quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

In the Heart of the Sea. Há histórias que não sabem falhar


A ambição era refazer um filme sobre nada menos do que Moby Dick. 100 milhões de dólares de orçamento, Ron Howard nas rédeas (Cinderella Man, A Beautiful Mind, Frost/Nixon, Rush...) e um elenco cravejado de estrelas para todos os papéis, do poster boy Chris Hemsworth a estrelas emergentes como Ben Whishaw (o "Q" dos novos Bond), de certezas absolutas como Cillian Murphy a instituições unipessoais como Brendan Gleeson. In the Heart of the Sea era um daqueles filmes aos quais se passa um cheque em branco, um daqueles que escolheu quase tudo de olhos fechados... e que, no fim, era suposto render verdadeiramente pouco. Um daqueles blockbusters onde esperamos, tão só, ter a sorte de encontrar alguma vertigem e alguma catarse. Este, contudo, foi demasiado bem escolhido para o seu próprio destino. Com uma odisseia intemporal americana trabalhada a tantas boas mãos, dobraram-se as tormentosas probabilidades e o que temos, afinal, é um certo fascínio a espreitar a vários níveis.

In the Heart of the Sea não parte directamente da maior de todas as obras de Herman Melville, mas do livro bem mais recente (National Book Award for Nonfiction, em 2000) de Nathaniel Philbrick, sobre os factos verídicos que motivaram o histórico naufrágio do baleeiro Essex, em 1820, no coração do Pacífico, e que viriam a render a magnânima epopeia da baleia gigante e dos náufragos de 90 dias, imortalizada em Moby Dick. O grande acerto do filme, aquele que define o seu sucesso, parte sobremaneira disso: In the Heart of the Sea é verdadeiramente genuíno, porque conserva muito perto de si esses "factos verídicos" e a mística das transcendentais histórias de mar, de gigantismo, mito e sobrevivência. Alimenta-nos com isso, faz-nos crer, envolve-nos e sabe-nos contar uma história, pelo destrinçar do argumento, sim, mas, mais ainda, pelo contexto, pelo ambiente e pela felicidade ao romantizá-los, desde aquela chegada de Melville a Nantucket - o maior porto baleeiro do mundo no século XIX - para entrevistar a uma madrugada o último sobrevivente, com uma garrafa de whisky e um dose ainda maior de expiação. É um filme onde gostamos de estar, que desperta a criança curiosa, fascinada e impressionável que temos no coração, e é um filme bonito, por ter esse jeito em trazer-nos um clássico, quando era muito fácil desperdiçar-se completamente num vácuo de espectacularidades bacocas e efeitos especiais.

O filme é cativante, ainda que seja inevitável reconhecer que não estamos na presença de nada supremo ou refundador. É uma obra que essencialmente se acarinha, como boa história e património histórico, não quiçá reflexiva ou fabular, como encontramos, por exemplo, em Life of Pi, num filme da mesma água. Isso, no entanto, não lhe retira o mérito. A adaptação de argumento ficou a cargo de Charles Leavitt (autor do incrível Blood Diamond) e, se às vezes falta algum tacto a temporizar a acção, lá está, a dar-nos mais tempo para pensar, o que era verdadeiramente essencial, ou seja, o exercício de fascínio, ainda para mais num projecto deste tamanho, foi conseguido com distinção. In the Heart of the Sea não só não era um "filme de realizador", como a realização movia-se, aliás, num abismo perigoso, pela propensão em exagerar e se perder. Nesse campo, este estará longe de ser um dos melhores filmes da carteira insultuosamente luxuosa de Ron Howard, mas o oscarizado americano protege-o ou, por outra, evita que o estraguem. Existem ocasionais sequências demasiado artificiais e são patentes os sucessivos cenários de laboratório, mas o filme é bem mais púdico do que aquilo que se poderia esperar e essa é outra das suas vitórias.

Costumo ser bastante preconceituoso quanto a elencos de luxo, sobretudo se se destinarem a filmes deste tipo. Este tratou-se, porém, de mais uma saudosa excepção. Chris Hemsworth, com quem simpatizo, continua a construir uma carreira comercial relevante e abraça o lead com uma franqueza e uma empatia que lhe começam a ser imagem de marca. Cillian Murphy é o trunfo que queres sempre ter a teu lado. E, por fim, um filme com Brendan Gleeson tem como que uma responsabilidade moral de ser bom. O seu papel cirúrgico de último sobrevivente do Essex impinge de carácter tudo o resto e dá-lhe o peso dos grandes épicos. Tenho para mim que, quando se principiou a produção de In the Heart of the Sea, não havia sequer a ambição de fazer algo tão narrativamente envolvente e, quiçá, carismático. O feliz resultado é um dos bons filmes do ano e uma oportunidade generosa para mergulhar num das grandes histórias do nosso ideário contemporâneo.

7/10

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Steve Jobs. Conceptual, poderoso, viciante



Steve Jobs não é o homem mais importante do filme. É irónico, no filme sobre a sua vida, mas o mérito de um dos musts do ano é mesmo de quem o escreveu.

Normalmente, idolatram-se actores ou realizadores. Idolatra-se quem aparece nas fotografias, quem dá as entrevistas, aqueles, no fundo, de quem se vê o trabalho. É difícil idolatrar os heróis não cantados. Ao pensar nisto, lembro-me sempre do meu velho John Spencer que, ao receber o primeiro Emmy da carreira, aos 56 anos, se dirigiu ao seu argumentista para dizer:
"I serve at the genius and the art of Aaron Sorkin, one of the great writers of all time. An actor is only as good as the material he gets; and we were given gold week after week after week. I don’t know how he does it."

