terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os refugiados de espírito


"Só não poderemos tolerar a intolerância"
Karl Popper

Neste último par de dias, vi boa gente a tentar educar. A tentar argumentar e sensibilizar. Pela informação, pelo contexto, pela humanidade. A tentar colocar as coisas em perspectiva. Fazer contas, relativizar. A tentar desconstruir pelo bom-senso xenofobias inteiras. A tentar explicar coisas tão simples como que os sírios não nos vão invadir o país. Que são tão poucos, afinal, os que vêm. Os que conseguem vir, porque não morreram pelo caminho. Que aquilo que nos prestamos a fazer agora é, no fundo, não mais do que um gesto simbólico, de quem sempre virou as costas ao problema, de quem os deixou sucumbir até ser humanamente insustentável. De quem contribuiu decisivamente para lhes implodir a balança de poder e deixou meio continente ao fogo e à sua própria sorte. Não vou tentar explicar que os refugiados não nos vêm assaltar as casas. Nem fazer guerras civis no coração das nossas cidades. Que não vão criar milícias subsarianas, nem sequer roubar os nossos trabalhos. Que não vão tirar o comer da boca das nossas famílias, nem propriamente desalojar os nossos pobres. Não vou, porque tenho a minha inteligência em melhor conta do que isso. Não vou, porque se vocês precisam desse convencimento, não merecem realmente o meu tempo. O único sentido deste texto é falar de imbecilidade e para isso, felizmente, não preciso nem de teorias, nem de estatísticas. Porque se vocês olham para seres humanos que já perderam tudo, toda a pequena miséria que algum dia tiveram, que já perderam a sua réstia de esperança, o seu fiapo de dignidade e, até, os seus próprios filhos, e que se sujeitam a fugir para as nossas praias em condições muito piores que as dos piores animais, num caminho com chances espectaculares de os matar, se olham para esses seres humanos, e o vosso instinto não é imediatamente o de ajudar, e ter o dó de aliviar-lhes a dor, desejando-lhes, pelo contrário, que morram mas que não vos cansem a vista, porque não querem andar nas mesmas ruas do que eles, então não é o meu tempo que vocês não merecem. É o meu respeito.

Ontem acordei e tinha voltado à Idade Média. O exercício tem menos piada do que julgava em miúdo. Afinal há muito pouca magia em ter tanta gente à volta a pensar com séculos de atraso. A dada altura, já esperava que viessem autoridades a cavalo pedir que nos dirigíssemos para a parte amurada da cidade, e que começassem a distribuir armaduras à medida, escudos e espadas a metro, mas ainda não. O barco dos refugiados ainda não deve ter saído. Afinal há mesmo muito pouca magia em viver no nosso próprio buraco, alheios a esse mundo estrangeiro e tormentoso que há de estar lá fora, a vomitarmo-nos a medo de ódio por quem não conhecemos. Sabe-me bem ouvir que esses terroristas querem vir para cá e nem compreendem o nosso estilo de vida. Que virão, com certeza, destruir todas as nossas conquistas sociais. Não é deliciosa a ironia? Todas essas entesouradas conquistas do Estado de Bem-Estar, para o qual todos aqueles que abrem a boca teriam poeticamente contribuído zero, merda nenhuma, porque estariam muito preocupados a emparedar-se nas suas próprias casas, de trancas à porta, sequiosos de manterem cada singular privilégio que deus ou a sorte lhes deu, e que apodrecessem "os outros" à vossa porta, que com isso podiam vós bem. O Estado de Bem-Estar que não existia se fosse à vossa consideração, e o qual devem a gente infinitamente melhor do que vocês, seres humanos um bocadinho maiores, um bocadinho mais generosos, um bocadinho mais visionários e corajosos, que ousaram usar a sua condição para melhorar a vida de todos, por acreditarem que valia a pena que todos tivéssemos as mesmas condições e as mesmas oportunidades, ou que pelo menos tentássemos. Fôssemos um adulto rico na Suécia ou um velho pobre em Portugal, fôssemos até, e que o raio nos parta, no continente mais espectacularmente cosmopolita que existe, um miúdo orfão que teve o azar de nascer numa guerra na Síria. É isso o Estado de Bem-Estar, é esse o vosso estilo de vida, que só foi possível por culpa de gente que acreditava em tudo o que vocês não acreditam, gente capaz de, com tudo na mão, com tudo a seu favor, tirar a cabeça da sua própria fossa e ter um gesto de generosidade para um século a seguir, quando vocês não são capazes de, sentados em todo o vosso gorduroso conforto, na sociedade mais protegida e privilegiada da Terra, ter um gesto de generosidade no vosso dia-a-dia.

Vejo a cara dum pai migrante realmente destruído, derrubado e morto por dentro, a chorar na desolação duma praia porque não podia, porque pura e simplesmente não podia salvar a própria filha, um tipo como nós, que às vezes olhamos para os nossos e pensamos que lhes falhámos, que os desiludimos, mas numa alucinação muito mais radical, que é não ter condições para se ser pessoa de pleno direito, e dá-me nojo ouvir que eles queriam era vir para este bem bom. Gente a quem ruíram a casa, queimaram os campos e assassinaram a família, gente sem poupança, sem cama e sem sequer um maldito lugar para ainda chamarem de país. E o ridículo que é lhes darmos um tecto para dormir e um prato para comer, aos menos de 1% que conseguirem chegar, é que é o vertiginoso e intolerável abuso que eles nos querem sugar das mãos. Ou então, ver os que ao menos têm a gentileza de reconhecer que eles só vêm porque a alternativa era um tiro, uma bomba ou um afogamento, mas que logo depois se corrigem, para lembrar que eles vêm, mas que não nos respeitam. Que "ouviram dizer" que eles cospem nos cestinhos da Cruz Vermelha, porque está lá o Cristo. Que jamais vão caber aqui, que têm repulsa do que somos. Acham que é possível fugir para um lugar cujo modo de vida se abomina? Que é realmente possível desprezar um sítio que nos salva a vida? Acham realmente que isto não é tudo o que eles nunca puderam ter? A Europa vai acolher uma ínfima parte do que estão a acolher a Turquia, a Jordânia e o Líbano, todos países malditos e muçulmanos. Acham que se eles nos tivessem asco, vinham? Vocês iam? Ponham a mão na consciência. Tenham vergonha na cara.

A grande vitória do Estado Islâmico não é recrutar radicais locais, é dar de comer aos nossos terrores ignorantes, deixar fermentar um bocadinho e depois sentar-se a rir do espectáculo. Da maneira como, ligeiramente arrastados para fora das nossas zonas de conforto, começamos logo a bulir e a convulsar, capazes de sacrificar tudo e todos porque nunca nos faltou nada e, portanto, nunca tivemos de dar o valor a coisas um bocadinho maiores do que os nossos caprichos preconceituosos e do que os nossos dramas de algibeira, coisas, sei lá, como a guerra, a fome ou a vida e a morte das outras pessoas. Ver gente de 25 anos, da minha idade, que vive na maior sociedade de informação da História da Humanidade, que tem acesso a mais conhecimento num dia do que há 100 anos se tinha na vida, gente que pôde ir conhecer o mundo e que teve todas as oportunidades e que, à primeira vez em que é chamada a comportar-se como adulta, cria petições no facebook para expulsar quem ainda não chegou, é uma tragédia tão grande como a dos que fogem.

