terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Birdman. Poesia moderna


Tem o delírio e a lucidez dos poetas.

Ponto prévio, para deixar já tudo em pratos limpos: Birdman é tão bom quanto se diz. É uma peça de cinema brilhante, um apontamento tão romântico e tão vulnerável, que é quase impossível não nos desarmar. É um filme sobre reconhecimento. Sobre essa jornada maior do que a vida que é colher a aceitação do mundo, sobre ser admirado e importar, sobre não ser indiferente, nem esquecido, nem soçobrar sozinho. Sobre essa luta que nunca está realmente ganha, tão frágil como uma centelha, que é descobrirmos ou redescobrirmos o nosso lugar, essa busca pela paz que é conseguir afirmar uma identidade, conseguir afirmar o próprio talento. Birdman é um filme espectacularmente honesto. Às vezes louco, caótico, bem-humorado, constantemente sofrido, mas sempre, sempre despretensioso. Auto-exposto, por génese, nos seus medos e nas suas fraquezas e frustrações, sempre de peito aberto às balas e, por isso, com o brio dos que têm os corações maiores. É o argumento do ano em termos de dimensão humana, pela filosofia com que fala de pessoas e por conhecê-las pela medula. Pelo jeito como se move magistralmente cartada sobre cartada, pensamento sobre pensamento, diálogo sobre diálogo. É um texto reverencial, poético pela delicadeza com que articula o seu delírio e a sua massiva capacidade de reflexão. É um filme realmente profundo e profundamente introspectivo. Seja feita uma grandíssima ode a Iñárritu (e aos seus 3 co-argumentistas): estar à altura da reputação é cada vez mais caro por estes dias, mas Birdman merece, com toda a legitimidade do mundo, ser o front-runner aos Óscares.

Do realizador mexicano só tinha visto Babel (2006), que o levou pela primeira vez às nomeações da Academia, e de Babel não gostei minimamente. Abstracto, pseudo-intelectual e incapaz de se concretizar, foi um filme da moda e da crítica. Uma década depois, porém, aplaudo-o de pé. Passaram quatro anos desde a sua última longa-metragem, e se há coisa que Iñarritu soube capitalizar foi o tempo. Birdman é um filme que se sente ter podido maturar. Apurar o gosto, aguardar pela inspiração e compor-se como merecia ser composto. É um filme completo e adulto, com uma visão e com espaço para brilhar. Como disse o próprio realizador, "Tudo, cada movimento, cada linha, cada abertura de porta, absolutamente tudo foi ensaiado." O argumento é excepcional, mas a realização é igualmente especial. Tão eléctrica quanto contemplativa, como uma orquestra. Com intensidade e quebras de tensão, com um tipo a destruir à mão um camarim, antes de ter uma conversa intimista sobre um casamento falhado. Se me tivessem pedido uma pulsação ideal para o filme, era esta. Com os walk and talks pelos corredores do teatro, a câmara a espremer-se até entrar de rompante em bocados de ante-estreias, sempre a girar e a tirar o raio-x a cada bocado daquela Broadway, antes de se deixar ficar numa conversa de varanda pendurada sobre a Times Square. Isto é tanto mais fascinante se soubermos que Iñarritu filmou o grosso do filme a um único take, numa aposta que o próprio caracterizou de suicida, por ter acreditado que era essa a identidade a imprimir, a da vida que não tem edições. Foi honestamente um prazer.

Confesso que, depois de ter visto The Theory of Everything, não imaginei que Eddie Redmayne pudesse ter realmente alguém à sua altura este ano. Michael Keaton provou-me errado. A eminente grandeza do papel é, na verdade, indissociável do seu carácter autobiográfico: o actor que na juventude foi um icónico super-herói em cinema, antes de tombar numa longa travessia no deserto, não é menos do que a sua própria história. Poucas vezes se tem uma oportunidade destas - lembro-me da performance incrível de Mickey Rourke, em The Wrestler (2010) - e Keaton cuida dela com a alma. Num caso como noutro, sente-se. E a verdade é que é difícil bater o que é tão bom, quando também é tão real. Se repararmos, é o único dos cinco nomeados ao Óscar que não retrata alguém com uma perturbação mental ou física reconhecida. Dá para perceber o alcance? Keaton enche o ecrã. Nos seus laivos de entusiasmo esperançoso, na sua genuinidade mas, acima de qualquer outra coisa, na sua desolação. No seu rumo contra a maré, no seu exercício de transcendência entre derrotas maiores e menores, sempre iludido de que ainda há algo para ele, de que ainda há algo a ganhar. A cena no bar com a crítica do Times, à entrada do capítulo final, aquela inevitabilidade crua da derrota, é sétima arte em estado puro.

