quarta-feira, 25 de março de 2015

Ensaio sobre a Cegueira


"É preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar igual"
Il Gattopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa

A política madeirense dos últimos 20 anos é uma história de violência doméstica. Podia ser filmada em contra-luz e com voz distorcida, como a televisão faz às vítimas, e soaria exactamente da mesma maneira. "Eles batem-nos, mas eles gostam de nós. É só a maneira deles serem. Isto é tudo para o nosso bem." Se há coisa empesteada na raiz sócio-cultural do madeirense é esse culto do abuso político. O PSD pode, porque nós precisamos do PSD. Nós não somos nada sem o PSD. O PSD arruinou-nos, mas fez obra. O PSD caçou-nos, mas só quando fomos ingratos. Na Madeira, a Revolução só deu origem a uma sub-democracia qualquer, e habituamo-nos a ser uma vergonha nacional mal escondida, achincalhados à condição de bobos da República das bananas, porque a vida era mesmo assim e todos temos de nos humilhar. Como qualquer vítima, os vizinhos reparavam, tinham pena, ofereciam ajuda. Mas nós continuávamos a olhar para o chão e seguíamos em frente. Eles batem-nos, mas eles gostam de nós. É só a maneira deles serem. Isto é tudo para o nosso bem. Claro que ninguém poderia cuidar de nós como o PSD cuida. Ficaríamos sozinhos no mundo, era o fim. 

Este terrorismo psicológico que faria inveja a qualquer sociopata radical é uma obra-prima erigida por sucessivas gerações. É o resultado de um modelo de desenvolvimento assente estritamente no betão embrutecedor, no pão e no circo, que estrangulou a cultura do pensamento crítico, tão espectacularmente essencial a qualquer sociedade digna desse nome. Como diria Guevara, o povo que não sabe ler, é o povo fácil de enganar. E tendo, inevitavelmente, a figura do Grande Irmão, que tudo vê, indistinta à sua génese, nunca teria sido possível enganar o povo sem todo e cada um dos tenentes que foram para a rua arrebanhar a gente e dar a cara pela cartilha. Por mais que se tentem agora higienizar, há passados que não podemos arrancar da própria pele: não, infelizmente o PSD-Madeira não foi a distopia de um homem só, foi o banquete de todos quantos nele se sentaram e lambuzaram desde sempre, todos e cada um culpados na mesma e exacta medida. A última perversão da Velha Ordem, a sua derradeira armadilha, é convencer-nos de que, afinal, não aconteceu. De que há anjos e diabos. De que a regeneração existe e de que o triunfo dos puros arrombou pelas portas do Paraíso adentro. A única chance é que o povo já tenha aprendido a ler sozinho.

Miguel Albuquerque foi presidente do Funchal durante duas décadas. Foi vice-presidente do partido, esteve na JSD e na Assembleia, fundou a Fundação. Não houve um único dia em que não tivesse sido delfim de corpo e tempo inteiro. O rapaz-maravilha, o príncipe-herdeiro a quem um dia todos haviam de prestar juramento. Estranhamente, porém, essa não foi uma escalada de rebeldia, nem de independência, nem de carácter reformador e revolucionário. Nesses tempos não tão longínquos, Albuquerque estava só ocupado a não cuspir no prato onde comia. A ser pacatamente o rapaz do poster, sem levantar ondas, galante e afável, abraçado ao padrinho, como qualquer bom comando. Um como os outros... até a ambição ter podido levedar no fermento do tempo. É extraordinário ter de lembrar isto tantas vezes, mas ele não nasceu ontem, por obra e graça da Virgem. Ele esteve sempre lá. A fazer acontecer, tão bem como os melhores. Saiu da Câmara do Funchal em 2013 deixando uma dívida de 100 milhões de euros para outros pagarem. Agora enche a boca em comício para dizer que na Câmara faz-se pouco. Eu, pelo menos, teria mais respeito por quem paga as minhas dívidas. Se não respeito, pelo menos vergonha na cara. Já ontem, em fim de campanha, fez questão de faltar ao debate televisivo de candidatos. Tão crescido, que de certeza deixou o mentor orgulhoso em casa. Dêem-lhe maioria absoluta, porque na Assembleia vai ser diferente, claro. Despesista, populista e insuflado daquela profética supra-autoridade. É quase como se soasse familiar.

Se há competência que lhe reconheço, é o individualismo que veio a adoptar. Individualismo, não no sentido de pensar pela própria cabeça, e de se distanciar por querer melhor, mas no de quem sabe exactamente o que tem de fazer para cuidar dos seus próprios interesses. Albuquerque foi, de facto, o primeiro a perceber que Jardim era um cancro. E agiu em conformidade... não porque isso era melhor para nós, mas porque ia ser pior para ele. Teve visão, não pelo nosso futuro, mas para o seu próprio umbigo, percebendo que a cisão prematura lhe havia de pagar com juros a longo-prazo. As crónicas rezam o romântico corajoso, nouvelle vague, que ousou enfrentar o sistema por dentro. A realidade, contudo, tende sempre a ser menos bonita do que isso. O que Jardim lhe fez foi um favor, ao torná-lo um mártir, e os dois anos de campanha, retratados de onírico exílio no deserto, saíram muito melhores do que a encomenda. A coragem é especial porque não pede nada em troca. Porque é um impulso de consciência, uma reacção que costuma ter a perder. Porque é uma causa, nunca uma consequência. Ninguém é corajoso por estratégia, por calculismo, ou porque essa é a sua opção mais rentável. Isso chama-se sobrevivência. Tudo o que Albuquerque fez foi sobreviver do lado certo da cadeia alimentar.

Na rua, a tese que mais se tem ouvido é a da competência da equipa. No fim do dia, para o bem ou para o mal, por convicção ou contrariados, o que parece contar é que "o PSD sabe fazer". Este suposto PSD depurado, a quem cortaram o espinho podre para nascerem rosas novas e viçosas e, num ápice, se curarem todos os males do mundo. O problema do PSD, faz-se por crer, era única e exclusivamente Jardim. Fora isso, é olhar de lés a lés e ver multiplicarem-se os quadros de elite altamente competentes e experimentados, capazes de navegar a ilha de olhos fechados, porque sabem-na melhor. Eu gostava de saber o quão bons temos de ser para ocultar uma dívida de 6 mil milhões de euros? Para pôr uma região a comer pão pior do que o diabo amassou - em impostos, em salários, em custo de vida - na segunda maior crise do século, porque era normal brincarem a deus? Para alimentar uma promiscuidade pornográfica entre política e negócios, que sempre se riu na cara da plebe contente? Para demonstrar um desrespeito democrático tão espectacular - pela Assembleia e pelas instituições, pela oposição e pelo contraditório, pela liberdade de pensamento e de imprensa -, que faria inveja a uma república africana subdesenvolvida? O quão bons temos de ser para saber fazer assim?