De repente, do que nos lembrámos todos é de que há muitos mendigos em Portugal e de que eles é que precisam da nossa ajuda. De que há idosos a morrer sem medicamentos, crianças a passar fome e sobeja falta de emprego. De repente, vimos a luz. Pena é que esses proféticos patriotas só a tenham visto agora. Pena minha ter de lhes dizer que, se toda essa gente infelizmente existe assim, é porque primeiro falhámos enquanto sociedade. Porque, no fundo, fomos demasiado como eles. Demasiado hipócritas, demasiado preconceituosos, demasiado egoístas. A verdade é que aqueles que se inflamam são os mesmos que não dariam uma moeda a um sem-abrigo. Ou um lanche a quem tivesse fome na cara. Os mesmos que provavelmente mudariam de passeio se vissem um árabe na rua, apesar de irem à missa todas as semanas. Não se enganem: estes arautos da Nação tratariam exactamente da mesma forma o migrante sírio e o pobre português da vossa rua. Não é uma questão de circunstância, nunca foi. Do que se trata é da maneira de estar no mundo. É da cotação que se dá à dignidade humana. As coisas devem ser simplesmente postas nesses termos: boas e más são as pessoas, não as situações. E as pessoas agem sempre da mesma maneira. O que é insuportável é estar a ver de um lado todo um argumentário sócio-económico-cultural, e do outro só a boa vontade envergonhada, que quase parece irresponsável e criminosa, de quem acha que deve fazer a coisa certa. E enquanto uns têm todas as certezas, aos outros sobram as dúvidas, porque ninguém fala por eles. Porque ninguém lhes reitera que sim, que eles é que estão certos, que pensar assim e ser assim vale a pena. Por isso é que todo o reforço é pouco. Por eles é que é importante dar a cara. Sim, pelas pessoas boas, porque há gente boa e há gente má. Há gente que presta e há gente que nunca vai contar. Hoje em dia, se quisermos conhecer o carácter dum homem, bem podemos olhar para a forma como ele trata os seus refugiados. 

O que me apeteceu escrever era que tinha vergonha de ser português. Mas não. Tenho é vergonha duns quantos de vós. Porque, com todas as falências que temos enquanto povo, se há coisa de que nos podemos orgulhar nos quatro cantos do mundo é da nossa humanidade. Portugal, o país solidário, hospitaleiro e de paz, histórica e culturalmente mestiço, que recebe sempre como se recebe em casa e que o voltará a fazer mais uma vez, o país que terá sempre nas suas pessoas o seu maior e mais nobre activo. Um país bom, conservador mas tolerante, que foi o primeiro do mundo a abolir a pena de morte, que serviu de refúgio a todos os credos na Grande Guerra, onde todas as cores aprenderam desde muito cedo a viver iguais. Um país com uma diáspora monumental, que inventou a globalização e que foi dar novos mundos ao mundo, e que sempre fez vida a viver com os outros. Um país que cultiva a esfera armilar na bandeira e no coração de todos quantos partiram em busca de uma vida melhor, de uma singela oportunidade, de um voto de confiança de quem estava bem e não tinha nada a ganhar. E que, por isso, aprendeu melhor do que ninguém a respeitar quem é diferente. Que, por isso, sempre teve o brio e o orgulho de viver à altura do respeito que lhe foi confiado. Será que os nossos justiceiros da praça pública não têm familiares emigrantes? Um ou dois há de ter. É que há 5 milhões de portugueses lá fora. Se calhar até têm todos. E se os vossos tios, primos e amigos, se porventura os vossos pais tivessem sido escorraçados e tratados como cães doentes? Qual era a diferença?

No fim, eles, os refugiados, são mais livres do que vós. Eles conseguiram fugir duma guerra. Vocês ainda não conseguiram fugir das próprias cabeças. Dessa pobreza nenhum barco vos pode levar.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Até amanhã, camaradas


Vi o Marítimo ao vivo pela primeira vez no dia 20 de Setembro de 1999. Lembro-me assim mesmo, como se fosse uma data de casamento. Não sei se é comum lembrar-se com tamanha exactidão do dia em que vimos o nosso clube pela primeira vez, mas até esse meu amor à primeira vista estava meio que previsto: tinha 9 anos feitos há um mês, de vida e de sócio, e aquela era a promessa contada do meu pai, a minha assunção na mais sagrada de todas as pias baptismais: o Caldeirão. Lembro-me dessa equipa com uma devoção gutural, qual panteão de heróis como não se fez antes nem se fez depois, craques cujas vultos estarei sempre condenado a lembrar numa medida inevitavelmente ingrata para toda a concorrência, que nunca os poderá realmente igualar.

Suponho que seja difícil fazer entender a um miúdo, na ingenuidade encantada do primeiro dia, que o futebol é, logo ali, muito mais do que futebol. Que as probabilidades não estão a nosso favor e que a realização desportiva se joga numa fina linha de equilibrismo, que perpassa, na maior parte da vida, o sofrimento, a fé e um amor incondicional. Que, pelo menos no mundo real, no nosso, as vitórias são poucas, mas que sabem muito mais por causa disso, por sabermos tudo o que elas nos custaram a ganhar. E que a vida, como o futebol, é muito mais especial assim. Se nunca nos acomodarmos nem acostumarmos, se nunca deixarmos de dar o valor, se mantivermos as ganas e a fome, no fundo, se conservarmos o privilégio de poder ficar sempre felizes como na primeira vez. Que o clubismo, como o amor, só pode ser realmente maior se jamais precisar de algo em troca. Se percebermos, como escreveu o Esteves Cardoso, que poder amar é o maior privilégio que se pode ter, a maior sorte, a única razão em si própria. Naquele dia, contudo, eu ia para ganhar, como é evidente. Confiante de que isso não só era possível, como provável. Como se alguém mo devesse e não pudesse ter a coragem de me deixar ficar mal. Nem poderia compreender de outra maneira.

Esse primordial jogo da época era nada menos do que um Marítimo-Porto, nada menos do que o Porto tetracampeão nacional que viria a imortalizar, no fim desse ano, Fernando Santos como o “Engenheiro do Penta”. Era um Marítimo-Porto especial por várias razões que, na altura, me ultrapassavam, uma das quais, por exemplo, ser a reedição do último jogo da temporada anterior, um profético 3-2 que nos valera a 3.ª qualificação europeia. A galvanização sentia-se grande, mas a onerosa máquina multicampeã tratou rapidamente de chamar-nos à realidade. Um tal de Mário Jardel marcou o primeiro dos humildes 36 golos que assinaria até à Primavera seguinte e deixou-nos logo ali, num mísero início de jogo, desferidos da sentença.

Lembro-me distintamente de uma infinidade de coisas dessa tarde. Dos jogadores, todos, do Van der Straeten ao Alex, do chão de calçada redonda e antiga, pejado de amendoins, das cadeiras azul e amarelas devoradas pelo sol, da curva acolhedora que fazia aquela Lateral Norte onde fui tão feliz, do cartão ‘Estádio Cheio’, das cervejas na mão quando ainda se podia e do mar ao fundo no Peão, do rumor e dos tambores, do meu primeiro cachecol da Sailev e da curiosidade de olhar isso tudo desde aquele palmo e meio. Houve, no entanto, uma imagem maior do que todo o resto, que eu continuo a ver como se fosse hoje e que me marcará para o resto da minha vida, dentro e fora do futebol. O momento mais importante do meu primeiro jogo nos Barreiros, do meu primeiro Marítimo, não foi a bancada, não foi um jogador, um golo, uma claque ou, sequer, esse resultado final. Foi estar, em cima do minuto 90, nas nossas velhinhas grades junto ao tartan, com o tempo a morrer-nos nas mãos, condenados, a olhar mais para o meu pai do que para o relvado. À espera de esperança. Ele segurava-me pela mão mas, todavia, à entrada desses pequenos minutos de descontos, nunca olhou para mim. Foi então que me enchi de coragem e perguntei, afinal, se íamos perder. Ele continuou a olhar em frente, imbuído da fé dos Primeiros Homens, com a única honestidade que o acompanhou toda a vida, com o mesmo olhar dedicado que o vi repetir dezenas de milhar de vezes até hoje, e disse-me, apenas, “ainda vamos conseguir”.