Birdman foi uma fénix dos regressos. Definitivamente não me teriam visto apostar que uma comédia-drama também marcaria a volta de um dos grandes nomes com quem cresci: Edward Norton faz o seu melhor filme numa década. Cáustico, agressivo, intenso, com um texto à sua medida. Parecia que já não tinha nada daquilo com ele, mas ressuscitou-nos à frente o tipo de performance que estava adormecida na memória do século passado (Fight Club, American History X, 25th Hour...). Grande, grande personalidade, uma arrogância de autor que é um privilégio ter de volta. Emma Stone começa a cumprir o percurso que todos lhe adivinhavam. Tem demasiado carisma, era tudo uma questão de tempo. O seu potencial excede esta nomeação, mas foi uma merecida porta de entrada na elite, na pele de uma miúda dura e revoltada, mas interessante, até madura. A cena com o pai na recepção do teatro teria valido a nomeação por si só. Num elenco tremendamente sustentado, não deixam de merecer referência Galifianakis, Naomi Watts e Andrea Riseborough, pelo nível que emprestaram ao produto final. Salientar também, e inevitavelmente, a enorme cinematografia de Emmanuel Lubezki, o mestre por detrás de Tree of Life ou Gravity. Não era um trabalho ortodoxo e Lubezki não o queria aceitar - com o essencial da filmagem entre os muros de um teatro, numa semi-comédia -, mas Iñarritu convenceu-o e o resultado da parceria criativa com o conterrâneo foi venerável.

Birdman é uma pérola. Um apontamento cativante e inspirador sobre a inelutável leveza do ser, tão leve como uma pena sujeita ao vento, tão leve que também pode voar, sobre a fragilidade envergonhada, mas despretensiosa, que nos faz humanos. Um filme tão artístico, tão bem executado e com tanto coração. Vai discutir o Óscar com Boyhood e, de uma vez por todas, espero que tenha o universo a conspirar a seu favor. Tem tudo para ser o melhor vencedor em muitos, muitos anos.

8.5/10

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Foxcatcher. À equipa de sonho só faltou outra táctica


As performances e a realização são próprias de um melhor do ano. Se Foxcatcher não o chega a ser, só se pode culpar a si próprio: foi incapaz de finalizar com engenho o jogo que, por mérito integral, deixara à mercê.

Começo pelo incontornável: estamos na presença do elenco do ano. De repente, não me lembro de outro filme em que surjam três protagonistas a tanta altura. Carell, Ruffalo e Tatum são monumentais, simbioticamente perturbadores, são engrenagens feitas à medida uns dos outros, que se completam e engrandecem de forma indiscutível. A vénia maior parte, claro, para a transformação arrebatadora de Steve Carell, senhor de uma carreira a um universo de distância daquilo que plasma o seu John du Pont. A figura do filantropo bilionário e promíscuo, com ares de psicopata e um profundo complexo de inferioridade, é massiva e Carell respira-a por cada poro. A sua inquietação, a imprevisibilidade e o espectacular desconforto que provoca foram trabalhados ao pormenor e, como o próprio já admitiu em entrevista, acompanharam-no para fora do set, durante os meses de filmagem. Os seus silêncios gazeados, o olhar morto, a forma de andar, os timings e toda a comunicação não-verbal são apontamentos esmagadores. Não há muito a dizer, a não ser que, aos 52 anos, um ícone do humor televisivo americano se reinventou como referência.

Mark Ruffalo era o mais rotinado dos três, e o único, no fundo, que se apresentava como uma escolha natural para o filme. Diria que cumpre, sem grande margem para dúvidas, o melhor papel da carreira. Parece-me que também era o menos exigente dos três, no sentido em que implicava menos intensidade e menos mutação expressiva. Ruffalo ganha-o, porém, com uma consistência inestimável. Todo ele é frieza, maturidade e presença de espírito. Rodeado da pressão e da descompensação alheia, tantas vezes limítrofe, parece, todavia, passar sempre incólume, graças a uma paciência professoral e a uma grandeza muitas vezes pedagógica. Foi também ele um nomeado natural mas, se há coisa que ficam a dever ao filme, é a tripleta de indicações ao Óscar. Nunca pensei dizer isto, mas Chaning Tatum não podia ter sido esquecido.

Foxcatcher não foi ortodoxo a escolher os seus intérpretes mas, até se dermos isso de barato, Tatum foi uma aposta vagamente incompreensível. Por ironia, o jackpot deu e sobrou. Não estamos a falar da exibição de uma vida, nem de algo transcendental, mas o facto é que, como performance pedida, é perfeita. Tatum é realmente primário. Um monstro físico, absorto e introvertido, um campeão olímpico condenado, por capricho do destino, ao fardo de viver à sombra do irmão. Um homem-criança emocionalmente instável, com acessos de violência primata à flor da pele, influenciável, inseguro, treito a perder o chão. Não é um papel glamoroso ou metamórfico, mas não era fácil parecer real. Foi muito melhor do que isso e não merecia absolutamente a desconsideração a que a temporada dos prémios o votou.

Mas nem só de actores se fez o filme: Bennett Miller dá um tratado de realização. Não é à toa que, na 3ª longa metragem da carreira (Capote, Moneyball), consegue a 2ª nomeação ao Óscar. É um trabalho profundamente conceptual, idealizado para engrandecer todos os bocados da narrativa. Negro, demorado e contemplativo, com um desassossego que se entranha na pele, pejado de grandes planos, de um bom gosto extraordinário, e de solos inebriantes (Tatum no quarto de hotel, Carell no estábulo). Chamaram-lhe, com alguma felicidade, "um filme de terror em câmara lenta" e o facto é que Miller capitaliza os timings como um verdadeiro mestre. Estica as cenas e depois estica os vácuos um pouco mais, numa realização profundamente indutora, ameaçadora, agreste. Valeu-lhe a Palma de Ouro em Cannes. Com Damien Chazelle (Whiplash) e David Fincher (Gone Girl) fora da corrida, e sem ainda ter visto os préstimos de Iñárritu (Birdman), teria o meu voto já.

