terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Phantom Thread: a vez dos artesãos


É um dos filmes mais majestáticos do ano, porque é um modelo de marca. Um filme cuidadosamente medido, desenhado e cosido à mão pelo delicado engenho de dois artificies marcantes: Paul Thomas Anderson, na criação, e Daniel Day-Lewis, na execução. O resultado final é inteiramente indissociável de ambos, como numa dança impossível de fazer sem os dois, uma insinuação permanente, como se adivinhassem os movimentos um do outro, mesmo quando parecem estar a dançar sozinhos. Phantom Thread é um filme que deixa impressão e não deixa ninguém indiferente, e obviamente começa a ganhar logo aí. Por saber o que quer e para onde vai.

É austero, mas não assusta, é de finíssimo recorte, mas sempre capaz de nos envolver, de nos seduzir e de nos alimentar a saciedade. No universo de Paul Thomas Anderson, entrar numa sala de cinema, é como entrar num palácio, e é assim que o notável realizador californiano - que chancela mais uma suprema e incontornável nomeação ao Óscar - nos recebe no seu atelier de alta-costura, com decoro e formalidade, mas com uma capacidade omnipresente para nos fascinar pela profundidade da câmara, pelos cores e pelos filtros, pelos ângulos, os tecidos e as texturas, até pelos silêncios. É uma realização verdadeiramente em 4D, como se pudéssemos olhar e tocar em volta, e sentir-mo-nos em cada uma daquelas divisões.

Este é um exercício tão desafiante, quanto cativante, que nos exige atenção quase a tempo inteiro, comprometimento e devoção para com os detalhes, mas não é um exercício imaculado, porque como acontece quase sempre num filme que faz questão de ter a realização como protagonista, tão presente e tão saliente, é difícil até ao melhor dos maestros nunca perder a mão. Digamos que, se não perde a mão, Thomas Anderson deixa-se claramente deslumbrar, emerso no seu próprio perfeccionismo, prolongando cenas e contemplações que não precisariam de ser tão longamente concebidas, e, sobretudo, não por seu bel-prazer.

A juntar a isso, há que referir que o argumento é, pelo menos... peculiar. A caracterização das personagens e o fio condutor dão-nos pouco quase sempre, exigindo ao espectador uma carta branca para o que é compreensível, e para tudo aquilo que não é. Mas se não é de descuro que se trata, acaba por haver um certo ligeirismo psicótico, na premissa de que nada se explica, mas tudo é artisticamente justificável. Por ironia, o argumento será a única parte do filme que denota uma evidente dificuldade em falar connosco, talvez pelo esforço desproporcional (e desnecessário) em ser demasiado provocador ou inortodoxo.


Claro que depois há Sir Daniel Day-Lewis, e enquanto houver Day-Lewis há sempre esperança. Poucos predicados serão capazes de descrevê-lo, mas talvez possamos resumir que é alguém que podia ganhar um Óscar sempre que acorda. Aos 60 anos, é o melhor da actualidade, talvez seja o melhor de sempre, e pode ganhar este ano o 4º Óscar para Melhor Actor e bater... o seu próprio recorde absoluto. Com apenas seis filmes feitos nas últimas duas décadas, Day-Lewis anunciou que Phantom Thread seria a sua despedida, mas não faz sentido falar disso agora, e faz muito mais sentido que, por uma vez, ele não saiba o que está a fazer.

Phantom Thread tem uma realização metodista, muito forte e muito emblemática, mas obviamente não poderia existir sem o verdadeiro assombro que dá pelo nome do seu protagonista. Podia dizer que é uma interpretação de nível estratosférico, mas é mais correcto dizer que foi só mais um dia de escritório para Day-Lewis, um dos únicos da História que poderia incendiar um ecrã com um sorriso ou um olhar, com um gesto ou até com o seu próprio silêncio, impávido e sereno. Como o prova a sua carreira, Day-Lewis não tem pressa para nada, nem se exalta com coisa nenhuma, não vai pelo caminho mais fácil, nem definitivamente pelo mais óbvio. Day-Lewis joga no seu próprio tabuleiro, joga sozinho e ganha sempre.

Phantom Thread não é um filme unânime e não será, definitivamente, para todos os públicos, porque implica que se perda tempo e que se ceda poder, porque implica que se abdique de estar no controlo. Não é uma viagem para fazer sempre, mas quem se deixar levar, não se vai arrepender.