Perdemos esse jogo, como perdemos muitos outros jogos depois. Mas tudo o que sei sobre o Marítimo reside, até hoje, nessa única frase. “Ainda vamos conseguir”. Aconteça o que acontecer, ninguém vai nunca acreditar mais do que nós. “Ainda vamos conseguir”. Não nascemos favoritos e nunca seremos favoritos. Mas o futebol, como a vida, é muito mais do que um jogo de probabilidades. E o que o universo nos tira com uma mão, empresta-nos sempre com a outra. Os predicados com que não nascemos, somos nós que os fazemos. E essa é uma condição impagável, muito para lá do que nos fazem crer. Porque dá carácter, porque força a descobrir-se a si próprio. Porque faz-nos valorizar tudo o que é realmente importante e, aquilo que é realmente importante, não é passível de medir, seja em palmarés, mediatismo ou em vanglória. Não seres favorito só quer dizer que vais ter de trabalhar um bocado mais. Que vais ter de querer um bocado mais. Que vais ter de acreditar um bocado mais. E só na adversidade é que temos de acreditar nalguma coisa. Só na adversidade é que descobrimos em que é que acreditamos. Quando, à tua volta, percebes que precisam de ti para continuar, que a tua família não tem preço, que todos somos poucos e que, por isso, não temos jamais o direito de vacilar, é quando nos sentimos mais vivos. E, por isso, vivemos com mais sentido. Ser campeão é detalhe. A jornada é a única recompensa.

Até hoje, não há um jogo do Marítimo, seja em que terra for, com que adversário for, com que desvantagem for, em que eu não acredite, com toda a minha alma, que “ainda vamos conseguir”. Essa convicção é um dos maiores privilégios da minha vida. Toda a gente gosta do seu clube. Uns gostam mais. Alguns amam. Não sei quantos podem dizer que se orgulham. Porque o orgulho nasce necessariamente daquilo que estamos dispostos a sacrificar. Só se pode ter orgulho quando nos sai da pele, quando estamos dispostos a cair, mas a nunca desistir. Não sei qual é a gravidade com que se escrevem os hinos dos clubes ou se há, sequer, essa ambição de decantar-lhes a essência quando se o faz. O nosso, porém, ao buscar-nos as qualidades, fala, em particular, do orgulho e da altivez. Não poderia nunca ter sido mais claro. Não é que eu goste do Marítimo; ser do Marítimo é que é do que mais honestamente me posso orgulhar na vida.


Nesta perversão de probabilidades, a Taça de Portugal sempre foi um dos nirvanas do maritimismo. Não sei se havemos de ser campeões alguma vez, mas a vida não tem de ser uma liga de 34 jornadas, calculada a sangue frio, geneticamente reservada a uma elite particular. A Taça sempre foi o nosso escape, o nosso carinho mal escondido, conscientes da Festa e daquele coração imenso que a torna na única arena realmente democrática. Num dado dia, e mesmo que só nesse dado dia, todos podem ganhar a todos, e isso é quanto baste. Essa vitória é o suficiente para ser feliz, para mudar o destino, para fugir em frente. As provas a eliminar têm esse ADN especial de, se não matematicamente meritocratas, apelarem à transcendência que é o traço mais notável da própria condição humana. Nesses jogos, somos livres. Nesses jogos, somos sempre iguais.

A primeira vez que chorei com o Marítimo foi numa noite de Taça. Estádio do Bessa, 31 de Março de 2001. O Boavistão futuro-campeão-nacional prestava-se a martirizar com ambas as mãos um David verde e vermelho que, no gelo da noite do Porto, olhava para quem perdera 2 vezes em 8 meses com pouco mais do que o coração e a esperança derramados nas cores da própria camisola. A experiência foi tanto mais abissal porque não vi o jogo. Confiei na rádio, no futebol visto com os olhos dos outros, lido com a voz dos outros, especulado em cada silêncio, crido na escuridão. Esse Boavista-Marítimo foi um massacre bíblico. Estou convencido, até hoje, de que durou horas e, pior, sei o quanto pareceu sempre inevitável. Não sei se outra meia-final, jogada em casa dum campeão, virá outra vez a ter uma carga tão causticamente distorciva. 30 remates contra 1. O nosso, de bola parada, se calhar da única vez em que nela tocámos, com a baliza a dezenas de metros de horizonte e uma fé de milhares de quilómetros de mar. Chorei no fim como choram as crianças, sozinho na sala, ainda agarrado ao rádio portátil e de punho fechado, com medo de abrir os olhos, como se ainda ma pudessem tirar. Não o vi e foi um dos jogos da minha vida. O dia em que tive a certeza de que podemos sempre tudo. De que nunca ninguém me voltaria a dizer que os milagres não existem. O futebol é o jogo mais bonito do mundo.


Não estive nesse Jamor, meses depois, a ver desfolhar a maior bandeira que a Madeira já teve e os 14 anos seguintes passei-os a fazer contas com o meu pai, a essa viagem que havíamos de fazer. O que lhe jurámos, este ano é que é, e depois outra e outra vez. As eliminatórias que vimos esmagarem-se, qual rosário entre os dedos, sempre à procura dum intervalo do destino, entre prolongamentos em Alvalade ou tragédias em Campomaior. Fui estudar, corri o país com o Marítimo, formei-me e comecei a trabalhar. 14 anos são uma vida. Isso tudo e amanhã, ironicamente, voltarei a não estar em Coimbra para fazer a minha parte. Culpa de um futebol português embriagado e deplorável, intolerante ao regionalismo e alérgico às pessoas, que demora 2 meses para agendar uma final ultra-periférica para um dia de semana. Não é de hoje, nem nunca devíamos ter esperado melhor. E não posso honestamente negar no morto que fico por dentro, mas isso já não importa. Nunca nos deram uma fácil, nem nós nunca precisámos que dessem. O que nos resta é ir a mais uma luta, com o riso e a vertigem dos loucos, como se não nos pudessem realmente tocar. E não podem.

Aos que lá forem segurar o bastião, só tenho uma coisa a pedir: que valham por todos quantos queríamos lá estar. Vocês são os privilegiados, mas com o grande privilégio, vem a grande responsabilidade. E, lá dentro, seremos poucos. Lá dentro precisam de vós. Seremos de menos em tudo, mas nunca seremos de menos na vontade de ganhar. Sejam o leme. Contem-lhes de que é feito este Leão e esta terra. E provem a todo e cada um daqueles jogadores porque é que vestir a verde-e-vermelha é a maior honra da vida deles. Façam-nos perceber porque é que vale a pena lutar. O Marítimo não é uma má época, não é uma geração perdida, não é um punhado de futebolistas. O Marítimo somos nós, em tudo o que fazemos e em tudo quanto sentimos e, amanhã, o Marítimo começa e acaba em vós. Estejam à altura. Em romaria desde os quatro cantos do país, a descer de caravana do Porto, a subir de comboio de Lisboa ou a fazer a transatlântica de avião, levem a ilha até ao fim da rua e levem a nossa voz até ao fim do mundo. Não é que a Casa da Madeira seja em Coimbra, é que Coimbra seja a Casa da Madeira. E façam a festa da nossa vida, por vós, que vão esquadrinhar todo o país para lá estar, mas, ainda mais importante, por todo o Império do Almirante, da Venezuela à África do Sul, de França aos Estados Unidos, do Panamá à Austrália, por toda esta diáspora derramada na esfera armilar, que foi contar ao mundo o que é ser madeirense, e que ser do Marítimo é sê-lo ainda duas vezes.

A equipa que subir em Coimbra não é uma equipa de super-heróis, sabemos bem. Não é uma equipa de antologia, na ressaca de uma época memorável. É uma equipa que talvez estivesse mesmo destinada a ser esquecida. Mas, tantas vezes, tudo o que basta é merecer estar no sítio certo, à hora certa. A História não foi escrita por super-heróis. Nem nós somos clube de nenhuns. A História do maior clube madeirense, do único grande clube insular, Campeão de Portugal e primeiro toda a vida, a subir de divisão, a ir à Europa, a ir ao Jamor e agora à final da Liga, foi escrita por homens comuns, que ousaram, geração sobre geração, ganhar os jogos que não podiam. Homens como estes, homens como nós.