A série era West Wing - Os Homens do Presidente. Aaron Sorkin, pois claro, o seu pai criador. Uma e outro são, até hoje, os melhores que já vi. Sorkin tornou-se, para mim, uma figura de culto. Um monstro sagrado dos guiões, o maior de todos. Capaz de idealizar o que mais ninguém escrevia, com a cadência que mais ninguém imprimia. Para quem escreve umas coisas, para quem sonha escrever mais e melhor, para que consome cinema e televisão, Sorkin foi um deus. Um iluminado filosofal, da forma e do conteúdo. As primeiras quatro temporadas de West Wing, após as quais abandonou a sua própria criação, são património da Humanidade. O mestre contudo, assombrado como os maiores, com problemas graves de toxicodependência, não voltou depois a atingir semelhante Panteão, ainda que todos os seguidores tenham continuado a deslumbrar-se a episódios, como ao ver as fintas de um velho craque nos anos de ocaso, em Studio 60, Newsroom ou, em cinema, ainda com Moneyball. Este texto não seria suficiente para exprimir toda a admiração que tenho por Aaron Sorkin. Ainda assim, não ousei apostar tudo neste Jobs.

Por ironia do universo, Sorkin ganhou o Óscar que lhe estava no destino, infelizmente, e como acontece tantas vezes, quando não o merecia. Quase num insulto honorário ao seu próprio génio, com um dos seus trabalhos mais vulgares. The Social Network (2010) foi um filme tarefeiro, desencantado e inevitável. Um filme para ganhar dinheiro, que alguém tinha de fazer. Um filme sem um pingo de alma, que lhe rendeu um Óscar de secretaria, logo a ele, que nunca precisaria de um. O meu medo em relação a Steve Jobs era, por isso, incontornável. Era que fosse o próximo filme de artifício, sobre uma figura pop da cultura tech, era a ameaça de ser mais um prego sombrio no vulto dum vanguardista. Não foi. Steve Jobs é, na verdade, o grande trabalho de Aaron Sorkin desde o adeus à Ala Oeste da Casa Branca. Isso quer dizer que é muito, muito bom.


Por mais evidentemente suspeito que seja para falar, este é o arquétipo de um filme de argumentista. Um filme em que o guião é a jóia da coroa, aquilo que o enche de vida e o faz pulsar, tão bom que perpassa a óptima câmara e as boas interpretações. Ali, ao fim do primeiro quarto-de-hora, o texto já ganhou. Já nos bateu de frente, dobrou e convenceu, a um ritmo tão electrizante, tanto à imagem do seu autor, que tudo o que temos a fazer é agarrar-nos à cadeira e sobreviver à viagem. Jobs é como um filme de acção, mas em diálogos. Esse sempre foi o mais pleno de todos os super-poderes de Sorkin. As conversas relampejantes, cortadas em monólogos, aceleradas em andamento, de porta em porta, de sala para sala, com o mundo a rumorar à volta, o "walk and talk" e o "smart and funny" que fizeram de West Wing um produto gravosamente profundo e, ainda assim, magnanimamente cool.


Jobs é um filme em três actos, que biografa o Da Vinci dos computadores decantando-o nos bastidores de três das suas apresentações mais emblemáticas - Macintosh, NeXT Black Cube e iMac -, num espaço de 14 anos (1984-1998). E é tão brilhante na forma como no feitio. Falhar uma biografia é, de resto, muito fácil. Ser redundante e desinteressante e não conseguir, afinal, reinventar a roda. Neste caso, o formato do filme foi metade da vitória. Uma moldura inortodoxa, porque imprevisível, capaz de desmanchar criativamente algo que era normal não se saber por onde pegar. Como seria natural, é também o filme de um homem só. Não é lírico, como não era suposto que fosse, nem simpático, nem inspirador, como é parte substancial da obra de Sorkin. É, pelo contrário, provocador e subversivo, impingindo uma personalidade fortíssima, quase limite, à sua figura nevrálgica. Este Steve Jobs é um vulcão que nos hipnotiza pelos seus modos, pela sua energia e pela sua intensidade, e do qual não podemos simplesmente desligar, num análogo síndrome de Estocolmo, que nos faz intolerar toda a sua arrogância e, ainda assim, não conseguir abstrair-nos da sua aura atordoante. É poder em estado puro.


Na sua terceira chamada aos Óscares, depois de Slumdog Millionaire (2008) e 127 Hours (2010), Danny Boyle apresenta-nos o seu trabalho mais grandioso. O britânico tende a ser um realizador que deixa os filmes respirarem bastante pela sua teia de ideias, puxando-se a um segundo plano, alguém que se evidencia mais pelas suas escolhas temáticas, do que pela sua técnica. Como em tudo o resto aqui, porém, o argumento de Sorkin transforma-o para melhor. Pede-lhe atenção e reacção, pede-lhe que esteja à altura e que, qual maratonista-guia, corra com a câmara ao mesmo ritmo de tudo o que lhe escreveram. O resultado é de alto nível e a realização é outro ás do filme, porque de excelência. Toda a cena ressurgida do despedimento de Jobs da Apple, desde a conversa num átrio deserto dum coliseu à memória da sala de reuniões fatídica, a combustão, a escalada, o corte de planos e as aberturas, tudo é material de uma majestade palpável, que eleva o filme a um plano olímpico e lhe dá a altitude dos Óscares.


