de Marsh que, até à data, tinha um passado essencialmente noutro plano, o dos documentários. É uma realização francamente fértil, que se socorre de um manancial de soluções, de impulsos e de quebras, uma lente tão educada e talentosa quanto necessário para nos conduzir pelo gabarito da história. É, em suma, um trabalho requintado, que vai sempre um pouco mais longe e que compõe dedicadamente tudo o que faz. Gostei, em particular, do enfoque enriquecedor, quase artístico, nos momentos em que o protagonista se deixava ficar sozinho e do recurso a vintages filmados com câmaras de 8 milímetros, para acomodar a necessária cronologia da história.
Se há insuficiência a apontar ao filme é a edição. A adaptação do argumento, da autoria de Anthony McCarten, também carecia de outras nuances, para disfarçar e pontear melhor a passagem do tempo, mas o corte de cenas é o campo que deixa mais a desejar. É delicado filmar biografias e não é necessário reforçar a infinitude da tarefa que era reduzir a vida de Stephen Hawking a duas horas; faltou, contudo, algum engenho, quiçá experiência, para proteger as respectivas faltas. Os primeiros 20 minutos de filme, em especial, pareceram um desconfortável teste de velocidade e isso continuou a sentir-se ao longo de toda a primeira metade.
No mais, voltar aos elogios. Num filme ingrato para secundários, Felicity Jones é muito boa. A personagem não é irrepreensível e nota-se, ocasionalmente, o facto do livro ter sido escrito pela própria mulher de Hawking, mas Felicity Jones é tão consistente quanto lhe poderiam pedir. Gabo-lhe a suavidade e o carisma doce da primeira fase e, depois, a progressiva reinvenção, não num par de momentos mais melodramáticos que lhe escreveram, mas nos pormenores da genuína e resistente dedicação de todos os dias, própria de quem vestiu a personagem de corpo e alma, e não apenas no set. Destaco ainda David Thewlis, no carácter mentorial de Cambridge, e Harry Lloyd, pela camaradagem dos verdadeiros e pela bolsa de boa-disposição que até hoje é uma imagem de marca de Hawking. Finalmente, uma vénia à monumental banda-sonora do islandês Jóhann Jóhannsson, uma das nomeações do filme aos Globos de Ouro, além das naturais a Melhor Drama, Actor e Actriz.
The Theory of Everything é um filme todo-poderoso. Um encontro feliz entre a história de um homem maior do que a vida e intérpretes talentosos o suficiente para a mostrarem ao mundo com o carácter dos predestinados. Evidentemente, um dos filmes pelos quais 2014 será lembrado.
8.5/10
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Nightcrawler. A frieza como virtude e como senão
Não é um filme impressionante. Não escala, não vai buscar um zénite onde não estávamos à espera, não tem alcance suficiente para nos arrebatar. Ao mesmo tempo, também não é previsível ou vulgar. É como que uma anestesia, uma carga venenosa que nos deixa adormentados. Não nos mata, não nos exalta, deixa-nos, em vez, como que paralisados com a sua frieza cirúrgica, com a limpeza crua do seu pragmatismo. Nightcrawler é uma história do "jornalismo" sanguessuga, do freelancing abutrificante da 25ª hora, que leva repórteres avulsos a perseguirem a polícia madrugadas a fio, em busca das tragédias onde possa gangrenar o pior sensacionalismo televisivo.
Acho que o maior mérito do filme é o seu carácter desapaixonado. A forma como se auto-repudia, evitando, por todos os meios, ser estético, moral ou remotamente empático. Nightcrawler é um trabalho sujo. Não tem entrelinhas, não tem redenções, é exactamente o que parece. Sugere-nos o contrário, sugere-nos um desenlace mais óbvio, mas afinal, e de certa maneira, não tem sequer "ficção". Não raras vezes é mais difícil ser realista do que criativo e é incontornável a forma como o argumento se despe desse protagonismo fácil, garantindo uma experiência quase documental ao espectador. O californiano Dan Gilroy é quem assina, na qualidade de argumentista a estrear-se como realizador . A nível técnico, a competência também transparece na direcção. O sumo visual do filme é o resultado de um trabalho próprio de uma régie televisiva - curiosamente omnipresente à própria acção -, com a cadência, o ângulo e a desmultiplicação de uma grande emissão. Os momentos de "grande reportagem", sejam no acto, sejam na transmissão, são irrepreensíveis e agarram-nos a essa vertigem do directo.
O problema de um trabalho nestes moldes é que está cronicamente limitado à partida. Condenado a que se enalteça o rigor fílmico, a técnica, a interpretação, quase todos os subprodutos, mas com aquela distância que separa os filmes bem feitos dos que absolutamente nos roubam. A Nightcrawler faltou génio e reflexão. Faltou uma finta que fosse, faltou ser mais provocador, negro ou delirante. Faltou desequilíbrio, febre, sal. Aquele tipo de retrato, acabado como o foi, é ázimo. É um filme que estará sempre incompleto, desconfiado de que aquilo não pode realmente ser e acabar só assim.
A nível de performance, Nightcrawler é o one man show por definição. Jake Gyllenhaal não tem sequer uma sombra nas entranhas da sua noite, enquanto sujeito descarnado, deslocado e sociopata, que tropeça num rumo por acaso e faz da sua negritude a carreira que nunca poderia ter. Já o escrevi mais do que uma vez ao longo dos últimos anos e, desta feita, parece que a época dos prémios vai finalmente fazer-lhe jus: Gyllenhaal é um dos mais notáveis protagonistas da sua geração e, sem lugar a dúvidas, uma das certezas mais sustentadas da actualidade. A sua mutabilidade e a compleição intensa que lhe imprime sempre colocam-no num nível especial e é isso a que assistimos mais uma vez. A alienação do homem que retrata, a sua resposta na aparência, os seus modos autísticos, a sua descolagem social, tudo compõe notavelmente uma das personagens do ano. Se não acho que o filme vá morar nessa elite, pois ele sim.
Nightcrawler não é para qualquer disposição, nem para qualquer estilo, mas o grande lead, a frieza e a competência técnica transversal serão, contudo, razões suficientes para justificar a oportunidade.
7/10
Nightcrawler não é para qualquer disposição, nem para qualquer estilo, mas o grande lead, a frieza e a competência técnica transversal serão, contudo, razões suficientes para justificar a oportunidade.
7/10
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