quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O meu professor favorito


Ser professor é um dos trabalhos mais fascinantes do mundo.

Ser professor, saber e gostar de ser, e ser bom, é uma dádiva. O impacto dum dos verdadeiramente apaixonados, dum dos que nasceram para fazer aquilo, é espectacular. Um punhado das pessoas mais incríveis que conheci na vida contam-se até hoje entre os meus professores. E vão contar sempre. Desde casa, onde tive a sorte de crescer com uma entusiástica contadora de histórias, até ao ciclo e ao liceu, onde fui incentivado a ser abusivamente curioso e criativo, e à Faculdade, onde pude admirar uma elite palpável e inspiradora das minhas Letras, eles muito justificaram a reputação que lhes construí. Fora de casa (para mim, também em casa), os professores foram as primeiras pessoas onde nos tentámos projectar. Onde tentámos colher exemplo, génio, reforço positivo. Foram as primeiras pessoas que tentámos impressionar e ganhar o respeito. Isso, para um professor, constitui uma responsabilidade nada menos do que avassaladora. Ironicamente, aprendi com o tempo que estar à altura não nasce nem do esforço, nem da atenção, nem sequer da pedagogia. Nasce, simplesmente. Ou se tem ou não se tem. É que ser professor também é um dos trabalhos mais "democráticos" que existe. Ninguém te pode obrigar a gostar de um.

Tive bons e tive maus, como toda a gente. E também tive bons altruístas e maus que queriam muito que os adorássemos, como toda a gente. Padeci inevitavelmente com alguns. Mas uma das realizações mais presentes que tive desde miúdo era essa de que não me podiam comprar. Podiam-me dobrar e coagir, podiam-me fazer as coisas difíceis, mas não me podiam conquistar o respeito. Eu gostava de quem gostava, admirava quem admirava e, no fim do dia, isso era a única coisa que contava. No fim do ano, no fim da Academia e para o fim da vida e depois. Não é memorável quem quer. Não é memorável quem trabalha muito para ser, quem quer causar impressão, quem fica nas fotografias, nem quem pede. É memorável quem merece. Quem te conquista pelo desígnio, mais do que pela ostentação. Pela grandeza da visão e pela honestidade dos modos, mais do que pela dialéctica mediática e pela figura alegórica. Como numa eleição, quem te conquista pela seriedade, pela simplicidade e, especialmente, por não precisar disto assim tanto. Por ter surgido organicamente, num passo natural de quem acha que tem o dever de acrescentar, não numa metódica escalada de poder, sustentada por uma vida na costela nobiliárquica do sistema, sistematicamente a branquear uma incontornável parcialidade com a capa do comentarista incontaminado e incorruptível. 


Marcelo Rebelo de Sousa é um extraordinário comentador. Porque é um comunicador nato e porque a experiência acumulada já lhe descodificou todos os segredos da oratória. Marcelo parece ser interessado e consegue ser interessante. Sabe dos assuntos, puxa-te para os assuntos. É a estrela de qualquer mesa de café. A que sabe de tudo e fala de tudo e que, mesmo quando não diz nada, sobrepõe-se a quem não sabe dizer coisa nenhuma. Marcelo também será, porventura, um professor desafiante. Não é, porém, o melhor Presidente da República que podemos ter. Talvez até pudesse, de facto, ser pior, porque a aridez do deserto cavaquista é tão violentamente cáustica, que ter alguém ao menos colorido de ouvir, até já era um primeiro passo; a verdade, todavia, é que precisamos de melhor. E podemos melhor pela razão, no fundo, que está à vista de todos: porque é inconcebível achar que um Presidente da República pode ser uma pop star mediática. O Palácio da Presidência não é um reality show, nem depende de audiências. Não é uma sala de espectáculos, e felizmente já não é um Conversas em Família de outros marcelismos. Na Presidência da República não pode ser suficiente que se acredite em tudo e em coisa nenhuma. Não pode ser suficiente ser a "esquerda da direita", como se verberou com um sorriso plástico e irresponsável, como se isso quisesse dizer alguma coisa. Não pode chegar ser "o centro do centro", nem catar os ventos do este ao faroeste. Não pode ser suficiente gostar tanto de ouvir a própria voz. Muito menos chegar com os galões de quem é mais importante do que o próprio magistrado. 

Eu não quero um Presidente que presida para si. Que goste de ver e de se ouvir a si. Para isso já tivemos estes 10 anos de mortandade. Chega, por amor de deus, de egomania obsessiva. Não tenho horror a Marcelo, ninguém tem, porque até nisso ele limiou a perfeição; Marcelo mediu-se tanto, esculpiu-se tanto, dedicou-se tanto a este projecto de vida, que é tolerável até para quem não gosta dele. Risivelmente, no fundo, o que se gaba a Marcelo é o seu imbatível eclipse de personalidade, conivente com deus e com o diabo, a tirar-lhes com uma mão e a dar-lhes com outra, até hoje nem pelos votos... mas pela estima. A primeira de todas as razões para que Marcelo queira ser presidente é a vertigem de constatar que a maioria o quer a ele. A campanha incipiente que fez às escondidas, a invisibilidade confrangedora nos confrontos - própria de quem está habituado a falar sozinho -, a simplificação vomitável do discurso - vir à Madeira falar de poncha, banana e do Ronaldo é quase comovente - e o enfado em levar o acto da própria eleição a sério, com a falsa fé de que os portugueses estão cansados, em referência a uma segunda volta, de que estão fartos, portanto coroem-me-duma-vez-seus-pobres-e-acabem-com-esta-maçada, foi todo um livro aberto. Marcelo é um extraordinário comentador e é por isso que vale a pena que se mantenha como um. Por isso e porque há coisas que pura e simplesmente não se podem misturar.