É que a outra tese da rua é que a Oposição não presta. 40 anos deste poder e é a Oposição que não presta. 40 anos deste poder e uma única legislatura é, de repente, o único risco impossível de assumir. Sabem o que é difícil? Difícil é fazer pior. Se me perguntarem, digo que sim, que algumas opções teria tomado diferentes. E digo mais, digo que não tenho qualquer dúvida de que, quando for Governo, a Oposição também vai errar. Todavia, se a Madeira não fosse uma alucinação orwelliana do partido único, o que não era preciso explicar é que a alternância democrática é tão essencial como a própria Democracia. E que esse direito de falhar foi ganho, e devíamos ser nós a honrá-lo e a protegê-lo, para nosso próprio bem. Porque as pessoas têm de mudar, os ciclos, as visões e as cores têm de mudar, para nosso próprio bem. Nosso. Porque o Estado somos nós, a Providência somos nós e o futuro somos nós, e a única forma de os salvaguardar é se jamais voltarmos a tornar as pessoas maiores do que os cargos, como deixamos durante 40 anos. Se jamais tolerarmos que um partido e um Governo voltem a ser a mesma coisa. "Quem guardará os guardas?", perguntava Juvenal, na Roma Antiga. Somos nós, no dia em que provarmos que temos o poder de mudar, no dia em que percebermos que os partidos não são um clube, nem são uma maldita profissão de fé. Ter de explicar isto 2000 anos depois é uma tragédia muito maior do que qualquer dívida oculta.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Peaky Blinders. Quem disse que já não havia gangsters para inventar?


Sou fã confesso de Cillian Murphy desde uma pequena monumentalidade chamada 28 Dias Depois (2002). O meu melhor filme pós-apocalíptico de sempre foi, então, um palco ímpar para o seu talento e para a sua presença tão extremamente peculiar. Cillian Murphy é um daqueles tipos que tem qualquer coisa. Uma inquietação no corpo, uma projecção de desassossego, um olhar flamejante e psicopata. Não é à toa que vestiria depois, com tanta naturalidade, os papéis notórios em Batman Begins e Inception. Há qualquer coisa nele de perturbador e, portanto, imediata e intrinsecamente crível. Ter uma ribalta que o capitalizasse era, por tudo isso, uma mera questão de tempo. Peaky Blinders, a série do ano para o The Guardian, é o seu tour de force numa passadeira vermelha.


No mundo da ficção criminal, é uso achar que já se fez tudo. E provavelmente já se fez. É inequivocamente o género mais explorado e o mais popular, e todos os anos multiplicam-se os argumentistas tão empenhados como garimpeiros, à procura de uma última onça de ouro, numa mina já vastamente devassada. Peaky Blinders, todavia, é uma dessas epifanias realizadas. Criada pelo britânico Steven Knight, a história é a da ascensão de uma família de bandidos de rua, ciganos e arraçados, desde as sarjetas de uma cidade pobre e industrial como Birmingham, no pós-I Guerra Mundial (1919), até à entrada na Londres dos anos 20. Nestas coisas, o habitual é tentar sempre auscultar o segredo do sucesso: existe, pois, uma nuance particular que torna Peaky Blinders especial? Não, não necessariamente e, aqui, vou voltar a bater numa tecla que me parece sempre descurada mas que, até ver, considero primária no campo da ficção: o segredo não está em inventar a roda... mas em reinventar as pessoas, os lugares, os contextos. Uma série pode ser geneticamente única, e de alto nível, mesmo com as roupas que passámos a vida toda a encontrar noutras paragens, assim tenha a sua individualidade. Peaky Blinders é fenomenal por várias razões. 


A primeira, e a mais sintomática, faz-nos voltar ao início: nada daquilo seria possível sem um lead como ele. O seu Thomas Shelby é majestático e, por esta altura, é um insulto que ainda não tenha chegado nem aos Emmys, nem aos Globos de Ouro. Como sempre, o mais impressionante da sua performance continua a ser essa tal naturalidade que lhe está na pele. A autoridade brutal e atordoante que emana, no seu passo lento, nos gestos lânguidos, na voz certa e no foco aterrador que empresta a qualquer conversa, como um velho em sabedoria e em segurança de si, mas no corpo de um jovem, efeito que causa um alerta ainda mais grave. Shelby é um personagem genuinamente fascinante, cru, sem nunca ser cruel, amoral, sem nunca ser mundano, inescrupuloso, sem ser realmente mau. É um homem tantas vezes inelegível, fechado com os seus próprios fantasmas, e não sei se nalgum momento conseguimos perceber verdadeiramente o alcance do seu fardo. O único dado adquirido é que a família é o seu compromisso incondicional. A melhor forma de descrevê-lo, encontra-mo-la no dono de um bar, que ele próprio usurpara:
What I got was an ultimatum. Like you give to everybody. Do it, or else. And yet, it's funny. Everybody around here, they want you to win this battle. I think, what it is, is that you're a bad man, but you're our bad man.
As duas temporadas crescem exponencialmente com ele, finalizando essa corrida de 12 episódios (6 + 6, com um intervalo temporal de dois anos) duma forma gloriosamente ambiciosa, agonizante, esmagadora. Um dos desfechos mais perfeitos que já presenciei em televisão.


Peaky Blinders cumpre de corpo e alma esse histórico mantra das grandes segundas temporadas, invariavelmente melhores do que a época de estreia. A primeira tem as falências típicas de uma série que ainda está verde. Ameaça demais sem concretizar, falta-lhe medo, falta-lhe risco. A segunda, pelo contrário, é toda ela terrivelmente negra, completa, certa do que é e de para onde vai. Se Cillian Murphy é a pedra sobre a qual tudo se constrói, os créditos do seu antípoda não devem ficar por mãos alheias. Sam Neil é duríssimo, no sobretudo do Inspector Campbell, também ele a fazer uso duma característica estruturante do seu contra-papel: uma insuperável credulidade da personagem. Não há ali nada forçado, exagerado, mal medido. Nada que nos desalinhe a ficção da realidade e nos faça pensar que, afinal, é tudo menos sério do que parece. Campbell é desprezível por natureza. Desamorável, amargo, temível. Não é um psicopata, nem é um moralista, é só vil por dentro, e a sua presença é permanentemente perigosa. A dança entre os protagonistas, o dilema de serem tantas vezes tão iguais e, ao mesmo tempo, tão distantes, e a ferocidade predatória com que se encaram uma sobre outra vez constituem o eixo mais reverencial de Peaky Blinders. Os seus frente-a-frente são sucessivas jóias televisivas, como se tivessem nascido para aquilo, quais De Niro-Pacino, à sua devida escala.