Uma biografia não se poderia ter feito sem o protagonista, como é óbvio. Fassbender deu o litro e foi essa figura-chave... ainda que este não seja um filme das interpretações. Sou um fã confesso do germano-irlandês, e muito me bati por um Óscar há dois anos (12 Years of Slave), pelo que tenho a consciência tranquila ao dizer que a sua performance é boa para o filme, mas não é assim tão boa para ele. O papel é imaculado, consistente, inerentemente competente em tudo o que lhe poderiam pedir. Tem costas para aguentar o peso, incorpora uma imagem de marca e Sorkin será, hoje, um treinador orgulhoso. Todavia, no final, gabamos o ritmo, o poder e a não linearidade do retrato... mas não temos ali um papel da nossa vida. Infelizmente, faltou aquele momento, aquela "extra mile". Jeff Daniels, que não adoro, cresce com o filme, Kate Winslet, sem demasiado espaço, é equilibrada a tempo inteiro e Michael Stuhlbarg assenta bem, ao passo que Seth Rogen é mau, como sempre, e Katherine Waterston (a ex-namorada) é invisível. O traço mais forte do cast, à parte Fassbender, é a sua filha... representada sucessivamente, e sempre bem, por três actrizes diferentes, dos 5 aos 19 anos. A perturbadíssima relação paternal entre ambos, um terreno querido de Sorkin, acaba por ser o ovo da Páscoa do filme. Não o vemos de imediato, tão a ferros e tão desamorável mas, ao fim e ao cabo, consegue ser tão dolorosamente impactante, e até tragicamente bonito, nos seus diversos laços, até ao diálogo final.


Steve Jobs é evidentemente um dos filmes do ano. Um emocionante regresso à elite de um dos maiores guionistas de sempre, um incinerante retrato de uma das personalidades mais singulares da História Contemporânea, um filme conceptual, poderoso e perfeitamente viciante.

8/10

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

007 Spectre. O filme que ninguém queria fazer


Os Bond de Daniel Craig têm um antes e um depois.

Diz-se isto porventura mais do que era devido mas, em 2006, o que fez Casino Royale foi romper com um paradigma vencedor de 40 anos: o do agente galã por si só, subversor de qualquer narrativa com a mesma facilidade com que virava copos de martini e amassava as mulheres mais bonitas do mundo. Sempre fora por isso que as pessoas seguiam a filmografia do agente dos agentes: pelo glamour, pela catarse despreocupada, pela desconstrução conspirativa sem levar nada demasiado a sério. Casino Royale, realizado por Martin Campbell, e co-escrito pelo trunfo Paul Haggis (argumentista dos dois vencedores de Óscar anteriores, Million Dollar Baby e Crash...), não foi só um filme ambicioso. Foi um marco refundador do que podiam ser os Bond e todo o género espionagem por arrasto, à semelhança do que foram os Batman de Nolan para os super-heróis. Uma porta escancarada para o melhor drama e, com isso, para o quebrar da barreira entre o que era um filme de entretenimento e o que podia ser um filme de elite, "sem género".


Como qualquer operação tamanhamente basilar, nada disto se faz de uma só vez. É por isso que Quantum of Solace, dois anos depois, foi um filme perdido, inócuo e emparedado num propósito que o excedia largamente. Se o atentarmos, porém, como meio para chegar a um fim, a valia está lá. Afinal, é a partir desse desconto de tempo que se constrói o melhor Bond de sempre. Skyfall teve o melhor realizador e a melhor realização. A melhor fotografia, o melhor vilão e a narrativa mais encarnecidamente pessoal. Sam Mendes, o primeiro oscarizado a dirigir a saga, varreu do avesso todas as convenções, John Logan, o reforço de luxo no argumento (Gladiator, The Last Samurai, The Aviator), tornou tudo demasiado fácil. Skyfall, o primeiro Bond a passar a fasquia dos mil milhões, Óscar até de melhor música original, foi afinal, e como se comprovou agora, a medida impossível de suceder.


O lançamento de Spectre ficou marcado por uma série de episódios muito pouco amoráveis, muito alheios àquele rastro cósmico que costuma envolver todo o lançamento Bond numa gigante passadeira vermelha. Desde logo, o aparente enfado de Sam Mendes em repetir a experiência, ele que a recusou em primeira instância e só lá foi com um dedicado convencimento dos seus pares; depois, e muito mais pronunciadamente, o asco do próprio Daniel Craig, que passou a temporada promocional a falar do quanto estava farto da saga e do quanto a queria ver pelas costas. Depois de visto, se há percepção que transpira do filme de uma forma cristalina é essa: ninguém o queria realmente fazer. Spectre é a ressaca de Skyfall. Um filme à força, uma cláusula de contrato, um tarefismo de serviços mínimos. A falta de comprometimento com aquilo, de tudo e de todos, chega a ser desconfortável.


Daniel Craig assina, sem grandes subterfúgios, a sua pior performance no papel. Completamente apagado, como um jogador que vem de uma época de luxo e que já não encontra motivação para começar tudo outra vez. Craig está cansado e é cansativo, está sempre distante (até com as contra-partes femininas) e, desta vez, a rudeza da sua cara e dos seus modos não respira rigorosamente para além disso. Léa Seydoux confirmou, a seu turno, todas as reticências que havia quanto à sua escolha e fica a léguas de deixar qualquer marca, como uma das Bond girls mais transparentes de sempre. O argumento, e novamente com John Logan a bordo, é tão primário que chega a ser constrangedor. Spectre deveria representar, alegadamente e à luz da História, um momento estruturante na linha da acção, com o vilão maior, a Bond girl mais perene e a organização arqui-inimiga por excelência; o que vemos, pelo contrário, é uma amálgama de meias-ideias todas superficiais e miseravelmente mal concretizadas, coladas umas às outras com a mesma coesão de quem empilharia fascículos de Ian Fleming num canto da sala. A escala de subrendimento, porém, ainda piora.