Admito que Sampaio da Nóvoa era o meu candidato natural. Um homem com um currículo e um prestígio magistrais, reitor da maior Universidade do país, uma figura da Academia, empática que não mediática, capaz de conservar até agora a sua aura onde ela era mais precisa e onde mais tinha a dar: nas salas de aula e nos auditórios que podem mudar o que há para mudar. E sim, para mim conta que seja um homem fora do espectro partidário. Não professo a diabolização dos partidos e partilho de que não pode haver democracia sem eles. Que, aliás, descarná-los e descredibilizá-los é um exercício perigoso. Mas, com a mesma convicção que vejo o lugar dos partidos, defendo que não pode haver pudor nem lesa-majestade em partilhar o palco com a sociedade civil. Não acho que diminua nada, acho, pelo contrário, que os partidos o fizeram por merecer. E que esta vontade das pessoas em procurar alternativas ao modelo clássico só lhes há de fazer bem a eles. Não nego que o facto de Sampaio da Nóvoa não ser ex-presidente dum partido, ex-secretário de Estado, ex-Ministro, ex-Conselheiro e ex-quase-tudo me pese a seu favor. Mas desengane-se quem ache que cometi a irresponsabilidade de escolhê-lo por "protesto". Ele terá o meu voto porque me cativou e, mais do que isso, porque me mobilizou a estar com ele assim, sem meias palavras e sem o segredo do boletim, como já fez com muitos de vós, numa onda que nas últimas semanas tem sido impossível de menosprezar. Jamais votaria nele por acaso, porque não vota por acaso quem tem bem fresco o impacto que, afinal, mesmo no nosso sistema político, um Presidente pode ter; e eu sou da geração que se fez adulta com o Presidente do qual a nossa Democracia mais se pode envergonhar. Posso estar errado em muitas coisas, mas pelo menos sei dar o valor.

Com Sampaio da Nóvoa voltaremos a olhar com respeito e reverência para a Instituição Presidência. Voltaremos a ter em Belém um referencial ético, sério e intelectual, um "soldado raso", mas para o qual poderemos olhar com um bocadinho de orgulho. E isso para mim é quase tudo. Um homem que não governará, estou certo, nem para as manchetes, nem para os grupos de interesse, um homem que não viverá no culto da imagem e da moda porque, afinal, nunca viveu. Um homem que não precisou de uma carreira política para que a sociedade civil o tenha em consideração para uma. Acho que esse é o maior elogio que se pode fazer a um Presidente. Um pensador, um homem da Academia, dos jovens e do futuro, lá onde pensar custa mais e paga pior, um homem da matriz de causas, liberdades e valores da Esquerda, que hoje me permite dizer que lhe confio singelamente o meu país, depois do cocktail incendiário de neoliberalismo económico e conservadorismo democrata-cristão que nos arrebanhou a todos. Um homem que subsistiu mesmo a lançar-se aos leões antes de todos os outros, e não com uma caderneta de garantias como o seu estimável adversário, um homem que perdeu o apoio do PS e do Bloco por falta de coragem política e pela feira de vaidades que perora por esses lados, e que mesmo assim não desarmou, porque achou que o resto valia a pena. Um homem que ridicularizaram por ser um "candidato messiânico", só porque cometeu a loucura de querer inspirar as pessoas e conduzi-las a um destino comum, nivelando a campanha por cima, em vez de andar a falar de poncha, de banana e do Ronaldo.

Acredito que Sampaio da Nóvoa pode mesmo ganhar e para isso tem de existir uma segunda volta. E acho que a melhor coisa que nos podia acontecer era uma segunda volta porque, ao contrário do que acha Marcelo, as eleições não são uma chatice. Pelo menos para quem se bate por alguma coisa. Uma segunda volta eliminaria o ruído. Dividiria as águas. Esclareceria as pessoas. Numa segunda volta, só se engana quem quer. As cartas são cruas e vão todas à mesa. Numa segunda volta, toda a gente teria de escolher um lado. E escolher lados, ao contrário do que acha Marcelo, é bom, porque traz responsabilidade à eleição. Numa segunda volta não chega parecer, não chega contar com as probabilidades, nem virar a ampulheta e esperar que o tempo passe. Não chega não arriscar. É por isso que Marcelo tem tanto medo de uma. É por isso que todos quantos estão divididos, que todos quantos não embarcaram na romaria que o horário nobre do país vende há tantos anos, devem fazê-la acontecer. Quanto mais não seja porque o que está em causa é um cargo de responsabilidade e de nervos, e ninguém, em boa fé, pode defender que a melhor forma de o principiar, é evitando a ambos. Quem tem medo de ir a jogo deve sempre alguma coisa. E, infelizmente, a Presidência da República não se pode coadunar com eleitos providenciais, nem com vencedores por decreto, nem pode alguma vez ser "fácil"; a Presidência tem que ser algo a ganhar, não a aposta viciada de quem tem tudo a perder. Na mão de cada um de nós, e só na nossa mão, está o dever de garantir que aquilo que se glorifica é o cargo, não os homens.


Marcelo seria sempre o professor mais famoso da escola. O que usa muito aparato e dá muito espectáculo, aquele que a dada altura gostávamos muito que se lembrasse do nosso nome... até percebermos que, no fundo, ele só fala de si e que aquele concurso de popularidade já não nos diz nada. Nóvoa é o professor que, no momento em que formos embora, vamos perceber tudo o que nos ensinou. Aquele que vamos cumprimentar na rua anos depois, lembrar os episódios grandificantes de contágio e esperança e ficarmos gratos por nos termos cruzado. Daqui a dez anos, espero olhar para Belém e ver o tipo improvável que me inspirou, e que inspirou o país a ser um bocadinho mais país. Não um espectáculo de televisão.

Daqui a dez anos, espero ter mais um professor favorito para contar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Star Wars, episode VII. A Força esteve connosco


Como é que se encapsula 40 anos de magia num regresso?

É complicado saber por onde começar quando está em causa o filme mais esperado da década. Com a Guerra das Estrelas foi sempre assim: a vertigem do próximo capítulo, do próximo fim, do próximo regresso. Em cada um desses dias, em cada um desses anos, foram eles o filme mais esperado do mundo. A nossa História cultural contemporânea teve a sorte de assistir a sagas tão monumentais como as melhores de todos os tempos, que inundaram de fascínio cada bocado da nossa imaginação colectiva e desenharam muito daquilo que sonhamos hoje; nenhuma outra, contudo, se poderá gabar de tamanha plenitude e transversalidade e, sobretudo, de tamanha vitória sobre o teste do tempo. A Guerra das Estrelas é a saga mais aceite e mais comercial, a mais acarinhada e a mais antiga. É a língua e o espelho não de uma geração, mas de todo um entendimento do que é a nossa sétima arte comum, imperecível, una e majestaticamente fascinante.