Como em qualquer grande balneário, a série vive sobremaneira do espírito de equipa. Da simbiose familiar sacramentada a cada reunião, a cada problema remediado, a cada escape contra as cordas, impecavelmente articulados entre a figura determinante e senhorial de Thomas, o homem-criança, tão leal e assombrado como um soldado, que é Arthur (Paul Anderson), o ingénuo mas empreendedor John (Joe Cole), a problemática e errante Ada (Sophie Rundle) e, ponteados, claro, com a aura grave e matriarcal de Polly (Helen McCrory), a Tia omnipresente, intensa e incontornável. É uma série com carácter colectivo, com personagens imperfeitos e, por isso, reais, que podem ser menosprezados à luz individual, mas que, tal como a própria família, se transcendem como um todo. Vale a pena aludir, ainda, às participações especiais, onde se destaca, como não poderia deixar de ser, o grande Tom Hardy, enquanto chefe da máfia judia em Londres, na segunda temporada.


Como joker, temos a lead feminina mais viciante que vi em muito, muito tempo: Annabelle Wallis é Grace, uma agente dupla norte-irlandesa absolutamente deslumbrante - e aqui vale a pena parar um segundo, para interiorizar o adjectivo - que, pura e simplesmente, torna hipnótica cada cena em que nos presenteia com a sua presença. É uma mulher numa missão, resoluta e comprometida, uma missão maior e mais agreste do que a própria, mas que ela se condena a responder, mesmo quando as suas circunstâncias começam a mudar. Grace vai viver num dilema entre mundos e a sua fragilidade é sempre demasiado sedutora. O romance inevitável com Shelby é visceral, inebriante, total. Uma viagem sem rede, que vai cruzar traição, família, desencontro e perda, com uma química em ecrã tão tangível, que não pode deixar ninguém indiferente e que tem de fazer inveja aos maiores.

Peaky Blinders é demasiado bem realizada - cunho BBC -, tem uma banda sonora constantemente de elite, um lead magistral, um romance, uma rivalidade, uma família e um desígnio, e um carisma tão, mas tão pesado, que a torna honestamente imperdível. É, com toda a probabilidade, a próxima grande série a que vão assistir.

8.5/10

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Óscares 87 - BALANÇO: Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam


Adoro os Óscares desde miúdo. Não posso honestamente usar outro verbo. Gostava de ser mais cínico a respeito, mas é mais forte do que eu. Até hoje, tudo naquilo continua a fascinar-me exactamente como no primeiro dia. Como é evidente, já me fartei de desiludir com os Óscares. Já senti asco pelos lobbies e pelo politicamente correcto, já me cansei de esperar por julgamentos melhores e já vi cerimónias sacrificadas por decisões grosseiramente discutíveis. Mas tenho para mim que é impossível vir um dia a pensar de outra maneira: nunca acreditem em quem vos diz que os Óscares não são especiais. Em quem olha sem conseguir ver a magia. Até os piores Óscares seriam sempre demasiado bons. Isto é dito com a cicatriz de quem se habituou cronicamente a injustiçar-se com eles. Tanto que, algures no caminho, me devo ter convencido de que fazia parte. De que era física e filosoficamente impossível que o melhor filme do ano ganhasse realmente o Óscar, porque a Academia é como a mulher de César: não lhe basta ser, é preciso parecer. A Academia sempre usou premiar a reputação antes do produto, a ficha técnica antes da ideia. Não ganham filmes maus, ganham filmes... seguros. A Academia sempre foi a mãe incumbida de escolher os melhores partidos, pelo bom nome da família.


Desde que vi o filme, e na antecâmara da cerimónia, fui tão vocal quanto possível no apoio a Birdman. E Birdman não é um filme assim tão unânime. Já me confrontaram sobre se aquilo seria, afinal, tão realmente bom. Não é o melhor filme que vi na vida, de facto. Aliás, consigo dizer, sem esforço, mais um par de nomes que, na minha opinião, estiveram ao mesmo altíssimo nível este ano: Gone Girl e Whiplash, por exemplo. Qualquer um dos dois mais intenso, mais estonteante, porventura mais fácil de gostar. Porquê, então, a mania? Pelo resultadismo? Uma coisa é certa: nunca gostei de nenhum filme por favor e, decerto, não gostei "mais" de Birdman por causa do hype de favorito. A equação é exactamente a contrária: o que me converteu foi o facto dum filme tão intrinsecamente cheio ter, finalmente, essa possibilidade única de ser reconhecido na noite maior. 2014 teve um par de títulos igualmente bons, mas digo, com toda a convicção, que não teve nenhum melhor. Esse tipo de vitória era coisa que não acreditava tão cedo ir relatar. Nunca tinha visto e não sei quando é que vou voltar a ver mas, por uma vez, o topo foi realmente o topo. Admito que nem toda a gente assimile a ideia, ou sequer se importe o suficiente, mas, para um aficionado, isto é catártico. É ficar em paz.


Não queria perder uma última oportunidade para convidar a que todos olhem para aquilo com olhos de ver. Birdman é brilhante. É o triunfo de uma história pessoal, não da trama, do suspense e do excesso, mas do cinema sobre as pessoas e para as pessoas, despretensioso, vulnerável e terrivelmente honesto, que fala connosco, assim o consigamos escutar. Um filme com interpretações maestras - Michael Keaton é, de uma forma ou de outra, um vencedor honorário - e avassaladoramente bem criado por quem, fora o senso e o talento profundo, foi uma milha além, e arriscou, pôs-se em causa, pôs-se à prova. Com uns estupefactos 3 Óscares arrecadados na mesma noite (produtor, realizador, argumentista), Iñárritu é, com propriedade, o senhor do ano. A vitória de Birdman a toda a linha (Melhor Filme, Realizador, Argumento Original e Cinematografia, para o fenómeno que é Emmanuel Lubezki) tem tanto mais significado se valorarmos que foi uma das corridas mais apertadas até onde a memória permite chegar... e que, na meta, o filme não era favorito. Pelo contrário, era a magnum opus de Richard Linklater quem tinha disparado em carinho durante o Outono e agigantado um estatuto que chegou a parecer inexpugnável. Na hora da derrota, é incontornável falar de Boyhood.


A crónica já a deixei aqui. E não vou ser hipócrita, deixando de dizer que a vitória de Birdman não sabe ainda melhor por essa dicotomia, por, no fim, ter batido um favorito que, ainda por cima, não justificava os galões da condecoração. Boyhood não mereceu ganhar este jogo, mas não posso deixar de dizer uma última vez que não há nada que Linklater não merecesse ganhar. É um dos meus realizadores favoritos de todos os tempos, e espero honestamente que a noite de glória que lhe assaltaram em todos e cada um dos Before chegue realmente um dia. Esta, porém, não era a sua vez. Boyhood é o filme perfeito que nunca chegou a ser. Tão perfeito na teoria, que ninguém considerou que fosse, afinal, intransmissível ao grande ecrã. A notoriedade que teve - pelo investimento, pela ambição - é tão justa como é a sua própria derrota.


