terça-feira, 27 de janeiro de 2015

American Sniper. Escandalosamente mau


Custa a acreditar no quão mau consegue ser.

Não é a ideologia, não é a política, não é, sequer, a propaganda espectacularmente vomitável: é a vulgaridade. A estupidificante simplificação. American Sniper é um filme para bruto ver. Parece quase miraculoso que se consiga, por ora, esboçar sequer duas frases seguidas, tal a tacanhez imbecil de cada um dos seus pormenores. É, sem esforço, um dos argumentos mais infinitamente maus que já presenciei, um lixo tão deprimente que devia fazer o autor fechar-se em casa, numa quarentena de vergonha. É um filme para o cowboy estúpido, que não balbucia mais do que três palavras por dia e cuja vida se resume ao Deus, Pátria e Família. É um filme tão unidimensional, tão bacoco e tão idiota, que corria o risco de estar ultrapassado se tivesse estreado há 30 anos atrás. American Sniper é das piores coisas que vi na vida. O único terrorismo que ali está é a sua própria existência.

Repare-se que as minhas expectativas não estavam altas. Estava consciente da orientação e tinha lido as críticas: Clint Eastwood está a fazer um fim de carreira como despudorada bandeira Republicana e o filme fora acusado quase transversalmente de ser mais propaganda do que cinema. Mesmo assim, não queria acreditar no que tinha acabado de ver. American Sniper é escandalosamente mau. Tem a complexidade de uma história para um miúdo de 4 anos e é uma enciclopédia de clichés. Estão lá todos, no contexto situacional, na caracterização das personagens, nos diálogos. É uma indigestão cinematográfica. Cada minuto de American Sniper é um atentado à sétima arte, é uma exposição radioactiva para o QI de um ser humano normal. 

Só há uma coisa que não concordo em relação às críticas ao filme: que é propaganda por excelência. Primeiro, porque American Sniper não tem rigorosamente nada de excelente. Depois porque sim, aquilo é propaganda, mas propaganda de quinta categoria. Aquela propaganda de sarjeta, apalhaçada, barulhenta e embaraçosa, que acredito que só possa constrangir os próprios partidários. Nada impedia que Eastwood fizesse este filme do Iraque com toda a conotação que sente a seu respeito; só se suplicava era que contasse uma história, que, pelo menos, tentasse! falar das pessoas, dos dilemas e do contraditório. A própria comunicação política é uma arte que se afiança numa única regra basilar: a credibilidade da mensagem. Ou, pelo menos, no esforço de credibilidade. Dizer a "nossa" verdade, sim, mas encarar as zonas cinzentas, fazer o mea culpa. Em pleno 2015, contudo, os Óscares indicam a Melhor Filme uma coisa que já seria embaraçosamente ultrapassada a meio do século passado. É, com grande probabilidade, um dos piores nomeados de todos os tempos. 

American Sniper é mau em tudo... o que me custa ainda mais dizer, ou não fosse Clint Eastwood uma das minhas referências de sempre. Million Dollar Baby, Mystic River, Unforgiven, Gran Torino. A lista é interminável. É, por isso, tanto mais agreste vê-lo às portas dos 85 anos a fazer coisas destas. Tão, mas tão menores do que a sua sombra. A realização é banal, redundante, sem uma única grande cena. Quase desleixada e, ainda por cima, incólume à edição. Bradley Cooper, na fase mais gloriosa da carreira, é como um comboio de alta velocidade a desmanchar-se contra uma rocha. Um tipo tão bom e em tão boa forma, forçado a capar o próprio alcance interpretativo para fazer um protagonista tão quadrado. Mas o pior de tudo, como suspeito que já tenha deixado perceber, é o argumento adaptado de Jason Hall. Tendo em conta que já queimei os adjectivos quase todos, resta-me deixar uma ideia mais ressonante do que eles: Gone Girl, de David Fincher, falhou tanto a nomeação a Melhor Filme, como a Melhor Argumento (!!!), em benefício de American Sniper. Vejam os dois e sintam o que é ter realmente vergonha de uma coisa que adoram.

American Sniper é um insulto. Não percam dinheiro, não percam tempo e conservem um perímetro de higiene.