O que é que faltou, afinal? Costumo dizer que o valor de um argumento é quase sempre proporcional à forma como ele acaba, ou seja, ao talento e à inteligência para concretizar a sua proposta. Um filme pode, quiçá, dar-se ao luxo de ter ideias apenas razoáveis durante metade do tempo, se conseguir ser realmente brilhante no derradeiro capítulo. Como uma final, em que o herói não tem de ser majestático a tempo inteiro, tem é de fazer aquela jogada que define tudo e que o vai lembrar, porque a última imagem é a que fica. Não acho que o argumento de Foxcatcher seja excepcional nalgum momento. Pelo contrário, se há textos que fazem os protagonistas parecerem melhores, este é um caso em que as peças-chave são tão boas, que baralham a própria origem do génio. A caracterização das personagens e do ambiente é, de facto, muito forte mas, no resto, o guião original de Dan Futterman e Max Frye é mínimo. Falta-lhe visão. Segue uma recta pré-definida, evita nuances de maior e, sobretudo, falha no último terço, a nível de profundidade, de contemplação e da vivência propriamente dita do desenlace. Em vez de valer como prato principal, o destino das personagens é despachado como um digestivo pouco relevante, quase de rodapé. A verdade é que Foxcatcher ameaça-nos tempo demais para acabar sem que nos afectemos com ele, o que é um falhanço claro. Se a última imagem é a que subsiste, pois o filme fica-nos em dívida. O fim cortou-lhe as asas.

A minha opinião sobre a estrutura, porém, não desbarateia o essencial: é uma obra de peso, negríssima, brilhantemente dirigida e com um festival exibicional em campo. Obviamente, a não desperdiçar.

7.5/10

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O último romântico


Daqui a 20 anos, ninguém vai saber quem foi Riquelme.

O futebol terá continuado a ser maior e mais rápido, teremos sido todos bombardeados pela quarta revolução digital e a memória não vai ser o que nos lembramos dela hoje. Saberemos tudo de todas as coisas e não teremos remédio a não ser transformar de vez a bola em números. Os golos, as assistências, as finais, os títulos, os recordes. Só nos sítios em que milhões estejam a ver, como é óbvio. Nos estádios potentes da Emirates e da Etihad que, na altura, talvez até já flutuem, quais naves futuristas, como as donas que lhes darão o nome. O pós-apocalipse não tem necessariamente de ser a construção sobre a destruição. Pode, tão só, ser a descolagem final de um paradigma. Daqui a 20 anos, ninguém vai poder saber o que foi Riquelme. Não conseguirão compreender que bicho raro era aquele, que não podiam medir, cronometrar, somar ou subtrair. Como em qualquer pós-apocalipse, haverá, porém, uma Resistência. Um Distrito 13 qualquer. Se nesse mundo houver realmente um exílio que valha a pena, eu, pelo menos, começava a procurar em Buenos Aires.


Imagino-me a vaguear indistinto por aquelas ruas sujas de carisma da que um dia chamaram Paris Latina. A deixar-me envolver com cada mural pintado, com cada músico de rua e com o calor do Atlântico Sul a beijar-me a cara, até ser forçado a parar, de repente, num empedrado qualquer, por dois miúdos a correrem, quais socorristas incumbidos da grandíssima tarefa de ressuscitar uma bola de catchu, relíquia há muito esquecida no tempo. Seja em que época for, qualquer pessoa de princípios saberá que é inevitável esse caminho desembocar na maior catedral da cidade, até se, nesse futuro distópico, já a tiverem desmanchado num Coliseu qualquer. Acredito que, até ao fim dos tempos, qualquer um que se aproxime da Bombonera sentirá no peito o rumor de todos os milhões que lá choraram, sangraram e fizeram tremer o chão. Na esquina seguinte, na parede em que El Diego está coroado com a boina de Guevara, saberei instintivamente que é a minha vez de sibilar, qual oração. Si yo fuera Maradona, viviría como él.



Na periferia da Bombonera, parece-me evidente que todas as Cervecerías são Jardins do Éden, em que o néctar sagrado derrama de nascentes para nos lavar a alma. Entro numa e vou-me sentar ao balcão, como mandam as regras. À meia-luz da tarde, um tango de Gardel estará a ecoar em fundo, enquanto, mais perto, um rádio mui antigo, de caixa envernizada e válvulas pulsantes, lembrar-me-á, de lágrima no canto do olho, dos relatos de Victor Hugo Morales. Fiz de propósito. Mal cheguei, sentei-me ao lado de um velho contador de histórias, daqueles que reconhecemos pela cara, daqueles que têm o mundo para nos contar. Toda a sua expressão se ilumina, pois, quando lhe faço a pergunta irreprimível: quem foi, afinal, Juan Róman Riquelme? As melhores pessoas do mundo são os contadores de histórias.