Mas nem tudo foi um guião de rosas, claro. Custa-me escrever isto, porque é quase falar de um velho conhecido, porque, à semelhança do resto da minha geração, é uma figura televisiva icónica, especial e provavelmente insubstituível... mas Neil Patrick Harris não foi um tiro, foi um canhão ao lado. Quem conhecia minimamente o background, sabia que podia esperar um registo burlesco e musico-teatral, próprio da Broadway, prémios da qual ele é, aliás, um celebrado host. Hollywood considerou que esse era o registo a emular. Fugia à norma, é verdade, dissonava do sucesso a toda a linha que Ellen DeGeneres tinha alcançado ainda no ano passado, mas havia exemplos equiparáveis de sucesso, nomeadamente com Hugh Jackman, em 2009. Harris, infelizmente, foi um constrangedor peixe fora de água, mais sufocado a cada golfada de ar. Desde logo, cometeu o erro básico de exagerar na cantoria, e arriscou ir ao ponto de tédio. Depois, tentou sempre demais, arrastou sempre demais e, inevitavelmente, chateou a audiência. Finalmente, e no mais dramático de tudo, nunca, nunca, mas nunca teve piada. Depois da tirada de abertura, seguiram-se 3 horas e meia indigestas, com humor do nível de sofisticação dos Malucos do Riso, mal medido, abandonado, desolador. Um verdadeiro deserto, que só encontra pior no que fez James Franco (drogado) há 4 anos atrás. Não há outra forma de o colocar.


A produção também foi de menos. Não consigo perceber, por exemplo, qual é o critério de escolha das estrelas que introduzem os nomeados se, quando conseguem ler fluentemente duas frases, estão com um tão grande ar de enfado. Não se pedia que fossem todos uma aparição como Meryl Streep, mas é incompreensível que não haja outro tacto no desenho e na condução do espectáculo. Depois, também acho deficitário que não se trate de outra forma o lançamento das categorias. Que não se tente fazer qualquer coisa diferente, mais pessoal, nos vídeos de apresentação, ao invés de despejar trailers. Empregava carisma e valorizava muito a transmissão, tal como fez a ABC, em 2012, com pequenas entrevistas ao longo de toda a cerimónia. Até certo ponto foi, de facto, um evento com uma certa falta de aura. O trunfo acabou por ser a competência da realização no palco, a cobrir tanto os episódios teatrais, como, e muito especialmente, as performances musicais (John Legend, Lady Gaga), que se tornaram no ponto alto da noite. Faz sentido que assim seja e, felizmente, a música recuperou o lugar que lhe é devido na cerimónia.


Quanto aos discursos, em geral, muito aplaudidos, não fiquei esmagado. Os Óscares são um palco único, mas sou forçado a avaliar a excessiva polarização político-social sempre com pinças e o que tivemos foi uma autêntica revisão liminar de todo o espectro, com as declamações sobre racismo, homossexualidade, desigualdade de género e imigração. Como é evidente, não estou a relativizar nenhuma das questões, estou só a dizer que, no quadro geral, e encadeadas desta maneira, acabam por soar forçadas, demasiado polidas e menos genuínas. A minha concepção dos Óscares é toda ela paixão e espontaneidade, é ser o Roberto Benigni desta vida, e, por isso, a recepção do ano pertenceu ao excepcional Eddie Redmayne, eufórico como uma criança, exultante, de olhos esbugalhados e coração na boca, que deixou ali, com uma energia arrepiante, tudo o que lhe ia na alma. Para mim, os Óscares vão ser sempre aquilo, aquela alegria, aquela gratidão. Confesso que provavelmente teria dado o Óscar ao Michael Keaton, por ter sido a personagem mais desafiante, porque a mais extraordinariamente real, mas é impossível não ficar feliz por Redmayne, ou sequer discutir o quanto ele o mereceu. Tenho-o escrito e não lhe retiro uma palavra. Quando vemos uma reacção assim, sabemos sempre que ficou nas mãos certas.


No resto dos domínios interpretativos, tudo segundo o anunciado. Não cheguei a ver Julianne Moore em Still Alice, mas confio no alcance da performance; ainda assim, não me cabe que Rosamund Pike tenha lá chegado virtualmente sem qualquer hipótese de ganhar. Não viram, de certeza, o mesmo filme do que eu: se há um injustiçado nestes Óscares, é Gone Girl da cabeça aos pés. David Fincher é, definitivamente, outra persona non grata da Academia. Patricia Arquette salvou a honra do convento para Boyhood, mas não a consigo validar. É um prémio por decreto, inculcado há meses a fio; admito que não houve uma candidata totalmente proeminente, mas Emma Stone teria sido a justa vencedora. Por fim, JK Simmons cumpriu a autêntica formalidade que se tornara subir àquele palco, desde o momento em que desceram as cortinas sobre Whiplash. Foi, realmente, um dos festivais do ano, uma exibição memorável de um grande senhor, por quem fiz orgulhosamente bandeira, de tão merecida que foi. A Whiplash, contudo, ficaram a dever outra vitória tão ou mais simbólica, que era a de Argumento Adaptado, esse, de todos e para mim, o destrato mais escabroso da noite. Whiplash é um texto nuclear, exponenciado por uma coesão artística (banda sonora, câmara, interpretações) verdadeiramente fora do comum; Imitation Game é um guião envergonhado, liso, que se condenou a cortar e costurar um livro, sempre preocupado em não arriscar e em não estragar. Um dó de alma.


De entre os derrotados, The Grand Budapest Hotel levou o lugar de consolação, com 4 Óscares técnicos (Banda Sonora, Direcção Artística, Guarda-Roupa e Maquilhagem) que, de certa forma, lhe emprestam algum brilho e fazem jus a toda a sua elegância conceptual. Há bons e maus derrotados. Custa-me particularmente ver o desterro de Foxcatcher (nomeado a Melhor Actor, Realizador, Secundário e Argumento Original) que, apesar de falências incontornáveis, não foi nenhum filme a brincar, e cujo peso talvez merecesse ser recordado de outra maneira. Privarem-no, de resto, d indicação ao galardão maior já fora imperdoável. Da margem diametralmente oposta, outra notícia salutar da noite foi o verdadeiro perímetro de higiene com que vedaram American Sniper, depois dumas insultuosas e incompreensíveis 6 nomeações. Foi o único candidato a Melhor Filme sem nenhuma vitória vagamente relevante. Ficou-se por... Melhor Edição de Som, o prémio simpatia do colégio de jurados.