A 25 de Maio de 1977, o meu pai tinha 17 anos. Esta devia ser a história dele; na quinta-feira à noite, contudo, sentado na estreia mundial, com literalmente milhões e milhões de pessoas ao mesmo tempo, não havia ali nada que me pudessem tirar. O cinema será sempre o primado das grandes histórias, mas o cinema não seria cinema sem a experiência. Sem aquela mobilização, sem a propensão de ir viver a energia que vai muito, muito além de tudo o que se expele na tela. Ter passado as últimas semanas na expectativa, os últimos dias a namorar trailers e artigos, o dia da estreia com a obsessão da recompensa, reservar os bilhetes, seguir em romaria e depois sorver reverentemente, quase grato de respeito, cena sobre cena, deslumbrado com os pequenos regressos a casa, com aquele reconhecimento tácito que nos diz que somos todos parte do mesmo, é algo de genuinamente maravilhoso, que qualquer apaixonado por cinema, mais do que fã, não pode em consciência recusar-se a viver. Achando-se o que se quiser do frenesim ou do mérito da história, ver uma Guerra das Estrelas nestes termos é uma coisa que só acontece um punhado de vezes na vida.


Acho que já é líquido por esta altura que me é difícil separar o que é o filme, daquilo que representa a saga. Mesmo admitindo orgulhosamente toda a minha parcialidade, é com uma certa comoção que digo que foi... muito bom. E dizê-lo é tão catártico como tê-lo visto. É evidente que a Guerra das Estrelas não poderá jamais voltar a ser o sopro de futuro impossível que foi naquele ocaso dos anos 70, ou voltar a ter aquela magnitude refundadora do realizador ao argumento, do admirável mundo novo visual até às avenidas de criatividade absolutamente sem limites e sem termo de comparação, que chocaram aquela era. Mas é com honesta felicidade que sublinho que JJ Abrams foi o homem certo no lugar certo. O fardo era dum peso bestial, o negócio tinha chances desfavoráveis e todo o novelo era, afinal, assombrado pelo falhanço de casting com que todo o planeta recebera em agonia The Phantom Menace, em 1999. O pai de Lost, o reinventor de Star Trek o que faz é um abraço do tamanho da galáxia a toda aquela excepcional universalidade, um abraço de fã, com o entusiasmo e o gosto de quem está num gigantesco e infindável parque de diversões, deliciado com cada sequência, comprometido com cada viagem, emocionado com cada reencontro.


The Force Awakens é um filme tecnicamente inatacável e monumental. 2h15 de pleno gosto, onde tudo se derrama na medida certa, sem exagero mesmo no que é exagerado, sem poupança mesmo no que é poupado, de excelência sob qualquer prisma, um filme ao qual, visualmente, não há nada a acrescentar. JJ Abrams viveu à altura da reputação e pôs na rua um show atraente mesmo para quem não tiver nada a ver com isto, um filme com vida própria, capaz de mostrar aos novos de hoje de que é que são feitas aquelas estrelas. Essa capacidade de sedução é o inevitável cartão de visita para quem for espreitar as perniciosidades da história. E aqui chegamos ao guião, que fora o aspecto mais frágil das prequelas e aquele que marcaria o grau de sustento de todo o novo empreendimento. Se é certo que a espinha dorsal da narrativa não puxa de nenhum ás de trunfo, acho que a maior parte das pessoas também concordará que o argumento excedeu as expectativas. Com uma ligação carnal à narrativa-mãe, patente em quase todas as esquinas, o desvelar da acção consegue aguentar-se nos próprios pés até ao fim e resistir a quaisquer suspiros desiludidos que o quisessem diminuir. Os novos segredos aguentam-se, seduzem-nos, sabem temporizar-se - alguns deles mantêm-se segredos -, e têm uma singular chave de ouro: as personagens.


The Force Awakens devolve a Guerra das Estrelas às personagens, numa dicotomia entre legado e pujança, entre os galões dos velhos e a vitalidade dos novos, e é de encher a alma. A cena do regresso da Han Solo à sua Millenium Falcon, 32 anos depois! de Return of the Jedi, é um nó cego na garganta. O momento em que a pisa novamente, com o seu inseparável Chewbacca, mas ainda depois disso, os segundos em que se deixa estar a balbuciar na cabine, com os olhos a brilhar, como se tivesse esperado por isso em todo e cada um dos dias em que estiveram distantes, seria suficiente para querer fazer isto tudo outra vez. Harrison Ford é, de resto, a figura nevrálgica e verdadeiramente patriarcal do filme, ao que responde com total compromisso e espírito, com uma genuinidade que não encontra esforço. Disse-se, na antecâmara, que este era o filme que lhe tinha recuperado a alegria de actuar e o seu carácter de estrela pop, e é impossível contestá-lo. Solo viveria sempre por si enquanto personagem mas, pese todo o legado, é uma interpretação reverencial da parte de Ford.


Finalmente, o ponto alto: se o Episódio VII tem uma estrela que brilha acima das outras, essa tem 23 anos, olhos verdes e nasceu em Londres. Daisy Ridley é um avassalador acerto de cast, uma gema preciosa descoberta numa galáxia muito muito distante que, mal é desempoeirada, se põe a luzir de uma forma quase desarmante. Já li sobre ela que é a personagem feminina melhor formada e mais bem maturada de sempre em Star Wars, mas diria mais, diria que é uma das mulheres de maior poder e potencial que vi nos últimos anos. Ridley é uma força da natureza. É terrivelmente realista. Corajosa e abnegada sem ser necessariamente heróica, vulnerável sem ser superficial mas, antes, empática e cativante. Gosta-se logo dela, quer-se que as coisas lhe corram bem e anseia-se que viva à altura do seu destino que, por ora, parece gloriosamente grande. Investir sem pejo numa figura feminina para o núcleo da acção era só uma excelente ideia à espera de o ser, e foi-o na plenitude. De entre os novos, John Boyega - com uma falibilidade honesta que nos conquista - e Oscar Isaac - com o glamour da juventude de Han Solo - saem na mó de cima, como também sai o adorável boneco de Lupita Nyong'o. Adam Driver, numa das personagens-chave, é porventura quem mais fica a dever ao papel.