1/10

domingo, 25 de janeiro de 2015

The Grand Budapest Hotel. O gosto de ir à aventura


Nunca tinha visto Wes Anderson e não era uma prioridade. Ouvira a filmografia peculiar, o humor de autor, a dedicada composição, mas sinceramente não tenho por hábito ficar fã de ninguém muito absorvido e, portanto, a desconfiança era de bom senso. Não teria realmente sido para já não fosse a avalanche de nomeações. A temporada dos prémios é, de resto, tantas vezes perversa, cometendo esquecimentos imperdoáveis e chamando a atenção para quem não a merece de todo. The Grand Budapest Hotel é, no entanto, um feliz exemplo contrário. Carismático, entusiástico, com cor, humor e envolvência, é, na verdade, uma das surpresas mais agradáveis do ano.

É um filme sobre a história de um livro, obra de um velho caminhante que explica, logo nas primeiras linhas, o seu segredo: que os grandes enredos não assomam à mente dos melhores escritores por decreto de uma criatividade permanente; pelo contrário, os melhores são aqueles que conservam, ao longo da vida, a capacidade tão só mundana para olhar e para continuar a escutar atentamente. E, no fim de contas, são as próprias histórias que vão ao seu encontro, não eles que as têm de ir fazer. The Grand Budapest parte da atraente proposta de que a sua crónica, mesmo que de um hotel aparentemente fictício, numa república imaginada, foi, afinal, verídica num tempo e habitada por gente de carne e osso, ainda que já só viva na mente de um velho contador de histórias.

É, no essencial, um relato das venturas e desventuras de um icónico concierge - Monsieur Gustave -, mestre de um estrelar hotel de estância, numa palaciana república centro-europeia da primeira metade do século passado. Acho que o trailer não lhe fazia jus porque, tal como esta descrição, correu o risco de cingi-lo. Ainda que centrado nas quatro paredes do hotel que lhe dá o nome, The Grand Budapest não se reduz, todavia, às peripécias da vida quotidiana com um trago de humor; é um filme largo, que excede definitivamente esse espaço físico, tanto na acção, como no simpático alcance das suas personagens. A história funciona em flashback - começa com um misterioso cavalheiro a versar as suas memórias ao jantar, com o hotel já decadente -, tem passado, enquadramento histórico e tem tanto mais carisma por causa disso. Ganhei, de facto, um franco respeito pelo trabalho de Wes Anderson. Da câmara ao argumento (o travo ácido dos diálogos é uma assinatura deliciosa), é um criador tremendamente coeso, muito elaborado e muito fiel à sua visão, sem nunca ser pretensioso ou cansativo. Pelo contrário, é isso que lhe emprega aura, fazendo com que brote naturalmente um produto colorido, alegre e cativante. The Grand Budapest é um conto puro, uma aventura com personalidade, que acompanhamos a gosto, peripécia a peripécia, com aquela curiosidade que nos costumava mover em crianças.

No plano interpretativo, e por entre um elenco riquíssimo, Ralph Fiennes também sobressai como uma das agradáveis notícias da temporada, num registo bem distante do que está habituado a fazer. A forma engalanada como se comporta, levemente delirante, é teatral, mas acerta em cheio na disposição, e nunca é uma caricatura. Não é o seu registo, não era fácil ser fiável e, no entanto, é uma personagem que se vem a entranhar de bom grado. Muito justa a nomeação ao Globo Musical/Comédia. Destaco, igualmente, as prestações juvenis: Tony Revolori encaixa como uma luva no ritmo acelerado, cómico e conceptual do boneco, tendo sido uma óptima escolha de cast; Saoirse Ronan, nomeada da Academia em 2008, aos 18 anos, já é outra certeza. A óptima presença e a sua graciosidade intensa permitiram-lhe, sem esforço, dominar o papel.

The Grand Budapest Hotel é nada menos do que o digníssimo campeão de nomeações de 2015, somando nove, onde se incluíram Filme, Realizador, Argumento Original e Cinematografia, qualquer uma delas honestamente merecida. Não é um filme inesquecível, mas é prazeroso e, seguramente, um dos mais interessantes do ano.

7/10

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Boyhood. Porque é que Linklater é um dos maiores da História, porque é que o filme não é


Não consigo medir o quanto gostava de ter gostado de Boyhood.