2014 tem sido considerado de forma recorrente como um ano sem filmes realmente supremos. Ainda estou em falta, pelo que vou-me permitir a mais umas semanas para pôr a filmografia em dia e poder editar um top-10 digno desse nome. Contudo, não me custa adiantar que é impossível reconhecer validade a uma premissa desse tipo. E se olhar de relance para o baralho, tenho Birdman, Gone Girl, Whiplash, The Theory of Everything, St. Vincent. Ficam indiferentes?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Birdman. Poesia moderna


Tem o delírio e a lucidez dos poetas.

Ponto prévio, para deixar já tudo em pratos limpos: Birdman é tão bom quanto se diz. É uma peça de cinema brilhante, um apontamento tão romântico e tão vulnerável, que é quase impossível não nos desarmar. É um filme sobre reconhecimento. Sobre essa jornada maior do que a vida que é colher a aceitação do mundo, sobre ser admirado e importar, sobre não ser indiferente, nem esquecido, nem soçobrar sozinho. Sobre essa luta que nunca está realmente ganha, tão frágil como uma centelha, que é descobrirmos ou redescobrirmos o nosso lugar, essa busca pela paz que é conseguir afirmar uma identidade, conseguir afirmar o próprio talento. Birdman é um filme espectacularmente honesto. Às vezes louco, caótico, bem-humorado, constantemente sofrido, mas sempre, sempre despretensioso. Auto-exposto, por génese, nos seus medos e nas suas fraquezas e frustrações, sempre de peito aberto às balas e, por isso, com o brio dos que têm os corações maiores. É o argumento do ano em termos de dimensão humana, pela filosofia com que fala de pessoas e por conhecê-las pela medula. Pelo jeito como se move magistralmente cartada sobre cartada, pensamento sobre pensamento, diálogo sobre diálogo. É um texto reverencial, poético pela delicadeza com que articula o seu delírio e a sua massiva capacidade de reflexão. É um filme realmente profundo e profundamente introspectivo. Seja feita uma grandíssima ode a Iñárritu (e aos seus 3 co-argumentistas): estar à altura da reputação é cada vez mais caro por estes dias, mas Birdman merece, com toda a legitimidade do mundo, ser o front-runner aos Óscares.

Do realizador mexicano só tinha visto Babel (2006), que o levou pela primeira vez às nomeações da Academia, e de Babel não gostei minimamente. Abstracto, pseudo-intelectual e incapaz de se concretizar, foi um filme da moda e da crítica. Uma década depois, porém, aplaudo-o de pé. Passaram quatro anos desde a sua última longa-metragem, e se há coisa que Iñarritu soube capitalizar foi o tempo. Birdman é um filme que se sente ter podido maturar. Apurar o gosto, aguardar pela inspiração e compor-se como merecia ser composto. É um filme completo e adulto, com uma visão e com espaço para brilhar. Como disse o próprio realizador, "Tudo, cada movimento, cada linha, cada abertura de porta, absolutamente tudo foi ensaiado." O argumento é excepcional, mas a realização é igualmente especial. Tão eléctrica quanto contemplativa, como uma orquestra. Com intensidade e quebras de tensão, com um tipo a destruir à mão um camarim, antes de ter uma conversa intimista sobre um casamento falhado. Se me tivessem pedido uma pulsação ideal para o filme, era esta. Com os walk and talks pelos corredores do teatro, a câmara a espremer-se até entrar de rompante em bocados de ante-estreias, sempre a girar e a tirar o raio-x a cada bocado daquela Broadway, antes de se deixar ficar numa conversa de varanda pendurada sobre a Times Square. Isto é tanto mais fascinante se soubermos que Iñarritu filmou o grosso do filme a um único take, numa aposta que o próprio caracterizou de suicida, por ter acreditado que era essa a identidade a imprimir, a da vida que não tem edições. Foi honestamente um prazer.

Confesso que, depois de ter visto The Theory of Everything, não imaginei que Eddie Redmayne pudesse ter realmente alguém à sua altura este ano. Michael Keaton provou-me errado. A eminente grandeza do papel é, na verdade, indissociável do seu carácter autobiográfico: o actor que na juventude foi um icónico super-herói em cinema, antes de tombar numa longa travessia no deserto, não é menos do que a sua própria história. Poucas vezes se tem uma oportunidade destas - lembro-me da performance incrível de Mickey Rourke, em The Wrestler (2010) - e Keaton cuida dela com a alma. Num caso como noutro, sente-se. E a verdade é que é difícil bater o que é tão bom, quando também é tão real. Se repararmos, é o único dos cinco nomeados ao Óscar que não retrata alguém com uma perturbação mental ou física reconhecida. Dá para perceber o alcance? Keaton enche o ecrã. Nos seus laivos de entusiasmo esperançoso, na sua genuinidade mas, acima de qualquer outra coisa, na sua desolação. No seu rumo contra a maré, no seu exercício de transcendência entre derrotas maiores e menores, sempre iludido de que ainda há algo para ele, de que ainda há algo a ganhar. A cena no bar com a crítica do Times, à entrada do capítulo final, aquela inevitabilidade crua da derrota, é sétima arte em estado puro.

Birdman foi uma fénix dos regressos. Definitivamente não me teriam visto apostar que uma comédia-drama também marcaria a volta de um dos grandes nomes com quem cresci: Edward Norton faz o seu melhor filme numa década. Cáustico, agressivo, intenso, com um texto à sua medida. Parecia que já não tinha nada daquilo com ele, mas ressuscitou-nos à frente o tipo de performance que estava adormecida na memória do século passado (Fight Club, American History X, 25th Hour...). Grande, grande personalidade, uma arrogância de autor que é um privilégio ter de volta. Emma Stone começa a cumprir o percurso que todos lhe adivinhavam. Tem demasiado carisma, era tudo uma questão de tempo. O seu potencial excede esta nomeação, mas foi uma merecida porta de entrada na elite, na pele de uma miúda dura e revoltada, mas interessante, até madura. A cena com o pai na recepção do teatro teria valido a nomeação por si só. Num elenco tremendamente sustentado, não deixam de merecer referência Galifianakis, Naomi Watts e Andrea Riseborough, pelo nível que emprestaram ao produto final. Salientar também, e inevitavelmente, a enorme cinematografia de Emmanuel Lubezki, o mestre por detrás de Tree of Life ou Gravity. Não era um trabalho ortodoxo e Lubezki não o queria aceitar - com o essencial da filmagem entre os muros de um teatro, numa semi-comédia -, mas Iñarritu convenceu-o e o resultado da parceria criativa com o conterrâneo foi venerável.