As contas deste Force Awakens eram, no fundo, muito simples: ou acertava de pleno direito ou falhava a todo o vigor. Ganhou. Mais do que isso, ganhou a jogar bem. Confiamos e fomos recompensados porque sim, é o melhor em mais de 30 anos, sim, é o filme pelo qual estávamos à espera e, depois, um pouco mais. Quinta-feira foi uma noite bonita.

8/10

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Bridge of Spies. Um bom filme dispensável


Parece-me pacífico dizer que, nos dias que correm, se queres fazer um filme sobre espionagem, ou mais, sobre a Guerra Fria, tens de ter realmente alguma coisa para contar. O tema já foi tão violentamente esgotado que, pese a mística intemporal e tangível, é preciso ter algum segredo na manga, alguma manha pronta a ofertar quando chegar a hora. Bridge of Spies, infelizmente, é uma ponte de sentido só. Começa-se a andar, é-se imperturbado e chega-se exactamente aonde se estava à espera chegar. Até pode ser uma ponte, mas tem muito pouco de espionável, porque é incapaz de seduzir-nos o suficiente. Não é, de facto, um filme mau ou sequer vulgar, ainda que o argumento seja perfeitamente enxuto, na reconstituição histórica duma troca de prisioneiros de guerra entre Estados Unidos e União Soviética, em 1960; é, no fim de contas, bem arrumado e simpático, mas é o arquétipo de um filme desnecessário, que acrescenta pouco ou quase nada e que não pede que se pague um bilhete.

Isto tem tanto mais peso pela contextualização que vale a pena fazer. Bridge of Spies afigurava-se, afinal, como um dos pesos pesados do ano, realizado por Spielberg, escrito pelos Coen e protagonizado pelo reverendíssimo Tom Hanks. Do leque, só mesmo o último soube estar à altura. Na linha do que escrevi acima, o argumento é francamente linear. Parte dos factos verídicos, mas é quase invisível para além disso: não tem rasgo, não tem cenas fortes, não é emocionalmente exigente para os protagonistas e não plasma, sequer, nada do que notabilizou os Coen, seja a perversão, o tipo de humor, o negrume ou o carácter cáustico, desafiante e cru. É um filme muito liso, muito morno, como se com isso quisesse perpassar alguma tensão... mas sem nunca o conseguir. Tem uma única cena contagiante, na honestidade do regresso a casa, que lhe marca o desfecho. Fica por aí.

A maior desilusão é, contudo, Spielberg. Num projecto realmente à sua imagem, com aquele toque imperial que lhe assenta tão bem, o seu apagamento é inexplicável. Bridge of Spies não é de todo atraente a nível visual. É um filme que parece irrelevado ou quase ignorado, e deixado a fazer sozinho. Aquela vida em permanente lusco-fusco, tão cara ao espectro da Guerra Fria, nunca é interrompida por nenhuma injecção de charme, por nenhum lance de inspiração. É uma contínua película uníssona, na mesma frequência e no mesmo tom, como um monitor de actividade cardíaca que já morreu. Três anos depois do excelente Lincoln, o velho mestre volta assim a cair no nevoeiro que lhe marcou a última década, e onde se contam filmes tão infelizes como o último Indiana Jones, Tintin ou War Horse

A boa notícia é, como quase sempre, Tom Hanks. O maior bonacheirão de Hollywood é o pilar do filme e aguenta-o uma e outra vez à base de fôlego, mascarando as ditas falências com base no facto essencial de gostarmos dele. Note-se que está longe de ser uma performance laureável, nada que se compare, por exemplo, à monumentalidade encontrada em Captain Phillips (2013), mas, num filme diminuído a vários níveis, Hanks sabe como levar as pessoas e empresta à acção a humanidade e a empatia que a história não demonstrou ser capaz de dar. Mark Rylance, nas roupas de espião soviético, acabou por ser a boa surpresa. Num papel que pareceu por ora demasiadamente calculado, no estatuto adquirido de espião que nunca o recusou ser, Rylance veio afinal, e na linha da sua própria personagem, roubar-nos respeito pela sua dignidade, temperança e dedicação. Um papel estilizado e peculiar que acabou por lhe valer a surpreendente nomeação para Melhor Actor Secundário nos Globos de Ouro.

Ver Bridge of Spies não é penoso, mas está longe de ser contagiante e é inevitável assumir a desilusão com um produto ao qual era obrigatório exigir mais. Com determinado nível-base e com boas personagens, limitar-se-á a passar à História como um bom filme de domingo à tarde.

6/10

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

In the Heart of the Sea. Há histórias que não sabem falhar


A ambição era refazer um filme sobre nada menos do que Moby Dick. 100 milhões de dólares de orçamento, Ron Howard nas rédeas (Cinderella Man, A Beautiful Mind, Frost/Nixon, Rush...) e um elenco cravejado de estrelas para todos os papéis, do poster boy Chris Hemsworth a estrelas emergentes como Ben Whishaw (o "Q" dos novos Bond), de certezas absolutas como Cillian Murphy a instituições unipessoais como Brendan Gleeson. In the Heart of the Sea era um daqueles filmes aos quais se passa um cheque em branco, um daqueles que escolheu quase tudo de olhos fechados... e que, no fim, era suposto render verdadeiramente pouco. Um daqueles blockbusters onde esperamos, tão só, ter a sorte de encontrar alguma vertigem e alguma catarse. Este, contudo, foi demasiado bem escolhido para o seu próprio destino. Com uma odisseia intemporal americana trabalhada a tantas boas mãos, dobraram-se as tormentosas probabilidades e o que temos, afinal, é um certo fascínio a espreitar a vários níveis.