Foi, desde o momento do anúncio e até ao último dia, o meu favorito. Era um daqueles que estava escrito, uma aposta com tamanha garantia, que o fui deixando ficar, tão certo que estava da fidelidade do produto final. Era, de uma vez por todas, a inalcançável Bola de Ouro de Richard Linklater, depois de tantos anos na sombra indie, depois de já ter dado mais ao cinema do que o cinema lhe poderá um dia dar. Vi o Before Sunrise numa madrugada que já ia longa e, com aquele fascínio de quem vê uma obra-prima com os próprios olhos, tanto mais estremunhado por nunca terem estendido àquilo passadeiras vermelhas, champagne e estátuas preciosas, vi nessa mesma noite o Before Sunset, até o sol me começar a nascer. Se estão a ler isto e nunca os viram - elogio profundamente estendido a Before Midnight, no ano passado - espero que parem agora e se façam à vida.

Richard Linklater cometeu a alucinação de filmar Boyhood durante 12 anos - doze -, uma semana de cada vez, para fazer não com que o cinema se parecesse mais real... mas que o fosse mesmo. Isso é o que já todos devem saber sobre o favorito aos Óscares de 2015. O que talvez não saibam é que, para inventar o romance mais supremo que o cinema já viu, para que a sua trilogia fosse boa que chegue, já ele demorara... 18 anos - DEZOITO - com os Before. Disse ele, por estes dias, que "se o cinema fosse um quadro, o tempo seria a sua tinta." Linklater tem tudo: ideário, escrita, técnica, bom gosto e sensibilidade. E tem, sobretudo, algo que não se aprende, algo que já tem de nascer connosco: um desígnio, e o génio e o compromisso necessários para levá-lo a cabo. Como é que não se idolatra um gajo assim?

No fundo, espero honestamente que ele ganhe o Óscar, como ganhou há uma semana o Globo de Ouro. Porque o universo é perverso e escreve certo por linhas tortas. Porque toda a gente deve chegar ao lugar que lhe pertence e porque, algures no caminho, ele conseguiu, afinal, romper o binómio espácio-temporal que cronicamente separou a sua filmografia daquela que ganha prémios. Seja qual for o palco, nunca poderei ter uma objecção à celebração de alguém como ele. É como ver Aaron Sorkin, deus maior da televisão americana, colher o reconhecimento final com um filme como The Social Network. Ou McConaughey passar à História com Dallas Buyers Club. No fim, contarão as grandes exibições e os prémios, não necessariamente as que aconteceram a par e passo. O que nos leva à questão, admito que ostensivamente subjectiva: onde é que Booyhood falhou?

Desde logo, é discutível que tenha falhado. Está na categoria de filmes de tal assombro, com tão espectacular sustento, que se pode dar ao luxo de que cada um decida esta resposta religiosamente por si próprio. Forço-me a começar pelo melhor: estilisticamente, é um filme esmagador. Irrepetível. Emprestar 12 anos de devoção a tecer seja que obra for seria sempre impressionante; num meio tão imediatista e tão volátil como o cinema, é honestamente indescritível. À parte todo o enquadramento, a direcção de Linklater é inatacável, como sempre. Pacífica, angular, delicada, cheia. Completamente adequada a tudo aquilo que o próprio idealizou. Bem na cor, na luz, bem nos tempos em que deixa a acção respirar, pensar, em que nos incentiva a sorver. Mais uma banda sonora à altura do que se pretendia.

Acho que Boyhood deve obrigatoriamente ser visto. O que me parece é que só será visto uma vez. Por esta altura, acho que já deixei claro o meu posicionamento em relação ao realizador e a minha admiração em relação à ideia. O que não acho é que Boyhood funcione como produto cinematográfico. É uma experiência espectacular. Ambiciosa, total, ora graciosa, cativante. Mas, ironicamente, toda ela se desvanece no próprio teste do tempo que a torna possível. Boyhood é uma injecção de 3 horas com a qual é demasiado difícil identificar-se. É o tal álbum da adolescência, sem pontos muito altos, nem demasiado baixos, no fundo, tão idêntico à vida real, na forma e no conteúdo, que acaba por ser idêntico demais. É um filme totalmente contemplativo, de tal modo absorvido e encantado pela sua própria aura dormente que, quando chegamos ao final, damo-nos conta de que não conseguimos sintetizar quase nada. No fim de cada filme, faço sempre a mesma pergunta primordial: vê-lo-ia outra vez? Todos os melhores filmes jamais feitos são intemporais. São irresistíveis por instinto, porque catárticos, inspiradores, porque mesmo à enésima vez podem-nos contar algo que nunca tínhamos percebido. Ou reafirmar ou fazer-nos ver, se já estivermos preparados. Boyhood acaba nos créditos. É um filme espectacularmente ambicioso, geneticamente gigante, mas não vive para lá de si próprio. 