Birdman é uma pérola. Um apontamento cativante e inspirador sobre a inelutável leveza do ser, tão leve como uma pena sujeita ao vento, tão leve que também pode voar, sobre a fragilidade envergonhada, mas despretensiosa, que nos faz humanos. Um filme tão artístico, tão bem executado e com tanto coração. Vai discutir o Óscar com Boyhood e, de uma vez por todas, espero que tenha o universo a conspirar a seu favor. Tem tudo para ser o melhor vencedor em muitos, muitos anos.

8.5/10

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Foxcatcher. À equipa de sonho só faltou outra táctica


As performances e a realização são próprias de um melhor do ano. Se Foxcatcher não o chega a ser, só se pode culpar a si próprio: foi incapaz de finalizar com engenho o jogo que, por mérito integral, deixara à mercê.

Começo pelo incontornável: estamos na presença do elenco do ano. De repente, não me lembro de outro filme em que surjam três protagonistas a tanta altura. Carell, Ruffalo e Tatum são monumentais, simbioticamente perturbadores, são engrenagens feitas à medida uns dos outros, que se completam e engrandecem de forma indiscutível. A vénia maior parte, claro, para a transformação arrebatadora de Steve Carell, senhor de uma carreira a um universo de distância daquilo que plasma o seu John du Pont. A figura do filantropo bilionário e promíscuo, com ares de psicopata e um profundo complexo de inferioridade, é massiva e Carell respira-a por cada poro. A sua inquietação, a imprevisibilidade e o espectacular desconforto que provoca foram trabalhados ao pormenor e, como o próprio já admitiu em entrevista, acompanharam-no para fora do set, durante os meses de filmagem. Os seus silêncios gazeados, o olhar morto, a forma de andar, os timings e toda a comunicação não-verbal são apontamentos esmagadores. Não há muito a dizer, a não ser que, aos 52 anos, um ícone do humor televisivo americano se reinventou como referência.

Mark Ruffalo era o mais rotinado dos três, e o único, no fundo, que se apresentava como uma escolha natural para o filme. Diria que cumpre, sem grande margem para dúvidas, o melhor papel da carreira. Parece-me que também era o menos exigente dos três, no sentido em que implicava menos intensidade e menos mutação expressiva. Ruffalo ganha-o, porém, com uma consistência inestimável. Todo ele é frieza, maturidade e presença de espírito. Rodeado da pressão e da descompensação alheia, tantas vezes limítrofe, parece, todavia, passar sempre incólume, graças a uma paciência professoral e a uma grandeza muitas vezes pedagógica. Foi também ele um nomeado natural mas, se há coisa que ficam a dever ao filme, é a tripleta de indicações ao Óscar. Nunca pensei dizer isto, mas Chaning Tatum não podia ter sido esquecido.

Foxcatcher não foi ortodoxo a escolher os seus intérpretes mas, até se dermos isso de barato, Tatum foi uma aposta vagamente incompreensível. Por ironia, o jackpot deu e sobrou. Não estamos a falar da exibição de uma vida, nem de algo transcendental, mas o facto é que, como performance pedida, é perfeita. Tatum é realmente primário. Um monstro físico, absorto e introvertido, um campeão olímpico condenado, por capricho do destino, ao fardo de viver à sombra do irmão. Um homem-criança emocionalmente instável, com acessos de violência primata à flor da pele, influenciável, inseguro, treito a perder o chão. Não é um papel glamoroso ou metamórfico, mas não era fácil parecer real. Foi muito melhor do que isso e não merecia absolutamente a desconsideração a que a temporada dos prémios o votou.

Mas nem só de actores se fez o filme: Bennett Miller dá um tratado de realização. Não é à toa que, na 3ª longa metragem da carreira (Capote, Moneyball), consegue a 2ª nomeação ao Óscar. É um trabalho profundamente conceptual, idealizado para engrandecer todos os bocados da narrativa. Negro, demorado e contemplativo, com um desassossego que se entranha na pele, pejado de grandes planos, de um bom gosto extraordinário, e de solos inebriantes (Tatum no quarto de hotel, Carell no estábulo). Chamaram-lhe, com alguma felicidade, "um filme de terror em câmara lenta" e o facto é que Miller capitaliza os timings como um verdadeiro mestre. Estica as cenas e depois estica os vácuos um pouco mais, numa realização profundamente indutora, ameaçadora, agreste. Valeu-lhe a Palma de Ouro em Cannes. Com Damien Chazelle (Whiplash) e David Fincher (Gone Girl) fora da corrida, e sem ainda ter visto os préstimos de Iñárritu (Birdman), teria o meu voto já.

O que é que faltou, afinal? Costumo dizer que o valor de um argumento é quase sempre proporcional à forma como ele acaba, ou seja, ao talento e à inteligência para concretizar a sua proposta. Um filme pode, quiçá, dar-se ao luxo de ter ideias apenas razoáveis durante metade do tempo, se conseguir ser realmente brilhante no derradeiro capítulo. Como uma final, em que o herói não tem de ser majestático a tempo inteiro, tem é de fazer aquela jogada que define tudo e que o vai lembrar, porque a última imagem é a que fica. Não acho que o argumento de Foxcatcher seja excepcional nalgum momento. Pelo contrário, se há textos que fazem os protagonistas parecerem melhores, este é um caso em que as peças-chave são tão boas, que baralham a própria origem do génio. A caracterização das personagens e do ambiente é, de facto, muito forte mas, no resto, o guião original de Dan Futterman e Max Frye é mínimo. Falta-lhe visão. Segue uma recta pré-definida, evita nuances de maior e, sobretudo, falha no último terço, a nível de profundidade, de contemplação e da vivência propriamente dita do desenlace. Em vez de valer como prato principal, o destino das personagens é despachado como um digestivo pouco relevante, quase de rodapé. A verdade é que Foxcatcher ameaça-nos tempo demais para acabar sem que nos afectemos com ele, o que é um falhanço claro. Se a última imagem é a que subsiste, pois o filme fica-nos em dívida. O fim cortou-lhe as asas.

A minha opinião sobre a estrutura, porém, não desbarateia o essencial: é uma obra de peso, negríssima, brilhantemente dirigida e com um festival exibicional em campo. Obviamente, a não desperdiçar.

7.5/10

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O último romântico


Daqui a 20 anos, ninguém vai saber quem foi Riquelme.

O futebol terá continuado a ser maior e mais rápido, teremos sido todos bombardeados pela quarta revolução digital e a memória não vai ser o que nos lembramos dela hoje. Saberemos tudo de todas as coisas e não teremos remédio a não ser transformar de vez a bola em números. Os golos, as assistências, as finais, os títulos, os recordes. Só nos sítios em que milhões estejam a ver, como é óbvio. Nos estádios potentes da Emirates e da Etihad que, na altura, talvez até já flutuem, quais naves futuristas, como as donas que lhes darão o nome. O pós-apocalipse não tem necessariamente de ser a construção sobre a destruição. Pode, tão só, ser a descolagem final de um paradigma. Daqui a 20 anos, ninguém vai poder saber o que foi Riquelme. Não conseguirão compreender que bicho raro era aquele, que não podiam medir, cronometrar, somar ou subtrair. Como em qualquer pós-apocalipse, haverá, porém, uma Resistência. Um Distrito 13 qualquer. Se nesse mundo houver realmente um exílio que valha a pena, eu, pelo menos, começava a procurar em Buenos Aires.