7.5/10

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Logan: os heróis também merecem jubileu


Haverá, necessariamente, um filme para quem cresceu com X-Men e outro para quem não o fez, como em quase todas as sagas. Ainda que sejam os dois bons, essa será, porventura, a diferença entre ver Logan como um dos marcos do ano e reconhecê-lo - se é que isso é dizer pouco - como um filme de super-heróis acima da média.

Apesar dessa não ser uma média alta, engana-se quem acha que é fácil cumpri-la. Os exemplos disso mesmo são, de resto, incontáveis. Foi sempre difícil fazer filmes substanciais de super-heróis, pela forma, pelo contexto e pela audiência. O mérito de Logan é, por isso, e desde logo, o seu grande orgulho próprio. É um filme com propriedade e com identidade, que não deve nada a ninguém, um filme com um estatuto moral notório, que fecha um ciclo sem pedir licença, nem tentar agradar. Passará muito por aí a histórica nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Adaptado (crédito, entre outros, para James Mangold, que escreveu a short story e também realiza), a primeira de sempre da Marvel para as grandes categorias e apenas a segunda jamais concedida à banda desenhada, depois do imortal Óscar póstumo ao Joker de Heath Ledger, em The Dark Knight.

Apesar da excelente atitude, se desprovido da componente emotiva, ou militante se quisermos, Logan não é um filme que surpreenda pela mensagem (nem há sequer comparação possível com os Batman de Nolan, ou até com Watchmen), nem pela abordagem, que chega a ser exageradamente gratuita, com matança desproporcional, em quantidade e em duração de cenas, o que é tanto mais discutível porque dava a sensação de que não era preciso ter ido tão ostensivamente por aí.


Para o bem e para o mal, Logan faz o caminho à sua maneira, e acaba por ter duas grandes ajudas. A primeira é o cenário distópico e o ambiente poderosamente pesado, que nos absorvem desde a primeira hora. É um filme tão árido como algumas das suas paisagens, genuinamente triste e martirizado, e isso graças a uma narrativa que sabe capitalizar o ambiente e que é, sobretudo, firme no sacrifício que lhe emprega.

O verdadeiro trunfo é, contudo, o carisma fundamental das duas personagens principais. Hugh Jackman é tão auto-destrutivo quanto inesgotável, tão intratável quanto disponível, e impressiona a forma como, mesmo contra a vontade, vai resistindo por instinto à sua inevitável degradação. Patrick Stewart é, todavia, e para mim, o maior expoente emocional do filme. Desde a brutal primeira imagem que temos dele, de ir às cordas, até à forma extraordinariamente graciosa como eterniza a sua boa vontade, a sua consciência e o seu toque redentor, mesmo por entre todo o seu tormento. É dele a minha cena favorita ("This was, without a doubt, the most perfect night I've had in a very long time") e, se dependesse de mim, teria trocado sem hesitar a nomeação para Argumento, pela indicação a Melhor Actor Secundário.

É por causa de cada um deles que, mesmo para quem assiste ali ao filme pelo filme, e não a um tributo a uma História muito maior, é impossível ficar indiferente. Logan podia ter sido muitas coisas, algumas melhores, outras bastante piores, mas no fim, foi fiel ao seu ADN, ganhou e perdeu com as suas próprias regras, e com as suas próprias garras, e é por isso que merece respeito. Quase 20 anos depois da primeira vez, Jackman e Stewart despedem-se com a sensação de dever cumprido e com o seu próprio lugar na memória e num Olimpo do tamanho da velha Mansão, aonde todos voltaremos sempre, de uma forma ou de outra.

7/10

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Darkest Hour: os Leões nunca morrem


"Lost causes are the only ones worth fighting for"

É quase impossível sermos apanhados de surpresa quando já temos expectativas muito altas. Darkest Hour é esse filme ainda melhor do que as melhores expectativas. Já era, desde o início, uma proposta irrecusável, mas o retrato do maior líder europeu do século foi mais esmagador do que isso, e transformou-se num jackpot de corpo e alma. Gary Oldman é um Óscar vivo e este Óscar merece ganhá-lo de graça, com honras de Estado. Darkest Hour são duas horas que podiam ser dadas na escola, sobre estadismo e transcendência, sobre carácter, coragem e heroísmo da vida real, mesmo se perante circunstâncias infinitamente maiores do que a vida, mesmo se numa solidão infinitamente maior do que a própria morte. É um filme abismal e arrepiante, de matar o fôlego a uma pancada de cada vez, para ver e rever, um filme cujo peso do mundo aos ombros nos verga numa vénia emocionante à resiliência da Liberdade e à grandeza dos gigantes que fazem a nossa História e a nossa Humanidade. 

