sexta-feira, 11 de junho de 2010

Moon


Moon é um filme redundante e superficial. Alimenta-se duma certa poesia inerente ao conceito que ilustra, mas nunca consegue deixar de ser um filme fechado sobre si, pouco apelativo visualmente, e pouco criativo nas premissas, e no contexto tecnológico e futurista que aborda. Tem períodos estranhos, e tem pouco de cativante, apesar de, a partir lá do meio (que a primeira metade é francamente penosa), ter um ou outro momento mais polido a nível emocional. A acção, parada por natureza, é abrupta nos modos, quer ao tentar mostrar como consciencializado algo que nunca o seria com tal ligeireza, quer, paralelamente, ao não explorar o dilema moral das questões que levanta. O fim é só mais um trecho pouco imaginativo, e completa a sensação de que muita coisa ali parece ter sido feita à pressa, ou subjugada por questões estéticas.

Sam Rockwell (em grande no The Green Mile e em Frost/Nixon, vergado no mais recente Iron Man 2) não tem um mau papel, mas teria convindo mais expressividade e mais nervo, a uma performance que é praticamente um solo.

Sem ser lixo, o facto de Moon só durar 1h30 será uma das suas maiores vantagens.

Ke Nako! (se eu não fizesse um título com isto, não tinha moral para tecer uma palavra sobre o Mundial)


Slap Bet #1

África do Sul - México, 1-3

Uruguai - França, 1-1

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ár-rren-ti-na (ou como torcer por Maradona é, simplesmente, uma questão de fé)

"Argentina, Argentina. Vinte anos depois, El Pibe tem nas suas mãos a hipótese de esquecer as lágrimas da final perdida contra a Alemanha no Mundial de 90. O tri, que todos os portugueses bons chefes de família esperam, está a um passo curto que se dança sobre a corda da, digamos, pouca apetência de Maradona para o cargo de treinador. Compensa com o génio estapafúrdio de um louco, as suas tiradas e a fé ilimitada na vontade e no talento dos jogadores que dirige. Continua a ser maior do que aquilo que faz, bigger than life, como se costuma dizer. O que Messi nunca será. O puto que faz anúncios a batatas fritas, dono de um carisma próximo de zero (na escala Pedro Granger), tem de ser mesmo muito, muito bom para ficar na história. Ser melhor do que Maradona pode não chegar, e esta é primeira prova de fogo: o Mundial jogado longe da cama quentinha do Barça e dos magníficos centro-campistas da cantera (Xavi, Iniesta, Pedro."

tudo via Arrastão

Isto é só para assustar, a partir de amanhã somos todos civilizados outra vez

"Um grupo de jornalistas portugueses e espanhóis que cobrem o Mundial da África do Sul foi vítima de um assalto e teve roubados seus computadores e câmeras por um grupo de homens armados em seu hotel nos arredores de Johannesburgo, anunciou polícia." (afp)

"A polícia sul-africana revelou esta quinta-feira que houve um roubo no hotel da selecção da Grécia, nomeadamente no quarto de três jogadores, em Umhlanga." (a bola)

"Quatro jornalistas chineses foram assaltados na África do Sul, segundo informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, citado pela agência Efe." (maisfutebol)

A masterpiece


Shutter Island é um dos filmes mais extraordinários que já vi. É tão perturbadoramente bom, que, mesmo tendo acabado de vê-lo, é-me difícil escrever sobre ele. Shutter Island rompe quase todos os cânones de densidade, de complexidade e de nervo de um thriller, de um drama, ou do cinema em geral, sendo uma obra monstruosa, à qual não falta nada, desde os mais inesperados twists and turns, e deus sabe como é difícil eles serem tão perfeitos, a um argumento verdadeiramente de tirar o fôlego, incrível (baseado no livro dum senhor chamado Dennis Lehane, também autor, imagine-se, do extraordinário Mystic River), aos quais se juntam a realização do Scorsese, esmagadora em todos os pormenores, o show do Di Caprio (talvez, hoje, o melhor do mundo), e até os 5 minutos de cena do Jackie Haley (o Rorschach de Watchmen), numa lista que podia continuar e continuar.

Shutter Island é um filme sobre a mente humana. Fala de traumas, e de como eles nos podem perseguir a todos, independentemente de quem formos, para nos ultrapassarem e nos vergarem, inapelavelmente. Trata o perturbador mundo da psiquiatria, para abordar a realidade e tudo o que nos ultrapassa, e, ainda assim, fala sobre lucidez, segundos de lucidez, sobre o âmago, e sobre o extremo sacrifício que leva às verdadeiras vitórias. É um filme sobre o que somos, sobre o que sabemos que somos, e sobre tudo o que não podemos dominar. E, acima de tudo, sobre consciência. Mesmo que de uma centelha, sobre consciência.