Ainda não disse uma palavra sobre o futebolista e já escrevi metade do que era preciso. Riquelme não foi um futebolista. Foi o espírito de um tempo e de um lugar, o guardião de um escudo e de uma maneira de estar e de jogar, o coração de uma cidade. Sempre no seu jeito tão altivo e grave, tão abnegado, de carregar o mundo às costas. Chamaram-lhe, um dia, o Maradona triste. Se é verdade que o futebol foi-lhe cruel, condenando-o a que o planeta nunca fizesse jus ao seu talento e à sua dimensão mística, uma verdade subsistirá até ao fim: na sua Buenos Aires foi feliz. Nunca voy a poder devolver todo lo que los hinchas me dieron. Adorado como um deus no meio de um panteão. El otro día vino un hincha al entrenamiento, me pidió permiso y se sacó la remera. Tenía los brazos tatuados con mi cara, yo no lo podía creer. Foi embora, voltou. 14 anos no Boca. 5 campeonatos, 3 Libertadores, 1 Intercontinental. 4 vezes Jogador Argentino do Ano. Um conto de fadas, até ao dia em que o traíram na sua própria casa. No ano passado, Daniel Angelici, o presidente do clube, fechou-lhe as portas por achar que a era de Román estava enterrada. O bairro de La Boca abeirou uma guerra civil por sua causa, ele, no entanto, entregou as armas. Nunca teria coragem de ser o motivo de uma. Angelici es el presidente del club. Yo soy bostero de verdad. No sé cuántos hay en la dirigencia de Boca, disse emotivamente, partindo. Foi jogar para a 2.ª Divisão, no Argentinos, pela razão mais simples do mundo. A mesma que o levou a reformar-se agora, assim que o clube subiu.
Yo de chiquito soñaba jugar un partido en La Bombonera. Tuve suerte, desde el primer partido que jugué, frente a Unión, la gente me ovacionó. Yo amo a este club. Cuando me pongo la camiseta de Boca no me pongo cualquier camiseta, me pongo mi camiseta. Soy bostero y voy a morir bostero. Ahora seré hincha, sufriré con Agustín [o filho]. Yo no puedo jugar contra Boca.

Riquelme foi o maior jogador que menos vimos. O seu falhanço no Barcelona de Van Gaal, onde chegou com toda a ilusão do mundo, no Verão de 2002, deverá para sempre ser lembrado como uma das maiores perversões da História do Jogo. Podiam ter sido tão felizes, os dois. Mas não era para ser. Formou-se no Argentinos, glorificou-se no Boca, falhou no Barcelona e emergiu para a segunda vida numa terra pequena, que fez muito grande. Uma jornada à imagem e semelhança do deus que tantas vezes disseram suceder. Quando a pomposa Europa dos Campeões lhe fechava a cara e lhe afiava a guilhotina, Román descobriu que, mesmo nesse mundo impessoal, desapaixonado e vampírico, ainda havia, afinal, gente por quem lutar. Uma cidade com 51.367 pessoas, na costa da Comunidade Valenciana, de cara virada para o sol do Mediterrâneo, foi um refúgio melhor do que o céu. Vila-Real. Um clube que tinha, então, 4 épocas de primeira divisão veio a fazer, com ele, um 3.º lugar e uma meia-final da Liga dos Campeões. Acredito, até hoje, que só funcionou porque ali também se vestiam o amarelo e o azul. Afinal, um tigre não consegue jamais despir as suas riscas.


Se há uma imagem que lhe marca a carreira é a dessa meia-final da Liga dos Campeões 2006. No El Madrigal, no último minuto da segunda-mão. A glória que a Europa lhe assaltou a vida toda, à distância de 11 metros. Um penalty que podia ter reescrito um jogo, um prolongamento, uma final e uma carreira. Falhou. Riquelme foi o anti-herói até ao fim. Longe da ribalta, longe do glamour, longe da globalização dos troféus maiores. Falhou esse pontapé, sim, mas se há uma verdade dessa noite é que nenhum dos 22 mil villarrealenses que lá estiveram teria trocado o seu legado por essa final. O privilégio de desfrutá-lo durante aqueles anos será, para sempre, a maior vitória das suas vidas. Anos depois, ele fez a formalidade de relembrá-los de que tinham estado sempre certos. Quando o clube desceu, em 2012, Riquelme não hesitou e ofereceu-se para ir jogar na 2.ª Divisão, assim lhe pedissem. He pasado años increíbles ahí, he disfrutado mucho. Cada año voy de vacaciones a Villarreal porque sigo teniendo mi casa ahí. La gente me trata con el mismo cariño de siempre y la realidad es que cuando me necesiten yo voy a estar siempre a disposición de Villarreal. A fidelidade não tem preço, a gratidão não tem lugar.