Darkest Hour é uma bem-aventurança em tempos de desinspiração, uma dádiva em tempos de descrença, uma trepidante viagem pelo limbo mais trágico do século XX europeu, uma visão materializada do Inferno à nossa frente, no fio entre viver sem esperança ou morrer sem salvação, num grau de desalento e desolação que já não foi do nosso tempo, nem da nossa geração, um grau de perda no qual dificilmente poderíamos acreditar com os próprios olhos, mas que, por entre as descargas de nervos, temos a felicidade de conseguir sentir, chocados, como num ataque de pânico atrasado, como numa visão da vida a fugir-nos à frente dos olhos, perante tudo o que podíamos ter sacrificado, que é tudo o que conhecemos hoje. E neste quadro de luto, brilhantemente talhado a negro nas mãos de Joe Wright, no contexto, na forma, nos lugares e no significado, sobressai a luz incandescente de um homem singular, numa representação tão impensavelmente fascinante como ele próprio.


Este é o ponto que resume o filme. Tudo podia ter funcionado como funcionou (a realização, o argumento com conta, peso e medida de Anthony McCarten, tão dedicadamente bem escolhido e bem trabalhado, o glorioso elenco), mas nada podia ter funcionado como funcionou não fosse a obra-magna de Gary Oldman, um dos melhores da década e certamente a melhor da sua vida. Não tenho elogio maior a fazer a nenhum actor, do que dizer-lhe que foi do tamanho do próprio Churchill. Foi perfeito. E sorte a nossa, continuará a ser perfeito de todas as próximas vezes que o reencontrarmos, numa história, a Nossa, que merecerá sempre ser recontada, para podermos partilhar com ele as indecisões e as certezas, os maneirismos e os murmúrios, as palavras e a espectacular autoridade moral do Último Leão. Como escreveu um dia Manuel Alegre, "há sempre uma candeia/ dentro da própria desgraça" e "mesmo na noite mais triste/ há sempre alguém que resiste." Tal como lhe dedicou David Elrich na IndieWire, Darkest Hour é "o testemunho do poder das palavras e da sua infinita capacidade para nos inspirar", e da sua infinita capacidade para nos salvar, acrescentaria eu.


É impossível não pensar nisso, não pensar nele, e não sorrir. Quanto tamanho, quanta magnitude, quanto génio e engenho são necessários para fazer o caminho certo sozinho, com as próprias dúvidas e com todas as dúvidas dos outros, porque achamos que estamos a fazer a coisa certa. De todo o retrato portentoso que fica do filme, o que mais comove não são os murros na mesa, os berros no Gabinete de Guerra, ou os discursos inflamados ao Parlamento (pesem todos os nós na garganta); são, pelo contrário, os silêncios, o medo atroz, as hesitações, as tais falências e imperfeições que, tal como a maravilhosa Kristin Scott Thomas lhe explica a dada altura, o tornaram verdadeiramente preparado para o cargo.

São esses momentos apaixonantes e insubstituíveis com a mulher (aquele toque, aquele comprometimento, aquele confessionário, o tempero sagrado para todo o restante e imensurável temperamento), são o telefonema a Roosevelt, a incursão no metro (que por mais que seja História ficcionada, é uma cena brilhante e fidedigna na construção, genuína, do personagem) e a conversa com o Rei Jorge VI naquela meia sala, meio aposento lá de casa (menção obrigatória à capacidade de redenção de Ben Mendelsohn), para mim a cena do filme, pela dor daquela vulnerabilidade e pelas lágrimas nos olhos de ser, por uma vez, alguém que não ele a dizer que valia a pena ter esperança.