Tudo isto é absolutamente subjectivo. Para mim, todavia, a falta de estrutura narrativa que o torna diferente, é a mesma que consuma o seu falhanço. Seinfeld apresentava-se como uma série sobre nada, porque dizia que o dia-a-dia não tem moral da história. Que a vida é como é, feita de pequenos episódios, nunca de grandes argumentos. Suponho que o cinema não tenha de ser exactamente como a vida. Aquelas duas horas não deviam condensar uma adolescência, deviam reflectir sobre ela. Articulá-la, assimilá-la e, no fim de contas, serem as guias dessa jornada suprema que um dia fizemos sozinhos. Boyhood demite-se desse intento. É tão ambicioso na ideia, como fatalmente egoísta na concretização, tornando orfã a relação com o espectador. Distante, sedada, impessoal, finita. Quem sabe, daqui a 10 anos serei eu a olhar para o filme de maneira diferente. Ele continuando igual, eu porque talvez tenha mudado. Hoje, com todo o apreço que me merece, não é esse dia. 

6/10

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Whiplash. Doentiamente, genial


É adrenalina, mas em overdose. Uma pulsação pasmante, agonizante, incontrolável. Um ataque de pânico qualquer. É para acabar de ver e procurar a bomba de ar mais próxima, qualquer coisa que evite a taquicardia que por essa altura deverá estar iminente. Whiplash é um monumento, tão doentio quanto genial. Pensem num filme em contra-relógio. Pensem num drama realizado como um filme de acção. Sem tempo para pensar, só para sofrer e tentar respirar pelo meio. Em Whiplash, cada minuto foi idealizado para ter um efeito, para provocar uma reacção. É, sob todas as metáforas possíveis, um portentoso trabalho de orquestra, uma 5ª sinfonia possuída por um demónio acordado 1 hora e 40 minutos. O mais espantoso não é a intensidade, é o tempo que ela dura. Whiplash é um concerto esmagador para ovacionar de pé.

O léxico da introdução não foi escrito por acaso: a fusão de fórmulas, no filme, é realmente fascinante. Whiplash conta a história de um aspirante a músico, um baterista clássico na mais exclusiva de todas as escolas, aquela onde todos queriam estar, morada do homem que todos sonhavam impressionar. Um psicopata visionário, capaz de tudo para que os seus alunos desvendassem o seu verdadeiro potencial. Não é, de todo, comum encontrar uma peça fílmica tão incrivelmente coesa, isto é, uma realização que comungue tanto, pela forma, a mesmíssima narrativa que trata como conteúdo. Não é comum e não me parece que seja muito possível. Mas olhamos para Whiplash e vemos não um, mas dois ou três canais a contar a mesma coisa. A música - bendita sonorização, bendita banda sonora -, a electricidade e a exaltação, na trama, nas performances e na realização. Whiplash é um produto realmente excepcional. Honra e glória de um puto chamado Damien Chazelle, 29 anos, que inventou, escreveu, realizou, dirigiu e tudo o mais que lhe queiram creditar. Que tenha falhado os Globos de Ouro é aberrante. Que possa falhar os Óscares, uma tragédia. Damien Chazelle é o melhor realizador do ano. Lembrem-se do nome.

Os melhores filmes têm o hábito perverso de sugerirem que foi tudo fácil. A um texto fantástico, a uma realização brilhante, juntaram-se ainda duas daquelas performances para nos sentarmos e agradecermos. Para querermos pagar o bilhete. Miles Teller é um fenómeno. Muito poucos actores na casa da vintena de anos conseguem inspirar aquele respeito, aquela seriedade natural, tão comprometida com o papel, que logo nos esquecemos da idade, porque ele ignora esses teoremas e obriga-nos a concentrar-nos somente no que ele está a fazer. Era um papel que, nas mãos de outro, poderia facilmente ser cansativo, desgostoso, pouco crível. Não com ele. Teller faz ruir o ecrã com uma performance própria de um colapso nervoso, sempre em agonia, sempre no limite, na hipertensão e na superação. A sua jornada é uma droga, uma proposta irrecusável que nos cola ao ecrã de olhos tão arrebanhados como Kubrick um dia imaginou a sua Laranja Mecânica. As pistas estão todas aí. Não será este ano, mas a glória é só uma questão de tempo.