In the Heart of the Sea não parte directamente da maior de todas as obras de Herman Melville, mas do livro bem mais recente (National Book Award for Nonfiction, em 2000) de Nathaniel Philbrick, sobre os factos verídicos que motivaram o histórico naufrágio do baleeiro Essex, em 1820, no coração do Pacífico, e que viriam a render a magnânima epopeia da baleia gigante e dos náufragos de 90 dias, imortalizada em Moby Dick. O grande acerto do filme, aquele que define o seu sucesso, parte sobremaneira disso: In the Heart of the Sea é verdadeiramente genuíno, porque conserva muito perto de si esses "factos verídicos" e a mística das transcendentais histórias de mar, de gigantismo, mito e sobrevivência. Alimenta-nos com isso, faz-nos crer, envolve-nos e sabe-nos contar uma história, pelo destrinçar do argumento, sim, mas, mais ainda, pelo contexto, pelo ambiente e pela felicidade ao romantizá-los, desde aquela chegada de Melville a Nantucket - o maior porto baleeiro do mundo no século XIX - para entrevistar a uma madrugada o último sobrevivente, com uma garrafa de whisky e um dose ainda maior de expiação. É um filme onde gostamos de estar, que desperta a criança curiosa, fascinada e impressionável que temos no coração, e é um filme bonito, por ter esse jeito em trazer-nos um clássico, quando era muito fácil desperdiçar-se completamente num vácuo de espectacularidades bacocas e efeitos especiais.

O filme é cativante, ainda que seja inevitável reconhecer que não estamos na presença de nada supremo ou refundador. É uma obra que essencialmente se acarinha, como boa história e património histórico, não quiçá reflexiva ou fabular, como encontramos, por exemplo, em Life of Pi, num filme da mesma água. Isso, no entanto, não lhe retira o mérito. A adaptação de argumento ficou a cargo de Charles Leavitt (autor do incrível Blood Diamond) e, se às vezes falta algum tacto a temporizar a acção, lá está, a dar-nos mais tempo para pensar, o que era verdadeiramente essencial, ou seja, o exercício de fascínio, ainda para mais num projecto deste tamanho, foi conseguido com distinção. In the Heart of the Sea não só não era um "filme de realizador", como a realização movia-se, aliás, num abismo perigoso, pela propensão em exagerar e se perder. Nesse campo, este estará longe de ser um dos melhores filmes da carteira insultuosamente luxuosa de Ron Howard, mas o oscarizado americano protege-o ou, por outra, evita que o estraguem. Existem ocasionais sequências demasiado artificiais e são patentes os sucessivos cenários de laboratório, mas o filme é bem mais púdico do que aquilo que se poderia esperar e essa é outra das suas vitórias.

Costumo ser bastante preconceituoso quanto a elencos de luxo, sobretudo se se destinarem a filmes deste tipo. Este tratou-se, porém, de mais uma saudosa excepção. Chris Hemsworth, com quem simpatizo, continua a construir uma carreira comercial relevante e abraça o lead com uma franqueza e uma empatia que lhe começam a ser imagem de marca. Cillian Murphy é o trunfo que queres sempre ter a teu lado. E, por fim, um filme com Brendan Gleeson tem como que uma responsabilidade moral de ser bom. O seu papel cirúrgico de último sobrevivente do Essex impinge de carácter tudo o resto e dá-lhe o peso dos grandes épicos. Tenho para mim que, quando se principiou a produção de In the Heart of the Sea, não havia sequer a ambição de fazer algo tão narrativamente envolvente e, quiçá, carismático. O feliz resultado é um dos bons filmes do ano e uma oportunidade generosa para mergulhar num das grandes histórias do nosso ideário contemporâneo.

7/10

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Steve Jobs. Conceptual, poderoso, viciante



Steve Jobs não é o homem mais importante do filme. É irónico, no filme sobre a sua vida, mas o mérito de um dos musts do ano é mesmo de quem o escreveu.

Normalmente, idolatram-se actores ou realizadores. Idolatra-se quem aparece nas fotografias, quem dá as entrevistas, aqueles, no fundo, de quem se vê o trabalho. É difícil idolatrar os heróis não cantados. Ao pensar nisto, lembro-me sempre do meu velho John Spencer que, ao receber o primeiro Emmy da carreira, aos 56 anos, se dirigiu ao seu argumentista para dizer:
"I serve at the genius and the art of Aaron Sorkin, one of the great writers of all time. An actor is only as good as the material he gets; and we were given gold week after week after week. I don’t know how he does it."

A série era West Wing - Os Homens do Presidente. Aaron Sorkin, pois claro, o seu pai criador. Uma e outro são, até hoje, os melhores que já vi. Sorkin tornou-se, para mim, uma figura de culto. Um monstro sagrado dos guiões, o maior de todos. Capaz de idealizar o que mais ninguém escrevia, com a cadência que mais ninguém imprimia. Para quem escreve umas coisas, para quem sonha escrever mais e melhor, para que consome cinema e televisão, Sorkin foi um deus. Um iluminado filosofal, da forma e do conteúdo. As primeiras quatro temporadas de West Wing, após as quais abandonou a sua própria criação, são património da Humanidade. O mestre contudo, assombrado como os maiores, com problemas graves de toxicodependência, não voltou depois a atingir semelhante Panteão, ainda que todos os seguidores tenham continuado a deslumbrar-se a episódios, como ao ver as fintas de um velho craque nos anos de ocaso, em Studio 60, Newsroom ou, em cinema, ainda com Moneyball. Este texto não seria suficiente para exprimir toda a admiração que tenho por Aaron Sorkin. Ainda assim, não ousei apostar tudo neste Jobs.