Depois do maior showdown da série, Sam Mendes entrega porventura o filme mais modesto da sua carreira, um que, quanto muito, parece ter revisto por alto, enquanto fazia outras coisas a sério. Nem deu para disfarçar. Visual e cenograficamente é sempre pobre, não havendo uma única cena que fique na memória. As sequências de acção, por sua vez, só fizeram pior a emenda do que o soneto, de cada vez que tentaram "arriscar". Sobra, por fim, o maior de todos os pecados. Não teria existido rigorosamente ninguém mais capaz à face da Terra para interpretar a némesis de Bond, o notório Ernst Stavro Blofel. Christoph Waltz era o homem certo no lugar certo, uma felicidade inevitável à espera de acontecer. O seu desaproveitamento quase integral, quase insultuoso, será lembrado como um indesculpável falhanço histórico. Escreveram-lhe um papel minúsculo e escreveram-no a correr. Escreveram-no sem um único traço, um único twist, um único golpe de sorte. O deserto de cena no laboratório do deserto de Tânger, aquele espectacular punhado de nada, resume tudo isso de forma muito mais cruel do que eu o poderia fazer.


Spectre é um filme quanto muito suficiente para consumo, mau se entrarmos em qualquer parâmetro de comparação. Vale pela marca, pela boa notícia que é Andrew Scott (o excepcional Moriarty de Sherlock) e pela última frame de Monica Bellucci, um sopro divino que há muito merecia inscrever este currículo. De resto, é um filme inconsequente, pouco pensado e pior executado, que faria recuar a franchise pelo menos uma década, em termos de ideário. Faria, se fosse para levar a sério. Não é.

5/10

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Olive Kitteridge, minisérie. A ficção também é demasiado real


Olive Kitteridge podia vir com o rótulo de não aconselhada a públicos demasiado impressionáveis. A vida, no fundo, também. Ser uma minisérie acaba por ser apenas a cápsula através da qual nos é contada uma história que é real. A toda a largura, é isso mesmo: uma série crua, sem embalo, nem contemplações, sem rede, nem lições de moral. É realmente triste e realmente dura, agredindo-nos por não estarmos habituados a que nos falem assim, e não é, por isso, uma série com a qual seja fácil criar empatia. Na maior parte do tempo, o que nos resta mesmo é ficar introvertidos e a desconfiar, até nos darmos conta de que, na sua forma desiludida, tudo aquilo é afinal demasiado genuíno. No fim, criamos o élan, não porque ela chegue a ser nalgum momento agradável, mas porque não podemos evitar compadecer-nos do carácter das personagens e dos seus episódicos momentos de humanidade, que nos deixam respeitosamente reverentes e desarmados.


A minha cena favorita é uma em que o brilhante Richard Jenkins, num qualquer dia vulgar de reforma, vê no supermercado um cartão dedicável à sua mulher, sendo ela totalmente alheia a esse tipo de demonstrações de carinho. Ainda assim, compra-o na mesma, e oferece-o na mesma com flores... para receber a exacta reacção que seria de esperar. Ele fica bem com isso, no entanto. Mais, fica genuinamente contente, de olhos a brilhar, só porque lhe disse uma vez mais que a amava, e porque dizer isso era maior e mais importante que qualquer reacção que ele pudesse ter de volta. Porque ele não o fazia pela recompensa, fazia-o somente porque para ele era importante dizer, e isso era em si completo, era o princípio e o fim. O privilégio de poder amá-la era dele. O resto não interessava realmente. A cena é majestosa por ser tão simples, por ser praticamente impossível de emular, e de ter inventado ou escrito num guião. Tão desencantada, tão pouco lírica e tão naturalmente bonita por causa disso.


Olive Kitteridge é uma obra original de Elizabeth Strout, vencedora dum Pulitzer em 2009, e adaptada para televisão por Jane Anderson, uma dupla vencedora de Emmy e do Writers Guild of America. Narra 25 anos na vida de uma mulher de meia idade, numa pequena cidade do Nordeste americano, uma mulher austera e de tendência depressiva, e todas as suas relações pessoais e familiares. Não é, garantidamente, uma série para todos os públicos e, mais do que isso, para todos os estados de espírito. Apesar de curta, como a própria tipologia indica (4 partes de 1 hora), é um produto para ver com tempo e com paciência. É uma série para "querer ver", já que, na minha óptica, o primeiro impacto estará longe do amor à primeira vista. Tal como admito que, mesmo quem vir de fio a pavio, pode perfeitamente lidar mal com o seu desamor, com a cara fechada e as parcas exaltações. É uma questão de estilo e de subtexto, às vezes de um momento ou de mero clique, ainda que não seja mesmo uma série que vá falar a toda a gente. No meu caso, não passa à História como inesquecível, e diria que porventura nunca teve essa ambição, mas deixa-me, sim, como respeitoso admirador. Essencialmente em dois planos que, sem prejuízo para outros, como a fotografia (a série tem palco no envolvente e melancólico Maine, o Estado mais a nordeste dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá), me parecem claramente de excepção: a lucidez e a crueza da adaptação, transcendental nos pequenos episódios dentro de cada episódio, alguns em que o próprio diálogo é irrelevante; e a genuinidade arrepiante de ambos protagonistas, no retrato que fora idealizado.


Fosse a série uma peça de teatro e, no fim, Frances McDormand e Richard Jenkins mereceriam 10 minutos de ovação de pé. Não é só terem sido tecnicamente perfeitos e emocionalmente massivos; é, lá está, serem tão ridiculamente fiéis ao papel, tão competentes a interpretar e a dar vida ao conceito, tão naturais nos pormenores, tão irrepreensivelmente fidedignos, que é quase criminoso dizer que aquilo não é mesmo a autobiografia de ambos e que McDormand e Jenkins eram uns pseudónimos de vida quaisquer. Podia dizer que Frances McDormand faz aqui o papel de uma vida, mas não estamos a falar de uma actriz qualquer, pelo que maior prudência é de bom tom. Com o Emmy arrecadado em Setembro, justamente por esta performance excepcional, McDormand fechou nada menos do que a sua Tríplice Coroa de Actuação, depois do Óscar por Fargo, em 1997, e do Tony Award em 2011, pelo original da Broadway Good People. Aqui, a única maneira de a descrever é dizendo que foi verdadeira demais para não ser verdade. Olive Kitteridge é uma mulher severa, realmente fechada, cáustica e pragmática, má com as pessoas e de modos perfeitamente incorrigíveis. Daquelas mulheres capazes de tornar qualquer ambiente constrangedor, qualquer situação desconfortável, e que raramente tem pejo em fazê-lo. É radioactiva e provoca no próprio espectador uma vontade de afastar-se dela, um alívio ao vê-la pelas costas. Toda essa consistência faz com que os momentos de ruptura narrativa sejam tanto mais fascinantes. A cena com o filho na cozinha, no fim do terceiro acto, toca forte por isso, pela desistência em ser implacável, desvelando o seu fundo difícil mas bom, e completando um círculo emocional muito, muito difícil de conseguir.