Amanhã não vos pedimos muito. Só que acreditem como nós. Que joguem como nós. Que se tudo correr mal, se tudo parecer ir falhar e se as circunstâncias vos forem engolir, que joguem como se fosse a primeira vez. Como o primeiro pontapé que deram na bola em Lorient ou Estugarda, em Lisboa ou no Rio de Janeiro, com a camisola de meninos, com os vossos pais a ver. Lembrem-se do brio que sentiram, de tudo o que fariam e de saberem que ali, naquele campo, não havia nada que vos pudessem roubar. Que era possível correr mais um bocado, mesmo quando já não era. E defender mais um bocado e atacar mais um bocado. Mesmo quando já não era. Que era possível sonhar mais um bocado. Para cada maritimista, enquanto vemos a vida passar-nos à frente, é disso que se trata.

Amanhã, mais do que nunca, não somos onze. Somos todos. E para nós, aconteça o que acontecer, “ainda vamos conseguir”. O resto são só 90 minutos onde viveremos juntos para sempre.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Ensaio sobre a Cegueira


"É preciso que tudo mude, para que tudo possa ficar igual"
Il Gattopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa

A política madeirense dos últimos 20 anos é uma história de violência doméstica. Podia ser filmada em contra-luz e com voz distorcida, como a televisão faz às vítimas, e soaria exactamente da mesma maneira. "Eles batem-nos, mas eles gostam de nós. É só a maneira deles serem. Isto é tudo para o nosso bem." Se há coisa empesteada na raiz sócio-cultural do madeirense é esse culto do abuso político. O PSD pode, porque nós precisamos do PSD. Nós não somos nada sem o PSD. O PSD arruinou-nos, mas fez obra. O PSD caçou-nos, mas só quando fomos ingratos. Na Madeira, a Revolução só deu origem a uma sub-democracia qualquer, e habituamo-nos a ser uma vergonha nacional mal escondida, achincalhados à condição de bobos da República das bananas, porque a vida era mesmo assim e todos temos de nos humilhar. Como qualquer vítima, os vizinhos reparavam, tinham pena, ofereciam ajuda. Mas nós continuávamos a olhar para o chão e seguíamos em frente. Eles batem-nos, mas eles gostam de nós. É só a maneira deles serem. Isto é tudo para o nosso bem. Claro que ninguém poderia cuidar de nós como o PSD cuida. Ficaríamos sozinhos no mundo, era o fim. 

Este terrorismo psicológico que faria inveja a qualquer sociopata radical é uma obra-prima erigida por sucessivas gerações. É o resultado de um modelo de desenvolvimento assente estritamente no betão embrutecedor, no pão e no circo, que estrangulou a cultura do pensamento crítico, tão espectacularmente essencial a qualquer sociedade digna desse nome. Como diria Guevara, o povo que não sabe ler, é o povo fácil de enganar. E tendo, inevitavelmente, a figura do Grande Irmão, que tudo vê, indistinta à sua génese, nunca teria sido possível enganar o povo sem todo e cada um dos tenentes que foram para a rua arrebanhar a gente e dar a cara pela cartilha. Por mais que se tentem agora higienizar, há passados que não podemos arrancar da própria pele: não, infelizmente o PSD-Madeira não foi a distopia de um homem só, foi o banquete de todos quantos nele se sentaram e lambuzaram desde sempre, todos e cada um culpados na mesma e exacta medida. A última perversão da Velha Ordem, a sua derradeira armadilha, é convencer-nos de que, afinal, não aconteceu. De que há anjos e diabos. De que a regeneração existe e de que o triunfo dos puros arrombou pelas portas do Paraíso adentro. A única chance é que o povo já tenha aprendido a ler sozinho.

Miguel Albuquerque foi presidente do Funchal durante duas décadas. Foi vice-presidente do partido, esteve na JSD e na Assembleia, fundou a Fundação. Não houve um único dia em que não tivesse sido delfim de corpo e tempo inteiro. O rapaz-maravilha, o príncipe-herdeiro a quem um dia todos haviam de prestar juramento. Estranhamente, porém, essa não foi uma escalada de rebeldia, nem de independência, nem de carácter reformador e revolucionário. Nesses tempos não tão longínquos, Albuquerque estava só ocupado a não cuspir no prato onde comia. A ser pacatamente o rapaz do poster, sem levantar ondas, galante e afável, abraçado ao padrinho, como qualquer bom comando. Um como os outros... até a ambição ter podido levedar no fermento do tempo. É extraordinário ter de lembrar isto tantas vezes, mas ele não nasceu ontem, por obra e graça da Virgem. Ele esteve sempre lá. A fazer acontecer, tão bem como os melhores. Saiu da Câmara do Funchal em 2013 deixando uma dívida de 100 milhões de euros para outros pagarem. Agora enche a boca em comício para dizer que na Câmara faz-se pouco. Eu, pelo menos, teria mais respeito por quem paga as minhas dívidas. Se não respeito, pelo menos vergonha na cara. Já ontem, em fim de campanha, fez questão de faltar ao debate televisivo de candidatos. Tão crescido, que de certeza deixou o mentor orgulhoso em casa. Dêem-lhe maioria absoluta, porque na Assembleia vai ser diferente, claro. Despesista, populista e insuflado daquela profética supra-autoridade. É quase como se soasse familiar.

Se há competência que lhe reconheço, é o individualismo que veio a adoptar. Individualismo, não no sentido de pensar pela própria cabeça, e de se distanciar por querer melhor, mas no de quem sabe exactamente o que tem de fazer para cuidar dos seus próprios interesses. Albuquerque foi, de facto, o primeiro a perceber que Jardim era um cancro. E agiu em conformidade... não porque isso era melhor para nós, mas porque ia ser pior para ele. Teve visão, não pelo nosso futuro, mas para o seu próprio umbigo, percebendo que a cisão prematura lhe havia de pagar com juros a longo-prazo. As crónicas rezam o romântico corajoso, nouvelle vague, que ousou enfrentar o sistema por dentro. A realidade, contudo, tende sempre a ser menos bonita do que isso. O que Jardim lhe fez foi um favor, ao torná-lo um mártir, e os dois anos de campanha, retratados de onírico exílio no deserto, saíram muito melhores do que a encomenda. A coragem é especial porque não pede nada em troca. Porque é um impulso de consciência, uma reacção que costuma ter a perder. Porque é uma causa, nunca uma consequência. Ninguém é corajoso por estratégia, por calculismo, ou porque essa é a sua opção mais rentável. Isso chama-se sobrevivência. Tudo o que Albuquerque fez foi sobreviver do lado certo da cadeia alimentar.

Na rua, a tese que mais se tem ouvido é a da competência da equipa. No fim do dia, para o bem ou para o mal, por convicção ou contrariados, o que parece contar é que "o PSD sabe fazer". Este suposto PSD depurado, a quem cortaram o espinho podre para nascerem rosas novas e viçosas e, num ápice, se curarem todos os males do mundo. O problema do PSD, faz-se por crer, era única e exclusivamente Jardim. Fora isso, é olhar de lés a lés e ver multiplicarem-se os quadros de elite altamente competentes e experimentados, capazes de navegar a ilha de olhos fechados, porque sabem-na melhor. Eu gostava de saber o quão bons temos de ser para ocultar uma dívida de 6 mil milhões de euros? Para pôr uma região a comer pão pior do que o diabo amassou - em impostos, em salários, em custo de vida - na segunda maior crise do século, porque era normal brincarem a deus? Para alimentar uma promiscuidade pornográfica entre política e negócios, que sempre se riu na cara da plebe contente? Para demonstrar um desrespeito democrático tão espectacular - pela Assembleia e pelas instituições, pela oposição e pelo contraditório, pela liberdade de pensamento e de imprensa -, que faria inveja a uma república africana subdesenvolvida? O quão bons temos de ser para saber fazer assim?