Para JK Simmons, por sua vez, já tem mesmo data marcada: 22 de Fevereiro de 2015. Após embrulhar toda a temporada dos prémios, será esse o dia de reclamar o seu inevitável e inquestionável Óscar. Um longo caminho percorreu ele, da histórica figura paternal que aprendemos a acarinhar em Spider-Man e até em Juno... mas que aqui, mais do que reinventar-se, transforma-se verdadeiramente, tão negro como o traje de que não abdica, concebido algures entre um manicómio e o Inferno. Simmons é um filme de terror dentro do próprio filme, uma figura que nos inspira realmente medo, por mais distância que queiramos manter. Não há ali nada empático, nada redentor, nada que nos vá surpreender. Simmons é todo ele a raiz do mal, multiplicando cena sobre cena a um nível quase inalcançável. Um verdadeiro recital.

Whiplash é das surpresas mais sensacionais a que vão assistir este ano. Não chega saberem que é bom, porque não vão estar inteiramente preparados para o que verão a seguir. Que haja justiça no mundo e que o dignifiquem amanhã com a Nomeação a Melhor Filme.

8.5/10

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O que não nos mata


Há exactamente dois anos, escrevi aqui aquele que viria a ser o meu texto mais lido de sempre. Essa podia ter sido uma segunda-feira qualquer, não parecesse declaradamente ferida por um abismo da História. O planeta resfolgava no frenesim dourado já típico da segunda semana de Janeiro, mas para uns tantos era dia apenas de mais uma fatalidade anunciada. Messi ganharia a sua 4ª Bola de Ouro e bom era que todos nos conformássemos com isso, mesmo que olhássemos a custo para o ano que ficara para trás e o asco nos engolisse vivos, com aquele impulso de um miúdo que vai ser injustiçado por um professor e que sabe que não há nada a fazer. Ronaldo alcançara nessa época o que na meia década que o antecedeu parecera puramente irrealizável: bater o Barça, quebrar o tiki-taka, ganhar a pulso um jogo que o único rival tivera viciado. E, no fim, não chegara. Nesse dia, pareceu certo nunca ir chegar. Mais do que em revolta, lembro-me de olhar para essa inevitabilidade da derrota com desolação. Fizemos tudo o que podíamos, miúdo. Todavia, pensei eu, na vida há jogos que não podemos realmente ganhar. Lembro-me de ter aceite, de não ter mais nada a dizer, de nenhum argumento valer ainda a pena perante a grosseira evidência das circunstâncias. Até que parei num directo da SIC.

Com a passadeira vermelha de Zurique em fundo, Nuno Luz perorava sobre a infimidade das nossas hipóteses, num fado triste e pachorrento para conservar a longa emissão ligada às máquinas e servir-nos a morfina, antes do nosso destino terminal. Honestamente, não lhe estava a prestar muita atenção, até que, na praxística revista de imprensa internacional, ecoou o seguinte: "alguns colunistas acreditam que Ronaldo tem uma hipótese... porque Messi tem três Bolas de Ouro e a 4ª já não teria muito significado." Nesse momento, foi como sentir veneno na alma. O impulso de expiá-lo pela ponta dos dedos foi, tão só, inevitável. Ao fim e ao cabo, aquilo já não era sobre ganhar ou perder uma Bola de Ouro outra vez. Aquilo era um fim da História nele próprio. O melhor futebolista desse ano, nessa sabotada luta titânica, não só ia inevitavelmente voltar a perder, como ia ter de assistir a que lhe condescendessem essa derrota. A nós, restava admitir, sucumbir envergonhados àquele destino cáustico que outros lhe tinham escrito. É nessas alturas que percebemos que, no limite, a vida é um KO. Que não são os outros que nos vencem, somos nós que perdemos. E que perder é só uma opção. Que se nunca deitarmos a toalha, então o jogo não pode realmente acabar. O jogo acaba quando e como nós quisermos. Se não hoje, pois amanhã. Orgulho-me de muitos textos que escrevi, mas esse é definitivamente especial. 