Por ironia do universo, Sorkin ganhou o Óscar que lhe estava no destino, infelizmente, e como acontece tantas vezes, quando não o merecia. Quase num insulto honorário ao seu próprio génio, com um dos seus trabalhos mais vulgares. The Social Network (2010) foi um filme tarefeiro, desencantado e inevitável. Um filme para ganhar dinheiro, que alguém tinha de fazer. Um filme sem um pingo de alma, que lhe rendeu um Óscar de secretaria, logo a ele, que nunca precisaria de um. O meu medo em relação a Steve Jobs era, por isso, incontornável. Era que fosse o próximo filme de artifício, sobre uma figura pop da cultura tech, era a ameaça de ser mais um prego sombrio no vulto dum vanguardista. Não foi. Steve Jobs é, na verdade, o grande trabalho de Aaron Sorkin desde o adeus à Ala Oeste da Casa Branca. Isso quer dizer que é muito, muito bom.


Por mais evidentemente suspeito que seja para falar, este é o arquétipo de um filme de argumentista. Um filme em que o guião é a jóia da coroa, aquilo que o enche de vida e o faz pulsar, tão bom que perpassa a óptima câmara e as boas interpretações. Ali, ao fim do primeiro quarto-de-hora, o texto já ganhou. Já nos bateu de frente, dobrou e convenceu, a um ritmo tão electrizante, tanto à imagem do seu autor, que tudo o que temos a fazer é agarrar-nos à cadeira e sobreviver à viagem. Jobs é como um filme de acção, mas em diálogos. Esse sempre foi o mais pleno de todos os super-poderes de Sorkin. As conversas relampejantes, cortadas em monólogos, aceleradas em andamento, de porta em porta, de sala para sala, com o mundo a rumorar à volta, o "walk and talk" e o "smart and funny" que fizeram de West Wing um produto gravosamente profundo e, ainda assim, magnanimamente cool.


Jobs é um filme em três actos, que biografa o Da Vinci dos computadores decantando-o nos bastidores de três das suas apresentações mais emblemáticas - Macintosh, NeXT Black Cube e iMac -, num espaço de 14 anos (1984-1998). E é tão brilhante na forma como no feitio. Falhar uma biografia é, de resto, muito fácil. Ser redundante e desinteressante e não conseguir, afinal, reinventar a roda. Neste caso, o formato do filme foi metade da vitória. Uma moldura inortodoxa, porque imprevisível, capaz de desmanchar criativamente algo que era normal não se saber por onde pegar. Como seria natural, é também o filme de um homem só. Não é lírico, como não era suposto que fosse, nem simpático, nem inspirador, como é parte substancial da obra de Sorkin. É, pelo contrário, provocador e subversivo, impingindo uma personalidade fortíssima, quase limite, à sua figura nevrálgica. Este Steve Jobs é um vulcão que nos hipnotiza pelos seus modos, pela sua energia e pela sua intensidade, e do qual não podemos simplesmente desligar, num análogo síndrome de Estocolmo, que nos faz intolerar toda a sua arrogância e, ainda assim, não conseguir abstrair-nos da sua aura atordoante. É poder em estado puro.


Na sua terceira chamada aos Óscares, depois de Slumdog Millionaire (2008) e 127 Hours (2010), Danny Boyle apresenta-nos o seu trabalho mais grandioso. O britânico tende a ser um realizador que deixa os filmes respirarem bastante pela sua teia de ideias, puxando-se a um segundo plano, alguém que se evidencia mais pelas suas escolhas temáticas, do que pela sua técnica. Como em tudo o resto aqui, porém, o argumento de Sorkin transforma-o para melhor. Pede-lhe atenção e reacção, pede-lhe que esteja à altura e que, qual maratonista-guia, corra com a câmara ao mesmo ritmo de tudo o que lhe escreveram. O resultado é de alto nível e a realização é outro ás do filme, porque de excelência. Toda a cena ressurgida do despedimento de Jobs da Apple, desde a conversa num átrio deserto dum coliseu à memória da sala de reuniões fatídica, a combustão, a escalada, o corte de planos e as aberturas, tudo é material de uma majestade palpável, que eleva o filme a um plano olímpico e lhe dá a altitude dos Óscares.


Uma biografia não se poderia ter feito sem o protagonista, como é óbvio. Fassbender deu o litro e foi essa figura-chave... ainda que este não seja um filme das interpretações. Sou um fã confesso do germano-irlandês, e muito me bati por um Óscar há dois anos (12 Years of Slave), pelo que tenho a consciência tranquila ao dizer que a sua performance é boa para o filme, mas não é assim tão boa para ele. O papel é imaculado, consistente, inerentemente competente em tudo o que lhe poderiam pedir. Tem costas para aguentar o peso, incorpora uma imagem de marca e Sorkin será, hoje, um treinador orgulhoso. Todavia, no final, gabamos o ritmo, o poder e a não linearidade do retrato... mas não temos ali um papel da nossa vida. Infelizmente, faltou aquele momento, aquela "extra mile". Jeff Daniels, que não adoro, cresce com o filme, Kate Winslet, sem demasiado espaço, é equilibrada a tempo inteiro e Michael Stuhlbarg assenta bem, ao passo que Seth Rogen é mau, como sempre, e Katherine Waterston (a ex-namorada) é invisível. O traço mais forte do cast, à parte Fassbender, é a sua filha... representada sucessivamente, e sempre bem, por três actrizes diferentes, dos 5 aos 19 anos. A perturbadíssima relação paternal entre ambos, um terreno querido de Sorkin, acaba por ser o ovo da Páscoa do filme. Não o vemos de imediato, tão a ferros e tão desamorável mas, ao fim e ao cabo, consegue ser tão dolorosamente impactante, e até tragicamente bonito, nos seus diversos laços, até ao diálogo final.


Steve Jobs é evidentemente um dos filmes do ano. Um emocionante regresso à elite de um dos maiores guionistas de sempre, um incinerante retrato de uma das personalidades mais singulares da História Contemporânea, um filme conceptual, poderoso e perfeitamente viciante.

8/10

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

007 Spectre. O filme que ninguém queria fazer


Os Bond de Daniel Craig têm um antes e um depois.