É que a outra tese da rua é que a Oposição não presta. 40 anos deste poder e é a Oposição que não presta. 40 anos deste poder e uma única legislatura é, de repente, o único risco impossível de assumir. Sabem o que é difícil? Difícil é fazer pior. Se me perguntarem, digo que sim, que algumas opções teria tomado diferentes. E digo mais, digo que não tenho qualquer dúvida de que, quando for Governo, a Oposição também vai errar. Todavia, se a Madeira não fosse uma alucinação orwelliana do partido único, o que não era preciso explicar é que a alternância democrática é tão essencial como a própria Democracia. E que esse direito de falhar foi ganho, e devíamos ser nós a honrá-lo e a protegê-lo, para nosso próprio bem. Porque as pessoas têm de mudar, os ciclos, as visões e as cores têm de mudar, para nosso próprio bem. Nosso. Porque o Estado somos nós, a Providência somos nós e o futuro somos nós, e a única forma de os salvaguardar é se jamais voltarmos a tornar as pessoas maiores do que os cargos, como deixamos durante 40 anos. Se jamais tolerarmos que um partido e um Governo voltem a ser a mesma coisa. "Quem guardará os guardas?", perguntava Juvenal, na Roma Antiga. Somos nós, no dia em que provarmos que temos o poder de mudar, no dia em que percebermos que os partidos não são um clube, nem são uma maldita profissão de fé. Ter de explicar isto 2000 anos depois é uma tragédia muito maior do que qualquer dívida oculta.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Peaky Blinders. Quem disse que já não havia gangsters para inventar?


Sou fã confesso de Cillian Murphy desde uma pequena monumentalidade chamada 28 Dias Depois (2002). O meu melhor filme pós-apocalíptico de sempre foi, então, um palco ímpar para o seu talento e para a sua presença tão extremamente peculiar. Cillian Murphy é um daqueles tipos que tem qualquer coisa. Uma inquietação no corpo, uma projecção de desassossego, um olhar flamejante e psicopata. Não é à toa que vestiria depois, com tanta naturalidade, os papéis notórios em Batman Begins e Inception. Há qualquer coisa nele de perturbador e, portanto, imediata e intrinsecamente crível. Ter uma ribalta que o capitalizasse era, por tudo isso, uma mera questão de tempo. Peaky Blinders, a série do ano para o The Guardian, é o seu tour de force numa passadeira vermelha.


No mundo da ficção criminal, é uso achar que já se fez tudo. E provavelmente já se fez. É inequivocamente o género mais explorado e o mais popular, e todos os anos multiplicam-se os argumentistas tão empenhados como garimpeiros, à procura de uma última onça de ouro, numa mina já vastamente devassada. Peaky Blinders, todavia, é uma dessas epifanias realizadas. Criada pelo britânico Steven Knight, a história é a da ascensão de uma família de bandidos de rua, ciganos e arraçados, desde as sarjetas de uma cidade pobre e industrial como Birmingham, no pós-I Guerra Mundial (1919), até à entrada na Londres dos anos 20. Nestas coisas, o habitual é tentar sempre auscultar o segredo do sucesso: existe, pois, uma nuance particular que torna Peaky Blinders especial? Não, não necessariamente e, aqui, vou voltar a bater numa tecla que me parece sempre descurada mas que, até ver, considero primária no campo da ficção: o segredo não está em inventar a roda... mas em reinventar as pessoas, os lugares, os contextos. Uma série pode ser geneticamente única, e de alto nível, mesmo com as roupas que passámos a vida toda a encontrar noutras paragens, assim tenha a sua individualidade. Peaky Blinders é fenomenal por várias razões. 


A primeira, e a mais sintomática, faz-nos voltar ao início: nada daquilo seria possível sem um lead como ele. O seu Thomas Shelby é majestático e, por esta altura, é um insulto que ainda não tenha chegado nem aos Emmys, nem aos Globos de Ouro. Como sempre, o mais impressionante da sua performance continua a ser essa tal naturalidade que lhe está na pele. A autoridade brutal e atordoante que emana, no seu passo lento, nos gestos lânguidos, na voz certa e no foco aterrador que empresta a qualquer conversa, como um velho em sabedoria e em segurança de si, mas no corpo de um jovem, efeito que causa um alerta ainda mais grave. Shelby é um personagem genuinamente fascinante, cru, sem nunca ser cruel, amoral, sem nunca ser mundano, inescrupuloso, sem ser realmente mau. É um homem tantas vezes inelegível, fechado com os seus próprios fantasmas, e não sei se nalgum momento conseguimos perceber verdadeiramente o alcance do seu fardo. O único dado adquirido é que a família é o seu compromisso incondicional. A melhor forma de descrevê-lo, encontra-mo-la no dono de um bar, que ele próprio usurpara:
What I got was an ultimatum. Like you give to everybody. Do it, or else. And yet, it's funny. Everybody around here, they want you to win this battle. I think, what it is, is that you're a bad man, but you're our bad man.
As duas temporadas crescem exponencialmente com ele, finalizando essa corrida de 12 episódios (6 + 6, com um intervalo temporal de dois anos) duma forma gloriosamente ambiciosa, agonizante, esmagadora. Um dos desfechos mais perfeitos que já presenciei em televisão.


Peaky Blinders cumpre de corpo e alma esse histórico mantra das grandes segundas temporadas, invariavelmente melhores do que a época de estreia. A primeira tem as falências típicas de uma série que ainda está verde. Ameaça demais sem concretizar, falta-lhe medo, falta-lhe risco. A segunda, pelo contrário, é toda ela terrivelmente negra, completa, certa do que é e de para onde vai. Se Cillian Murphy é a pedra sobre a qual tudo se constrói, os créditos do seu antípoda não devem ficar por mãos alheias. Sam Neil é duríssimo, no sobretudo do Inspector Campbell, também ele a fazer uso duma característica estruturante do seu contra-papel: uma insuperável credulidade da personagem. Não há ali nada forçado, exagerado, mal medido. Nada que nos desalinhe a ficção da realidade e nos faça pensar que, afinal, é tudo menos sério do que parece. Campbell é desprezível por natureza. Desamorável, amargo, temível. Não é um psicopata, nem é um moralista, é só vil por dentro, e a sua presença é permanentemente perigosa. A dança entre os protagonistas, o dilema de serem tantas vezes tão iguais e, ao mesmo tempo, tão distantes, e a ferocidade predatória com que se encaram uma sobre outra vez constituem o eixo mais reverencial de Peaky Blinders. Os seus frente-a-frente são sucessivas jóias televisivas, como se tivessem nascido para aquilo, quais De Niro-Pacino, à sua devida escala.


Como em qualquer grande balneário, a série vive sobremaneira do espírito de equipa. Da simbiose familiar sacramentada a cada reunião, a cada problema remediado, a cada escape contra as cordas, impecavelmente articulados entre a figura determinante e senhorial de Thomas, o homem-criança, tão leal e assombrado como um soldado, que é Arthur (Paul Anderson), o ingénuo mas empreendedor John (Joe Cole), a problemática e errante Ada (Sophie Rundle) e, ponteados, claro, com a aura grave e matriarcal de Polly (Helen McCrory), a Tia omnipresente, intensa e incontornável. É uma série com carácter colectivo, com personagens imperfeitos e, por isso, reais, que podem ser menosprezados à luz individual, mas que, tal como a própria família, se transcendem como um todo. Vale a pena aludir, ainda, às participações especiais, onde se destaca, como não poderia deixar de ser, o grande Tom Hardy, enquanto chefe da máfia judia em Londres, na segunda temporada.


Como joker, temos a lead feminina mais viciante que vi em muito, muito tempo: Annabelle Wallis é Grace, uma agente dupla norte-irlandesa absolutamente deslumbrante - e aqui vale a pena parar um segundo, para interiorizar o adjectivo - que, pura e simplesmente, torna hipnótica cada cena em que nos presenteia com a sua presença. É uma mulher numa missão, resoluta e comprometida, uma missão maior e mais agreste do que a própria, mas que ela se condena a responder, mesmo quando as suas circunstâncias começam a mudar. Grace vai viver num dilema entre mundos e a sua fragilidade é sempre demasiado sedutora. O romance inevitável com Shelby é visceral, inebriante, total. Uma viagem sem rede, que vai cruzar traição, família, desencontro e perda, com uma química em ecrã tão tangível, que não pode deixar ninguém indiferente e que tem de fazer inveja aos maiores.

Peaky Blinders é demasiado bem realizada - cunho BBC -, tem uma banda sonora constantemente de elite, um lead magistral, um romance, uma rivalidade, uma família e um desígnio, e um carisma tão, mas tão pesado, que a torna honestamente imperdível. É, com toda a probabilidade, a próxima grande série a que vão assistir.