Nesse dia, o Ronaldo perdeu, de facto, a Bola de Ouro. Orgulhava-me mesmo se ele tivesse continuado a perder, orgulho-me mais porque acredito que esse dia é a razão de termos voltado cá hoje. Se o que não nos mata torna-nos sempre mais fortes, Ronaldo é a materialização estatual de Nietzsche. Discutir o quão bom ele é realmente é dos passatempos que mais gozo me dá. Discutir o quanto é ou não um dos melhores de sempre, qual é, afinal, o seu alcance futebolístico, o que é que oferece ao futebol do Real, se ainda vale a pena ver. A ironia que muita gente ainda não percebe é que a eternidade de Ronaldo não se medirá nas fintas, nas assistências, nas vitórias, nem no demencial número de golos que marcará até ao fim da vida. Quando daqui a 30 anos olharem para trás, no que não vão acreditar é na alma daquele cabrão. Na anormalidade competitiva, na obstinação pela excelência, na mentalidade olímpica. Na necessidade instintiva de fazer mais todos os dias, de ser espectacularmente melhor todos os anos. Quase todos os que se cruzaram com ele, dizem que Ronaldo foi o profissional mais excepcional que conheceram. Mas Ronaldo não é profissional nenhum, porque o profissionalismo é uma história de esforço, disciplina e sacrifício. Ronaldo não sofre para ser melhor, pelo contrário, transcende-se por isso e por causa disso. Alimenta-se, respira e precisa disso. Os profissionais falham, fartam-se, acabam. Ronaldo é para sempre. Se me perguntarem se é o melhor jogador de todos os tempos? Não é. Mas é o mais próximo que o jogo já esteve de um super-homem. Os seus números são uma nota de rodapé se comparados ao tamanho da sua mentalidade. 

Quando daqui a 30 anos olharem para trás, no que não vão acreditar é no tamanho do exemplo. E vão à merda com cada um dos vossos lirismos e preconceitos, Exemplo sim senhor, com letra grande e para o dia-a-dia, por mais que os seus excelsos contemporâneos preferissem avaliar-lhe a forma e o feitio e achassem que não se pode aprender nada com o futebol. Com um gajo que nunca teve uma fácil e, pior do que nunca ganhar um favor, que ainda fizeram questão de humilhar, antes de, pelo próprio pulso, provar-lhes a todos que se o quisessem matar, então iam ter de querer muito, mas muito mais do que ele. Um exemplo sim senhor, para quem se levanta todos os dias e professa o "somente o necessário". Para quem o mais ou menos é mais do que suficiente. Para quem acha que tem azar, para quem se anula à sombra da primeira pancada e para quem volta para casa, ao fim do dia, muito ocupado a ter pena de si próprio. Fomos feitos para querer sempre mais. Para sermos melhores do que as nossas expectativas. Para sermos superlativos seja qual for o nosso lugar, para gostarmos de fazer bem e para ter brio em ver bem feito. Fomos feitos para ter uma porra dum sonho e para que ninguém nos diga onde raio é que podemos parar. Hoje, há quem me vá ler e se constranja porque eu digo isto tudo "de um jogador de futebol." Não de um mártir, de um estadista ou dum herói qualquer. Eu digo que o problema do mundo é olhar para o céu em vez de ver o que está à nossa frente. E que quem é bom demais para inspirar-se com "um jogador de futebol", que não se preocupe, porque nunca vai ser como ele.