Diz-se isto porventura mais do que era devido mas, em 2006, o que fez Casino Royale foi romper com um paradigma vencedor de 40 anos: o do agente galã por si só, subversor de qualquer narrativa com a mesma facilidade com que virava copos de martini e amassava as mulheres mais bonitas do mundo. Sempre fora por isso que as pessoas seguiam a filmografia do agente dos agentes: pelo glamour, pela catarse despreocupada, pela desconstrução conspirativa sem levar nada demasiado a sério. Casino Royale, realizado por Martin Campbell, e co-escrito pelo trunfo Paul Haggis (argumentista dos dois vencedores de Óscar anteriores, Million Dollar Baby e Crash...), não foi só um filme ambicioso. Foi um marco refundador do que podiam ser os Bond e todo o género espionagem por arrasto, à semelhança do que foram os Batman de Nolan para os super-heróis. Uma porta escancarada para o melhor drama e, com isso, para o quebrar da barreira entre o que era um filme de entretenimento e o que podia ser um filme de elite, "sem género".


Como qualquer operação tamanhamente basilar, nada disto se faz de uma só vez. É por isso que Quantum of Solace, dois anos depois, foi um filme perdido, inócuo e emparedado num propósito que o excedia largamente. Se o atentarmos, porém, como meio para chegar a um fim, a valia está lá. Afinal, é a partir desse desconto de tempo que se constrói o melhor Bond de sempre. Skyfall teve o melhor realizador e a melhor realização. A melhor fotografia, o melhor vilão e a narrativa mais encarnecidamente pessoal. Sam Mendes, o primeiro oscarizado a dirigir a saga, varreu do avesso todas as convenções, John Logan, o reforço de luxo no argumento (Gladiator, The Last Samurai, The Aviator), tornou tudo demasiado fácil. Skyfall, o primeiro Bond a passar a fasquia dos mil milhões, Óscar até de melhor música original, foi afinal, e como se comprovou agora, a medida impossível de suceder.


O lançamento de Spectre ficou marcado por uma série de episódios muito pouco amoráveis, muito alheios àquele rastro cósmico que costuma envolver todo o lançamento Bond numa gigante passadeira vermelha. Desde logo, o aparente enfado de Sam Mendes em repetir a experiência, ele que a recusou em primeira instância e só lá foi com um dedicado convencimento dos seus pares; depois, e muito mais pronunciadamente, o asco do próprio Daniel Craig, que passou a temporada promocional a falar do quanto estava farto da saga e do quanto a queria ver pelas costas. Depois de visto, se há percepção que transpira do filme de uma forma cristalina é essa: ninguém o queria realmente fazer. Spectre é a ressaca de Skyfall. Um filme à força, uma cláusula de contrato, um tarefismo de serviços mínimos. A falta de comprometimento com aquilo, de tudo e de todos, chega a ser desconfortável.


Daniel Craig assina, sem grandes subterfúgios, a sua pior performance no papel. Completamente apagado, como um jogador que vem de uma época de luxo e que já não encontra motivação para começar tudo outra vez. Craig está cansado e é cansativo, está sempre distante (até com as contra-partes femininas) e, desta vez, a rudeza da sua cara e dos seus modos não respira rigorosamente para além disso. Léa Seydoux confirmou, a seu turno, todas as reticências que havia quanto à sua escolha e fica a léguas de deixar qualquer marca, como uma das Bond girls mais transparentes de sempre. O argumento, e novamente com John Logan a bordo, é tão primário que chega a ser constrangedor. Spectre deveria representar, alegadamente e à luz da História, um momento estruturante na linha da acção, com o vilão maior, a Bond girl mais perene e a organização arqui-inimiga por excelência; o que vemos, pelo contrário, é uma amálgama de meias-ideias todas superficiais e miseravelmente mal concretizadas, coladas umas às outras com a mesma coesão de quem empilharia fascículos de Ian Fleming num canto da sala. A escala de subrendimento, porém, ainda piora.


Depois do maior showdown da série, Sam Mendes entrega porventura o filme mais modesto da sua carreira, um que, quanto muito, parece ter revisto por alto, enquanto fazia outras coisas a sério. Nem deu para disfarçar. Visual e cenograficamente é sempre pobre, não havendo uma única cena que fique na memória. As sequências de acção, por sua vez, só fizeram pior a emenda do que o soneto, de cada vez que tentaram "arriscar". Sobra, por fim, o maior de todos os pecados. Não teria existido rigorosamente ninguém mais capaz à face da Terra para interpretar a némesis de Bond, o notório Ernst Stavro Blofel. Christoph Waltz era o homem certo no lugar certo, uma felicidade inevitável à espera de acontecer. O seu desaproveitamento quase integral, quase insultuoso, será lembrado como um indesculpável falhanço histórico. Escreveram-lhe um papel minúsculo e escreveram-no a correr. Escreveram-no sem um único traço, um único twist, um único golpe de sorte. O deserto de cena no laboratório do deserto de Tânger, aquele espectacular punhado de nada, resume tudo isso de forma muito mais cruel do que eu o poderia fazer.


Spectre é um filme quanto muito suficiente para consumo, mau se entrarmos em qualquer parâmetro de comparação. Vale pela marca, pela boa notícia que é Andrew Scott (o excepcional Moriarty de Sherlock) e pela última frame de Monica Bellucci, um sopro divino que há muito merecia inscrever este currículo. De resto, é um filme inconsequente, pouco pensado e pior executado, que faria recuar a franchise pelo menos uma década, em termos de ideário. Faria, se fosse para levar a sério. Não é.

5/10

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Olive Kitteridge, minisérie. A ficção também é demasiado real


Olive Kitteridge podia vir com o rótulo de não aconselhada a públicos demasiado impressionáveis. A vida, no fundo, também. Ser uma minisérie acaba por ser apenas a cápsula através da qual nos é contada uma história que é real. A toda a largura, é isso mesmo: uma série crua, sem embalo, nem contemplações, sem rede, nem lições de moral. É realmente triste e realmente dura, agredindo-nos por não estarmos habituados a que nos falem assim, e não é, por isso, uma série com a qual seja fácil criar empatia. Na maior parte do tempo, o que nos resta mesmo é ficar introvertidos e a desconfiar, até nos darmos conta de que, na sua forma desiludida, tudo aquilo é afinal demasiado genuíno. No fim, criamos o élan, não porque ela chegue a ser nalgum momento agradável, mas porque não podemos evitar compadecer-nos do carácter das personagens e dos seus episódicos momentos de humanidade, que nos deixam respeitosamente reverentes e desarmados.