Darkest Hour é uma experiência cinematográfica, social e histórica, um bocado de tudo o que temos de melhor, da Política à Arte, da História à Filosofia e ao Humanismo, consubstanciada na ressurreição de um homem extraordinário num tempo extraordinário, maior do que a vida e do que um país, do tamanho de um século de História comum, uma história duríssima e poderosa, inspiradora e carismática, e que nos ensina a todos que, nem perante a escuridão, nem sequer perante o fim, temos o direito de desistir. Que nos ensina a todos um bocadinho do que é ser um herói com todas as letras.

9/10

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Call Me By Your Name: faz o que eu digo, não faças o que eu faço


É um dos filmes mais ambiciosos da temporada, pela forma nua e despojada como trata o exercício da descoberta sexual, no caso, quando esta rompe com os cânones estabelecidos da época, da cultura e da própria sociedade vigente. É um filme seguro e que exibe vários predicados, mas não é tão afirmativo quanto supõe, porque acaba por soçobrar no esforço em balizar uma história de amor, desejo e deslumbramento intrínseca, justificando-se demasiado, entristecendo-se demasiado e sofrendo demasiado.

Call Me By Your Name encara com descomplexo o retrato da homossexualidade tantas vezes subretratada, mas não resiste a que a narrativa lhe vá fugindo por entre os dedos dolorosamente. A proposta de responder com naturalidade a essa descoberta do primeiro amor vem, neste caso, torturar-se a si mesma, como que contrariando a própria mensagem de que o amor, em todas as suas formas de sexualidade, deve ser abraçado, explorado e orgulhado. Isso leva, no fim das contas, a que vivamos uma história temivelmente expectante, quase sempre desconfortável e agonizada (a metáfora do protagonista sempre a olhar para o relógio é, quanto a isso, sintomática), e exageradamente melancólica, que nem o remate final consegue resgatar.

A competência do filme nos mais diversos planos é, contudo, indiscutível, desde logo em termos de produção. Visualmente (norte italiano, anos 80) é idílico, com uma fotografia brilhante e uma realização, de Luca Guadagnino, deliciada na suavidade das cores e no carisma provinciano da bella Italia, impossível de recusar. A ambas, junta uma das melhores bandas sonoras do ano, cortesia de Sufjan Stevens (na corrida deste ano para Melhor Música Original), que o superiorizam, por isso, em termos estéticos (é um filme eminentemente contemplativo), por comparação à capacidade narrativa, ao timing ou à acção.

Individualmente, Timothée Chalamet é, sem dúvida, uma das revelações do ano, com chegada aos Óscares mais do que justificada. Com apenas 22 anos, assume uma interpretação poderosa, arrojada e visceral, que define o filme, mercê do compromisso e da entrega totais ao papel, e notavelmente projetadas. É ele quem reclama o palco, também porque Armie Hammer, na sua figura muito mais estilizada e previsível, não chega a surpreender, e não consegue impressionar. Por fim, nota obrigatória para Michael Stuhlbarg e para o seu monumental monólogo final. É um daqueles bocados de texto intemporais e invejáveis, que vai sempre redimir a memória que fica, especialmente para todos aqueles que não o guardem como inesquecível.

Call Me By Your Name é um filme tão honesto, quanto ousado, artisticamente comprometido e sensível, mas não resiste ao pecado capital de ter demasiada pena de si próprio, eternizando os seus próprios obstáculos e condenando-se à impossibilidade de encontrar a plenitude. Há quem diga que só o amor não cumprido pode ser romântico; esta é a história de quem refuta esse dogma, mas não o pratica o suficiente.

6/10

sábado, 27 de janeiro de 2018

The Post: o filme quase perfeito foi quase perfeito


Hanks, Streep, Spielberg. The Post anunciou-se ao mundo como uma abusiva passadeira vermelha, boa demais para ser verdade. O elenco, a matriz e a majestade da história, e o próprio timing político, faziam antever nada mais do que a tempestade perfeita e uma avalanche de troféus... que já percebemos não irá acontecer. Não se percebe é exactamente porquê.

The Post é um filme viciante e admirável, um clássico instantâneo, executado com uma mestria apaixonante do princípio ao fim. Um produto feito verdadeiramente pelo engenho dos melhores, para perdurar na memória colectiva. O esquecimento de uma Academia (que o cingiu a Melhor Filme e Melhor Actriz) tantas vezes permeável ao mainstream, é quase irónico, e pode ser entendido apenas como uma espécie de auto-censura preconceituosa, num tempo em que Hollywood vive com medo da sua própria sombra.