No ano passado não escrevi uma palavra. Há vezes em que não é preciso. Em boa verdade, nem uma consegui dizer, enquanto me tentava comportar como um adulto, com ele a chorar na televisão à nossa frente. Daqui a muitos anos, quando já houver a noção do que foi realmente o Ronaldo, não sei se vão acreditar no que isto custou a ganhar. Já nós, os que vimos, nunca vamos esquecer o orgulho que foi poder ficar tão contente por ele. Gosto de pensar que dificilmente o maior prémio individual voltará a ser ganho por tanta gente. Hoje festejamos mais uma, monstro. Tua e de todos os que sabem o tanto que as mereceste.

sábado, 10 de janeiro de 2015

The Imitation Game. Estatuto e pouco mais


Todos os filmes se sujeitam a ser avaliados à luz das expectativas que criamos para eles. Não sei se é lógico, mas é legítimo. É por isso que há determinados filmes de baixa monta que até nos enchem as medidas, mesmo quando estamos absolutamente conscientes das suas falências, ao passo que outros, tecnicamente impecáveis, efectivamente "superiores", acabamos por deixar de parte. Posto de uma forma simples, isto serve para dizer que The Imitation Game é uma desilusão.

Desde logo, porque a história era demasiado boa. Era como um thriller dos livros mas na vida real, um episódio mítico, incontornável e, durante meio século, secreto da 2ª Grande Guerra: a forma como os ingleses descodificaram a Enigma, a máquina criptográfica inquebrável que sustentava todas as comunicações nazis, obra e graça dum génio autista, homossexual e ostracizado de Cambridge, chamado Alan Turing. O elenco era tão bom como a história. No pico da forma e do reconhecimento do público e dos seus pares, Benedict Cumberbatch declarava a candidatura ao Óscar, secundado por uma lista de luxo da nata britânica. Era quase só pôr a toalha, afiar os talheres e esperar. The Imitation Game padeceu, porém, do mal tantas vezes inerente aos filmes que parecem fazer-se sozinhos.

O americano Graham Moore foi quem levou a cabo a adaptação do livro e a sensação que fica é que todo o seu cunho se resumiu a não querer estragar. A sintetizar a obra até à forma de um argumento, sem inventar demais, sem arriscar e sem nada que pudesse falhar. O resultado é um filme absolutamente liso, sem pulso nenhum, que se limita a fazer duas horas num piloto automático mais ou menos imperturbado e previsível. Pior do que isso, das poucas vezes em que tenta ser confrontacional ou emotivo, falha completamente, criando essas pequenas situações sem engenho, como quem está a seguir as deixas de um livro de instruções, porque era suposto. Em suma, o texto não é rico, as situações não são críveis e a relação entre as personagens, mais do que falhar, nunca chega realmente a ser profunda que baste.

Não é que o filme seja um transtorno, é só insuficiente. A história, seja como for, é inevitavelmente boa. A realização de Morten Tyldum é competente e a banda sonora de Alexandre Desplat é tão boa como sempre. O melhor em The Imitation Game é evidentemente Cumberbatch, mas o filme também é meritório na envolvência que, por ora, lhe consegue criar. Narrado em três faixas temporais, o bullying, o desconforto e a desconfiança são genuínos e, a espaços, respiram-se no ar, dando-lhe a credibilidade que a acção propriamente dita não consegue dar. Depois, claro, há o alcance de Benedict Cumberbatch.

A corrida ao Óscar foi precoce este ano e o britânico posicionou-se muito cedo, com muita opinião pública a favor. Gosto realmente dele e considero a performance de primeira água, mas também acho pacífico dizer que não é a melhor do ano. Não necessariamente por sua causa, mas porque o filme não o soube potenciar mais e melhor. Cumberbatch é um grande Alan Turing, com tantas idiossincrasias que já lhe reconhecemos de Sherlock que, hoje, quase já parecem dele. Trata-se de um papel exposto, a pedir uma vulnerabilidade estranha e perturbada, disfarçada de arrogância, que ele capitaliza como poucos. E o seu fim, enquanto personagem, é realmente brilhante. No resto, é o filme que não é bom o suficiente. Nem lhe exigiu mais, nem lhe deu mais interpretações à altura.

Os secundários são a outra grande derrota de The Imitation Game. Matthew Goode é, mesmo assim, quem melhor consegue disfarçar. Tem boa presença, carisma e aquela altivez cativante dos melhores adversários. Sem muito espaço, mas bem. Todos os outros são sombras e, quanto a isso, destaco com pesar o desaproveitamento de Charles Dance e Mark Strong. Keira Knightley, por fim, é de uma inocuidade total. Já há uns bons anos afastada da alta roda, voltou a ter oportunidade num filme com ambições, mas desperdiçou-a. É completamente unidimensional. Não tem uma única grande cena e toda a sua presença é ligeira e boçal, como quem só lá está para decorar. Uma pena.