Imagino-me a vaguear indistinto por aquelas ruas sujas de carisma da que um dia chamaram Paris Latina. A deixar-me envolver com cada mural pintado, com cada músico de rua e com o calor do Atlântico Sul a beijar-me a cara, até ser forçado a parar, de repente, num empedrado qualquer, por dois miúdos a correrem, quais socorristas incumbidos da grandíssima tarefa de ressuscitar uma bola de catchu, relíquia há muito esquecida no tempo. Seja em que época for, qualquer pessoa de princípios saberá que é inevitável esse caminho desembocar na maior catedral da cidade, até se, nesse futuro distópico, já a tiverem desmanchado num Coliseu qualquer. Acredito que, até ao fim dos tempos, qualquer um que se aproxime da Bombonera sentirá no peito o rumor de todos os milhões que lá choraram, sangraram e fizeram tremer o chão. Na esquina seguinte, na parede em que El Diego está coroado com a boina de Guevara, saberei instintivamente que é a minha vez de sibilar, qual oração. Si yo fuera Maradona, viviría como él.



Na periferia da Bombonera, parece-me evidente que todas as Cervecerías são Jardins do Éden, em que o néctar sagrado derrama de nascentes para nos lavar a alma. Entro numa e vou-me sentar ao balcão, como mandam as regras. À meia-luz da tarde, um tango de Gardel estará a ecoar em fundo, enquanto, mais perto, um rádio mui antigo, de caixa envernizada e válvulas pulsantes, lembrar-me-á, de lágrima no canto do olho, dos relatos de Victor Hugo Morales. Fiz de propósito. Mal cheguei, sentei-me ao lado de um velho contador de histórias, daqueles que reconhecemos pela cara, daqueles que têm o mundo para nos contar. Toda a sua expressão se ilumina, pois, quando lhe faço a pergunta irreprimível: quem foi, afinal, Juan Róman Riquelme? As melhores pessoas do mundo são os contadores de histórias.


Ainda não disse uma palavra sobre o futebolista e já escrevi metade do que era preciso. Riquelme não foi um futebolista. Foi o espírito de um tempo e de um lugar, o guardião de um escudo e de uma maneira de estar e de jogar, o coração de uma cidade. Sempre no seu jeito tão altivo e grave, tão abnegado, de carregar o mundo às costas. Chamaram-lhe, um dia, o Maradona triste. Se é verdade que o futebol foi-lhe cruel, condenando-o a que o planeta nunca fizesse jus ao seu talento e à sua dimensão mística, uma verdade subsistirá até ao fim: na sua Buenos Aires foi feliz. Nunca voy a poder devolver todo lo que los hinchas me dieron. Adorado como um deus no meio de um panteão. El otro día vino un hincha al entrenamiento, me pidió permiso y se sacó la remera. Tenía los brazos tatuados con mi cara, yo no lo podía creer. Foi embora, voltou. 14 anos no Boca. 5 campeonatos, 3 Libertadores, 1 Intercontinental. 4 vezes Jogador Argentino do Ano. Um conto de fadas, até ao dia em que o traíram na sua própria casa. No ano passado, Daniel Angelici, o presidente do clube, fechou-lhe as portas por achar que a era de Román estava enterrada. O bairro de La Boca abeirou uma guerra civil por sua causa, ele, no entanto, entregou as armas. Nunca teria coragem de ser o motivo de uma. Angelici es el presidente del club. Yo soy bostero de verdad. No sé cuántos hay en la dirigencia de Boca, disse emotivamente, partindo. Foi jogar para a 2.ª Divisão, no Argentinos, pela razão mais simples do mundo. A mesma que o levou a reformar-se agora, assim que o clube subiu.
Yo de chiquito soñaba jugar un partido en La Bombonera. Tuve suerte, desde el primer partido que jugué, frente a Unión, la gente me ovacionó. Yo amo a este club. Cuando me pongo la camiseta de Boca no me pongo cualquier camiseta, me pongo mi camiseta. Soy bostero y voy a morir bostero. Ahora seré hincha, sufriré con Agustín [o filho]. Yo no puedo jugar contra Boca.

Riquelme foi o maior jogador que menos vimos. O seu falhanço no Barcelona de Van Gaal, onde chegou com toda a ilusão do mundo, no Verão de 2002, deverá para sempre ser lembrado como uma das maiores perversões da História do Jogo. Podiam ter sido tão felizes, os dois. Mas não era para ser. Formou-se no Argentinos, glorificou-se no Boca, falhou no Barcelona e emergiu para a segunda vida numa terra pequena, que fez muito grande. Uma jornada à imagem e semelhança do deus que tantas vezes disseram suceder. Quando a pomposa Europa dos Campeões lhe fechava a cara e lhe afiava a guilhotina, Román descobriu que, mesmo nesse mundo impessoal, desapaixonado e vampírico, ainda havia, afinal, gente por quem lutar. Uma cidade com 51.367 pessoas, na costa da Comunidade Valenciana, de cara virada para o sol do Mediterrâneo, foi um refúgio melhor do que o céu. Vila-Real. Um clube que tinha, então, 4 épocas de primeira divisão veio a fazer, com ele, um 3.º lugar e uma meia-final da Liga dos Campeões. Acredito, até hoje, que só funcionou porque ali também se vestiam o amarelo e o azul. Afinal, um tigre não consegue jamais despir as suas riscas.


Se há uma imagem que lhe marca a carreira é a dessa meia-final da Liga dos Campeões 2006. No El Madrigal, no último minuto da segunda-mão. A glória que a Europa lhe assaltou a vida toda, à distância de 11 metros. Um penalty que podia ter reescrito um jogo, um prolongamento, uma final e uma carreira. Falhou. Riquelme foi o anti-herói até ao fim. Longe da ribalta, longe do glamour, longe da globalização dos troféus maiores. Falhou esse pontapé, sim, mas se há uma verdade dessa noite é que nenhum dos 22 mil villarrealenses que lá estiveram teria trocado o seu legado por essa final. O privilégio de desfrutá-lo durante aqueles anos será, para sempre, a maior vitória das suas vidas. Anos depois, ele fez a formalidade de relembrá-los de que tinham estado sempre certos. Quando o clube desceu, em 2012, Riquelme não hesitou e ofereceu-se para ir jogar na 2.ª Divisão, assim lhe pedissem. He pasado años increíbles ahí, he disfrutado mucho. Cada año voy de vacaciones a Villarreal porque sigo teniendo mi casa ahí. La gente me trata con el mismo cariño de siempre y la realidad es que cuando me necesiten yo voy a estar siempre a disposición de Villarreal. A fidelidade não tem preço, a gratidão não tem lugar.