Já Richard Jenkins, um histórico secundário, sai definitivamente como uma das personagens de estima maior. O seu Henry é o homem de quem toda a gente gosta. Uma figura quente, carinhosa, irreprimivelmente dedicada e altruísta, verdadeiramente incansável. Na linha da cena que descrevi na introdução, não o faz, contudo, pela romantização da personagem... mas porque lhe está na pele ser assim. Sem nada em troca, sem sequer ter de ir a lado nenhum, Henry é atencioso, bondoso e dedicado, genuinamente porque essa é a sua maneira de estar no mundo. É uma personagem admirável, que nos deixa consolados sempre que se encontra em cena, como um reforço positivo do que pode ser um mundo melhor. Este texto não estaria todavia completo sem Bill Murray. Fez, tão só, a última meia hora do último episódio, mas foi exactamente a lufada de ar fresco que a série precisava para se concretizar. Num registo global cuja imagem de marca foi sempre a indução de maneiras de estar e de sentir, e portanto, muitas vezes "mudo", a dialéctica de Murray é o oásis no deserto, um raio de bonomia num dia de morte, cuidadosamente talhado para vir brilhar ao sítio certo.


Olive Kitteridge venceu no mês passado 8 Emmys, incluindo Melhor Minisérie e, nessa categoria, Melhor Realização, Argumento, Actor, Actriz e Secundário. É uma das jóias de coroa da temporada. Não será a série mais apaixonante que já viram na vida, mas sairão definitivamente mais ricos por sua causa. Isso é muito mais do que pode parecer à primeira vista.

8/10

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Mr. Robot, temporada 1. Uma overdose de Revolução


É uma série transparente, no sentido de que ou fascina ou não se suporta. Simples quanto isso. E acho que essa é uma opção criativa que merece todo o respeito. Por um lado, porque cria uma audiência de culto, dando-se à liberdade de continuar fiel à sua visão e às suas peculiaridades; por outro, porque não engana à falsa fé quem lhe tenha dado uma primeira oportunidade. Não só tenho consideração por esse tipo de séries, como acredito que a individualidade é, quase sempre, o caminho para a excelência. Neste caso, infelizmente, caibo na segunda categoria.


Vi metade da temporada e foi positivamente suficiente para perceber que não era para mim. Mr. Robot versa ou, dalguma maneira, psicopatiza a respeito de um outcast, um vigilante hacker com depressão diagnosticada, ansiedade social gravosa e uma espécie de autismo mais ou menos tangível, que se vai descobrir mergulhado num autêntico turbilhão conspirativo, decalcado à imagem e semelhança duma mescla entre os Anonymous e a Wikileaks. A série investe, a braços largos, nesse maná moderno que é o cyber poder, instrumentalizando um peão com um talento fora do vulgar para uma suposta Revolução a borbulhar desde as catacumbas da clandestinidade. Nessa viagem, recrutam o peão, mas recrutam igualmente os seus infinitos demónios, criando uma mancha alucinogénica que vai contaminar toda a acção da série. O meu momento definidor, porque castrante, foi uma sequência, a meio do 4º episódio, em que o protagonista vive um delírio de mais de 5 minutos, motivado por abstinência. É ostensivo, é cansativo e é redundante. É o tipo de pincelada artística, de aluamento fora da caixa que, comigo, não funciona.


Na crítica férrea ao status quo, nos modos punk e no negrume da realização, a série assemelha-se constantemente a Fight Club, àquela agrura dolorosa da luta contra uma sociedade cega, hipócrita e corrompida. Quando o nível de ambição conceptual é esse, e para conduzir o espectador em tamanha jornada, tens de ser muito bom. Tens de ter mais uma carta na manga, mais uma ideia improvável, tens de ter particularmente um arquétipo dramático onde vás buscar alguma identificação. Mr. Robot é uma casa assombrada, um pesadelo em jeito de terapia de choque que te esgota, mas sem nunca encontrares a razão para continuar a ver. Admito, como é óbvio, que seja uma questão de gosto. Aliás, gabo a forma e a própria execução. Só não retiro qualquer prazer daquilo, daí que prosseguir fosse redundante. Não ali nada que me impressione, que me interesse e, no fim, que me inspire.


Não acabo, porém, sem salientar alguns créditos. Desde logo, e tal como já vim a mencionar, a realização, ou mais do que isso, a consistência conceptual de Sam Esmail (38 anos), que criou um produto muito agressivo, muito negro e afligido e de digestão muito forte que, sabiamente apelidado de thriller cyberpunk, será certamente um must para qualquer apreciador do género. Como disse à cabeça, é uma série de autor, que não se esforça por chegar a todos os públicos, sendo, por opção, um produto cuidadosamente trabalhado para satisfazer apreciadores. Mesmo nos casos em que não sou um deles, sei reconhecer a fidelidade. Depois, e inevitavelmente, elogiar a prestação devota de Rami Malek, tão metamórfica que quase nos dói a pele, num registo tantas vezes vítreo e siderado, assustado e perdido, que nos constrange mais do que apega. É um dos papéis mais relevantes do ano e, se não, o mais cáustico. Num registo global menos delirante, teria valido a pena seguir o veterano Christian Slater, o anarquista que recruta Malek para um grupo de hackers, e Martin Wallström, executivo jovem, ambicioso e hardcore da corporação que incorpora o mal. 