Juan Román Riquelme. Román, de romance. De um futebol apaixonado e apaixonante, do coração à ponta das botas. Pé direito, chuteiras sempre pretas, porque o jogo é mais simples do que parece. A receber, rodar, pausar e lançar com controlo remoto. A descer pelo campo, meneando entre cada adversário, um braço ligeiramente levantado a proteger-se, como que a pedir-lhes clemência quando, na verdade, sabia bem que a bola ninguém lha poderia roubar. O recital que faz do futebol a 8.ª maravilha do mundo, com a bola pegada ao pé, como se fossem siameses cósmicos, até inventar-lhe, delicadamente, uma elipse invisível. Sempre um compasso abaixo do resto do mundo, no seu próprio fuso horário, pois os outros que se gastassem em correrias imbecis, que não nasceram com o dom da adivinhação. Yo en la cancha veo todo.

Um mago, um poeta, um grande artista, o último 10, em cada vírgula, em cada caneta, em cada pirueta, em cada canhão. Um sobredotado que já nasceu para fazer da bola uma utopia para quem a inventou. Um profeta que nunca desdenhou o seu destino hercúleo, consciente de que ser um génio é o fardo mais solitário do mundo. Um ídolo porque imperfeito, falível e, sobretudo, pela pertença. Pela identidade. Riquelme não foi uma pop star, não foi de toda a gente. Foi das suas pessoas e isso bastou-lhe sempre, mesmo que na América do Sul ou num pequeno vilarejo europeu. Esse é o futebol único que ameaça morrer com ele, porque a globalização mata-nos aos poucos. Pensar, por estes dias, no tão pouco que vimos dele, é um atentado intemporal. Nas vezes que o reduzimos a fintas do youtube ou a golos de domingo à noite, só porque ele não andava nos sítios de bem. Nos Bernabéus e nos Old Traffords deste mundo. O que perdemos.

A verdade é que nunca estivemos à tua altura, Román. Que daqui a 20 anos não tenhamos morto para sempre o teu futebol.
La pelota me lo ha dado todo. Así como las muñecas son lo más lindo para las nenas, para mí la pelota ha sido el juguete más hermoso que pudo existir. El que la inventó es un verdadero ídolo, el más grande de todos. Ojalá la gente haya disfrutado de cómo jugué. Yo intenté pasarla bien.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

American Sniper. Escandalosamente mau


Custa a acreditar no quão mau consegue ser.

Não é a ideologia, não é a política, não é, sequer, a propaganda espectacularmente vomitável: é a vulgaridade. A estupidificante simplificação. American Sniper é um filme para bruto ver. Parece quase miraculoso que se consiga, por ora, esboçar sequer duas frases seguidas, tal a tacanhez imbecil de cada um dos seus pormenores. É, sem esforço, um dos argumentos mais infinitamente maus que já presenciei, um lixo tão deprimente que devia fazer o autor fechar-se em casa, numa quarentena de vergonha. É um filme para o cowboy estúpido, que não balbucia mais do que três palavras por dia e cuja vida se resume ao Deus, Pátria e Família. É um filme tão unidimensional, tão bacoco e tão idiota, que corria o risco de estar ultrapassado se tivesse estreado há 30 anos atrás. American Sniper é das piores coisas que vi na vida. O único terrorismo que ali está é a sua própria existência.

Repare-se que as minhas expectativas não estavam altas. Estava consciente da orientação e tinha lido as críticas: Clint Eastwood está a fazer um fim de carreira como despudorada bandeira Republicana e o filme fora acusado quase transversalmente de ser mais propaganda do que cinema. Mesmo assim, não queria acreditar no que tinha acabado de ver. American Sniper é escandalosamente mau. Tem a complexidade de uma história para um miúdo de 4 anos e é uma enciclopédia de clichés. Estão lá todos, no contexto situacional, na caracterização das personagens, nos diálogos. É uma indigestão cinematográfica. Cada minuto de American Sniper é um atentado à sétima arte, é uma exposição radioactiva para o QI de um ser humano normal. 

Só há uma coisa que não concordo em relação às críticas ao filme: que é propaganda por excelência. Primeiro, porque American Sniper não tem rigorosamente nada de excelente. Depois porque sim, aquilo é propaganda, mas propaganda de quinta categoria. Aquela propaganda de sarjeta, apalhaçada, barulhenta e embaraçosa, que acredito que só possa constrangir os próprios partidários. Nada impedia que Eastwood fizesse este filme do Iraque com toda a conotação que sente a seu respeito; só se suplicava era que contasse uma história, que, pelo menos, tentasse! falar das pessoas, dos dilemas e do contraditório. A própria comunicação política é uma arte que se afiança numa única regra basilar: a credibilidade da mensagem. Ou, pelo menos, no esforço de credibilidade. Dizer a "nossa" verdade, sim, mas encarar as zonas cinzentas, fazer o mea culpa. Em pleno 2015, contudo, os Óscares indicam a Melhor Filme uma coisa que já seria embaraçosamente ultrapassada a meio do século passado. É, com grande probabilidade, um dos piores nomeados de todos os tempos. 