A minha cena favorita é uma em que o brilhante Richard Jenkins, num qualquer dia vulgar de reforma, vê no supermercado um cartão dedicável à sua mulher, sendo ela totalmente alheia a esse tipo de demonstrações de carinho. Ainda assim, compra-o na mesma, e oferece-o na mesma com flores... para receber a exacta reacção que seria de esperar. Ele fica bem com isso, no entanto. Mais, fica genuinamente contente, de olhos a brilhar, só porque lhe disse uma vez mais que a amava, e porque dizer isso era maior e mais importante que qualquer reacção que ele pudesse ter de volta. Porque ele não o fazia pela recompensa, fazia-o somente porque para ele era importante dizer, e isso era em si completo, era o princípio e o fim. O privilégio de poder amá-la era dele. O resto não interessava realmente. A cena é majestosa por ser tão simples, por ser praticamente impossível de emular, e de ter inventado ou escrito num guião. Tão desencantada, tão pouco lírica e tão naturalmente bonita por causa disso.


Olive Kitteridge é uma obra original de Elizabeth Strout, vencedora dum Pulitzer em 2009, e adaptada para televisão por Jane Anderson, uma dupla vencedora de Emmy e do Writers Guild of America. Narra 25 anos na vida de uma mulher de meia idade, numa pequena cidade do Nordeste americano, uma mulher austera e de tendência depressiva, e todas as suas relações pessoais e familiares. Não é, garantidamente, uma série para todos os públicos e, mais do que isso, para todos os estados de espírito. Apesar de curta, como a própria tipologia indica (4 partes de 1 hora), é um produto para ver com tempo e com paciência. É uma série para "querer ver", já que, na minha óptica, o primeiro impacto estará longe do amor à primeira vista. Tal como admito que, mesmo quem vir de fio a pavio, pode perfeitamente lidar mal com o seu desamor, com a cara fechada e as parcas exaltações. É uma questão de estilo e de subtexto, às vezes de um momento ou de mero clique, ainda que não seja mesmo uma série que vá falar a toda a gente. No meu caso, não passa à História como inesquecível, e diria que porventura nunca teve essa ambição, mas deixa-me, sim, como respeitoso admirador. Essencialmente em dois planos que, sem prejuízo para outros, como a fotografia (a série tem palco no envolvente e melancólico Maine, o Estado mais a nordeste dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá), me parecem claramente de excepção: a lucidez e a crueza da adaptação, transcendental nos pequenos episódios dentro de cada episódio, alguns em que o próprio diálogo é irrelevante; e a genuinidade arrepiante de ambos protagonistas, no retrato que fora idealizado.


Fosse a série uma peça de teatro e, no fim, Frances McDormand e Richard Jenkins mereceriam 10 minutos de ovação de pé. Não é só terem sido tecnicamente perfeitos e emocionalmente massivos; é, lá está, serem tão ridiculamente fiéis ao papel, tão competentes a interpretar e a dar vida ao conceito, tão naturais nos pormenores, tão irrepreensivelmente fidedignos, que é quase criminoso dizer que aquilo não é mesmo a autobiografia de ambos e que McDormand e Jenkins eram uns pseudónimos de vida quaisquer. Podia dizer que Frances McDormand faz aqui o papel de uma vida, mas não estamos a falar de uma actriz qualquer, pelo que maior prudência é de bom tom. Com o Emmy arrecadado em Setembro, justamente por esta performance excepcional, McDormand fechou nada menos do que a sua Tríplice Coroa de Actuação, depois do Óscar por Fargo, em 1997, e do Tony Award em 2011, pelo original da Broadway Good People. Aqui, a única maneira de a descrever é dizendo que foi verdadeira demais para não ser verdade. Olive Kitteridge é uma mulher severa, realmente fechada, cáustica e pragmática, má com as pessoas e de modos perfeitamente incorrigíveis. Daquelas mulheres capazes de tornar qualquer ambiente constrangedor, qualquer situação desconfortável, e que raramente tem pejo em fazê-lo. É radioactiva e provoca no próprio espectador uma vontade de afastar-se dela, um alívio ao vê-la pelas costas. Toda essa consistência faz com que os momentos de ruptura narrativa sejam tanto mais fascinantes. A cena com o filho na cozinha, no fim do terceiro acto, toca forte por isso, pela desistência em ser implacável, desvelando o seu fundo difícil mas bom, e completando um círculo emocional muito, muito difícil de conseguir.


Já Richard Jenkins, um histórico secundário, sai definitivamente como uma das personagens de estima maior. O seu Henry é o homem de quem toda a gente gosta. Uma figura quente, carinhosa, irreprimivelmente dedicada e altruísta, verdadeiramente incansável. Na linha da cena que descrevi na introdução, não o faz, contudo, pela romantização da personagem... mas porque lhe está na pele ser assim. Sem nada em troca, sem sequer ter de ir a lado nenhum, Henry é atencioso, bondoso e dedicado, genuinamente porque essa é a sua maneira de estar no mundo. É uma personagem admirável, que nos deixa consolados sempre que se encontra em cena, como um reforço positivo do que pode ser um mundo melhor. Este texto não estaria todavia completo sem Bill Murray. Fez, tão só, a última meia hora do último episódio, mas foi exactamente a lufada de ar fresco que a série precisava para se concretizar. Num registo global cuja imagem de marca foi sempre a indução de maneiras de estar e de sentir, e portanto, muitas vezes "mudo", a dialéctica de Murray é o oásis no deserto, um raio de bonomia num dia de morte, cuidadosamente talhado para vir brilhar ao sítio certo.


Olive Kitteridge venceu no mês passado 8 Emmys, incluindo Melhor Minisérie e, nessa categoria, Melhor Realização, Argumento, Actor, Actriz e Secundário. É uma das jóias de coroa da temporada. Não será a série mais apaixonante que já viram na vida, mas sairão definitivamente mais ricos por sua causa. Isso é muito mais do que pode parecer à primeira vista.

8/10