Quem gostar de Mr. Robot, vai gostar muito; quem não gostar, saberá disso ao 2º episódio. É um negócio justo.

5/10  

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Narcos, temporada 1. Quanto custa ser Pablo Escobar?


Como é que se biografa, afinal, o gangster mais bem-sucedido de todos os tempos?

Encarar vultuosas figuras históricas traduz um nível de risco que, em muitos casos, só podemos perceber com clareza à frente no caminho. Por um lado, um registo tão marcadamente biográfico sabe contar com um nível de assimilação altíssimo, ou seja, o primeiro instinto do público é reconhecer, confiar e ver; por outro, as obrigatoriedades históricas e o alcance insano do personagem induzem-se tantas vezes tão onerosos, que é fácil cair na armadilha de fazer um grande nada. Diria que Narcos, mais um original Netflix, com a responsabilidade monstruosa de encorpar o sucesso de House of Cards, sobreviveu, para já, ao mais difícil: é um produto sério, crível e interessante. Mesmo que ainda não seja uma grande série.


E é normal que ainda não seja, ao fim da primeira temporada. A excepção é verdadeiramente o contrário. Narcos sugere ter na base um trabalho de bastidores brilhante. A nível técnico, é uma série que se esforçou por ser inatacável. Tem uma cronologia cuidadosamente velada, com timing quando escolhe descolar da História para deixar a história respirar, ou seja, ao definir os momentos-chave em que se tenta transcender interpretativamente na recriação dos episódios que nunca ninguém viu. O que acaba por ter em cuidado, planeamento arquitectónico e trabalho de casa, falta-lhe, contudo, em raça. É, pese toda a droga, toda a violência e toda a tonelagem de mortes, uma série durante demasiado tempo morna. Interessante, de facto, num plano quase intelectual, ou documental, mas emocionalmente curta. Com paixão de menos. Ainda que seja justo reconhecer que foi em crescendo. Se a primeira metade da temporada é, de facto, lisa, o desenrolar é largamente mais rentável, muito por culpa das personagens nucleares terem perdido a vergonha. Ainda não é suficiente, mas os sinais são bons.

Nesse último terço da acção, os ponteiros alinham-se, e é quando podemos beber verdadeiramente esse mundo surrealista louco da Colômbia dos anos 80, onde infectou, como uma gangrena, uma figura tão estupidamente ilimitrófe como Pablo Escobar. Conseguimos sentir as ondas de choque e chocamo-nos com o desplante e com a completa irracionalidade dimensional de tudo aquilo, o tal "realismo mágico", que serve de conceito filosofal à série, traduzindo que, naquela Colômbia, aconteciam coisas que só podiam mesmo pertencer ao Fantástico, desde os tanques pelo Parlamento adentro, aos atentados sobre aviões comerciais e a todo o quotidiano de guerra civil de um narco-Estado. Há que enaltecer, por fim, os préstimos da realização, assinada a quatro autores, com destaque inevitável para José Padilha, que define o tom inicial e reedita a parceria memorável com Wagner Moura, que valeu os Tropa de Elite. A filmagem daquela moldura latino-americana, que ele tão bem conhece, fez tudo um pouco mais realista, e essa genuinidade fica como uma das imagens de marca da temporada.


Na qualidade de fã confesso de Wagner Moura, foi com um gosto desmesurado que o vi chegar ao mercado televisivo mais importante do mundo. Uma oportunidade de luxo, com um papel de algibeira e a benção da Netflix. Nos primeiros dois terços de temporada foi todavia impossível esconder a desilusão. Constantemente preso pelos arames, o seu Escobar pareceu ter a profundidade duma folha de papel, sempre desligado, superficial, injustificado e inconsistente. Acho que esteve muito próximo de alienar a própria série, que não teria sobrevivido sem que emendasse a mão. Só quando a paranóia chega é que o tabuleiro se vira. Uma personagem que era simples, sem ser empática sob nenhum prisma (um mafioso resultadista chapa cinco, mais ambicioso do que devia, mas sempre inconsequente), torna-se finalmente no vórtex do autêntico Inferno que o rodeia. A descolagem total da mais elementar racionalidade, o descontrolo cego e a auto-destruição obsessiva varrem tudo à sua volta e imprimem-nos tamanho desconforto e imprevisibilidade que, tal como já disse, vão buscar por si próprios a segunda temporada.


O que vale para Escobar, vale para o seu contra-parte, o Agente DEA Steve Murphy, assinado por Boyd Holbrook. É ele quem reclama um protagonismo incontestado desde a partida, assumindo as próprias despesas de narração da série (essa uma excelente opção editorial). O problema é que a personagem propriamente dita foi sempre escassa... até lhe ceifarem as amarras da normalidade vigente e o tornarem abertamente desamorável. Murphy foi-se transformando, do newcomer arrumadinho, até ao agente cru e grosseiro, erodido pelo clima febril onde teve de aprender a mover-se. A sua aparente escalada de desagregação será outro dos grandes trunfos do que estiver para vir. Num elenco bastante interessante, onde salientaria Maurice Compte (um oficial incorruptível que correu enquanto lhe deram pernas) e Juan Pablo Raba (número 2 de Escobar), a personagem mais consistente a tempo inteiro terá sido Pedro Pascal, o bem conhecido Oberyn Martell, de Game of Thrones. Foi o mais carismático e o que mais rapidamente se encontrou no papel de detective experimentado, meio rock&roll, meio pragmático. No fim, acaba por ceder a ribalta para que outros pudessem brilhar, mas merece o reconhecimento.