American Sniper é mau em tudo... o que me custa ainda mais dizer, ou não fosse Clint Eastwood uma das minhas referências de sempre. Million Dollar Baby, Mystic River, Unforgiven, Gran Torino. A lista é interminável. É, por isso, tanto mais agreste vê-lo às portas dos 85 anos a fazer coisas destas. Tão, mas tão menores do que a sua sombra. A realização é banal, redundante, sem uma única grande cena. Quase desleixada e, ainda por cima, incólume à edição. Bradley Cooper, na fase mais gloriosa da carreira, é como um comboio de alta velocidade a desmanchar-se contra uma rocha. Um tipo tão bom e em tão boa forma, forçado a capar o próprio alcance interpretativo para fazer um protagonista tão quadrado. Mas o pior de tudo, como suspeito que já tenha deixado perceber, é o argumento adaptado de Jason Hall. Tendo em conta que já queimei os adjectivos quase todos, resta-me deixar uma ideia mais ressonante do que eles: Gone Girl, de David Fincher, falhou tanto a nomeação a Melhor Filme, como a Melhor Argumento (!!!), em benefício de American Sniper. Vejam os dois e sintam o que é ter realmente vergonha de uma coisa que adoram.

American Sniper é um insulto. Não percam dinheiro, não percam tempo e conservem um perímetro de higiene.

1/10

domingo, 25 de janeiro de 2015

The Grand Budapest Hotel. O gosto de ir à aventura


Nunca tinha visto Wes Anderson e não era uma prioridade. Ouvira a filmografia peculiar, o humor de autor, a dedicada composição, mas sinceramente não tenho por hábito ficar fã de ninguém muito absorvido e, portanto, a desconfiança era de bom senso. Não teria realmente sido para já não fosse a avalanche de nomeações. A temporada dos prémios é, de resto, tantas vezes perversa, cometendo esquecimentos imperdoáveis e chamando a atenção para quem não a merece de todo. The Grand Budapest Hotel é, no entanto, um feliz exemplo contrário. Carismático, entusiástico, com cor, humor e envolvência, é, na verdade, uma das surpresas mais agradáveis do ano.

É um filme sobre a história de um livro, obra de um velho caminhante que explica, logo nas primeiras linhas, o seu segredo: que os grandes enredos não assomam à mente dos melhores escritores por decreto de uma criatividade permanente; pelo contrário, os melhores são aqueles que conservam, ao longo da vida, a capacidade tão só mundana para olhar e para continuar a escutar atentamente. E, no fim de contas, são as próprias histórias que vão ao seu encontro, não eles que as têm de ir fazer. The Grand Budapest parte da atraente proposta de que a sua crónica, mesmo que de um hotel aparentemente fictício, numa república imaginada, foi, afinal, verídica num tempo e habitada por gente de carne e osso, ainda que já só viva na mente de um velho contador de histórias.

É, no essencial, um relato das venturas e desventuras de um icónico concierge - Monsieur Gustave -, mestre de um estrelar hotel de estância, numa palaciana república centro-europeia da primeira metade do século passado. Acho que o trailer não lhe fazia jus porque, tal como esta descrição, correu o risco de cingi-lo. Ainda que centrado nas quatro paredes do hotel que lhe dá o nome, The Grand Budapest não se reduz, todavia, às peripécias da vida quotidiana com um trago de humor; é um filme largo, que excede definitivamente esse espaço físico, tanto na acção, como no simpático alcance das suas personagens. A história funciona em flashback - começa com um misterioso cavalheiro a versar as suas memórias ao jantar, com o hotel já decadente -, tem passado, enquadramento histórico e tem tanto mais carisma por causa disso. Ganhei, de facto, um franco respeito pelo trabalho de Wes Anderson. Da câmara ao argumento (o travo ácido dos diálogos é uma assinatura deliciosa), é um criador tremendamente coeso, muito elaborado e muito fiel à sua visão, sem nunca ser pretensioso ou cansativo. Pelo contrário, é isso que lhe emprega aura, fazendo com que brote naturalmente um produto colorido, alegre e cativante. The Grand Budapest é um conto puro, uma aventura com personalidade, que acompanhamos a gosto, peripécia a peripécia, com aquela curiosidade que nos costumava mover em crianças.

No plano interpretativo, e por entre um elenco riquíssimo, Ralph Fiennes também sobressai como uma das agradáveis notícias da temporada, num registo bem distante do que está habituado a fazer. A forma engalanada como se comporta, levemente delirante, é teatral, mas acerta em cheio na disposição, e nunca é uma caricatura. Não é o seu registo, não era fácil ser fiável e, no entanto, é uma personagem que se vem a entranhar de bom grado. Muito justa a nomeação ao Globo Musical/Comédia. Destaco, igualmente, as prestações juvenis: Tony Revolori encaixa como uma luva no ritmo acelerado, cómico e conceptual do boneco, tendo sido uma óptima escolha de cast; Saoirse Ronan, nomeada da Academia em 2008, aos 18 anos, já é outra certeza. A óptima presença e a sua graciosidade intensa permitiram-lhe, sem esforço, dominar o papel.

The Grand Budapest Hotel é nada menos do que o digníssimo campeão de nomeações de 2015, somando nove, onde se incluíram Filme, Realizador, Argumento Original e Cinematografia, qualquer uma delas honestamente merecida. Não é um filme inesquecível, mas é prazeroso e, seguramente, um dos mais interessantes do ano.