Juan Román Riquelme. Román, de romance. De um futebol apaixonado e apaixonante, do coração à ponta das botas. Pé direito, chuteiras sempre pretas, porque o jogo é mais simples do que parece. A receber, rodar, pausar e lançar com controlo remoto. A descer pelo campo, meneando entre cada adversário, um braço ligeiramente levantado a proteger-se, como que a pedir-lhes clemência quando, na verdade, sabia bem que a bola ninguém lha poderia roubar. O recital que faz do futebol a 8.ª maravilha do mundo, com a bola pegada ao pé, como se fossem siameses cósmicos, até inventar-lhe, delicadamente, uma elipse invisível. Sempre um compasso abaixo do resto do mundo, no seu próprio fuso horário, pois os outros que se gastassem em correrias imbecis, que não nasceram com o dom da adivinhação. Yo en la cancha veo todo.

Um mago, um poeta, um grande artista, o último 10, em cada vírgula, em cada caneta, em cada pirueta, em cada canhão. Um sobredotado que já nasceu para fazer da bola uma utopia para quem a inventou. Um profeta que nunca desdenhou o seu destino hercúleo, consciente de que ser um génio é o fardo mais solitário do mundo. Um ídolo porque imperfeito, falível e, sobretudo, pela pertença. Pela identidade. Riquelme não foi uma pop star, não foi de toda a gente. Foi das suas pessoas e isso bastou-lhe sempre, mesmo que na América do Sul ou num pequeno vilarejo europeu. Esse é o futebol único que ameaça morrer com ele, porque a globalização mata-nos aos poucos. Pensar, por estes dias, no tão pouco que vimos dele, é um atentado intemporal. Nas vezes que o reduzimos a fintas do youtube ou a golos de domingo à noite, só porque ele não andava nos sítios de bem. Nos Bernabéus e nos Old Traffords deste mundo. O que perdemos.

A verdade é que nunca estivemos à tua altura, Román. Que daqui a 20 anos não tenhamos morto para sempre o teu futebol.
La pelota me lo ha dado todo. Así como las muñecas son lo más lindo para las nenas, para mí la pelota ha sido el juguete más hermoso que pudo existir. El que la inventó es un verdadero ídolo, el más grande de todos. Ojalá la gente haya disfrutado de cómo jugué. Yo intenté pasarla bien.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

American Sniper. Escandalosamente mau


Custa a acreditar no quão mau consegue ser.

Não é a ideologia, não é a política, não é, sequer, a propaganda espectacularmente vomitável: é a vulgaridade. A estupidificante simplificação. American Sniper é um filme para bruto ver. Parece quase miraculoso que se consiga, por ora, esboçar sequer duas frases seguidas, tal a tacanhez imbecil de cada um dos seus pormenores. É, sem esforço, um dos argumentos mais infinitamente maus que já presenciei, um lixo tão deprimente que devia fazer o autor fechar-se em casa, numa quarentena de vergonha. É um filme para o cowboy estúpido, que não balbucia mais do que três palavras por dia e cuja vida se resume ao Deus, Pátria e Família. É um filme tão unidimensional, tão bacoco e tão idiota, que corria o risco de estar ultrapassado se tivesse estreado há 30 anos atrás. American Sniper é das piores coisas que vi na vida. O único terrorismo que ali está é a sua própria existência.

Repare-se que as minhas expectativas não estavam altas. Estava consciente da orientação e tinha lido as críticas: Clint Eastwood está a fazer um fim de carreira como despudorada bandeira Republicana e o filme fora acusado quase transversalmente de ser mais propaganda do que cinema. Mesmo assim, não queria acreditar no que tinha acabado de ver. American Sniper é escandalosamente mau. Tem a complexidade de uma história para um miúdo de 4 anos e é uma enciclopédia de clichés. Estão lá todos, no contexto situacional, na caracterização das personagens, nos diálogos. É uma indigestão cinematográfica. Cada minuto de American Sniper é um atentado à sétima arte, é uma exposição radioactiva para o QI de um ser humano normal. 

Só há uma coisa que não concordo em relação às críticas ao filme: que é propaganda por excelência. Primeiro, porque American Sniper não tem rigorosamente nada de excelente. Depois porque sim, aquilo é propaganda, mas propaganda de quinta categoria. Aquela propaganda de sarjeta, apalhaçada, barulhenta e embaraçosa, que acredito que só possa constrangir os próprios partidários. Nada impedia que Eastwood fizesse este filme do Iraque com toda a conotação que sente a seu respeito; só se suplicava era que contasse uma história, que, pelo menos, tentasse! falar das pessoas, dos dilemas e do contraditório. A própria comunicação política é uma arte que se afiança numa única regra basilar: a credibilidade da mensagem. Ou, pelo menos, no esforço de credibilidade. Dizer a "nossa" verdade, sim, mas encarar as zonas cinzentas, fazer o mea culpa. Em pleno 2015, contudo, os Óscares indicam a Melhor Filme uma coisa que já seria embaraçosamente ultrapassada a meio do século passado. É, com grande probabilidade, um dos piores nomeados de todos os tempos. 

American Sniper é mau em tudo... o que me custa ainda mais dizer, ou não fosse Clint Eastwood uma das minhas referências de sempre. Million Dollar Baby, Mystic River, Unforgiven, Gran Torino. A lista é interminável. É, por isso, tanto mais agreste vê-lo às portas dos 85 anos a fazer coisas destas. Tão, mas tão menores do que a sua sombra. A realização é banal, redundante, sem uma única grande cena. Quase desleixada e, ainda por cima, incólume à edição. Bradley Cooper, na fase mais gloriosa da carreira, é como um comboio de alta velocidade a desmanchar-se contra uma rocha. Um tipo tão bom e em tão boa forma, forçado a capar o próprio alcance interpretativo para fazer um protagonista tão quadrado. Mas o pior de tudo, como suspeito que já tenha deixado perceber, é o argumento adaptado de Jason Hall. Tendo em conta que já queimei os adjectivos quase todos, resta-me deixar uma ideia mais ressonante do que eles: Gone Girl, de David Fincher, falhou tanto a nomeação a Melhor Filme, como a Melhor Argumento (!!!), em benefício de American Sniper. Vejam os dois e sintam o que é ter realmente vergonha de uma coisa que adoram.

American Sniper é um insulto. Não percam dinheiro, não percam tempo e conservem um perímetro de higiene.

1/10