Narcos está longe de ser uma série acabada e merece os anticorpos que enfrentará em primeira instância, nomeadamente nessa tal dificuldade em seduzir a audiência durante boa parte do tempo. Não sei de quantos merecerá o voto de confiança, mas o seu tamanho parece-me inequívoco e os indícios que deixa fazem crer um regresso de maturidade e afirmação, com algo de ainda mais escobariano na forja.

7/10

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os refugiados de espírito


"Só não poderemos tolerar a intolerância"
Karl Popper

Neste último par de dias, vi boa gente a tentar educar. A tentar argumentar e sensibilizar. Pela informação, pelo contexto, pela humanidade. A tentar colocar as coisas em perspectiva. Fazer contas, relativizar. A tentar desconstruir pelo bom-senso xenofobias inteiras. A tentar explicar coisas tão simples como que os sírios não nos vão invadir o país. Que são tão poucos, afinal, os que vêm. Os que conseguem vir, porque não morreram pelo caminho. Que aquilo que nos prestamos a fazer agora é, no fundo, não mais do que um gesto simbólico, de quem sempre virou as costas ao problema, de quem os deixou sucumbir até ser humanamente insustentável. De quem contribuiu decisivamente para lhes implodir a balança de poder e deixou meio continente ao fogo e à sua própria sorte. Não vou tentar explicar que os refugiados não nos vêm assaltar as casas. Nem fazer guerras civis no coração das nossas cidades. Que não vão criar milícias subsarianas, nem sequer roubar os nossos trabalhos. Que não vão tirar o comer da boca das nossas famílias, nem propriamente desalojar os nossos pobres. Não vou, porque tenho a minha inteligência em melhor conta do que isso. Não vou, porque se vocês precisam desse convencimento, não merecem realmente o meu tempo. O único sentido deste texto é falar de imbecilidade e para isso, felizmente, não preciso nem de teorias, nem de estatísticas. Porque se vocês olham para seres humanos que já perderam tudo, toda a pequena miséria que algum dia tiveram, que já perderam a sua réstia de esperança, o seu fiapo de dignidade e, até, os seus próprios filhos, e que se sujeitam a fugir para as nossas praias em condições muito piores que as dos piores animais, num caminho com chances espectaculares de os matar, se olham para esses seres humanos, e o vosso instinto não é imediatamente o de ajudar, e ter o dó de aliviar-lhes a dor, desejando-lhes, pelo contrário, que morram mas que não vos cansem a vista, porque não querem andar nas mesmas ruas do que eles, então não é o meu tempo que vocês não merecem. É o meu respeito.

Ontem acordei e tinha voltado à Idade Média. O exercício tem menos piada do que julgava em miúdo. Afinal há muito pouca magia em ter tanta gente à volta a pensar com séculos de atraso. A dada altura, já esperava que viessem autoridades a cavalo pedir que nos dirigíssemos para a parte amurada da cidade, e que começassem a distribuir armaduras à medida, escudos e espadas a metro, mas ainda não. O barco dos refugiados ainda não deve ter saído. Afinal há mesmo muito pouca magia em viver no nosso próprio buraco, alheios a esse mundo estrangeiro e tormentoso que há de estar lá fora, a vomitarmo-nos a medo de ódio por quem não conhecemos. Sabe-me bem ouvir que esses terroristas querem vir para cá e nem compreendem o nosso estilo de vida. Que virão, com certeza, destruir todas as nossas conquistas sociais. Não é deliciosa a ironia? Todas essas entesouradas conquistas do Estado de Bem-Estar, para o qual todos aqueles que abrem a boca teriam poeticamente contribuído zero, merda nenhuma, porque estariam muito preocupados a emparedar-se nas suas próprias casas, de trancas à porta, sequiosos de manterem cada singular privilégio que deus ou a sorte lhes deu, e que apodrecessem "os outros" à vossa porta, que com isso podiam vós bem. O Estado de Bem-Estar que não existia se fosse à vossa consideração, e o qual devem a gente infinitamente melhor do que vocês, seres humanos um bocadinho maiores, um bocadinho mais generosos, um bocadinho mais visionários e corajosos, que ousaram usar a sua condição para melhorar a vida de todos, por acreditarem que valia a pena que todos tivéssemos as mesmas condições e as mesmas oportunidades, ou que pelo menos tentássemos. Fôssemos um adulto rico na Suécia ou um velho pobre em Portugal, fôssemos até, e que o raio nos parta, no continente mais espectacularmente cosmopolita que existe, um miúdo orfão que teve o azar de nascer numa guerra na Síria. É isso o Estado de Bem-Estar, é esse o vosso estilo de vida, que só foi possível por culpa de gente que acreditava em tudo o que vocês não acreditam, gente capaz de, com tudo na mão, com tudo a seu favor, tirar a cabeça da sua própria fossa e ter um gesto de generosidade para um século a seguir, quando vocês não são capazes de, sentados em todo o vosso gorduroso conforto, na sociedade mais protegida e privilegiada da Terra, ter um gesto de generosidade no vosso dia-a-dia.