Provavelmente não dará para perceber muito do que é Shutter Island pelo que acabei de escrever, mas nem eu terei percebido, ainda, o verdadeiro alcance do filme de Scorsese. Garanto, no entanto, que vê-lo, será, muito provavelmente, a melhor opção cinematográfica que vão tomar este ano. Mais do que como um ensaio moral ou reflexivo, pela verdadeira obra-de-arte que é.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Considerações divagantes sobre toda uma parafernália que não me vai dar um bom estágio

Podia estar a escrever sobre assistência de realização ou sobre visualização de informação 3D? Poder, podia. Mas o Mundial tem mais piada:

Portugal
Pese a grosseira falta de carisma do Queiroz, pese as hesitações, as más opções e a falta de agilidade no banco, é daquelas coisas em que é difícil ser razoável. Com todas as fraquezas, não consigo deixar de acreditar que as coisas vão correr bem na África do Sul, mesmo contra a maioria das expectativas. Sendo rigoroso o mais possível, digo que há um objectivo essencial: passar a fase de grupos. Menos do que isso será um falhanço rotundo e, mesmo incluídos no grupo da morte, é algo em relação ao qual não há nada a contemporizar. Depois disso, é toda uma nova realidade, com a eliminação directa e os jogos que chegam à pele. Em princípio, admitindo que não ganhamos o grupo ao Brasil, o adversário mais provável nos oitavos é a Espanha, e, contra a melhor selecção do Mundo, não somos favoritos. É onde o jogo vai entrar na dimensão mais emocional e onde, lucidamente, é injusto exigir mais. Sem que isso seja sinónimo de pensar pequeno, uma passagem aos quartos já seria sinónimo de um grande Mundial.

Os Favoritos
Não fosse o histórico passado derrotista, e os favoritos claros seriam a Espanha e a Inglaterra. Os campeões da Europa e a nova selecção de Capello foram quem teve os últimos 2 anos mais consistentes, quem jogou mais e melhor, e quem chega à África do Sul mais cheio de si. Ainda assim, é deslocado da realidade não incluir no lote a Alemanha, a Itália e o Brasil. Os dois primeiros, porque estão condenados a ter resultados (a Alemanha, apesar das lesões, chega saudável, depois duma qualificação fantástica; a Itália, mesmo com a má preparação, tem o velho Lippi de volta ao banco), e o Brasil porque, apesar da perturbadora falta de individualidades (em relação a 2006 não estão Ronaldo, Adriano e Ronaldinho...), surge como uma equipa muito equilibrada, disciplinada e coesa mentalmente (mérito de Dunga).

As Desilusões
Se não puder ser para Portugal, gostava muito que fosse para a Argentina e para Maradona. Mas, tal como denunciam opções como a exclusão de Zanetti e Cambiasso, e apesar de ser, individualmente, a selecção mais rica do Mundial (a uma distância abissal o melhor ataque), não me parece que a alviceleste tenha nada parecido a estofo de campeã. A qualificação falou por si e, apesar da qualidade individual e da alma de Maradona, o fôlego parece-me curto. A favor está contudo, o calendário: até às meias, o emparelhamento é com o grupo encabeçado pela França, pelo que o caminho está muito pouco dificultado. E também, verdade seja dita, não foi com o método de Bielsa e Pekerman, nos últimos dois Mundiais, que houve resultados.

A França, pese o que já fez Domenech em condições parecidas, parece uma simples crónica de morte anunciada. A selecção chega gasta (Henry, Ribéry, o play-off com a Irlanda) e já a própria preparação soa a morte lenta. Duvido que dê sequer para ganhar o grupo.

Desilusão, se é que lhe podemos chamar isso, também me parece ir ser a maior participação africana da História, no primeiro Mundial africano da História. A Argélia e a África do Sul são muito desconfiáveis (pese os bons resultados que Parreira tem conseguido na preparação), os históricos Nigéria (que tem o maior potencial de todos) e Camarões autênticos exércitos desgovernados, e a Costa do Marfim não é uma selecção com sorte. Talvez o Gana, mas o grupo (Alemanha, Sérvia, Austrália) é muito competitivo, e a orfandade de Essien não ajuda. Parece-me que caem todos à primeira.

As Apostas
Tenho expectativas tremendas para o Chile. A preparação tem sido fantástica, e chega-se com grande espírito ao Mundial. O ataque é um must (Mark González, Valdivia, Suazo, Alexis Sanchéz, até um transfigurado Mati Fernández) e, no banco, está um velho caminhante argentino, um ancião das Selecções, Marcelo Bielsa. Acredito no sucesso, ainda que, a passar, apanhe Brasil ou Portugal.

Também acho que o México vai fazer boa figura. É uma equipa com mentalidade europeia, tradicionalmente muito equilibrada, e com vários miúdos de valor (Gio, Vela, Guardado).

A Holanda nem é uma grande aposta, nem uma desilusão. Mas não está nos favoritos, como se aventa por aí. É uma Selecção que, à nossa imagem, tem grandes jogadores, que, num dia bom, pode ganhar a qualquer um, mas que está condenada a ir para o espectáculo. Merece todo o meu respeito, e acredito que pode eliminar algum dos nomes grandes.

Pessoalmente, ainda que não lhe faça muita fé, também gostava que o Uruguai desse cartas, que é outra das selecções que admiro e que quase nunca anda por aí. Chega à África do Sul com o monstro Forlán a ter a UEFA no bolso, e com o Suárez a ter marcado 35 golos no Ajax. Mas, apesar da crise francesa, o grupo não é fácil para quem é quase um rookie. Numa de long shots, também gostava de ver a Nigéria e o seu ataque supersónico (Martins, Obinna, Uche, Utaka, Odemwingie) a fazer qualquer coisa. Mas é tudo muito improvável.

Final Four
Aposto num Argentina-Inglaterra e num Holanda-Brasil. Inglaterra-Brasil para a final. E ganha o Capello.