8.5/10

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Óscares 87 - BALANÇO: Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam


Adoro os Óscares desde miúdo. Não posso honestamente usar outro verbo. Gostava de ser mais cínico a respeito, mas é mais forte do que eu. Até hoje, tudo naquilo continua a fascinar-me exactamente como no primeiro dia. Como é evidente, já me fartei de desiludir com os Óscares. Já senti asco pelos lobbies e pelo politicamente correcto, já me cansei de esperar por julgamentos melhores e já vi cerimónias sacrificadas por decisões grosseiramente discutíveis. Mas tenho para mim que é impossível vir um dia a pensar de outra maneira: nunca acreditem em quem vos diz que os Óscares não são especiais. Em quem olha sem conseguir ver a magia. Até os piores Óscares seriam sempre demasiado bons. Isto é dito com a cicatriz de quem se habituou cronicamente a injustiçar-se com eles. Tanto que, algures no caminho, me devo ter convencido de que fazia parte. De que era física e filosoficamente impossível que o melhor filme do ano ganhasse realmente o Óscar, porque a Academia é como a mulher de César: não lhe basta ser, é preciso parecer. A Academia sempre usou premiar a reputação antes do produto, a ficha técnica antes da ideia. Não ganham filmes maus, ganham filmes... seguros. A Academia sempre foi a mãe incumbida de escolher os melhores partidos, pelo bom nome da família.


Desde que vi o filme, e na antecâmara da cerimónia, fui tão vocal quanto possível no apoio a Birdman. E Birdman não é um filme assim tão unânime. Já me confrontaram sobre se aquilo seria, afinal, tão realmente bom. Não é o melhor filme que vi na vida, de facto. Aliás, consigo dizer, sem esforço, mais um par de nomes que, na minha opinião, estiveram ao mesmo altíssimo nível este ano: Gone Girl e Whiplash, por exemplo. Qualquer um dos dois mais intenso, mais estonteante, porventura mais fácil de gostar. Porquê, então, a mania? Pelo resultadismo? Uma coisa é certa: nunca gostei de nenhum filme por favor e, decerto, não gostei "mais" de Birdman por causa do hype de favorito. A equação é exactamente a contrária: o que me converteu foi o facto dum filme tão intrinsecamente cheio ter, finalmente, essa possibilidade única de ser reconhecido na noite maior. 2014 teve um par de títulos igualmente bons, mas digo, com toda a convicção, que não teve nenhum melhor. Esse tipo de vitória era coisa que não acreditava tão cedo ir relatar. Nunca tinha visto e não sei quando é que vou voltar a ver mas, por uma vez, o topo foi realmente o topo. Admito que nem toda a gente assimile a ideia, ou sequer se importe o suficiente, mas, para um aficionado, isto é catártico. É ficar em paz.


Não queria perder uma última oportunidade para convidar a que todos olhem para aquilo com olhos de ver. Birdman é brilhante. É o triunfo de uma história pessoal, não da trama, do suspense e do excesso, mas do cinema sobre as pessoas e para as pessoas, despretensioso, vulnerável e terrivelmente honesto, que fala connosco, assim o consigamos escutar. Um filme com interpretações maestras - Michael Keaton é, de uma forma ou de outra, um vencedor honorário - e avassaladoramente bem criado por quem, fora o senso e o talento profundo, foi uma milha além, e arriscou, pôs-se em causa, pôs-se à prova. Com uns estupefactos 3 Óscares arrecadados na mesma noite (produtor, realizador, argumentista), Iñárritu é, com propriedade, o senhor do ano. A vitória de Birdman a toda a linha (Melhor Filme, Realizador, Argumento Original e Cinematografia, para o fenómeno que é Emmanuel Lubezki) tem tanto mais significado se valorarmos que foi uma das corridas mais apertadas até onde a memória permite chegar... e que, na meta, o filme não era favorito. Pelo contrário, era a magnum opus de Richard Linklater quem tinha disparado em carinho durante o Outono e agigantado um estatuto que chegou a parecer inexpugnável. Na hora da derrota, é incontornável falar de Boyhood.


A crónica já a deixei aqui. E não vou ser hipócrita, deixando de dizer que a vitória de Birdman não sabe ainda melhor por essa dicotomia, por, no fim, ter batido um favorito que, ainda por cima, não justificava os galões da condecoração. Boyhood não mereceu ganhar este jogo, mas não posso deixar de dizer uma última vez que não há nada que Linklater não merecesse ganhar. É um dos meus realizadores favoritos de todos os tempos, e espero honestamente que a noite de glória que lhe assaltaram em todos e cada um dos Before chegue realmente um dia. Esta, porém, não era a sua vez. Boyhood é o filme perfeito que nunca chegou a ser. Tão perfeito na teoria, que ninguém considerou que fosse, afinal, intransmissível ao grande ecrã. A notoriedade que teve - pelo investimento, pela ambição - é tão justa como é a sua própria derrota.


Mas nem tudo foi um guião de rosas, claro. Custa-me escrever isto, porque é quase falar de um velho conhecido, porque, à semelhança do resto da minha geração, é uma figura televisiva icónica, especial e provavelmente insubstituível... mas Neil Patrick Harris não foi um tiro, foi um canhão ao lado. Quem conhecia minimamente o background, sabia que podia esperar um registo burlesco e musico-teatral, próprio da Broadway, prémios da qual ele é, aliás, um celebrado host. Hollywood considerou que esse era o registo a emular. Fugia à norma, é verdade, dissonava do sucesso a toda a linha que Ellen DeGeneres tinha alcançado ainda no ano passado, mas havia exemplos equiparáveis de sucesso, nomeadamente com Hugh Jackman, em 2009. Harris, infelizmente, foi um constrangedor peixe fora de água, mais sufocado a cada golfada de ar. Desde logo, cometeu o erro básico de exagerar na cantoria, e arriscou ir ao ponto de tédio. Depois, tentou sempre demais, arrastou sempre demais e, inevitavelmente, chateou a audiência. Finalmente, e no mais dramático de tudo, nunca, nunca, mas nunca teve piada. Depois da tirada de abertura, seguiram-se 3 horas e meia indigestas, com humor do nível de sofisticação dos Malucos do Riso, mal medido, abandonado, desolador. Um verdadeiro deserto, que só encontra pior no que fez James Franco (drogado) há 4 anos atrás. Não há outra forma de o colocar.


A produção também foi de menos. Não consigo perceber, por exemplo, qual é o critério de escolha das estrelas que introduzem os nomeados se, quando conseguem ler fluentemente duas frases, estão com um tão grande ar de enfado. Não se pedia que fossem todos uma aparição como Meryl Streep, mas é incompreensível que não haja outro tacto no desenho e na condução do espectáculo. Depois, também acho deficitário que não se trate de outra forma o lançamento das categorias. Que não se tente fazer qualquer coisa diferente, mais pessoal, nos vídeos de apresentação, ao invés de despejar trailers. Empregava carisma e valorizava muito a transmissão, tal como fez a ABC, em 2012, com pequenas entrevistas ao longo de toda a cerimónia. Até certo ponto foi, de facto, um evento com uma certa falta de aura. O trunfo acabou por ser a competência da realização no palco, a cobrir tanto os episódios teatrais, como, e muito especialmente, as performances musicais (John Legend, Lady Gaga), que se tornaram no ponto alto da noite. Faz sentido que assim seja e, felizmente, a música recuperou o lugar que lhe é devido na cerimónia.