The Imitation Game tem acumulado um sem número de nomeações. Nos Globos, por exemplo, corre para Melhor Drama, Argumentista, Actor e Actriz... o que só o torna num dos filmes mais gravemente sobrevalorizados do ano. Na realidade, é apenas razoável. Tem estatuto, Cumberbatch e o mérito alheio de ser verídico. Fora isso, é uma das desilusões de 2014.

6.5/10

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

The Drop. Era fácil fazer melhor


Há uma categoria de filmes série B da qual sou um fã confesso. Fora do espectro dos filmes oscarizáveis e a meio caminho da teia de blockbusters, há uma nata de películas que, anualmente, providenciam aquele escape bom de domingo à tarde, algures numa equação entre crime, acção e um protagonista digno desse nome. Por estes dias, enquanto se aguardam ansiosamente todos os lançamentos da época dos prémios, acaba por haver espaço para pôr em dia essa conta de filmes que a Primavera e o Verão não permitiram. The Drop parecia reunir os pontos quase todos: tinha Brooklyn como cenário, uma história de máfia nova e rivalidades velhas e a vertigem do business as usual, predicados que coroava com Tom Hardy no papel principal e com nada menos do que a última aparição do icónico James Gandolfini. Esta casta de filmes que acabei de descrever, cíclicos por definição, padecem, contudo, do mal que é viverem quase sempre no limbo. Nunca são propriamente surpreendentes e o que separa a vulgaridade de um bom achado é um conjunto de pormenores ou, pelo menos, uma ideia feliz. The Drop não é um bom achado.

Acho que um bom ponto de partida para estes filmes é serem descomplexados. Saberem o que são, viverem com isso e tentarem transcender-se naquilo que controlam. É determinante que não se achem muito especiais. O primeiro problema de The Drop começa logo aí: o argumento é presunçoso. Fala do que toda a gente já falou com a languidez e a sobranceria de quem está a inventar a roda. Depois, é um filme demasiado lento. Parece autoritário e contemplativo, parece querer desvirtuar as fórmulas típicas do seu tipo (diálogo vivo, quebras de acção, pulso), mas a verdade crua é que só o faz de forma a mascarar o seu ostensivo vazio. No fundo, fala pouco porque não tem mais nada para dizer. The Drop não tem nenhuma grande ideia, sendo críptico e, às vezes, quase incompreensível... sobre nada (onde emerge toda a alegoria sobre um cão - um pitbull bebé que é um dos pontos altos da narrativa... exclusivamente por ser realmente adorável). No fim, vale o golo de honra, com a sociopatia e o pragmatismo a marcarem pontos. Mas soube a pouco. Ainda mais no momento em que se descobre que o argumentista era nada mais, nada menos do que Dennis Lehane, uma imperial referência que tem no currículo, apenas, uns tais de Mystic River e Shutter Island...

Falhou a estrutura e falharam os papéis-chave. O caso mais peculiar é o de Tom Hardy, que passou ao lado não por culpa própria, mas porque fez exactamente o que lhe pediram. Não me lembro de muitos casos em que um actor se tenha auto-censurado tanto para caber num papel, mas Hardy despiu-se de quase todos os seus traços (intensidade, reactividade, perspicácia), para retratar um homem solitário, aborrecido e imperturbável. Gabo a disciplina e até consigo perceber a caracterização no contexto do objectivo maior, mas é a personagem em si que não funciona, sacrificando uma hora e meia inevitavelmente fastidiosa por um efeito colateral. Gandolfini quase prefiro evitar, bastando-me dizer que não será evidentemente por esta amostra que será lembrado, num papel tão cliché como seria possível. Houve, contudo, uma boa surpresa. O belga Matthias Schoenaerts, conterrâneo e colaborador prévio do realizador Michaël R. Roskam, chegou-se, ele sim, à frente com uma performance digna desse nome, na pele de um delirante criminoso de rua que conseguiu sempre ser perigosamente desconfortável. Fica de referência futura. Noomi Rapace (Prometheus) também acabou por estar bem. Tem uma presença que não é fácil contornar.

Em suma, não se pedia muito e as armas estavam na mão, até melhores do que a encomenda... mas The Drop atirou quase tudo ao lado. Era fácil fazer melhor.

5.5/10