Vejo a cara dum pai migrante realmente destruído, derrubado e morto por dentro, a chorar na desolação duma praia porque não podia, porque pura e simplesmente não podia salvar a própria filha, um tipo como nós, que às vezes olhamos para os nossos e pensamos que lhes falhámos, que os desiludimos, mas numa alucinação muito mais radical, que é não ter condições para se ser pessoa de pleno direito, e dá-me nojo ouvir que eles queriam era vir para este bem bom. Gente a quem ruíram a casa, queimaram os campos e assassinaram a família, gente sem poupança, sem cama e sem sequer um maldito lugar para ainda chamarem de país. E o ridículo que é lhes darmos um tecto para dormir e um prato para comer, aos menos de 1% que conseguirem chegar, é que é o vertiginoso e intolerável abuso que eles nos querem sugar das mãos. Ou então, ver os que ao menos têm a gentileza de reconhecer que eles só vêm porque a alternativa era um tiro, uma bomba ou um afogamento, mas que logo depois se corrigem, para lembrar que eles vêm, mas que não nos respeitam. Que "ouviram dizer" que eles cospem nos cestinhos da Cruz Vermelha, porque está lá o Cristo. Que jamais vão caber aqui, que têm repulsa do que somos. Acham que é possível fugir para um lugar cujo modo de vida se abomina? Que é realmente possível desprezar um sítio que nos salva a vida? Acham realmente que isto não é tudo o que eles nunca puderam ter? A Europa vai acolher uma ínfima parte do que estão a acolher a Turquia, a Jordânia e o Líbano, todos países malditos e muçulmanos. Acham que se eles nos tivessem asco, vinham? Vocês iam? Ponham a mão na consciência. Tenham vergonha na cara.

A grande vitória do Estado Islâmico não é recrutar radicais locais, é dar de comer aos nossos terrores ignorantes, deixar fermentar um bocadinho e depois sentar-se a rir do espectáculo. Da maneira como, ligeiramente arrastados para fora das nossas zonas de conforto, começamos logo a bulir e a convulsar, capazes de sacrificar tudo e todos porque nunca nos faltou nada e, portanto, nunca tivemos de dar o valor a coisas um bocadinho maiores do que os nossos caprichos preconceituosos e do que os nossos dramas de algibeira, coisas, sei lá, como a guerra, a fome ou a vida e a morte das outras pessoas. Ver gente de 25 anos, da minha idade, que vive na maior sociedade de informação da História da Humanidade, que tem acesso a mais conhecimento num dia do que há 100 anos se tinha na vida, gente que pôde ir conhecer o mundo e que teve todas as oportunidades e que, à primeira vez em que é chamada a comportar-se como adulta, cria petições no facebook para expulsar quem ainda não chegou, é uma tragédia tão grande como a dos que fogem.

De repente, do que nos lembrámos todos é de que há muitos mendigos em Portugal e de que eles é que precisam da nossa ajuda. De que há idosos a morrer sem medicamentos, crianças a passar fome e sobeja falta de emprego. De repente, vimos a luz. Pena é que esses proféticos patriotas só a tenham visto agora. Pena minha ter de lhes dizer que, se toda essa gente infelizmente existe assim, é porque primeiro falhámos enquanto sociedade. Porque, no fundo, fomos demasiado como eles. Demasiado hipócritas, demasiado preconceituosos, demasiado egoístas. A verdade é que aqueles que se inflamam são os mesmos que não dariam uma moeda a um sem-abrigo. Ou um lanche a quem tivesse fome na cara. Os mesmos que provavelmente mudariam de passeio se vissem um árabe na rua, apesar de irem à missa todas as semanas. Não se enganem: estes arautos da Nação tratariam exactamente da mesma forma o migrante sírio e o pobre português da vossa rua. Não é uma questão de circunstância, nunca foi. Do que se trata é da maneira de estar no mundo. É da cotação que se dá à dignidade humana. As coisas devem ser simplesmente postas nesses termos: boas e más são as pessoas, não as situações. E as pessoas agem sempre da mesma maneira. O que é insuportável é estar a ver de um lado todo um argumentário sócio-económico-cultural, e do outro só a boa vontade envergonhada, que quase parece irresponsável e criminosa, de quem acha que deve fazer a coisa certa. E enquanto uns têm todas as certezas, aos outros sobram as dúvidas, porque ninguém fala por eles. Porque ninguém lhes reitera que sim, que eles é que estão certos, que pensar assim e ser assim vale a pena. Por isso é que todo o reforço é pouco. Por eles é que é importante dar a cara. Sim, pelas pessoas boas, porque há gente boa e há gente má. Há gente que presta e há gente que nunca vai contar. Hoje em dia, se quisermos conhecer o carácter dum homem, bem podemos olhar para a forma como ele trata os seus refugiados. 

O que me apeteceu escrever era que tinha vergonha de ser português. Mas não. Tenho é vergonha duns quantos de vós. Porque, com todas as falências que temos enquanto povo, se há coisa de que nos podemos orgulhar nos quatro cantos do mundo é da nossa humanidade. Portugal, o país solidário, hospitaleiro e de paz, histórica e culturalmente mestiço, que recebe sempre como se recebe em casa e que o voltará a fazer mais uma vez, o país que terá sempre nas suas pessoas o seu maior e mais nobre activo. Um país bom, conservador mas tolerante, que foi o primeiro do mundo a abolir a pena de morte, que serviu de refúgio a todos os credos na Grande Guerra, onde todas as cores aprenderam desde muito cedo a viver iguais. Um país com uma diáspora monumental, que inventou a globalização e que foi dar novos mundos ao mundo, e que sempre fez vida a viver com os outros. Um país que cultiva a esfera armilar na bandeira e no coração de todos quantos partiram em busca de uma vida melhor, de uma singela oportunidade, de um voto de confiança de quem estava bem e não tinha nada a ganhar. E que, por isso, aprendeu melhor do que ninguém a respeitar quem é diferente. Que, por isso, sempre teve o brio e o orgulho de viver à altura do respeito que lhe foi confiado. Será que os nossos justiceiros da praça pública não têm familiares emigrantes? Um ou dois há de ter. É que há 5 milhões de portugueses lá fora. Se calhar até têm todos. E se os vossos tios, primos e amigos, se porventura os vossos pais tivessem sido escorraçados e tratados como cães doentes? Qual era a diferença?

No fim, eles, os refugiados, são mais livres do que vós. Eles conseguiram fugir duma guerra. Vocês ainda não conseguiram fugir das próprias cabeças. Dessa pobreza nenhum barco vos pode levar.