Quanto aos discursos, em geral, muito aplaudidos, não fiquei esmagado. Os Óscares são um palco único, mas sou forçado a avaliar a excessiva polarização político-social sempre com pinças e o que tivemos foi uma autêntica revisão liminar de todo o espectro, com as declamações sobre racismo, homossexualidade, desigualdade de género e imigração. Como é evidente, não estou a relativizar nenhuma das questões, estou só a dizer que, no quadro geral, e encadeadas desta maneira, acabam por soar forçadas, demasiado polidas e menos genuínas. A minha concepção dos Óscares é toda ela paixão e espontaneidade, é ser o Roberto Benigni desta vida, e, por isso, a recepção do ano pertenceu ao excepcional Eddie Redmayne, eufórico como uma criança, exultante, de olhos esbugalhados e coração na boca, que deixou ali, com uma energia arrepiante, tudo o que lhe ia na alma. Para mim, os Óscares vão ser sempre aquilo, aquela alegria, aquela gratidão. Confesso que provavelmente teria dado o Óscar ao Michael Keaton, por ter sido a personagem mais desafiante, porque a mais extraordinariamente real, mas é impossível não ficar feliz por Redmayne, ou sequer discutir o quanto ele o mereceu. Tenho-o escrito e não lhe retiro uma palavra. Quando vemos uma reacção assim, sabemos sempre que ficou nas mãos certas.


No resto dos domínios interpretativos, tudo segundo o anunciado. Não cheguei a ver Julianne Moore em Still Alice, mas confio no alcance da performance; ainda assim, não me cabe que Rosamund Pike tenha lá chegado virtualmente sem qualquer hipótese de ganhar. Não viram, de certeza, o mesmo filme do que eu: se há um injustiçado nestes Óscares, é Gone Girl da cabeça aos pés. David Fincher é, definitivamente, outra persona non grata da Academia. Patricia Arquette salvou a honra do convento para Boyhood, mas não a consigo validar. É um prémio por decreto, inculcado há meses a fio; admito que não houve uma candidata totalmente proeminente, mas Emma Stone teria sido a justa vencedora. Por fim, JK Simmons cumpriu a autêntica formalidade que se tornara subir àquele palco, desde o momento em que desceram as cortinas sobre Whiplash. Foi, realmente, um dos festivais do ano, uma exibição memorável de um grande senhor, por quem fiz orgulhosamente bandeira, de tão merecida que foi. A Whiplash, contudo, ficaram a dever outra vitória tão ou mais simbólica, que era a de Argumento Adaptado, esse, de todos e para mim, o destrato mais escabroso da noite. Whiplash é um texto nuclear, exponenciado por uma coesão artística (banda sonora, câmara, interpretações) verdadeiramente fora do comum; Imitation Game é um guião envergonhado, liso, que se condenou a cortar e costurar um livro, sempre preocupado em não arriscar e em não estragar. Um dó de alma.


De entre os derrotados, The Grand Budapest Hotel levou o lugar de consolação, com 4 Óscares técnicos (Banda Sonora, Direcção Artística, Guarda-Roupa e Maquilhagem) que, de certa forma, lhe emprestam algum brilho e fazem jus a toda a sua elegância conceptual. Há bons e maus derrotados. Custa-me particularmente ver o desterro de Foxcatcher (nomeado a Melhor Actor, Realizador, Secundário e Argumento Original) que, apesar de falências incontornáveis, não foi nenhum filme a brincar, e cujo peso talvez merecesse ser recordado de outra maneira. Privarem-no, de resto, d indicação ao galardão maior já fora imperdoável. Da margem diametralmente oposta, outra notícia salutar da noite foi o verdadeiro perímetro de higiene com que vedaram American Sniper, depois dumas insultuosas e incompreensíveis 6 nomeações. Foi o único candidato a Melhor Filme sem nenhuma vitória vagamente relevante. Ficou-se por... Melhor Edição de Som, o prémio simpatia do colégio de jurados.


2014 tem sido considerado de forma recorrente como um ano sem filmes realmente supremos. Ainda estou em falta, pelo que vou-me permitir a mais umas semanas para pôr a filmografia em dia e poder editar um top-10 digno desse nome. Contudo, não me custa adiantar que é impossível reconhecer validade a uma premissa desse tipo. E se olhar de relance para o baralho, tenho Birdman, Gone Girl, Whiplash, The Theory of Everything, St. Vincent. Ficam indiferentes?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Birdman. Poesia moderna


Tem o delírio e a lucidez dos poetas.

Ponto prévio, para deixar já tudo em pratos limpos: Birdman é tão bom quanto se diz. É uma peça de cinema brilhante, um apontamento tão romântico e tão vulnerável, que é quase impossível não nos desarmar. É um filme sobre reconhecimento. Sobre essa jornada maior do que a vida que é colher a aceitação do mundo, sobre ser admirado e importar, sobre não ser indiferente, nem esquecido, nem soçobrar sozinho. Sobre essa luta que nunca está realmente ganha, tão frágil como uma centelha, que é descobrirmos ou redescobrirmos o nosso lugar, essa busca pela paz que é conseguir afirmar uma identidade, conseguir afirmar o próprio talento. Birdman é um filme espectacularmente honesto. Às vezes louco, caótico, bem-humorado, constantemente sofrido, mas sempre, sempre despretensioso. Auto-exposto, por génese, nos seus medos e nas suas fraquezas e frustrações, sempre de peito aberto às balas e, por isso, com o brio dos que têm os corações maiores. É o argumento do ano em termos de dimensão humana, pela filosofia com que fala de pessoas e por conhecê-las pela medula. Pelo jeito como se move magistralmente cartada sobre cartada, pensamento sobre pensamento, diálogo sobre diálogo. É um texto reverencial, poético pela delicadeza com que articula o seu delírio e a sua massiva capacidade de reflexão. É um filme realmente profundo e profundamente introspectivo. Seja feita uma grandíssima ode a Iñárritu (e aos seus 3 co-argumentistas): estar à altura da reputação é cada vez mais caro por estes dias, mas Birdman merece, com toda a legitimidade do mundo, ser o front-runner aos Óscares.

Do realizador mexicano só tinha visto Babel (2006), que o levou pela primeira vez às nomeações da Academia, e de Babel não gostei minimamente. Abstracto, pseudo-intelectual e incapaz de se concretizar, foi um filme da moda e da crítica. Uma década depois, porém, aplaudo-o de pé. Passaram quatro anos desde a sua última longa-metragem, e se há coisa que Iñarritu soube capitalizar foi o tempo. Birdman é um filme que se sente ter podido maturar. Apurar o gosto, aguardar pela inspiração e compor-se como merecia ser composto. É um filme completo e adulto, com uma visão e com espaço para brilhar. Como disse o próprio realizador, "Tudo, cada movimento, cada linha, cada abertura de porta, absolutamente tudo foi ensaiado." O argumento é excepcional, mas a realização é igualmente especial. Tão eléctrica quanto contemplativa, como uma orquestra. Com intensidade e quebras de tensão, com um tipo a destruir à mão um camarim, antes de ter uma conversa intimista sobre um casamento falhado. Se me tivessem pedido uma pulsação ideal para o filme, era esta. Com os walk and talks pelos corredores do teatro, a câmara a espremer-se até entrar de rompante em bocados de ante-estreias, sempre a girar e a tirar o raio-x a cada bocado daquela Broadway, antes de se deixar ficar numa conversa de varanda pendurada sobre a Times Square. Isto é tanto mais fascinante se soubermos que Iñarritu filmou o grosso do filme a um único take, numa aposta que o próprio caracterizou de suicida, por ter acreditado que era essa a identidade a imprimir, a da vida que não tem edições. Foi honestamente um prazer.

Confesso que, depois de ter visto The Theory of Everything, não imaginei que Eddie Redmayne pudesse ter realmente alguém à sua altura este ano. Michael Keaton provou-me errado. A eminente grandeza do papel é, na verdade, indissociável do seu carácter autobiográfico: o actor que na juventude foi um icónico super-herói em cinema, antes de tombar numa longa travessia no deserto, não é menos do que a sua própria história. Poucas vezes se tem uma oportunidade destas - lembro-me da performance incrível de Mickey Rourke, em The Wrestler (2010) - e Keaton cuida dela com a alma. Num caso como noutro, sente-se. E a verdade é que é difícil bater o que é tão bom, quando também é tão real. Se repararmos, é o único dos cinco nomeados ao Óscar que não retrata alguém com uma perturbação mental ou física reconhecida. Dá para perceber o alcance? Keaton enche o ecrã. Nos seus laivos de entusiasmo esperançoso, na sua genuinidade mas, acima de qualquer outra coisa, na sua desolação. No seu rumo contra a maré, no seu exercício de transcendência entre derrotas maiores e menores, sempre iludido de que ainda há algo para ele, de que ainda há algo a ganhar. A cena no bar com a crítica do Times, à entrada do capítulo final, aquela inevitabilidade crua da derrota, é sétima arte em estado puro.