7/10

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Boyhood. Porque é que Linklater é um dos maiores da História, porque é que o filme não é


Não consigo medir o quanto gostava de ter gostado de Boyhood.

Foi, desde o momento do anúncio e até ao último dia, o meu favorito. Era um daqueles que estava escrito, uma aposta com tamanha garantia, que o fui deixando ficar, tão certo que estava da fidelidade do produto final. Era, de uma vez por todas, a inalcançável Bola de Ouro de Richard Linklater, depois de tantos anos na sombra indie, depois de já ter dado mais ao cinema do que o cinema lhe poderá um dia dar. Vi o Before Sunrise numa madrugada que já ia longa e, com aquele fascínio de quem vê uma obra-prima com os próprios olhos, tanto mais estremunhado por nunca terem estendido àquilo passadeiras vermelhas, champagne e estátuas preciosas, vi nessa mesma noite o Before Sunset, até o sol me começar a nascer. Se estão a ler isto e nunca os viram - elogio profundamente estendido a Before Midnight, no ano passado - espero que parem agora e se façam à vida.

Richard Linklater cometeu a alucinação de filmar Boyhood durante 12 anos - doze -, uma semana de cada vez, para fazer não com que o cinema se parecesse mais real... mas que o fosse mesmo. Isso é o que já todos devem saber sobre o favorito aos Óscares de 2015. O que talvez não saibam é que, para inventar o romance mais supremo que o cinema já viu, para que a sua trilogia fosse boa que chegue, já ele demorara... 18 anos - DEZOITO - com os Before. Disse ele, por estes dias, que "se o cinema fosse um quadro, o tempo seria a sua tinta." Linklater tem tudo: ideário, escrita, técnica, bom gosto e sensibilidade. E tem, sobretudo, algo que não se aprende, algo que já tem de nascer connosco: um desígnio, e o génio e o compromisso necessários para levá-lo a cabo. Como é que não se idolatra um gajo assim?

No fundo, espero honestamente que ele ganhe o Óscar, como ganhou há uma semana o Globo de Ouro. Porque o universo é perverso e escreve certo por linhas tortas. Porque toda a gente deve chegar ao lugar que lhe pertence e porque, algures no caminho, ele conseguiu, afinal, romper o binómio espácio-temporal que cronicamente separou a sua filmografia daquela que ganha prémios. Seja qual for o palco, nunca poderei ter uma objecção à celebração de alguém como ele. É como ver Aaron Sorkin, deus maior da televisão americana, colher o reconhecimento final com um filme como The Social Network. Ou McConaughey passar à História com Dallas Buyers Club. No fim, contarão as grandes exibições e os prémios, não necessariamente as que aconteceram a par e passo. O que nos leva à questão, admito que ostensivamente subjectiva: onde é que Booyhood falhou?

Desde logo, é discutível que tenha falhado. Está na categoria de filmes de tal assombro, com tão espectacular sustento, que se pode dar ao luxo de que cada um decida esta resposta religiosamente por si próprio. Forço-me a começar pelo melhor: estilisticamente, é um filme esmagador. Irrepetível. Emprestar 12 anos de devoção a tecer seja que obra for seria sempre impressionante; num meio tão imediatista e tão volátil como o cinema, é honestamente indescritível. À parte todo o enquadramento, a direcção de Linklater é inatacável, como sempre. Pacífica, angular, delicada, cheia. Completamente adequada a tudo aquilo que o próprio idealizou. Bem na cor, na luz, bem nos tempos em que deixa a acção respirar, pensar, em que nos incentiva a sorver. Mais uma banda sonora à altura do que se pretendia.

Acho que Boyhood deve obrigatoriamente ser visto. O que me parece é que só será visto uma vez. Por esta altura, acho que já deixei claro o meu posicionamento em relação ao realizador e a minha admiração em relação à ideia. O que não acho é que Boyhood funcione como produto cinematográfico. É uma experiência espectacular. Ambiciosa, total, ora graciosa, cativante. Mas, ironicamente, toda ela se desvanece no próprio teste do tempo que a torna possível. Boyhood é uma injecção de 3 horas com a qual é demasiado difícil identificar-se. É o tal álbum da adolescência, sem pontos muito altos, nem demasiado baixos, no fundo, tão idêntico à vida real, na forma e no conteúdo, que acaba por ser idêntico demais. É um filme totalmente contemplativo, de tal modo absorvido e encantado pela sua própria aura dormente que, quando chegamos ao final, damo-nos conta de que não conseguimos sintetizar quase nada. No fim de cada filme, faço sempre a mesma pergunta primordial: vê-lo-ia outra vez? Todos os melhores filmes jamais feitos são intemporais. São irresistíveis por instinto, porque catárticos, inspiradores, porque mesmo à enésima vez podem-nos contar algo que nunca tínhamos percebido. Ou reafirmar ou fazer-nos ver, se já estivermos preparados. Boyhood acaba nos créditos. É um filme espectacularmente ambicioso, geneticamente gigante, mas não vive para lá de si próprio. 