Num filme heterogeneamente riquíssimo, podemos começar pelo óbvio: o prazer, a sorte e o privilégio que é continuar a ter Tom Hanks e Meryl Streep a este nível, com esta ambição e este grau de exigência, ainda por cima ao mesmo tempo. Não sei exactamente qual é a tipologia de um actor que nos sorri de deslumbramento quando aparece no ecrã, mas Tom Hanks é esse actor. Um verdadeiro senador da longa-metragem, um tipo tão expansivo, natural, caloroso e icónico, que nos esquecemos que há ali interpretação e guião.


Ainda assim, o filme é feito para Streep e é nela que os olhos estão postos. Foi a sua 21ª nomeação aos Óscares, e não é difícil perceber porquê. Com ela, nunca é difícil perceber porquê. Meryl Streep é um manual de carne e osso, e continua a ser espantosa, até hoje, a sua capacidade de adaptação para responder a seja qual for a proposta que um filme lhe fizer. The Post pedia-lhe nada menos do que o assomo de ser inexperiente e Streep foi tão vulnerável como uma novata, conseguindo viver todo o filme nessa válvula despressurizadora de fragilidade e nervos, até à firmeza final. Um fascínio como sempre.

A nível individual, por entre a constelação de estrelas, impossível não destacar ainda Bob Odenkirk, cuja não indicação ao Óscar para Melhor Actor Secundário, mais do que incompreensível, é insultuosa. A robustez, o carácter e a velha escola idealista de Odenkirk materializam, em si próprio, a identidade da história e é ele uma das grandes razões porque também nós nos iludimos, apaixonamos e militamos. É absurdo que lhe soneguem isso.


Num filme que muito mais teria para dizer, nenhuma crítica estaria completa sem a vénia aos artífices. Desde logo, ao Senhor Cinema que dá pelo nome de Steven Spielberg, e à sua capacidade intemporal para garimpar bocados de História, com a batuta dos melhores contadores. Spielberg é um facilitador, um homem com inteira noção daquilo que funciona no grande ecrã e com a agilidade para fazê-lo funcionar, hoje e sempre na vanguarda. Um realizador com o altruísmo de só valorizar o que interessa, de só "aparecer" quando interessa, que por maior que seja o seu estatuto, continua a ter a hombridade e a noção de que se não dermos demasiado por ele, então sim roçou a perfeição. Alguém com quem muitos novos realizadores teriam o mundo para aprender.

Por fim, mas não por último, o argumento. Josh Singer, um velho caminhante que ajudou a escrever West Wing e que, há três anos, ganhou o Óscar pelo colossal e coincidente Spotlight, foi, tal como quase tudo em The Post, o homem certo no lugar certo. O texto é estrelar, cativante e carismático, escrito com uma paixão e um entusiasmo nítidos, como se de uma grande manchete se tratasse. Tem conteúdo, sendo extremamente elegante na acção, e tem personagens, mesmo sabendo que teria a História por protagonista. Entre todas as desconsiderações da Academia, o descrédito ao argumento será, ainda assim, a maior das suas golpadas.

The Post é a glorificação do filme que não podia falhar, uma ode ao grande jornalismo, nos tempos de cólera em que vivemos, e uma homenagem às grandes noites de cinema, um filme que só encontramos de vez em quando, que nos delicia, inspira e comove, e que não queremos que acabe. Foi uma honra, majestades.

8/10

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

The Florida Project: um diário de bordo sem nervo, sem surpresas e quase sem fim


Nomeado a Melhor Filme do Ano pelos Critics' Choice e pelos Spirit Awards, Top10 para o National Board of Review e para o American Film Institute, com nomeações nos Globos e nos Óscares. The Florida Project tinha tudo para ser um dos tesouros indies do ano. É um penoso, redundante e quase infindável exercício artístico.

O filme tem uma fotografia sublime. Isso contribui para a realização visualmente rica, com vida, sensibilidade e uma avalanche de cor (no bom sentido), numa equação que é a cartada mais forte do filme. A pequenina Brooklynn Prince (7 anos!) e a sua escalada na segunda metade do filme são a outra boa notícia, secundada por um Willem Dafoe simpático e empático, de quem é inevitável gostar (ainda que não me pareça suficiente para ser nomeado ao Óscar, muito menos para disputá-lo com o monstruoso Sam Rockwell, em Three Billboards Outside Ebbing, Missouri).