Birdman foi uma fénix dos regressos. Definitivamente não me teriam visto apostar que uma comédia-drama também marcaria a volta de um dos grandes nomes com quem cresci: Edward Norton faz o seu melhor filme numa década. Cáustico, agressivo, intenso, com um texto à sua medida. Parecia que já não tinha nada daquilo com ele, mas ressuscitou-nos à frente o tipo de performance que estava adormecida na memória do século passado (Fight Club, American History X, 25th Hour...). Grande, grande personalidade, uma arrogância de autor que é um privilégio ter de volta. Emma Stone começa a cumprir o percurso que todos lhe adivinhavam. Tem demasiado carisma, era tudo uma questão de tempo. O seu potencial excede esta nomeação, mas foi uma merecida porta de entrada na elite, na pele de uma miúda dura e revoltada, mas interessante, até madura. A cena com o pai na recepção do teatro teria valido a nomeação por si só. Num elenco tremendamente sustentado, não deixam de merecer referência Galifianakis, Naomi Watts e Andrea Riseborough, pelo nível que emprestaram ao produto final. Salientar também, e inevitavelmente, a enorme cinematografia de Emmanuel Lubezki, o mestre por detrás de Tree of Life ou Gravity. Não era um trabalho ortodoxo e Lubezki não o queria aceitar - com o essencial da filmagem entre os muros de um teatro, numa semi-comédia -, mas Iñarritu convenceu-o e o resultado da parceria criativa com o conterrâneo foi venerável.

Birdman é uma pérola. Um apontamento cativante e inspirador sobre a inelutável leveza do ser, tão leve como uma pena sujeita ao vento, tão leve que também pode voar, sobre a fragilidade envergonhada, mas despretensiosa, que nos faz humanos. Um filme tão artístico, tão bem executado e com tanto coração. Vai discutir o Óscar com Boyhood e, de uma vez por todas, espero que tenha o universo a conspirar a seu favor. Tem tudo para ser o melhor vencedor em muitos, muitos anos.

8.5/10

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Foxcatcher. À equipa de sonho só faltou outra táctica


As performances e a realização são próprias de um melhor do ano. Se Foxcatcher não o chega a ser, só se pode culpar a si próprio: foi incapaz de finalizar com engenho o jogo que, por mérito integral, deixara à mercê.

Começo pelo incontornável: estamos na presença do elenco do ano. De repente, não me lembro de outro filme em que surjam três protagonistas a tanta altura. Carell, Ruffalo e Tatum são monumentais, simbioticamente perturbadores, são engrenagens feitas à medida uns dos outros, que se completam e engrandecem de forma indiscutível. A vénia maior parte, claro, para a transformação arrebatadora de Steve Carell, senhor de uma carreira a um universo de distância daquilo que plasma o seu John du Pont. A figura do filantropo bilionário e promíscuo, com ares de psicopata e um profundo complexo de inferioridade, é massiva e Carell respira-a por cada poro. A sua inquietação, a imprevisibilidade e o espectacular desconforto que provoca foram trabalhados ao pormenor e, como o próprio já admitiu em entrevista, acompanharam-no para fora do set, durante os meses de filmagem. Os seus silêncios gazeados, o olhar morto, a forma de andar, os timings e toda a comunicação não-verbal são apontamentos esmagadores. Não há muito a dizer, a não ser que, aos 52 anos, um ícone do humor televisivo americano se reinventou como referência.

Mark Ruffalo era o mais rotinado dos três, e o único, no fundo, que se apresentava como uma escolha natural para o filme. Diria que cumpre, sem grande margem para dúvidas, o melhor papel da carreira. Parece-me que também era o menos exigente dos três, no sentido em que implicava menos intensidade e menos mutação expressiva. Ruffalo ganha-o, porém, com uma consistência inestimável. Todo ele é frieza, maturidade e presença de espírito. Rodeado da pressão e da descompensação alheia, tantas vezes limítrofe, parece, todavia, passar sempre incólume, graças a uma paciência professoral e a uma grandeza muitas vezes pedagógica. Foi também ele um nomeado natural mas, se há coisa que ficam a dever ao filme, é a tripleta de indicações ao Óscar. Nunca pensei dizer isto, mas Chaning Tatum não podia ter sido esquecido.

Foxcatcher não foi ortodoxo a escolher os seus intérpretes mas, até se dermos isso de barato, Tatum foi uma aposta vagamente incompreensível. Por ironia, o jackpot deu e sobrou. Não estamos a falar da exibição de uma vida, nem de algo transcendental, mas o facto é que, como performance pedida, é perfeita. Tatum é realmente primário. Um monstro físico, absorto e introvertido, um campeão olímpico condenado, por capricho do destino, ao fardo de viver à sombra do irmão. Um homem-criança emocionalmente instável, com acessos de violência primata à flor da pele, influenciável, inseguro, treito a perder o chão. Não é um papel glamoroso ou metamórfico, mas não era fácil parecer real. Foi muito melhor do que isso e não merecia absolutamente a desconsideração a que a temporada dos prémios o votou.

Mas nem só de actores se fez o filme: Bennett Miller dá um tratado de realização. Não é à toa que, na 3ª longa metragem da carreira (Capote, Moneyball), consegue a 2ª nomeação ao Óscar. É um trabalho profundamente conceptual, idealizado para engrandecer todos os bocados da narrativa. Negro, demorado e contemplativo, com um desassossego que se entranha na pele, pejado de grandes planos, de um bom gosto extraordinário, e de solos inebriantes (Tatum no quarto de hotel, Carell no estábulo). Chamaram-lhe, com alguma felicidade, "um filme de terror em câmara lenta" e o facto é que Miller capitaliza os timings como um verdadeiro mestre. Estica as cenas e depois estica os vácuos um pouco mais, numa realização profundamente indutora, ameaçadora, agreste. Valeu-lhe a Palma de Ouro em Cannes. Com Damien Chazelle (Whiplash) e David Fincher (Gone Girl) fora da corrida, e sem ainda ter visto os préstimos de Iñárritu (Birdman), teria o meu voto já.

O que é que faltou, afinal? Costumo dizer que o valor de um argumento é quase sempre proporcional à forma como ele acaba, ou seja, ao talento e à inteligência para concretizar a sua proposta. Um filme pode, quiçá, dar-se ao luxo de ter ideias apenas razoáveis durante metade do tempo, se conseguir ser realmente brilhante no derradeiro capítulo. Como uma final, em que o herói não tem de ser majestático a tempo inteiro, tem é de fazer aquela jogada que define tudo e que o vai lembrar, porque a última imagem é a que fica. Não acho que o argumento de Foxcatcher seja excepcional nalgum momento. Pelo contrário, se há textos que fazem os protagonistas parecerem melhores, este é um caso em que as peças-chave são tão boas, que baralham a própria origem do génio. A caracterização das personagens e do ambiente é, de facto, muito forte mas, no resto, o guião original de Dan Futterman e Max Frye é mínimo. Falta-lhe visão. Segue uma recta pré-definida, evita nuances de maior e, sobretudo, falha no último terço, a nível de profundidade, de contemplação e da vivência propriamente dita do desenlace. Em vez de valer como prato principal, o destino das personagens é despachado como um digestivo pouco relevante, quase de rodapé. A verdade é que Foxcatcher ameaça-nos tempo demais para acabar sem que nos afectemos com ele, o que é um falhanço claro. Se a última imagem é a que subsiste, pois o filme fica-nos em dívida. O fim cortou-lhe as asas.

A minha opinião sobre a estrutura, porém, não desbarateia o essencial: é uma obra de peso, negríssima, brilhantemente dirigida e com um festival exibicional em campo. Obviamente, a não desperdiçar.

7.5/10