Tudo isto é absolutamente subjectivo. Para mim, todavia, a falta de estrutura narrativa que o torna diferente, é a mesma que consuma o seu falhanço. Seinfeld apresentava-se como uma série sobre nada, porque dizia que o dia-a-dia não tem moral da história. Que a vida é como é, feita de pequenos episódios, nunca de grandes argumentos. Suponho que o cinema não tenha de ser exactamente como a vida. Aquelas duas horas não deviam condensar uma adolescência, deviam reflectir sobre ela. Articulá-la, assimilá-la e, no fim de contas, serem as guias dessa jornada suprema que um dia fizemos sozinhos. Boyhood demite-se desse intento. É tão ambicioso na ideia, como fatalmente egoísta na concretização, tornando orfã a relação com o espectador. Distante, sedada, impessoal, finita. Quem sabe, daqui a 10 anos serei eu a olhar para o filme de maneira diferente. Ele continuando igual, eu porque talvez tenha mudado. Hoje, com todo o apreço que me merece, não é esse dia. 

6/10

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Whiplash. Doentiamente, genial


É adrenalina, mas em overdose. Uma pulsação pasmante, agonizante, incontrolável. Um ataque de pânico qualquer. É para acabar de ver e procurar a bomba de ar mais próxima, qualquer coisa que evite a taquicardia que por essa altura deverá estar iminente. Whiplash é um monumento, tão doentio quanto genial. Pensem num filme em contra-relógio. Pensem num drama realizado como um filme de acção. Sem tempo para pensar, só para sofrer e tentar respirar pelo meio. Em Whiplash, cada minuto foi idealizado para ter um efeito, para provocar uma reacção. É, sob todas as metáforas possíveis, um portentoso trabalho de orquestra, uma 5ª sinfonia possuída por um demónio acordado 1 hora e 40 minutos. O mais espantoso não é a intensidade, é o tempo que ela dura. Whiplash é um concerto esmagador para ovacionar de pé.

O léxico da introdução não foi escrito por acaso: a fusão de fórmulas, no filme, é realmente fascinante. Whiplash conta a história de um aspirante a músico, um baterista clássico na mais exclusiva de todas as escolas, aquela onde todos queriam estar, morada do homem que todos sonhavam impressionar. Um psicopata visionário, capaz de tudo para que os seus alunos desvendassem o seu verdadeiro potencial. Não é, de todo, comum encontrar uma peça fílmica tão incrivelmente coesa, isto é, uma realização que comungue tanto, pela forma, a mesmíssima narrativa que trata como conteúdo. Não é comum e não me parece que seja muito possível. Mas olhamos para Whiplash e vemos não um, mas dois ou três canais a contar a mesma coisa. A música - bendita sonorização, bendita banda sonora -, a electricidade e a exaltação, na trama, nas performances e na realização. Whiplash é um produto realmente excepcional. Honra e glória de um puto chamado Damien Chazelle, 29 anos, que inventou, escreveu, realizou, dirigiu e tudo o mais que lhe queiram creditar. Que tenha falhado os Globos de Ouro é aberrante. Que possa falhar os Óscares, uma tragédia. Damien Chazelle é o melhor realizador do ano. Lembrem-se do nome.

Os melhores filmes têm o hábito perverso de sugerirem que foi tudo fácil. A um texto fantástico, a uma realização brilhante, juntaram-se ainda duas daquelas performances para nos sentarmos e agradecermos. Para querermos pagar o bilhete. Miles Teller é um fenómeno. Muito poucos actores na casa da vintena de anos conseguem inspirar aquele respeito, aquela seriedade natural, tão comprometida com o papel, que logo nos esquecemos da idade, porque ele ignora esses teoremas e obriga-nos a concentrar-nos somente no que ele está a fazer. Era um papel que, nas mãos de outro, poderia facilmente ser cansativo, desgostoso, pouco crível. Não com ele. Teller faz ruir o ecrã com uma performance própria de um colapso nervoso, sempre em agonia, sempre no limite, na hipertensão e na superação. A sua jornada é uma droga, uma proposta irrecusável que nos cola ao ecrã de olhos tão arrebanhados como Kubrick um dia imaginou a sua Laranja Mecânica. As pistas estão todas aí. Não será este ano, mas a glória é só uma questão de tempo.

Para JK Simmons, por sua vez, já tem mesmo data marcada: 22 de Fevereiro de 2015. Após embrulhar toda a temporada dos prémios, será esse o dia de reclamar o seu inevitável e inquestionável Óscar. Um longo caminho percorreu ele, da histórica figura paternal que aprendemos a acarinhar em Spider-Man e até em Juno... mas que aqui, mais do que reinventar-se, transforma-se verdadeiramente, tão negro como o traje de que não abdica, concebido algures entre um manicómio e o Inferno. Simmons é um filme de terror dentro do próprio filme, uma figura que nos inspira realmente medo, por mais distância que queiramos manter. Não há ali nada empático, nada redentor, nada que nos vá surpreender. Simmons é todo ele a raiz do mal, multiplicando cena sobre cena a um nível quase inalcançável. Um verdadeiro recital.

Whiplash é das surpresas mais sensacionais a que vão assistir este ano. Não chega saberem que é bom, porque não vão estar inteiramente preparados para o que verão a seguir. Que haja justiça no mundo e que o dignifiquem amanhã com a Nomeação a Melhor Filme.

8.5/10