Sendo assim, como é que esta muito razoável amostra de predicados não é suficiente para, sequer, redimir a peça? Florida Project desaba numa inenarrável presunção da sua própria inocência, inenarrável porque artificial e porque literalmente impossível de narrar, e que nos atola numa dramática rotina, demasiado longa, demasiado lenta, demasiado cristalizada e entorpecedora, como uma aula ou uma missa ou um sermão que nunca acaba, completamente deslumbrado com a sua própria mancha criativa.

Florida Project é um excelente exemplo de uma boa ideia pessimamente concretizada, de um filme que sacrifica o conteúdo pela forma, equivocando-se por inteiro ao acreditar que o estilo que apresentamos é mais importante do que a história que temos para contar. Parafraseando uma frase do grande Cruyff, fazer cinema é simples, mas fazer cinema simples é do mais difícil que pode haver, e se Sean Baker é um realizador com potencial, está drasticamente longe do que se pede a um argumentista (texto coassinado por Chris Bergoch).

Costumo dizer que sabemos se um filme é bom, se reconhecemos no fim que o veríamos uma segunda vez. Digamos que é extenuante acabar Florida Project à primeira.

4/10

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

I, Tonya: o que fomos e o que podíamos ter sido


É um dos bons registos do ano, um filme que apesar do carácter ligeiro e popular, se dá por bem empregue, e onde se destacam mais duas belas interpretações femininas da temporada.

I, Tonya conta a história da Tonya Harding, uma celebridade do desporto adolescente americano do início da década de 90, que foi vice-campeã do Mundo de patinagem artística, antes de cair em desgraça com o envolvimento, até hoje dúbio, num ataque à sua maior rival. Trata-se de uma personagem rica e bastante cativante, com escala a todos os níveis, seja em termos familiares, de personalidade ou mesmo afectivos. É uma figura que vai ao âmago do interior americano, ao qual faz uma homenagem, com modos singelos e humildes que valorizam a agrura desse património humano de uma forma, se nem sempre bonita, onde nem sempre existe beleza, pelo menos garantidamente honesta, respeitosa e redentora, na sua própria figura.

É um filme que se enraíza tanto na genuinidade da personagem, que porventura perde foco, ambição e noção do seu possível alcance. Tivesse, I, Tonya, investido num tom mais pesado, mais afectado e menos folclórico, teria sem dúvida apontado a patamares mais altos, porque tinha capacidade para isso. Numa curiosa analogia com a própria protagonista sobre potencial perdido, o rumo criativo acaba por modesto, e fica-se por um meio termo entre humor e crime que, no fim de contas, acaba efectivamente por lhe cortar as asas.

Quem pode dizer, com toda a propriedade, que contraria esse derrotismo é, pelo contrário, a própria Margot Robbie, que não só não vulgariza uma personagem quando era fácil fazê-lo, como assina a melhor performance da carreira, rematada com um crescendo final surpreendente, que lhe valerá certamente a merecida nomeação ao Óscar.


Com o Óscar quase garantido está, por sua vez, Allison Janey, a memorável CJ Cregg de West Wing, que depois da mala cheia de emmys, garantida pela melhor série de sempre, está quase, quase a chegar à Terra Prometida. É um papel distante do que lhe conhecemos, mas é um daqueles diamantes em bruto para as audiências. Mesmo a pedir um bocadinho mais de exposição e de preponderância, a sua aspereza inescrupulosa e ostensiva marca o filme e é como uma permanente ferida aberta à qual nunca paramos de reagir. Tem a passadeira estendida como Melhor Secundária do ano. Em termos individuais, uma última nota ao papel pequeno em tamanho, mas enorme a definir a pulsação do filme, do sempre extraordinário Bobby Cannavale.

I, Tonya entretém-se consigo próprio, às vezes até de forma pouco ortodoxa, e, se calhar também por isso, mantém-nos curiosos a tempo inteiro. No fim, cumpre inteiramente o seu papel, mas talvez não cumpra o seu inteiro potencial.

7/10